A desinformação contra Israel tem autores identificáveis: o Hamas e seu aparato de mídia, o Hezbollah, o Irã e redes de contas falsas. A essas fontes somam-se ativistas e veículos que repetem sem verificar. O Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, é a origem de alegações não verificadas, como a acusação sobre o hospital al-Ahli, e de números que exigem avaliação metodológica. As técnicas documentadas se repetem: imagens de outras guerras, videogame, IA e acusações publicadas antes da apuração. Circulam rápido, muitas vezes antes da checagem. A correção chega depois e pode alcançar menos gente.
Quem produz a desinformação contra Israel?
A desinformação contra Israel tem autores com nome. O Hamas está entre os atores recorrentes identificados e mantém um aparato de guerra psicológica. O Instituto Internacional de Contraterrorismo (ICT), da Universidade Reichman, descreveu em 12 de dezembro de 2023 uma campanha do grupo com notícias falsas, desinformação e mensagens de recrutamento no Twitter, Instagram, TikTok e outras plataformas.
O Irã e o Hezbollah aparecem entre os atores recorrentes no estudo Influence Under Fire, do Institute for Global Politics da Universidade Columbia (2026). O estudo mapeou 291 operações de influência e cibernéticas. Ele analisa operações de vários lados, inclusive de Israel, e aponta Hamas, Irã e Israel como os atores mais recorrentes. Segundo o estudo, só em outubro de 2023 houve 38 campanhas on-line e quase 40 mil publicações. Ainda segundo a Columbia, o Irã usou contas inautênticas, personificação de pessoas e instituições e atividade cibernética ligada a atores do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). O DFRLab, do Atlantic Council, documentou contas iranianas que promoveram hashtags anti-Israel depois do início da guerra.
Outra coisa são as fontes de alegações não verificadas. O Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, divulgou a acusação de que Israel atingiu o hospital al-Ahli em 17 de outubro de 2023, acusação que nunca foi comprovada e cuja autoria exata segue em disputa técnica. Também divulga números que a imprensa mundial repete e que exigem avaliação metodológica. Um número não auditado não é, por si só, prova de fraude. Veja Números que ninguém verificou.
Por fim, há redes de propaganda, ativistas e veículos que repetem a acusação sem checar. Esta página adota uma ressalva: nem todo conteúdo falso vem de um governo ou de uma operação coordenada. A Reuters registrou que parte da circulação vinha de confusão e de compartilhamento sem verificação. Atribuir cada peça a um autor exige prova específica.
Quais técnicas se repetem?
As técnicas são poucas e se repetem a cada guerra. Algumas são falsificações verificadas; outras são riscos de informação ainda não verificada. Cada uma tem uma página própria:
- Imagem de outra guerra ou de outro país. A Reuters verificou um vídeo de paraquedistas egípcios sobre a Academia Militar do Cairo apresentado como a incursão do Hamas. Verificou também um vídeo de ataque em Gaza de maio de 2023 que circulou como se fosse de outubro. Veja Foto ou vídeo de outra guerra.
- Videogame e inteligência artificial. A agência BOOM Fact Check mostrou que vídeos de helicópteros israelenses derrubados e de tanques destruídos vinham do simulador Arma 3. A NewsGuard constatou que uma foto de soldados das FDI com bandeira nazista, espalhada por usuários pró-Rússia, era montagem: a original, de junho de 2023, mostrava a bandeira da Brigada Golani e a de Israel. O Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS) analisou uma imagem de bebê nos escombros de Gaza, gerada por IA, que foi parar em cartazes e na capa do jornal francês Libération antes de sua origem sintética ser comprovada.
- Cenas montadas para a câmera. Cada caso precisa ser demonstrado individualmente; o material não comprova encenação sistemática de vítimas. Veja Cenas montadas.
- Números sem verificação. Falta de auditoria independente não equivale a fraude: o problema é repetir um número como fato sem atribuir a fonte nem avaliar a metodologia. Veja Números que ninguém verificou.
- O primeiro título, que acusa Israel antes de qualquer apuração. Veja O primeiro título.
- Cortes, legendas trocadas e traduções inventadas. Veja Cortes, legendas e traduções.
- Palavras invertidas, como genocídio, apartheid, colonialismo e “resistência”. Veja Palavras invertidas e o mito “O 7 de outubro foi resistência legítima”.
- Libelos antigos com roupa nova. Veja Libelos antigos.
- Apagar a história judaica. Veja Apagar a história judaica e o mito sobre Al-Aqsa e o Monte do Templo.
- Escudos humanos. O Hamas usa hospitais e escolas e depois mostra as vítimas. Veja Escudos humanos.
- Negar ou inverter o 7 de outubro. Veja Negar o 7 de outubro e o mito da foto do bebê queimado “feita com IA”.
- Contas falsas e redes coordenadas. O ICT documentou centenas de contas falsas operando em espaços digitais israelenses depois de 7 de outubro, numa rede estimada em milhares. O INSS mapeou a operação russa Doppelganger: na noite de 20 para 21 de novembro de 2023, mais de 2.000 contas no X publicaram quase 3.000 links para matérias falsas em clones de sites de notícias. Veja Como a mentira se espalha.
Por que a mentira funciona?
A mentira funciona porque chega primeiro. Quatro fatores ajudam a explicar isso.
Velocidade. Um vídeo falso leva segundos para ser postado. A verificação leva horas ou dias. A Reuters registrou que milhares de pessoas assistiram a imagens sem relação com a guerra, como paraquedistas egípcios no Cairo e um show de Bruno Mars gravado em Tel Aviv três dias antes de 7 de outubro.
Emoção. Imagens emocionalmente fortes, de crianças, de destruição e de luto, podem favorecer compartilhamentos sem verificação. O material registra a ampla circulação da imagem de bebê gerada por IA analisada pelo INSS, mas não estabelece a causa de seu alcance.
Imagens. Quem vê uma foto acredita que viu um fato. Mas a foto pode ser real e a legenda falsa.
O primeiro título. A primeira versão pode influenciar a percepção do público, mas os casos citados não medem a persistência desse efeito após as correções.
As plataformas ampliam o efeito. Segundo a Cyabra, 25% dos perfis que espalhavam narrativas pró-Hamas eram contas falsas. A NewsGuard e a ProPublica apontaram que 74% das alegações falsas ou não comprovadas mais virais no X foram impulsionadas por contas pagas com selo azul.
A técnica é antiga. O que mudou foi a escala.
Por que a correção pode alcançar menos pessoas?
A correção chega depois do erro. Muitas vezes o erro sai na manchete, e a emenda fica numa nota ou numa página de arquivo de correções.
A BBC é um exemplo documentado. A emissora publicou que cerca de 1.300 pessoas foram mortas no ataque do Hamas de 7 de outubro. Depois corrigiu para cerca de 1.200: tinha contado de novo pessoas que morreram em hospitais e que já estavam incluídas na cifra oficial. Uma das reportagens foi publicada em 20 de janeiro de 2024 e corrigida em 13 de fevereiro. A cifra errada ficou no ar por semanas.
O New York Times deu destaque, em 17 de outubro de 2023, à acusação de que Israel bombardeara o hospital al-Ahli. No dia 18, corrigiu a descrição de um vídeo e registrou que o hospital não fora destruído: a área mais danificada era o estacionamento.
Esses casos comprovam erros e correções. Não medem o alcance comparativo da notícia original e da correção, nem quantos usuários apagam o que compartilharam.
Quais casos viraram exemplo?
O caso mais citado é o do hospital al-Ahli, em 17 de outubro de 2023. O Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, acusou Israel na cobertura inicial da explosão, e a acusação ganhou manchetes antes da verificação. As FDI apresentaram evidências de que a explosão foi causada por um foguete falho da Jihad Islâmica. Em 22 de outubro, o New York Times publicou uma análise segundo a qual o Hamas não havia apresentado evidência suficiente de que Israel atingira o hospital. A mesma análise apontou que as características do local eram mais compatíveis com um foguete palestino.
A BBC pediu desculpas porque um correspondente especulou ao vivo sobre a causa. A emissora registrou que ele não chegou a afirmar que se tratava de um ataque israelense. Por honestidade: a autoria exata do projétil e o número de mortos ainda são objeto de disputa técnica, e não há sentença que encerre a questão. A acusação contra Israel, porém, nunca foi comprovada. Veja O hospital al-Ahli.
Temas relacionados:
- Muhammad al-Durrah (2000)
- O “massacre de Jenin” que não aconteceu (2002)
- Líbano 2006: as fotos manipuladas da Reuters e a encenação de Qana
- O libelo dos órgãos no Aftonbladet (2009)
- Abbas no Parlamento Europeu e a acusação de envenenar a água (2016)
- Abbas, Hitler e o Holocausto (2023)
- Os fotógrafos que estavam com o Hamas no 7 de outubro
- Funcionários da UNRWA no 7 de outubro
- Quando a ONU refez a conta de mulheres e crianças mortas (2024)
- A criança desnutrida da capa (2025)
O que as evidências provam e o que ainda não provam?
As evidências provam que existe uma campanha real, com autores conhecidos e técnicas repetidas. Também têm limites. Dizer onde estão esses limites torna a denúncia mais forte.
Está documentado:
- O Hamas opera guerra psicológica com notícias falsas, segundo o ICT.
- O Irã usou contas inautênticas e personificação, segundo a Columbia e o DFRLab.
- Redes de milhares de contas falsas atuaram depois de 7 de outubro, segundo o ICT.
- Imagens antigas, de outros países, de videogame ou geradas por IA circularam como se fossem desta guerra, segundo a Reuters, a BOOM e a NewsGuard.
Não está provado:
- Que cada vídeo falso tenha sido feito pelo Hamas, pelo Hezbollah ou pelo Irã.
- Que toda conta que repete propaganda seja um robô.
Por isso, esta página adota um critério: atribuir uma operação a um Estado exige evidência técnica específica.
A desinformação também circula em sentido oposto. A Reuters verificou uma imagem de multidões com bandeiras de Israel gerada por IA. Um vídeo de 2017 sobre maquiagem num set de documentário foi usado para alegar que vítimas em Gaza seriam atores. Esta página condena esse método venha de onde vier. O critério é o mesmo: prova antes de acusação.
O sofrimento de civis em Gaza é real. Quem começou a guerra foi o Hamas, em 7 de outubro de 2023. Naquele dia, terroristas do Hamas e de outros grupos mataram mais de 1.200 pessoas em Israel e levaram 251 reféns. E é o Hamas que usa a população como escudo.
O que fazer antes de compartilhar?
Antes de compartilhar, espere e verifique. Versões iniciais de notícias de guerra podem conter informações incompletas ou não verificadas; procure confirmação e acompanhe as atualizações.
- Espere. Em 17 de outubro de 2023, quem esperou um dia viu o New York Times corrigir sua cobertura do al-Ahli.
- Procure a origem. Faça uma busca reversa da imagem. Foi assim que a NewsGuard achou a foto original dos soldados da Golani.
- Desconfie de números redondos e instantâneos, sobretudo quando a única fonte é o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas.
- Leia além do título. Compare o que o texto sustenta com o que a manchete promete.
- Confira legendas e traduções de vídeos em árabe ou hebraico.
- Procure a correção. Veículos sérios mantêm páginas de correções, como a da BBC.
- Se errou, corrija em público. A correção só chega longe se quem compartilhou o erro também compartilhar a emenda.
O caminho completo de uma mentira, da primeira postagem à manchete, está em Como a mentira se espalha.
























