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Escritório do OCHA, a agência de assuntos humanitários da ONU, em Jerusalém. Os boletins do OCHA sobre Gaza reproduziam números fornecidos pelas autoridades do Hamas.
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Como se fabrica uma mentira · Caso documentado

Quando a ONU mudou a apresentação dos números de mulheres e crianças mortas em Gaza (2024)

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Foto: Escritório do OCHA, a agência de assuntos humanitários da ONU, em Jerusalém. Os boletins do OCHA sobre Gaza reproduziam números fornecidos pelas autoridades do Hamas.. James Emery from Douglasville, United States · CC BY 2.0
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Resposta curta

Em maio de 2024, o OCHA, escritório humanitário da ONU, trocou a fonte da divisão dos mortos em Gaza por sexo e idade. Até 6 de maio, repetia cerca de 9.500 mulheres e 14.500 crianças, números do Gabinete de Mídia do governo do Hamas, cerca de 70% do total relatado. Em 8 de maio, a divisão passou a abranger só os mortos identificados pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas: 4.959 mulheres e 7.797 crianças entre 24.686, cerca de 52% desse subconjunto. O total relatado continuou publicado. Cerca de 10 mil mortos seguiam sem identificação.

Quando
De outubro de 2023 a maio de 2024. A troca de fonte aparece entre 6 e 8 de maio de 2024.
Onde
Boletins do OCHA sobre Gaza, repetidos pela imprensa internacional e nas redes.
O que se disse
Que cerca de 70% dos mortos em Gaza eram mulheres e crianças: 9.500 mulheres e 14.500 crianças em 6 de maio de 2024.
Quem espalhou
O Gabinete de Mídia do Governo de Gaza, controlado pelo Hamas, produziu a divisão. O OCHA a reproduziu sem verificação independente. Veículos e ativistas repetiram o número.
O que se provou
Entre os 24.686 mortos identificados pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, havia 4.959 mulheres e 7.797 crianças, cerca de 52% desse subconjunto. O material apresentado não contém uma lista nominal que comprove a proporção de 70% para o total relatado naquele momento.
Quem corrigiu
O próprio OCHA, ao trocar a fonte. Farhan Haq (ONU) explicou em 13 de maio. Jens Laerke (OCHA) e Christian Lindmeier (OMS) detalharam em 14 de maio.
A correção chegou até onde?
Parcial. A ONU chamou a mudança de atualização de rotina e explicou que ela não alterava o total relatado e que a nova divisão abrangia apenas os mortos plenamente identificados. Cerca de 10 mil mortos ficaram sem divisão por sexo e idade.

De onde vinham os números de mortos em Gaza que a ONU publicava?

Vinham das autoridades do Hamas em Gaza. A ONU os repetia sem contagem própria. A guerra começou com o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, quando terroristas do Hamas mataram mais de 1.200 pessoas e sequestraram 251 reféns. Desde então, os números de mortos em Gaza saem de duas estruturas do governo do Hamas:

  • o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, que divulga o total de mortos e mantém listas com nome e número de documento;
  • o Gabinete de Mídia do Governo de Gaza (GMO, na sigla em inglês), também controlado pelo Hamas, que divulgava estimativas por categoria, como mulheres e crianças.

O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) publicava boletins diários sobre a guerra. Neles, os números de vítimas apareciam atribuídos às autoridades de Gaza, como mostra o boletim de 27 de maio de 2024 abaixo. O material do OCHA de 8 de maio advertia que a ONU ainda não tinha números independentes, completos e verificados de mortos.

Esse detalhe muda tudo. O selo da ONU dava ao número a aparência de dado internacional verificado. Na prática, o OCHA repassava o que o governo do Hamas informava. Nenhum desses totais separa civis de membros de grupos terroristas. O padrão está descrito em Números que ninguém verificou.

Escritório do OCHA, a agência de assuntos humanitários da ONU, em Jerusalém. Os boletins do OCHA sobre Gaza reproduziam números fornecidos pelas autoridades do Hamas.
Escritório do OCHA, a agência de assuntos humanitários da ONU, em Jerusalém. Os boletins do OCHA sobre Gaza reproduziam números fornecidos pelas autoridades do Hamas.Imagem: James Emery from Douglasville, United States · CC BY 2.0
DocumentoHostilities in the Gaza Strip and Israel – Flash Update #171UN OCHA (reproduzido pela UNISPAL), 2024-05

“Between 7 October 2023 and 27 May 2024, at least 36,050 Palestinians were killed and 81,026 were injured in Gaza, according to MoH in Gaza.”

“Entre 7 de outubro de 2023 e 27 de maio de 2024, pelo menos 36.050 palestinos foram mortos e 81.026 ficaram feridos em Gaza, segundo o Ministério da Saúde em Gaza.”

Mostra que o OCHA atribuía os números de vítimas às autoridades de Gaza em vez de apresentá-los como contagem própria.

O que se dizia sobre mulheres e crianças, e quem dizia?

Dizia-se que cerca de 70% dos mortos eram mulheres e crianças. A fonte dessa divisão era o Gabinete de Mídia do Governo de Gaza, controlado pelo Hamas. Segundo análises do Begin-Sadat Center (BESA) e do Washington Institute for Near East Policy, o GMO afirmava de forma contínua que 70% de todas as vítimas eram mulheres e crianças.

O OCHA reproduziu essa divisão. Em 6 de maio de 2024, seu relatório trazia 34.735 mortos, com pelo menos 9.500 mulheres e 14.500 crianças, como registrou o New York Times. A soma dá cerca de 69% do total.

Analistas apontaram problemas na cifra antes da mudança. Segundo análises publicadas pelo Washington Institute (Gabriel Epstein), pela Henry Jackson Society e pela revista Fathom, a fatia fixa de 70% era incompatível com os próprios dados hospitalares do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas. Essas análises também apontaram que a cifra praticamente não deixava espaço para homens civis mortos.

A frase circulou como fato estabelecido. Outra discussão sobre estatísticas de vítimas aparece em Israel matou em Gaza mais crianças do que todas as guerras do mundo juntas?.

DocumentoIsrael-Gaza war live coverage, 14 May 2024The New York Times, 2024-05-14

“As recently as May 6, the U.N’s Office for the Coordination of Humanitarian Affairs said in its regularly updated online report that at least 9,500 women and 14,500 children were among the dead, out of an overall death toll of 34,735.”

“Ainda em 6 de maio, o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU dizia em seu relatório on-line, atualizado regularmente, que pelo menos 9.500 mulheres e 14.500 crianças estavam entre os mortos, de um total de 34.735.”

Registra, num jornal de referência, os números exatos que o OCHA publicava antes da troca de fonte.

Como o número se espalhou, e como a imprensa noticiou a mudança?

O número fez um caminho em três etapas. Saiu do GMO, controlado pelo Hamas. Ganhou o selo do OCHA. Chegou à imprensa e às redes como “dado da ONU”. O mecanismo está descrito em Como a mentira se espalha.

Quando o OCHA trocou a fonte, em maio de 2024, a cobertura se dividiu:

  • Manchetes de corte pela metade. O New York Post publicou em 13 de maio que a ONU admitia erro, com quase 50% menos mulheres e crianças mortas. A Click2Houston noticiou que a ONU cortava a estimativa em 50%. O indiano Firstpost falou em “cálculo que deu errado”.
  • Reportagens que explicaram a troca. O Times of Israel (13 de maio) descreveu a revisão como redução de mais da metade nas mulheres e crianças “identificadas”. Registrou também que o GMO era a fonte das divisões anteriores e que cerca de 10 mil mortes seguiam sem identificação. A CNN (13 de maio), o New York Times (14 de maio) e o australiano The Age (14 de maio) destacaram que o total geral não mudara.
  • Checagens. O USA Today (17 de maio) e o PolitiFact (24 de maio) examinaram a alegação viral de que a ONU teria “cortado pela metade” o número. Concluíram que a formulação não corresponde ao que a ONU fez. O indiano The Quint checou posts virais com a mesma tese.
  • Opinião. O Telegraph noticiou a mudança em 17 de maio e, em editorial de 18 de maio, tratou os números anteriores como propaganda do Hamas. Uma coluna de opinião do Washington Post, em 24 de maio, criticou a falta de transparência da ONU ao mudar de método.

A mudança apareceu nos boletins do OCHA de 6 a 8 de maio e foi explicada publicamente pela ONU em 13 e 14 de maio. Coube também à imprensa e aos analistas comparar as séries. A pressa em publicar antes de verificar é o tema de O primeiro título.

DocumentoUN halved death toll of women and children? Not quite the case, spokesperson saysUSA Today (Fact Check), 2024-05-17

“Haq addressed the disparity in a May 13 news briefing , saying that more than 10,000 bodies were still in the process of being fully identified.”

“Haq tratou da disparidade num briefing de imprensa em 13 de maio, dizendo que mais de 10.000 corpos ainda estavam em processo de identificação completa.”

Mostra a checagem independente que separou a manchete viral da explicação oficial da ONU.

O que os documentos do OCHA mostraram de fato?

Mostraram que a divisão por sexo e idade passou a cobrir só os mortos identificados por nome. Em 8 de maio de 2024, o OCHA publicou duas cifras diferentes:

  • 34.844 mortes relatadas no total;
  • 24.686 mortes plenamente identificadas até 30 de abril, divididas assim: 7.797 crianças, 4.959 mulheres, 10.006 homens e 1.924 idosos.

As quatro categorias somam exatamente 24.686. Pela conta, mulheres e crianças são cerca de 52% dos identificados. Homens adultos são cerca de 40%. Idosos, cerca de 8%.

A lista do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, apresentava assim uma proporção menor de mulheres e crianças entre os identificados. Ela não permitia determinar a proporção no total relatado nem, isoladamente, refutar a estimativa anterior de cerca de 70%, porque a composição dos não identificados seguia desconhecida. A queda nos números brutos é grande: mulheres caíram de cerca de 9.500 para 4.959, e crianças, de 14.500 para 7.797. Os dois conjuntos, porém, medem universos diferentes.

O OCHA explicou a mudança no relatório de 13 de maio. A CNN registrou a divisão completa na fala do porta-voz da ONU. Em março de 2025, a mesma lista nominal registrava cerca de 15.600 menores de 18 anos entre 50.021 mortos, como mostra “Israel já matou mais de 50 mil crianças em Gaza”.

Até abril de 2024, o OCHA repetia cerca de 14.500 crianças e 9.500 mulheres mortas, estimativa do Gabinete de Mídia do governo do Hamas. Em maio, passou a publicar 7.797 crianças e 4.959 mulheres identificadas pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, enquanto o total relatado seguia acima de 35 mil.
Até abril de 2024, o OCHA repetia cerca de 14.500 crianças e 9.500 mulheres mortas, estimativa do Gabinete de Mídia do governo do Hamas. Em maio, passou a publicar 7.797 crianças e 4.959 mulheres identificadas pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, enquanto o total relatado seguia acima de 35 mil.Imagem: JJO · gráfico da JJO com dados do OCHA
DocumentoHostilities in the Gaza Strip and Israel – Reported Impact, 13 May 2024UN OCHA, 2024-05-13

“The fatality breakdowns currently cited are those that the MoH in Gaza has recently fully identified out of the higher number of casualties they report.”

“As divisões de vítimas citadas atualmente são aquelas que o Ministério da Saúde em Gaza identificou plenamente há pouco, dentro do número maior de vítimas que ele relata.”

É o próprio OCHA separando o total relatado dos mortos identificados e restringindo a divisão por sexo e idade aos identificados.

DocumentoGaza death toll: UN explains change in fatality figuresCNN, 2024-05-13

“The fully identified death toll comprises of 7,797 children, 4,959 women, 1,924 elderly, and 10,006 men, the UN spokesperson said, citing the Gaza health ministry.”

“O total de mortos plenamente identificados é composto de 7.797 crianças, 4.959 mulheres, 1.924 idosos e 10.006 homens, disse o porta-voz da ONU, citando o ministério da saúde de Gaza.”

Registra a divisão completa dos 24.686 identificados, que permite calcular a fatia de mulheres e crianças nessa lista.

Quem corrigiu, e como a ONU explicou a mudança?

Quem corrigiu foi o próprio OCHA, ao trocar a fonte. A ONU explicou a troca como atualização técnica.

  • 13 de maio de 2024. Farhan Haq, porta-voz adjunto da ONU, disse em briefing que os números menores valiam só para os 24.686 mortos identificados. Segundo ele, mais de 10.000 corpos ainda estavam em processo de identificação completa. A distribuição desses mortos entre mulheres, crianças, homens e idosos seria esclarecida depois.
  • 14 de maio de 2024. No briefing da ONU em Genebra, Jens Laerke (OCHA) disse que o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, havia fornecido mais detalhes sobre vítimas identificadas, sem mudar o total geral. Christian Lindmeier (OMS) disse que cerca de 25 mil vítimas estavam plenamente identificadas e cerca de 10 mil não.
  • A partir de 13 de maio de 2024. Segundo análise do Washington Institute, o OCHA passou a incluir avisos nos relatórios. Os avisos diziam que a ONU não verifica os dados de forma independente e indicavam a origem de cada conjunto.
  • 31 de maio de 2024. O resumo do OCHA admitiu por escrito que as divisões anteriores de mulheres e crianças vinham do GMO, com base em mortes relatadas.

A correção teve limites. A ONU manteve o total geral e chamou a mudança de rotina. A ONU explicou que a mudança não alterava o total relatado e que a nova divisão abrangia apenas os mortos plenamente identificados. Segundo o relatório da Henry Jackson Society, o GMO, controlado pelo Hamas, continuou divulgando a cifra de 70%, inclusive em janeiro de 2025. O relatório interpreta essa cifra como incompatível com os dados do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas; a comparação apresentada neste artigo entre totais relatados e identificados, isoladamente, não demonstra essa incompatibilidade.

Israel revisou publicamente o total de mortos do 7 de outubro após perícia, de cerca de 1.400 para cerca de 1.200, como mostra este mito. Trata-se de situação distinta: no caso do OCHA, houve mudança na apresentação das categorias, sem uma recontagem que demonstrasse erro no total anterior.

DocumentoUN Geneva Press Briefing, 14 May 2024United Nations Information Service Geneva (reproduzido pela UNISPAL), 2024-05-14

“the Ministry of Health in Gaza had now provided more details on verified, identified victims, which had not changed the overall tally of overall reported casualties.”

“o Ministério da Saúde em Gaza tinha agora fornecido mais detalhes sobre vítimas verificadas e identificadas, o que não havia alterado a contagem geral do total de vítimas relatadas.”

É a explicação oficial da ONU em Genebra, que confirma a troca de base e a manutenção do total.

DocumentoOCHA Snapshot, 31 May 2024UN OCHA (reproduzido pela UNISPAL), 2024-05-31

“Previous data breakdowns provided in this snapshot of women and children killed were attributed to the GMO based on reported fatalities. The fatality breakdowns currently cited are those that the MoH in Gaza has recently fully identified”

“As divisões de dados anteriores sobre mulheres e crianças mortas apresentadas neste resumo eram atribuídas ao GMO com base em mortes relatadas. As divisões de vítimas citadas atualmente são aquelas que o Ministério da Saúde em Gaza identificou plenamente há pouco”

É o registro escrito do OCHA de que a cifra antiga vinha do Gabinete de Mídia do governo do Hamas.

O que continua em disputa?

Continua em disputa a composição dos cerca de 10 mil mortos não identificados. Também se discute o que a troca prova.

O que ninguém sabe. A atualização de 8 de maio não dividiu esses 10 mil por sexo e idade. Por isso, a fatia de 52% vale para os identificados e não fecha a conta do total. O material apresentado não contém uma lista nominal que comprove os números de 9.500 mulheres e 14.500 crianças para o total relatado naquele momento. A troca, por si só, também não prova que cada um deles fosse falso.

As leituras divergentes.

  • A ONU, por Farhan Haq, apresentou a mudança como atualização de rotina, sem alteração do total.
  • O USA Today e o PolitiFact concluíram que a frase “a ONU cortou pela metade” distorce o que foi feito.
  • O relatório da Henry Jackson Society avaliou que a mudança pode ser vista como admissão implícita, pela ONU, de que o GMO enganou o mundo com desinformação sobre vítimas. O BESA e Elliott Abrams, no Council on Foreign Relations, leram a troca de forma parecida.
  • A coluna do Washington Post centrou a crítica na falta de transparência de método. O Le Monde (Les Décodeurs) publicou em outubro de 2024 um texto que defende a confiabilidade da contagem do ministério.

O que cada lado discute. A defesa do Le Monde trata do total geral. O caso de maio trata da divisão por sexo e idade. Nessa divisão, a lista com nome e documento, produzida pelo próprio ministério controlado pelo Hamas, mostrou cerca de 52% entre os identificados. Essa proporção não permite determinar a do total nem, isoladamente, refutar a estimativa anterior. A crítica documentada é à clareza de método: a cifra mais alta vinha de um órgão de mídia do governo do Hamas, e a ONU a repetiu atribuindo os dados às autoridades de Gaza, sem explicar suficientemente o universo estatístico.

A origem dos registros. Segundo reportagem da NewsNation e o Times of Israel, o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, admitiu que milhares de registros de mortes vinham de “fontes da mídia” não identificadas. Isso mostra um dado de origem frágil. Não prova, sozinho, que cada morte foi inventada.

Hamas-run Gaza Health Ministry admits flaws in casualty data: Report | Dan Abrams LiveNewsNation · em inglês, com legendas em português

Áudio em outro idioma, com legendas. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Português.

A NewsNation relata que o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, admitiu que milhares de registros vinham de “fontes da mídia”, e um analista da Foundation for Defense of Democracies explica por que os números não separam civis de combatentes.

Por que o caso importa hoje, e que técnica ele ilustra?

O caso mostra os riscos de reproduzir estimativas de uma parte no conflito sem explicar suficientemente a fonte e o universo estatístico. Críticos como o editorial do Telegraph e a Henry Jackson Society foram além e trataram os números anteriores como propaganda ou desinformação do Hamas. O caminho documentado tem quatro passos:

1. Origem partidária. Um órgão de mídia do governo do Hamas divulga uma divisão de vítimas sem lista nominal. 2. Selo internacional. Uma agência da ONU reproduz o número, atribuído às autoridades de Gaza, e lhe empresta credibilidade. 3. Repetição. Veículos, ativistas e redes citam “a ONU”. 4. Mudança de base. Quando a fonte muda, a nova série aparece nos boletins e é explicada em briefings, e a comparação entre universos diferentes gera manchetes de “corte pela metade”.

Outros problemas com estatísticas de Gaza, cada um com mecanismo próprio, aparecem nos “mais de 100 mil mortos”, uma projeção; nas “50 mil crianças”, que confundem o total com crianças; e nos “83% de civis”, que comparam combatentes identificados com mortos totais.

Para ler qualquer número de Gaza:

  • pergunte quem contou: o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, o GMO ou uma agência que apenas repassa;
  • veja se o dado é relatado ou identificado por nome;
  • lembre que os totais não separam civis de terroristas do Hamas;
  • lembre quem começou a guerra e quem combate a partir de áreas civis, tema de Escudos humanos.

O sofrimento de civis em Gaza é real. Os números que o descrevem precisam ter origem, método e verificação.

Alegações que circulam sem prova

  • “70% dos mortos em Gaza são mulheres e crianças.” (Gabinete de Mídia do Governo de Gaza, controlado pelo Hamas, repetida pelo OCHA até maio de 2024 e por veículos e ativistas): O material apresentado não contém uma lista nominal que comprove essa proporção para o total relatado naquele momento. Entre os 24.686 mortos identificados pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, mulheres e crianças eram cerca de 52% desse subconjunto.
  • “A ONU admitiu que metade das mulheres e crianças mortas em Gaza não morreu.” (Posts virais e algumas manchetes de maio de 2024): A ONU não fez recontagem própria. Cerca de 10 mil mortos seguiam sem identificação e sem divisão por sexo e idade, como apontaram as checagens do USA Today e do PolitiFact.

Linha do tempo

  1. 7 de outubro de 2023Terroristas do Hamas atacam Israel, matam mais de 1.200 pessoas e sequestram 251 reféns. Começa a guerra.
  2. Outubro de 2023 a abril de 2024O OCHA reproduz nos boletins a divisão de mortos por sexo e idade do Gabinete de Mídia do Governo de Gaza, controlado pelo Hamas, com cerca de 70% de mulheres e crianças.
  3. 30 de abril de 2024Data de corte da lista de 24.686 mortos plenamente identificados pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas.
  4. 6 de maio de 2024O OCHA publica 34.735 mortos, com pelo menos 9.500 mulheres e 14.500 crianças.
  5. 8 de maio de 2024O OCHA passa a separar 34.844 mortes relatadas de 24.686 identificadas: 7.797 crianças, 4.959 mulheres, 10.006 homens e 1.924 idosos.
  6. 13 de maio de 2024O relatório do OCHA explica a troca de base. Farhan Haq diz que mais de 10 mil corpos aguardam identificação. Times of Israel, CNN e New York Post noticiam.
  7. 14 de maio de 2024No briefing de Genebra, Jens Laerke (OCHA) e Christian Lindmeier (OMS) confirmam cerca de 25 mil identificados e 10 mil não identificados.
  8. 17 de maio de 2024O USA Today publica checagem sobre o suposto “corte pela metade”. O Telegraph noticia a redução.
  9. 18 de maio de 2024Editorial do Telegraph trata os números anteriores como propaganda do Hamas.
  10. 24 de maio de 2024O PolitiFact publica explicação da mudança. Coluna de opinião do Washington Post critica a falta de transparência da ONU.
  11. 27 de maio de 2024Boletim do OCHA registra pelo menos 36.050 mortos, segundo o ministério controlado pelo Hamas.
  12. 31 de maio de 2024O resumo do OCHA registra por escrito que as divisões antigas de mulheres e crianças vinham do GMO.
  13. Janeiro de 2025Segundo o relatório da Henry Jackson Society, o GMO, controlado pelo Hamas, segue divulgando a cifra de 70% de mulheres e crianças, que o relatório interpreta como incompatível com os dados do ministério controlado pelo Hamas.

Perguntas frequentes

A ONU reduziu pela metade o número de mulheres e crianças mortas em Gaza?
Não exatamente. Em maio de 2024, o OCHA trocou a fonte da divisão por sexo e idade. Saiu a estimativa do Gabinete de Mídia do governo do Hamas e entrou a lista de mortos identificados pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas. Entre os identificados havia 4.959 mulheres e 7.797 crianças, contra cerca de 9.500 mulheres e 14.500 crianças antes. Cerca de 10 mil mortos ficaram sem divisão.
Qual a diferença entre mortos relatados e mortos identificados em Gaza?
Relatados são o total anunciado pelas autoridades do Hamas, que inclui casos sem dados completos. Identificados são os mortos com nome e documento na lista do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas. Em maio de 2024, eram 34.844 relatados e 24.686 identificados. Na apresentação adotada pelo OCHA em maio de 2024, a divisão por sexo e idade passou a abranger apenas os mortos plenamente identificados pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas.
De onde veio o número de 70% de mulheres e crianças mortas em Gaza?
Do Gabinete de Mídia do Governo de Gaza, controlado pelo Hamas, que repetia a cifra de forma contínua. O OCHA a reproduziu até maio de 2024. A lista nominal do próprio ministério controlado pelo Hamas mostrou cerca de 52% entre os identificados, sem permitir determinar a proporção no total. O material apresentado não contém uma lista nominal que comprove os 70% para o total relatado naquele momento.
Os números de mortos em Gaza divulgados pela ONU são verificados?
Não de forma independente. O OCHA atribui os números às autoridades de Gaza, que são controladas pelo Hamas. Em maio de 2024, o próprio OCHA advertiu que a ONU ainda não tinha números independentes, completos e verificados de mortos. Os totais também não separam civis de membros de grupos terroristas.
O total de mortos em Gaza mudou com a revisão da ONU em 2024?
Não. Farhan Haq e Jens Laerke, da ONU, afirmaram que o total geral relatado continuou o mesmo, cerca de 35 mil em maio de 2024. O que mudou foi a divisão por sexo e idade, que passou a cobrir só os 24.686 mortos identificados. O total segue sendo o número divulgado pelas autoridades do Hamas.
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