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O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, reúne-se com Philippe Lazzarini em novembro de 2023. Dois meses depois, os EUA pausaram o financiamento à UNRWA após as acusações de Israel.
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Como se fabrica uma mentira · Caso documentado

Funcionários da UNRWA no 7 de outubro: o que Israel mostrou e o que a ONU apurou

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Foto: O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, reúne-se com Philippe Lazzarini em novembro de 2023. Dois meses depois, os EUA pausaram o financiamento à UNRWA após as acusações de Israel.. U.S. Department of State · Public domain
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Em janeiro de 2024, Israel entregou à ONU acusações contra 12 funcionários da UNRWA ligados ao ataque do Hamas de 7 de outubro. A UNRWA demitiu funcionários, e a ONU acabou investigando 19 casos. Em 5 de agosto de 2024, o OIOS, órgão de supervisão interna da ONU, encontrou evidências de possível participação em nove casos, sem estabelecer publicamente a participação efetiva; nos outros dez, não havia provas ou elas eram insuficientes. Os nove foram demitidos. Em fevereiro, as FDI mostraram um túnel com servidores sob a sede da agência em Gaza, atribuído por elas ao Hamas. A investigação não concluiu que Israel inventou as acusações: encontrou indícios de possível participação em nove casos, sem estabelecer publicamente a participação efetiva.

Quando
De janeiro a outubro de 2024, com desdobramentos em 2025.
Onde
Gaza, sede da ONU em Nova York, governos doadores e Knesset.
O que se disse
Que Israel acusou funcionários da UNRWA sem provas e que a ONU desmentiu as acusações.
Quem espalhou
Sem autoria documentada no material. A tese aparece como leitura que trata a falta de provas entregues a uma comissão como prova de acusação falsa. A direção da UNRWA, por sua vez, destacou seus mecanismos de neutralidade e negou conhecimento do túnel, o que não equivale a dizer que as acusações eram falsas.
O que se provou
O OIOS encontrou evidências de possível participação em nove casos, sem estabelecer publicamente a participação efetiva, e os nove foram demitidos. Jornalistas viram o túnel com servidores sob a sede da UNRWA.
Quem corrigiu
A própria ONU, com a nota do OIOS de 5 de agosto de 2024, que não concluiu que as acusações eram falsas. A Reuters noticiou o resultado.
A correção chegou até onde?
Parcial. A maioria dos doadores retomou o financiamento, e várias questões seguem em disputa.

Qual é o contexto do caso UNRWA e 7 de outubro?

O caso começa muito antes de 2024. A UNRWA é a agência da ONU para os refugiados palestinos e emprega milhares de pessoas em Gaza. Segundo o governo de Israel, autoridades israelenses avisaram a direção da agência várias vezes, ao longo dos anos, que ela empregava membros de organizações terroristas em Gaza. O Ministério das Relações Exteriores de Israel enviou cartas com os nomes dos funcionários e pediu as demissões.

Casos anteriores mostram o problema. Suhail al-Hindi foi, ao mesmo tempo, membro do bureau político do Hamas, diretor de escola da UNRWA e presidente do sindicato de funcionários da agência em Gaza por vários anos. Fateh Sharif dirigiu escola da UNRWA e presidiu o sindicato de professores da agência no Líbano. Morto em setembro de 2024, foi homenageado publicamente pelo próprio Hamas como seu comandante militar no Líbano.

Em 7 de outubro de 2023, terroristas do Hamas invadiram o sul de Israel, mataram civis e levaram reféns para Gaza. Foi o Hamas que começou a guerra. Em 12 de outubro, segundo o comissário-geral Philippe Lazzarini, a UNRWA evacuou sua sede na Cidade de Gaza, depois da ordem israelense para deixar a cidade. Essa data volta ao caso quando se fala do túnel.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, reúne-se com Philippe Lazzarini em novembro de 2023. Dois meses depois, os EUA pausaram o financiamento à UNRWA após as acusações de Israel.
O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, reúne-se com Philippe Lazzarini em novembro de 2023. Dois meses depois, os EUA pausaram o financiamento à UNRWA após as acusações de Israel.Imagem: U.S. Department of State · Public domain
DocumentoThe connection between UNRWA and HamasGoverno de Israel, 2025-03-27

“Over the years, Israeli authorities alerted UNRWA's senior management several times that the agency employed members of terrorist organizations in Gaza. Israel's Ministry of Foreign Affairs (MFA) submitted letters with details of the implicated staff members and demanded their dismissal.”

“Ao longo dos anos, as autoridades israelenses alertaram a alta direção da UNRWA várias vezes de que a agência empregava membros de organizações terroristas em Gaza. O Ministério das Relações Exteriores de Israel (MFA) enviou cartas com detalhes dos funcionários implicados e exigiu sua demissão.”

Mostra, na palavra oficial do governo de Israel, que as acusações de janeiro de 2024 vieram depois de anos de alertas formais à agência.

O que Israel acusou e o que se disse em resposta?

Israel acusou funcionários da UNRWA de participar do massacre. No fim de janeiro de 2024, o governo israelense transmitiu à ONU e à UNRWA informações sobre 12 funcionários. Segundo Israel, eles participaram do ataque de 7 de outubro ou de atividades de grupos terroristas. Em 26 de janeiro de 2024, a UNRWA anunciou que havia demitido imediatamente alguns deles e que uma investigação seria aberta.

Entre os casos descritos por Israel:

  • Faisal Na'ami, assistente social da UNRWA. Segundo Israel, câmeras de segurança o registraram participando do sequestro do jovem Yonatan Samerano no kibutz Be'eri. O corpo de Yonatan foi levado para Gaza no carro dele.
  • Mohammad Abu Itiwi, funcionário da UNRWA que Israel identifica como comandante da força de elite Nukhba do Hamas. Segundo Israel, ele liderou o ataque a um abrigo de civis na Rota 232, perto de Re'im.

Israel foi além dos 12 nomes. Levantamentos citados por Israel, feitos com o cruzamento de cadastros de pessoal da UNRWA e arquivos do Hamas apreendidos na guerra, estimam que mais de 1.400 funcionários da agência em Gaza, cerca de 12% do total, pertenciam ao Hamas ou à Jihad Islâmica. Documentos de inteligência indicam que cerca de 15% dos diretores e vice-diretores de escolas da UNRWA em Gaza eram membros ativos de organizações terroristas. Esses números são avaliações de inteligência, sem verificação independente publicada.

A UNRWA tratou as demissões como medida cautelar e repetiu que seguia pedindo a Israel as evidências por trás das acusações. Pedir provas não é o mesmo que afirmar que as acusações eram falsas.

Como a versão de que Israel mentiu se espalhou?

O material disponível não documenta quem difundiu essa versão nem com que alcance. O que se pode examinar é o erro lógico por trás dela: a ausência de provas recebidas por uma comissão não demonstra que as acusações eram falsas.

Uma frase do relatório Colonna. O grupo de revisão registrou que Israel não havia fornecido à comissão provas para a alegação ampla de que um número significativo de funcionários pertencia a organizações terroristas. A frase descreve o que a comissão recebeu. O relatório não afirmou que as acusações eram mentira.

A leitura da própria UNRWA. O comissário-geral Philippe Lazzarini acolheu o relatório e destacou que ele recomendava melhorias, e não o desmantelamento da agência. A UNRWA passou a usá-lo como confirmação de seus sistemas de investigação e sanção. Essa é a posição da agência sobre si mesma, e não a conclusão independente da comissão. Sobre o túnel, Lazzarini disse em 10 de fevereiro de 2024 que a agência não sabia o que havia sob a sede e, em 13 de fevereiro, que soube das alegações pela imprensa.

A volta do dinheiro. Até o fim de maio de 2024, 14 doadores haviam revertido as suspensões. O governo britânico, ao retomar o financiamento em julho, explicou o motivo: confiança nas reformas de gestão prometidas pela UNRWA depois do relatório Colonna. A decisão olhava para a neutralidade futura da agência e não declarou falsa nenhuma acusação.

Sobre o risco de fixar uma ideia antes de verificá-la, veja o primeiro título e como a mentira se espalha.

Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA, fala na ONU em Genebra em dezembro de 2024. Ele negou que a agência soubesse do túnel atribuído ao Hamas pelas FDI sob sua sede em Gaza.
Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA, fala na ONU em Genebra em dezembro de 2024. Ele negou que a agência soubesse do túnel atribuído ao Hamas pelas FDI sob sua sede em Gaza.Imagem: Unknown authorUnknown author · CC BY 3.0
DocumentoUK to restart funding to UNRWAGoverno do Reino Unido (GOV.UK), 2024-07-19

“Following an independent review by Catherine Colonna and the subsequent action plan UNRWA has provided setting out detailed management reforms, the government is confident that UNRWA is taking action to ensure it meets the highest standards of neutrality.”

“Após uma revisão independente conduzida por Catherine Colonna e o subsequente plano de ação que a UNRWA apresentou, estabelecendo reformas detalhadas de gestão, o governo está confiante de que a UNRWA está tomando medidas para garantir que atenda aos mais altos padrões de neutralidade.”

Mostra que o Reino Unido retomou o dinheiro com base em reformas prometidas, sem declarar falsas as acusações de Israel.

O que as investigações e os documentos mostraram?

Houve três frentes, com objetos diferentes.

1. A investigação do OIOS (funcionários individuais). O Escritório de Serviços de Supervisão Interna da ONU começou com os 12 nomes de janeiro, e Israel acrescentou outros 7, num total de 19 funcionários. Em 5 de agosto de 2024, a ONU divulgou o resultado:

  • em 9 casos, as provas indicavam que os funcionários podem ter participado do ataque de 7 de outubro, e a UNRWA encerrou seus contratos;
  • em 9 casos, as provas foram consideradas insuficientes;
  • em 1 caso, nenhuma prova foi obtida.

O OIOS encontrou evidências de possível participação em nove casos, sem estabelecer publicamente a participação efetiva; nos outros dez, não havia provas ou elas eram insuficientes. A UNRWA usou linguagem cautelosa: nos nove casos, as provas poderiam indicar envolvimento "se autenticadas e corroboradas". O OIOS examinou apenas a participação no 7 de outubro e não tirou conclusões sobre filiação desses funcionários ao braço armado do Hamas. As identidades ficaram sob sigilo.

2. O relatório Colonna (neutralidade da agência). O secretário-geral da ONU criou o grupo em 5 de fevereiro de 2024, sob a ex-chanceler francesa Catherine Colonna, com três institutos nórdicos de direitos humanos. O mandato excluía investigar as acusações do 7 de outubro. O relatório, de 20 de abril de 2024, apontou que a UNRWA tinha regras de neutralidade mais elaboradas que as de entidades semelhantes, mas que persistiam sérios problemas:

  • triagem de pessoal insuficiente para detectar ligações com grupos armados;
  • sindicatos de funcionários altamente politizados, com facções que pressionavam a direção;
  • inspeções de prédios superficiais demais para impedir ou detectar uso militar;
  • livros didáticos das autoridades locais, usados nas escolas da UNRWA, com trechos de viés, discriminação ou incitação (veja o que ensinam as escolas e a TV oficial da Autoridade Palestina).

O relatório fez 50 recomendações em 8 áreas.

3. O túnel sob a sede. Em 10 de fevereiro de 2024, as FDI informaram ter achado, perto de uma escola da UNRWA, um poço de acesso a um túnel de cerca de 700 metros, a 18 a 20 metros de profundidade, que passava sob a sede da agência na Cidade de Gaza. Segundo as FDI, havia portas blindadas, uma sala de servidores e uma sala de infraestrutura elétrica. As FDI afirmaram que o local era um ativo de inteligência militar do Hamas, que cabos elétricos e de comunicação subiam para o prédio da UNRWA, que a energia vinha da infraestrutura da agência e que armas foram encontradas em instalações da UNRWA. Jornalistas levados ao local viram o túnel, a sala de servidores e a fiação, ou seja, confirmaram a estrutura e os equipamentos, não todas as conclusões sobre autoria, operação ou conhecimento da agência. A Associated Press registrou que as FDI não apresentaram prova definitiva de que o Hamas operava o local naquele momento. Sobre o uso de prédios civis por grupos armados, veja escudos humanos.

UN has been investigating 19 UNRWA staff who carried out October 7th massacreUN Watch · em inglês, com legendas em português

Áudio em outro idioma, com legendas. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Português.

Em coletiva da ONU, o porta-voz atualiza a investigação do OIOS sobre os 19 funcionários da UNRWA acusados por Israel, com o andamento dos 12 casos iniciais e dos 7 novos.

UN fires 9 UNRWA employees involved in Oct 7 Hamas attack on IsraelThe Economic Times · em inglês, com legendas em português

Áudio em outro idioma, com legendas. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Português.

O porta-voz do secretário-geral da ONU anuncia que o OIOS encontrou provas de possível participação de 9 funcionários da UNRWA no 7 de outubro e que seus contratos serão encerrados.

Quem corrigiu a versão de que Israel inventou tudo, e como?

A resposta mais clara veio de dentro da própria ONU. A nota do porta-voz do secretário-geral, de 5 de agosto de 2024, informou que em nove casos as provas indicavam possível participação no 7 de outubro. A UNRWA demitiu os nove. A Reuters noticiou no mesmo dia que nove funcionários "possivelmente" se envolveram no ataque. A investigação não concluiu que Israel inventou as acusações: encontrou indícios de possível participação em nove casos, sem estabelecer publicamente a participação efetiva; nos outros dez, não havia provas ou elas eram insuficientes. Isso basta para rejeitar a afirmação de que a ONU provou falsas as acusações, ainda que a autenticação e a corroboração dessas provas sigam ressalvadas.

Outros desdobramentos, de natureza distinta:

  • Homenagem do Hamas. Ao homenagear Fateh Sharif como seu comandante no Líbano, o Hamas apresentou como quadro militar seu um ex-diretor de escola e líder sindical da UNRWA.
  • Encaminhamento de suspeitas. O escritório do inspetor-geral da USAID, órgão do governo dos EUA, identificou e encaminhou mais de 100 nomes de funcionários ou ex-funcionários da UNRWA suspeitos de participação no 7 de outubro ou de filiação ao braço armado do Hamas. São suspeitas encaminhadas para apuração, não culpa comprovada.
  • Decisão política de financiamento. O Congresso dos EUA aprovou uma restrição legal que impediu novos recursos americanos à UNRWA por um período determinado. Os EUA foram o principal doador a não retomar as contribuições. Uma restrição de financiamento não confirma, por si só, a veracidade das acusações.

Israel respondeu com lei. Em 28 de outubro de 2024, o Knesset aprovou duas leis sobre a UNRWA. Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, elas retiram privilégios e imunidades da agência, proíbem contatos entre autoridades israelenses e a UNRWA e proíbem sua presença em território sob soberania israelense. O texto preserva a possibilidade de processos criminais contra funcionários da agência, inclusive pelo 7 de outubro. Israel sustenta que as medidas são necessárias para impedir atividades hostis. O secretário-geral da ONU reagiu no mesmo dia.

DocumentoStatement by the Secretary-General on the Knesset legislation on UNRWASecretário-Geral da ONU, 2024-10-28

“I am deeply concerned by the adoption today by the Knesset of Israel of two laws concerning the United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East (UNRWA), which, if implemented, would likely prevent UNRWA from continuing its essential work”

“Estou profundamente preocupado com a adoção hoje, pelo Knesset de Israel, de duas leis relativas à Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras para os Refugiados palestinos no Oriente Próximo (UNRWA), que, se implementadas, provavelmente impediriam a UNRWA de continuar seu trabalho essencial.”

Confirma pela própria ONU a data e o conteúdo da decisão do Knesset, tomada depois que o OIOS encontrou evidências de possível participação em nove casos, sem estabelecer publicamente a participação efetiva.

O que segue em disputa no caso da UNRWA?

Algumas questões seguem abertas, e esta página as apresenta com honestidade.

  • O grau de certeza do OIOS. A ONU disse que nove funcionários "podem ter participado". Não houve sentença judicial, e as provas não foram publicadas na íntegra. Quem afirma que os nove comprovadamente participaram vai além do que a ONU disse.
  • Os alertas de Israel. O relatório Colonna registrou que a UNRWA envia todo ano suas listas de funcionários a Israel e que, entre 2011 e o início de 2024, o governo israelense não notificou formalmente preocupações sobre nomes específicos dessas listas. O governo de Israel afirma o contrário: que alertou a direção da agência várias vezes e enviou cartas com nomes e pedidos de demissão.
  • O conhecimento da UNRWA sobre o túnel. As FDI ligaram os cabos à sede e afirmaram que a energia vinha da agência. Segundo o Times of Israel, Israel rebateu a negativa de Lazzarini dizendo que a agência sabia. Lazzarini negou conhecimento e pediu investigação independente, que disse ser inviável numa zona de guerra. Não há perícia independente publicada que resolva o ponto.
  • A escala da infiltração. A estimativa de mais de 1.400 funcionários ligados ao Hamas ou à Jihad Islâmica é avaliação de inteligência. O relatório Colonna disse não ter recebido de Israel provas da alegação ampla. A UNRWA e a ONU rejeitam a ideia de que a agência inteira seja controlada pelo Hamas.
  • As leis israelenses. A ONU e vários governos afirmam que elas podem violar obrigações humanitárias de Israel. Israel rejeita essa leitura. O material apresentado não estabelece uma decisão judicial definitiva sobre a compatibilidade dessas leis com as obrigações internacionais de Israel.

Alguns pontos estão estabelecidos. O túnel existe: jornalistas o viram, com servidores e cabos sob a sede. O OIOS encontrou evidências de possível participação em nove casos, sem estabelecer publicamente a participação efetiva, e os nove foram demitidos; nos outros dez, não havia provas ou elas eram insuficientes. O Hamas reivindicou como comandante um ex-diretor de escola da agência. A revisão Colonna, com mandato limitado e sem investigar o 7 de outubro, encontrou falhas graves de triagem, de inspeção e de ensino. E a frase "não recebemos provas" descreve o que chegou a uma comissão; ela não prova que as acusações eram falsas. As demais alegações permanecem contestadas e não foram resolvidas pelas provas públicas disponíveis.

Por que o caso da UNRWA importa hoje e que técnica ele ilustra?

O caso importa porque mostra a diferença entre o que uma apuração examinou e o que se diz que ela concluiu.

1. Trocar "não provado em público" por "provado falso". O relatório Colonna disse não ter recebido certas provas. Isso não equivale a dizer que Israel mentiu. Uma acusação que nunca foi comprovada em público continua sendo isso: nunca comprovada. Ela não vira mentira provada. O mesmo critério precisa valer para os números divulgados pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas.

2. Separar a reputação da agência das questões concretas. As FDI atribuem ao Hamas o túnel sob a sede da UNRWA; jornalistas confirmaram a estrutura e os equipamentos, não todas as conclusões sobre autoria, operação ou conhecimento da agência. O Hamas homenageou como comandante um ex-diretor de escola e líder sindical da UNRWA. Esses fatos merecem exame próprio, sem ser absorvidos pelo debate sobre a credibilidade da agência. Sobre o uso de prédios civis por grupos armados, veja escudos humanos.

O relatório da OIOS não é sentença judicial, e a revisão Colonna tem mandato distinto; ambos devem ser descritos segundo sua natureza e alcance. Quem cita um relatório deve dizer o que ele examinou e o que ficou fora dele.

Nada disso diz respeito aos refugiados palestinos que dependem de ajuda. A questão é quem usou a agência e seus prédios para fins armados, e o que a apuração pública conseguiu estabelecer sobre isso.

Alegações que circulam sem prova

  • “A ONU provou que as acusações de Israel contra a UNRWA eram falsas.” (Interpretação hipotética, sem circulação documentada no material: um erro de leitura do relatório Colonna a evitar.): O relatório Colonna não investigou o 7 de outubro e só registrou não ter recebido provas da alegação ampla. A investigação do OIOS concluiu que 9 funcionários podem ter participado do ataque.
  • “O relatório Colonna absolveu a UNRWA.” (Interpretação hipotética, sem circulação documentada no material: um erro de leitura a evitar.): O relatório apontou sérios problemas de neutralidade e fez 50 recomendações de correção.
  • “A ONU confirmou que 9 funcionários da UNRWA participaram diretamente do massacre.” (Interpretação hipotética, sem circulação documentada no material: um erro de leitura que exagera o resultado do OIOS.): A ONU disse que as provas indicavam que eles podem ter participado. Não houve sentença judicial nem publicação integral das provas.

Linha do tempo

  1. 7 de outubro de 2023Terroristas do Hamas atacam o sul de Israel, matam civis e levam reféns para Gaza.
  2. 12 de outubro de 2023A UNRWA evacua sua sede na Cidade de Gaza, segundo Philippe Lazzarini.
  3. Janeiro de 2024Israel entrega à ONU e à UNRWA informações sobre 12 funcionários ligados ao 7 de outubro.
  4. 26 de janeiro de 2024A UNRWA anuncia demissões e investigação. Os EUA pausam o financiamento. Ao todo, 16 doadores suspendem cerca de US$ 450 milhões.
  5. 5 de fevereiro de 2024O secretário-geral da ONU cria o grupo de revisão independente liderado por Catherine Colonna.
  6. 10 de fevereiro de 2024As FDI mostram o túnel de cerca de 700 metros, com sala de servidores, sob a sede da UNRWA em Gaza.
  7. 13 de fevereiro de 2024Lazzarini diz que a agência soube do túnel pela imprensa e pede investigação independente.
  8. 20 de abril de 2024O relatório Colonna é entregue: aponta sérios problemas de neutralidade e faz 50 recomendações.
  9. Fim de maio de 202414 doadores já haviam revertido as suspensões de financiamento.
  10. 19 de julho de 2024O Reino Unido anuncia a retomada do financiamento, com base no relatório Colonna e no plano de reformas da UNRWA.
  11. 5 de agosto de 2024O OIOS conclui que 9 dos 19 funcionários investigados podem ter participado do 7 de outubro. A UNRWA os demite.
  12. Setembro de 2024Morre Fateh Sharif, ex-diretor de escola da UNRWA no Líbano, homenageado pelo Hamas como seu comandante.
  13. 28 de outubro de 2024O Knesset aprova duas leis que encerram a presença e os contatos oficiais da UNRWA em território sob soberania israelense.
  14. 27 de março de 2025O governo de Israel publica o documento sobre a ligação entre a UNRWA e o Hamas.

Perguntas frequentes

A ONU confirmou que funcionários da UNRWA participaram do 7 de outubro?
Não confirmou participação efetiva; indicou possível envolvimento. Em 5 de agosto de 2024, o Escritório de Serviços de Supervisão Interna da ONU (OIOS) concluiu que as provas indicavam que 9 funcionários da UNRWA podem ter participado do ataque do Hamas. Nos outros dez casos, não havia provas ou elas eram insuficientes. A UNRWA encerrou os contratos dos nove. A ONU não publicou as provas na íntegra, e não houve julgamento criminal.
Quantos funcionários da UNRWA foram investigados e demitidos?
Israel acusou inicialmente 12 funcionários e depois apontou mais 7. O OIOS investigou os 19. Em 9 casos, as provas indicaram possível participação no 7 de outubro, e a UNRWA demitiu esses funcionários. Em 9 casos, as provas foram consideradas insuficientes. Em 1 caso, nenhuma prova foi obtida.
O que o relatório Colonna disse sobre a UNRWA?
O relatório, de abril de 2024, avaliou a neutralidade da agência e não investigou o 7 de outubro. Concluiu que a UNRWA tinha regras mais elaboradas que entidades semelhantes, mas sérios problemas na triagem de pessoal, sindicatos politizados, inspeções superficiais e livros didáticos com incitação. Fez 50 recomendações. Disse não ter recebido de Israel provas da alegação ampla de infiltração.
Havia mesmo um túnel do Hamas embaixo da sede da UNRWA em Gaza?
Havia um túnel. Em fevereiro de 2024, as FDI mostraram um túnel de cerca de 700 metros, com servidores e sala elétrica, sob a sede da UNRWA. Jornalistas confirmaram a estrutura e os equipamentos. As FDI afirmam que era um centro de inteligência do Hamas abastecido pela energia da agência; essas conclusões sobre autoria e operação não foram verificadas de forma independente. Lazzarini negou que a UNRWA soubesse da instalação.
Por que Israel aprovou leis contra a UNRWA?
Em 28 de outubro de 2024, o Knesset aprovou duas leis que retiram privilégios e imunidades da UNRWA, proíbem contatos de autoridades israelenses com a agência e sua presença em território sob soberania israelense. Israel sustenta que as medidas impedem atividades hostis, depois de anos de alertas sobre funcionários ligados ao Hamas. A ONU manifestou preocupação com as leis.
Fontes
  1. The connection between UNRWA and Hamas (Governo de Israel, 2025)
  2. Inside UNRWA facilities: weapons and underground Hamas intelligence asset (FDI, 10/02/2024)
  3. Inside the Hamas tunnel under UN headquarters (FDI)
  4. Lei sobre a UNRWA (Knesset)
  5. Note to Correspondents: investigação do OIOS sobre a UNRWA (ONU, 5 de agosto de 2024)
  6. Investigation completed: allegations of UNRWA staff participation in 7 October attacks (UNRWA, 5 de agosto de 2024)
  7. UNRWA terminates contracts of several employees and launches investigation (UNRWA, 26/01/2024)
  8. Relatório final da revisão independente sobre a neutralidade da UNRWA (Colonna, 20/04/2024)
  9. Secretário-geral nomeia grupo de revisão independente (ONU, 5 de fevereiro de 2024)
  10. Statement by the Secretary-General on the Knesset legislation on UNRWA (ONU, 28/10/2024)
  11. UK to restart funding to UNRWA (GOV.UK, 19/07/2024)
  12. UNRWA: financiamento e restrições dos EUA (Congressional Research Service)
  13. Nine UNRWA staff members were possibly involved in Oct. 7 attack (Reuters, 5 de agosto de 2024)
  14. Israel mostra túneis sob a sede da UNRWA em Gaza (AP, reproduzida pela NPR, 10/02/2024)
  15. UNRWA head says agency was in dark about Hamas center under Gaza HQ; Israel: you knew (Times of Israel)
  16. Hamas data center found under UNRWA headquarters (FDD)
  17. UNRWA: posição do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha (29/10/2024)

Imagens: Wikimedia Commons, em domínio público ou licença livre, com o crédito de cada uma na legenda. Documentos: trecho literal conferido no original, com cópia arquivada.

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