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O que é o Hamas?

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Foto: Estacionamento de Re'im e kibutz Be'eri em novembro de 2025. ישראל פרקר · CC BY 2.5 · Wikimedia Commons
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O Hamas é um grupo terrorista islamista palestino. Ahmed Yassin o fundou em dezembro de 1987 como braço da Irmandade Muçulmana. Sua carta de 1988 prega a destruição de Israel e contém propaganda antissemita. O grupo governa a Faixa de Gaza desde 2007, quando a tomou à força. Em 7 de outubro de 2023, matou cerca de 1.200 pessoas em Israel e sequestrou centenas de reféns.

Quem criou o Hamas e quando?

O Hamas foi criado em dezembro de 1987 pelo xeque Ahmed Yassin e outros islamistas palestinos, como ramo palestino da Irmandade Muçulmana. O nome é a sigla árabe de Harakat al-Muqawama al-Islamiyya, ou Movimento de Resistência Islâmica.

A estrutura veio antes do nome. Em 1973, Yassin fundou em Gaza a associação al-Mujamma' al-Islami (Centro Islâmico). A entidade montou uma rede de clínicas, escolas, creches e mesquitas, que serviu de base comunitária e de recrutamento. A Irmandade Muçulmana, movimento fundado no Egito em 1928, já atuava entre os palestinos desde as décadas de 1930 e 1940.

A Primeira Intifada começou em 9 de dezembro de 1987. Yassin e seus colaboradores transformaram então essa rede no Hamas. O primeiro comunicado com o nome do grupo saiu em 14 de dezembro de 1987. O artigo 2 da carta de 1988 diz que o Hamas é uma ala da Irmandade Muçulmana na região.

Israel criou o Hamas? A frase circula muito e é enganosa. Ela parte de fatos reais:

  • Em 1978 e 1979, a administração militar israelense registrou a rede de Yassin como entidade religiosa e assistencial. Naquela época, a ameaça vinha da OLP e do Fatah. O instituto israelense INSS reconhece que essa rede operou sob observação israelense e, às vezes, com encorajamento. Foi um erro de avaliação.
  • Governos de Netanyahu permitiram, antes de 2023, repasses do Catar a Gaza. Netanyahu afirma que os serviços de segurança recomendaram a medida e que esse dinheiro não financiou o 7 de outubro.

Tolerar e permitir não é criar. Não há prova de ordem israelense para fundar o Hamas nem de financiamento direto do braço armado. Israel combateu o grupo por décadas. Prendeu Yassin em 1984 e em 1989, declarou o Hamas ilegal, deportou 415 operativos em 1992 e eliminou Yassin em 2004.

O que o Hamas defende?

O Hamas defende a destruição de Israel e a criação de um Estado islâmico em todo o território entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. Essa meta está na sua carta de fundação (Mithaq), publicada em 18 de agosto de 1988. O texto pode ser lido na tradução do Avalon Project, da Universidade Yale.

Pontos centrais da carta:

  • Trata todo o território como waqf, propriedade religiosa islâmica que jamais pode ser cedida.
  • Define a jihad armada como único caminho e como dever religioso.
  • Artigo 7: cita uma tradição religiosa sobre matar judeus escondidos atrás de pedras e árvores.
  • Artigo 13: rejeita iniciativas de paz, conferências internacionais e negociações.
  • Artigo 22: acusa os judeus de acumular riquezas, controlar a imprensa e provocar revoluções e guerras.
  • Artigo 28: afirma que “Israel, o judaísmo e os judeus desafiam o islã”.
  • Artigo 32: cita os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação antissemita usada pela propaganda nazista.

A análise oficial do governo de Israel documenta essas formulações. Em discurso no Yad Vashem, Netanyahu disse que a carta “lê como os Protocolos dos Sábios de Sião”.

O documento de 2017 mudou alguma coisa? Em 1º de maio de 2017, em Doha, o Hamas publicou o Documento de Princípios Gerais e Políticas. O texto aceita um Estado nas linhas de 4 de junho de 1967 como “fórmula de consenso nacional”. No mesmo texto, porém, o grupo:

  • não reconhece Israel;
  • mantém a “resistência armada”;
  • rejeita qualquer alternativa à “libertação total” do território “do rio ao mar”;
  • não revoga a carta de 1988.

Khaled Mashaal disse que o grupo apoiaria esse Estado “sem reconhecer Israel” (Reuters). Ismail Haniyeh reafirmou a “escolha estratégica de não reconhecer Israel”. Para o Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), de Israel, mudaram a linguagem e a tática, não a ideologia.

Depois do 7 de outubro, o dirigente Ghazi Hamad disse à LBC que o grupo repetiria o ataque “de novo e de novo”. Perguntado se o objetivo era aniquilar Israel, respondeu: “sim, claro”.

A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA. Por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo, e o Hamas nega esse direito em 1988 e em 2017. A ADL resume que o grupo é antissionista e também antissemita.

Onde fica o Hamas e quem é o líder do grupo?

O Hamas tem sua base principal na Faixa de Gaza, mas mantém lideranças também em Judeia e Samaria, nas prisões e no exterior. A liderança externa já teve sedes em Amã, Damasco, Doha e Istambul e atua em países como Catar, Turquia e Líbano.

O grupo se organiza em três pilares:

  • Liderança política: o Conselho Consultivo (Majlis al-Shura) e o Bureau Político tomam as decisões estratégicas.
  • Braço armado: as Brigadas Izz ad-Din al-Qassam. Algumas fontes datam sua criação de 1991, outras situam o processo entre 1991 e 1992. O nome homenageia um pregador e militante religioso da década de 1930.
  • Rede social (dawa): escolas, instituições de caridade e assistência, que arrecadam fundos e difundem a ideologia do grupo.

O fundador Ahmed Yassin rejeitava separar essas alas: “Não podemos separar a asa do corpo... o Hamas é um corpo único”.

Nomes que marcaram a liderança:

NomePapel citado nas fontes
Ahmed YassinFundador. Eliminado por Israel em 2004
Khaled MashaalApresentou o documento de 2017
Ismail HaniyehDirigente que reafirmou o não reconhecimento de Israel
Yahya SinwarLiderança política em Gaza no 7 de outubro. Autor do plano de invasão
Mohammed DeifComando militar no 7 de outubro

Qual a diferença entre os palestinos e o Hamas?

Os palestinos são um povo. O Hamas é um grupo terrorista que governa Gaza à força. Confundir os dois é um erro, e quem mais sofre com ele são os próprios palestinos.

O Hamas também não é a única força política palestina:

  • A Autoridade Palestina, dominada pelo Fatah e presidida por Mahmoud Abbas, administra partes de Judeia e Samaria.
  • A OLP representa os palestinos nas negociações e nos acordos diplomáticos com Israel.
  • O Hamas não reconheceu os acordos entre a OLP e Israel e manteve sua milícia fora do controle da Autoridade Palestina.

Sob o governo do Hamas, muitos palestinos sofrem repressão. O grupo reprime opositores, ativistas e jornalistas. Em 2009, atacou a mesquita Ibn Taymiyyah, em Rafah, num confronto que deixou 24 mortos.

Defender os palestinos não exige defender o Hamas. Inclui defender o direito deles de escolher outros líderes, um direito que o Hamas lhes tirou.

Como o Hamas tomou o controle de Gaza?

O Hamas venceu a eleição legislativa de 2006 e, em junho de 2007, tomou Gaza pelas armas, expulsando o Fatah e a Autoridade Palestina. Desde então, governa o território sem renovar o mandato.

Na eleição de 25 de janeiro de 2006, a lista do grupo, chamada “Mudança e Reforma”, ficou com a maioria das cadeiras. Mas não teve a maioria dos votos. Os números são da cronologia da ONU:

Dado da eleição de 2006HamasFatah
Cadeiras no Conselho Legislativo (de 132)7445
Votos nas listas nacionais440.409410.554

Cerca de 1,035 milhão de eleitores votaram, com participação de aproximadamente 77,7%. O INSS registra que a vitória veio sobretudo dos distritos regionais e da insatisfação com a corrupção do Fatah, não da adesão à ideologia do Hamas.

Depois de vencer, o Hamas não renunciou ao terrorismo. Entre janeiro de 2006 e junho de 2007, mais de 600 palestinos morreram em combates entre facções. Só entre 7 e 14 de junho de 2007, mais de 160 foram mortos e pelo menos 700 ficaram feridos. O Hamas descreveu o episódio como resposta a conspirações. O Fatah e Israel o classificaram como tomada violenta do poder (INSS).

O mandato do Conselho Legislativo expirou sem nova eleição.

Qual o motivo da guerra entre Hamas e Israel?

A guerra atual começou em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas invadiu o sul de Israel por terra, mar e ar, matou cerca de 1.200 pessoas, em sua maioria civis, e sequestrou reféns. As estimativas sobre os sequestrados variam: algumas fontes falam em cerca de 240 reféns, outras em 251.

O ataque, chamado pelo Hamas de “Operação Dilúvio de Al-Aqsa”, teve o comando militar de Mohammed Deif e a liderança política local de Yahya Sinwar. Não foi improvisado. Documentos apreendidos pelas FDI em Gaza mostram um plano escrito por Sinwar em 24 de agosto de 2022. Ele detalhava a invasão de 223 vilas, kibutzim e cidades no sul de Israel. Terroristas do Hamas atacaram civis, em sua maioria judeus, dentro de suas casas.

Em resposta, Israel declarou guerra ao Hamas e iniciou a Operação Espadas de Ferro. Antes disso, o grupo já havia enfrentado Israel em grandes conflitos em 2008-2009, 2012, 2014 e 2021.

Ao longo de sua história, o Hamas usou estes métodos:

  • atentados suicidas contra ônibus, restaurantes e outros alvos civis, sobretudo na Segunda Intifada (2000-2005);
  • disparos de foguetes contra cidades israelenses;
  • sequestros de militares e civis para troca de prisioneiros;
  • uma extensa rede de túneis, que Israel chama de “metrô de Gaza”, usada para comando, armas, deslocamento e infiltração em Israel.

O Hamas usa hospitais, escolas, mesquitas e áreas residenciais para comando, armazenamento de armas e lançamento de foguetes. Israel documentou essa prática com imagens, achados militares e reportagens. O Hamas nega e alega que a localização de suas operações se deve à densidade urbana de Gaza. O sofrimento dos civis de Gaza é real. A guerra, porém, começou com o ataque do Hamas, e é o Hamas que instala sua estrutura militar no meio da população.

Quem financia o Hamas?

O Irã é o principal patrocinador financeiro e militar do Hamas, com repasses estimados entre US$ 70 milhões e US$ 100 milhões por ano. Avaliações israelenses e americanas apontam que o apoio inclui dinheiro, armas, tecnologia de foguetes e drones, explosivos e treinamento.

A Força Quds, da Guarda Revolucionária do Irã, coordena essa ajuda por meio da sua “Filial Palestina” (Unidade 2500), sob oficiais como Saeed Izadi.Nunca existiu um país chamado “Palestina”. O nome designava uma região e, de 1920 a 1948, o Mandato Britânico, cujos documentos eram usados por judeus e árabes. Entenda, com os documentos →

Outras fontes de recursos:

  • impostos e extorsão sobre a população de Gaza;
  • desvio de ajuda internacional;
  • redes de ONGs e caridades no exterior;
  • dinheiro do Catar, enviado para salários, combustível e serviços em Gaza.

Esses recursos fortaleceram indiretamente o Hamas, que controla Gaza e arrecada receitas sobre tudo o que entra no território. O Catar alega que sua ajuda é humanitária e coordenada com Israel, a ONU e outros atores.

Por que o Hamas é considerado terrorista e o que diz o Brasil?

Israel, Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido, Canadá, Austrália, Japão, Nova Zelândia e outros países designam o Hamas como organização terrorista. Os atentados suicidas e os ataques deliberados contra civis estão entre os principais motivos dessas designações.

O Conselho de Segurança da ONU condenou ataques contra civis, mas não mantém o Hamas numa lista geral equivalente às listas nacionais. Por isso, não existe uma classificação universal automática.

O Brasil condenou os ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023. Mesmo assim, não inclui formalmente o grupo numa lista nacional de organizações terroristas. O Itamaraty afirma que, nesse tema, o país segue as determinações do Conselho de Segurança da ONU (g1; CNN Brasil).

Há divergência dentro do próprio governo. Documentos do Ministério da Justiça e da Polícia Federal já chamaram o Hamas de terrorista (CNN Brasil; Metrópoles). A ausência de designação formal não equivale a aprovar as ações do grupo.

Linha do tempo

  1. 1928Fundação da Irmandade Muçulmana no Egito, matriz ideológica do Hamas.
  2. 1973Ahmed Yassin funda em Gaza a associação al-Mujamma' al-Islami (Centro Islâmico).
  3. 1978-1979A administração militar israelense registra a rede de Yassin como entidade religiosa e assistencial.
  4. 1984Israel prende Ahmed Yassin.
  5. 1987Em 9 de dezembro começa a Primeira Intifada. Em 14 de dezembro sai o primeiro comunicado com o nome Hamas.
  6. 1988Em 18 de agosto o Hamas publica sua carta, que prega a destruição de Israel.
  7. 1989Israel volta a prender Yassin.
  8. 1991-1992Criação das Brigadas Izz ad-Din al-Qassam, braço armado do grupo.
  9. 1992Israel deporta 415 operativos do Hamas.
  10. 2000-2005Na Segunda Intifada, o Hamas realiza atentados suicidas contra civis israelenses.
  11. 2004Israel elimina Ahmed Yassin.
  12. 2006Em 25 de janeiro o Hamas vence a eleição legislativa, com 74 de 132 cadeiras.
  13. 2007Em junho o Hamas toma Gaza pelas armas e expulsa o Fatah e a Autoridade Palestina.
  14. 2017Em 1º de maio sai o documento político que menciona as linhas de 1967, sem reconhecer Israel nem revogar a carta de 1988.
  15. 2022Em 24 de agosto Yahya Sinwar escreve o plano de invasão de 223 localidades no sul de Israel.
  16. 2023Em 7 de outubro o Hamas mata cerca de 1.200 pessoas em Israel e sequestra reféns. Israel declara guerra ao grupo.

Perguntas frequentes

Quem criou o grupo terrorista Hamas?
O Hamas foi criado em dezembro de 1987 pelo xeque Ahmed Yassin e outros islamistas palestinos, como ramo da Irmandade Muçulmana. A própria carta do grupo, de 1988, afirma esse vínculo. Israel tolerou a rede assistencial de Yassin nos anos 1970, um erro de avaliação. Mas tolerar não é criar: Israel prendeu Yassin, deportou operativos e combateu o grupo por décadas.
O Hamas aceitou Israel no documento de 2017?
Não. O documento de 2017 aceita um Estado nas linhas de 1967 apenas como “fórmula de consenso nacional”. O mesmo texto não reconhece Israel, mantém a luta armada e a meta de “libertação total” do “rio ao mar”. A carta de 1988 não foi revogada. Khaled Mashaal e Ismail Haniyeh reafirmaram que o grupo não reconheceria Israel.
O Brasil considera o Hamas um grupo terrorista?
Oficialmente, não. O Brasil condenou os ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023, mas não o inclui em lista nacional de organizações terroristas. O Itamaraty diz seguir o Conselho de Segurança da ONU, que não mantém lista geral com o Hamas. Documentos do Ministério da Justiça e da Polícia Federal, porém, já chamaram o grupo de terrorista.
O Hamas é só antissionista ou também antissemita?
É antissemita. A carta de 1988 cita os Protocolos dos Sábios de Sião e uma tradição sobre matar judeus. Também acusa os judeus de controlar a imprensa e provocar guerras. Pelo critério da IHRA, adotado pela JJO, negar o direito de Israel existir já é antissemitismo. Em 7 de outubro, terroristas do Hamas atacaram civis judeus em suas casas.

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