O Hamas é um grupo terrorista islamista palestino. Ahmed Yassin o fundou em dezembro de 1987 como braço da Irmandade Muçulmana. Sua carta de 1988 prega a destruição de Israel e contém propaganda antissemita. O grupo governa a Faixa de Gaza desde 2007, quando a tomou à força. Em 7 de outubro de 2023, matou cerca de 1.200 pessoas em Israel e sequestrou centenas de reféns.
Quem criou o Hamas e quando?
O Hamas foi criado em dezembro de 1987 pelo xeque Ahmed Yassin e outros islamistas palestinos, como ramo palestino da Irmandade Muçulmana. O nome é a sigla árabe de Harakat al-Muqawama al-Islamiyya, ou Movimento de Resistência Islâmica.
A estrutura veio antes do nome. Em 1973, Yassin fundou em Gaza a associação al-Mujamma' al-Islami (Centro Islâmico). A entidade montou uma rede de clínicas, escolas, creches e mesquitas, que serviu de base comunitária e de recrutamento. A Irmandade Muçulmana, movimento fundado no Egito em 1928, já atuava entre os palestinos desde as décadas de 1930 e 1940.
A Primeira Intifada começou em 9 de dezembro de 1987. Yassin e seus colaboradores transformaram então essa rede no Hamas. O primeiro comunicado com o nome do grupo saiu em 14 de dezembro de 1987. O artigo 2 da carta de 1988 diz que o Hamas é uma ala da Irmandade Muçulmana na região.
Israel criou o Hamas? A frase circula muito e é enganosa. Ela parte de fatos reais:
- Em 1978 e 1979, a administração militar israelense registrou a rede de Yassin como entidade religiosa e assistencial. Naquela época, a ameaça vinha da OLP e do Fatah. O instituto israelense INSS reconhece que essa rede operou sob observação israelense e, às vezes, com encorajamento. Foi um erro de avaliação.
- Governos de Netanyahu permitiram, antes de 2023, repasses do Catar a Gaza. Netanyahu afirma que os serviços de segurança recomendaram a medida e que esse dinheiro não financiou o 7 de outubro.
Tolerar e permitir não é criar. Não há prova de ordem israelense para fundar o Hamas nem de financiamento direto do braço armado. Israel combateu o grupo por décadas. Prendeu Yassin em 1984 e em 1989, declarou o Hamas ilegal, deportou 415 operativos em 1992 e eliminou Yassin em 2004.
O que o Hamas defende?
O Hamas defende a destruição de Israel e a criação de um Estado islâmico em todo o território entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. Essa meta está na sua carta de fundação (Mithaq), publicada em 18 de agosto de 1988. O texto pode ser lido na tradução do Avalon Project, da Universidade Yale.
Pontos centrais da carta:
- Trata todo o território como waqf, propriedade religiosa islâmica que jamais pode ser cedida.
- Define a jihad armada como único caminho e como dever religioso.
- Artigo 7: cita uma tradição religiosa sobre matar judeus escondidos atrás de pedras e árvores.
- Artigo 13: rejeita iniciativas de paz, conferências internacionais e negociações.
- Artigo 22: acusa os judeus de acumular riquezas, controlar a imprensa e provocar revoluções e guerras.
- Artigo 28: afirma que “Israel, o judaísmo e os judeus desafiam o islã”.
- Artigo 32: cita os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação antissemita usada pela propaganda nazista.
A análise oficial do governo de Israel documenta essas formulações. Em discurso no Yad Vashem, Netanyahu disse que a carta “lê como os Protocolos dos Sábios de Sião”.
O documento de 2017 mudou alguma coisa? Em 1º de maio de 2017, em Doha, o Hamas publicou o Documento de Princípios Gerais e Políticas. O texto aceita um Estado nas linhas de 4 de junho de 1967 como “fórmula de consenso nacional”. No mesmo texto, porém, o grupo:
- não reconhece Israel;
- mantém a “resistência armada”;
- rejeita qualquer alternativa à “libertação total” do território “do rio ao mar”;
- não revoga a carta de 1988.
Khaled Mashaal disse que o grupo apoiaria esse Estado “sem reconhecer Israel” (Reuters). Ismail Haniyeh reafirmou a “escolha estratégica de não reconhecer Israel”. Para o Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), de Israel, mudaram a linguagem e a tática, não a ideologia.
Depois do 7 de outubro, o dirigente Ghazi Hamad disse à LBC que o grupo repetiria o ataque “de novo e de novo”. Perguntado se o objetivo era aniquilar Israel, respondeu: “sim, claro”.
A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA. Por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo, e o Hamas nega esse direito em 1988 e em 2017. A ADL resume que o grupo é antissionista e também antissemita.
Onde fica o Hamas e quem é o líder do grupo?
O Hamas tem sua base principal na Faixa de Gaza, mas mantém lideranças também em Judeia e Samaria, nas prisões e no exterior. A liderança externa já teve sedes em Amã, Damasco, Doha e Istambul e atua em países como Catar, Turquia e Líbano.
O grupo se organiza em três pilares:
- Liderança política: o Conselho Consultivo (Majlis al-Shura) e o Bureau Político tomam as decisões estratégicas.
- Braço armado: as Brigadas Izz ad-Din al-Qassam. Algumas fontes datam sua criação de 1991, outras situam o processo entre 1991 e 1992. O nome homenageia um pregador e militante religioso da década de 1930.
- Rede social (dawa): escolas, instituições de caridade e assistência, que arrecadam fundos e difundem a ideologia do grupo.
O fundador Ahmed Yassin rejeitava separar essas alas: “Não podemos separar a asa do corpo... o Hamas é um corpo único”.
Nomes que marcaram a liderança:
| Nome | Papel citado nas fontes |
|---|---|
| Ahmed Yassin | Fundador. Eliminado por Israel em 2004 |
| Khaled Mashaal | Apresentou o documento de 2017 |
| Ismail Haniyeh | Dirigente que reafirmou o não reconhecimento de Israel |
| Yahya Sinwar | Liderança política em Gaza no 7 de outubro. Autor do plano de invasão |
| Mohammed Deif | Comando militar no 7 de outubro |
Qual a diferença entre os palestinos e o Hamas?
Os palestinos são um povo. O Hamas é um grupo terrorista que governa Gaza à força. Confundir os dois é um erro, e quem mais sofre com ele são os próprios palestinos.
O Hamas também não é a única força política palestina:
- A Autoridade Palestina, dominada pelo Fatah e presidida por Mahmoud Abbas, administra partes de Judeia e Samaria.
- A OLP representa os palestinos nas negociações e nos acordos diplomáticos com Israel.
- O Hamas não reconheceu os acordos entre a OLP e Israel e manteve sua milícia fora do controle da Autoridade Palestina.
Sob o governo do Hamas, muitos palestinos sofrem repressão. O grupo reprime opositores, ativistas e jornalistas. Em 2009, atacou a mesquita Ibn Taymiyyah, em Rafah, num confronto que deixou 24 mortos.
Defender os palestinos não exige defender o Hamas. Inclui defender o direito deles de escolher outros líderes, um direito que o Hamas lhes tirou.
Como o Hamas tomou o controle de Gaza?
O Hamas venceu a eleição legislativa de 2006 e, em junho de 2007, tomou Gaza pelas armas, expulsando o Fatah e a Autoridade Palestina. Desde então, governa o território sem renovar o mandato.
Na eleição de 25 de janeiro de 2006, a lista do grupo, chamada “Mudança e Reforma”, ficou com a maioria das cadeiras. Mas não teve a maioria dos votos. Os números são da cronologia da ONU:
| Dado da eleição de 2006 | Hamas | Fatah |
|---|---|---|
| Cadeiras no Conselho Legislativo (de 132) | 74 | 45 |
| Votos nas listas nacionais | 440.409 | 410.554 |
Cerca de 1,035 milhão de eleitores votaram, com participação de aproximadamente 77,7%. O INSS registra que a vitória veio sobretudo dos distritos regionais e da insatisfação com a corrupção do Fatah, não da adesão à ideologia do Hamas.
Depois de vencer, o Hamas não renunciou ao terrorismo. Entre janeiro de 2006 e junho de 2007, mais de 600 palestinos morreram em combates entre facções. Só entre 7 e 14 de junho de 2007, mais de 160 foram mortos e pelo menos 700 ficaram feridos. O Hamas descreveu o episódio como resposta a conspirações. O Fatah e Israel o classificaram como tomada violenta do poder (INSS).
O mandato do Conselho Legislativo expirou sem nova eleição.
Qual o motivo da guerra entre Hamas e Israel?
A guerra atual começou em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas invadiu o sul de Israel por terra, mar e ar, matou cerca de 1.200 pessoas, em sua maioria civis, e sequestrou reféns. As estimativas sobre os sequestrados variam: algumas fontes falam em cerca de 240 reféns, outras em 251.
O ataque, chamado pelo Hamas de “Operação Dilúvio de Al-Aqsa”, teve o comando militar de Mohammed Deif e a liderança política local de Yahya Sinwar. Não foi improvisado. Documentos apreendidos pelas FDI em Gaza mostram um plano escrito por Sinwar em 24 de agosto de 2022. Ele detalhava a invasão de 223 vilas, kibutzim e cidades no sul de Israel. Terroristas do Hamas atacaram civis, em sua maioria judeus, dentro de suas casas.
Em resposta, Israel declarou guerra ao Hamas e iniciou a Operação Espadas de Ferro. Antes disso, o grupo já havia enfrentado Israel em grandes conflitos em 2008-2009, 2012, 2014 e 2021.
Ao longo de sua história, o Hamas usou estes métodos:
- atentados suicidas contra ônibus, restaurantes e outros alvos civis, sobretudo na Segunda Intifada (2000-2005);
- disparos de foguetes contra cidades israelenses;
- sequestros de militares e civis para troca de prisioneiros;
- uma extensa rede de túneis, que Israel chama de “metrô de Gaza”, usada para comando, armas, deslocamento e infiltração em Israel.
O Hamas usa hospitais, escolas, mesquitas e áreas residenciais para comando, armazenamento de armas e lançamento de foguetes. Israel documentou essa prática com imagens, achados militares e reportagens. O Hamas nega e alega que a localização de suas operações se deve à densidade urbana de Gaza. O sofrimento dos civis de Gaza é real. A guerra, porém, começou com o ataque do Hamas, e é o Hamas que instala sua estrutura militar no meio da população.
Quem financia o Hamas?
O Irã é o principal patrocinador financeiro e militar do Hamas, com repasses estimados entre US$ 70 milhões e US$ 100 milhões por ano. Avaliações israelenses e americanas apontam que o apoio inclui dinheiro, armas, tecnologia de foguetes e drones, explosivos e treinamento.
A Força Quds, da Guarda Revolucionária do Irã, coordena essa ajuda por meio da sua “Filial Palestina” (Unidade 2500), sob oficiais como Saeed Izadi.Nunca existiu um país chamado “Palestina”. O nome designava uma região e, de 1920 a 1948, o Mandato Britânico, cujos documentos eram usados por judeus e árabes. Entenda, com os documentos →
Outras fontes de recursos:
- impostos e extorsão sobre a população de Gaza;
- desvio de ajuda internacional;
- redes de ONGs e caridades no exterior;
- dinheiro do Catar, enviado para salários, combustível e serviços em Gaza.
Esses recursos fortaleceram indiretamente o Hamas, que controla Gaza e arrecada receitas sobre tudo o que entra no território. O Catar alega que sua ajuda é humanitária e coordenada com Israel, a ONU e outros atores.
Por que o Hamas é considerado terrorista e o que diz o Brasil?
Israel, Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido, Canadá, Austrália, Japão, Nova Zelândia e outros países designam o Hamas como organização terrorista. Os atentados suicidas e os ataques deliberados contra civis estão entre os principais motivos dessas designações.
O Conselho de Segurança da ONU condenou ataques contra civis, mas não mantém o Hamas numa lista geral equivalente às listas nacionais. Por isso, não existe uma classificação universal automática.
O Brasil condenou os ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023. Mesmo assim, não inclui formalmente o grupo numa lista nacional de organizações terroristas. O Itamaraty afirma que, nesse tema, o país segue as determinações do Conselho de Segurança da ONU (g1; CNN Brasil).
Há divergência dentro do próprio governo. Documentos do Ministério da Justiça e da Polícia Federal já chamaram o Hamas de terrorista (CNN Brasil; Metrópoles). A ausência de designação formal não equivale a aprovar as ações do grupo.
Linha do tempo
- 1928Fundação da Irmandade Muçulmana no Egito, matriz ideológica do Hamas.
- 1973Ahmed Yassin funda em Gaza a associação al-Mujamma' al-Islami (Centro Islâmico).
- 1978-1979A administração militar israelense registra a rede de Yassin como entidade religiosa e assistencial.
- 1984Israel prende Ahmed Yassin.
- 1987Em 9 de dezembro começa a Primeira Intifada. Em 14 de dezembro sai o primeiro comunicado com o nome Hamas.
- 1988Em 18 de agosto o Hamas publica sua carta, que prega a destruição de Israel.
- 1989Israel volta a prender Yassin.
- 1991-1992Criação das Brigadas Izz ad-Din al-Qassam, braço armado do grupo.
- 1992Israel deporta 415 operativos do Hamas.
- 2000-2005Na Segunda Intifada, o Hamas realiza atentados suicidas contra civis israelenses.
- 2004Israel elimina Ahmed Yassin.
- 2006Em 25 de janeiro o Hamas vence a eleição legislativa, com 74 de 132 cadeiras.
- 2007Em junho o Hamas toma Gaza pelas armas e expulsa o Fatah e a Autoridade Palestina.
- 2017Em 1º de maio sai o documento político que menciona as linhas de 1967, sem reconhecer Israel nem revogar a carta de 1988.
- 2022Em 24 de agosto Yahya Sinwar escreve o plano de invasão de 223 localidades no sul de Israel.
- 2023Em 7 de outubro o Hamas mata cerca de 1.200 pessoas em Israel e sequestra reféns. Israel declara guerra ao grupo.
Perguntas frequentes
Quem criou o grupo terrorista Hamas?
O Hamas aceitou Israel no documento de 2017?
O Brasil considera o Hamas um grupo terrorista?
O Hamas é só antissionista ou também antissemita?
Assista
William Daroff, da Conferência dos Presidentes das Principais Organizações Judaicas Americanas, fala à i24NEWS sobre o choque do 7 de outubro, a onda de antissemitismo nos EUA que veio logo depois, a união entre a diáspora e Israel e o perigo de slogans como 'globalizar a intifada', que custam vidas.
Adolescentes e adultosComentaristas relembram os 50 anos da Operação Entebbe, o resgate de reféns judeus e israelenses mantidos por terroristas palestinos em Uganda, e a morte heroica de Yoni Netanyahu. O vídeo também discute o princípio de que Israel não abandona seus reféns, à luz do 7 de outubro.
AdultosTambém em inglês: mais 2 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Omer Shem Tov, sequestrado pelos terroristas do Hamas na festa Nova em 7 de outubro, conta seus mais de 500 dias de cativeiro em Gaza: os túneis, a fome, o trabalho forçado, a recusa em detonar explosivos contra soldados israelenses e a fé que o sustentou até a libertação. O relato também revela a motivação religiosa do Hamas, distinguindo a organização terrorista dos muçulmanos em geral.
Adolescentes e adultosEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Eli Sharabi, sobrevivente do kibutz Be'eri, dá seu testemunho na ONU sobre o assassinato da esposa e das filhas pelos terroristas do Hamas em 7 de outubro e sobre os 491 dias que passou como refém acorrentado em túneis, faminto e espancado. Ele denuncia o desvio da ajuda humanitária pelo Hamas e pede a libertação de todos os reféns.
Adolescentes e adultos- Carta do Hamas de 1988 (tradução inglesa) – Avalon Project, Universidade Yale
- Análise da Carta do Hamas de 1988 – Governo de Israel
- Perfil do movimento Hamas – Governo de Israel
- Hamas: visão geral – Forças de Defesa de Israel
- Hamas says supports Palestinian state along 1967 borders – Reuters
- Leading Hamas official says no softened stance toward Israel – Reuters
- A brief history of Gaza's centuries of war – Reuters
- Documento do Hamas de 2017 – BBC
- Strategic Assessment: o documento do Hamas de 2017 – INSS
- O Hamas e as eleições da Autoridade Palestina – INSS
- A tomada de Gaza pelo Hamas – INSS
- De-Hamasification – INSS
- Cronologia das eleições legislativas palestinas de 2006 – ONU
- Entrevista de Ghazi Hamad sobre repetir o 7 de outubro – LBC
- Hamas and Israel – ADL
- Hamas in its own words – ADL
- What is Hamas? – Council on Foreign Relations
- Itamaraty: cabe à ONU definir repercussões políticas do Hamas – g1
- Brasil não classifica Hamas como terrorista pois segue determinações da ONU – CNN Brasil
- Em documento, Ministério da Justiça classifica Hamas como terrorista – CNN Brasil
- Ministério da Justiça chama Hamas de terrorista em documento interno – Metrópoles




