Falso. A acusação nasceu de um print do detector automático “AI or Not”, que errou. A própria empresa corrigiu o resultado como falso positivo, e o perito Hany Farid, de Berkeley, não encontrou nenhum sinal de IA na foto publicada por Israel após o massacre do Hamas em 7 de outubro de 2023.
De onde veio a acusação de que a foto seria IA?
Em outubro de 2023, depois do massacre cometido pelo Hamas em 7 de outubro, a conta do governo de Israel e a conta do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu publicaram a foto de um bebê queimado. O objetivo era documentar as atrocidades do ataque.
Usuários do X submeteram a imagem ao detector automático “AI or Not”. A ferramenta classificou a foto como “gerada por IA”. A captura de tela desse resultado circulou em massa.
Influenciadores como Jackson Hinkle usaram o print para acusar Israel e o comentarista Ben Shapiro de espalhar uma “imagem falsa”. A NewsGuard, organização que monitora desinformação, registrou essa publicação como uma alegação falsa. Ela observou que não há evidência de que a foto, compartilhada primeiro pelo governo israelense, tenha sido gerada por IA.
A confusão cresceu porque circulou também outra imagem de um corpo carbonizado. Especialistas identificaram essa segunda imagem como produzida ou alterada por IA. Ela não é a foto publicada por Israel, mas muita gente misturou os dois casos.
O que a empresa do “AI or Not” disse depois?
A própria empresa voltou atrás. Ela tratou o resultado como falso positivo, provavelmente ligado à compressão do arquivo e às áreas borradas da imagem. A empresa afirmou que não podia sustentar a conclusão de que a foto era artificial.
O INSS (Institute for National Security Studies), instituto israelense de estudos de segurança, registrou o episódio num estudo sobre deep fakes e guerra. Segundo o instituto, a empresa “emitiu um esclarecimento, afirmando que a imagem era genuína”, e o X removeu o aviso de que a autenticidade estava em disputa.
O INSS também apontou o dano que ficou. A correção chegou depois que o print já tinha corrido o mundo. O erro do software prejudicou a diplomacia pública de Israel e serviu de argumento para quem nega que o massacre de 7 de outubro tenha acontecido.
O que diz a perícia independente sobre a foto?
Hany Farid, professor da Escola de Informação da Universidade da Califórnia em Berkeley, é uma das principais referências em perícia de imagens digitais. Ele examinou a foto e disse ao site 404 Media que a imagem “não mostra nenhum sinal de ter sido criada por IA”.
Farid citou três pontos:
- a consistência estrutural da imagem;
- as sombras fisicamente corretas;
- a ausência dos artefatos típicos de modelos generativos.
Por isso, segundo Farid, nada indica que a foto tenha sido gerada por IA, nem mesmo em parte. Outros classificadores também apontaram a imagem como real.
A checagem do jornal francês Libération, na seção CheckNews, chegou à mesma conclusão: não existe prova de que a foto tenha sido gerada por IA. O texto destacou a correção feita pela própria ferramenta.
A foto é uma montagem feita sobre a imagem de um cachorro?
Não. Uma versão derivada da acusação dizia que a foto do bebê seria uma montagem sobre a imagem de um cachorro resgatado.
A organização de checagem Provereno investigou essa versão e encontrou o contrário. A imagem do cachorro é que era a montagem, fabricada para desacreditar o registro real. A foto do bebê é a original.
Por que um print de detector não prova nada?
Detectores automáticos de IA não autenticam imagens com certeza. O próprio INSS lembra esse limite. Compressão, recortes e áreas borradas podem enganar o algoritmo, como aconteceu nesse caso.
A guerra de fato teve muitas imagens falsas criadas com IA, inclusive de crianças. A agência AP documentou esse fenômeno. Isso torna plausível, para muita gente, a ideia de que “tudo pode ser IA”.
Um resultado de aplicativo, porém, não substitui a análise de um perito. Neste caso, a própria ferramenta reconheceu o erro. Usar um falso positivo corrigido para chamar de falsa a foto de uma vítima do Hamas é desinformação.
Resposta pronta para copiar
Falso. O detector “AI or Not” deu falso positivo e a própria empresa corrigiu. O perito Hany Farid (Berkeley) não viu nenhum sinal de IA na foto. Print de aplicativo não é perícia. O massacre do Hamas em 7 de outubro não vira “fake” por causa de um erro de software.Até 280 caracteres, para responder nas redes
Em mais detalhe
O caso em três passos
1. O print. Em outubro de 2023, depois do massacre do Hamas em 7 de outubro, a conta do governo de Israel e a do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu publicaram a foto de um bebê queimado. Usuários passaram a imagem pelo detector “AI or Not”, que a classificou como “gerada por IA”. O print viralizou e foi usado por influenciadores como Jackson Hinkle para acusar Israel e o comentarista Ben Shapiro de divulgar uma imagem falsa.
2. A correção. A empresa do “AI or Not” tratou o resultado como falso positivo, provavelmente causado pela compressão e pelas áreas borradas da imagem. Segundo o INSS, instituto israelense de estudos de segurança, a empresa esclareceu que a imagem é genuína. O X retirou o aviso de conteúdo contestado.
3. O perito. Hany Farid, de Berkeley, examinou o arquivo e disse que a foto “não mostra nenhum sinal de ter sido criada por IA”. Ele citou a consistência estrutural, as sombras corretas e a ausência de artefatos. Outros classificadores também apontaram a imagem como real. A checagem do Libération concluiu que não há prova de geração por IA.
A versão do cachorro
A alegação de que a foto seria montagem sobre a imagem de um cachorro foi checada pela Provereno. A montagem era a imagem do cachorro.
O que a perícia confirma e o que não confirma
A perícia técnica atesta que a imagem é uma fotografia, não um produto de IA. Ela não identifica sozinha a vítima nem confirma todos os detalhes da legenda. Mas a acusação que circula é outra: a de que Israel teria fabricado a foto com IA. Essa acusação é falsa.
Por que isso importa
O INSS registrou o episódio como exemplo de como uma informação errada causa dano mesmo depois de corrigida. O print continuou circulando entre pessoas que negam o massacre de 7 de outubro. Duvidar de imagens em tempo de guerra é saudável. Usar um erro de software já corrigido para negar uma atrocidade do Hamas não é.
- Não republique a foto do bebê. Use só texto ou uma imagem desfocada.
- Não diga que a foto prova sozinha a identidade da vítima, o local ou todos os detalhes da legenda. Ela foi atestada como imagem real, não como dossiê completo.
- Não misture a autenticidade desta foto com números não confirmados do início da guerra. São questões diferentes.
- Não confunda esta foto com a imagem de um homem carregando crianças nos escombros, checada pela AFP. É outro caso.
- Não confunda esta foto com a outra imagem de corpo carbonizado que de fato foi produzida ou alterada por IA.
- Não acuse de má-fé quem compartilhou o print sem saber da correção. Responda com os fatos.
- Não generalize palestinos ou muçulmanos. O alvo da resposta é a desinformação e o Hamas, autor do massacre.
Perguntas frequentes
O detector “AI or Not” confirmou que a foto era falsa?
Algum especialista encontrou sinais de IA na foto?
A foto do bebê foi feita a partir da imagem de um cachorro?
- INSS – Deep fakes e a guerra: a correção do “AI or Not” e o dano à diplomacia pública de Israel
- 404 Media – Detectores de IA usados para desacreditar horrores reais da guerra (entrevista com Hany Farid)
- Libération/CheckNews – Não há prova de que a foto do bebê queimado tenha sido gerada por IA
- Provereno – A versão do “cachorro resgatado” é falsa
- PetaPixel – Aplicativo de detecção de IA no centro da polêmica
- Interesting Engineering – Especialista desmente a ferramenta que chamou a foto de falsa
- AP – Deepfakes e desinformação com IA na guerra entre Israel e o Hamas (contexto geral)



