JJOJuventude JudaicaOrganizada
Cerimônia dos dez anos da Universidade Hebraica no anfiteatro do Monte Scopus
Início › Aja › Antissemitismo na universidade: direitos e caminhos para estudantes
Aja

Antissemitismo na universidade: direitos e caminhos para estudantes

Leitura: 7 minFontes: 11
Foto: Cerimônia dos dez anos da Universidade Hebraica no anfiteatro do Monte Scopus. Zoltan Kluger · Public domain · Wikimedia Commons
Nesta página
Resposta curta

Estudantes judeus no Brasil têm direito de estudar sem ameaça, assédio ou discriminação. A Constituição veda o racismo, a Lei 7.716/1989 pune quem impede matrícula ou ingresso de aluno por religião ou etnia, e o STF reconhece o antissemitismo como racismo. Diante de um caso, guarde provas e registre na ouvidoria. Se houver crime, faça boletim de ocorrência e procure o Ministério Público, a Conib ou a federação israelita.

O que é antissemitismo no ambiente universitário?

Antissemitismo na universidade é hostilizar, excluir ou ameaçar alguém por ser judeu, o que inclui atacá-lo como se ele respondesse pelo Estado de Israel. A JJO adota a definição de trabalho da IHRA, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, que diversos governos e instituições também adotaram.

A definição descreve o antissemitismo como uma determinada percepção dos judeus, que pode se manifestar como ódio contra eles. Entre os exemplos que ela lista estão:

  • responsabilizar os judeus coletivamente pelas ações do Estado de Israel;
  • negar ao povo judeu o direito à autodeterminação (negar o direito de Israel existir);
  • aplicar a Israel padrões que não se cobram de nenhum outro país;
  • acusar judeus de dupla lealdade.

No campus, isso aparece de formas concretas. Há quem cobre de um colega judeu o que faz o governo israelense, quem exija que ele condene Israel para ser aceito e quem use "sionista" como substituto de "judeu". Slogans contra judeus, a glorificação do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023 e símbolos nazistas também entram nessa lista.

A própria IHRA reconhece um limite: criticar Israel como se critica qualquer outro Estado não é, por si só, antissemitismo. O Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), de Israel, faz a mesma distinção. Discordar de uma decisão do governo de Israel faz parte do debate; tratar judeus como culpados ou inimigos é preconceito. Para avaliar um caso, contam o contexto, o alvo, a linguagem, a conduta e o efeito.

O antissemitismo nos campi aumentou depois de 7 de outubro?

Sim. Depois do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, os incidentes antissemitas em universidades dispararam em vários países.

Nos Estados Unidos, a Anti-Defamation League (ADL) registrou 732 incidentes em campi entre 7 de outubro e o fim de 2023, número 1.062% maior que o do mesmo período de 2022. Segundo a entidade, 84% desses casos tinham ligação com Israel, com o sionismo ou com a causa palestina. Os dados correspondem a registros de incidentes denunciados e não equivalem a sentenças judiciais. Em outro estudo da ADL, estudantes de quase metade das instituições pesquisadas relataram ter vivido ou presenciado algum incidente antissemita.

O governo americano também reagiu:

  • em dezembro de 2023, o Congresso convocou para audiências os reitores de Harvard, UPenn e MIT;
  • até março de 2025, o Office for Civil Rights do Departamento de Educação tinha aberto investigações contra mais de 60 universidades;
  • no caso Frankel v. Regents of the University of California, um tribunal federal concedeu liminar em favor de estudantes judeus, uma medida provisória que ainda não é decisão final de mérito.

Uma análise acadêmica de 2025 descreve as universidades americanas como centros de protestos, acampamentos e ocupações. Algumas cancelaram aulas, adotaram ensino remoto ou reduziram formaturas.

PaísFontePeríodoIncidentes em universidades
Estados UnidosADL7/10 a 31/12/2023732
Reino UnidoCommunity Security Trust (CST)ano letivo 2022/2353
Reino UnidoCommunity Security Trust (CST)ano letivo 2023/24272
AlemanhaBundesverband RIAS2023151
AlemanhaBundesverband RIAS2024450
AlemanhaBundesverband RIAS2025410

No Reino Unido, só em outubro de 2023 o CST contou 85 incidentes universitários. Na Alemanha, a RIAS registrou casos em 56 cidades em 2024, e uma pesquisa da Universidade de Constança, encomendada pelo Ministério da Educação alemão, mostrou que cerca de 40% das direções universitárias enfrentaram incidentes antissemitas ou protestos extremistas.

Há casos de antissemitismo em universidades brasileiras?

Sim. Há episódios denunciados no Brasil, e os registros gerais de antissemitismo cresceram muito depois de 7 de outubro.

Segundo a Conib e a Fisesp, citadas pela Gazeta do Povo, as denúncias subiram mais de 1.000% no primeiro mês após o ataque. Em 2023, as entidades contaram 1.788 denúncias, alta de 350% em relação a 2022. Esses números somam ameaças, agressões, vandalismo e manifestações virtuais, sem se restringir às universidades.

Alguns episódios ligados ao ensino superior:

  • Na USP, em 24 de abril de 2025, cartazes com a frase "Sionista não é professor" apareceram na Faculdade de Direito, segundo o Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil. O veto ali recai sobre a identidade das pessoas, independentemente do que pensam. Como a maioria dos judeus apoia a existência de Israel, o alvo real é quase todo professor judeu.
  • Na UERJ, a mesma reportagem da Gazeta do Povo afirma que, em 2025, houve nas dependências da universidade um evento ligado à comemoração do 7 de outubro, com venda de camisetas do Hezbollah e broches do Hamas. Celebrar um massacre e o sequestro de reféns por um grupo terrorista fica fora do campo do debate político. Como o caso não tem confirmação oficial independente, ele aparece aqui como relato da imprensa.

Um padrão se repete: cobrar de estudantes e professores judeus brasileiros o que faz o governo de outro país. Judeus brasileiros são cidadãos brasileiros, que não votam em Israel nem comandam as Forças de Defesa de Israel. Pela IHRA, culpá-los coletivamente é antissemitismo.

Quais são os direitos do estudante judeu na universidade?

O estudante judeu tem direito de estudar, frequentar aulas e participar da vida acadêmica sem ameaça, discriminação ou assédio. A lei brasileira garante isso.

A Constituição protege, ao mesmo tempo:

  • a igualdade e a dignidade da pessoa humana (arts. 1º, III, e 5º);
  • a liberdade de consciência, crença e expressão (art. 5º, VI, VIII e IX);
  • a proibição do racismo (art. 5º, XLII);
  • a liberdade de ensinar e aprender e o pluralismo de ideias (art. 206, II e III);
  • a autonomia universitária (art. 207).

A Lei nº 7.716/1989 pune a discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. O art. 6º prevê reclusão de três a cinco anos para quem recusa, nega ou impede a matrícula ou o ingresso de aluno em instituição pública ou privada. O texto original está disponível na Câmara dos Deputados. No caso Ellwanger (HC 82.424/RS), o STF firmou que manifestações de ódio contra judeus são crime de racismo.

Os outros colegas também têm direitos, como o de protestar e o de criticar o governo israelense, mas nenhum direito é absoluto, e a liberdade de expressão não protege ameaça, perseguição, violência ou incitação. Criticar Israel não é crime, mas ameaçar um estudante judeu continua sendo grave, mesmo no meio de um protesto político.

Como denunciar antissemitismo na universidade?

Primeiro, guarde as provas. Depois, registre o caso nos canais da universidade e, se houver possível crime, também na polícia e no Ministério Público.

Guarde as provas:

  • capturas de tela com data, horário e endereço da página;
  • vídeos, áudios e fotos originais, sem edição;
  • nomes e contatos de testemunhas;
  • cartazes, mensagens, e-mails e comunicados da instituição;
  • um relato em ordem cronológica, objetivo e sem exageros;
  • o impacto do episódio nos estudos, na saúde ou na segurança.

Faça cópias e, quando possível, preserve os arquivos com seus metadados.

Na universidade, registre em um ou mais destes canais:

  • ouvidoria;
  • comissão de direitos humanos, diversidade ou igualdade;
  • coordenação do curso e direção da unidade;
  • pró-reitoria de assuntos estudantis;
  • corregedoria ou comissão disciplinar;
  • segurança do campus, se houver risco imediato.

Peça sempre número de protocolo, prazo de resposta e medidas de proteção. Nas universidades federais, a ouvidoria faz parte da rede de ouvidorias públicas.

Fora da universidade:

  • Polícia Civil, para registrar boletim de ocorrência;
  • Ministério Público, sobretudo em casos de discriminação coletiva, incitação ou omissão da instituição;
  • Defensoria Pública ou advogado;
  • Disque 100, para violações de direitos humanos;
  • polícia imediatamente, se houver ameaça concreta ou risco físico.

Interromper uma aula ou palestra pode violar as regras da instituição, mesmo quando não chega a ser crime. A classificação de cada caso exige análise jurídica individual.

Onde estudantes judeus encontram apoio?

Estudantes judeus podem contar com a Conib, com a federação israelita do seu estado e com o Hillel.

  • A Confederação Israelita do Brasil (Conib) monitora episódios antissemitas, publica relatórios, recebe denúncias e atua junto às autoridades.
  • A federação israelita do estado pode orientar sobre documentação, encaminhamento jurídico, contato com a universidade, apoio psicológico e comunitário e comunicação com as autoridades.
  • O Hillel apoia estudantes judeus em universidades, ajudando a localizar recursos, a dialogar com a instituição e a cuidar da segurança comunitária. A presença varia conforme a cidade e o campus.

Essas entidades apoiam e encaminham, mas não substituem a ouvidoria, o boletim de ocorrência ou o Ministério Público quando há possível crime.

No exterior, há modelos que ajudam a pensar o que cobrar das universidades. No Reino Unido, o CST e a Union of Jewish Students orientam alunos e permitem denúncias anônimas, para quem teme retaliação nas notas. Na Alemanha, 85% das universidades pesquisadas já têm pontos de apoio ou coordenadores dedicados ao combate ao antissemitismo, e em 2024 o Bundestag aprovou uma resolução que cobra das universidades uma ação firme contra o problema.

A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião. Estudantes árabes, palestinos e muçulmanos têm os mesmos direitos, e o que se combate é a conduta discriminatória, nunca a origem de quem protesta.

Quantos judeus vivem no Brasil?

No Censo de 2010, 107.329 pessoas se declararam judias, segundo o IBGE.

Para o Censo de 2022, uma reportagem falou em cerca de 100 mil judeus, número que ainda não aparece confirmado na tabela oficial. Por isso, há duas referências: o dado oficial de 2010 e a estimativa jornalística de 2022.

A comunidade é pequena diante da população do país, o que ajuda a explicar por que um estudante judeu pode se sentir isolado quando é o único da turma cobrado pelo que faz um governo estrangeiro. Esses estudantes são brasileiros, têm opiniões diversas sobre Israel e sobre o governo israelense, e nenhum deles responde pelas decisões das Forças de Defesa de Israel.

Linha do tempo

  1. 1989Sancionada a Lei nº 7.716, que pune crimes de preconceito e, no art. 6º, impedir matrícula ou ingresso de aluno.
  2. 2023Ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro. Em seguida, os incidentes antissemitas em campi disparam nos EUA, no Reino Unido e na Alemanha.
  3. 2023Em dezembro, o Congresso dos EUA convoca para audiências os reitores de Harvard, UPenn e MIT.
  4. 2024Em 24 de janeiro, a Hillel da Cornell University recebe ameaças de ataque armado.
  5. 2024Em abril, estudantes judeus são bloqueados fisicamente durante acampamentos na Columbia e em Yale.
  6. 2024Em outubro, ativistas mascarados invadem e vandalizam a reitoria da Freie Universität Berlin.
  7. 2025Até março, o Departamento de Educação dos EUA abre investigações contra mais de 60 universidades.
  8. 2025Em 24 de abril, cartazes com a frase "Sionista não é professor" aparecem na Faculdade de Direito da USP.

Perguntas frequentes

Criticar Israel na universidade é antissemitismo?
Não, se a crítica for semelhante à feita a qualquer outro país, como deixa claro a definição da IHRA, adotada pela JJO. Vira antissemitismo quando se culpa judeus coletivamente pelas ações de Israel, quando se nega ao povo judeu o direito a um Estado ou quando se aplica a Israel um padrão que não se cobra de nenhum outro país.
Impedir um aluno judeu de participar de atividades é crime?
Pode ser. A Lei 7.716/1989 pune a discriminação por religião, etnia ou procedência nacional, e o art. 6º prevê reclusão de três a cinco anos para quem recusa, nega ou impede a matrícula ou o ingresso de aluno. O STF, no caso Ellwanger, reconheceu o antissemitismo como racismo. Cada caso exige análise jurídica individual.
O que fazer logo depois de sofrer antissemitismo no campus?
Preserve as provas originais: prints com data e endereço, vídeos, áudios e nomes de testemunhas. Registre o caso na ouvidoria e peça número de protocolo. Se houver ameaça ou risco, chame a segurança do campus e a polícia. Depois, procure o Ministério Público, a Defensoria, a Conib ou a federação israelita do seu estado.
Dizer "não vote em sionista" ou "sionista não é professor" é antissemitismo?
Sim, na avaliação da JJO, que aplica o critério da IHRA. O sionismo é o movimento de autodeterminação do povo judeu, e a maioria dos judeus apoia a existência de Israel, inclusive os críticos do governo. Vetar alguém por ser sionista mira quase todo judeu e nega ao povo judeu a autodeterminação. Debater as posições de alguém é legítimo; excluir pessoas pela identidade é discriminação.
Revisado pela equipe da JJO, atualizado em . Toda afirmação tem fonte. Encontrou um erro? Peça uma correção.