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O êxodo esquecido: os judeus dos países árabes e do Irã

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Foto: Imigrantes em 1951. GPO photographer · Public domain · Wikimedia Commons
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Entre o fim dos anos 1940 e os anos 1970, cerca de 800 mil a 900 mil judeus deixaram países árabes e o Irã, onde suas comunidades viviam havia mais de 2.000 anos. Muitos saíram depois de pogroms, prisões, perda de cidadania e confisco de bens. Israel acolheu a maioria como cidadãos. Por ser pouco lembrado, o episódio ficou conhecido como “o êxodo esquecido”.

Quem são os judeus mizrahim?

Mizrahim são os judeus de origem oriental, vindos do Oriente Médio, do Norte da África e do Irã. Suas comunidades existiam nessas terras havia 2.000 a 2.500 anos, muito antes do surgimento do islã e da conquista árabe.

Na história de Israel, costuma-se falar de três grandes origens:

  • judeus orientais (mizrahim), das comunidades do Iraque, Iêmen, Síria, Irã e outros países da região;
  • sefarditas, presentes sobretudo no Norte da África e no Mediterrâneo;
  • judeus de origem europeia, que incluíam os sobreviventes do Holocausto que chegaram a Israel no mesmo período.

Hoje, mais da metade da população judaica de Israel descende das comunidades mizrahim e sefarditas, que encontraram no Estado judeu seu abrigo definitivo. Sem a história do êxodo, não se entende o Israel de hoje.

De quais países os judeus foram expulsos ou forçados a sair?

Os maiores êxodos ocorreram no Iraque, Iêmen, Egito, Líbia, Síria, Marrocos, Tunísia, Argélia e Irã. O governo de Israel fala em cerca de 800 mil judeus expulsos ou obrigados a sair a partir de 1948. Outras estimativas vão de 850 mil a 900 mil, conforme o período e a definição adotada.

A tabela traz estimativas da população judaica antes do êxodo e da que restava por volta de 1950:

PaísAntes do êxodoPor volta de 1950Destino principal
Marrocos265 mil50 milIsrael, França e Canadá
Argélia140 mil1,5 milFrança e Israel
Iraque135 mil2,5 milIsrael
Tunísia105 mil10 milFrança e Israel
Egito75 mil1 milIsrael, França e outros
Iêmen63 mil500Israel
Líbia38 mil100Israel e Itália
Síria30 mil4 milIsrael, Américas e Europa
Irã80 mil a 100 milcomunidade ainda numerosaIsrael, EUA e Europa

Os casos não são idênticos. No Iraque, no Egito e na Líbia houve leis, prisões e confiscos contra judeus. Na Argélia, a maioria partiu para a França após a independência de 1962, no colapso da ordem colonial. No Irã, a saída em massa veio só depois de 1979. Hoje restam menos de 5.000 judeus somando todos os países árabes. Segundo o governo de Israel, o resultado foi a quase eliminação dessas comunidades antigas.

O que aconteceu com os judeus do Iraque?

A comunidade judaica do Iraque, uma das mais importantes do mundo, foi quase extinta em pouco mais de uma década. O processo combinou violência, leis discriminatórias e confisco.

  • Farhud (1º e 2 de junho de 1941): pogrom em Bagdá durante o feriado de Shavuot, no colapso do governo pró-nazista de Rashid Ali al-Gaylani. Houve propaganda nazista e atuação do Mufti Haj Amin al-Husseini. As estimativas de mortos variam: as mais citadas falam em cerca de 180, e outras chegam a 300. Houve mais de 2.000 feridos, além de saques e estupros. O Farhud ocorreu sete anos antes da criação de Israel.
  • Julho de 1948: o sionismo passou a ser crime no código penal iraquiano, com penas de sete anos de prisão até a morte.
  • Março de 1950: lei autorizou os judeus a sair do país desde que renunciassem à cidadania.
  • 10 de março de 1951: um dia depois do fim do prazo de saída, a Lei nº 5 congelou e confiscou imóveis, contas bancárias e negócios de quem havia perdido a nacionalidade.
  • Operação Esdras e Neemias (1950–1951): ponte aérea que levou a Israel entre 120 mil e 125 mil judeus iraquianos (algumas fontes falam em 104 mil). Muitos levaram só malas de roupa e pouco dinheiro.
  • 27 de janeiro de 1969: o regime Baath enforcou publicamente 9 judeus sob falsas acusações de espionagem. Os últimos remanescentes fugiram nos anos 1970.

O Knesset e órgãos do governo israelense descrevem o caso como desnaturalização acompanhada de perda patrimonial.

Quem expulsou os judeus do Egito e de outros países árabes?

No Egito, foi o próprio governo militar que prendeu, expulsou e confiscou os bens dos judeus, sobretudo após a Crise de Suez de 1956. Em 1954, o regime decretou estado de sítio e prendeu sem acusação formal pelo menos 900 judeus. Leis de 1952 e 1956 impuseram cotas de funcionários egípcios e levaram à demissão de judeus a quem a cidadania era negada. Entre 1956 e 1958, cerca de 23 mil a 25 mil judeus foram expulsos, e muitos foram obrigados a assinar declarações de abandono de bens.

Nos outros países, o padrão se repetiu com variações:

  • Síria: em janeiro de 1949, as economias bancárias dos judeus foram congeladas. Em abril de 1950, casas e lojas em Aleppo e Qamishli foram confiscadas. Os que ficaram tinham limites para viajar e vender bens.
  • Líbia: pogroms em Trípoli em 1945 e 1948. Uma lei de cidadania de 1951 restringiu direitos de não muçulmanos, e o conselho comunitário judaico foi dissolvido em 1958. Depois dos distúrbios de 1967, praticamente todos saíram.
  • Iêmen e Áden: pogrom em Áden em 1947, discriminação legal e cobranças na viagem até os pontos de embarque. A Operação Tapete Mágico (1949–1950) levou entre 44 mil e 49 mil judeus a Israel por via aérea, com fome, doenças e mortes no caminho.
  • Marrocos: distúrbios e saques em Oujda e Jerada em 7 e 8 de junho de 1948.

A crítica é a governos e a políticas concretas, não a povos. Muitos vizinhos árabes conviveram com essas comunidades durante séculos.

Por que os judeus do Irã deixaram o país?

A maioria dos judeus iranianos saiu depois da Revolução Islâmica de 1979, não em 1948. Antes da revolução, a comunidade tinha entre 80 mil e 100 mil pessoas e vivia um período de direitos civis e prosperidade sob o regime Pahlavi.

Com o regime do aiatolá Khomeini, isso acabou. Em maio de 1979, os Guardiões da Revolução executaram o empresário e líder comunitário Habib Elghanian, acusado de espionar para Israel e os Estados Unidos. A execução virou o marco da hostilidade. O regime confiscou bens e propriedades, e dezenas de milhares de judeus deixaram o país, sobretudo rumo a Israel e aos Estados Unidos. Hoje restam entre 5.000 e 8.000 judeus no Irã.

Como o calendário é outro, somar todos os judeus iranianos ao êxodo árabe de 1948 a 1967 seria impreciso. Por isso Israel fala em judeus “dos países árabes e do Irã”.

O êxodo judaico tem relação com o conflito entre árabes e israelenses?

Sim. Governos árabes transformaram seus cidadãos judeus em alvo depois da votação da partilha na ONU e da criação de Israel. Mas a perseguição começou antes, como mostra o Farhud de 1941.

  • Em 28 de novembro de 1947, na Assembleia Geral da ONU, o chanceler iraquiano Fadil Jamali avisou que as relações entre judeus e árabes no mundo islâmico se deteriorariam gravemente se a partilha fosse aprovada.
  • Em 16 de maio de 1948, o New York Times noticiou que 900 mil judeus no mundo islâmico corriam grave perigo.
  • Em maio de 1948, o Comitê Político da Liga Árabe recomendou aos Estados membros tirar a cidadania de seus judeus, congelar suas contas e confiscar seus bens.

Historiadores debatem o peso de cada fator. Distinguem expulsões formais, fuga por violência, migração econômica e partidas por adesão ao sionismo. Esse debate não muda o essencial. Leis de confisco e de perda de cidadania foram política de Estado, como descreve também a Agência Federal de Educação Cívica da Alemanha.

“Só os palestinos foram refugiados”? É falso. Cerca de 700 mil árabes palestinos fugiram ou foram expulsos na guerra de 1948, segundo a Reuters. O governo de Israel fala em cerca de 720 mil palestinos e cerca de 800 mil judeus, segundo seu documento Quest for Peace. O ACNUR reconheceu, em 1957, os judeus em fuga do Egito como refugiados sob seu mandato. Em 1967, reconheceu como refugiados prima facie os deslocados de vários países árabes. Na leitura israelense, a Resolução 242 do Conselho de Segurança, de 1967, fala em “solução justa para o problema dos refugiados” sem distinguir árabes de judeus.

A dor dos refugiados palestinos é real. Os dois êxodos não foram idênticos, e sofrimento não se compensa. A grande diferença está no que veio depois. Israel deu cidadania aos refugiados judeus. Os governos árabes recusaram integrar os refugiados palestinos. A UNRWA começou em 1950 com cerca de 750 mil pessoas e hoje considera elegíveis cerca de 5,9 milhões, porque o status passa aos descendentes.

Como Israel recebeu esses refugiados e como o êxodo é lembrado?

Israel absorveu a maioria dos judeus que deixaram os países árabes e o Irã. Um documento oficial israelense fala em cerca de 70%; outras estimativas falam em dois terços. Entre 1948 e 1951, a população do novo Estado quase dobrou, com sobreviventes do Holocausto e refugiados do mundo árabe chegando ao mesmo tempo.

A acolhida foi difícil. Muitos foram instalados em maabarot, campos de trânsito com tendas e barracas. Havia superlotação, falta de água, problemas sanitários e desemprego. Algumas maabarot viraram cidades. Houve também desigualdades e tensões com instituições dirigidas em grande parte por elites de origem europeia, uma ferida que a sociedade israelense ainda debate.

Os bens deixados para trás nunca foram devolvidos. As organizações de refugiados JJAC e WOJAC estimam as perdas entre 100 e mais de 150 bilhões de dólares. Outras análises falam em dezenas de bilhões. As estimativas variam conforme o método.

Em 23 de junho de 2014, o Knesset aprovou a lei que criou o Dia de Lembrança da Saída e Expulsão dos Judeus dos Países Árabes e do Irã, celebrado em 30 de novembro. A data vem logo depois de 29 de novembro de 1947, dia da votação da partilha na ONU. O Ministério da Educação de Israel usa a data para preservar a história e a cultura dessas comunidades.

Linha do tempo

  1. 1941Farhud: pogrom contra judeus em Bagdá, em 1º e 2 de junho.
  2. 1945Pogrom contra judeus em Trípoli, na Líbia.
  3. 1947Chanceler iraquiano adverte na ONU contra a partilha. Pogrom em Áden.
  4. 1948Liga Árabe recomenda confiscar bens de judeus. Iraque criminaliza o sionismo. Distúrbios em Oujda e Jerada e novo pogrom em Trípoli.
  5. 1949Síria congela economias bancárias de judeus. Começa a Operação Tapete Mágico, do Iêmen.
  6. 1950Lei iraquiana condiciona a saída à renúncia da cidadania. Começa a Operação Esdras e Neemias. Síria confisca propriedades judaicas.
  7. 1951Iraque confisca os bens dos judeus que perderam a nacionalidade.
  8. 1954Egito prende sem acusação ao menos 900 judeus.
  9. 1956Crise de Suez: expulsões e confiscos em massa no Egito.
  10. 1957ACNUR reconhece os judeus em fuga do Egito como refugiados.
  11. 1962Independência da Argélia. A maioria dos judeus parte para a França.
  12. 1967Distúrbios na Líbia esvaziam a comunidade. ACNUR reconhece deslocados judeus como refugiados prima facie.
  13. 1969Regime Baath enforca 9 judeus em Bagdá e Basra.
  14. 1979Revolução Islâmica no Irã e execução de Habib Elghanian.
  15. 2014Knesset institui o dia 30 de novembro como data de lembrança.

Perguntas frequentes

Quem são os judeus mizrahi?
São os judeus de origem oriental, de comunidades do Oriente Médio, do Norte da África e do Irã, como as do Iraque, Iêmen, Síria e Egito. Essas comunidades existiam havia mais de 2.000 anos. Depois do êxodo do século 20, a maioria foi para Israel. Hoje, mais da metade da população judaica israelense descende de mizrahim e sefarditas.
Quem expulsou os judeus do Egito?
O governo militar egípcio. Em 1954, ele prendeu sem acusação ao menos 900 judeus. Após a Crise de Suez, em 1956, promoveu expulsões em massa e confiscou empresas, imóveis e contas bancárias. Entre 1956 e 1958, cerca de 23 mil a 25 mil judeus foram expulsos. Em 1957, o ACNUR reconheceu esses judeus como refugiados sob seu mandato.
Os brasileiros são descendentes de judeus?
Uma parte da comunidade judaica brasileira descende justamente desse êxodo. Cerca de um terço dos judeus que deixaram os países árabes e o Irã não foi para Israel. Eles seguiram para a Europa e as Américas, incluindo o Brasil. Muitas famílias judias brasileiras têm origem no Egito, na Síria, no Iraque, no Iêmen e no Marrocos.
Os palestinos foram os únicos refugiados do conflito?
Não. Cerca de 700 mil árabes palestinos fugiram ou foram expulsos em 1948. Entre o fim dos anos 1940 e os anos 1970, cerca de 800 mil a 900 mil judeus deixaram países árabes e o Irã, muitos perseguidos e sem seus bens. O ACNUR reconheceu como refugiados os judeus que fugiram do Egito e os deslocados de vários países árabes. Israel os integrou como cidadãos, por isso não existem campos para seus descendentes.

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