
A história do povo judeu
Das origens na terra de Israel à diáspora, ao sionismo, à Shoá, a 1948 e ao Israel de hoje.
Para jovens do Ensino Médio, universitários, professores e famílias.- Episódio 1 · As origens: a terra, o povo e a Torá12 min · narração com vozes sintéticasWhatsApp
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Lia: Olá, eu sou a Lia, e esta é "A história do povo judeu", uma série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO, em seis episódios que acompanham um povo desde o seu nascimento na Terra de Israel, passando pelos exílios e pelo retorno, até os dias de hoje.
Davi: E eu sou o Davi. Hoje, no primeiro episódio, vamos às origens: a terra, o povo e a Torá.
Lia: Vamos carregar uma pergunta do começo ao fim: o que mantém um povo unido por três mil anos?
Davi: Antes, um aviso sobre datas. Quase tudo de hoje acontece antes da era comum, o período que muita gente chama de "antes de Cristo". Às vezes diremos só o ano, mas o contexto vai deixar claro quando estamos antes ou depois da era comum.
Lia: Então vamos começar com uma cena. Imagine um faraó egípcio mandando gravar, num grande bloco de pedra, os povos que dizia ter vencido em Canaã.
Davi: É a Estela de Merneptah, de cerca de 1208 antes da era comum. E nela aparece um nome: Israel.
Lia: Por que isso importa tanto?
Davi: Porque é a menção mais antiga conhecida, fora da Bíblia, a um povo chamado Israel estabelecido na região. Não é um texto judaico falando de si mesmo. É o Egito registrando que esse povo estava lá.
Lia: E há uma segunda pedra, encontrada no norte de Israel.
Davi: É a Estela de Tel Dan, do século nove antes da era comum, escrita em aramaico. Ela fala de um "Rei de Israel" e, na leitura predominante entre especialistas, da "Casa de Davi", a dinastia de Jerusalém.
Lia: Dá para dizer que a arqueologia prova a Bíblia inteira?
Davi: Não, e é bom ser preciso. A arqueologia confirma o quadro geral, sem provar cada episódio. A Estela de Tel Dan não demonstra até onde ia o reino de Davi. Mas mostra que essa dinastia era conhecida pelos vizinhos.
Lia: A genética soma mais uma peça. Um estudo de DNA antigo publicado na revista Cell, em 2020, mostra que judeus e árabes atuais do Levante carregam ancestralidade local da Idade do Bronze.
Davi: Só que DNA não é título de propriedade. O direito do povo judeu à autodeterminação se apoia na história, na língua, na religião, na memória e no reconhecimento internacional.
Lia: Vamos agora à Idade do Ferro. Havia dois reinos israelitas: o Reino de Israel, ao norte, e o Reino de Judá, ao sul.
Davi: E a capital de Judá era Jerusalém. Pelo relato bíblico, o rei Davi instalou ali sua capital por volta de 1000 antes da era comum.
Lia: E foi ali que Salomão, filho de Davi, construiu o Primeiro Templo, no monte que hoje chamamos de Monte do Templo.
Davi: É de Judá que vem a palavra "judeu"?
Lia: Exatamente. "Judeu" vem do hebraico Yehudi, que quer dizer habitante de Judá. Antes, o povo se chamava Bnei Yisrael, os Filhos de Israel.
Davi: Em 722, a Assíria destruiu o reino do norte. Judá continuou, com Jerusalém no centro.
Lia: E Jerusalém deixou marcas. Do século oito antes da era comum, há a Inscrição de Siloé, um registro em hebraico de uma obra hidráulica na cidade.
Davi: E há um achado pequeno e comovente: os amuletos de prata de Ketef Hinnom, de por volta de 700 antes da era comum.
Lia: O que eles têm de especial?
Davi: Trazem a Bênção Sacerdotal, um texto bíblico ainda usado nas sinagogas. É o texto bíblico em hebraico mais antigo já encontrado.
Lia: Pensa nisso: palavras ditas por quem vivia em Jerusalém há muitos séculos continuam sendo ditas hoje.
Davi: Um aviso: neste bloco e no próximo, vamos falar de guerra, destruição e morte.
Lia: Em 586 antes da era comum, a Babilônia de Nabucodonosor II conquistou Jerusalém.
Davi: A cidade e o Primeiro Templo foram incendiados. Na Cidade de Davi, a arqueologia encontrou uma camada de cinzas, madeira queimada e pontas de flechas desse incêndio. Parte da população de Judá foi deportada.
Lia: E aqui vem a pergunta que o ouvinte deve estar fazendo: um povo levado para longe não acaba se dissolvendo entre os outros?
Davi: Muitos povos desapareceram assim. Este não. Os Tabletes de Al-Yahudu, escritos em acádio, datados de 572 a 477 antes da era comum, mostram isso.
Lia: Mostram o quê, exatamente?
Davi: Que os exilados conservaram na Babilônia seus nomes hebraicos e sua identidade familiar e jurídica.
Lia: E o retorno?
Davi: A Pérsia conquistou a Babilônia em 539. Segundo o governo de Israel, um primeiro retorno, tradicionalmente datado de 538, foi liderado por Zorobabel.
Lia: O Segundo Templo foi erguido por volta de 516. E a província persa se chamava Yehud. Selos com essa palavra foram escavados em Jerusalém, En Gedi e Ramat Rahel.
Davi: Foi nessa época que o termo "judeus" passou a designar essa comunidade. Israelitas e judeus não são povos diferentes. São etapas da história de um só povo.
Lia: Séculos depois, no século dois antes da era comum, a Revolta dos Macabeus levou ao Estado hasmoneu, soberano e com moedas próprias.
Davi: E a festa de Chanucá lembra a rededicação do Templo depois dessa revolta.
Lia: Até aqui falamos de terra e de povo. Falta o terceiro elemento do título: a Torá.
Davi: O que é, afinal, a Torá?
Lia: São os cinco primeiros livros da Bíblia hebraica: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Em sentido amplo, Torá também quer dizer ensinamento, toda a tradição judaica de estudo.
Davi: E o que ela traz de essencial?
Lia: Três ideias. A primeira é um só Deus, proclamado na oração do Shema: "O Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um".
Davi: A segunda é a aliança entre Deus e o povo de Israel, que a tradição associa a Abraão e, depois, a Moisés no Monte Sinai.
Lia: A terceira são os mandamentos. A tradição rabínica conta 613 preceitos, as mitzvot.
Davi: São 248 obrigações e 365 proibições. E justiça, caridade, estudo e arrependimento ocupam um lugar central.
Lia: E a ideia de "povo escolhido"? Muita gente ouve isso como superioridade.
Davi: Na tradição judaica, é vocação e responsabilidade da aliança. Não é uma afirmação de superioridade biológica ou racial.
Lia: A Bíblia hebraica inteira, o Tanakh, tem 24 livros, organizados em três partes: Torá, Profetas e Escritos.
Davi: E repare numa coisa: um templo pode ser incendiado, mas um texto estudado e guardado viaja com quem o carrega. Isso vai ser decisivo.
Lia: Chegamos à era comum. Em 66, começou a Grande Revolta contra Roma. Em 70, as legiões de Tito cercaram Jerusalém e destruíram o Segundo Templo.
Davi: O Arco de Tito, em Roma, mostra a Menorá levada do Templo como saque.
Lia: Mas há quem diga que o Templo nunca existiu.
Davi: Fontes judaicas, romanas e cristãs, além de achados arqueológicos, confirmam o Templo. Os historiadores debatem detalhes, como a posição exata do Santo dos Santos, e não a existência do Templo.
Lia: Agora vamos a Massada. Mais uma vez, atenção: o relato envolve cerco e morte.
Davi: Massada é uma fortaleza-palácio construída por Herodes sobre um platô rochoso do Deserto da Judeia, a cerca de 400 metros acima do Mar Morto.
Lia: Em 66, rebeldes judeus conhecidos como sicários tomaram a guarnição romana ali. Depois de 70, a fortaleza virou refúgio de quem fugia dos romanos.
Davi: Segundo o historiador Flávio Josefo, eram cerca de 960 homens, mulheres e crianças, liderados por Eleazar ben Yair. Eles ergueram ali uma sinagoga e banhos rituais.
Lia: Os romanos, comandados por Lucius Flavius Silva, cercaram a montanha e construíram uma rampa de terra e pedras. Depois romperam a muralha com uma torre de cerco e um aríete.
Davi: Estudos de engenharia militar indicam que o cerco efetivo durou de quatro a nove semanas.
Lia: E ele aconteceu na primavera de 73 ou 74 da era comum.
Davi: E como foi o fim?
Lia: Segundo Josefo, os defensores preferiram a morte em liberdade à escravidão. Ele relata que só duas mulheres e cinco crianças sobreviveram, escondidas nas cisternas.
Davi: Josefo é a única fonte literária antiga detalhada sobre a queda, e escreveu sob patronato romano. Por isso, o desfecho exato segue em debate entre os historiadores.
Lia: A arqueologia, nas escavações de Yigael Yadin entre 1963 e 1965, confirmou o palácio, a sinagoga, as camadas de incêndio e os projéteis da artilharia romana.
Davi: Segundo as escavações de Yigael Yadin, também foram achados fragmentos de cerâmica com nomes gravados em hebraico, entre eles "Ben Yair". O cerco e a conquista romana não estão em disputa.
Lia: Depois veio a revolta de Bar Kokhba, entre 132 e 135. Roma a esmagou, rebatizou Jerusalém como Aelia Capitolina e proibiu os judeus de viver na cidade.
Davi: Então acabou ali a presença judaica na terra?
Lia: Não. A população judaica encolheu e se deslocou, mas não desapareceu. Por volta de 200, na Galileia, o rabino Judá, o Patriarca, compilou a Mishná, a primeira compilação escrita da lei oral.
Davi: É a Torá sendo levada adiante na própria terra, mesmo sem Templo. Séculos depois, sinagogas como as de Meroth e Ein Gedi mostram essa vida comunitária.
Lia: E "contínua" não quer dizer que os judeus foram maioria em todos os séculos. Quer dizer que comunidades judaicas nunca deixaram de existir ali.
Davi: Para fechar, três ideias-chave.
Lia: Primeira: o povo judeu nasceu na Terra de Israel. Uma estela egípcia, uma inscrição aramaica, textos em hebraico e o DNA antigo apontam para o mesmo lugar. Os judeus não são estrangeiros na terra onde seu povo nasceu.
Davi: Segunda: israelitas e judeus são um só povo. O exílio na Babilônia não apagou nomes nem identidade, e o retorno a Yehud deu ao povo o nome que ele carrega até hoje.
Lia: Terceira: depois das destruições de 586 e de 70, comunidades judaicas permaneceram na terra, na Galileia, em Hebron, em Safed e, sempre que possível, em Jerusalém. Junto com a Torá, esse vínculo nunca se rompeu.
Davi: Os palestinos também têm raízes de muitas gerações na região. Mas, pela definição de antissemitismo da IHRA, adotada pela JJO, usar o rótulo de "invasor" para negar ao povo judeu a autodeterminação é antissemitismo.
Lia: No próximo episódio: "Diáspora: dois mil anos longe da terra, sem esquecê-la". Vamos ver como as orações, o calendário e as festas mantiveram Jerusalém no centro da vida judaica.
Davi: Por isso, a resposta à nossa pergunta começa aqui: um nome gravado em pedra, uma fé guardada em palavras e uma terra que nunca saiu da memória. É isso que, há três mil anos, mantém um povo unido.
- Episódio 2 · Diáspora: dois mil anos longe da terra, sem esquecê-la12 min · narração com vozes sintéticasWhatsApp
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Lia: Olá! Eu sou a Lia, e você está ouvindo "A história do povo judeu", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO.
Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio dois de seis: "Diáspora: dois mil anos de dispersão, sem esquecer a terra".
Lia: No episódio anterior, "As origens: a terra, o povo e a Torá", vimos que o povo judeu se formou na Terra de Israel, com os reinos de Israel e de Judá e a capital em Jerusalém.
Davi: Hoje a pergunta é outra. Como um povo espalhado pelo mundo conseguiu continuar sendo um povo, sem perder o vínculo com a sua terra?
Lia: Vamos responder em cinco partes. Primeiro, as duas destruições de Jerusalém. Depois, a revolta que fechou a cidade aos judeus. Em seguida, quem ficou na terra. Depois, a vida na Europa cristã. E, por fim, como a memória atravessou os séculos.
Davi: Então vamos começar pelo primeiro exílio.
Lia: Estamos no ano 586 antes da era comum. O exército babilônico de Nabucodonosor II cerca Jerusalém.
Davi: Um aviso para quem está ouvindo: os próximos minutos falam de guerra, cercos e destruição.
Lia: O cerco é longo, e a fome toma conta da cidade. Os babilônios entram em Jerusalém, incendeiam o Templo construído por Salomão, derrubam as muralhas e deportam parte da população de Judá para a Babilônia.
Davi: E isso não aparece só na Bíblia, certo?
Lia: Não. Em Jerusalém, os arqueólogos encontraram camadas de cinzas e vigas de madeira carbonizada. Encontraram também pontas de flecha de estilo babilônico e pedras de catapulta.
Davi: E o que aconteceu com quem foi levado para a Babilônia? Eles se misturaram e desapareceram?
Lia: É justamente o contrário. Os Tabletes de Al-Yahudu, escritos em acádio, mostram que os exilados mantiveram seus nomes hebraicos e sua identidade familiar e jurídica.
Davi: Ou seja, o primeiro exílio já ensinou uma lição: é possível estar longe sem deixar de ser quem se é.
Lia: E houve volta. A Pérsia conquistou a Babilônia, e um primeiro retorno, tradicionalmente datado de 538 antes da era comum, foi liderado por Zorobabel.
Davi: O Segundo Templo foi erguido por volta de 516 antes da era comum. Séculos depois, a Revolta dos Macabeus levou ao Estado hasmoneu, soberano e com moedas próprias.
Lia: Mas, no ano 70 da era comum, veio a segunda destruição. Durante a Grande Revolta contra Roma, as legiões do general Tito cercam Jerusalém e incendeiam o Templo.
Davi: O historiador Flávio Josefo, testemunha ocular do cerco, descreve a cena em A Guerra dos Judeus.
Lia: Ele conta o momento em que um soldado romano atira uma tora em chamas por uma porta de ouro. Até hoje, os arqueólogos encontram em Jerusalém pedras de balista e pontas de lança daquele cerco.
Davi: E em Roma existe um monumento que conta a mesma história do ponto de vista dos vencedores.
Lia: O Arco de Tito. O relevo mostra soldados romanos carregando a Menorá de ouro saqueada do Templo. Quem diz que os judeus não têm ligação com Jerusalém precisa explicar esse arco.
Davi: Vamos para o segundo bloco: a revolta que mudou o mapa da presença judaica.
Lia: Entre os anos 132 e 135, os judeus se levantam outra vez contra Roma, na revolta de Bar Kokhba. O aviso continua valendo: este trecho também fala de violência.
Davi: E deixaram registros próprios, não deixaram?
Lia: Deixaram. Há cartas assinadas por "Shimon bar Kosiba, Nasi Israel", isto é, príncipe de Israel. E há moedas com a inscrição "Pela Liberdade de Jerusalém".
Davi: Mas a revolta termina mal.
Lia: Termina com o massacre na fortaleza de Betar. Os romanos aram as ruínas de Jerusalém e fundam ali uma colônia chamada Aelia Capitolina.
Davi: E a partir daí os judeus são proibidos de morar na própria cidade.
Lia: Imperadores romanos e, depois, bizantinos mantiveram essa proibição. Havia uma única exceção: o dia de Tisha BeAv, o nono dia do mês de Av, quando os judeus podiam entrar para chorar junto às ruínas do santuário.
Davi: Imagine a cena: uma vez por ano, gente subindo até Jerusalém só para chorar no lugar onde estava o Templo.
Lia: Agora vem uma pergunta que muita gente faz: sem Templo e sem Jerusalém, como o judaísmo sobreviveu?
Davi: Logo depois da destruição de 70, ainda antes de Bar Kokhba, essa resposta já estava sendo construída por Rabban Yochanan ben Zakkai, na cidade de Yavneh.
Lia: Ali, o culto de sacrifícios deu lugar ao estudo da Torá, à oração diária e às sinagogas. O judaísmo passou a caber em qualquer lugar onde houvesse uma comunidade reunida em torno de um livro.
Davi: Uma religião que você pode levar na bagagem.
Lia: Exatamente. E isso nos leva ao terceiro bloco, que talvez surpreenda: nem todos foram embora.
Davi: Quando se fala em diáspora, muita gente imagina que a terra ficou vazia de judeus. Não é verdade.
Lia: Comunidades judaicas nunca deixaram de existir na Terra de Israel. A população encolheu e se deslocou, mas não desapareceu.
Davi: Mas vamos ser precisos. "Contínua" não quer dizer que os judeus foram maioria em todos os séculos.
Lia: Nem que cada cidade teve judeus sem interrupção. Em Jerusalém houve fases de acesso limitado e de comunidade muito pequena. O que os registros mostram é a continuidade das comunidades judaicas na região, com perdas, expulsões e reconstruções.
Davi: E quais são esses registros?
Lia: Por volta do ano 200, na Galileia, o Rabi Judá, o Patriarca, compila a Mishná, a base da lei oral judaica. Isso acontece em Séforis e em Bet She'arim.
Davi: Depois vêm as sinagogas dos períodos bizantino e islâmico, como as de Meroth, Huqoq e Ein Gedi. A de Meroth ficou em uso por vários séculos.
Lia: Entre 922 e 1076, a Academia da Terra de Israel, que antes funcionava em Tiberíades, atua em Jerusalém.
Davi: Há também as cartas e os contratos da Genizá do Cairo, que mostram tribunais rabínicos e vida comunitária em Jerusalém e Tiberíades.
Lia: E, no século doze, o viajante Benjamim de Tudela descreve comunidades judaicas em várias cidades da terra.
Davi: Então dá para dizer que a dispersão aconteceu, mas a terra nunca ficou sem judeus.
Lia: Isso mesmo. Por isso é falso chamar os judeus de estrangeiros na terra onde seu povo nasceu.
Davi: Agora vamos acompanhar quem estava longe. Quarto bloco: a Europa cristã.
Lia: Mais um aviso: este bloco fala de perseguições, massacres e execuções.
Davi: Na Idade Média, uma acusação passou a justificar a violência: o deicídio, a ideia de que os judeus, como coletividade, seriam responsáveis pela morte de Jesus.
Lia: Uma acusação falsa. Jesus era judeu, e a crucificação era uma pena romana, aplicada sob Pôncio Pilatos.
Davi: Em 1965, a declaração Nostra Aetate, da Igreja Católica, afirmou que a morte de Cristo não pode ser atribuída aos judeus daquela época nem aos de hoje. O texto também repudia o antissemitismo.
Lia: Mas, antes disso, muita gente sofreu por causa dessa mentira. Em 1096, durante a Primeira Cruzada, cruzados atacaram comunidades judaicas na Renânia, em cidades como Worms e Mainz.
Davi: Muitos judeus foram mortos ou batizados à força. Alguns bispos e governantes tentaram protegê-los.
Lia: Surgiu também o libelo de sangue, a acusação falsa de que judeus matavam crianças cristãs em rituais. E, durante a Peste Negra, judeus foram acusados de envenenar poços.
Davi: Mais de trezentas comunidades foram destruídas na Europa Ocidental. O próprio papa Clemente VI refutou a acusação, observando que a peste também matava judeus.
Lia: Em pouco mais de dois séculos, a Inglaterra, a França, a Espanha e Portugal expulsaram seus judeus ou os forçaram a escolher entre o batismo e o exílio.
Davi: A mais conhecida é a expulsão da Espanha, em 1492. E, em Portugal, D. Manuel I impôs o batismo compulsório em massa.
Lia: Alguns dos expulsos foram para a Terra de Israel, e Safed se tornou um polo de estudo, centro da Cabala, com Isaac Luria e Joseph Karo. Esse gesto de se voltar para a terra de origem aparece várias vezes na nossa história.
Davi: E essa história chega até o Brasil, não é?
Lia: Chega. Os batizados à força em Portugal ficaram conhecidos como cristãos-novos, e muitos vieram para a colônia. A Inquisição os seguiu.
Davi: O Brasil não tinha tribunal da Inquisição. Os presos eram enviados de navio para Lisboa, onde eram interrogados, às vezes sob tortura, e julgados.
Lia: Um dos casos mais conhecidos é o do dramaturgo Antônio José da Silva, "o Judeu", nascido no Rio de Janeiro. Ele foi executado em Lisboa em 1739.
Davi: E houve um momento em que alguns cristãos-novos puderam viver abertamente como judeus, aqui mesmo.
Lia: Durante o domínio holandês, no Recife, vários deles professaram o judaísmo às claras.
Davi: Chegamos ao quinto bloco. Depois de tudo isso, como a memória sobreviveu?
Lia: Ela sobreviveu nas orações, no calendário e nas festas, sempre voltados para Jerusalém.
Davi: Até hoje, em Tisha BeAv, muitos judeus jejuam por cerca de um dia inteiro. À noite, leem o Livro das Lamentações, a Meguilat Eikhá, com as luzes reduzidas, sentados no chão ou em bancos baixos.
Lia: E recitam as kinot, poemas de lamento compostos em diferentes épocas. Cada geração acrescentou a sua dor ao mesmo dia.
Davi: E, entre os cristãos-novos no Brasil, a memória vivia dentro de casa.
Lia: Muitas mulheres tiveram um papel central. Acendiam candeeiros ao anoitecer de sexta-feira, trocavam a roupa de cama para o Shabat e guardavam o jejum do "Dia Grande", o Yom Kippur.
Davi: Gestos pequenos, que a Inquisição tratava como "provas", mas que eram uma forma de dizer: nós ainda lembramos.
Lia: Só que a hostilidade não acabou com a Idade Média. No século dezenove, o ódio religioso ganhou forma racial, e a palavra "antissemitismo" foi popularizada em 1879.
Davi: Vieram ondas de pogroms no Império Russo, como o massacre de Kishinev, e o Caso Dreyfus, na França. Foi nesse cenário que uma antiga esperança ganhou forma política.
Lia: Antes de chegar lá, vamos às três ideias-chave de hoje.
Davi: Primeira: a diáspora foi dispersão, não desaparecimento. Comunidades judaicas permaneceram na Terra de Israel, com a Mishná, as sinagogas, a Genizá e Safed como testemunhas.
Lia: Segunda: o judaísmo se reinventou para sobreviver longe do Templo. O estudo da Torá, a oração e as sinagogas permitiram que o povo continuasse sendo um povo em qualquer lugar.
Davi: Terceira: em dois mil anos, o vínculo com Jerusalém nunca se rompeu. Ele viveu nas orações, no luto de Tisha BeAv e até nos candeeiros acesos em segredo no Brasil colonial.
Lia: É por isso que o povo judeu não é estrangeiro na Terra de Israel. Ele nasceu ali, e de lá nunca se desligou.
Davi: No próximo episódio, "O sionismo e o caminho de volta", vamos ver como essa memória se transformou em um movimento de retorno.
Lia: Até lá! Eu sou a Lia.
Davi: E eu sou o Davi. Obrigado por ouvir "A história do povo judeu", da JJO.
- Episódio 3 · O sionismo e o caminho de volta13 min · narração com vozes sintéticasWhatsApp
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Lia: Olá! Você está ouvindo "A história do povo judeu", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.
Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio 3 de 6: "O sionismo e o caminho de volta".
Lia: No episódio anterior, vimos a Diáspora: quase dois mil anos longe da terra, mas sem esquecê-la. Nas orações, nas festas e no estudo, Sião continuou presente.
Davi: Hoje a pergunta é: como essa saudade antiga virou um movimento político, com congressos, escolas, vilas agrícolas e diplomacia? E como isso levou a um Estado?
Lia: Vamos contar essa história em cinco partes. Primeiro, as raízes. Depois, Theodor Herzl. Em seguida, a vida construída no chão. Depois, a diplomacia. E, por fim, o nascimento de Israel.
Davi: Então vamos começar pelo nome. Lia, de onde vem a palavra "sionismo"?
Lia: Vem de Sião, Tsiyon em hebraico, um dos nomes bíblicos de Jerusalém. Com o tempo, Sião virou símbolo de toda a Terra de Israel.
Davi: E quem inventou o termo?
Lia: Foi o intelectual austríaco Nathan Birnbaum, por volta de 1890. As datas apontadas para a criação do termo variam entre 1890 e 1892.
Davi: Mas a ideia de voltar é bem mais antiga que a palavra, não é?
Lia: Muito mais. O desejo de retorno a Sião aparecia na liturgia judaica havia séculos. O que o sionismo moderno fez foi transformar essa esperança religiosa em um projeto político e nacional.
Davi: Antes de seguir, um aviso: o próximo trecho menciona violência contra judeus.
Lia: Em 1881, uma onda de pogroms, ataques violentos contra comunidades judaicas, atingiu o Império Russo.
Davi: E qual foi a resposta?
Lia: Em 1882, o médico Leon Pinsker publicou "Autoemancipação". A ideia central era que os judeus deviam assumir o controle do próprio destino.
Davi: E já havia quem pensasse assim antes dele, certo?
Lia: Sim. O rabino Yehuda Alkalai, o rabino Zvi Hirsch Kalischer e o filósofo Moses Hess já defendiam o trabalho agrícola na Terra de Israel. Hess escreveu "Roma e Jerusalém", em 1862.
Davi: O texto de Pinsker inspirou as sociedades Hovevei Zion, os "Amantes de Sião". Elas organizaram os primeiros assentamentos agrícolas.
Lia: Agora, o segundo bloco: o homem que deu ao movimento uma forma internacional.
Davi: Theodor Herzl. Um jornalista judeu austro-húngaro, de família assimilada, formado em Direito, que trabalhava como correspondente em Paris.
Lia: E em Paris, em 1894, ele acompanhou o Caso Dreyfus. O capitão judeu Alfred Dreyfus foi condenado por traição na França. Mais tarde, foi reabilitado.
Davi: Herzl viu a degradação pública do oficial. Isso o convenceu de quê?
Lia: De duas coisas. Primeiro, que a assimilação não protegeria os judeus. Segundo, que o antissemitismo era uma questão nacional, e não apenas religiosa ou social.
Davi: Mas não foi uma conversão da noite para o dia, né?
Lia: Não. Historiadores lembram que Herzl já vinha refletindo sobre antissemitismo, assimilação e nacionalismo europeu. O caso reforçou essas ideias.
Davi: E aí vem o livro.
Lia: Em 14 de fevereiro de 1896, ele publicou "O Estado Judeu". Propunha resolver a questão judaica com um Estado garantido pelo direito público, negociado na arena internacional.
Davi: No mesmo dia, ele anotou no diário: "Minha vida pode agora tomar um novo rumo."
Lia: No ano seguinte, ele organizou o Primeiro Congresso Sionista, em Basileia, na Suíça.
Davi: Foram três dias, no fim de agosto de 1897, com cerca de 200 delegados.
Lia: O congresso fundou a Organização Sionista e elegeu Herzl seu primeiro presidente. Também aprovou o Programa de Basileia, redigido com Max Nordau.
Davi: E o objetivo era criar para o povo judeu um lar na Terra de Israel, assegurado pelo direito público.
Lia: Poucos dias depois, em 3 de setembro, Herzl escreveu no diário uma frase famosa.
Davi: "Em Basileia, eu fundei o Estado Judeu." E completou que, "certamente em cinquenta" anos, todos veriam isso.
Lia: Israel foi proclamado em 1948, pouco mais de cinquenta anos depois. Herzl não viveu para ver. Morreu em 1904, aos 44 anos.
Davi: Mas ele fundou o movimento que tornou o Estado possível. Em 1949, seus restos foram levados para Jerusalém, para o lugar hoje chamado Monte Herzl.
Lia: Terceiro bloco: enquanto se negociava nos gabinetes, outros construíam no chão.
Davi: Os pioneiros da Segunda Aliá, a onda de imigração judaica entre 1904 e 1914.
Lia: Eles enfrentavam isolamento, malária e dificuldades econômicas. Por isso, buscaram viver em comunidade.
Davi: E assim nasce o kibutz.
Lia: O primeiro foi Degania, fundado em 1910 perto do mar da Galileia. Ficou conhecido como a "Mãe das Kvutzot".
Davi: Como era a vida lá?
Lia: No modelo clássico, os membros trabalhavam juntos, com as próprias mãos. Dividiam a propriedade dos bens e decidiam em assembleia. O ideal incluía igualdade entre homens e mulheres.
Davi: E ainda é assim?
Lia: Hoje, a maioria dos kibutzim passou por uma privatização gradual depois de uma crise financeira nos anos 1980. Alguns mantêm estruturas coletivas, e outros seguem modelos híbridos.
Davi: Mas o papel deles na construção do país foi enorme.
Lia: Foi. Transformaram pântanos e solos áridos em terras produtivas, absorveram imigrantes e formaram muitos líderes do futuro Estado.
Davi: Às vésperas da independência, havia 176 kibutzim.
Lia: E eles reuniam mais de 47 mil pessoas.
Davi: E tinha outra construção acontecendo ao mesmo tempo: a da língua.
Lia: O hebraico, por quase dois milênios, foi língua de oração, estudo e escrita. Não era a língua da conversa na cozinha.
Davi: Até que chega a Jerusalém, em 1881, Eliezer Ben-Yehuda.
Lia: Ele e a esposa, Deborah, decidiram falar só hebraico em casa. Em 1882, nasceu o filho Itamar Ben-Avi, considerado a primeira criança falante nativa de hebraico na era moderna.
Davi: Ben-Yehuda criou palavras como "milon", dicionário, e "glida", sorvete. Mas ele não fez isso sozinho.
Lia: Não. Professores, escolas, jardins de infância, escritores e jornais fizeram o hebraico virar língua de crianças brincando.
Davi: E houve até uma "Guerra das Línguas".
Lia: Sim, uma disputa sem armas. Em 1913, a direção do Technion, em Haifa, quis ensinar ciências em alemão.
Davi: Os professores entraram em greve, com apoio de estudantes e da Organização Sionista Mundial. Em 1914, a direção recuou e aceitou o hebraico.
Lia: Quarto bloco: a diplomacia.
Davi: Em 2 de novembro de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, o chanceler britânico Arthur Balfour enviou uma carta a Lord Rothschild.
Lia: Nela, o governo britânico via "com favor" o estabelecimento de um lar nacional para o povo judeu.
Davi: E também afirmava que nada deveria prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes.
Lia: Mas a carta não era um tratado. Isso muda com o Mandato Britânico.
Davi: Em 24 de julho de 1922, a Liga das Nações aprovou o Mandato por unanimidade.
Lia: Ele reconheceu a conexão histórica do povo judeu com a terra. E falou em "reconstituir" o lar nacional judaico.
Davi: Reconstituir, ou seja, reconhecer que esse vínculo era antigo.
Lia: O Mandato também mandava facilitar a imigração e o assentamento judaicos, protegendo os direitos de todos os habitantes.
Davi: Só que a Grã-Bretanha mudou de lado.
Lia: Em maio de 1939, o Livro Branco limitou a imigração judaica.
Davi: O limite foi de 75 mil pessoas em cinco anos.
Lia: E isso às vésperas do Holocausto, quando judeus europeus tentavam fugir dos nazistas.
Davi: Quinto bloco: o nascimento de Israel. Aviso: este trecho fala de guerra e de deslocamento de pessoas.
Lia: Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma recomendação.
Davi: Foi a Resolução 181: dividir o território em um Estado judeu e um Estado árabe, com regime internacional para Jerusalém.
Lia: A liderança sionista aceitou. A liderança árabe palestina e os Estados árabes rejeitaram.
Davi: Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou o Estado de Israel, em Tel Aviv.
Lia: Logo depois, os exércitos de Egito, Síria, Transjordânia, Líbano e Iraque atacaram o novo Estado.
Davi: Os kibutzim de fronteira viraram fortalezas. Em Degania, os defensores detiveram tanques sírios.
Lia: Esse é o contexto da guerra. E dentro dela houve também um drama humano.
Davi: Na guerra, centenas de milhares de palestinos, cerca de 700 mil segundo estimativas, foram expulsos, fugiram ou foram deslocados.
Lia: Os palestinos chamam esse episódio de Nakba, "catástrofe". O deslocamento em larga escala é um fato documentado, e esse sofrimento é real.
Davi: As causas, as responsabilidades e os números exatos ainda são debatidos por historiadores.
Lia: E é bom lembrar a sequência: a guerra veio depois de a liderança árabe rejeitar a partilha e de cinco exércitos árabes invadirem o país recém-criado.
Davi: Israel venceu a guerra e entrou na ONU em 11 de maio de 1949.
Lia: Davi, muita gente pergunta: o sionismo foi um projeto colonial?
Davi: Há quem analise o sionismo como colonialismo de povoamento. Outros o descrevem como um movimento nacional de um povo perseguido.
Lia: E o que os fatos mostram?
Davi: Que não havia metrópole. Os judeus não eram enviados por um império, fugiam de pogroms. Muitas terras foram compradas, com registro em cartório.
Lia: A própria potência mandatária restringiu a imigração judaica em 1939. E mais da metade dos judeus de Israel descende de judeus orientais, mizrahim e sefarditas.
Davi: Por isso, a origem europeia de muitos pioneiros e o apoio britânico de 1917 não fazem do sionismo um projeto colonial. Ele é o movimento nacional de um povo com raízes nessa terra.
Lia: Vamos às três ideias-chave de hoje.
Davi: A primeira: o sionismo transformou uma esperança antiga, guardada nas orações, em um projeto político. Herzl, em Basileia, deu a ele organização e voz internacional.
Lia: A segunda: o Estado não nasceu só de diplomacia. Nasceu também do trabalho no chão: os kibutzim, as escolas e uma língua que voltou a ser falada em casa.
Davi: A terceira: o sionismo nunca foi uma doutrina única. Teve a corrente política, de Herzl, apostando na diplomacia com as grandes potências.
Lia: Teve a corrente trabalhista, de Ben-Gurion, com os kibutzim. E a revisionista, de Jabotinsky, que defendia autodefesa e um nacionalismo mais firme.
Davi: E também a cultural, de Ahad Ha'am, centrada no renascimento do hebraico. E a religiosa, do rabino Kook, que lia o retorno à luz da tradição.
Lia: Correntes que discordavam entre si, mas partilhavam um núcleo: o direito do povo judeu à autodeterminação.
Davi: E é por isso que dá para criticar governos de Israel, como se critica qualquer país. Mas negar o direito de Israel existir é antissemitismo, pela definição da IHRA, que a JJO adota.
Lia: Esse caminho levou à criação de um Estado judeu em 1948. Uma história que continua sendo escrita e debatida.
Davi: No próximo episódio, o 4, vamos falar do capítulo mais sombrio da história judaica: "A Shoá: o Holocausto".
Lia: Obrigada por ouvir. Até o próximo episódio!
- Episódio 4 · A Shoá: o Holocausto14 min · narração com vozes sintéticasWhatsApp
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Lia: Olá! Você está ouvindo "A história do povo judeu", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.
Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio quatro, de um total de seis.
Lia: No episódio anterior, falamos do sionismo e do caminho de volta: o sonho de um povo espalhado pelo mundo de reconstruir a sua vida na terra de Israel.
Davi: Hoje o assunto é o mais difícil da série: a Shoá, o Holocausto. Vamos com calma, e vamos avisar antes dos trechos mais duros.
Lia: Davi, vamos começar pelo nome. Holocausto e Shoá são a mesma coisa?
Davi: São dois nomes para o mesmo crime. Shoá é a palavra hebraica e quer dizer "catástrofe".
Lia: E que crime foi esse, em uma frase?
Davi: Foi a perseguição e o assassinato sistemáticos de cerca de seis milhões de judeus europeus. Os autores foram o Estado nazista alemão, seus aliados e seus colaboradores.
Lia: Tudo isso entre 1933 e 1945.
Davi: Seis milhões é um número tão grande que fica abstrato. Ajuda pensar assim: eram cerca de dois terços dos judeus da Europa.
Lia: E um terço dos judeus do mundo naquela época. Entre os mortos havia cerca de um milhão e meio de crianças.
Davi: Os nazistas também perseguiram e mataram outros grupos. Entre eles estavam Roma e Sinti, pessoas com deficiência, prisioneiros de guerra soviéticos, poloneses e opositores políticos.
Lia: Mas os judeus foram o alvo principal. Foram o único grupo que a ideologia nazista quis destruir por inteiro, sem exceção.
Davi: Muita gente pergunta como se chegou a esse número, já que ninguém tinha uma lista com o nome de cada vítima.
Lia: É uma boa pergunta. O número é uma estimativa histórica consolidada. Ele combina censos, documentos dos próprios nazistas, registros de deportação, listas das comunidades judaicas e pesquisas feitas depois da guerra.
Davi: Então vamos ao primeiro bloco da nossa história: como tudo começou. Porque o Holocausto não começou nas câmaras de gás.
Lia: Ele começou em etapas. Hitler assume o poder em 30 de janeiro de 1933.
Davi: Logo depois vêm o boicote a negócios judaicos e, em abril, a expulsão de judeus do serviço público.
Lia: Em 1935, as Leis de Nuremberg tiram dos judeus a cidadania plena e proíbem casamentos com pessoas de "sangue alemão".
Davi: Repare na ordem dos acontecimentos. Primeiro veio a exclusão pela lei, depois o roubo dos bens. A violência física aberta veio em seguida.
Lia: Um aviso: o próximo trecho descreve violência contra judeus.
Davi: Em novembro de 1938 acontece a Noite dos Cristais. Hoje muitas instituições preferem chamá-la de Pogrom de Novembro.
Lia: Por que trocar o nome?
Davi: Porque a imagem de vidro quebrado pode esconder o essencial. Houve assassinatos, terror e prisões em massa.
Lia: O pretexto foi um atentado em Paris. Herschel Grynszpan, um jovem judeu de dezessete anos, atirou no diplomata alemão Ernst vom Rath.
Davi: Ele estava revoltado porque a sua família tinha sido expulsa da Alemanha. Ela foi largada na fronteira, em Zbąszyń, junto com milhares de judeus de nacionalidade polonesa.
Lia: Mas o atentado foi só o pretexto. A propaganda nazista falou em "fúria popular espontânea", e isso é falso.
Davi: Hitler e o ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, decidiram o pogrom em Munique. Telegramas da Gestapo e de Reinhard Heydrich mandaram a polícia não intervir e ordenaram prisões em massa.
Lia: Segundo o Yad Vashem, mais de mil e quatrocentas sinagogas e salas de oração foram incendiadas ou destruídas.
Davi: Cerca de sete mil e quinhentos estabelecimentos judaicos foram saqueados. E cerca de trinta mil homens judeus foram levados a campos de concentração, como Dachau e Buchenwald.
Lia: Eles foram presos sem nenhuma acusação de crime, só por serem judeus. Os registros oficiais da época contaram 91 judeus assassinados, e pesquisas posteriores apontam muito mais mortes.
Davi: E depois veio o cúmulo. O regime impôs aos próprios judeus uma multa coletiva de um bilhão de Reichsmarks, como se eles fossem os culpados.
Lia: E o mundo, reagiu?
Davi: De forma limitada. Os Estados Unidos chamaram o seu embaixador para consultas, mas não romperam relações. E muitos países mantiveram as restrições à entrada de refugiados judeus.
Lia: Guarde essa ideia, porque ela volta no fim do episódio: um povo sem um lugar para onde fugir.
Davi: Segundo bloco: a guerra e os guetos. Em 1939, a Alemanha invade a Polônia, e os judeus são confinados em guetos superlotados.
Lia: O maior deles foi o Gueto de Varsóvia. Segundo o Museu do Holocausto dos EUA, chegou a confinar de 400 a 450 mil judeus.
Davi: Imagine a cena: cerca de trinta por cento da população da cidade espremida em pouco mais de dois por cento do território.
Lia: Em média, eram mais de sete pessoas por cômodo, cercadas por um muro de tijolos e arame farpado.
Davi: A fome e o tifo mataram cerca de 83 mil pessoas, antes mesmo das deportações em massa.
Lia: E, mesmo assim, os judeus do gueto escreveram. O historiador Emanuel Ringelblum criou uma rede clandestina chamada Oyneg Shabes, que em iídiche quer dizer "Alegria do Shabat".
Davi: Eles reuniram diários, fotografias, decretos e testemunhos. Depois enterraram tudo em caixas metálicas e latas de leite.
Lia: Duas grandes partes desse arquivo foram encontradas depois da guerra, em 1946 e em 1950. Hoje ele é uma das principais fontes sobre a destruição dos judeus poloneses.
Davi: Agora, mais um aviso: vamos falar das deportações e do assassinato em massa.
Lia: Em 1941, a Alemanha invade a União Soviética. Unidades de fuzilamento chamadas Einsatzgruppen passam a matar judeus em massa.
Davi: Em Babi Yar, perto de Kiev, 33.771 judeus foram mortos em apenas dois dias.
Lia: No verão de 1942, os nazistas esvaziam a maior parte do Gueto de Varsóvia. Eles chamam a operação de "reorganização de trabalho no Leste".
Davi: Era mentira. Cerca de 265 mil judeus foram embarcados em trens de carga para Treblinka. Quase todos foram assassinados pouco depois de chegar.
Lia: Adam Czerniaków, presidente do Conselho Judaico, recebeu a exigência de entregar uma cota diária de pessoas, incluindo crianças dos orfanatos. Ele se recusou a assinar e tirou a própria vida.
Davi: Na carta de despedida, escreveu: "Exigem que eu mate as crianças da minha nação com minhas próprias mãos."
Lia: Davi, muita gente pergunta: os judeus não resistiram?
Davi: Resistiram, e essa é uma parte essencial da história. No gueto, jovens judeus, sobretudo dos movimentos sionistas, entenderam que as "deportações" eram parte de um plano de assassinato.
Lia: Movimentos juvenis sionistas criaram a ŻOB, a Organização Judaica de Combate. O seu principal comandante foi Mordechai Anielewicz, de 23 anos.
Davi: Havia também a ŻZW, a União Militar Judaica, ligada ao movimento sionista revisionista Betar.
Lia: Na manhã de 19 de abril de 1943, véspera de Pessach, os alemães entram no gueto para deportar quem ainda restava.
Davi: Cerca de 700 a 800 combatentes os enfrentam com pistolas, granadas e coquetéis Molotov.
Lia: Numa praça do gueto, a ŻZW hasteia a bandeira judaica azul e branca no alto de um prédio, ao lado da bandeira polonesa.
Davi: Eles sabiam que não podiam vencer. Lutaram para não serem levados sem reação. O general da SS Jürgen Stroop precisou incendiar o gueto prédio por prédio.
Lia: Em 8 de maio, os alemães cercam o bunker de comando da ŻOB, na rua Miła, e lançam gás. Anielewicz morre ali com cerca de 120 combatentes.
Davi: Alguns escaparam pelos esgotos, como Zivia Lubetkin. Anos depois, ela deu o seu testemunho em Jerusalém, no julgamento de Adolf Eichmann.
Lia: Terceiro bloco: a chamada "Solução Final". Muita gente acha que ela começou na Conferência de Wannsee, em janeiro de 1942.
Davi: Mas os assassinatos em massa já estavam acontecendo. Wannsee organizou a coordenação administrativa do crime, e a ata foi redigida por Eichmann.
Lia: Segundo o Yad Vashem, os participantes planejaram eliminar onze milhões de judeus em toda a Europa.
Davi: Para isso, os nazistas usaram campos de extermínio, criados principalmente para matar. Eram Chełmno, Bełżec, Sobibor, Treblinka e Auschwitz-Birkenau, todos na Polônia ocupada.
Lia: E qual é a diferença para um campo de concentração?
Davi: O campo de concentração servia para prisão, trabalho forçado, punição e terror, embora muitos também tenham matado em grande escala. Auschwitz combinava as duas funções e foi o maior centro de assassinato nazista.
Lia: E como funcionava Auschwitz?
Davi: Os trens chegavam de toda a Europa. Na rampa, médicos da SS separavam as pessoas. Em média, só um quarto delas era considerado apto ao trabalho.
Lia: As outras, entre elas crianças, idosos e mães com filhos, eram levadas à morte no mesmo dia. Entravam em salas disfarçadas de chuveiros, onde a SS jogava o gás Zyklon B.
Davi: Cerca de 1,1 milhão de pessoas foram assassinadas em Auschwitz. Aproximadamente um milhão delas eram judeus.
Lia: E houve resistência ali também. Prisioneiros judeus do Sonderkommando se revoltaram e destruíram um crematório. Rudolf Vrba e Alfréd Wetzler fugiram do campo e escreveram um relatório para denunciá-lo.
Davi: O Exército Vermelho chegou a Auschwitz em 27 de janeiro de 1945.
Lia: Os soldados encontraram cerca de sete mil prisioneiros, muitos doentes e desnutridos. Dias antes, a SS tinha forçado milhares de outros às marchas da morte.
Davi: Em maio de 1945, a Alemanha se rende. Mas a libertação não acabou com o sofrimento.
Lia: Muitos sobreviventes ficaram sem família, sem casa e sem um país para onde voltar.
Davi: Depois veio a justiça. Em Nuremberg, os principais dirigentes nazistas foram julgados por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, entre outras acusações.
Lia: E ficou firmado um princípio: quem comete crimes em nome do Estado responde por eles individualmente. O cargo oficial não protege ninguém.
Davi: Quarto bloco: a luz no meio da escuridão, os Justos entre as Nações.
Lia: São não judeus que arriscaram a vida, a liberdade ou a carreira para salvar judeus, sem buscar recompensa. O título é concedido pelo Yad Vashem, o memorial do Holocausto do Estado de Israel.
Davi: E não é um elogio genérico. Cada caso passa por uma comissão presidida por um juiz da Suprema Corte de Israel, que exige provas.
Lia: Até janeiro de 2024, eram 28.707 pessoas reconhecidas.
Davi: Elas vêm de 51 países. Entre elas estão Oskar Schindler, Irena Sendler e o médico egípcio Mohamed Helmy, que escondeu uma família judia em Berlim.
Lia: E há dois brasileiros. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa trabalhava no consulado em Hamburgo e ajudou judeus a obter vistos para sair da Alemanha.
Davi: E o embaixador Souza Dantas, em Vichy, na França, concedeu vistos a judeus mesmo contrariando instruções do governo brasileiro.
Lia: A lição é clara: a coragem moral não pertence a um povo ou a uma fé.
Davi: Lia, e por que essa memória importa hoje?
Lia: Porque o Holocausto é um dos fatos mais documentados da história, e mesmo assim há quem o negue ou o distorça.
Davi: As provas vêm dos próprios nazistas. Temos a ata de Wannsee, os relatórios das unidades de fuzilamento e o relatório de Stroop, intitulado "O bairro residencial judaico de Varsóvia não existe mais!".
Lia: A eles se somam os testemunhos, as fotografias, as ruínas dos campos e os julgamentos. Os historiadores debatem detalhes, mas não a existência do crime nem a sua escala.
Davi: Pela definição de antissemitismo da IHRA, adotada pela JJO, negar ou minimizar o Holocausto é antissemitismo. Dizer que "seis milhões é exagero" também é.
Lia: E comparar a política israelense atual com a dos nazistas, com bordões como "Gaza é Auschwitz", é uma inversão do Holocausto. Ela transforma o maior crime contra os judeus em acusação contra os judeus.
Davi: Essa comparação também é falsa como história. O Holocausto foi o plano de matar cada judeu da Europa. A guerra em Gaza começou com o massacre
- Episódio 5 · 1948: o nascimento do Estado de Israel13 min · narração com vozes sintéticasWhatsApp
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Lia: Olá! Aqui é a Lia, e você está ouvindo "A história do povo judeu", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO.
Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio cinco de seis: "1948: o nascimento do Estado de Israel".
Lia: No episódio anterior, falamos da Shoá, o Holocausto. Terminamos com os sobreviventes: centenas de milhares de judeus que, depois da guerra, viviam em campos de deslocados na Europa.
Davi: Muitos tentaram chegar à Terra de Israel em barcos precários, na imigração clandestina chamada Aliá Bet. Segundo o Yad Vashem, cerca de 70 mil chegaram entre 1945 e 1948.
Lia: Hoje a pergunta é: como esse povo, poucos anos depois da Shoá, proclamou um Estado e sobreviveu a uma guerra já no primeiro dia de vida?
Davi: Vamos contar em cinco partes: as raízes, a votação na ONU, a guerra civil, a independência com a invasão e, por fim, os refugiados.
Lia: Primeira parte: as raízes. Davi, Israel nasceu do nada em 1948?
Davi: Não. A data é o ponto de chegada de um processo de meio século. Em 1897 nasce o movimento sionista organizado.
Lia: Em 1917, a Declaração Balfour reconhece o lar nacional judaico. E em 1922 a Liga das Nações aprova o Mandato Britânico.
Davi: E tem um detalhe importante: o preâmbulo do Mandato reconhece a "conexão histórica do povo judeu" com a terra.
Lia: Antes disso, de 1516 a 1917, a região fazia parte do Império Otomano. Nenhum Estado soberano, nem judeu nem árabe, existia ali.
Davi: E isso não nega que havia uma sociedade árabe palestina, com cidades, jornais e vida política. Os palestinos existem como povo. O que é falso é a ideia de um "país roubado".
Lia: Em 1937, a Comissão Peel já propunha dois Estados. E, em 1947, cerca de 600 mil judeus viviam no território.
Davi: Eles já tinham cidades e instituições próprias. Tel Aviv foi fundada em 1909, e a Universidade Hebraica, em 1918.
Lia: Muita gente diz que "a Europa pagou o Holocausto com terra árabe". O que dá para responder?
Davi: Que a ideia é enganosa. O Holocausto pesou na votação, sim. Mas a presença judaica foi construída em grande parte com compra registrada de terras.
Lia: Até maio de 1948, eram cerca de 2 milhões de dunams comprados.
Davi: E isso apesar do Livro Branco britânico de 1939. Ele limitou a imigração judaica e proibiu judeus de comprar terras em 95% do território do Mandato.
Lia: Segunda parte: a votação. Imagine o plenário da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, no fim de novembro de 1947.
Davi: E quem presidia a sessão era um brasileiro: Oswaldo Aranha, diplomata e ex-ministro das Relações Exteriores.
Lia: Mas os defensores da partilha ainda não tinham a maioria de dois terços exigida. E os países árabes pressionavam para votar logo e rejeitar o plano.
Davi: Em 26 de novembro, Aranha usou suas atribuições para encerrar os trabalhos do dia, antes do feriado de Ação de Graças. As fontes divergem sobre a duração desse intervalo.
Lia: O registro oficial da ONU cita uma proposta francesa de suspender a votação por 24 horas.
Davi: Outros relatos falam em um intervalo de 24 a 48 horas. Biografias e reportagens comemorativas falam em três dias.
Lia: O certo é que o intervalo permitiu articulações com delegações indecisas.
Davi: Então chega o dia 29 de novembro. Às 16h, Aranha abre a votação formal. Os países são chamados um a um.
Lia: Resultado: 33 votos a favor e 13 contra. Houve ainda 10 abstenções.
Davi: O Brasil votou a favor, assim como os Estados Unidos e a União Soviética.
Lia: Então foi Aranha quem criou Israel?
Davi: Chamá-lo de "fundador de Israel" é uma homenagem, não uma descrição exata. A aprovação foi uma decisão de muitos países. O papel dele foi institucional: presidiu a sessão decisiva e proclamou o resultado.
Lia: Até hoje, o martelo e o cartão de votação assinado por ele estão no museu do Kibutz Bror Chail, em Israel.
Davi: E o que dizia a Resolução 181? Era uma recomendação, com dois Estados: o judeu ficaria com cerca de 56% do território, e o árabe, com cerca de 43%.
Lia: Jerusalém teria um regime internacional. A liderança judaica aceitou o plano, mesmo com críticas às fronteiras e à situação de Jerusalém.
Davi: Já o Alto Comitê Árabe e os governos da Liga Árabe rejeitaram a partilha e anunciaram que se oporiam a ela pelas armas.
Lia: Terceira parte: a guerra civil. Um aviso: nos próximos minutos vamos falar de combates e de violência contra civis.
Davi: Os combates começaram em 30 de novembro de 1947, um dia depois da votação. Milícias árabes atacaram bairros judaicos, comboios e comunidades isoladas.
Lia: Do lado judeu, lutaram a Haganá, o Palmach, o Irgun e o Lehi. Do lado árabe, milícias locais, voluntários de países vizinhos e o Exército de Libertação Árabe.
Davi: E os britânicos estavam de saída e não aplicaram o plano de partilha. Estradas e cidades mistas viraram campo de batalha, e Jerusalém ficou sob cerco.
Lia: Uma pergunta inevitável: quem começou?
Davi: Uma resposta veio do próprio Alto Comitê Árabe, na ONU. Em 16 de abril de 1948, seu representante Jamal Husseini falou ao Conselho de Segurança.
Lia: Ele disse: "O representante da Agência Judaica disse ontem que eles não eram os atacantes, que os árabes começaram a luta. Nós não negamos isso. Nós dissemos ao mundo inteiro que iríamos lutar."
Davi: Diante do cerco a Jerusalém e da ameaça de invasão regional, a Haganá adotou em março de 1948 o Plano Dalet.
Lia: Era uma diretriz militar para controlar rotas de suprimento, proteger comunidades judaicas isoladas e assumir posições na área destinada ao Estado judeu.
Davi: Alguns autores o descrevem como um plano de expulsão. O historiador Benny Morris o trata como um plano essencialmente militar, mas reconhece que sua aplicação resultou na remoção de populações árabes de certas áreas.
Lia: Quarta parte: a independência. Sexta-feira, 14 de maio de 1948, às 16h, no Museu de Tel Aviv.
Davi: Dois dias antes, a Administração do Povo, sob a liderança de Ben-Gurion, tinha aprovado a proclamação por 6 votos contra 4. Foi uma decisão difícil.
Lia: Na cerimônia, David Ben-Gurion leu a Declaração de Estabelecimento do Estado de Israel e foi o primeiro a assiná-la.
Davi: O texto dizia: "por virtude do nosso direito natural e histórico e com base na Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, proclamamos o estabelecimento de um Estado Judeu em Eretz-Israel, a ser conhecido como Estado de Israel."
Lia: A Declaração prometeu igualdade civil e liberdade religiosa. Também fez um apelo aos árabes do novo Estado para que mantivessem a paz e participassem dele com igualdade plena de direitos.
Davi: E anunciou que o Estado estaria aberto à imigração judaica e ao recolhimento dos exilados. Estados Unidos e União Soviética reconheceram Israel imediatamente.
Lia: Mas a festa durou pouco. Novo aviso: vamos citar ameaças de massacre.
Davi: Na noite de 14 para 15 de maio, os exércitos de Egito, Transjordânia, Síria, Líbano e Iraque invadiram para impedir a existência do novo Estado.
Lia: Antes da invasão, o secretário-geral da Liga Árabe, Azzam Pasha, já havia declarado: "Esta será uma guerra de extermínio e um massacre monumental".
Davi: A Legião Árabe da Transjordânia era a força árabe mais organizada. O Egito avançou pelo sul e pela costa, incluindo Gaza.
Lia: Ainda em maio, a ONU decretou um embargo de armas. As recém-criadas Forças de Defesa de Israel se rearmaram com material comprado via Tchecoslováquia.
Davi: E conseguiram repelir as ofensivas. Israel sobreviveu e terminou a guerra controlando cerca de 77% do território do Mandato.
Lia: Esse resultado veio de uma guerra defensiva, não da anexação de um país. E o custo foi alto.
Davi: Israel perdeu cerca de 6 mil pessoas, entre soldados e civis. Isso era 1% da população judaica da época.
Lia: Em 1949, sob mediação do diplomata da ONU Ralph Bunche, Israel assinou armistícios em Rodes com Egito, Líbano, Jordânia e Síria.
Davi: As linhas de cessar-fogo ficaram conhecidas como "Linha Verde". Mas atenção: não eram fronteiras definitivas. Os próprios acordos diziam isso.
Lia: Jerusalém ficou dividida. A Jordânia anexou a Judeia e Samaria e Jerusalém Oriental em 1950, e o Egito manteve Gaza sob administração militar.
Davi: Nenhum dos dois criou ali um Estado palestino.
Lia: Quinta parte: os refugiados. Um último aviso: este trecho fala de massacre e de expulsões.
Davi: A guerra deslocou centenas de milhares de árabes palestinos. As estimativas variam. A AP fala em cerca de 700 mil, e o governo de Israel em cerca de 720 mil. O número exato não é conhecido.
Lia: Os palestinos chamam esse deslocamento de Nakba. E houve fatos graves, documentados inclusive por historiadores israelenses.
Davi: O massacre de Deir Yassin, em abril de 1948. A expulsão de Lida e Ramle, em julho. Aldeias destruídas e a decisão de não permitir o retorno em massa.
Lia: Então foi uma limpeza étnica planejada?
Davi: Essa é a acusação de Ilan Pappé e de organizações palestinas. A pesquisa de arquivo mais completa não a sustenta.
Lia: Benny Morris não encontrou decisão nem ordem da liderança judaica para expulsar a população árabe. Ele conclui que o problema "nasceu da guerra, não de um plano".
Davi: As causas foram várias: fuga dos combates e medo, saída precoce das elites urbanas, colapso da liderança palestina, instruções de autoridades árabes em alguns lugares e expulsões locais.
Lia: Khaled al-Azm, primeiro-ministro da Síria na época, escreveu: "fomos nós mesmos que os instigamos a sair".
Davi: O historiador Efraim Karsh dá mais peso às decisões árabes do que Morris. Mas não se encontrou uma ordem árabe geral para toda a população sair. Nenhuma causa isolada explica tudo.
Lia: E há a outra metade dessa história, que muitas vezes é esquecida.
Davi: Cerca de 800 mil judeus deixaram países árabes ou foram expulsos deles, segundo o governo de Israel. Muitos enfrentaram perseguição, prisões e confisco de bens.
Lia: A grande diferença está no que veio depois. Israel absorveu a maioria deles como cidadãos.
Davi: Reconhecer a dor palestina é humano e necessário. E isso não exige tratar a existência de Israel como crime.
Lia: A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA: negar o direito de Israel existir é antissemitismo. E combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
Davi: Vamos às três ideias-chave deste episódio.
Lia: Primeira: 1948 não surgiu do nada. Foi o ponto de chegada de meio século de construção, reconhecida pela comunidade internacional.
Davi: Segunda: a liderança judaica aceitou a partilha. A liderança árabe a rejeitou e escolheu a guerra, e Israel foi invadido no dia seguinte ao seu nascimento.
Lia: Terceira: Israel venceu uma guerra defensiva e sobreviveu. O direito do povo judeu a esse Estado não está em debate.
Davi: No próximo e último episódio, "Israel hoje: um povo reunido", vamos ver como judeus do mundo inteiro, de sobreviventes da Shoá a famílias do Iraque, do Iêmen e da Etiópia, construíram juntos o país.
Lia: Até lá!
- Episódio 6 · Israel hoje: um povo reunido14 min · narração com vozes sintéticasWhatsApp
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Lia: Olá! Eu sou a Lia, e este é o último episódio da série em áudio "A história do povo judeu", da Juventude Judaica Organizada, a JJO.
Davi: E eu sou o Davi. Chegamos ao sexto episódio, que se chama "Israel hoje: um povo reunido".
Lia: No episódio anterior, falamos de 1948 e do nascimento do Estado de Israel. Vimos a Declaração de Independência, lida em 14 de maio daquele ano.
Davi: Uma frase dela vai nos acompanhar hoje. A Declaração prometeu "completa igualdade de direitos sociais e políticos" a todos os habitantes, sem distinção de religião, raça ou sexo.
Lia: Hoje a pergunta é outra: como é esse país, quase oitenta anos depois? Quem mora lá, como vive, o que construiu e o que enfrentou?
Davi: Vamos em cinco partes. Primeiro, o retrato do povo. Depois, as grandes ondas de imigração. Em seguida, a democracia e os cidadãos árabes. Depois, a inovação. E, por fim, o 7 de outubro de 2023.
Lia: Começando pelo retrato. Davi, quantas pessoas vivem em Israel hoje?
Davi: Em maio de 2025, segundo o Escritório Central de Estatísticas, eram cerca de 10,094 milhões de habitantes.
Lia: E como essa população se divide?
Davi: Cerca de 76,6% estão na categoria "judeus e outros". Os árabes são 20,9%.
Lia: Ou seja, mais ou menos um em cada cinco cidadãos de Israel é árabe. Vamos voltar a isso daqui a pouco.
Davi: E tem um dado que surpreende muita gente: cerca de 80% dos judeus de Israel já nasceram no país. Eles costumam ser chamados de sabras.
Lia: Mas as famílias vieram de lugares muito diferentes. Há asquenazes, de origem centro e leste europeia, e sefarditas, ligados originalmente à Península Ibérica.
Davi: Há também os mizrahim, judeus de países como Iraque, Iêmen, Marrocos e Irã. Grande parte dessas famílias emigrou ou foi expulsa de países árabes e islâmicos entre 1948 e 1970.
Lia: E há os judeus etíopes e os judeus da antiga União Soviética. Não existe um "israelense típico".
Davi: Entre os não judeus também há muita variedade. Há árabes muçulmanos, árabes cristãos e beduínos. Os drusos falam árabe, mas formam uma comunidade própria, com uma fé monoteísta surgida no século XI.
Lia: Os drusos são cerca de 152 mil pessoas. Os homens cumprem serviço militar obrigatório desde 1956, a pedido da própria liderança da comunidade na época.
Davi: E há cidades mistas, onde judeus e árabes vivem lado a lado, como Haifa, Acre, Jafa, Ramle e Lod.
Lia: Agora, a segunda parte: como tanta gente chegou? Uma palavra ajuda: aliá.
Davi: Aliá é a palavra hebraica para a imigração judaica a Israel. Significa "subida". Pela Lei do Retorno, todo judeu tem direito de se estabelecer em Israel e receber a cidadania.
Lia: No fim da Guerra Fria, houve duas grandes aliás. Uma veio da União Soviética e a outra da Etiópia.
Davi: Vamos à primeira. Durante décadas, o regime soviético impediu os judeus de sair. Quem pedia para emigrar e tinha a saída negada era chamado de refusenik.
Lia: E o preço era alto, não era?
Davi: Muito alto. Vigilância, discriminação no trabalho, pressão política. Mesmo assim, eles se organizaram: aulas clandestinas de hebraico, estudos judaicos, redes de solidariedade.
Lia: No exterior, nasceu um movimento internacional pelos judeus soviéticos. A emigração deles virou uma causa de direitos humanos.
Davi: Um dos refuseniks mais conhecidos foi Natan Sharansky. Mais tarde, em Israel, ele fundou um partido.
Lia: E quando as portas se abriram?
Davi: No fim da década de 1980, com a pressão externa, a mobilização interna, as reformas de Mikhail Gorbachev, a crise econômica e o fim da União Soviética. A partir de 1989, Israel recebeu mais de um milhão de imigrantes da ex-URSS.
Lia: Só em 1990 chegaram cerca de 184 mil. Em 1991, cerca de 147 mil.
Davi: Muitos eram engenheiros, médicos, cientistas, músicos. O Estado ofereceu cursos de hebraico, os ulpanim, e ajuda com moradia e emprego.
Lia: Mas não foi fácil para todos. Muitos esbarraram na língua ou tiveram o diploma reconhecido só em parte. Nos primeiros anos, parte deles trabalhou abaixo da própria qualificação.
Davi: Agora, a Etiópia. Os judeus etíopes são, em sua maioria, descendentes dos Beta Israel.
Lia: Antes do resgate, muitos deixaram suas aldeias e caminharam até o Sudão. No caminho e nos campos de refugiados, houve mortes por fome, doenças e exaustão.
Davi: Então veio a Operação Moisés, entre novembro de 1984 e janeiro de 1985. Foi secreta, e levou de avião cerca de 8 mil judeus etíopes para Israel.
Lia: E a outra operação, a mais famosa?
Davi: A Operação Salomão, em maio de 1991. O regime de Mengistu Haile Mariam estava caindo, e forças rebeldes avançavam sobre a capital, Adis Abeba.
Lia: Em cerca de 36 horas, Israel levou 14.325 judeus etíopes, segundo o Yad Vashem.
Davi: Foram 35 aeronaves israelenses. E um bebê nasceu durante o voo.
Lia: É uma imagem forte: uma criança que começa a vida no ar, entre a guerra e o novo lar.
Davi: A integração dos etíopes também teve dificuldades reais: pobreza, barreiras de língua e discriminação. O governo respondeu com programas como o Derech Hadasha e adotou as recomendações do Relatório Palmor contra o racismo.
Lia: Essas duas aliás mostram a razão de ser de Israel: ser o lar e o refúgio de judeus de qualquer lugar do mundo.
Davi: Terceira parte: a democracia. Uma pergunta que muitos ouvintes fazem é esta: Israel é uma democracia?
Lia: Sim. É uma democracia parlamentar. O Knesset, o Parlamento, tem 120 cadeiras, eleitas pelo voto proporcional.
Davi: Há uma Suprema Corte independente e uma imprensa plural. Israel se define, em suas Leis Básicas, como um "Estado judeu e democrático".
Lia: E os cidadãos árabes? Eles votam?
Davi: Votam e são eleitos desde as primeiras eleições, em 1949, nas mesmas condições jurídicas que os demais cidadãos.
Lia: Em junho de 2021, aconteceu algo histórico. O partido árabe islâmico Ra'am, de Mansour Abbas, entrou na coalizão de Naftali Bennett e Yair Lapid.
Davi: Foi a primeira vez que um partido árabe teve papel formal e decisivo na formação de um governo. O Ra'am negociou investimentos para as comunidades árabes em troca de apoio.
Lia: E a participação vai além do Parlamento. Cidadãos árabes foram juízes da Suprema Corte, como Salim Joubran e Khaled Kabub, o primeiro juiz muçulmano permanente.
Davi: Há um ministro, Issawi Frej, e um major-general das Forças de Defesa de Israel, Ghassan Alian. Universidades, hospitais, praias e transportes funcionam de forma integrada.
Lia: Isso quer dizer que está tudo resolvido?
Davi: Não. Há desigualdades socioeconômicas documentadas, em educação, habitação e emprego. O próprio Estado as reconhece.
Lia: Em 2003, uma comissão oficial, a Comissão Or, reconheceu negligência e discriminação e pediu correções. Em 2021, o governo aprovou o Plano Takadum, com cerca de 30 bilhões de shekels para o setor árabe.
Davi: E houve um debate grande sobre a Lei do Estado-Nação, aprovada em 2018. Ela define Israel como o Estado-nação do povo judeu.
Lia: Organizações árabes e líderes drusos criticaram a lei. O caso chegou à Suprema Corte.
Davi: Em julho de 2021, a Corte manteve a lei por 10 votos a 1. Decidiu que ela não revoga a igualdade dos cidadãos. O único voto contrário foi do juiz árabe George Karra.
Lia: Uma lei contestada no Parlamento, nas ruas e na Suprema Corte, com um juiz árabe no julgamento. Isso é a democracia israelense funcionando.
Davi: Quarta parte, e uma mudança de clima: Israel ficou conhecido como a "nação das startups".
Lia: Por quê, Davi?
Davi: Em 2022, Israel investiu 6,1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento civil. Nenhum país da OCDE investiu mais naquele levantamento.
Lia: E o país tinha 4.801 startups ativas em 2021.
Davi: Algumas criações são conhecidas no mundo todo. O Waze, criado por empreendedores israelenses, foi comprado pelo Google em 2013.
Lia: A Mobileye, fundada por Amnon Shashua e Ziv Aviram, desenvolveu visão computacional para ajudar motoristas.
Davi: Na agricultura, o engenheiro Simcha Blass e a empresa Netafim levaram a irrigação por gotejamento moderna à grande escala. E o Iron Dome, desenvolvido principalmente pela Rafael, defende cidades contra foguetes.
Lia: E de onde vem tudo isso?
Davi: De vários fatores juntos. A reforma econômica de 1985 abriu espaço para empresas privadas. A imigração dos anos 1990 trouxe engenheiros e cientistas.
Lia: Olha aí as aliás de novo. A história de cada parte deste episódio se conecta.
Davi: Exatamente. E as unidades tecnológicas do serviço militar também formam talentos.
Lia: Agora chegamos à quinta parte. Um aviso aos ouvintes: vamos falar de violência, com mortes e sequestros. Se você estiver ouvindo com crianças, talvez queira fazer uma pausa.
Davi: Era a manhã de 7 de outubro de 2023, um sábado. Era também o feriado judaico de Simchat Torah, dia de alegria e dança com a Torá.
Lia: Por volta das 6h30, começou uma barragem de milhares de foguetes. Ao mesmo tempo, terroristas do Hamas e de outros grupos romperam a cerca de Gaza em dezenas de pontos.
Davi: Eles invadiram mais de 20 localidades no sul de Israel, como Be'eri, Kfar Aza e Nir Oz. Atacaram cidades como Sderot e Ofakim.
Lia: Perto do kibutz Re'im, acontecia o festival de música Nova, com cerca de 3 mil jovens. Foi o local com mais mortes: mais de 370, segundo a BBC.
Davi: Nos kibutzim, os terroristas iam de casa em casa. Mataram moradores e incendiaram casas com famílias dentro.
Lia: Ao todo, cerca de 1.200 pessoas foram mortas, a maioria civis. Entre as vítimas havia pessoas de muitos países, inclusive do Brasil.
Davi: E 251 pessoas foram sequestradas e levadas para Gaza: bebês, crianças, idosos, sobreviventes do Holocausto.
Lia: Uma missão da ONU, liderada por Pramila Patten, encontrou motivos razoáveis para acreditar que houve estupro e estupro coletivo naquele dia.
Davi: O 7 de outubro é lembrado como o dia em que mais judeus foram mortos num único dia desde o Holocausto. Foi esse ataque do grupo terrorista Hamas que começou a guerra.
Lia: E é importante dizer: a responsabilidade é do Hamas e dos grupos que atacaram, não de um povo.
Davi: Cerca de 150 mil israelenses foram retirados de suas casas. Ao longo da guerra, 136 reféns voltaram vivos. Mais tarde, as Forças de Defesa de Israel anunciaram que todos os reféns tinham sido devolvidos a Israel.
Lia: E, naquele dia, os primeiros a reagir foram moradores, equipes de segurança locais, policiais e soldados. Gente comum defendendo vizinhos.
Davi: Lia, vamos às três ideias-chave?
Lia: Vamos. Primeira: Israel é um povo reunido. Judeus da Europa, do Oriente Médio, da África e da antiga União Soviética voltaram para casa, e o Estado organizou resgates para trazê-los.
Davi: Segunda: Israel é uma democracia. Cidadãos árabes votam desde 1949, são deputados, ministros e juízes. Há desigualdades reais, e o país as reconhece e trabalha para corrigi-las.
Lia: Terceira: Israel constrói e se defende. É a nação das startups, e também um país que sofreu o 7 de outubro e seguiu de pé.
Davi: Para fechar a série, uma reflexão. Começamos lá atrás, nas origens do povo judeu, e chegamos a um Estado vivo, diverso e democrático.
Lia: Criticar políticas de um governo é legítimo, em Israel ou em qualquer lugar. Mas negar o direito de Israel existir é antissemitismo, segundo a definição da IHRA, que a JJO adota.
Davi: A promessa de 1948 era reunir o povo judeu no seu lar e garantir igualdade a todos os cidadãos. Essa promessa continua sendo o caminho de Israel.
Lia: Obrigada por nos acompanhar nestes seis episódios.
Davi: Até a próxima, e shalom.




