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Xilogravura da Crônica de Nuremberg (1493) que retrata judeus extraindo o sangue de uma criança. É o libelo de sangue que a acusação de roubo de órgãos repete.
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Como se fabrica uma mentira · Caso documentado

O libelo dos órgãos: como o Aftonbladet acusou Israel sem provas (2009)

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Foto: Xilogravura da Crônica de Nuremberg (1493) que retrata judeus extraindo o sangue de uma criança. É o libelo de sangue que a acusação de roubo de órgãos repete.. Hartmann Schedel · Public domain
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Em 17 de agosto de 2009, o jornal sueco Aftonbladet publicou um artigo de Donald Boström que insinuava que soldados israelenses matavam palestinos para retirar seus órgãos. O texto não trazia prova, e o próprio autor admitiu depois não ter evidência. Israel denunciou o artigo como libelo de sangue. O caso real do Instituto Abu Kabir, nos anos 1990, foi outro: retirada de tecidos de cadáveres sem consentimento, de israelenses, palestinos e estrangeiros, admitida e encerrada. O Hamas e redes de propaganda voltaram a usar a acusação em 2023.

Quando
17 de agosto de 2009. A acusação voltou a circular em 2010, 2015 e 2023 e 2024.
Onde
Aftonbladet, o jornal de maior circulação da Suécia, em Estocolmo. Depois, em Gaza, em fóruns internacionais e nas redes sociais.
O que se disse
Que jovens palestinos mortos por soldados israelenses eram devolvidos às famílias abertos e sem órgãos.
Quem espalhou
Donald Boström, no Aftonbladet. Em 2023, o Escritório de Mídia do governo do Hamas em Gaza e autoridades de saúde de Gaza controladas pelo Hamas, amplificados por redes de propaganda e perfis com grande audiência.
O que se provou
Nenhuma prova de que soldados israelenses matassem pessoas para retirar órgãos. O caso real foi outro: no Instituto Abu Kabir, nos anos 1990, tecidos foram retirados de cadáveres sem consentimento, de israelenses, palestinos e estrangeiros.
Quem corrigiu
O governo de Israel desmentiu o artigo. O Aftonbladet admitiu não ter prova. Boström admitiu não ter evidência. O Guardian corrigiu uma manchete que distorcia o caso Abu Kabir.
A correção chegou até onde?
Limitado. O jornal manteve a defesa da publicação, o governo sueco recusou condená-la e o Hamas reciclou a acusação em 2023.

De onde vem a ideia de que judeus matam outros para usar seus corpos?

Ela vem do libelo de sangue, uma das calúnias antissemitas mais antigas da história. Surgida na Idade Média ocidental, a acusação dizia que judeus sequestravam e matavam crianças cristãs para usar o sangue delas em rituais ou no preparo da matzá de Pessach.

A acusação nunca teve base. Ela contraria a própria lei judaica: as regras alimentares da kashrut proíbem com rigor o consumo de sangue. Mesmo assim, serviu de pretexto, durante séculos, para julgamentos sob tortura, massacres e expulsões de comunidades inteiras. O nazismo a ressuscitou.

O vídeo da CONIB abaixo mostra o rastro de violência que essa mentira deixou, de Norwich a Kielce, e suas versões modernas, do jornal nazista Der Stürmer ao QAnon.

Historiadores observam que o enredo sofreu uma mutação: a velha história de judeus que extraem sangue de não judeus passou a ser contada contra o Estado de Israel e contra as FDI, agora com órgãos no lugar do sangue. A estrutura é a mesma: uma acusação macabra, contada em tom de denúncia, que se espalha mais rápido do que qualquer desmentido.

O libelo seguia vivo na região antes de 2009. Em 2007, Raed Salah, líder do ramo norte do Movimento Islâmico em Israel, citou em discurso a velha acusação de que judeus europeus usavam sangue de crianças para fazer pão. A mesma família de mentiras aparece em outros casos, como a acusação de envenenar a água feita por Mahmoud Abbas no Parlamento Europeu. Veja também libelos antigos com roupa nova.

Xilogravura da Crônica de Nuremberg (1493) que retrata judeus extraindo o sangue de uma criança. É o libelo de sangue que a acusação de roubo de órgãos repete.
Xilogravura da Crônica de Nuremberg (1493) que retrata judeus extraindo o sangue de uma criança. É o libelo de sangue que a acusação de roubo de órgãos repete.Imagem: Hartmann Schedel · Public domain
Pintura do século 18 na catedral de Sandomierz, na Polônia, com uma cena de libelo de sangue contra os judeus. A calúnia ficou exposta em igrejas por gerações.
Pintura do século 18 na catedral de Sandomierz, na Polônia, com uma cena de libelo de sangue contra os judeus. A calúnia ficou exposta em igrejas por gerações.Imagem: Karol (Charles) de Prevot · Public domain
Calúnia de sangue: a mentira medieval que chegou às redes | Decodificando o AntissemitismoCONIB - Confederação Israelita do Brasil

A CONIB explica a origem medieval da calúnia de sangue, a violência que ela deixou de Norwich a Kielce, suas versões modernas e como reconhecê-la segundo a definição da IHRA.

O que o Aftonbladet publicou e quem escreveu?

O jornalista sueco Donald Boström publicou em 17 de agosto de 2009, nas páginas de cultura do Aftonbladet, o artigo “Våra söner plundras på sina organ” (“Nossos filhos têm seus órgãos saqueados”). O texto insinuava uma ligação entre mortes de palestinos por soldados israelenses e a retirada de órgãos. Não apresentava prova direta.

O artigo juntava quatro elementos de natureza diferente:

  • relatos de familiares palestinos sobre corpos devolvidos com incisões e sinais de autópsia;
  • o caso de Bilal Ghanem, jovem morto por soldados israelenses em 1992;
  • acusações antigas contra o Instituto de Medicina Legal Abu Kabir, em Israel;
  • o mercado internacional de órgãos e a prisão, nos Estados Unidos, do israelense Levy-Izhak Rosenbaum, num esquema de compra e venda de rins.

A técnica está na frase-chave do texto, reproduzida abaixo. Boström coloca dois fatos lado a lado, “ao mesmo tempo”, e deixa o leitor tirar a conclusão. O artigo não demonstra a cadeia que ligaria a morte de um jovem, a ação de soldados e a retirada de órgãos para transplante. Ele a sugere pela proximidade das frases.

O caso Rosenbaum provava um crime real de tráfico de rins nos Estados Unidos. Não provava nada contra soldados ou médicos-legistas israelenses, segundo a cobertura da CNN em 23 de agosto de 2009.

Sede do Aftonbladet em Estocolmo. Foi daqui que saiu, em agosto de 2009, o artigo de Donald Boström que insinuou, sem prova, um roubo de órgãos por soldados israelenses.
Sede do Aftonbladet em Estocolmo. Foi daqui que saiu, em agosto de 2009, o artigo de Donald Boström que insinuou, sem prova, um roubo de órgãos por soldados israelenses.Imagem: Johannes Scherman · CC BY 3.0
DocumentoVåra söner plundras på sina organAftonbladet (Donald Boström), 2009-08-17

“Samtidigt som denna organkampanj pågick försvann unga palestinska män som levererades tillbaka nattetid till sina byar fem dygn senare, döda och uppsprättade.”

“Ao mesmo tempo em que essa campanha de órgãos estava em andamento, jovens palestinos desapareciam e eram devolvidos à noite às suas aldeias cinco dias depois, mortos e com o corpo aberto.”

É a frase que sustenta todo o artigo, e ela insinua uma relação de causa sem apresentar nenhuma prova.

Como a acusação se espalhou depois de 2009?

A acusação saiu de uma página de cultura sueca, virou crise diplomática em poucos dias e passou a ser reciclada por grupos hostis a Israel por mais de uma década. O Los Angeles Times descreveu o episódio como uma disputa entre Israel e Suécia, e a imprensa mundial repercutiu o tema durante semanas.

O percurso mostra como uma insinuação sem prova ganha vida própria:

  • Dezembro de 2009. Quando o caso real de Abu Kabir veio a público, o Guardian publicou a manchete “Israel admits harvesting Palestinian organs” (“Israel admite retirar órgãos de palestinos”). O texto da própria reportagem mostrava que os tecidos vinham de mortos de várias nacionalidades. O jornal teve de corrigir a manchete.
  • Fevereiro de 2010. Circularam alegações falsas de que o hospital de campanha enviado pelas FDI para socorrer as vítimas do terremoto no Haiti traficava órgãos. Parlamentares e veículos que repetiram o boato foram condenados publicamente.
  • 2015. Riyad Mansour, representante palestino nas Nações Unidas, apresentou a acusação de que corpos de palestinos de Jerusalém Oriental teriam sido devolvidos sem órgãos ou córneas. Nas fontes consultadas, não foi localizado relatório forense independente ou decisão judicial que confirme essas afirmações.
  • Dezembro de 2023. Em plena guerra iniciada pelo ataque do Hamas de 7 de outubro, o Escritório de Mídia do governo do Hamas em Gaza afirmou, segundo a Al Jazeera, que corpos devolvidos por Israel estavam “mutilados” e sem “órgãos vitais”. Autoridades de saúde de Gaza, controladas pelo Hamas, repetiram a acusação.
  • 2023 e 2024. Postagens virais, cartuns e discursos amplificaram a história, inclusive por perfis com grande audiência. A ADL documentou em janeiro de 2024 o retorno das acusações de “roubo de órgãos” depois de 7 de outubro.

O padrão se repete: a acusação vem primeiro, a verificação depois, quando vem. Veja como a mentira se espalha e o primeiro título: acusar Israel antes de verificar.

DocumentoReportagem sobre acusação de Gaza de roubo de órgãosJerusalem Post, 2023-12-29

“Gaza's GMO said the bodies were "mutilated" and that Israel had removed "vital organs from them," according to Al Jazeera. The IDF claimed to be "unfamiliar," and no Israeli official source has confirmed such an accusation.”

“O GMO [Escritório de Mídia do Governo] de Gaza disse que os corpos estavam “mutilados” e que Israel havia retirado “órgãos vitais deles”, segundo a Al Jazeera. As FDI disseram “não ter conhecimento”, e nenhuma fonte oficial israelense confirmou tal acusação.”

Mostra que, em 2023, o órgão de mídia do Hamas relançou a acusação sem apresentar evidência pública.

O que as investigações e os documentos mostraram?

Os documentos mostram duas coisas separadas. A primeira: não há prova de que soldados israelenses matassem palestinos para retirar órgãos. A segunda: houve um caso real e encerrado no Instituto de Medicina Legal Abu Kabir, que documenta retiradas de tecidos de cadáveres, não assassinatos.

Sobre o artigo de 2009. O Los Angeles Times registrou em 24 de agosto de 2009 que o texto repetia alegações do início dos anos 1990, já negadas pelas FDI. A reportagem do The Jewish Channel, no vídeo abaixo, desmonta outros pilares do artigo: o único especialista citado por Boström, o médico Francis Delmonico, disse nunca ter sido contatado e contestou a viabilidade técnica da acusação. A embaixada da França negou o suposto fim de uma cooperação em transplantes com Israel. E o caso Rosenbaum, nos Estados Unidos, não envolvia retirada de órgãos de mortos.

Sobre Abu Kabir. Em entrevista gravada em 2000 e divulgada pelo Canal 2 israelense em dezembro de 2009, Yehuda Hiss, então diretor do instituto, reconheceu que a equipe retirava pele, córneas, válvulas cardíacas e ossos durante autópsias, em certos casos sem pedir autorização às famílias. As FDI confirmaram ao Canal 2 que a prática existiu e disseram que ela havia terminado cerca de uma década antes. Segundo a CNN, os tecidos vieram de israelenses, inclusive soldados, de palestinos e de trabalhadores estrangeiros.

A cobertura da época registrou investigação, mudanças administrativas e a perda do cargo de diretor por Hiss. O hospital responsável pelo instituto descreveu o problema como falhas de gestão. Uma investigação oficial israelense concluiu, segundo o resumo reproduzido pela ADL, que não havia evidência de que Hiss tivesse os palestinos como alvo: ele tratava os corpos que chegavam ao necrotério como material disponível, sem distinção de origem.

Três distinções resolvem a confusão:

  • Tecidos e órgãos. O que se retirou foi sobretudo pele, córneas, válvulas e ossos. A palavra “órgãos” nas manchetes ampliou o caso.
  • Mortos e vivos. Abu Kabir envolveu cadáveres que já estavam no instituto para autópsia. O caso documenta retiradas pós-morte sem consentimento; não há prova de que pessoas tenham sido mortas para essa finalidade.
  • Falha ética e homicídio. Retirar tecido de um morto sem consentimento é uma violação grave, que Israel admitiu. Admitir essa falha difere de admitir assassinato.

O Canal 2 israelense divulgou a entrevista; autoridades israelenses confirmaram a prática e informaram seu encerramento e mudanças nas regras.

DocumentoIsrael-Sweden spat over organ harvesting storyLos Angeles Times, 2009-08-24

“The Swedish article repeated Palestinian allegations, dating to the early 1990s and denied by the Israeli military, that troops removed dead prisoners’ organs.”

“O artigo sueco repetia alegações palestinas, que remontam ao início dos anos 1990 e foram negadas pelas forças armadas israelenses, de que tropas retiravam órgãos de prisioneiros mortos.”

A imprensa de referência registra que o artigo reciclava alegações antigas, já negadas, sem fato novo.

DocumentoIsrael admits harvesting organs without permissionCNN, 2009-12-21

“the actions were done to Israelis, including soldiers. Procedures were not clear at the time and have since been clarified, she said. None of the practices led to charges, she said. The report said organs were at times also harvested from Palestinians and foreign workers.”

“As ações foram feitas a israelenses, inclusive soldados. Os procedimentos não eram claros na época e foram esclarecidos desde então, disse ela. Nenhuma das práticas resultou em acusações formais, disse ela. A reportagem afirmou que órgãos às vezes também foram retirados de palestinos e de trabalhadores estrangeiros.”

Prova que o caso Abu Kabir atingiu mortos de várias origens, a começar por israelenses, e que a prática foi encerrada.

Week in Review: August 28, 2009TheJewishChannelTJC · em inglês, com legendas em português

Áudio em outro idioma, com legendas. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Português.

O The Jewish Channel mostra a reação de Ehud Barak e como o único especialista citado pelo Aftonbladet, a embaixada francesa e os fatos do caso Rosenbaum desmentem o artigo.

Quem corrigiu a acusação e como?

Israel desmentiu o artigo no mesmo dia em que ele repercutiu, e o próprio jornal acabou admitindo que não tinha prova. As correções vieram de vários lados.

O governo de Israel. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Yigal Palmor, chamou o texto de “racismo descarado” e de “libelo de sangue medieval”. O ministro da Defesa, Ehud Barak, pediu que o governo sueco condenasse a publicação e, segundo o The Jewish Channel, queria processar o jornal por difamação. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que a matéria poderia alimentar violência contra judeus.

A Suécia, em duas vozes. A embaixadora sueca em Israel, Elisabet Borsiin Bonnier, condenou o artigo como chocante e repugnante e se distanciou dele em nome da Suécia. O Ministério das Relações Exteriores em Estocolmo recuou. O chanceler Carl Bildt afirmou que a Suécia tem liberdade de imprensa e que o governo não deveria condenar artigos de um jornal independente. A rádio pública Sveriges Radio registrou a divergência.

O Aftonbladet e o autor. Depois da reação pública, o jornal reconheceu que não tinha provas de que o exército israelense retirasse órgãos de palestinos. Manteve, porém, a defesa da publicação, sob o argumento de que o tema merecia investigação. Boström admitiu, segundo a Newsweek, que não tinha evidência de que forças israelenses sequestrassem palestinos para retirar órgãos.

O Guardian. Em dezembro de 2009, o jornal britânico corrigiu a manchete que destacava apenas palestinos no caso Abu Kabir e reconheceu um “grave erro de edição”.

Apesar das negativas, admissões de falta de provas e correções, a acusação voltou a circular em anos posteriores.

DocumentoIsrael angered by Swedish organ harvesting reportCNN, 2009-08-19

“"The article was a shocking piece of blatant racism," Israeli Foreign Ministry spokesman Yigal Palmor told CNN on Wednesday. "This kind of medieval blood libel cannot be tolerated in any society”

“O artigo foi uma peça chocante de racismo descarado”, disse à CNN na quarta-feira o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor. “Esse tipo de libelo de sangue medieval não pode ser tolerado em nenhuma sociedade”

Registra a resposta imediata e oficial de Israel, que identificou no artigo a estrutura do libelo de sangue.

DocumentoOrgan harvesting, part II (reproduz a correção do Guardian)Jewish Telegraphic Agency, 2009-12-23

“That headline did not match the article, which made clear that the organs were not taken only from Palestinians. This was a serious editing error and the headline has been changed online to reflect the text of the story written by the reporter.”

“Essa manchete não correspondia ao artigo, que deixava claro que os órgãos não foram retirados apenas de palestinos. Foi um grave erro de edição, e a manchete foi alterada na versão online para refletir o texto da reportagem escrita pelo repórter.”

Mostra o jornal reconhecendo que a manchete destacava apenas palestinos, embora a reportagem incluísse vítimas israelenses e estrangeiras.

O que ainda segue em disputa?

Alguns pontos seguem abertos, e dizê-lo com clareza fortalece a conclusão. Nenhum deles sustenta a tese de que Israel mata palestinos para retirar órgãos.

Se o artigo foi antissemita. Boström afirmou que não pretendia atacar judeus e que investigava possíveis abusos médico-legais e militares. O governo de Israel e diversos críticos sustentam que o texto reproduz o libelo de sangue. O peso das evidências está com Israel por três razões: o artigo fez a acusação mais grave possível sem nenhuma prova; usou fatos reais e sem relação entre si para sugerir uma conspiração; e repetiu a estrutura exata do libelo medieval, em que judeus matam não judeus para usar seus corpos. A intenção declarada do autor não muda o efeito do texto, que o Hamas e redes de propaganda reaproveitaram por anos.

O tamanho do caso Abu Kabir. Relatos secundários falam em cerca de 125 corpos e num acordo que teria evitado acusações criminais mais graves contra Hiss. As fontes consultadas não incluem documento judicial ou oficial verificável que confirme esse número e esses termos. O destino de cada tecido, se pesquisa, ensino ou transplante, também não foi reconstruído caso a caso. A CNN registrou que nenhuma das práticas resultou em acusação formal.

As alegações de 2023 e 2024. Os relatos difundidos a partir de Gaza não trouxeram autópsias completas publicadas, identificação dos corpos, laudos com cadeia de custódia ou prova de que algo tenha ocorrido sob custódia israelense. Segundo a Firstpost, o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, teria reconhecido não dispor de meios técnicos para comprovar a acusação. Ferimentos, autópsias, decomposição e cirurgias anteriores são explicações possíveis para o estado de corpos, e essa questão técnica nunca foi resolvida por quem acusa. As FDI explicam que a exumação temporária de corpos em Gaza serve para procurar e identificar restos mortais de reféns sequestrados pelo Hamas em 7 de outubro, e que os corpos que não pertencem a reféns são devolvidos e reenterrados.

O papel do Irã. A circulação da narrativa por meios e atores alinhados ao regime iraniano é amplamente relatada. As fontes de referência citadas nesta página não trazem, porém, um comunicado oficial iraniano específico e datado com a acusação. Por isso a página não atribui frase nenhuma ao governo de Teerã.

O que isso não significa. A ausência de prova sobre roubo de órgãos não encerra toda discussão sobre o tratamento de corpos numa guerra. Significa que a acusação específica de roubo de órgãos permanece sem comprovação, e que Abu Kabir é um escândalo antigo, distinto e encerrado.

Por que o caso importa hoje e que técnica ele ensina?

O caso importa porque a acusação não comprovada voltou em 2023, contra o mesmo alvo. O caso histórico de Abu Kabir não comprova as alegações atuais. O episódio de 2009 ensina a reconhecer uma técnica precisa: pegar fatos reais e sem relação entre si e montá-los numa acusação sem prova.

A Newsweek apontou um risco em novembro de 2023: a história comprovada de Abu Kabir pode ser incorporada a alegações mal informadas ou enganosas. Trata-se de um escândalo que Israel investigou e encerrou há mais de duas décadas e que atingiu também soldados e civis israelenses.

Em 2009, a técnica teve passos visíveis:

  • Justapor. O artigo de Boström colocou lado a lado fatos sem relação, como uma morte, uma autópsia e um tráfico de rins nos Estados Unidos, e deixou o leitor ligar os pontos.
  • Ampliar a palavra. Chamar pele e córneas retiradas de mortos de “órgãos”.
  • Destacar uma só vítima. A manchete corrigida do Guardian, em dezembro de 2009, citava apenas palestinos, embora israelenses e estrangeiros estivessem entre os mortos de Abu Kabir.
  • Reativar o libelo. Contar a história como os libelos medievais eram contados: judeus que matam outros para usar seus corpos.

Em 2023, o Escritório de Mídia do governo do Hamas e autoridades de saúde de Gaza controladas pelo grupo repetiram a acusação, amplificada por redes que a reproduziram sem verificar. A explicação israelense para as exumações em Gaza é a busca por restos mortais de reféns; as acusações de retirada de órgãos exigem provas específicas e independentes, que não foram apresentadas.

A checagem completa está em Israel rouba órgãos dos palestinos mortos?. Para o mesmo problema de números e laudos sem verificação, veja o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas. Outros casos estão em como se fabrica uma mentira contra Israel.

DocumentoIsrael organ harvesting allegations explainedNewsweek, 2023-11-27

“While there are no reports that such a practice has happened in Gaza or the West Bank, the established history risks being folded into misinformed or misleading claims.”

“Embora não haja relatos de que tal prática tenha ocorrido em Gaza ou na Judeia e Samaria, a história comprovada corre o risco de ser incorporada a alegações mal informadas ou enganosas.”

Uma revista de referência registra, em 2023, que não há relato da prática em Gaza ou na Judeia e Samaria e aponta o risco de o caso antigo ser usado em alegações enganosas.

O que disseram, nos registros

“This kind of medieval blood libel cannot be tolerated in any society”

“Esse tipo de libelo de sangue medieval não pode ser tolerado em nenhuma sociedade.”

Yigal Palmor, Porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel. 19 de agosto de 2009, Declaração à CNN. Fonte

“That headline did not match the article, which made clear that the organs were not taken only from Palestinians. This was a serious editing error and the headline has been changed online to reflect the text of the story written by the reporter.”

“Essa manchete não correspondia ao artigo, que deixava claro que os órgãos não foram retirados apenas de palestinos. Foi um grave erro de edição, e a manchete foi alterada na versão online para refletir o texto da reportagem escrita pelo repórter.”

The Guardian, Nota de correção do jornal. Dezembro de 2009, Reproduzida pela Jewish Telegraphic Agency em 23 de dezembro de 2009. Fonte

Alegações que circulam sem prova

  • “Soldados israelenses matam jovens palestinos para retirar e vender seus órgãos.” (Insinuação do artigo de Donald Boström no Aftonbladet (2009), depois reciclada pelo Hamas e por redes de propaganda): Nenhuma prova foi apresentada. O jornal admitiu não ter prova e o autor admitiu não ter evidência.
  • “Israel admite retirar órgãos de palestinos.” (Manchete original do Guardian, dezembro de 2009): O próprio jornal corrigiu: os tecidos de Abu Kabir vinham de mortos de várias nacionalidades, inclusive israelenses.
  • “O hospital de campanha das FDI no Haiti trafica órgãos.” (Boatos que circularam em fevereiro de 2010): Alegação sem prova, condenada publicamente junto com quem a repercutiu.
  • “Corpos de palestinos de Jerusalém Oriental foram devolvidos sem órgãos ou córneas.” (Riyad Mansour, representante palestino nas Nações Unidas, 2015): Nas fontes consultadas, não foi localizada confirmação forense independente ou judicial da acusação.
  • “Os corpos devolvidos por Israel em Gaza voltaram mutilados e sem órgãos vitais.” (Escritório de Mídia do governo do Hamas em Gaza e autoridades de saúde de Gaza controladas pelo Hamas, dezembro de 2023): Sem autópsias publicadas, sem identificação dos corpos e sem laudos com cadeia de custódia. As FDI disseram desconhecer a acusação.

Linha do tempo

  1. 1493A Crônica de Nuremberg publica uma xilogravura que retrata judeus extraindo sangue de uma criança, imagem clássica do libelo de sangue.
  2. Anos 1990No Instituto de Medicina Legal Abu Kabir, tecidos são retirados de cadáveres em autópsias, em certos casos sem consentimento das famílias. Os mortos incluem israelenses, palestinos e estrangeiros.
  3. 2000Yehuda Hiss, diretor do instituto, reconhece a prática em entrevista gravada. A prática é encerrada por volta dessa época.
  4. 17 ago. 2009O Aftonbladet publica o artigo de Donald Boström que insinua que soldados israelenses matavam palestinos para retirar órgãos.
  5. 19 ago. 2009O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, chama o texto de libelo de sangue medieval. A embaixadora sueca condena o artigo e Estocolmo se distancia da condenação.
  6. Ago. 2009Ehud Barak pede que a Suécia condene a publicação. O chanceler Carl Bildt invoca a liberdade de imprensa. O Aftonbladet admite não ter prova, mas defende a publicação.
  7. 21 dez. 2009A CNN noticia a divulgação, pelo Canal 2 israelense, da entrevista de Hiss. As FDI confirmam que a prática existiu e terminou cerca de uma década antes.
  8. 23 dez. 2009A JTA reproduz a correção do Guardian à manchete que destacava apenas palestinos no caso Abu Kabir.
  9. Fev. 2010Circulam alegações falsas de que o hospital de campanha das FDI no Haiti traficava órgãos.
  10. 2015Riyad Mansour, representante palestino na ONU, apresenta acusação de corpos devolvidos sem órgãos, sem confirmação forense independente ou judicial nas fontes consultadas.
  11. 27 nov. 2023A Newsweek registra que não há relatos dessa prática em Gaza ou na Judeia e Samaria e que Boström admitiu não ter evidência.
  12. Dez. 2023O Escritório de Mídia do governo do Hamas em Gaza acusa Israel de retirar órgãos vitais de corpos. As FDI dizem desconhecer a acusação.
  13. 25 jan. 2024A ADL documenta o retorno das acusações de roubo de órgãos depois de 7 de outubro, em discursos, cartuns e redes sociais.

Perguntas frequentes

O que foi o caso Aftonbladet?
Em 17 de agosto de 2009, o jornal sueco Aftonbladet publicou um artigo de Donald Boström que insinuava que soldados israelenses matavam palestinos para retirar órgãos. O texto não tinha prova. Israel o denunciou como libelo de sangue, a embaixadora sueca o condenou e o governo sueco recusou condená-lo em nome da liberdade de imprensa. O jornal depois admitiu não ter prova.
Israel rouba órgãos de palestinos mortos?
Não há prova de uma política contemporânea de retirada de órgãos em Gaza nem de assassinatos para obtenção de órgãos. A Newsweek registrou em 2023 que não há relatos da prática em Gaza ou na Judeia e Samaria. As acusações feitas pelo Hamas em dezembro de 2023 vieram sem autópsias publicadas nem laudos verificáveis, e as FDI disseram desconhecê-las. Houve retirada não autorizada de tecidos de cadáveres, inclusive palestinos, no caso histórico de Abu Kabir, que atingiu mortos de várias origens e foi encerrado.
O que aconteceu no Instituto Abu Kabir?
Nos anos 1990, a equipe do instituto de medicina legal retirou pele, córneas, válvulas cardíacas e ossos de cadáveres em autópsias, em certos casos sem autorização das famílias. Os mortos incluíam soldados e civis israelenses, palestinos e trabalhadores estrangeiros. Israel confirmou o caso, encerrou a prática e esclareceu as regras. O caso documenta retiradas pós-morte sem consentimento; não há prova de que pessoas tenham sido mortas para essa finalidade.
Por que a acusação de roubo de órgãos é chamada de libelo de sangue?
Porque repete a estrutura da calúnia medieval segundo a qual judeus matavam crianças cristãs para usar seu sangue. A versão moderna troca o sangue por órgãos e os judeus por soldados israelenses. O porta-voz da chancelaria israelense, Yigal Palmor, chamou o artigo de 2009 de libelo de sangue medieval, e historiadores descrevem a acusação como mutação desse mito.
O Aftonbladet se retratou do artigo?
Não se retratou. Depois da reação pública, o jornal admitiu que não tinha prova de que o exército israelense retirasse órgãos de palestinos, mas manteve a defesa da publicação, dizendo que o tema merecia investigação. O próprio Boström admitiu, segundo a Newsweek, não ter evidência. O governo sueco recusou condenar o texto.
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