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Theodor Herzl no Primeiro Congresso Sionista em Basileia, 1897
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Para ouvir e entender

Séries em áudio que contam uma história do começo ao fim, e conceitos explicados em 3 minutos para mandar no WhatsApp ou usar em sala de aula.

Foto: Theodor Herzl no Primeiro Congresso Sionista em Basileia, 1897. Government Press Office · Public domain · Wikimedia Commons

Séries em áudio

Cada série é um pequeno curso para ouvir: os episódios seguem uma ordem e cada um retoma o anterior.

Theodor Herzl no Primeiro Congresso Sionista em Basileia, 1897
6 episódios · 79 min

A história do povo judeu

Das origens na terra de Israel à diáspora, ao sionismo, à Shoá, a 1948 e ao Israel de hoje.

Para jovens do Ensino Médio, universitários, professores e famílias.
  1. Episódio 1 · As origens: a terra, o povo e a Torá12 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá, eu sou a Lia, e esta é "A história do povo judeu", uma série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO, em seis episódios que acompanham um povo desde o seu nascimento na Terra de Israel, passando pelos exílios e pelo retorno, até os dias de hoje.

    Davi: E eu sou o Davi. Hoje, no primeiro episódio, vamos às origens: a terra, o povo e a Torá.

    Lia: Vamos carregar uma pergunta do começo ao fim: o que mantém um povo unido por três mil anos?

    Davi: Antes, um aviso sobre datas. Quase tudo de hoje acontece antes da era comum, o período que muita gente chama de "antes de Cristo". Às vezes diremos só o ano, mas o contexto vai deixar claro quando estamos antes ou depois da era comum.

    Lia: Então vamos começar com uma cena. Imagine um faraó egípcio mandando gravar, num grande bloco de pedra, os povos que dizia ter vencido em Canaã.

    Davi: É a Estela de Merneptah, de cerca de 1208 antes da era comum. E nela aparece um nome: Israel.

    Lia: Por que isso importa tanto?

    Davi: Porque é a menção mais antiga conhecida, fora da Bíblia, a um povo chamado Israel estabelecido na região. Não é um texto judaico falando de si mesmo. É o Egito registrando que esse povo estava lá.

    Lia: E há uma segunda pedra, encontrada no norte de Israel.

    Davi: É a Estela de Tel Dan, do século nove antes da era comum, escrita em aramaico. Ela fala de um "Rei de Israel" e, na leitura predominante entre especialistas, da "Casa de Davi", a dinastia de Jerusalém.

    Lia: Dá para dizer que a arqueologia prova a Bíblia inteira?

    Davi: Não, e é bom ser preciso. A arqueologia confirma o quadro geral, sem provar cada episódio. A Estela de Tel Dan não demonstra até onde ia o reino de Davi. Mas mostra que essa dinastia era conhecida pelos vizinhos.

    Lia: A genética soma mais uma peça. Um estudo de DNA antigo publicado na revista Cell, em 2020, mostra que judeus e árabes atuais do Levante carregam ancestralidade local da Idade do Bronze.

    Davi: Só que DNA não é título de propriedade. O direito do povo judeu à autodeterminação se apoia na história, na língua, na religião, na memória e no reconhecimento internacional.

    Lia: Vamos agora à Idade do Ferro. Havia dois reinos israelitas: o Reino de Israel, ao norte, e o Reino de Judá, ao sul.

    Davi: E a capital de Judá era Jerusalém. Pelo relato bíblico, o rei Davi instalou ali sua capital por volta de 1000 antes da era comum.

    Lia: E foi ali que Salomão, filho de Davi, construiu o Primeiro Templo, no monte que hoje chamamos de Monte do Templo.

    Davi: É de Judá que vem a palavra "judeu"?

    Lia: Exatamente. "Judeu" vem do hebraico Yehudi, que quer dizer habitante de Judá. Antes, o povo se chamava Bnei Yisrael, os Filhos de Israel.

    Davi: Em 722, a Assíria destruiu o reino do norte. Judá continuou, com Jerusalém no centro.

    Lia: E Jerusalém deixou marcas. Do século oito antes da era comum, há a Inscrição de Siloé, um registro em hebraico de uma obra hidráulica na cidade.

    Davi: E há um achado pequeno e comovente: os amuletos de prata de Ketef Hinnom, de por volta de 700 antes da era comum.

    Lia: O que eles têm de especial?

    Davi: Trazem a Bênção Sacerdotal, um texto bíblico ainda usado nas sinagogas. É o texto bíblico em hebraico mais antigo já encontrado.

    Lia: Pensa nisso: palavras ditas por quem vivia em Jerusalém há muitos séculos continuam sendo ditas hoje.

    Davi: Um aviso: neste bloco e no próximo, vamos falar de guerra, destruição e morte.

    Lia: Em 586 antes da era comum, a Babilônia de Nabucodonosor II conquistou Jerusalém.

    Davi: A cidade e o Primeiro Templo foram incendiados. Na Cidade de Davi, a arqueologia encontrou uma camada de cinzas, madeira queimada e pontas de flechas desse incêndio. Parte da população de Judá foi deportada.

    Lia: E aqui vem a pergunta que o ouvinte deve estar fazendo: um povo levado para longe não acaba se dissolvendo entre os outros?

    Davi: Muitos povos desapareceram assim. Este não. Os Tabletes de Al-Yahudu, escritos em acádio, datados de 572 a 477 antes da era comum, mostram isso.

    Lia: Mostram o quê, exatamente?

    Davi: Que os exilados conservaram na Babilônia seus nomes hebraicos e sua identidade familiar e jurídica.

    Lia: E o retorno?

    Davi: A Pérsia conquistou a Babilônia em 539. Segundo o governo de Israel, um primeiro retorno, tradicionalmente datado de 538, foi liderado por Zorobabel.

    Lia: O Segundo Templo foi erguido por volta de 516. E a província persa se chamava Yehud. Selos com essa palavra foram escavados em Jerusalém, En Gedi e Ramat Rahel.

    Davi: Foi nessa época que o termo "judeus" passou a designar essa comunidade. Israelitas e judeus não são povos diferentes. São etapas da história de um só povo.

    Lia: Séculos depois, no século dois antes da era comum, a Revolta dos Macabeus levou ao Estado hasmoneu, soberano e com moedas próprias.

    Davi: E a festa de Chanucá lembra a rededicação do Templo depois dessa revolta.

    Lia: Até aqui falamos de terra e de povo. Falta o terceiro elemento do título: a Torá.

    Davi: O que é, afinal, a Torá?

    Lia: São os cinco primeiros livros da Bíblia hebraica: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Em sentido amplo, Torá também quer dizer ensinamento, toda a tradição judaica de estudo.

    Davi: E o que ela traz de essencial?

    Lia: Três ideias. A primeira é um só Deus, proclamado na oração do Shema: "O Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um".

    Davi: A segunda é a aliança entre Deus e o povo de Israel, que a tradição associa a Abraão e, depois, a Moisés no Monte Sinai.

    Lia: A terceira são os mandamentos. A tradição rabínica conta 613 preceitos, as mitzvot.

    Davi: São 248 obrigações e 365 proibições. E justiça, caridade, estudo e arrependimento ocupam um lugar central.

    Lia: E a ideia de "povo escolhido"? Muita gente ouve isso como superioridade.

    Davi: Na tradição judaica, é vocação e responsabilidade da aliança. Não é uma afirmação de superioridade biológica ou racial.

    Lia: A Bíblia hebraica inteira, o Tanakh, tem 24 livros, organizados em três partes: Torá, Profetas e Escritos.

    Davi: E repare numa coisa: um templo pode ser incendiado, mas um texto estudado e guardado viaja com quem o carrega. Isso vai ser decisivo.

    Lia: Chegamos à era comum. Em 66, começou a Grande Revolta contra Roma. Em 70, as legiões de Tito cercaram Jerusalém e destruíram o Segundo Templo.

    Davi: O Arco de Tito, em Roma, mostra a Menorá levada do Templo como saque.

    Lia: Mas há quem diga que o Templo nunca existiu.

    Davi: Fontes judaicas, romanas e cristãs, além de achados arqueológicos, confirmam o Templo. Os historiadores debatem detalhes, como a posição exata do Santo dos Santos, e não a existência do Templo.

    Lia: Agora vamos a Massada. Mais uma vez, atenção: o relato envolve cerco e morte.

    Davi: Massada é uma fortaleza-palácio construída por Herodes sobre um platô rochoso do Deserto da Judeia, a cerca de 400 metros acima do Mar Morto.

    Lia: Em 66, rebeldes judeus conhecidos como sicários tomaram a guarnição romana ali. Depois de 70, a fortaleza virou refúgio de quem fugia dos romanos.

    Davi: Segundo o historiador Flávio Josefo, eram cerca de 960 homens, mulheres e crianças, liderados por Eleazar ben Yair. Eles ergueram ali uma sinagoga e banhos rituais.

    Lia: Os romanos, comandados por Lucius Flavius Silva, cercaram a montanha e construíram uma rampa de terra e pedras. Depois romperam a muralha com uma torre de cerco e um aríete.

    Davi: Estudos de engenharia militar indicam que o cerco efetivo durou de quatro a nove semanas.

    Lia: E ele aconteceu na primavera de 73 ou 74 da era comum.

    Davi: E como foi o fim?

    Lia: Segundo Josefo, os defensores preferiram a morte em liberdade à escravidão. Ele relata que só duas mulheres e cinco crianças sobreviveram, escondidas nas cisternas.

    Davi: Josefo é a única fonte literária antiga detalhada sobre a queda, e escreveu sob patronato romano. Por isso, o desfecho exato segue em debate entre os historiadores.

    Lia: A arqueologia, nas escavações de Yigael Yadin entre 1963 e 1965, confirmou o palácio, a sinagoga, as camadas de incêndio e os projéteis da artilharia romana.

    Davi: Segundo as escavações de Yigael Yadin, também foram achados fragmentos de cerâmica com nomes gravados em hebraico, entre eles "Ben Yair". O cerco e a conquista romana não estão em disputa.

    Lia: Depois veio a revolta de Bar Kokhba, entre 132 e 135. Roma a esmagou, rebatizou Jerusalém como Aelia Capitolina e proibiu os judeus de viver na cidade.

    Davi: Então acabou ali a presença judaica na terra?

    Lia: Não. A população judaica encolheu e se deslocou, mas não desapareceu. Por volta de 200, na Galileia, o rabino Judá, o Patriarca, compilou a Mishná, a primeira compilação escrita da lei oral.

    Davi: É a Torá sendo levada adiante na própria terra, mesmo sem Templo. Séculos depois, sinagogas como as de Meroth e Ein Gedi mostram essa vida comunitária.

    Lia: E "contínua" não quer dizer que os judeus foram maioria em todos os séculos. Quer dizer que comunidades judaicas nunca deixaram de existir ali.

    Davi: Para fechar, três ideias-chave.

    Lia: Primeira: o povo judeu nasceu na Terra de Israel. Uma estela egípcia, uma inscrição aramaica, textos em hebraico e o DNA antigo apontam para o mesmo lugar. Os judeus não são estrangeiros na terra onde seu povo nasceu.

    Davi: Segunda: israelitas e judeus são um só povo. O exílio na Babilônia não apagou nomes nem identidade, e o retorno a Yehud deu ao povo o nome que ele carrega até hoje.

    Lia: Terceira: depois das destruições de 586 e de 70, comunidades judaicas permaneceram na terra, na Galileia, em Hebron, em Safed e, sempre que possível, em Jerusalém. Junto com a Torá, esse vínculo nunca se rompeu.

    Davi: Os palestinos também têm raízes de muitas gerações na região. Mas, pela definição de antissemitismo da IHRA, adotada pela JJO, usar o rótulo de "invasor" para negar ao povo judeu a autodeterminação é antissemitismo.

    Lia: No próximo episódio: "Diáspora: dois mil anos longe da terra, sem esquecê-la". Vamos ver como as orações, o calendário e as festas mantiveram Jerusalém no centro da vida judaica.

    Davi: Por isso, a resposta à nossa pergunta começa aqui: um nome gravado em pedra, uma fé guardada em palavras e uma terra que nunca saiu da memória. É isso que, há três mil anos, mantém um povo unido.

  2. Episódio 2 · Diáspora: dois mil anos longe da terra, sem esquecê-la12 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Eu sou a Lia, e você está ouvindo "A história do povo judeu", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio dois de seis: "Diáspora: dois mil anos de dispersão, sem esquecer a terra".

    Lia: No episódio anterior, "As origens: a terra, o povo e a Torá", vimos que o povo judeu se formou na Terra de Israel, com os reinos de Israel e de Judá e a capital em Jerusalém.

    Davi: Hoje a pergunta é outra. Como um povo espalhado pelo mundo conseguiu continuar sendo um povo, sem perder o vínculo com a sua terra?

    Lia: Vamos responder em cinco partes. Primeiro, as duas destruições de Jerusalém. Depois, a revolta que fechou a cidade aos judeus. Em seguida, quem ficou na terra. Depois, a vida na Europa cristã. E, por fim, como a memória atravessou os séculos.

    Davi: Então vamos começar pelo primeiro exílio.

    Lia: Estamos no ano 586 antes da era comum. O exército babilônico de Nabucodonosor II cerca Jerusalém.

    Davi: Um aviso para quem está ouvindo: os próximos minutos falam de guerra, cercos e destruição.

    Lia: O cerco é longo, e a fome toma conta da cidade. Os babilônios entram em Jerusalém, incendeiam o Templo construído por Salomão, derrubam as muralhas e deportam parte da população de Judá para a Babilônia.

    Davi: E isso não aparece só na Bíblia, certo?

    Lia: Não. Em Jerusalém, os arqueólogos encontraram camadas de cinzas e vigas de madeira carbonizada. Encontraram também pontas de flecha de estilo babilônico e pedras de catapulta.

    Davi: E o que aconteceu com quem foi levado para a Babilônia? Eles se misturaram e desapareceram?

    Lia: É justamente o contrário. Os Tabletes de Al-Yahudu, escritos em acádio, mostram que os exilados mantiveram seus nomes hebraicos e sua identidade familiar e jurídica.

    Davi: Ou seja, o primeiro exílio já ensinou uma lição: é possível estar longe sem deixar de ser quem se é.

    Lia: E houve volta. A Pérsia conquistou a Babilônia, e um primeiro retorno, tradicionalmente datado de 538 antes da era comum, foi liderado por Zorobabel.

    Davi: O Segundo Templo foi erguido por volta de 516 antes da era comum. Séculos depois, a Revolta dos Macabeus levou ao Estado hasmoneu, soberano e com moedas próprias.

    Lia: Mas, no ano 70 da era comum, veio a segunda destruição. Durante a Grande Revolta contra Roma, as legiões do general Tito cercam Jerusalém e incendeiam o Templo.

    Davi: O historiador Flávio Josefo, testemunha ocular do cerco, descreve a cena em A Guerra dos Judeus.

    Lia: Ele conta o momento em que um soldado romano atira uma tora em chamas por uma porta de ouro. Até hoje, os arqueólogos encontram em Jerusalém pedras de balista e pontas de lança daquele cerco.

    Davi: E em Roma existe um monumento que conta a mesma história do ponto de vista dos vencedores.

    Lia: O Arco de Tito. O relevo mostra soldados romanos carregando a Menorá de ouro saqueada do Templo. Quem diz que os judeus não têm ligação com Jerusalém precisa explicar esse arco.

    Davi: Vamos para o segundo bloco: a revolta que mudou o mapa da presença judaica.

    Lia: Entre os anos 132 e 135, os judeus se levantam outra vez contra Roma, na revolta de Bar Kokhba. O aviso continua valendo: este trecho também fala de violência.

    Davi: E deixaram registros próprios, não deixaram?

    Lia: Deixaram. Há cartas assinadas por "Shimon bar Kosiba, Nasi Israel", isto é, príncipe de Israel. E há moedas com a inscrição "Pela Liberdade de Jerusalém".

    Davi: Mas a revolta termina mal.

    Lia: Termina com o massacre na fortaleza de Betar. Os romanos aram as ruínas de Jerusalém e fundam ali uma colônia chamada Aelia Capitolina.

    Davi: E a partir daí os judeus são proibidos de morar na própria cidade.

    Lia: Imperadores romanos e, depois, bizantinos mantiveram essa proibição. Havia uma única exceção: o dia de Tisha BeAv, o nono dia do mês de Av, quando os judeus podiam entrar para chorar junto às ruínas do santuário.

    Davi: Imagine a cena: uma vez por ano, gente subindo até Jerusalém só para chorar no lugar onde estava o Templo.

    Lia: Agora vem uma pergunta que muita gente faz: sem Templo e sem Jerusalém, como o judaísmo sobreviveu?

    Davi: Logo depois da destruição de 70, ainda antes de Bar Kokhba, essa resposta já estava sendo construída por Rabban Yochanan ben Zakkai, na cidade de Yavneh.

    Lia: Ali, o culto de sacrifícios deu lugar ao estudo da Torá, à oração diária e às sinagogas. O judaísmo passou a caber em qualquer lugar onde houvesse uma comunidade reunida em torno de um livro.

    Davi: Uma religião que você pode levar na bagagem.

    Lia: Exatamente. E isso nos leva ao terceiro bloco, que talvez surpreenda: nem todos foram embora.

    Davi: Quando se fala em diáspora, muita gente imagina que a terra ficou vazia de judeus. Não é verdade.

    Lia: Comunidades judaicas nunca deixaram de existir na Terra de Israel. A população encolheu e se deslocou, mas não desapareceu.

    Davi: Mas vamos ser precisos. "Contínua" não quer dizer que os judeus foram maioria em todos os séculos.

    Lia: Nem que cada cidade teve judeus sem interrupção. Em Jerusalém houve fases de acesso limitado e de comunidade muito pequena. O que os registros mostram é a continuidade das comunidades judaicas na região, com perdas, expulsões e reconstruções.

    Davi: E quais são esses registros?

    Lia: Por volta do ano 200, na Galileia, o Rabi Judá, o Patriarca, compila a Mishná, a base da lei oral judaica. Isso acontece em Séforis e em Bet She'arim.

    Davi: Depois vêm as sinagogas dos períodos bizantino e islâmico, como as de Meroth, Huqoq e Ein Gedi. A de Meroth ficou em uso por vários séculos.

    Lia: Entre 922 e 1076, a Academia da Terra de Israel, que antes funcionava em Tiberíades, atua em Jerusalém.

    Davi: Há também as cartas e os contratos da Genizá do Cairo, que mostram tribunais rabínicos e vida comunitária em Jerusalém e Tiberíades.

    Lia: E, no século doze, o viajante Benjamim de Tudela descreve comunidades judaicas em várias cidades da terra.

    Davi: Então dá para dizer que a dispersão aconteceu, mas a terra nunca ficou sem judeus.

    Lia: Isso mesmo. Por isso é falso chamar os judeus de estrangeiros na terra onde seu povo nasceu.

    Davi: Agora vamos acompanhar quem estava longe. Quarto bloco: a Europa cristã.

    Lia: Mais um aviso: este bloco fala de perseguições, massacres e execuções.

    Davi: Na Idade Média, uma acusação passou a justificar a violência: o deicídio, a ideia de que os judeus, como coletividade, seriam responsáveis pela morte de Jesus.

    Lia: Uma acusação falsa. Jesus era judeu, e a crucificação era uma pena romana, aplicada sob Pôncio Pilatos.

    Davi: Em 1965, a declaração Nostra Aetate, da Igreja Católica, afirmou que a morte de Cristo não pode ser atribuída aos judeus daquela época nem aos de hoje. O texto também repudia o antissemitismo.

    Lia: Mas, antes disso, muita gente sofreu por causa dessa mentira. Em 1096, durante a Primeira Cruzada, cruzados atacaram comunidades judaicas na Renânia, em cidades como Worms e Mainz.

    Davi: Muitos judeus foram mortos ou batizados à força. Alguns bispos e governantes tentaram protegê-los.

    Lia: Surgiu também o libelo de sangue, a acusação falsa de que judeus matavam crianças cristãs em rituais. E, durante a Peste Negra, judeus foram acusados de envenenar poços.

    Davi: Mais de trezentas comunidades foram destruídas na Europa Ocidental. O próprio papa Clemente VI refutou a acusação, observando que a peste também matava judeus.

    Lia: Em pouco mais de dois séculos, a Inglaterra, a França, a Espanha e Portugal expulsaram seus judeus ou os forçaram a escolher entre o batismo e o exílio.

    Davi: A mais conhecida é a expulsão da Espanha, em 1492. E, em Portugal, D. Manuel I impôs o batismo compulsório em massa.

    Lia: Alguns dos expulsos foram para a Terra de Israel, e Safed se tornou um polo de estudo, centro da Cabala, com Isaac Luria e Joseph Karo. Esse gesto de se voltar para a terra de origem aparece várias vezes na nossa história.

    Davi: E essa história chega até o Brasil, não é?

    Lia: Chega. Os batizados à força em Portugal ficaram conhecidos como cristãos-novos, e muitos vieram para a colônia. A Inquisição os seguiu.

    Davi: O Brasil não tinha tribunal da Inquisição. Os presos eram enviados de navio para Lisboa, onde eram interrogados, às vezes sob tortura, e julgados.

    Lia: Um dos casos mais conhecidos é o do dramaturgo Antônio José da Silva, "o Judeu", nascido no Rio de Janeiro. Ele foi executado em Lisboa em 1739.

    Davi: E houve um momento em que alguns cristãos-novos puderam viver abertamente como judeus, aqui mesmo.

    Lia: Durante o domínio holandês, no Recife, vários deles professaram o judaísmo às claras.

    Davi: Chegamos ao quinto bloco. Depois de tudo isso, como a memória sobreviveu?

    Lia: Ela sobreviveu nas orações, no calendário e nas festas, sempre voltados para Jerusalém.

    Davi: Até hoje, em Tisha BeAv, muitos judeus jejuam por cerca de um dia inteiro. À noite, leem o Livro das Lamentações, a Meguilat Eikhá, com as luzes reduzidas, sentados no chão ou em bancos baixos.

    Lia: E recitam as kinot, poemas de lamento compostos em diferentes épocas. Cada geração acrescentou a sua dor ao mesmo dia.

    Davi: E, entre os cristãos-novos no Brasil, a memória vivia dentro de casa.

    Lia: Muitas mulheres tiveram um papel central. Acendiam candeeiros ao anoitecer de sexta-feira, trocavam a roupa de cama para o Shabat e guardavam o jejum do "Dia Grande", o Yom Kippur.

    Davi: Gestos pequenos, que a Inquisição tratava como "provas", mas que eram uma forma de dizer: nós ainda lembramos.

    Lia: Só que a hostilidade não acabou com a Idade Média. No século dezenove, o ódio religioso ganhou forma racial, e a palavra "antissemitismo" foi popularizada em 1879.

    Davi: Vieram ondas de pogroms no Império Russo, como o massacre de Kishinev, e o Caso Dreyfus, na França. Foi nesse cenário que uma antiga esperança ganhou forma política.

    Lia: Antes de chegar lá, vamos às três ideias-chave de hoje.

    Davi: Primeira: a diáspora foi dispersão, não desaparecimento. Comunidades judaicas permaneceram na Terra de Israel, com a Mishná, as sinagogas, a Genizá e Safed como testemunhas.

    Lia: Segunda: o judaísmo se reinventou para sobreviver longe do Templo. O estudo da Torá, a oração e as sinagogas permitiram que o povo continuasse sendo um povo em qualquer lugar.

    Davi: Terceira: em dois mil anos, o vínculo com Jerusalém nunca se rompeu. Ele viveu nas orações, no luto de Tisha BeAv e até nos candeeiros acesos em segredo no Brasil colonial.

    Lia: É por isso que o povo judeu não é estrangeiro na Terra de Israel. Ele nasceu ali, e de lá nunca se desligou.

    Davi: No próximo episódio, "O sionismo e o caminho de volta", vamos ver como essa memória se transformou em um movimento de retorno.

    Lia: Até lá! Eu sou a Lia.

    Davi: E eu sou o Davi. Obrigado por ouvir "A história do povo judeu", da JJO.

  3. Episódio 3 · O sionismo e o caminho de volta13 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Você está ouvindo "A história do povo judeu", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio 3 de 6: "O sionismo e o caminho de volta".

    Lia: No episódio anterior, vimos a Diáspora: quase dois mil anos longe da terra, mas sem esquecê-la. Nas orações, nas festas e no estudo, Sião continuou presente.

    Davi: Hoje a pergunta é: como essa saudade antiga virou um movimento político, com congressos, escolas, vilas agrícolas e diplomacia? E como isso levou a um Estado?

    Lia: Vamos contar essa história em cinco partes. Primeiro, as raízes. Depois, Theodor Herzl. Em seguida, a vida construída no chão. Depois, a diplomacia. E, por fim, o nascimento de Israel.

    Davi: Então vamos começar pelo nome. Lia, de onde vem a palavra "sionismo"?

    Lia: Vem de Sião, Tsiyon em hebraico, um dos nomes bíblicos de Jerusalém. Com o tempo, Sião virou símbolo de toda a Terra de Israel.

    Davi: E quem inventou o termo?

    Lia: Foi o intelectual austríaco Nathan Birnbaum, por volta de 1890. As datas apontadas para a criação do termo variam entre 1890 e 1892.

    Davi: Mas a ideia de voltar é bem mais antiga que a palavra, não é?

    Lia: Muito mais. O desejo de retorno a Sião aparecia na liturgia judaica havia séculos. O que o sionismo moderno fez foi transformar essa esperança religiosa em um projeto político e nacional.

    Davi: Antes de seguir, um aviso: o próximo trecho menciona violência contra judeus.

    Lia: Em 1881, uma onda de pogroms, ataques violentos contra comunidades judaicas, atingiu o Império Russo.

    Davi: E qual foi a resposta?

    Lia: Em 1882, o médico Leon Pinsker publicou "Autoemancipação". A ideia central era que os judeus deviam assumir o controle do próprio destino.

    Davi: E já havia quem pensasse assim antes dele, certo?

    Lia: Sim. O rabino Yehuda Alkalai, o rabino Zvi Hirsch Kalischer e o filósofo Moses Hess já defendiam o trabalho agrícola na Terra de Israel. Hess escreveu "Roma e Jerusalém", em 1862.

    Davi: O texto de Pinsker inspirou as sociedades Hovevei Zion, os "Amantes de Sião". Elas organizaram os primeiros assentamentos agrícolas.

    Lia: Agora, o segundo bloco: o homem que deu ao movimento uma forma internacional.

    Davi: Theodor Herzl. Um jornalista judeu austro-húngaro, de família assimilada, formado em Direito, que trabalhava como correspondente em Paris.

    Lia: E em Paris, em 1894, ele acompanhou o Caso Dreyfus. O capitão judeu Alfred Dreyfus foi condenado por traição na França. Mais tarde, foi reabilitado.

    Davi: Herzl viu a degradação pública do oficial. Isso o convenceu de quê?

    Lia: De duas coisas. Primeiro, que a assimilação não protegeria os judeus. Segundo, que o antissemitismo era uma questão nacional, e não apenas religiosa ou social.

    Davi: Mas não foi uma conversão da noite para o dia, né?

    Lia: Não. Historiadores lembram que Herzl já vinha refletindo sobre antissemitismo, assimilação e nacionalismo europeu. O caso reforçou essas ideias.

    Davi: E aí vem o livro.

    Lia: Em 14 de fevereiro de 1896, ele publicou "O Estado Judeu". Propunha resolver a questão judaica com um Estado garantido pelo direito público, negociado na arena internacional.

    Davi: No mesmo dia, ele anotou no diário: "Minha vida pode agora tomar um novo rumo."

    Lia: No ano seguinte, ele organizou o Primeiro Congresso Sionista, em Basileia, na Suíça.

    Davi: Foram três dias, no fim de agosto de 1897, com cerca de 200 delegados.

    Lia: O congresso fundou a Organização Sionista e elegeu Herzl seu primeiro presidente. Também aprovou o Programa de Basileia, redigido com Max Nordau.

    Davi: E o objetivo era criar para o povo judeu um lar na Terra de Israel, assegurado pelo direito público.

    Lia: Poucos dias depois, em 3 de setembro, Herzl escreveu no diário uma frase famosa.

    Davi: "Em Basileia, eu fundei o Estado Judeu." E completou que, "certamente em cinquenta" anos, todos veriam isso.

    Lia: Israel foi proclamado em 1948, pouco mais de cinquenta anos depois. Herzl não viveu para ver. Morreu em 1904, aos 44 anos.

    Davi: Mas ele fundou o movimento que tornou o Estado possível. Em 1949, seus restos foram levados para Jerusalém, para o lugar hoje chamado Monte Herzl.

    Lia: Terceiro bloco: enquanto se negociava nos gabinetes, outros construíam no chão.

    Davi: Os pioneiros da Segunda Aliá, a onda de imigração judaica entre 1904 e 1914.

    Lia: Eles enfrentavam isolamento, malária e dificuldades econômicas. Por isso, buscaram viver em comunidade.

    Davi: E assim nasce o kibutz.

    Lia: O primeiro foi Degania, fundado em 1910 perto do mar da Galileia. Ficou conhecido como a "Mãe das Kvutzot".

    Davi: Como era a vida lá?

    Lia: No modelo clássico, os membros trabalhavam juntos, com as próprias mãos. Dividiam a propriedade dos bens e decidiam em assembleia. O ideal incluía igualdade entre homens e mulheres.

    Davi: E ainda é assim?

    Lia: Hoje, a maioria dos kibutzim passou por uma privatização gradual depois de uma crise financeira nos anos 1980. Alguns mantêm estruturas coletivas, e outros seguem modelos híbridos.

    Davi: Mas o papel deles na construção do país foi enorme.

    Lia: Foi. Transformaram pântanos e solos áridos em terras produtivas, absorveram imigrantes e formaram muitos líderes do futuro Estado.

    Davi: Às vésperas da independência, havia 176 kibutzim.

    Lia: E eles reuniam mais de 47 mil pessoas.

    Davi: E tinha outra construção acontecendo ao mesmo tempo: a da língua.

    Lia: O hebraico, por quase dois milênios, foi língua de oração, estudo e escrita. Não era a língua da conversa na cozinha.

    Davi: Até que chega a Jerusalém, em 1881, Eliezer Ben-Yehuda.

    Lia: Ele e a esposa, Deborah, decidiram falar só hebraico em casa. Em 1882, nasceu o filho Itamar Ben-Avi, considerado a primeira criança falante nativa de hebraico na era moderna.

    Davi: Ben-Yehuda criou palavras como "milon", dicionário, e "glida", sorvete. Mas ele não fez isso sozinho.

    Lia: Não. Professores, escolas, jardins de infância, escritores e jornais fizeram o hebraico virar língua de crianças brincando.

    Davi: E houve até uma "Guerra das Línguas".

    Lia: Sim, uma disputa sem armas. Em 1913, a direção do Technion, em Haifa, quis ensinar ciências em alemão.

    Davi: Os professores entraram em greve, com apoio de estudantes e da Organização Sionista Mundial. Em 1914, a direção recuou e aceitou o hebraico.

    Lia: Quarto bloco: a diplomacia.

    Davi: Em 2 de novembro de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, o chanceler britânico Arthur Balfour enviou uma carta a Lord Rothschild.

    Lia: Nela, o governo britânico via "com favor" o estabelecimento de um lar nacional para o povo judeu.

    Davi: E também afirmava que nada deveria prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes.

    Lia: Mas a carta não era um tratado. Isso muda com o Mandato Britânico.

    Davi: Em 24 de julho de 1922, a Liga das Nações aprovou o Mandato por unanimidade.

    Lia: Ele reconheceu a conexão histórica do povo judeu com a terra. E falou em "reconstituir" o lar nacional judaico.

    Davi: Reconstituir, ou seja, reconhecer que esse vínculo era antigo.

    Lia: O Mandato também mandava facilitar a imigração e o assentamento judaicos, protegendo os direitos de todos os habitantes.

    Davi: Só que a Grã-Bretanha mudou de lado.

    Lia: Em maio de 1939, o Livro Branco limitou a imigração judaica.

    Davi: O limite foi de 75 mil pessoas em cinco anos.

    Lia: E isso às vésperas do Holocausto, quando judeus europeus tentavam fugir dos nazistas.

    Davi: Quinto bloco: o nascimento de Israel. Aviso: este trecho fala de guerra e de deslocamento de pessoas.

    Lia: Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma recomendação.

    Davi: Foi a Resolução 181: dividir o território em um Estado judeu e um Estado árabe, com regime internacional para Jerusalém.

    Lia: A liderança sionista aceitou. A liderança árabe palestina e os Estados árabes rejeitaram.

    Davi: Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou o Estado de Israel, em Tel Aviv.

    Lia: Logo depois, os exércitos de Egito, Síria, Transjordânia, Líbano e Iraque atacaram o novo Estado.

    Davi: Os kibutzim de fronteira viraram fortalezas. Em Degania, os defensores detiveram tanques sírios.

    Lia: Esse é o contexto da guerra. E dentro dela houve também um drama humano.

    Davi: Na guerra, centenas de milhares de palestinos, cerca de 700 mil segundo estimativas, foram expulsos, fugiram ou foram deslocados.

    Lia: Os palestinos chamam esse episódio de Nakba, "catástrofe". O deslocamento em larga escala é um fato documentado, e esse sofrimento é real.

    Davi: As causas, as responsabilidades e os números exatos ainda são debatidos por historiadores.

    Lia: E é bom lembrar a sequência: a guerra veio depois de a liderança árabe rejeitar a partilha e de cinco exércitos árabes invadirem o país recém-criado.

    Davi: Israel venceu a guerra e entrou na ONU em 11 de maio de 1949.

    Lia: Davi, muita gente pergunta: o sionismo foi um projeto colonial?

    Davi: Há quem analise o sionismo como colonialismo de povoamento. Outros o descrevem como um movimento nacional de um povo perseguido.

    Lia: E o que os fatos mostram?

    Davi: Que não havia metrópole. Os judeus não eram enviados por um império, fugiam de pogroms. Muitas terras foram compradas, com registro em cartório.

    Lia: A própria potência mandatária restringiu a imigração judaica em 1939. E mais da metade dos judeus de Israel descende de judeus orientais, mizrahim e sefarditas.

    Davi: Por isso, a origem europeia de muitos pioneiros e o apoio britânico de 1917 não fazem do sionismo um projeto colonial. Ele é o movimento nacional de um povo com raízes nessa terra.

    Lia: Vamos às três ideias-chave de hoje.

    Davi: A primeira: o sionismo transformou uma esperança antiga, guardada nas orações, em um projeto político. Herzl, em Basileia, deu a ele organização e voz internacional.

    Lia: A segunda: o Estado não nasceu só de diplomacia. Nasceu também do trabalho no chão: os kibutzim, as escolas e uma língua que voltou a ser falada em casa.

    Davi: A terceira: o sionismo nunca foi uma doutrina única. Teve a corrente política, de Herzl, apostando na diplomacia com as grandes potências.

    Lia: Teve a corrente trabalhista, de Ben-Gurion, com os kibutzim. E a revisionista, de Jabotinsky, que defendia autodefesa e um nacionalismo mais firme.

    Davi: E também a cultural, de Ahad Ha'am, centrada no renascimento do hebraico. E a religiosa, do rabino Kook, que lia o retorno à luz da tradição.

    Lia: Correntes que discordavam entre si, mas partilhavam um núcleo: o direito do povo judeu à autodeterminação.

    Davi: E é por isso que dá para criticar governos de Israel, como se critica qualquer país. Mas negar o direito de Israel existir é antissemitismo, pela definição da IHRA, que a JJO adota.

    Lia: Esse caminho levou à criação de um Estado judeu em 1948. Uma história que continua sendo escrita e debatida.

    Davi: No próximo episódio, o 4, vamos falar do capítulo mais sombrio da história judaica: "A Shoá: o Holocausto".

    Lia: Obrigada por ouvir. Até o próximo episódio!

  4. Episódio 4 · A Shoá: o Holocausto14 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Você está ouvindo "A história do povo judeu", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio quatro, de um total de seis.

    Lia: No episódio anterior, falamos do sionismo e do caminho de volta: o sonho de um povo espalhado pelo mundo de reconstruir a sua vida na terra de Israel.

    Davi: Hoje o assunto é o mais difícil da série: a Shoá, o Holocausto. Vamos com calma, e vamos avisar antes dos trechos mais duros.

    Lia: Davi, vamos começar pelo nome. Holocausto e Shoá são a mesma coisa?

    Davi: São dois nomes para o mesmo crime. Shoá é a palavra hebraica e quer dizer "catástrofe".

    Lia: E que crime foi esse, em uma frase?

    Davi: Foi a perseguição e o assassinato sistemáticos de cerca de seis milhões de judeus europeus. Os autores foram o Estado nazista alemão, seus aliados e seus colaboradores.

    Lia: Tudo isso entre 1933 e 1945.

    Davi: Seis milhões é um número tão grande que fica abstrato. Ajuda pensar assim: eram cerca de dois terços dos judeus da Europa.

    Lia: E um terço dos judeus do mundo naquela época. Entre os mortos havia cerca de um milhão e meio de crianças.

    Davi: Os nazistas também perseguiram e mataram outros grupos. Entre eles estavam Roma e Sinti, pessoas com deficiência, prisioneiros de guerra soviéticos, poloneses e opositores políticos.

    Lia: Mas os judeus foram o alvo principal. Foram o único grupo que a ideologia nazista quis destruir por inteiro, sem exceção.

    Davi: Muita gente pergunta como se chegou a esse número, já que ninguém tinha uma lista com o nome de cada vítima.

    Lia: É uma boa pergunta. O número é uma estimativa histórica consolidada. Ele combina censos, documentos dos próprios nazistas, registros de deportação, listas das comunidades judaicas e pesquisas feitas depois da guerra.

    Davi: Então vamos ao primeiro bloco da nossa história: como tudo começou. Porque o Holocausto não começou nas câmaras de gás.

    Lia: Ele começou em etapas. Hitler assume o poder em 30 de janeiro de 1933.

    Davi: Logo depois vêm o boicote a negócios judaicos e, em abril, a expulsão de judeus do serviço público.

    Lia: Em 1935, as Leis de Nuremberg tiram dos judeus a cidadania plena e proíbem casamentos com pessoas de "sangue alemão".

    Davi: Repare na ordem dos acontecimentos. Primeiro veio a exclusão pela lei, depois o roubo dos bens. A violência física aberta veio em seguida.

    Lia: Um aviso: o próximo trecho descreve violência contra judeus.

    Davi: Em novembro de 1938 acontece a Noite dos Cristais. Hoje muitas instituições preferem chamá-la de Pogrom de Novembro.

    Lia: Por que trocar o nome?

    Davi: Porque a imagem de vidro quebrado pode esconder o essencial. Houve assassinatos, terror e prisões em massa.

    Lia: O pretexto foi um atentado em Paris. Herschel Grynszpan, um jovem judeu de dezessete anos, atirou no diplomata alemão Ernst vom Rath.

    Davi: Ele estava revoltado porque a sua família tinha sido expulsa da Alemanha. Ela foi largada na fronteira, em Zbąszyń, junto com milhares de judeus de nacionalidade polonesa.

    Lia: Mas o atentado foi só o pretexto. A propaganda nazista falou em "fúria popular espontânea", e isso é falso.

    Davi: Hitler e o ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, decidiram o pogrom em Munique. Telegramas da Gestapo e de Reinhard Heydrich mandaram a polícia não intervir e ordenaram prisões em massa.

    Lia: Segundo o Yad Vashem, mais de mil e quatrocentas sinagogas e salas de oração foram incendiadas ou destruídas.

    Davi: Cerca de sete mil e quinhentos estabelecimentos judaicos foram saqueados. E cerca de trinta mil homens judeus foram levados a campos de concentração, como Dachau e Buchenwald.

    Lia: Eles foram presos sem nenhuma acusação de crime, só por serem judeus. Os registros oficiais da época contaram 91 judeus assassinados, e pesquisas posteriores apontam muito mais mortes.

    Davi: E depois veio o cúmulo. O regime impôs aos próprios judeus uma multa coletiva de um bilhão de Reichsmarks, como se eles fossem os culpados.

    Lia: E o mundo, reagiu?

    Davi: De forma limitada. Os Estados Unidos chamaram o seu embaixador para consultas, mas não romperam relações. E muitos países mantiveram as restrições à entrada de refugiados judeus.

    Lia: Guarde essa ideia, porque ela volta no fim do episódio: um povo sem um lugar para onde fugir.

    Davi: Segundo bloco: a guerra e os guetos. Em 1939, a Alemanha invade a Polônia, e os judeus são confinados em guetos superlotados.

    Lia: O maior deles foi o Gueto de Varsóvia. Segundo o Museu do Holocausto dos EUA, chegou a confinar de 400 a 450 mil judeus.

    Davi: Imagine a cena: cerca de trinta por cento da população da cidade espremida em pouco mais de dois por cento do território.

    Lia: Em média, eram mais de sete pessoas por cômodo, cercadas por um muro de tijolos e arame farpado.

    Davi: A fome e o tifo mataram cerca de 83 mil pessoas, antes mesmo das deportações em massa.

    Lia: E, mesmo assim, os judeus do gueto escreveram. O historiador Emanuel Ringelblum criou uma rede clandestina chamada Oyneg Shabes, que em iídiche quer dizer "Alegria do Shabat".

    Davi: Eles reuniram diários, fotografias, decretos e testemunhos. Depois enterraram tudo em caixas metálicas e latas de leite.

    Lia: Duas grandes partes desse arquivo foram encontradas depois da guerra, em 1946 e em 1950. Hoje ele é uma das principais fontes sobre a destruição dos judeus poloneses.

    Davi: Agora, mais um aviso: vamos falar das deportações e do assassinato em massa.

    Lia: Em 1941, a Alemanha invade a União Soviética. Unidades de fuzilamento chamadas Einsatzgruppen passam a matar judeus em massa.

    Davi: Em Babi Yar, perto de Kiev, 33.771 judeus foram mortos em apenas dois dias.

    Lia: No verão de 1942, os nazistas esvaziam a maior parte do Gueto de Varsóvia. Eles chamam a operação de "reorganização de trabalho no Leste".

    Davi: Era mentira. Cerca de 265 mil judeus foram embarcados em trens de carga para Treblinka. Quase todos foram assassinados pouco depois de chegar.

    Lia: Adam Czerniaków, presidente do Conselho Judaico, recebeu a exigência de entregar uma cota diária de pessoas, incluindo crianças dos orfanatos. Ele se recusou a assinar e tirou a própria vida.

    Davi: Na carta de despedida, escreveu: "Exigem que eu mate as crianças da minha nação com minhas próprias mãos."

    Lia: Davi, muita gente pergunta: os judeus não resistiram?

    Davi: Resistiram, e essa é uma parte essencial da história. No gueto, jovens judeus, sobretudo dos movimentos sionistas, entenderam que as "deportações" eram parte de um plano de assassinato.

    Lia: Movimentos juvenis sionistas criaram a ŻOB, a Organização Judaica de Combate. O seu principal comandante foi Mordechai Anielewicz, de 23 anos.

    Davi: Havia também a ŻZW, a União Militar Judaica, ligada ao movimento sionista revisionista Betar.

    Lia: Na manhã de 19 de abril de 1943, véspera de Pessach, os alemães entram no gueto para deportar quem ainda restava.

    Davi: Cerca de 700 a 800 combatentes os enfrentam com pistolas, granadas e coquetéis Molotov.

    Lia: Numa praça do gueto, a ŻZW hasteia a bandeira judaica azul e branca no alto de um prédio, ao lado da bandeira polonesa.

    Davi: Eles sabiam que não podiam vencer. Lutaram para não serem levados sem reação. O general da SS Jürgen Stroop precisou incendiar o gueto prédio por prédio.

    Lia: Em 8 de maio, os alemães cercam o bunker de comando da ŻOB, na rua Miła, e lançam gás. Anielewicz morre ali com cerca de 120 combatentes.

    Davi: Alguns escaparam pelos esgotos, como Zivia Lubetkin. Anos depois, ela deu o seu testemunho em Jerusalém, no julgamento de Adolf Eichmann.

    Lia: Terceiro bloco: a chamada "Solução Final". Muita gente acha que ela começou na Conferência de Wannsee, em janeiro de 1942.

    Davi: Mas os assassinatos em massa já estavam acontecendo. Wannsee organizou a coordenação administrativa do crime, e a ata foi redigida por Eichmann.

    Lia: Segundo o Yad Vashem, os participantes planejaram eliminar onze milhões de judeus em toda a Europa.

    Davi: Para isso, os nazistas usaram campos de extermínio, criados principalmente para matar. Eram Chełmno, Bełżec, Sobibor, Treblinka e Auschwitz-Birkenau, todos na Polônia ocupada.

    Lia: E qual é a diferença para um campo de concentração?

    Davi: O campo de concentração servia para prisão, trabalho forçado, punição e terror, embora muitos também tenham matado em grande escala. Auschwitz combinava as duas funções e foi o maior centro de assassinato nazista.

    Lia: E como funcionava Auschwitz?

    Davi: Os trens chegavam de toda a Europa. Na rampa, médicos da SS separavam as pessoas. Em média, só um quarto delas era considerado apto ao trabalho.

    Lia: As outras, entre elas crianças, idosos e mães com filhos, eram levadas à morte no mesmo dia. Entravam em salas disfarçadas de chuveiros, onde a SS jogava o gás Zyklon B.

    Davi: Cerca de 1,1 milhão de pessoas foram assassinadas em Auschwitz. Aproximadamente um milhão delas eram judeus.

    Lia: E houve resistência ali também. Prisioneiros judeus do Sonderkommando se revoltaram e destruíram um crematório. Rudolf Vrba e Alfréd Wetzler fugiram do campo e escreveram um relatório para denunciá-lo.

    Davi: O Exército Vermelho chegou a Auschwitz em 27 de janeiro de 1945.

    Lia: Os soldados encontraram cerca de sete mil prisioneiros, muitos doentes e desnutridos. Dias antes, a SS tinha forçado milhares de outros às marchas da morte.

    Davi: Em maio de 1945, a Alemanha se rende. Mas a libertação não acabou com o sofrimento.

    Lia: Muitos sobreviventes ficaram sem família, sem casa e sem um país para onde voltar.

    Davi: Depois veio a justiça. Em Nuremberg, os principais dirigentes nazistas foram julgados por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, entre outras acusações.

    Lia: E ficou firmado um princípio: quem comete crimes em nome do Estado responde por eles individualmente. O cargo oficial não protege ninguém.

    Davi: Quarto bloco: a luz no meio da escuridão, os Justos entre as Nações.

    Lia: São não judeus que arriscaram a vida, a liberdade ou a carreira para salvar judeus, sem buscar recompensa. O título é concedido pelo Yad Vashem, o memorial do Holocausto do Estado de Israel.

    Davi: E não é um elogio genérico. Cada caso passa por uma comissão presidida por um juiz da Suprema Corte de Israel, que exige provas.

    Lia: Até janeiro de 2024, eram 28.707 pessoas reconhecidas.

    Davi: Elas vêm de 51 países. Entre elas estão Oskar Schindler, Irena Sendler e o médico egípcio Mohamed Helmy, que escondeu uma família judia em Berlim.

    Lia: E há dois brasileiros. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa trabalhava no consulado em Hamburgo e ajudou judeus a obter vistos para sair da Alemanha.

    Davi: E o embaixador Souza Dantas, em Vichy, na França, concedeu vistos a judeus mesmo contrariando instruções do governo brasileiro.

    Lia: A lição é clara: a coragem moral não pertence a um povo ou a uma fé.

    Davi: Lia, e por que essa memória importa hoje?

    Lia: Porque o Holocausto é um dos fatos mais documentados da história, e mesmo assim há quem o negue ou o distorça.

    Davi: As provas vêm dos próprios nazistas. Temos a ata de Wannsee, os relatórios das unidades de fuzilamento e o relatório de Stroop, intitulado "O bairro residencial judaico de Varsóvia não existe mais!".

    Lia: A eles se somam os testemunhos, as fotografias, as ruínas dos campos e os julgamentos. Os historiadores debatem detalhes, mas não a existência do crime nem a sua escala.

    Davi: Pela definição de antissemitismo da IHRA, adotada pela JJO, negar ou minimizar o Holocausto é antissemitismo. Dizer que "seis milhões é exagero" também é.

    Lia: E comparar a política israelense atual com a dos nazistas, com bordões como "Gaza é Auschwitz", é uma inversão do Holocausto. Ela transforma o maior crime contra os judeus em acusação contra os judeus.

    Davi: Essa comparação também é falsa como história. O Holocausto foi o plano de matar cada judeu da Europa. A guerra em Gaza começou com o massacre

  5. Episódio 5 · 1948: o nascimento do Estado de Israel13 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Aqui é a Lia, e você está ouvindo "A história do povo judeu", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio cinco de seis: "1948: o nascimento do Estado de Israel".

    Lia: No episódio anterior, falamos da Shoá, o Holocausto. Terminamos com os sobreviventes: centenas de milhares de judeus que, depois da guerra, viviam em campos de deslocados na Europa.

    Davi: Muitos tentaram chegar à Terra de Israel em barcos precários, na imigração clandestina chamada Aliá Bet. Segundo o Yad Vashem, cerca de 70 mil chegaram entre 1945 e 1948.

    Lia: Hoje a pergunta é: como esse povo, poucos anos depois da Shoá, proclamou um Estado e sobreviveu a uma guerra já no primeiro dia de vida?

    Davi: Vamos contar em cinco partes: as raízes, a votação na ONU, a guerra civil, a independência com a invasão e, por fim, os refugiados.

    Lia: Primeira parte: as raízes. Davi, Israel nasceu do nada em 1948?

    Davi: Não. A data é o ponto de chegada de um processo de meio século. Em 1897 nasce o movimento sionista organizado.

    Lia: Em 1917, a Declaração Balfour reconhece o lar nacional judaico. E em 1922 a Liga das Nações aprova o Mandato Britânico.

    Davi: E tem um detalhe importante: o preâmbulo do Mandato reconhece a "conexão histórica do povo judeu" com a terra.

    Lia: Antes disso, de 1516 a 1917, a região fazia parte do Império Otomano. Nenhum Estado soberano, nem judeu nem árabe, existia ali.

    Davi: E isso não nega que havia uma sociedade árabe palestina, com cidades, jornais e vida política. Os palestinos existem como povo. O que é falso é a ideia de um "país roubado".

    Lia: Em 1937, a Comissão Peel já propunha dois Estados. E, em 1947, cerca de 600 mil judeus viviam no território.

    Davi: Eles já tinham cidades e instituições próprias. Tel Aviv foi fundada em 1909, e a Universidade Hebraica, em 1918.

    Lia: Muita gente diz que "a Europa pagou o Holocausto com terra árabe". O que dá para responder?

    Davi: Que a ideia é enganosa. O Holocausto pesou na votação, sim. Mas a presença judaica foi construída em grande parte com compra registrada de terras.

    Lia: Até maio de 1948, eram cerca de 2 milhões de dunams comprados.

    Davi: E isso apesar do Livro Branco britânico de 1939. Ele limitou a imigração judaica e proibiu judeus de comprar terras em 95% do território do Mandato.

    Lia: Segunda parte: a votação. Imagine o plenário da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, no fim de novembro de 1947.

    Davi: E quem presidia a sessão era um brasileiro: Oswaldo Aranha, diplomata e ex-ministro das Relações Exteriores.

    Lia: Mas os defensores da partilha ainda não tinham a maioria de dois terços exigida. E os países árabes pressionavam para votar logo e rejeitar o plano.

    Davi: Em 26 de novembro, Aranha usou suas atribuições para encerrar os trabalhos do dia, antes do feriado de Ação de Graças. As fontes divergem sobre a duração desse intervalo.

    Lia: O registro oficial da ONU cita uma proposta francesa de suspender a votação por 24 horas.

    Davi: Outros relatos falam em um intervalo de 24 a 48 horas. Biografias e reportagens comemorativas falam em três dias.

    Lia: O certo é que o intervalo permitiu articulações com delegações indecisas.

    Davi: Então chega o dia 29 de novembro. Às 16h, Aranha abre a votação formal. Os países são chamados um a um.

    Lia: Resultado: 33 votos a favor e 13 contra. Houve ainda 10 abstenções.

    Davi: O Brasil votou a favor, assim como os Estados Unidos e a União Soviética.

    Lia: Então foi Aranha quem criou Israel?

    Davi: Chamá-lo de "fundador de Israel" é uma homenagem, não uma descrição exata. A aprovação foi uma decisão de muitos países. O papel dele foi institucional: presidiu a sessão decisiva e proclamou o resultado.

    Lia: Até hoje, o martelo e o cartão de votação assinado por ele estão no museu do Kibutz Bror Chail, em Israel.

    Davi: E o que dizia a Resolução 181? Era uma recomendação, com dois Estados: o judeu ficaria com cerca de 56% do território, e o árabe, com cerca de 43%.

    Lia: Jerusalém teria um regime internacional. A liderança judaica aceitou o plano, mesmo com críticas às fronteiras e à situação de Jerusalém.

    Davi: Já o Alto Comitê Árabe e os governos da Liga Árabe rejeitaram a partilha e anunciaram que se oporiam a ela pelas armas.

    Lia: Terceira parte: a guerra civil. Um aviso: nos próximos minutos vamos falar de combates e de violência contra civis.

    Davi: Os combates começaram em 30 de novembro de 1947, um dia depois da votação. Milícias árabes atacaram bairros judaicos, comboios e comunidades isoladas.

    Lia: Do lado judeu, lutaram a Haganá, o Palmach, o Irgun e o Lehi. Do lado árabe, milícias locais, voluntários de países vizinhos e o Exército de Libertação Árabe.

    Davi: E os britânicos estavam de saída e não aplicaram o plano de partilha. Estradas e cidades mistas viraram campo de batalha, e Jerusalém ficou sob cerco.

    Lia: Uma pergunta inevitável: quem começou?

    Davi: Uma resposta veio do próprio Alto Comitê Árabe, na ONU. Em 16 de abril de 1948, seu representante Jamal Husseini falou ao Conselho de Segurança.

    Lia: Ele disse: "O representante da Agência Judaica disse ontem que eles não eram os atacantes, que os árabes começaram a luta. Nós não negamos isso. Nós dissemos ao mundo inteiro que iríamos lutar."

    Davi: Diante do cerco a Jerusalém e da ameaça de invasão regional, a Haganá adotou em março de 1948 o Plano Dalet.

    Lia: Era uma diretriz militar para controlar rotas de suprimento, proteger comunidades judaicas isoladas e assumir posições na área destinada ao Estado judeu.

    Davi: Alguns autores o descrevem como um plano de expulsão. O historiador Benny Morris o trata como um plano essencialmente militar, mas reconhece que sua aplicação resultou na remoção de populações árabes de certas áreas.

    Lia: Quarta parte: a independência. Sexta-feira, 14 de maio de 1948, às 16h, no Museu de Tel Aviv.

    Davi: Dois dias antes, a Administração do Povo, sob a liderança de Ben-Gurion, tinha aprovado a proclamação por 6 votos contra 4. Foi uma decisão difícil.

    Lia: Na cerimônia, David Ben-Gurion leu a Declaração de Estabelecimento do Estado de Israel e foi o primeiro a assiná-la.

    Davi: O texto dizia: "por virtude do nosso direito natural e histórico e com base na Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, proclamamos o estabelecimento de um Estado Judeu em Eretz-Israel, a ser conhecido como Estado de Israel."

    Lia: A Declaração prometeu igualdade civil e liberdade religiosa. Também fez um apelo aos árabes do novo Estado para que mantivessem a paz e participassem dele com igualdade plena de direitos.

    Davi: E anunciou que o Estado estaria aberto à imigração judaica e ao recolhimento dos exilados. Estados Unidos e União Soviética reconheceram Israel imediatamente.

    Lia: Mas a festa durou pouco. Novo aviso: vamos citar ameaças de massacre.

    Davi: Na noite de 14 para 15 de maio, os exércitos de Egito, Transjordânia, Síria, Líbano e Iraque invadiram para impedir a existência do novo Estado.

    Lia: Antes da invasão, o secretário-geral da Liga Árabe, Azzam Pasha, já havia declarado: "Esta será uma guerra de extermínio e um massacre monumental".

    Davi: A Legião Árabe da Transjordânia era a força árabe mais organizada. O Egito avançou pelo sul e pela costa, incluindo Gaza.

    Lia: Ainda em maio, a ONU decretou um embargo de armas. As recém-criadas Forças de Defesa de Israel se rearmaram com material comprado via Tchecoslováquia.

    Davi: E conseguiram repelir as ofensivas. Israel sobreviveu e terminou a guerra controlando cerca de 77% do território do Mandato.

    Lia: Esse resultado veio de uma guerra defensiva, não da anexação de um país. E o custo foi alto.

    Davi: Israel perdeu cerca de 6 mil pessoas, entre soldados e civis. Isso era 1% da população judaica da época.

    Lia: Em 1949, sob mediação do diplomata da ONU Ralph Bunche, Israel assinou armistícios em Rodes com Egito, Líbano, Jordânia e Síria.

    Davi: As linhas de cessar-fogo ficaram conhecidas como "Linha Verde". Mas atenção: não eram fronteiras definitivas. Os próprios acordos diziam isso.

    Lia: Jerusalém ficou dividida. A Jordânia anexou a Judeia e Samaria e Jerusalém Oriental em 1950, e o Egito manteve Gaza sob administração militar.

    Davi: Nenhum dos dois criou ali um Estado palestino.

    Lia: Quinta parte: os refugiados. Um último aviso: este trecho fala de massacre e de expulsões.

    Davi: A guerra deslocou centenas de milhares de árabes palestinos. As estimativas variam. A AP fala em cerca de 700 mil, e o governo de Israel em cerca de 720 mil. O número exato não é conhecido.

    Lia: Os palestinos chamam esse deslocamento de Nakba. E houve fatos graves, documentados inclusive por historiadores israelenses.

    Davi: O massacre de Deir Yassin, em abril de 1948. A expulsão de Lida e Ramle, em julho. Aldeias destruídas e a decisão de não permitir o retorno em massa.

    Lia: Então foi uma limpeza étnica planejada?

    Davi: Essa é a acusação de Ilan Pappé e de organizações palestinas. A pesquisa de arquivo mais completa não a sustenta.

    Lia: Benny Morris não encontrou decisão nem ordem da liderança judaica para expulsar a população árabe. Ele conclui que o problema "nasceu da guerra, não de um plano".

    Davi: As causas foram várias: fuga dos combates e medo, saída precoce das elites urbanas, colapso da liderança palestina, instruções de autoridades árabes em alguns lugares e expulsões locais.

    Lia: Khaled al-Azm, primeiro-ministro da Síria na época, escreveu: "fomos nós mesmos que os instigamos a sair".

    Davi: O historiador Efraim Karsh dá mais peso às decisões árabes do que Morris. Mas não se encontrou uma ordem árabe geral para toda a população sair. Nenhuma causa isolada explica tudo.

    Lia: E há a outra metade dessa história, que muitas vezes é esquecida.

    Davi: Cerca de 800 mil judeus deixaram países árabes ou foram expulsos deles, segundo o governo de Israel. Muitos enfrentaram perseguição, prisões e confisco de bens.

    Lia: A grande diferença está no que veio depois. Israel absorveu a maioria deles como cidadãos.

    Davi: Reconhecer a dor palestina é humano e necessário. E isso não exige tratar a existência de Israel como crime.

    Lia: A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA: negar o direito de Israel existir é antissemitismo. E combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.

    Davi: Vamos às três ideias-chave deste episódio.

    Lia: Primeira: 1948 não surgiu do nada. Foi o ponto de chegada de meio século de construção, reconhecida pela comunidade internacional.

    Davi: Segunda: a liderança judaica aceitou a partilha. A liderança árabe a rejeitou e escolheu a guerra, e Israel foi invadido no dia seguinte ao seu nascimento.

    Lia: Terceira: Israel venceu uma guerra defensiva e sobreviveu. O direito do povo judeu a esse Estado não está em debate.

    Davi: No próximo e último episódio, "Israel hoje: um povo reunido", vamos ver como judeus do mundo inteiro, de sobreviventes da Shoá a famílias do Iraque, do Iêmen e da Etiópia, construíram juntos o país.

    Lia: Até lá!

  6. Episódio 6 · Israel hoje: um povo reunido14 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Eu sou a Lia, e este é o último episódio da série em áudio "A história do povo judeu", da Juventude Judaica Organizada, a JJO.

    Davi: E eu sou o Davi. Chegamos ao sexto episódio, que se chama "Israel hoje: um povo reunido".

    Lia: No episódio anterior, falamos de 1948 e do nascimento do Estado de Israel. Vimos a Declaração de Independência, lida em 14 de maio daquele ano.

    Davi: Uma frase dela vai nos acompanhar hoje. A Declaração prometeu "completa igualdade de direitos sociais e políticos" a todos os habitantes, sem distinção de religião, raça ou sexo.

    Lia: Hoje a pergunta é outra: como é esse país, quase oitenta anos depois? Quem mora lá, como vive, o que construiu e o que enfrentou?

    Davi: Vamos em cinco partes. Primeiro, o retrato do povo. Depois, as grandes ondas de imigração. Em seguida, a democracia e os cidadãos árabes. Depois, a inovação. E, por fim, o 7 de outubro de 2023.

    Lia: Começando pelo retrato. Davi, quantas pessoas vivem em Israel hoje?

    Davi: Em maio de 2025, segundo o Escritório Central de Estatísticas, eram cerca de 10,094 milhões de habitantes.

    Lia: E como essa população se divide?

    Davi: Cerca de 76,6% estão na categoria "judeus e outros". Os árabes são 20,9%.

    Lia: Ou seja, mais ou menos um em cada cinco cidadãos de Israel é árabe. Vamos voltar a isso daqui a pouco.

    Davi: E tem um dado que surpreende muita gente: cerca de 80% dos judeus de Israel já nasceram no país. Eles costumam ser chamados de sabras.

    Lia: Mas as famílias vieram de lugares muito diferentes. Há asquenazes, de origem centro e leste europeia, e sefarditas, ligados originalmente à Península Ibérica.

    Davi: Há também os mizrahim, judeus de países como Iraque, Iêmen, Marrocos e Irã. Grande parte dessas famílias emigrou ou foi expulsa de países árabes e islâmicos entre 1948 e 1970.

    Lia: E há os judeus etíopes e os judeus da antiga União Soviética. Não existe um "israelense típico".

    Davi: Entre os não judeus também há muita variedade. Há árabes muçulmanos, árabes cristãos e beduínos. Os drusos falam árabe, mas formam uma comunidade própria, com uma fé monoteísta surgida no século XI.

    Lia: Os drusos são cerca de 152 mil pessoas. Os homens cumprem serviço militar obrigatório desde 1956, a pedido da própria liderança da comunidade na época.

    Davi: E há cidades mistas, onde judeus e árabes vivem lado a lado, como Haifa, Acre, Jafa, Ramle e Lod.

    Lia: Agora, a segunda parte: como tanta gente chegou? Uma palavra ajuda: aliá.

    Davi: Aliá é a palavra hebraica para a imigração judaica a Israel. Significa "subida". Pela Lei do Retorno, todo judeu tem direito de se estabelecer em Israel e receber a cidadania.

    Lia: No fim da Guerra Fria, houve duas grandes aliás. Uma veio da União Soviética e a outra da Etiópia.

    Davi: Vamos à primeira. Durante décadas, o regime soviético impediu os judeus de sair. Quem pedia para emigrar e tinha a saída negada era chamado de refusenik.

    Lia: E o preço era alto, não era?

    Davi: Muito alto. Vigilância, discriminação no trabalho, pressão política. Mesmo assim, eles se organizaram: aulas clandestinas de hebraico, estudos judaicos, redes de solidariedade.

    Lia: No exterior, nasceu um movimento internacional pelos judeus soviéticos. A emigração deles virou uma causa de direitos humanos.

    Davi: Um dos refuseniks mais conhecidos foi Natan Sharansky. Mais tarde, em Israel, ele fundou um partido.

    Lia: E quando as portas se abriram?

    Davi: No fim da década de 1980, com a pressão externa, a mobilização interna, as reformas de Mikhail Gorbachev, a crise econômica e o fim da União Soviética. A partir de 1989, Israel recebeu mais de um milhão de imigrantes da ex-URSS.

    Lia: Só em 1990 chegaram cerca de 184 mil. Em 1991, cerca de 147 mil.

    Davi: Muitos eram engenheiros, médicos, cientistas, músicos. O Estado ofereceu cursos de hebraico, os ulpanim, e ajuda com moradia e emprego.

    Lia: Mas não foi fácil para todos. Muitos esbarraram na língua ou tiveram o diploma reconhecido só em parte. Nos primeiros anos, parte deles trabalhou abaixo da própria qualificação.

    Davi: Agora, a Etiópia. Os judeus etíopes são, em sua maioria, descendentes dos Beta Israel.

    Lia: Antes do resgate, muitos deixaram suas aldeias e caminharam até o Sudão. No caminho e nos campos de refugiados, houve mortes por fome, doenças e exaustão.

    Davi: Então veio a Operação Moisés, entre novembro de 1984 e janeiro de 1985. Foi secreta, e levou de avião cerca de 8 mil judeus etíopes para Israel.

    Lia: E a outra operação, a mais famosa?

    Davi: A Operação Salomão, em maio de 1991. O regime de Mengistu Haile Mariam estava caindo, e forças rebeldes avançavam sobre a capital, Adis Abeba.

    Lia: Em cerca de 36 horas, Israel levou 14.325 judeus etíopes, segundo o Yad Vashem.

    Davi: Foram 35 aeronaves israelenses. E um bebê nasceu durante o voo.

    Lia: É uma imagem forte: uma criança que começa a vida no ar, entre a guerra e o novo lar.

    Davi: A integração dos etíopes também teve dificuldades reais: pobreza, barreiras de língua e discriminação. O governo respondeu com programas como o Derech Hadasha e adotou as recomendações do Relatório Palmor contra o racismo.

    Lia: Essas duas aliás mostram a razão de ser de Israel: ser o lar e o refúgio de judeus de qualquer lugar do mundo.

    Davi: Terceira parte: a democracia. Uma pergunta que muitos ouvintes fazem é esta: Israel é uma democracia?

    Lia: Sim. É uma democracia parlamentar. O Knesset, o Parlamento, tem 120 cadeiras, eleitas pelo voto proporcional.

    Davi: Há uma Suprema Corte independente e uma imprensa plural. Israel se define, em suas Leis Básicas, como um "Estado judeu e democrático".

    Lia: E os cidadãos árabes? Eles votam?

    Davi: Votam e são eleitos desde as primeiras eleições, em 1949, nas mesmas condições jurídicas que os demais cidadãos.

    Lia: Em junho de 2021, aconteceu algo histórico. O partido árabe islâmico Ra'am, de Mansour Abbas, entrou na coalizão de Naftali Bennett e Yair Lapid.

    Davi: Foi a primeira vez que um partido árabe teve papel formal e decisivo na formação de um governo. O Ra'am negociou investimentos para as comunidades árabes em troca de apoio.

    Lia: E a participação vai além do Parlamento. Cidadãos árabes foram juízes da Suprema Corte, como Salim Joubran e Khaled Kabub, o primeiro juiz muçulmano permanente.

    Davi: Há um ministro, Issawi Frej, e um major-general das Forças de Defesa de Israel, Ghassan Alian. Universidades, hospitais, praias e transportes funcionam de forma integrada.

    Lia: Isso quer dizer que está tudo resolvido?

    Davi: Não. Há desigualdades socioeconômicas documentadas, em educação, habitação e emprego. O próprio Estado as reconhece.

    Lia: Em 2003, uma comissão oficial, a Comissão Or, reconheceu negligência e discriminação e pediu correções. Em 2021, o governo aprovou o Plano Takadum, com cerca de 30 bilhões de shekels para o setor árabe.

    Davi: E houve um debate grande sobre a Lei do Estado-Nação, aprovada em 2018. Ela define Israel como o Estado-nação do povo judeu.

    Lia: Organizações árabes e líderes drusos criticaram a lei. O caso chegou à Suprema Corte.

    Davi: Em julho de 2021, a Corte manteve a lei por 10 votos a 1. Decidiu que ela não revoga a igualdade dos cidadãos. O único voto contrário foi do juiz árabe George Karra.

    Lia: Uma lei contestada no Parlamento, nas ruas e na Suprema Corte, com um juiz árabe no julgamento. Isso é a democracia israelense funcionando.

    Davi: Quarta parte, e uma mudança de clima: Israel ficou conhecido como a "nação das startups".

    Lia: Por quê, Davi?

    Davi: Em 2022, Israel investiu 6,1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento civil. Nenhum país da OCDE investiu mais naquele levantamento.

    Lia: E o país tinha 4.801 startups ativas em 2021.

    Davi: Algumas criações são conhecidas no mundo todo. O Waze, criado por empreendedores israelenses, foi comprado pelo Google em 2013.

    Lia: A Mobileye, fundada por Amnon Shashua e Ziv Aviram, desenvolveu visão computacional para ajudar motoristas.

    Davi: Na agricultura, o engenheiro Simcha Blass e a empresa Netafim levaram a irrigação por gotejamento moderna à grande escala. E o Iron Dome, desenvolvido principalmente pela Rafael, defende cidades contra foguetes.

    Lia: E de onde vem tudo isso?

    Davi: De vários fatores juntos. A reforma econômica de 1985 abriu espaço para empresas privadas. A imigração dos anos 1990 trouxe engenheiros e cientistas.

    Lia: Olha aí as aliás de novo. A história de cada parte deste episódio se conecta.

    Davi: Exatamente. E as unidades tecnológicas do serviço militar também formam talentos.

    Lia: Agora chegamos à quinta parte. Um aviso aos ouvintes: vamos falar de violência, com mortes e sequestros. Se você estiver ouvindo com crianças, talvez queira fazer uma pausa.

    Davi: Era a manhã de 7 de outubro de 2023, um sábado. Era também o feriado judaico de Simchat Torah, dia de alegria e dança com a Torá.

    Lia: Por volta das 6h30, começou uma barragem de milhares de foguetes. Ao mesmo tempo, terroristas do Hamas e de outros grupos romperam a cerca de Gaza em dezenas de pontos.

    Davi: Eles invadiram mais de 20 localidades no sul de Israel, como Be'eri, Kfar Aza e Nir Oz. Atacaram cidades como Sderot e Ofakim.

    Lia: Perto do kibutz Re'im, acontecia o festival de música Nova, com cerca de 3 mil jovens. Foi o local com mais mortes: mais de 370, segundo a BBC.

    Davi: Nos kibutzim, os terroristas iam de casa em casa. Mataram moradores e incendiaram casas com famílias dentro.

    Lia: Ao todo, cerca de 1.200 pessoas foram mortas, a maioria civis. Entre as vítimas havia pessoas de muitos países, inclusive do Brasil.

    Davi: E 251 pessoas foram sequestradas e levadas para Gaza: bebês, crianças, idosos, sobreviventes do Holocausto.

    Lia: Uma missão da ONU, liderada por Pramila Patten, encontrou motivos razoáveis para acreditar que houve estupro e estupro coletivo naquele dia.

    Davi: O 7 de outubro é lembrado como o dia em que mais judeus foram mortos num único dia desde o Holocausto. Foi esse ataque do grupo terrorista Hamas que começou a guerra.

    Lia: E é importante dizer: a responsabilidade é do Hamas e dos grupos que atacaram, não de um povo.

    Davi: Cerca de 150 mil israelenses foram retirados de suas casas. Ao longo da guerra, 136 reféns voltaram vivos. Mais tarde, as Forças de Defesa de Israel anunciaram que todos os reféns tinham sido devolvidos a Israel.

    Lia: E, naquele dia, os primeiros a reagir foram moradores, equipes de segurança locais, policiais e soldados. Gente comum defendendo vizinhos.

    Davi: Lia, vamos às três ideias-chave?

    Lia: Vamos. Primeira: Israel é um povo reunido. Judeus da Europa, do Oriente Médio, da África e da antiga União Soviética voltaram para casa, e o Estado organizou resgates para trazê-los.

    Davi: Segunda: Israel é uma democracia. Cidadãos árabes votam desde 1949, são deputados, ministros e juízes. Há desigualdades reais, e o país as reconhece e trabalha para corrigi-las.

    Lia: Terceira: Israel constrói e se defende. É a nação das startups, e também um país que sofreu o 7 de outubro e seguiu de pé.

    Davi: Para fechar a série, uma reflexão. Começamos lá atrás, nas origens do povo judeu, e chegamos a um Estado vivo, diverso e democrático.

    Lia: Criticar políticas de um governo é legítimo, em Israel ou em qualquer lugar. Mas negar o direito de Israel existir é antissemitismo, segundo a definição da IHRA, que a JJO adota.

    Davi: A promessa de 1948 era reunir o povo judeu no seu lar e garantir igualdade a todos os cidadãos. Essa promessa continua sendo o caminho de Israel.

    Lia: Obrigada por nos acompanhar nestes seis episódios.

    Davi: Até a próxima, e shalom.

Rainha Beatriz dos Países Baixos visita o Yad Vashem
5 episódios · 68 min

Antissemitismo através dos séculos

Como o ódio aos judeus mudou de roupa ao longo da história, chegou ao Brasil e às redes, e como reconhecê-lo e responder.

Para jovens, professores, líderes religiosos e jornalistas.
  1. Episódio 1 · Do antijudaísmo religioso ao libelo de sangue12 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá, eu sou a Lia, e este é "Antissemitismo através dos séculos", da Juventude Judaica Organizada, a JJO: em cinco episódios, vamos acompanhar o ódio aos judeus da Antiguidade aos dias de hoje, para aprender a reconhecê-lo e a enfrentá-lo.

    Davi: E eu sou o Davi. Hoje começamos pelo começo, com o episódio "Do antijudaísmo religioso ao libelo de sangue".

    Lia: Antes de abrir o livro de história, Davi, deixa eu te fazer uma pergunta que muita gente faz. O que quer dizer, exatamente, antissemitismo?

    Davi: Antissemitismo é a hostilidade, o preconceito e a violência dirigidos contra judeus. A palavra é recente, mas o ódio que ela descreve tem mais de dois mil anos.

    Lia: Recente quanto?

    Davi: Quem popularizou o termo foi um jornalista alemão chamado Wilhelm Marr, em 1879. Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, foi ele quem o cunhou.

    Lia: E por que ele inventou uma palavra nova para um ódio tão antigo?

    Davi: Porque Marr queria apresentar a oposição aos judeus como algo baseado em biologia e nacionalismo, e não mais em religião. No mesmo período, ele fundou uma liga antissemita.

    Lia: Muita gente ouve "semita" e acha que a palavra se refere a todos os povos de língua semítica.

    Davi: Não se refere. Desde a origem, a palavra designa os judeus, e só os judeus.

    Lia: Então, quando falamos da Idade Média, usamos a mesma palavra?

    Davi: Muitos historiadores preferem outra. Para os períodos anteriores a 1879, eles falam em antijudaísmo, que é a hostilidade religiosa ou étnico-religiosa contra judeus.

    Lia: E o antissemitismo moderno, que vamos ver no próximo episódio, é a visão racial. Nela, nem a conversão ao cristianismo "apagaria" a identidade judaica atribuída à pessoa.

    Davi: Guarde essa distinção, porque ela vai voltar no fim de hoje.

    Lia: Então vamos ao primeiro bloco: a Antiguidade. Imagine o Mediterrâneo oriental, com comunidades judaicas vivendo sob os impérios persa, helenístico e romano.

    Davi: E de onde vinha a hostilidade nesse mundo?

    Lia: Uma das principais fontes era a recusa dos judeus em adorar os deuses pagãos e o culto imperial. Mas a hostilidade não era uniforme. Ela misturava conflitos políticos, diferenças religiosas e tensões econômicas.

    Davi: Já havia calúnias organizadas, histórias inventadas sobre os judeus?

    Lia: Havia. No século III antes de Cristo, um sacerdote egípcio chamado Manetão reescreveu o relato do Êxodo. Ele afirmou que os hebreus eram leprosos expulsos do Egito.

    Davi: Ou seja, pegou a história de libertação de um povo e transformou numa história de doença e expulsão.

    Lia: Exatamente. E no século I depois de Cristo veio Ápion de Alexandria, um gramático.

    Davi: O que ele espalhou?

    Lia: Disse que os judeus adoravam uma cabeça de jumento no Templo de Jerusalém. E disse também que faziam sacrifícios rituais de gregos.

    Davi: Sacrifício ritual de não judeus. Essa acusação vai reaparecer muitos séculos depois, não vai?

    Lia: Vai, e com consequências terríveis. Mas antes disso, um aviso a quem nos ouve: o próximo trecho descreve violência contra pessoas.

    Davi: Estamos em Alexandria, no Egito, no ano 38 depois de Cristo, sob o prefeito romano Flaccus.

    Lia: Sinagogas foram profanadas. Os judeus perderam direitos civis, foram declarados "estrangeiros" e confinados.

    Davi: E houve saques, torturas e massacres.

    Lia: Como sabemos disso, quase dois mil anos depois?

    Davi: Porque duas vozes judaicas da época sobreviveram. Fílon de Alexandria descreveu a violência em In Flaccum e em Legatio ad Gaium.

    Lia: E Flávio Josefo, por volta do ano 90, escreveu Contra Apionem. Nele, registrou e refutou as calúnias de Manetão e de Ápion.

    Davi: Gosto de pensar que a resposta judaica ao ódio, desde o começo, foi essa: escrever, registrar, refutar com argumentos.

    Lia: Segundo bloco: o mundo se cristianiza, e surge uma acusação que vai atravessar séculos. O deicídio.

    Davi: Explica o termo para quem nunca ouviu.

    Lia: Deicídio é a ideia de que os judeus, como coletividade, seriam responsáveis pela morte de Jesus. Isso inclui todas as gerações, inclusive as de hoje.

    Davi: E essa acusação é falsa.

    Lia: É falsa. Comecemos pelo básico: Jesus era judeu. Foi circuncidado, frequentou o Templo e as sinagogas, guardou o sábado e celebrou as festas judaicas.

    Davi: Sua mãe era judia, os apóstolos eram judeus. Até a inscrição que os romanos puseram na cruz dizia "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus".

    Lia: E quem o executou?

    Davi: A crucificação era uma pena romana. Jesus foi crucificado sob Pôncio Pilatos, o prefeito romano da Judeia.

    Lia: Então de onde saiu a ideia de culpar os judeus?

    Davi: Segundo historiadores, o primeiro registro formal da acusação na literatura cristã está na Homilia sobre a Páscoa, de Melito de Sardes, no século II.

    Lia: E depois?

    Davi: Nos anos 386 e 387, João Crisóstomo pregou em Antioquia os sermões Contra os Judeus. Ele chamou os judeus de "assassinos de Cristo".

    Lia: Com a cristianização da Europa, essa acusação passou a justificar a marginalização e a violência contra judeus.

    Davi: Lia, alguém pode perguntar: isso não é coisa do passado?

    Lia: A acusação ainda circula, sobretudo na Páscoa, em memes e comentários. Mas é importante lembrar que muita gente a repete só porque aprendeu assim, em casa ou na igreja.

    Davi: E a própria Igreja Católica revisou essa leitura. Em 1965, o Concílio Vaticano II publicou a declaração Nostra Aetate.

    Lia: Ela afirma que a morte de Jesus não pode ser atribuída indistintamente a todos os judeus daquela época nem aos de hoje.

    Davi: E condena o antissemitismo. Por isso, mostrar o que a Igreja ensina costuma funcionar melhor do que atacar a fé de alguém.

    Lia: Terceiro bloco. E aqui de novo um aviso: vamos falar de massacres.

    Davi: Ano de 1096, Primeira Cruzada. A caminho do Oriente, cruzados atacaram comunidades judaicas na Renânia, em Worms, Speyer e Mainz.

    Lia: Muitos judeus foram mortos ou batizados à força.

    Davi: Alguém tentou impedir?

    Lia: Alguns bispos e governantes tentaram protegê-los. É um detalhe que vale guardar: mesmo nos piores momentos, houve quem não aderisse ao ódio.

    Davi: E poucas décadas depois nasce o mito que dá nome ao nosso episódio.

    Lia: O libelo de sangue. Estamos em Norwich, na Inglaterra, em 1144.

    Davi: O que aconteceu lá?

    Lia: Surgiu a acusação falsa de que judeus matavam crianças cristãs em rituais. Um monge, Tomás de Monmouth, inventou uma história ainda mais elaborada.

    Davi: Qual?

    Lia: A de um conselho judaico internacional que escolheria, todo ano, uma cidade para sacrificar uma criança cristã.

    Davi: Repare no que esse mito junta: crianças, sangue, segredo e uma organização judaica mundial.

    Lia: É uma mentira feita para despertar o máximo de medo. E o Museu do Holocausto dos Estados Unidos descreve esses rumores como pretexto frequente para ataques.

    Davi: O libelo causou massacres de comunidades judaicas.

    Lia: E não ficou na Idade Média. O mito voltou no Caso de Damasco, em 1840, no Império Otomano.

    Davi: E no Caso Beilis, em 1911, na Rússia czarista.

    Lia: Hoje ele reaparece em frases como "judeus sequestram crianças" ou "colhem órgãos".

    Davi: Mesma mentira, roupa nova. É isso que chamamos de tropo antissemita.

    Lia: E, em 1215, o Quarto Concílio de Latrão impôs aos judeus roupas ou distintivos de identificação.

    Davi: Marcar as pessoas para separá-las. Isso também vai voltar mais tarde na história.

    Lia: Quarto bloco: a Peste Negra, entre 1348 e 1351. Mais um aviso, porque é um dos capítulos mais violentos.

    Davi: A peste matava em toda a Europa. E alguém precisava ser culpado.

    Lia: Judeus foram acusados de envenenar os poços. E mais de 300 comunidades judaicas foram destruídas na Europa Ocidental.

    Davi: Ninguém percebeu o absurdo?

    Lia: Houve quem dissesse em voz alta. O papa Clemente VI, na bula Quamvis Perfidiam, refutou a acusação.

    Davi: Com que argumento?

    Lia: Um argumento simples: a peste também matava judeus.

    Davi: E mesmo assim o boato foi mais forte que a verdade.

    Lia: E depois vieram as expulsões. Em 1290, Eduardo I expulsou os judeus da Inglaterra.

    Davi: Em 1394, Carlos VI ordenou a expulsão na França.

    Lia: Em 1492, na Espanha, o Decreto de Alhambra impôs expulsão ou conversão.

    Davi: E em 1497, em Portugal, D. Manuel I impôs conversão forçada ou expulsão. Essa parte da história também é nossa, de quem fala português.

    Lia: Quinto e último bloco, Davi. Uma pergunta que muitos professores ouvem em sala: e o estereótipo do judeu ligado ao dinheiro, de onde vem?

    Davi: Vem de uma imposição. Na Idade Média, em muitas regiões da Europa, os judeus foram proibidos de ter terras e de exercer muitas profissões.

    Lia: E por isso foram empurrados para as finanças.

    Davi: Esse lugar imposto virou estereótipo. Primeiro se fecham as portas, depois se acusa quem ficou na única porta aberta.

    Lia: E agora volta aquela distinção do começo. Na Espanha, o Estatuto de Toledo, de 1449, já barrava judeus convertidos de cargos públicos.

    Davi: Com base em quê?

    Lia: Na chamada "pureza de sangue". Ou seja, nem a conversão bastava.

    Davi: E a Inquisição espanhola, criada em 1478, perseguiu os cristãos-novos, convertidos suspeitos de praticar o judaísmo em segredo.

    Lia: Houve prisões, confiscos, torturas e execuções. Os historiadores debatem os números, mas não a existência da perseguição.

    Davi: Então aqui a ideia religiosa começa a ganhar um vocabulário de sangue e de origem.

    Lia: É uma ponte para o que vem depois, quando o ódio religioso se transforma em ideologia racial.

    Davi: Antes de fechar, Lia, as três ideias para levar.

    Lia: Primeira: o ódio aos judeus é muito mais antigo que a palavra antissemitismo. Começou como hostilidade religiosa, o antijudaísmo, e já na Antiguidade houve calúnias e massacres, como em Alexandria.

    Davi: Segunda: o deicídio e o libelo de sangue são mentiras. Jesus era judeu e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, numa pena romana. E nenhuma criança jamais foi morta em ritual judaico, mas o boato serviu de pretexto para matar judeus.

    Lia: Terceira: esses mitos não morreram, mudaram de roupa. Reconhecer o padrão, explicar sua origem e buscar aliados, inclusive nas igrejas, é o caminho para enfrentá-lo, sem ódio a nenhum povo ou religião.

    Davi: E combater esses mitos hoje é defender pessoas reais: os judeus no Brasil, no mundo e em Israel.

    Lia: No próximo episódio, "Da teoria racial ao Holocausto", vamos ver como o ódio religioso virou ideologia racial e chegou ao assassinato de cerca de seis milhões de judeus.

    Davi: Até lá. Obrigado por ouvir "Antissemitismo através dos séculos", da JJO.

  2. Episódio 2 · Da teoria racial ao Holocausto14 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Você está ouvindo "Antissemitismo através dos séculos", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio 2 de 5: "Da teoria racial ao Holocausto".

    Lia: No episódio anterior, vimos o antijudaísmo religioso: a falsa acusação de deicídio, o libelo de sangue de Norwich e as expulsões da Idade Média.

    Davi: Era um ódio que dizia: "o problema é a sua fé". Hoje vamos ver o momento em que o ódio passou a dizer: "o problema é o seu sangue". E aonde essa ideia levou.

    Lia: Vamos em cinco partes. A palavra, a conspiração, as leis, a noite de novembro e o genocídio. Primeira parte, a palavra. Davi, quem inventou o termo "antissemitismo"?

    Davi: Foi o jornalista alemão Wilhelm Marr, em 1879. Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, foi ele quem cunhou a palavra. No mesmo período, ele fundou uma liga antissemita.

    Lia: E o que ele queria com uma palavra nova, se o ódio já era antigo?

    Davi: Marr queria apresentar a oposição aos judeus como algo baseado em biologia e nacionalismo, e não mais em religião. Parecia mais "moderno", mais "científico".

    Lia: Muita gente pergunta se o termo não incluiria todos os povos de língua semítica.

    Davi: Não. Desde a origem, a palavra se refere aos judeus. Por isso, muitos historiadores chamam o ódio anterior a 1879 de antijudaísmo, que era religioso. E chamam o que vem depois de antissemitismo moderno, que é racial.

    Lia: E qual é a diferença prática?

    Davi: No antijudaísmo medieval, a conversão ao cristianismo, em tese, encerrava a perseguição. Na visão racial, a conversão não "apagava" a identidade judaica atribuída à pessoa. Não havia saída.

    Lia: Segunda parte: a conspiração. No século XIX, o preconceito religioso virou ideologia política e racial. De que essa ideologia se alimentava?

    Davi: De nacionalismo étnico, de teorias raciais pseudocientíficas e de darwinismo social. Também de teorias conspiratórias sobre finanças e imprensa, e da oposição à emancipação jurídica dos judeus.

    Lia: Vamos a uma cena concreta. França, fim do século XIX.

    Davi: O capitão judeu Alfred Dreyfus foi condenado injustamente por traição. O caso durou de 1894 a 1906. Em 1898, o escritor Émile Zola denunciou a armação no manifesto "J'accuse...!", que quer dizer "Eu acuso".

    Lia: E no Império Russo?

    Davi: Lá aconteceram os pogroms, ataques coletivos contra judeus, muitas vezes tolerados ou incentivados por autoridades. Grandes ondas ocorreram depois de 1881. Em 1903, houve o massacre de Kishinev.

    Lia: Nesse mesmo ano de 1903 aparece um texto que circula até hoje.

    Davi: Os Protocolos dos Sábios de Sião. Eles simulam atas de reuniões secretas de líderes judeus que planejariam dominar o mundo por meio de bancos, imprensa e governos.

    Lia: Quem escreveu isso?

    Davi: Segundo o Yad Vashem, o texto foi produzido e divulgado pela polícia secreta do czar. E é um plágio: copia uma sátira de 1864, de Maurice Joly, contra Napoleão III. Essa sátira nem mencionava judeus.

    Lia: E como se descobriu a fraude?

    Davi: Em agosto de 1921, o jornalista Philip Graves, do The Times de Londres, comparou os textos lado a lado e mostrou a cópia direta.

    Lia: Provada a mentira, o texto desapareceu?

    Davi: Não. Nos Estados Unidos, o industrial Henry Ford financiou sua publicação em massa. E Hitler e a liderança nazista usaram os Protocolos em "Mein Kampf" e na propaganda oficial.

    Lia: Isso diz muito: uma mentira desmascarada pode continuar fazendo estragos se alguém tiver interesse em espalhá-la.

    Davi: Terceira parte: as leis. Antes de 1933, os judeus alemães eram cidadãos da Alemanha. Médicos, comerciantes, professores, vizinhos.

    Lia: E o projeto nazista já estava anunciado antes de Hitler chegar ao poder?

    Davi: Estava. Na Carta Gemlich, de 1919, seu primeiro escrito político, Hitler definiu como objetivo a "remoção irrestrita dos judeus".

    Lia: O que aconteceu quando ele assumiu?

    Davi: Hitler chegou ao poder em 30 de janeiro de 1933. Vieram o boicote a negócios judaicos e, em abril, a expulsão de judeus do serviço público.

    Lia: Ou seja, o genocídio não começou nas câmaras de gás.

    Davi: Exatamente. Começou com discriminação e com leis. Em 15 de setembro de 1935, vieram as Leis de Nuremberg.

    Lia: O que elas faziam?

    Davi: Definiam quem era judeu por critérios biológicos e cassavam a cidadania alemã dos judeus. As mesmas leis proibiram casamentos e relações com não judeus. Era a teoria racial do século XIX transformada em lei do Estado.

    Lia: Quarta parte: a noite de novembro de 1938. Um aviso a quem nos ouve: a partir daqui vamos falar de violência física, prisões e mortes.

    Davi: No fim de outubro de 1938, os nazistas deportaram à força entre 17 mil e 18 mil judeus de nacionalidade polonesa que viviam na Alemanha.

    Lia: Para onde?

    Davi: Foram largados na fronteira, em Zbąszyń. Entre eles estava a família de Herschel Grynszpan, um jovem de 17 anos que morava em Paris.

    Lia: E o que ele fez?

    Davi: Revoltado, em 7 de novembro ele atirou no diplomata Ernst vom Rath, na embaixada alemã em Paris. Vom Rath morreu em 9 de novembro.

    Lia: A propaganda nazista disse que o que veio depois foi "fúria popular espontânea". Foi?

    Davi: Não. O atentado foi o pretexto, não a causa. Na noite de 9 de novembro, em Munique, Hitler e o ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, decidiram desencadear o pogrom em todo o Reich.

    Lia: E como a ordem chegou às ruas?

    Davi: Por telegrama. Reinhard Heydrich, chefe da Polícia de Segurança, mandou a polícia não impedir os ataques. Autorizou incendiar sinagogas e ordenou prender homens judeus.

    Lia: Esse telegrama foi apresentado nos Julgamentos de Nuremberg. E os próprios diários de Goebbels registram o aval de Hitler.

    Davi: Pense numa noite em que sinagogas de um país inteiro ardem ao mesmo tempo, sob o olhar de uma polícia que recebeu ordens para não agir.

    Lia: Segundo o Yad Vashem, mais de 1.400 sinagogas e salas de oração foram profanadas, incendiadas ou destruídas.

    Davi: E não eram só prédios. Eram os lugares onde famílias celebravam casamentos, onde crianças aprendiam a ler hebraico.

    Lia: Cerca de 7.500 estabelecimentos judaicos foram saqueados ou danificados. Casas foram invadidas, cemitérios depredados.

    Davi: Daí vem o nome Kristallnacht, a Noite dos Cristais, por causa dos cacos de vitrine nas ruas. Muitas instituições preferem "Pogrom de Novembro", porque a imagem do vidro esconde o essencial: houve assassinatos e terror.

    Lia: E as pessoas?

    Davi: Cerca de 30 mil homens judeus foram presos e muitos foram levados aos campos de Dachau, Buchenwald e Sachsenhausen. Lá sofreram espancamentos, fome e trabalho forçado.

    Lia: Presos por quê?

    Davi: Por nada além de serem judeus, sem acusação de crime. Foi o primeiro internamento em massa desse tipo. Muitos só foram soltos depois de prometer deixar a Alemanha.

    Lia: Quantos morreram?

    Davi: O registro oficial nazista da época contou 91 judeus assassinados.

    Lia: Mas esse é o número do próprio regime que organizou a violência.

    Davi: Por isso é preciso ir além. Pesquisas historiográficas e registros dos campos estimam entre 1.300 e 1.500 mortes.

    Lia: Essa estimativa inclui assassinatos, mortes por agressões e suicídios causados pelo terror.

    Davi: E depois veio a humilhação final. Em 12 de novembro, numa conferência presidida por Hermann Göring, o regime impôs aos judeus uma multa coletiva de 1 bilhão de Reichsmarks.

    Lia: As vítimas foram obrigadas a pagar pelo crime cometido contra elas.

    Davi: E, em 15 de novembro, todas as crianças judaicas foram expulsas das escolas públicas.

    Lia: E o mundo?

    Davi: A reação internacional foi limitada. O presidente americano Franklin Roosevelt condenou a violência e chamou seu embaixador para consultas, mas não rompeu relações. Muitos países mantiveram as restrições à imigração.

    Lia: Quinta parte: o genocídio. Novo aviso: este trecho fala de assassinato em massa.

    Davi: Em 1939, a Alemanha invade a Polônia, e os judeus são confinados em guetos superlotados. O maior foi o de Varsóvia, onde chegaram a viver cerca de 480 mil judeus, com fome, doenças e trabalho forçado.

    Lia: Em 1941, com a invasão da União Soviética, unidades chamadas Einsatzgruppen fuzilaram judeus em massa.

    Davi: Em Babi Yar, perto de Kiev, 33.771 judeus foram mortos em dois dias.

    Lia: Nesse mesmo ano, a propaganda nazista também chegava ao mundo árabe.

    Davi: Transmissões de rádio em árabe incitavam ataques contra judeus. Em junho de 1941, aconteceu o Farhud, um pogrom em Bagdá.

    Lia: E a Conferência de Wannsee?

    Davi: Foi em 20 de janeiro de 1942. Ela não iniciou o genocídio, que já estava em curso. Coordenou a chamada "Solução Final", sob a liderança de Heydrich.

    Lia: A ata foi redigida por Adolf Eichmann. Segundo o Yad Vashem, os participantes planejaram eliminar 11 milhões de judeus em toda a Europa.

    Davi: Entre 1942 e 1945, funcionaram câmaras de gás nos campos de extermínio, como Treblinka, Sobibor e Auschwitz-Birkenau, na Polônia ocupada.

    Lia: Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho libertou Auschwitz-Birkenau. É por isso que esse dia é o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

    Davi: Ao todo, cerca de seis milhões de judeus foram assassinados. Eram cerca de dois terços dos judeus da Europa.

    Lia: Entre eles, cerca de 1,5 milhão de crianças.

    Davi: E sabemos disso por muitas provas. Uma das mais comoventes é o Arquivo Oneg Shabbat, reunido em segredo no Gueto de Varsóvia pelo historiador Emanuel Ringelblum.

    Lia: Ele foi enterrado em caixas e latões de leite para que o mundo soubesse. Há também os documentos dos próprios nazistas, as fotografias, os campos e os julgamentos.

    Davi: Em Nuremberg, ficou firmado um princípio: quem comete crimes em nome do Estado responde por eles individualmente. O cargo não protege ninguém.

    Lia: Davi, por que tudo isso importa hoje?

    Davi: Porque o Holocausto é um dos fatos mais documentados da história. Mesmo assim, ele é negado e distorcido. Pela definição de trabalho de antissemitismo da IHRA, adotada pela JJO, negar ou minimizar o Holocausto é antissemitismo.

    Lia: A mesma definição inclui comparar a política israelense atual à dos nazistas. Bordões como "Gaza é Auschwitz" fazem uma inversão: transformam o maior crime contra os judeus em acusação contra os judeus.

    Davi: Essa comparação é falsa como história. O Holocausto foi o plano de matar cada judeu da Europa.

    Lia: Já a guerra em Gaza começou com o massacre de 7 de outubro de 2023.

    Davi: Naquele dia, terroristas do Hamas mataram mais de 1.200 pessoas e sequestraram 251 reféns, segundo as FDI.

    Lia: O sofrimento de civis palestinos é real. E o grupo terrorista Hamas usa esses civis como escudo humano, como documentam as FDI.

    Davi: Criticar o governo de Israel, como se critica qualquer governo, não é antissemitismo.

    Lia: Mas negar o direito de Israel existir, pela mesma definição da IHRA, é antissemitismo. Também é antissemitismo aplicar a Israel padrões duplos, que não se aplicam a nenhum outro país.

    Davi: Assim como usar tropos clássicos, como o cifrão em "I$rael", ou culpar judeus do mundo inteiro pelas ações do Estado.

    Lia: Vamos fechar com três ideias-chave.

    Davi: Primeira: o antissemitismo moderno trocou a religião pela "raça". Por isso, nem a conversão oferecia saída.

    Lia: Segunda: o Holocausto não começou nas câmaras de gás. Começou com palavras, mentiras como os Protocolos, leis como as de Nuremberg e uma noite de violência que o mundo assistiu sem agir com firmeza.

    Davi: Terceira: lembrar é uma responsabilidade. Negar o Holocausto, invertê-lo contra os judeus ou negar o direito de Israel existir é antissemitismo. Combatê-lo, sem ódio a nenhum povo ou religião, é o que a memória nos pede.

    Lia: No próximo episódio, vamos olhar para perto de nós: "O antissemitismo no Brasil".

    Davi: Obrigado por nos ouvir. Até lá.

  3. Episódio 3 · O antissemitismo no Brasil14 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá, eu sou a Lia.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é "Antissemitismo através dos séculos", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO.

    Lia: Este é o terceiro de cinco episódios. Hoje o tema é o antissemitismo no Brasil.

    Davi: No episódio anterior, vimos como a teoria racial abriu caminho para o Holocausto na Europa.

    Lia: Muita gente pensa que essa história ficou do outro lado do oceano. Não ficou. Ela teve capítulos aqui, com nomes brasileiros, ordens oficiais e consequências reais.

    Davi: Vamos percorrer cinco momentos: o integralismo, o governo Vargas, os criminosos nazistas que se esconderam aqui, os dados de hoje e a resposta da lei.

    Lia: Começamos nos anos 1930. Imagine uma rua de uma cidade brasileira tomada por homens de camisa verde, em desfile, fazendo saudações.

    Davi: São os militantes da Ação Integralista Brasileira, a AIB. Por causa da camisa verde, ganharam o apelido de "galinhas-verdes".

    Lia: A AIB foi fundada por Plínio Salgado em 1932. Foi o maior movimento fascista do Brasil.

    Davi: Mas era fascismo mesmo, ou só nacionalismo? Essa é a pergunta que muita gente faz.

    Lia: A historiografia responde. O historiador Hélgio Trindade deu ao seu estudo clássico o título "Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30".

    Davi: Havia culto ao líder, uniformes, disciplina paramilitar, anticomunismo e rejeição da democracia liberal. A AIB não era uma filial do Partido Nazista. Era um movimento de tipo fascista adaptado ao Brasil, com forte apelo católico.

    Lia: E o antissemitismo? Ele não constava da plataforma oficial. Mesmo assim, foi uma força real e pública dentro do movimento.

    Davi: O nome central aqui é Gustavo Barroso, chefe das milícias integralistas. Ele não era uma figura marginal. Dirigiu o Museu Histórico Nacional e presidiu a Academia Brasileira de Letras.

    Lia: Em 1934, Barroso publicou "Brasil, Colônia de Banqueiros". O livro dizia que o país tinha virado "colônia de banqueiros judeus" e apontava a casa Rothschild como responsável.

    Davi: É um tropo clássico do antissemitismo: a ideia de que judeus controlam o dinheiro e, por meio dele, as nações.

    Lia: Em 1936, ele foi além. Publicou a primeira tradução em português dos Protocolos dos Sábios de Sião.

    Davi: Para quem não conhece: os Protocolos são uma falsificação produzida no Império Russo e divulgada pela polícia do czar. Depois, os nazistas os usaram.

    Lia: Nas notas de rodapé, Barroso tentava "provar" que o falso complô estava em curso no Brasil. Com isso, transformou os judeus em inimigo interno.

    Davi: Até Plínio Salgado, cujo discurso girava mais em torno do catolicismo, usou essa linguagem. Num jornal integralista, culpou o "judeu internacional" por uma derrota do movimento.

    Lia: Chegamos então a setembro de 1937 e a um documento chamado Plano Cohen.

    Davi: O Plano Cohen era falso. Quem o escreveu foi um militar integralista, o capitão Olímpio Mourão Filho. O texto simulava um plano comunista para tomar o poder com greves, saques e assassinatos.

    Lia: O nome "Cohen" não foi escolhido por acaso. Ele evocava o estereótipo do judeu conspirador. Estudos apontam que o plano repetia a estrutura dos Protocolos.

    Davi: Rádios e jornais espalharam pânico. Em 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas deu o golpe e instaurou o Estado Novo.

    Lia: Ou seja, uma mentira antissemita ajudou a derrubar a ordem constitucional do país.

    Davi: E o integralismo? Em 1938, tentou um levante armado contra Vargas. Fracassou e deixou de existir como força política legal.

    Lia: Agora, o segundo momento: o próprio Estado brasileiro.

    Davi: Em junho de 1937, o Itamaraty enviou uma ordem confidencial a consulados e embaixadas. Era a Circular Secreta número 1.127.

    Lia: O que ela dizia? Mandava negar visto a toda pessoa que se soubesse ser de "origem étnica semítica". A restrição valia até para turistas e negociantes.

    Davi: Por que uma ordem secreta, e não uma lei?

    Lia: Porque assim a política ficava fora do debate público e evitava desgaste internacional. A burocracia descrevia os judeus como "inassimiláveis" e "elementos subversivos".

    Davi: A historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP, trouxe esses documentos a público. Ela chama essa política de antissemitismo de Estado.

    Lia: As estimativas falam em mais de 9 mil vistos negados a judeus, talvez até 16 mil.

    Davi: Tudo isso enquanto a perseguição nazista avançava na Europa.

    Lia: Mesmo assim, alguns conseguiram entrar por caminhos alternativos: vistos de turista, certificados de batismo, às vezes falsos, e a ajuda de diplomatas que desobedeceram às ordens.

    Davi: Dois nomes merecem ser lembrados. O embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, em Paris e Vichy, concedeu vistos a perseguidos e foi processado pelo governo Vargas.

    Lia: O outro é Aracy de Carvalho, funcionária do consulado em Hamburgo, que também ajudou judeus perseguidos. O Yad Vashem reconheceu os dois como Justos entre as Nações.

    Davi: Segundo estimativa de Tucci Carneiro, cerca de 14 mil refugiados judeus entraram por esses caminhos. O acolhimento veio sobretudo das associações judaicas brasileiras, não do governo.

    Lia: Antes de seguir, um aviso: a próxima parte fala de prisão, campos de concentração e morte.

    Davi: É a história de Olga Benário, comunista alemã de origem judaica. Ela veio ao Brasil com Luís Carlos Prestes, com quem se casou. Os dois foram presos no Rio de Janeiro em março de 1936.

    Lia: Em agosto de 1936, Getúlio Vargas assinou o decreto de expulsão. Olga estava grávida de sete meses e foi entregue à Alemanha nazista.

    Davi: O representante brasileiro em Berlim trocou dados e fotografias com a Gestapo, para garantir que ela fosse presa ao desembarcar.

    Lia: Numa prisão de Berlim, Olga deu à luz a filha, Anita. A avó paterna resgatou a criança depois de uma intensa campanha internacional.

    Davi: Olga passou pelos campos de Lichtenburg e Ravensbrück. Em 1942, foi assassinada na câmara de gás de Bernburg.

    Lia: Davi, ela foi deportada por ser judia?

    Davi: Dizer só isso simplifica demais. O motivo formal foi o anticomunismo, e a deportação aconteceu antes da circular. Mas tratar o caso como uma expulsão administrativa comum também é insuficiente.

    Lia: Para Tucci Carneiro, foi colaboração com a Alemanha nazista e expressão do antissemitismo político brasileiro. O governo conhecia a natureza persecutória do regime de Hitler e, mesmo assim, recusou proteção a Olga.

    Davi: Terceiro momento. A guerra acaba, e alguns responsáveis pelo Holocausto escapam pelas chamadas "rotas de ratos". Vários chegam ao Brasil.

    Lia: Mais um aviso: aqui falamos de campos de extermínio e de experimentos com seres humanos.

    Davi: Franz Stangl comandou os campos de Sobibór e Treblinka. Chegou ao Brasil em 1951 e viveu aqui com o próprio nome, sem ser incomodado.

    Lia: Quem conduziu a busca foi o caçador de nazistas Simon Wiesenthal. Israel, Polônia e Áustria pediram a extradição, e o Brasil acabou por entregá-lo à Alemanha Ocidental.

    Davi: Em 1970, em Düsseldorf, Stangl foi condenado à prisão perpétua. Morreu na prisão no ano seguinte.

    Lia: Gustav Wagner, vice-comandante de Sobibór, morava em São Paulo. Foi reconhecido pessoalmente por Stanisław Szmajzner, sobrevivente de Sobibór que vivia no Brasil.

    Davi: Mas o Supremo negou todos os pedidos de extradição. No pedido alemão, a tradução trocou o ano 1947 por 1974. O tribunal também aplicou a prescrição.

    Lia: Por fim, Josef Mengele, médico da SS em Auschwitz. Ele fazia as seleções na rampa de desembarque dos trens e conduziu experimentos de extrema crueldade em gêmeos.

    Davi: Mengele trocou o Paraguai pelo Brasil em 1960. Viveu escondido no estado de São Paulo, com identidades falsas, até morrer afogado, sem nunca ter sido julgado.

    Lia: Por que ele veio para cá?

    Davi: Por medo. O Mossad tinha acabado de capturar Adolf Eichmann em Buenos Aires.

    Lia: Então Israel teve papel direto nessa história.

    Davi: Teve. Israel pediu formalmente a extradição de Stangl e de Wagner, e a captura de Eichmann pelo Mossad fez Mengele mudar de país por medo.

    Lia: Agora, um salto para o presente. Muita gente pergunta: isso não é coisa do passado?

    Davi: Os dados dizem que não. A principal série pública vem da Confederação Israelita do Brasil, a Conib, em parceria com a Federação Israelita do Estado de São Paulo.

    Lia: Em 2022, foram 385 denúncias relevantes.

    Davi: Em 2023, o número saltou para 1.684.

    Lia: A Conib calcula uma alta de cerca de 323%. Esses números medem denúncias recebidas e classificadas, não crimes confirmados.

    Davi: As métricas também variam entre os relatórios. O relatório do ano seguinte, por exemplo, cita 398 denúncias para 2022.

    Lia: Por isso, a regra prática é simples: só compare números do mesmo tipo e da mesma fonte.

    Davi: E o que provocou o salto? O ataque do grupo terrorista Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023.

    Lia: Só naquele mês de outubro, a Conib recebeu 403 denúncias.

    Davi: E no ano seguinte?

    Lia: Em 2024, foram 1.788 denúncias, o maior número da série.

    Davi: Isso dá cerca de cinco denúncias por dia.

    Lia: Em 2025, o relatório passou a contar casos validados: foram 989.

    Davi: Esses casos saíram de um total de 1.428 ocorrências. É menos que o pico, mas o relatório descreve uma estabilização em patamar elevado.

    Lia: E onde isso acontece? Em 2025, 80,9% dos casos validados foram on-line.

    Davi: Mas não fica só na tela. Aviso: agora falamos de ameaças e agressões.

    Lia: Em novembro de 2023, a Operação Trapiche, da Polícia Federal, desarticulou uma rede ligada ao Hezbollah e ao regime iraniano. A rede recrutava brasileiros para atacar alvos da comunidade judaica, como sinagogas.

    Davi: Entre as denúncias de 2025, há a tentativa de atropelar um homem de quipá em Joaçaba, em Santa Catarina. Também há suásticas pichadas no Cemitério Israelita de Belo Horizonte.

    Lia: E o que pensam os brasileiros? As pesquisas mostram que a maioria tem opinião favorável aos judeus.

    Davi: Então a maioria não tem preconceito nenhum?

    Lia: Não é tão simples. Numa pesquisa da ADL, 55% dos entrevistados concordaram que judeus têm muito poder nos negócios. Concordar com um estereótipo descreve a opinião de quem responde. Não torna o estereótipo verdadeiro.

    Davi: E numa pesquisa sobre o Holocausto encomendada pela Conib e por memoriais do Holocausto, só 53,2% dos entrevistados souberam defini-lo corretamente.

    Lia: Isso mostra o tamanho da tarefa de educação que temos pela frente.

    Davi: Uma ressalva importante: criticar o governo de Israel, como se critica qualquer governo, não é antissemitismo.

    Lia: O problema começa quando judeus brasileiros passam a ser cobrados ou atacados pelo que faz um Estado estrangeiro. Pela definição da IHRA, adotada pela JJO, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

    Davi: Último momento: a lei. Antissemitismo é crime no Brasil?

    Lia: É. A Lei 7.716, de 1989, pune a discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

    Davi: Em 2003, no caso Ellwanger, o Supremo decidiu que antissemitismo é racismo.

    Lia: A votação foi de 8 a 3. O editor Siegfried Ellwanger publicava livros antissemitas e de negação do Holocausto.

    Davi: O tribunal entendeu que racismo é um conceito social e histórico, não biológico. Também afirmou que a liberdade de expressão não protege o discurso de ódio.

    Lia: Por isso, o antissemitismo é crime inafiançável e imprescritível. Em 2022, o pastor Tupirani da Hora Lores foi condenado a 18 anos de reclusão por racismo e incitação ao ódio contra judeus.

    Davi: Vamos fechar com três ideias-chave.

    Lia: Primeira: o antissemitismo no Brasil não foi só de rua. Também foi de Estado, com circulares secretas que fecharam as portas a refugiados judeus.

    Davi: Segunda: mentiras antissemitas têm consequências reais. O Plano Cohen, que repetia a lógica dos Protocolos, serviu de pretexto para o golpe do Estado Novo.

    Lia: Terceira: os mesmos mitos voltam hoje, na internet e nas ruas, às vezes disfarçados de crítica a Israel. Reconhecê-los é o primeiro passo para enfrentá-los, sem ódio a nenhum povo ou religião.

    Davi: No próximo episódio: "O novo antissemitismo: quando o alvo vira Israel".

    Lia: Obrigada por ouvir. Até lá.

  4. Episódio 4 · O novo antissemitismo: quando o alvo vira Israel13 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Você está ouvindo "Antissemitismo através dos séculos", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio quatro de cinco: "O novo antissemitismo: quando o alvo vira Israel".

    Lia: No episódio anterior falamos do antissemitismo no Brasil: das células neonazistas e do caso Ellwanger, em que o STF decidiu que antissemitismo é crime de racismo.

    Davi: E vimos que, segundo relatório citado pela Folha, o país registrou cinco denúncias de antissemitismo por dia em 2024. Hoje a pergunta é outra: o que acontece quando o velho preconceito troca de roupa e passa a falar de Israel?

    Lia: Vamos em cinco partes. Primeiro, o critério que usamos para medir. Depois, um teste prático. Em seguida, de onde veio esse discurso. Depois, como ele aparece na esquerda. E, por fim, nos grupos islamistas.

    Davi: Começando pela régua. Lia, quando alguém diz "isso é antissemitismo", qual é o critério?

    Lia: A JJO adota a definição da IHRA, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. É um organismo intergovernamental criado em 1998, por iniciativa do primeiro-ministro sueco Göran Persson.

    Davi: E quando essa definição foi adotada?

    Lia: Em 26 de maio de 2016, em Bucareste. Foi uma decisão unânime do plenário.

    Davi: E o que diz a frase central?

    Lia: Que o antissemitismo é uma determinada percepção dos judeus, que pode se exprimir como ódio. O texto inclui palavras e atos, e traz onze exemplos.

    Davi: Agora vem a pergunta que muita gente faz: então eu não posso mais criticar Israel?

    Lia: Pode, e o próprio texto diz isso. A frase oficial é: "A crítica a Israel semelhante à dirigida a qualquer outro país não pode ser considerada antissemita".

    Davi: Então onde está a linha?

    Lia: Os exemplos mostram. A linha é cruzada quando alguém aplica a Israel um padrão que não vale para nenhum outro país democrático. Também quando culpa judeus de qualquer lugar pelo que faz o Estado de Israel, ou quando compara a política israelense atual à dos nazistas.

    Davi: E também quando nega ao povo judeu o direito à autodeterminação. Um exemplo é dizer que a existência do Estado de Israel é um empreendimento racista.

    Lia: Por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo. Criticar o governo de Israel não é.

    Davi: É bom contar também que existe crítica à definição. No Brasil, estudiosos ouvidos por O Globo dizem que alguns exemplos poderiam proteger Israel de críticas. A Associação Brasileira de Antropologia publicou nota contra a adoção.

    Lia: A resposta está no próprio texto. A IHRA protege de forma expressa a crítica feita nos mesmos termos da crítica a qualquer outro país. O que ela identifica é outra coisa: o duplo padrão, a culpa coletiva e a negação da autodeterminação judaica.

    Davi: E vale lembrar que a definição não é lei. A IHRA a descreve como "não juridicamente vinculante". Ela não cria crimes nem penas, mas orienta governos, escolas e polícias.

    Lia: Vamos para a segunda parte: um teste que cabe no bolso. O autor é Natan Sharansky. Ele foi dissidente e prisioneiro político na União Soviética e depois ministro para Assuntos da Diáspora de Israel.

    Davi: Sharansky apresentou o teste em 2004, numa audiência da Comissão de Helsinque do Congresso dos Estados Unidos. É o teste dos três D.

    Lia: O primeiro D é demonização: retratar Israel ou os israelenses como o mal absoluto. Sharansky deu um exemplo direto: comparar israelenses a nazistas, ou campos de refugiados palestinos a Auschwitz. Nas palavras dele, "isso é antissemitismo, não crítica legítima".

    Davi: O segundo é deslegitimação. Muitos defendem a autodeterminação de palestinos, curdos e armênios. Quem a recusa só aos judeus usa uma régua exclusiva para um povo.

    Lia: E o terceiro é duplo padrão: cobrar de Israel o que não se cobra de nenhum outro país. Um exemplo de Sharansky: por décadas, o serviço de resgate israelense Magen David Adom não foi admitido na Cruz Vermelha Internacional. Enquanto isso, serviços de outros países eram aceitos.

    Davi: Há um caso nas Nações Unidas também. No Conselho de Direitos Humanos, Israel é o único país com uma pauta permanente própria, o Item 7.

    Lia: E aqui é preciso honestidade. Duplo padrão se prova com comparação real, não só contando críticas. A pergunta é: a mesma prática, em outro país, gera a mesma reação?

    Davi: E vale lembrar: Israel é membro da ONU desde 11 de maio de 1949.

    Lia: E chama atenção que, entre quase 200 países, Israel seja o único Estado cujo direito de existir é negado.

    Davi: Terceira parte: de onde veio a ideia de trocar uma palavra por outra?

    Lia: Um capítulo importante é a União Soviética. Ela transformou o antissionismo em política de Estado. Depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, a campanha se intensificou.

    Davi: O que dizia essa propaganda?

    Lia: Ela criou a equação "sionismo igual a nazismo" e associou o sionismo a imperialismo e colonialismo. Em 1975, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 3379, que chamou o sionismo de racismo.

    Davi: Mas a lei soviética não proibia o antissemitismo?

    Lia: Proibia, formalmente. Por isso o regime condenava o preconceito em público e, ao mesmo tempo, promovia o antissionismo de Estado. Entre as décadas de 1960 e 1980, essa campanha reciclou os Protocolos dos Sábios de Sião.

    Davi: E houve uma confissão curiosa.

    Lia: Em julho de 1990, o próprio jornal Pravda admitiu que autores "fingindo combater o sionismo" tinham ressuscitado propaganda antissemita "de origem fascista".

    Davi: Essa é a lição desta parte: trocar "judeus" por "sionistas" não elimina o conteúdo antissemita. A palavra muda, o mito continua.

    Lia: Isso não quer dizer que todo antissionismo seja antissemitismo. O próprio INSS reconhece isso. O teste é o conteúdo, não o rótulo. Dizer que "os sionistas controlam a mídia" é o tropo antigo com outra palavra.

    Davi: Quarta parte: o antissemitismo que fala a linguagem do progressismo.

    Davi: Atenção: isso não quer dizer que a esquerda, como um todo, seja antissemita. Segundo o Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, o INSS, o antissemitismo está presente ao longo de todo o espectro político.

    Lia: O antissemitismo da extrema direita é real e perigoso, como vimos no episódio passado. Ele só não é o único.

    Davi: Então como esse antissemitismo de esquerda funciona?

    Lia: Um mecanismo é o binário "opressor contra oprimido". Judeus e Israel são classificados como "brancos", "coloniais" e "poderosos". Com isso, ficam fora da proteção que o antirracismo oferece a outros grupos.

    Davi: Outro é dividir os judeus em "bons" e "maus". Pense numa cena: uma estudante judia quer entrar num coletivo da faculdade e é cobrada a repudiar Israel em público para ser aceita.

    Lia: Essa exigência não é feita a nenhum outro grupo. Ela parte da mesma premissa que culpa judeus coletivamente pelas ações de Israel, o que a IHRA identifica como antissemitismo.

    Davi: E quando alguém é confrontado com isso?

    Lia: Às vezes aparece o que o sociólogo David Hirsh chamou de "formulação Livingstone". A pessoa não examina o que disse. Ela responde que a denúncia é uma "manobra sionista" para calar críticas. A própria acusação vira "prova" da conspiração.

    Davi: Há um caso oficial. Em 29 de outubro de 2020, a Comissão de Igualdade e Direitos Humanos do Reino Unido concluiu uma investigação sobre o Partido Trabalhista, então liderado por Jeremy Corbyn.

    Lia: A Comissão apontou assédio e discriminação ilícitos contra membros judeus, e interferência política no trato das denúncias.

    Davi: E no Brasil, a Confederação Israelita do Brasil, a Conib, classifica parte das manifestações ligadas à guerra como "antissemitismo disfarçado de antissionismo".

    Lia: É quando "sionista" vira eufemismo para "judeu", ou quando judeus brasileiros são cobrados a responder pelo governo israelense.

    Davi: Quinta e última parte: os grupos islamistas. Aviso a quem nos ouve: nos próximos minutos vamos falar de incitação à morte, de um ataque contra civis e de um atentado com dezenas de mortos.

    Lia: Começando pelo Hamas, que é um grupo terrorista. A carta fundacional do grupo é de 18 de agosto de 1988. Ela ataca os judeus como povo, e não apenas Israel.

    Davi: O que diz o texto?

    Lia: O artigo 7 cita um hadith segundo o qual o Dia do Juízo não virá até que os muçulmanos lutem contra os judeus e os matem. E o artigo 32 cita nominalmente os Protocolos dos Sábios de Sião.

    Davi: Uma pergunta que aparece muito nas redes: o Hamas não mudou? Em 2017, o grupo apresentou um texto dizendo que sua luta é contra o "projeto sionista", e não contra os judeus por causa da sua religião.

    Lia: Os fatos dizem outra coisa. A carta de 1988 nunca foi revogada. E o texto de 2017 recusa reconhecer Israel, exige a "libertação" do território "do rio ao mar" e consagra a "resistência armada".

    Davi: E as falas dos líderes?

    Lia: Em julho de 2019, Fathi Hammad, do Bureau Político do grupo, pediu a morte de "cada judeu possível em todo o mundo".

    Lia: Em 7 de outubro de 2023, terroristas do Hamas atacaram civis judeus em suas próprias casas, segundo as investigações das Forças de Defesa de Israel.

    Davi: E a ADL, que estudou o discurso do grupo, mostra que ele trocou a palavra "judeu" por "sionista" e manteve os mesmos estereótipos. A conclusão da ADL é direta: o Hamas é antissionista e antissemita.

    Lia: O regime iraniano seguiu um caminho parecido. Em dezembro de 2005, Ahmadinejad chamou o Holocausto de "mito". Em 2006, Teerã sediou uma conferência que reuniu negacionistas.

    Davi: E o Hezbollah?

    Lia: Em 1997, o secretário-geral Hassan Nasrallah falou do judeu como o mais covarde dos indivíduos e acrescentou: "e não digo o israelense". Quando o alvo declarado é "o judeu", já não se trata de política.

    Davi: Esse ódio também atravessou fronteiras. Em 18 de julho de 1994, um caminhão-bomba destruiu o prédio da AMIA, a Associação Mutual Israelita Argentina, em Buenos Aires.

    Lia: O ataque é atribuído à Organização da Jihad Islâmica do Hezbollah, em coordenação com o regime iraniano. Morreram 85 pessoas. É o atentado antissemita mais mortal contra civis fora de Israel desde o Holocausto.

    Davi: E um cuidado essencial: nada disso representa os muçulmanos. O islã reúne cerca de 2 bilhões de pessoas, de correntes muito diferentes.

    Lia: O problema do Irã é o regime, não o povo iraniano. E reconhecer o sofrimento de civis palestinos não exige celebrar o terrorismo, nem negar a Israel o direito de se defender.

    Davi: Vamos às três ideias-chave deste episódio.

    Lia: Primeira: criticar Israel é legítimo, e a própria IHRA diz isso. Negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

    Davi: Segunda: o rótulo não protege o conteúdo. Trocar "judeus" por "sionistas" num mito antigo, como fez a propaganda soviética e como faz o Hamas, não muda o que ele é.

    Lia: Terceira: use o teste dos três D, com comparação honesta. Pergunte se há demonização, se há deslegitimação, se há duplo padrão. E combata o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.

    Davi: No próximo e último episódio, "Nas redes e nas universidades: como reconhecer e responder", vamos à prática: o que fazer diante de uma postagem, de uma faixa ou de um discurso.

    Lia: Até lá. Obrigada por ouvir "Antissemitismo através dos séculos", da Juventude Judaica Organizada.

  5. Episódio 5 · Nas redes e nas universidades: como reconhecer e responder13 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá, eu sou a Lia, e este é "Antissemitismo através dos séculos", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO.

    Davi: E eu sou o Davi. Hoje chegamos ao quinto e último episódio: "Nas redes e nas universidades: como reconhecer e responder".

    Lia: No episódio anterior, vimos como o velho ódio ganhou roupa nova: o alvo passou a ser Israel, e o judeu passou a ser cobrado pelo que faz um Estado.

    Davi: Hoje a pergunta é prática. Onde esse ódio aparece no dia a dia de quem tem um celular no bolso ou uma carteirinha de estudante? E o que fazer quando ele aparece?

    Lia: Vamos começar pela tela. Imagine uma jovem judia que posta a foto de um almoço com amigos. Nada sobre religião, nada sobre política.

    Davi: E, nos comentários, chega uma hostilidade que não tem nada a ver com a foto. Isso não é exagero: judeus relatam comentários hostis em posts comuns e insultos até em jogos online.

    Lia: Davi, o que exatamente circula nas redes? Como o ouvinte reconhece?

    Davi: São mitos antigos em formato novo. O mais comum é o do controle oculto: "os judeus controlam a mídia, os bancos, os governos". É o mesmo mito espalhado pelos Protocolos dos Sábios de Sião.

    Lia: Uma falsificação publicada em 1903 no Império Russo, que os nazistas usaram depois.

    Davi: Isso. E há também o libelo de sangue, a acusação medieval de que judeus matariam crianças em rituais. Ela voltou em memes e caricaturas no Instagram e no X.

    Lia: E tem a culpa coletiva: judeus do mundo inteiro tratados como responsáveis pelas decisões do governo de Israel.

    Davi: Muita gente usa códigos para driblar a moderação. Um exemplo são os três parênteses em volta de um nome. Foram criados por neonazistas para marcar pessoas como judias.

    Lia: Mas o contexto decide, certo? Alguns judeus passaram a usar o símbolo de forma irônica.

    Davi: Exatamente. Um símbolo isolado não prova nada. É preciso olhar o texto, a imagem, quem publica e contra quem.

    Lia: Outros códigos aparecem com frequência. Emojis de porco e de rato, que desumanizam. Expressões como "globalistas" ou "cabala judaica". O meme do Happy Merchant, uma caricatura de origem antissemita.

    Davi: E grafias distorcidas, com cifrão no lugar da letra, feitas para escapar dos filtros. Agora há também imagens feitas com inteligência artificial e deepfakes.

    Lia: Vamos ao segundo bloco: o que mudou depois de 7 de outubro de 2023.

    Davi: Antes de seguir, um aviso: nos próximos minutos vamos falar de violência e de celebração da violência.

    Lia: O ataque terrorista do Hamas a Israel foi o maior massacre de judeus desde o Holocausto. E, em boa parte das redes, ele não gerou solidariedade.

    Davi: Gerou o contrário. Pesquisas no Reino Unido e na França mostraram que, na primeira semana, parte relevante do conteúdo analisado celebrava abertamente a violência contra civis israelenses.

    Lia: E os números?

    Davi: A CyberWell mediu posts com alta probabilidade de antissemitismo nos 25 dias após o ataque. A alta foi de 86%.

    Lia: O Institute for Strategic Dialogue analisou comentários em vídeos do YouTube sobre o conflito. O volume de comentários antissemitas ficou mais de cinquenta vezes maior.

    Davi: E, entre esses comentários, 12% eram apelos diretos à violência.

    Lia: E no Brasil?

    Davi: A CONIB e a FISESP registraram 1.788 denúncias de antissemitismo em 2024. Isso é uma alta de 350% em relação a 2022.

    Lia: E 73% desses casos aconteceram no ambiente digital.

    Davi: Com o X em primeiro lugar, com 402 ocorrências, seguido do Instagram, com 314.

    Lia: Um cuidado importante: são denúncias recebidas, não todo o conteúdo que circula. O número real tende a ser maior.

    Davi: E por que o ódio se espalha tão rápido?

    Lia: Porque os algoritmos premiam o engajamento, e o ódio engaja. As redes não apenas hospedam esse conteúdo: muitas vezes o multiplicam.

    Davi: Segundo o CCDH e a NewsGuard, 74% das alegações falsas e antissemitas mais virais sobre o conflito no X vieram de contas com selo azul pago.

    Lia: E até a resposta que desmente um post inflamatório aumenta o alcance dele. Guarde essa ideia, porque ela vai voltar no final.

    Davi: Terceiro bloco: uma palavra que virou arma.

    Lia: "Sionista". O ouvinte pode perguntar: chamar alguém de sionista é antissemitismo?

    Davi: Depende do uso. O sionismo é o movimento nacional do povo judeu, a busca judaica por autodeterminação em uma terra própria, Israel.

    Lia: E ser sionista não significa apoiar todo governo israelense.

    Davi: O problema é o salto. Em fandoms e listas de artistas, "sionista" virou insulto genérico, às vezes "rato sionista". Aí a palavra só troca o rótulo do velho preconceito.

    Lia: E como a maioria dos judeus se identifica de algum modo com Israel, o insulto atinge, na prática, a maioria dos judeus.

    Davi: Há um teste simples. Troque "sionista" por "judeu". Se a frase vira preconceito clássico, ela já era antissemita.

    Lia: Por exemplo: "os sionistas controlam a mídia". Troque a palavra, e o que sobra é o mito dos Protocolos.

    Davi: A JJO adota a definição de trabalho de antissemitismo da IHRA, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto.

    Lia: Por esse critério, criticar o governo de Israel como se critica qualquer outro país não é antissemitismo. A própria IHRA diz isso.

    Davi: Mas negar o direito de Israel existir é antissemitismo. Culpar todos os judeus pelas ações do Estado também é. E comparar a política israelense ao nazismo também.

    Lia: Natan Sharansky criou um teste rápido, o dos três D: demonização, duplo padrão e deslegitimação.

    Davi: E há uma frase que muita gente ouve: "você é pago por Israel". Feita sem prova contra judeus, ela pode resvalar na acusação de dupla lealdade, que a IHRA lista como antissemitismo.

    Lia: Quarto bloco: o campus. A universidade deveria ser o lugar do debate.

    Davi: Um novo aviso: neste trecho vamos falar de intimidação e de ameaças.

    Lia: Desde novembro de 2023, a imprensa noticiou ao menos cinco episódios em universidades brasileiras ligados à hostilidade contra judeus ou contra quem é identificado com Israel.

    Davi: Na USP, em novembro de 2023, a Reitoria abriu processo disciplinar contra estudantes. As acusações eram antissemitismo, discurso de ódio e apologia ao terrorismo.

    Lia: Na PUC-Rio, segundo reportagem, professores impediram estudantes judeus de falar em um debate sobre Hamas e Israel.

    Davi: Na UECE, uma questão de vestibular foi anulada depois da reação da Conib e do estudioso do antissemitismo Matheus Alexandre.

    Lia: E palestras de André Lajst, presidente da StandWithUs Brasil, foram interrompidas por manifestantes. Houve gritos de "não se escuta genocida" e, em um caso, ameaças que teriam exigido escolta.

    Davi: Israel rejeita essa acusação. O país combate o Hamas, um grupo terrorista que iniciou a guerra e usa civis como escudo. E transformar a acusação em motivo para calar um palestrante judeu já não é debate. É intimidação.

    Lia: Vale um cuidado: abrir um processo não prova a infração, e reportagem não é decisão oficial. Mas o padrão preocupa: estudantes e palestrantes judeus silenciados em espaços de debate.

    Davi: E o que diz a lei?

    Lia: A Lei nº 7.716, de 1989, pune a discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Ela trata expressamente das instituições de ensino.

    Davi: E, no caso Ellwanger, em 2003, o Supremo Tribunal Federal reconheceu que a discriminação contra judeus pode ser racismo. E racismo, pela Constituição, é inafiançável e imprescritível.

    Lia: O estudante judeu tem direito a estudar, falar e circular no campus sem ser discriminado nem ameaçado. Inclusive o direito de defender Israel em um debate.

    Davi: A liberdade acadêmica protege a crítica a governos e ideologias. Mas não dá imunidade para ameaça, exclusão de judeus, propaganda nazista ou interrupção de eventos pela intimidação.

    Lia: E, para ser justo, o processo disciplinar também tem regras para qualquer acusado: contraditório, ampla defesa e direito de recurso. Isso torna a decisão final mais sólida.

    Davi: Quinto e último bloco: como responder.

    Lia: Primeiro, avalie o risco. Se houver ameaça, incitação ou exposição de dados pessoais, não responda.

    Davi: Guarde as provas antes que o post seja apagado: captura de tela, link, nome de usuário, data e horário. Não edite nada.

    Lia: Depois, denuncie na própria plataforma, na categoria mais específica. Encaminhe à CONIB e ao Departamento de Segurança Comunitária da FISESP, que fazem triagem e podem dar encaminhamento jurídico.

    Davi: Também dá para denunciar à SaferNet, em denuncie.org.br, inclusive de forma anônima. E, se houver ameaça, Polícia Civil. Em perigo imediato, emergência policial.

    Lia: Na universidade, o caminho é parecido: documentar e registrar na ouvidoria, na corregedoria ou na comissão de direitos humanos. E pedir medidas de proteção, se for o caso.

    Davi: Lia, e se a pessoa quiser responder ao comentário?

    Lia: Responda só quando houver benefício para quem está lendo e nenhum risco para você. Diante de trolls e contas coordenadas, o melhor é o silêncio estratégico: denunciar e bloquear.

    Davi: E, quando valer a pena, escreva para a audiência, não para o agressor. O objetivo não é convencer o autor. É mostrar aos leitores silenciosos que o preconceito não é aceito.

    Lia: Há uma técnica chamada sanduíche da verdade. Você abre com o fato, mostra o truque da manipulação e reforça o fato. Sem repetir o insulto.

    Davi: E empatia funciona melhor que deboche. Um estudo publicado na revista PNAS em 2021 testou respostas a 1.350 usuários que tinham publicado conteúdo xenófobo.

    Lia: As respostas que pediam empatia reduziram novas postagens de ódio ao longo de quatro semanas. Humor e alertas não tiveram efeito consistente.

    Davi: Também dá para agir antes. É o prebunking: vídeos curtos que explicam as táticas de manipulação com antecedência.

    Lia: Pesquisas do laboratório PERIL mostraram que, com esses vídeos, 72% dos usuários identificaram manipulações antissemitas que nunca tinham visto.

    Davi: E lembra do aviso sobre alcance? Não compartilhe o post para criticá-lo, não marque o autor e não use a hashtag do ataque.

    Lia: E um cuidado final: nunca generalizar palestinos, árabes ou muçulmanos. O alvo é o discurso, não um povo.

    Davi: A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.

    Lia: Vamos às três ideias-chave deste episódio.

    Davi: Primeira: o antissemitismo nas redes e no campus são mitos antigos em formato novo. Controle oculto, libelo de sangue e culpa coletiva, agora com códigos, memes e a palavra "sionista" no lugar de "judeu".

    Lia: Segunda: criticar um governo é parte do debate. Negar o direito de Israel existir, culpar judeus pelo Estado ou calar estudantes judeus é antissemitismo. E discriminar por ser judeu é crime no Brasil.

    Davi: Terceira: responder bem é guardar provas, denunciar, não amplificar e, quando vale a pena, falar com calma para quem está lendo.

    Lia: E assim fechamos a série. Atravessamos séculos e vimos o mesmo ódio mudar de rosto: da acusação religiosa ao mito racial, do mito racial ao alvo Israel, e agora à tela do celular.

    Davi: O formato muda, mas o mecanismo é o mesmo: transformar judeus em culpados por tudo. E, depois de 7 de outubro, esse ódio voltou a crescer no mundo e aqui no Brasil.

    Lia: Reconhecer o padrão é o primeiro passo para quebrá-lo. Cada denúncia bem feita, cada aula, cada resposta calma ajuda a mostrar que esse preconceito não tem lugar entre nós.

    Davi: Obrigado por nos acompanhar até aqui.

    Lia: Esta foi a série "Antissemitismo através dos séculos", da Juventude Judaica Organizada. Até a próxima.

Sinagoga Kahal Zur Israel, em Recife, Pernambuco
5 episódios · 70 min

Os judeus no Brasil

Cinco séculos de presença judaica no Brasil: cristãos-novos, Recife, Amazônia, imigração, Era Vargas e a comunidade de hoje.

Para jovens, professores e famílias.
  1. Episódio 1 · Cristãos-novos e a Inquisição no Brasil colonial15 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá, eu sou a Lia, e este é "Os judeus no Brasil", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Em cinco episódios, vamos percorrer mais de quinhentos anos de presença judaica neste país: os cristãos-novos da colônia, a comunidade do Recife holandês, os judeus marroquinos da Amazônia, as colônias agrícolas gaúchas, a imigração urbana do século vinte e a comunidade que vive aqui hoje.

    Davi: E eu sou o Davi. Hoje começamos pelo começo: "Cristãos-novos e a Inquisição no Brasil colonial".

    Lia: É uma história que começa em Portugal, atravessa o oceano e chega aos engenhos de açúcar, às casas e às cozinhas da colônia.

    Davi: Antes de tudo, um aviso. Em alguns momentos vamos falar de prisões, tortura e execuções. Vamos avisar de novo antes desses trechos.

    Lia: Então vamos à primeira pergunta, aquela que muita gente faz logo de cara: o que é um cristão-novo?

    Davi: Cristãos-novos eram judeus batizados à força em Portugal, e também os descendentes deles.

    Lia: Como isso aconteceu?

    Davi: Em 1496, o rei D. Manuel I mandou expulsar os judeus que não aceitassem o batismo.

    Lia: E no ano seguinte, em 1497, a política mudou de figura.

    Davi: Virou batismo compulsório em massa. Muitos judeus foram impedidos de deixar Portugal e passaram a ser, oficialmente, cristãos.

    Lia: Imagine a cena. Uma família judia arruma as malas para ir embora e descobre que não pode sair. De um dia para o outro, é declarada católica.

    Davi: E ganha um rótulo: "cristão-novo", ou "gente da Nação". O termo servia para separá-los dos chamados cristãos-velhos.

    Lia: Mas, Davi, se essas pessoas agora eram católicas, por que continuavam sendo tratadas como diferentes?

    Davi: Porque a discriminação foi além da religião. Existiam os estatutos de pureza de sangue, que surgiram em Toledo, em 1445.

    Lia: Eles se espalharam por ordens militares, universidades e instituições públicas.

    Davi: Esses estatutos tratavam a origem judaica como uma "mácula" hereditária. E barravam os cristãos-novos de cargos e honrarias.

    Lia: Ou seja: a suspeita passava de pais para filhos. Mesmo quem era católico sincero carregava a marca.

    Davi: E isso durou muito tempo. A distinção legal entre cristãos-novos e cristãos-velhos só foi abolida no Império Português em 1773, sob o governo do Marquês de Pombal.

    Lia: Guarde essa ideia, porque ela vai voltar no final: a origem judaica tratada como uma mancha no sangue.

    Davi: Agora vamos atravessar o Atlântico. Os cristãos-novos estiveram no Brasil desde o início da colonização.

    Lia: Muitos vieram direto de Portugal. Outros passaram antes por Açores, Madeira, África, Espanha e Países Baixos.

    Davi: E por que vir para cá?

    Lia: A colônia oferecia oportunidades de negócio e ficava longe dos tribunais de Lisboa.

    Davi: Em Pernambuco, as pesquisas mostram cristãos-novos entre senhores de engenho, lavradores, mercadores e contratadores.

    Lia: Aqui vale um cuidado. A participação deles no açúcar foi relevante, mas variada. A ideia de que dominavam a economia como grupo é uma generalização sem prova.

    Davi: É importante dizer isso com clareza, porque esse tipo de generalização sobre judeus e dinheiro é um velho estereótipo antissemita.

    Lia: Muito bem. Os cristãos-novos estão na colônia. E a Inquisição, chegou aqui também?

    Davi: Chegou, mas de um jeito curioso. O Brasil nunca teve um tribunal inquisitorial permanente.

    Lia: Diferente do México, do Peru e de Goa, que tiveram.

    Davi: O Brasil ficava sob a jurisdição direta do Tribunal da Inquisição de Lisboa. E agia aqui de duas formas.

    Lia: A primeira eram as visitações. Inspeções enviadas de Lisboa.

    Davi: Quando chegava uma visitação, os moradores eram convocados a confessar suas culpas e a denunciar desvios da fé católica.

    Lia: E quem não colaborasse corria o risco de ser excomungado.

    Davi: Foram quatro visitações oficiais. A primeira, de 1591 a 1595, passou pela Bahia, por Pernambuco, Itamaracá e Paraíba.

    Lia: O inquisidor era Heitor Furtado de Mendonça.

    Davi: A segunda foi a Salvador e ao Recôncavo Baiano, a partir de 1618, com o inquisidor Marcos Teixeira.

    Lia: A terceira, entre 1627 e 1628, foi às Capitanias do Sul: Rio de Janeiro, São Vicente e Espírito Santo.

    Davi: E a quarta, bem mais tarde, foi ao Estado do Grão-Pará e Maranhão, entre 1763 e 1769.

    Lia: As duas primeiras aconteceram durante a União Ibérica, quando Portugal e Espanha estavam sob o mesmo rei.

    Davi: Nesse período, a vigilância inquisitorial no Atlântico português ficou mais intensa.

    Lia: E por quê?

    Davi: Os historiadores discordam sobre o motivo principal. Uma corrente destaca a vigilância sobre áreas prósperas, com muitos cristãos-novos. Outra destaca a expansão da própria instituição e a política da monarquia filipina.

    Lia: E entre uma visitação e outra? A colônia ficava tranquila?

    Davi: Não. Essa é a segunda forma de atuação: uma rede permanente de vigilância.

    Lia: Os bispos faziam devassas e publicavam editais de fé. Havia os comissários da Inquisição.

    Davi: E havia os familiares do Santo Ofício. Eram leigos, cristãos-velhos de prestígio, habilitados para colher denúncias e vigiar suspeitos.

    Lia: Pense no que isso significa no dia a dia. O vizinho, o comerciante da esquina, alguém respeitado na vila, podia ser os olhos do tribunal.

    Davi: Agora, um aviso: o trecho a seguir fala de prisão, tortura e pena de morte.

    Lia: Quando o tribunal abria um processo, emitia uma ordem de prisão e mandava sequestrar os bens do acusado.

    Davi: O preso seguia de navio para Lisboa, para os cárceres da Inquisição no Palácio dos Estaus.

    Lia: Ali era interrogado. E podia ser torturado para confessar e para delatar cúmplices.

    Davi: As sentenças eram lidas em cerimônias públicas, os autos de fé.

    Lia: As penas variavam. Havia abjuração, orações, multas e pagamento de custas.

    Davi: Havia prisão e o uso do hábito penitencial, o sambenito. Havia confisco de bens e degredo para outras regiões do Império.

    Lia: E havia a pena mais grave, com um nome que esconde o horror: "relaxamento ao braço secular".

    Davi: Era a entrega do réu à justiça civil para a morte na fogueira. Aplicada a quem o tribunal declarava "impenitente" ou "relapso".

    Lia: Formalmente, quem executava era o poder civil.

    Davi: Mas isso não diminui a responsabilidade da Inquisição. Era ela quem dava a condenação.

    Lia: Saindo agora desse trecho mais duro, vamos ao mapa. Onde os cristãos-novos foram perseguidos no Brasil?

    Davi: Em quase toda a colônia. E a perseguição seguiu o caminho da riqueza: primeiro o Nordeste do açúcar, depois o Rio de Janeiro e as Minas do ouro.

    Lia: Na Bahia, Salvador e o Recôncavo produziram denúncias durante todo o período colonial.

    Davi: Só entre 1721 e 1730, cinquenta e seis réus baianos foram enviados a Lisboa.

    Lia: Em Pernambuco, durante o domínio holandês, vários cristãos-novos professaram abertamente o judaísmo no Recife.

    Davi: É o tema do nosso próximo episódio. Mas, depois da reconquista portuguesa, em 1654, os que ficaram foram alvo de devassas.

    Lia: Na Paraíba, os editais de fé de 1725 e 1727 provocaram uma onda de delações.

    Davi: E, entre 1728 e 1733, mais de cinquenta cristãos-novos paraibanos foram levados aos cárceres de Lisboa.

    Lia: O Rio de Janeiro foi o principal centro de prisões na primeira metade do século dezoito.

    Davi: Entre 1701 e 1720, mais de duzentos e sessenta presos fluminenses foram mandados para Lisboa.

    Lia: E em Minas Gerais, famílias de mercadores e mineradores foram presas e tiveram os bens confiscados.

    Davi: Para ter uma ideia do conjunto: a historiadora Anita Novinsky mapeou mil e setenta e seis processos com réus do Brasil colonial.

    Lia: Desses, quinhentos e quarenta e quatro, mais da metade, tiveram como motivo a acusação de "heresia judaica".

    Davi: Agora, Lia, uma pergunta que muita gente faz: como alguém mantinha o judaísmo vivo sem sinagoga, sem rabino, escondido?

    Lia: Dentro de casa. E aqui as mulheres tiveram um papel central.

    Davi: Mães e outras mulheres ensinavam orações e preparavam as comidas das festas.

    Lia: E justamente por isso muitas foram denunciadas e processadas.

    Davi: O mais impressionante é ver como a Inquisição transformava gestos domésticos em "provas" de judaísmo.

    Lia: Trocar a roupa de cama na sexta-feira. Vestir camisa limpa no sábado. Acender candeeiros ao anoitecer de sexta e não trabalhar nesse dia.

    Davi: Quem conhece a tradição judaica reconhece aí o Shabat.

    Lia: Na alimentação: não comer carne de porco nem peixe sem escamas, e degolar aves retirando todo o sangue.

    Davi: Os jejuns: o do "Dia Grande", que é o Yom Kippur, e o Jejum de Ester.

    Lia: E o luto: despejar a água dos potes da casa após uma morte, rasgar roupas, cobrir espelhos.

    Davi: Uma vela acesa na sexta-feira podia levar uma família inteira à prisão.

    Lia: Dois casos ficaram conhecidos. Em Pernambuco, os autos apontam encontros de oração no engenho de Camaragibe, do casal Diogo Fernandes e Branca Dias.

    Davi: Na Bahia, apontam encontros no engenho de Matoim, de Heitor Antunes e Ana Rodrigues.

    Lia: Vamos então conhecer algumas pessoas. Novo aviso: este trecho também menciona execuções.

    Davi: O caso mais famoso é o de Antônio José da Silva, conhecido como "o Judeu".

    Lia: Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 1705, numa família cristã-nova. Foi advogado e dramaturgo.

    Davi: Escreveu peças musicais de grande sucesso, como "Guerras do Alecrim e Manjerona".

    Lia: E também "Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança".

    Davi: Foi preso em 1737, acusado de judaísmo. E executado em auto de fé em Lisboa, em 1739.

    Lia: Um artista que fazia o público rir terminou na fogueira por causa da origem da família.

    Davi: Outro nome é Bento Teixeira, poeta, autor da "Prosopopeia". Foi preso na primeira visitação e mandado aos cárceres de Lisboa em 1595.

    Lia: Isaac de Castro Tartas era um jovem erudito que veio do Recife holandês.

    Davi: Foi preso em Salvador em 1644 e queimado no auto de fé de Lisboa em 1647.

    Lia: E há a família Calaça. A prisão do comerciante João Rodrigues Calaça, no Rio, em 1711, levou ao processo de dezenas de parentes.

    Davi: Os processos originais estão guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

    Lia: Esse caso da família Calaça mostra como o sistema funcionava.

    Davi: Para escapar da fogueira, o réu precisava confessar os "erros de judaísmo" e denunciar cúmplices, em geral da própria família.

    Lia: O sistema era secreto e escondia o nome das testemunhas. Os depoimentos eram tomados sob prisão, ameaça ou tortura.

    Davi: E assim as prisões se multiplicavam.

    Lia: Já no século dezessete, o Padre António Vieira e um manuscrito anônimo acusavam o tribunal de funcionar como uma "fábrica de judeus".

    Davi: Então, Lia, todo cristão-novo era um judeu secreto?

    Lia: Não. Alguns praticavam o judaísmo em segredo. Outros eram católicos sinceros. E muitos tinham identidades mistas.

    Davi: A acusação da Inquisição não prova a prática. Os historiadores separam quatro coisas: ascendência judaica, identidade social, prática religiosa e acusação inquisitorial.

    Lia: E os descendentes hoje? Muita gente ouve dizer que tal sobrenome é "de cristão-novo".

    Davi: Ter um sobrenome associado a cristãos-novos não prova descendência.

    Lia: Para confirmar, é preciso uma linha genealógica contínua, com registros paroquiais, notariais, inquisitoriais e civis.

    Davi: E, mesmo comprovada, a descendência não define a religião ou a identidade de ninguém hoje.

    Lia: Há também um debate sobre quanto do judaísmo secreto sobreviveu no Brasil.

    Davi: Alguns estudos identificam costumes e memórias familiares. Outros alertam que semelhanças culturais podem ter outras origens.

    Lia: Chegamos ao fim. Vamos às três ideias-chave deste episódio.

    Davi: Primeira: os cristãos-novos eram judeus batizados à força em Portugal, e seus descendentes. Eles estão no Brasil desde o início da colonização.

    Lia: Segunda: sem tribunal fixo, a Inquisição agiu aqui por meio de visitações e de uma rede de vigilância. Prendeu, confiscou bens, mandou pessoas a Lisboa e levou algumas à morte, como Antônio José da Silva.

    Davi: Terceira: a lógica da "pureza de sangue" fazia da origem judaica uma marca hereditária. Era antissemitismo, que perseguia pessoas pelo que eram, e não pelo que faziam.

    Lia: Entender isso ajuda a entender por que a JJO combate o antissemitismo, sem ódio a nenhum povo ou religião.

    Davi: No próximo episódio: "Recife, a primeira sinagoga das Américas, e os judeus da Amazônia".

    Lia: Vamos conhecer o tempo em que a vida judaica pôde, enfim, sair das sombras. Até lá.

  2. Episódio 2 · Recife, a primeira sinagoga das Américas, e os judeus da Amazônia13 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Eu sou a Lia, e este é "Os judeus no Brasil", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO.

    Davi: E eu sou o Davi. São cinco episódios, e este é o segundo: "Recife, a primeira sinagoga das Américas, e os judeus da Amazônia".

    Lia: No episódio anterior, falamos dos cristãos-novos, judeus convertidos à força em Portugal em 1497, que chegaram com a própria colonização.

    Davi: E vimos que o Brasil nunca teve um tribunal permanente da Inquisição. Mas recebeu visitações, com denúncias, prisões e confisco de bens. Viver o judaísmo em público era impossível.

    Lia: Hoje a história muda de tom. Vamos visitar dois lugares onde a vida judaica pôde, enfim, acontecer às claras. Primeiro, o Recife do século dezessete. Depois, os rios da Amazônia, dois séculos mais tarde.

    Davi: Então vamos começar pelo Recife. Lia, por que justamente ali?

    Lia: Por causa de uma troca de bandeira. Entre 1630 e 1654, o Nordeste esteve sob domínio holandês.

    Davi: E o que isso mudava para os judeus?

    Lia: Muita coisa. Sob a administração de Maurício de Nassau, havia uma liberdade religiosa que não existia na América portuguesa.

    Davi: Quem eram esses judeus?

    Lia: Eram sefarditas, em grande parte da comunidade portuguesa de Amsterdã. Muitos atuavam no comércio do açúcar.

    Davi: Imagine a cena: uma rua de comércio, perto do porto, onde famílias judias podiam se reunir para rezar sem esconder nada. Essa rua era conhecida como Rua dos Judeus.

    Lia: Hoje ela se chama Rua do Bom Jesus. Ali, em 1636 ou 1637, foi fundada a congregação Kahal Zur Israel.

    Davi: O nome significa "Sagrada Comunidade Rochedo de Israel". E ela é apresentada como a primeira sinagoga formal das Américas.

    Lia: A Fundação Joaquim Nabuco a reconhece como a primeira sinagoga institucional conhecida do continente.

    Davi: Uma comunidade dessas precisava de um líder religioso. Ele veio de longe?

    Lia: Veio de Amsterdã. Em 1642 chegou o rabino Isaac Aboab da Fonseca, o primeiro rabino formalmente empossado nas Américas.

    Davi: E ele não era só um líder religioso. Em 1646, escreveu um poema considerado o primeiro texto em hebraico das Américas.

    Lia: É bonito pensar nisso. O hebraico, a língua da Torá e da terra de Israel, sendo escrito pela primeira vez deste lado do oceano, no Recife.

    Davi: A comunidade também crescia. Havia uma segunda congregação na vizinha Maurícia, chamada Kahal Kadosh Magen Abraham.

    Lia: Em 1648, as duas se uniram. A união reuniu mais de 170 assinaturas de membros.

    Davi: E a comunidade mantinha ainda um cemitério próprio. Sinagoga, rabino, cemitério: era uma vida judaica completa.

    Lia: Só que ela durou pouco. E esse é o nosso segundo bloco.

    Davi: Em 1654, os portugueses retomaram o Recife. Lia, os judeus foram expulsos do Brasil?

    Lia: Essa é uma pergunta comum, e a resposta pede cuidado. O general Francisco Barreto de Meneses deu três meses para que os judeus partissem.

    Davi: Isso atingiu a comunidade organizada do Recife. A maioria foi para a Europa ou para o Caribe.

    Lia: E um grupo de 23 judeus chegou a Nova Amsterdã, a futura Nova York.

    Davi: Ali eles formaram a primeira comunidade judaica da América do Norte.

    Lia: Pense nisso, ouvinte. A comunidade judaica de Nova York tem uma raiz que passa pelo Recife.

    Davi: Mas atenção: nem todos os judeus deixaram o Brasil. Os cristãos-novos continuaram vivendo aqui, como antes, sem poder praticar o judaísmo abertamente.

    Lia: E a sinagoga? O que aconteceu com o prédio?

    Davi: Com a partida da comunidade, o edifício foi fechado. E, ao longo dos séculos, foi sendo alterado.

    Lia: Vamos ao terceiro bloco: como esse lugar voltou à vida.

    Davi: Entre 1999 e 2000, foram feitas escavações arqueológicas na Rua do Bom Jesus. Quem coordenou foi o arqueólogo Marcos Albuquerque, da Universidade Federal de Pernambuco.

    Lia: A equipe escavou o subsolo dos números 197 e 203 da rua. E as escavações permitiram identificar a sinagoga.

    Davi: O que eles encontraram?

    Lia: As fundações originais. E também a mikvê.

    Davi: Explica para quem não conhece.

    Lia: A mikvê é a piscina de banho ritual judaico. É um elemento central da vida religiosa de uma comunidade.

    Davi: Um detalhe importante: o prédio que vemos hoje é fruto de reconstrução e adaptação.

    Lia: Ou seja, o valor histórico está no local e nas estruturas originais encontradas no subsolo. Elas ficam visíveis ao visitante, sob o piso.

    Davi: Depois do restauro, o espaço foi reaberto ao público. A Fundação Joaquim Nabuco registra a reabertura em dezembro de 2001.

    Lia: Hoje ali funciona o Centro Cultural Judaico de Pernambuco, também chamado Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco. Há uma exposição sobre a presença judaica no Brasil.

    Davi: E dá para visitar?

    Lia: Dá. A Prefeitura do Recife incluiu a sinagoga no roteiro Recife Sagrado. Mas os horários mudam, então vale confirmar antes com o Arquivo Histórico.

    Davi: Agora vamos dar um salto no tempo e no mapa. Saímos do Recife e chegamos à Amazônia, no século dezenove.

    Lia: Quarto bloco: os judeus marroquinos.

    Davi: Marroquinos? Como judeus do Marrocos foram parar na floresta?

    Lia: A história começa ainda antes. Eles descendiam dos sefarditas expulsos da Espanha em 1492 e de Portugal em 1497.

    Davi: Eram chamados de megorashim, os exilados. Durante séculos, viveram em cidades marroquinas como Tânger, Tetuan, Fez, Rabat, Marraquexe e Casablanca.

    Lia: E como era a vida deles lá?

    Davi: No Marrocos, os judeus viviam na condição de dhimmi, súditos apenas tolerados. Moravam em bairros judaicos chamados mellahs.

    Lia: Um aviso para quem nos ouve: o próximo trecho menciona doenças e perseguições.

    Davi: A partir do fim do século dezoito, várias pressões se somaram. Os mellahs ficaram superlotados. Vieram crises econômicas e epidemias de cólera. E houve perseguições pontuais.

    Lia: Muitas famílias decidiram buscar liberdade religiosa e oportunidades do outro lado do Atlântico.

    Davi: E por que o Brasil?

    Lia: Porque o Brasil abria as portas. Em 1810, D. João Sexto assinou o Tratado de Navegação e Comércio, e as discriminações reais foram formalmente abolidas.

    Davi: Em 1822, veio a Independência. E em 1824, a Constituição garantiu a liberdade de culto privado.

    Lia: A economia também atraía. Primeiro, o cacau e as especiarias. Depois, o ciclo da borracha, o "ouro negro".

    Davi: Teve um primeiro nome registrado nessa chegada?

    Lia: Teve. Em 1823, o comerciante José Benjó tornou-se o primeiro judeu a pedir e obter formalmente a cidadania brasileira e uma licença comercial no Pará.

    Davi: A loja dele ficava na Rua do Pelourinho, em Belém. E o pedido está guardado até hoje no Arquivo Nacional.

    Lia: Depois dele vieram muitos outros, em duas grandes levas. Entre 1810 e 1850, cerca de 300 famílias seguiram para o Grão-Pará.

    Davi: A segunda leva foi maior. Entre 1850 e 1910, no auge da borracha, chegaram mais de mil famílias.

    Lia: Isso depois que D. Pedro Segundo abriu o Rio Amazonas à navegação internacional, em 1866.

    Davi: Eles se espalharam por Pará, Amazonas, Acre, Rondônia e Amapá. Por cidades como Santarém, Óbidos, Parintins, Itacoatiara, Macapá e Porto Velho.

    Lia: E formaram a mais antiga comunidade judaica de presença contínua no Brasil depois da Independência.

    Davi: Quinto bloco: como era essa vida na Amazônia?

    Lia: Os historiadores chamam essa sociedade de judeus-caboclos. Eles viviam como os ribeirinhos: moravam em palafitas, dormiam em redes e navegavam pelos igarapés.

    Davi: E trabalhavam com quê?

    Lia: Muitos eram regatões, os comerciantes dos rios. Percorriam as águas em barcos ou gaiolas, levando tecidos, ferramentas, alimentos e remédios aos seringueiros.

    Davi: Em troca, recebiam borracha, castanha e óleos vegetais. Outros eram donos de bodegas, os armazéns de secos e molhados.

    Lia: E que língua se falava em casa?

    Davi: A hakitía. Um dialeto que mistura espanhol antigo, português, hebraico e árabe marroquino. Era usada em casa e no comércio entre membros da comunidade.

    Lia: E a vida religiosa, no meio da floresta?

    Davi: No interior, os rabinos raramente estavam presentes. Então os chefes de família atuavam como chazanim, os cantores da liturgia, e conduziam as rezas em casa.

    Lia: Até a cozinha se adaptou. Um exemplo é a maniçoba preparada segundo as leis dietéticas judaicas.

    Davi: E nas cidades surgiram as sinagogas. Em Belém nasceram as primeiras sinagogas do Brasil independente: a Essel Abraham e a Shaar Hashamaim.

    Lia: As datas de fundação variam conforme o registro, entre a década de 1820 e o fim dela. Em parte, porque uma coisa é a fundação da congregação, outra é a do prédio.

    Davi: No começo, a comunidade da Shaar Hashamaim rezava numa residência na Rua da Indústria.

    Lia: O templo atual, em estilo neomourisco e inspirado no Templo Maior de Florença, foi inaugurado em 1940. E segue ligado à comunidade local.

    Davi: Em 1842, a comunidade criou também o cemitério judaico de Soledade, em Belém.

    Lia: E Manaus?

    Davi: A comunidade de Manaus cresceu quando a economia da borracha entrou em colapso, na década de 1920.

    Lia: Entre 1920 e 1950, muitas famílias deixaram os seringais do interior e foram para as capitais.

    Davi: Em Manaus, ergueram a sinagoga Beth Yaacov, em 1928. Depois surgiu a Rebi Meyr, em 1945.

    Lia: Em 1962, as duas se unificaram, formando a Beth Yaacov Rebi Meyr.

    Davi: Manaus guarda ainda uma história especial: a do rabino Shalom Emanuel Muyal, que veio de Jerusalém.

    Lia: Ele morreu em Manaus em 1910. Seu túmulo, no Cemitério São João Batista, virou local de devoção popular para judeus e católicos.

    Davi: Por isso ele é conhecido como o "rabino santo".

    Lia: Um rabino de Jerusalém, cultuado às margens do Rio Negro. Esse fio liga a Amazônia à terra de Israel.

    Davi: E essa ligação aparece até no nome que a região ganhou: Eretz Amazônia, a "Terra Prometida" amazônica.

    Lia: É o título do livro clássico do professor Samuel Benchimol, de 1998.

    Davi: E houve outros nomes marcantes. O Major Eliezer Moysés Levy, prefeito de Macapá e de Afuá, fundou em 1918 o Kol Israel, a Voz de Israel.

    Lia: Foi o primeiro jornal judaico em português do Norte.

    Davi: E Isaac Benayon Sabbá, pioneiro da industrialização amazônica, fundou a Refinaria de Petróleo de Manaus, em 1957.

    Lia: Vamos fechar com três ideias-chave.

    Davi: Primeira: a Kahal Zur Israel, no Recife, é a primeira sinagoga das Américas. Quando houve liberdade religiosa, os judeus construíram uma vida comunitária completa, com rabino, cemitério e o primeiro texto em hebraico do continente.

    Lia: Segunda: a partida de 1654 não apagou essa história. Ela chegou a Nova Amsterdã, a futura Nova York, e o local da sinagoga foi identificado por escavações e reaberto como museu.

    Davi: Terceira: os judeus marroquinos da Amazônia formam a comunidade judaica mais antiga de presença contínua no Brasil independente. Eles se tornaram ribeirinhos sem deixar de ser judeus.

    Lia: E, nas duas histórias, uma lição: onde houve liberdade, a vida judaica floresceu e enriqueceu o Brasil.

    Davi: No próximo episódio, o terceiro, vamos falar da imigração: as colônias gaúchas, São Paulo e Rio.

    Lia: Até lá! Aqui é a Lia.

    Davi: E o Davi. Este foi "Os judeus no Brasil", da Juventude Judaica Organizada.

  3. Episódio 3 · A imigração: colônias gaúchas, São Paulo e Rio14 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Você está ouvindo "Os judeus no Brasil", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio 3 de 5: "A imigração: colônias gaúchas, São Paulo e Rio".

    Lia: No episódio anterior, fomos ao Recife holandês, onde nasceu a Kahal Zur Israel, considerada a primeira sinagoga das Américas. Depois subimos os rios da Amazônia com os judeus vindos do Marrocos.

    Davi: Hoje a viagem muda de rumo. Vamos do frio da Europa Oriental até o campo gaúcho. Depois seguimos para as ruas do Bom Retiro, em São Paulo, e da Praça Onze, no Rio.

    Lia: E começamos com uma pergunta que muita gente faz: por que famílias judaicas atravessariam o oceano para plantar milho no interior do Rio Grande do Sul?

    Davi: Para responder, precisamos voltar ao Império Russo no fim do século XIX. Um aviso antes: os próximos minutos falam de perseguição e violência contra judeus.

    Lia: Naquela época, os judeus do Império Russo viviam sob decretos que restringiam onde podiam morar e trabalhar. E sofriam pogroms, que eram ataques violentos contra suas casas, seus comércios e suas vidas.

    Davi: Diante disso, um filantropo judeu-alemão decidiu agir. Era o Barão Maurício de Hirsch. Em 1891, ele fundou em Londres a Jewish Colonization Association, conhecida pela sigla JCA.

    Lia: A ideia da JCA era financiar a emigração de famílias judaicas vulneráveis da Europa Oriental. Essas famílias iriam para colônias agrícolas nas Américas, onde poderiam recomeçar a vida com terra própria.

    Davi: A JCA já mantinha colônias na Argentina. Entre 1901 e 1903, seus representantes fizeram missões de exploração no Rio Grande do Sul.

    Lia: E o que o estado tinha de atraente?

    Davi: Duas vantagens. Primeiro, ficava perto das colônias argentinas. Segundo, o governo do Partido Republicano Rio-Grandense, de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, garantia tolerância religiosa.

    Lia: Em 31 de agosto de 1903, Borges de Medeiros aprovou os estatutos da JCA por decreto. O decreto também dava isenção de impostos territoriais por cinco anos.

    Davi: Foi o primeiro projeto organizado e sistemático de colonização agrícola judaica no Brasil. A partir daqui, a história ganha nome e endereço.

    Lia: Esse nome é Philippson, a primeira colônia judaica do Brasil. Ela foi fundada em 1904, a cerca de 25 quilômetros de Santa Maria.

    Davi: Hoje essa área faz parte do município de Itaara. O nome homenageia Franz Philippson, vice-presidente da JCA. Ele também presidia uma companhia de estradas de ferro no Brasil.

    Lia: Os primeiros grupos chegaram em agosto e em outubro daquele ano. A maioria das famílias vinha da Bessarábia.

    Davi: Quantas pessoas eram?

    Lia: Os registros falam em algo entre 37 e 40 famílias. Juntas, somavam mais de oitenta pessoas.

    Davi: Imagine a cena: famílias que vinham de pequenas cidades judaicas da Europa Oriental, os shtetls, chegando a um pedaço de mata no interior gaúcho.

    Lia: E elas reconstruíram ali uma vida comunitária parecida com a do shtetl. A colônia tinha sinagoga, cemitério e escola.

    Davi: Um detalhe bonito: na escola, as crianças estudavam em português. Era uma comunidade que guardava sua tradição e, ao mesmo tempo, se tornava brasileira.

    Lia: No campo, as famílias plantavam milho, feijão, trigo e batata. Também se destacaram no cultivo de um fumo de alta qualidade, chamado de "fumo turco" ou "amarelinho".

    Davi: E montaram uma leiteria cooperativa. Mas a vida era muito dura.

    Lia: A maioria dos imigrantes não tinha experiência agrícola. Derrubar a floresta virgem era um trabalho exaustivo. Vieram secas prolongadas. E as cidades próximas ofereciam outras oportunidades.

    Davi: Por isso, a partir de 1909, a maioria das famílias deixou os lotes. Uma parte foi para Santa Maria e Porto Alegre. Outra parte seguiu para uma nova colônia da JCA.

    Lia: E a memória de Philippson sobreviveu?

    Davi: Sobreviveu, principalmente nos livros. Frida Alexandr escreveu "Filipson: memórias da primeira colônia judaica no Rio Grande do Sul".

    Lia: Há também memórias de Guilherme Soibelman e de Arão Verba. E de Jacques Schweidson, autor de um título que diz muito: "Judeus de bombachas e chimarrão".

    Davi: Vamos então para a nova colônia: Quatro Irmãos, no norte gaúcho, perto de Passo Fundo, Erechim e Erebango.

    Lia: Em 1909, a JCA comprou cerca de 93 mil hectares de terra ali. Foi a maior colônia judaica do estado.

    Davi: As primeiras famílias se instalaram entre 1911 e 1912. Vinham da Rússia, da Polônia e da Lituânia. Algumas vinham também das colônias da JCA na Argentina.

    Lia: A colônia se dividia em núcleos, e os nomes contam a história: Barão Hirsch, Baronesa Clara, Rio Padre e Pampa.

    Davi: A JCA construiu um ramal ferroviário privado. Ele levava madeira e grãos até a linha tronco que ligava o Rio de Janeiro a Montevidéu.

    Lia: E foi em Quatro Irmãos que funcionou o Hospital Leonardo Cohen, o primeiro hospital israelita do Brasil.

    Davi: Mas a colônia enfrentou uma crise atrás da outra. Primeiro, a Primeira Guerra Mundial. Depois, a Revolução de 1923, quando rebeldes invadiram a colônia.

    Lia: Em seguida, a Revolução de 1930 e a Grande Depressão. Nas décadas de 1920 e 1930, a maioria das famílias se mudou para as cidades.

    Davi: Quatro Irmãos, então, desapareceu?

    Lia: Não. Hoje o município tem o título oficial de Capital Nacional da Imigração Judaica. E faz parte do Polo de Turismo Judaico do Alto Uruguai.

    Davi: Agora, a pergunta seguinte: para onde foram essas famílias? Sobretudo para Porto Alegre.

    Lia: A comunidade de Porto Alegre nasceu de duas correntes. Uma veio das colônias. A outra foi formada por novos imigrantes europeus, chegados depois da Primeira Guerra Mundial.

    Davi: Um marco: em 1915, Joseph Halevi, que tinha vivido em Quatro Irmãos, lançou em Porto Alegre o jornal "Di Mentsch'hait", que quer dizer "A Humanidade".

    Lia: Foi o primeiro periódico em iídiche publicado no Brasil. É uma ponte perfeita entre o campo e a cidade, entre a Europa Oriental e o Sul do Brasil.

    Davi: Em 1931 surgiu a Associação dos Israelitas Poloneses, uma entidade de auxílio mútuo. A cidade organizou sinagogas, como a da Sociedade Israelita, e escolas.

    Lia: E criou a Federação Israelita do Estado do Rio Grande do Sul, a FIRS. Em 1985 nasceu o Instituto Cultural Judaico Marc Chagall.

    Davi: Esse instituto reúne um dos maiores acervos de história oral sobre a imigração judaica no Sul. E trabalha em cooperação com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

    Lia: Das colônias gaúchas vieram nomes conhecidos. O escritor Moacyr Scliar era filho de imigrantes que viveram em Quatro Irmãos.

    Davi: Maurício Sirotsky Sobrinho nasceu em Quatro Irmãos e fundou o Grupo RBS. E as famílias que fundaram os grupos Iochpe e Steinbruch também aparecem nos registros das colônias.

    Lia: Mas um cuidado aqui: sobrenome não define quem é judeu. Cada família tem sua própria origem.

    Davi: Agora subimos o mapa até São Paulo, onde está hoje a maior comunidade judaica do Brasil.

    Lia: O estado de São Paulo tem cerca de 50 mil judeus. Isso é metade da população judaica do país.

    Davi: E cerca de 44 mil deles vivem na capital. Mas tudo começou num bairro específico: o Bom Retiro.

    Lia: No início do século XX, chegavam ao Bom Retiro imigrantes da Rússia, da Polônia, da Romênia, da Lituânia, da Hungria e da Alemanha.

    Davi: E também vinham judeus do Oriente Médio: da Síria, do Líbano, do Egito e da Turquia. O bairro virou um encontro de sotaques.

    Lia: Em 1908, na Rua Prates, foi fundada a Sociedade Religiosa Beit Hakenesset Adat Ischurum. É o início formal da organização comunitária paulistana.

    Davi: Em 1912, na Rua da Graça, nasceu a Kehilat Israel. Foi a primeira sinagoga oficialmente registrada na capital paulista.

    Lia: E esse prédio continua de pé?

    Davi: Continua. Desde 2016, ele abriga o Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto. O bairro guarda as primeiras sinagogas e a memória de quem as construiu.

    Lia: A comunidade paulistana também cuidou dos mais vulneráveis. Em 1915 nasceu a Sociedade Beneficente das Damas Israelitas, o marco zero do trabalho social comunitário na cidade.

    Davi: Com o tempo, várias entidades se juntaram. Em 1976, a Ofidas, a Ezra e a Policlínica Linath Hatzedek formaram a UNIBES.

    Lia: E em 1955 começou a criação do Hospital Israelita Albert Einstein.

    Davi: A vida religiosa também era plural. Em 1924, imigrantes sefaraditas do Império Otomano fundaram a Sinagoga Ohel Yaacov, conhecida como Sinagoga da Abolição.

    Lia: Em 1936, judeus alemães que fugiam do nazismo fundaram a Congregação Israelita Paulista, liderados pelo rabino Fritz Pinkuss.

    Davi: Ela se tornou a maior congregação judaica liberal da América Latina. Vamos voltar a esses refugiados no próximo episódio.

    Lia: Em 1959, judeus vindos do Egito fundaram a Congregação Mekor Haim, a primeira sinagoga de Higienópolis.

    Davi: E a memória ganhou casa própria. Em dezembro de 2021 abriu o Museu Judaico de São Paulo, no edifício restaurado do Templo Beth-El.

    Lia: Nosso último bloco é o Rio de Janeiro. Aqui a história começa mais cedo, depois da chegada da Família Real, em 1808.

    Davi: Lembra dos judeus marroquinos do episódio anterior? Alguns desceram do Norte do Brasil para o Rio por volta de 1840 ou 1850.

    Lia: Eles fundaram a União Shel Guemilut Hassadim, a primeira instituição religiosa judaica da cidade. Ela funciona sem interrupção até hoje.

    Davi: Em 28 de janeiro de 1873 nasceu a União Israelita do Brasil. Ela reunia imigrantes do Marrocos e da Alsácia-Lorena.

    Lia: Em 1916, o jornalista David José Pérez lançou "A Columna", registrado como o primeiro periódico judaico em português no Brasil.

    Davi: Repare na diferença: no Sul, o primeiro jornal foi em iídiche; no Rio, o primeiro em português. Duas formas de ser judeu e brasileiro.

    Lia: Na primeira metade do século XX, a Praça Onze e o centro da cidade viraram o coração da vida judaica carioca.

    Davi: Em 1932 foi inaugurado o Grande Templo Israelita, na Rua Tenente Possolo, sob a liderança do rabino Isaias Raffalovich.

    Lia: Foi a primeira edificação no Brasil projetada especificamente como sinagoga. O IPHAN tombou o prédio em 1987.

    Davi: Houve também escolas, como o Colégio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem, fundado em 1928. E comunidades em Niterói e em Nilópolis, na Baixada Fluminense.

    Lia: Em 1947 nasceu a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro. Hoje a comunidade carioca tem de 22 mil a 25 mil pessoas, segundo o IBGE.

    Davi: Ela vive sobretudo na Zona Sul, na Tijuca e na Barra da Tijuca.

    Lia: Vamos fechar com três ideias-chave.

    Davi: Primeira: essas famílias vieram fugindo da perseguição. Os decretos e os pogroms do Império Russo foram o empurrão; a JCA e a tolerância religiosa gaúcha abriram a porta.

    Lia: Segunda: o campo não deu certo para a maioria, mas a comunidade não se desfez. De Philippson e Quatro Irmãos nasceu a vida judaica de Porto Alegre, com jornal, escolas e sinagogas.

    Davi: Terceira: em São Paulo e no Rio, os imigrantes construíram sinagogas, hospitais, escolas e museus. Essa rede serve a toda a sociedade e guarda a memória de quem chegou.

    Lia: Lembrar essas famílias que fugiram dos pogroms faz parte do trabalho da JJO, que adota a definição de antissemitismo da IHRA e combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.

    Davi: No próximo episódio, o quarto da série: "Era Vargas, refugiados e os Justos brasileiros". Vamos falar de portas que se fecharam e de pessoas corajosas que as abriram.

    Lia: Até lá!

  4. Episódio 4 · Era Vargas, refugiados e os Justos brasileiros15 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Você está ouvindo "Os judeus no Brasil", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio quatro de cinco: "Era Vargas, refugiados e os Justos brasileiros".

    Lia: No episódio anterior, acompanhamos a imigração judaica para as colônias gaúchas, para São Paulo e para o Rio. Estima-se que mais de 50 mil judeus tenham chegado ao Brasil entre 1920 e o início da Segunda Guerra Mundial.

    Davi: Hoje a pergunta é outra. O que aconteceu quando a perseguição na Europa apertou e o governo brasileiro decidiu fechar a porta?

    Lia: Vamos contar em cinco partes: as ordens secretas, o caso de Olga Benário, as brechas por onde os refugiados passaram, os dois Justos brasileiros e quem chegou depois da guerra.

    Davi: Começamos no Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores. Em junho de 1937, sai dali uma ordem interna e confidencial.

    Lia: É a Circular Secreta número 1.127. Mário de Pimentel Brandão a expediu, e ela seguiu para consulados e embaixadas.

    Davi: E o que ela dizia?

    Lia: O item "c" mandava recusar visto a toda pessoa que se soubesse ser de "origem étnica semítica". Ou seja, judeus. Segundo a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP, a restrição valia até para turistas e negociantes.

    Davi: E por que uma ordem secreta, e não uma lei?

    Lia: Porque assim a política ficava fora do debate público e evitava desgaste internacional. Não houve uma lei pública proibindo a entrada de judeus. O mecanismo era burocrático, sigiloso e seletivo.

    Davi: E a linguagem dessa burocracia era pesada. Os judeus apareciam descritos como "inassimiláveis", "elementos subversivos" e praticantes de "concorrência parasitária".

    Lia: Essa ideia não surgiu do nada. Circulava no Brasil o mito do "complô judaico-comunista", que ligava os judeus à subversão.

    Davi: Em 1937, integralistas da Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado e Gustavo Barroso, forjaram um plano falso: o Plano Cohen.

    Lia: Ele simulava um plano comunista de tomada do poder e explorava o estereótipo do "judeu conspirador". Serviu de pretexto para o golpe do Estado Novo, em novembro daquele ano.

    Davi: O próprio Barroso espalhava propaganda antissemita em livros. Um deles era uma tradução comentada dos Protocolos dos Sábios de Sião, publicada em 1936.

    Lia: Depois da 1.127, vieram outras ordens. Em dezembro de 1940, a Circular Secreta 1.498, expedida por Oswaldo Aranha, reforçou as restrições.

    Davi: E essa linha continuou depois da guerra. Em 1948, a Circular Reservada 589 manteve as restrições.

    Lia: Maria Luiza Tucci Carneiro trouxe tudo isso a público no livro "O Anti-Semitismo na Era Vargas", de 1988. E deu à política o nome certo: antissemitismo de Estado.

    Davi: Não era uma legislação de extermínio como a alemã. Mas era discriminação antissemita oficial. E fechou uma rota de fuga para pessoas que o nazismo perseguia até a morte.

    Lia: E quantos pedidos de visto foram negados?

    Davi: As estimativas variam. O total de pedidos de judeus indeferidos vai de cerca de 9 mil a 16 mil.

    Lia: Agora, a segunda parte. Antes, um aviso: este trecho fala de prisão e de morte num campo nazista. Se você ouve com crianças, vale acompanhar junto.

    Davi: Um ano antes da circular, aconteceu um dos episódios mais graves da Era Vargas: o caso de Olga Benário.

    Lia: Quem era ela?

    Davi: Olga era uma comunista alemã de origem judaica. A Terceira Internacional, o Komintern, a enviou ao Brasil ao lado de Luís Carlos Prestes, com quem ela se casou.

    Lia: Os dois atuaram no período do Levante Comunista de novembro de 1935, que fracassou. Em março de 1936, a polícia política os prendeu no Rio de Janeiro.

    Davi: Em agosto de 1936, Getúlio Vargas assinou o decreto de expulsão. O texto chamava Olga de "nociva aos interesses nacionais" e "perigosa à ordem pública".

    Lia: E ela estava grávida.

    Davi: De sete meses. Em setembro de 1936, Olga foi entregue à Alemanha nazista. Participaram do caso o chefe de polícia Filinto Müller e o ministro da Justiça Francisco Campos.

    Lia: Em Berlim, o representante brasileiro, Moniz de Aragão, trocou informações, relatórios e fotografias com a Gestapo. O objetivo era garantir que ela fosse presa ao desembarcar.

    Davi: Na prisão de Barnimstrasse, em Berlim, Olga deu à luz a filha, Anita Leocádia Prestes. Depois de uma intensa campanha internacional, a avó paterna resgatou a criança.

    Lia: Olga passou pelos campos de Lichtenburg e Ravensbrück. Em 1942, foi assassinada na câmara de gás do centro de extermínio de Bernburg.

    Davi: Aqui o ouvinte pode perguntar: ela foi expulsa por ser judia?

    Lia: O motivo formal foi o anticomunismo, e a expulsão aconteceu antes da Circular 1.127. Por isso, dizer apenas "por ser judia" simplifica demais o caso.

    Davi: Mas tratar o caso como uma expulsão comum também não basta. O governo conhecia a natureza persecutória do regime de Hitler e, mesmo assim, recusou proteção a Olga.

    Lia: Para Maria Luiza Tucci Carneiro, foi um ato de colaboração com a Alemanha nazista e uma expressão do antissemitismo político brasileiro.

    Davi: A morte de Olga faz parte do Holocausto. E a entrega feita pelo governo Vargas tornou esse destino possível.

    Lia: Terceira parte. Se a porta oficial estava fechada, como milhares de judeus conseguiram entrar?

    Davi: Pelas brechas. E a fuga começou cedo. Na virada de 1933 para 1934, judeus alemães desembarcaram em Santos, declarando-se turistas ou trabalhadores sob contrato.

    Lia: Um caminho muito usado era o visto de turista ou de trânsito, com passagem de ida e volta. Depois de desembarcar, a pessoa pedia para prorrogar o visto ou torná-lo permanente.

    Davi: Outro caminho eram as certidões falsas de batismo, com as quais famílias inteiras se passavam por católicas. Algumas mantiveram esse disfarce no Brasil por anos, com medo de uma nova perseguição.

    Lia: Havia também exceções para quem trouxesse capital ou qualificação, abertas por uma circular de 1938. O engenheiro de celulose Joseph Reiter veio assim, com apoio da empresa Klabin.

    Davi: E havia as cartas de chamada. Judeus já estabelecidos aqui pediam a vinda de pais idosos e de dependentes.

    Lia: Houve até rotas pelo Oriente. O judeu polonês David Markus saiu da Lituânia com um visto de trânsito do vice-cônsul japonês Chiune Sugihara.

    Davi: Ele cruzou a União Soviética pelo Transiberiano, passou por Kobe, no Japão, e viveu no gueto de Xangai. Só chegou ao Brasil depois da guerra.

    Lia: E quem recebia essas pessoas aqui?

    Davi: Sobretudo as associações judaicas brasileiras, não o governo. A Congregação Israelita Paulista, liderada pelo rabino Fritz Pinkuss, oferecia moradia temporária, alimentação, orientação jurídica e ajuda para encontrar trabalho.

    Lia: Entre os que chegaram, havia gente que marcou a cultura brasileira: o filólogo Paulo Rónai, o ensaísta Anatol Rosenfeld, a pintora Fayga Ostrower e a fotógrafa Alice Brill.

    Davi: E quantos entraram por esses caminhos?

    Lia: Segundo uma estimativa de Maria Luiza Tucci Carneiro, cerca de 14 mil refugiados judeus. É uma estimativa, não um número definitivo.

    Davi: Para dar uma ideia, só em 1939 foram registradas 4.601 entradas de judeus no país.

    Lia: Quarta parte: os dois brasileiros que desobedeceram.

    Davi: Primeiro, o que é um Justo entre as Nações? É o título que o Yad Vashem, o memorial do Holocausto de Israel, concede em nome do Estado de Israel e do povo judeu.

    Lia: Ele reconhece não judeus que arriscaram a vida, a liberdade ou a posição para salvar judeus, sem buscar recompensa. O nome de cada um é gravado no Muro de Honra do Jardim dos Justos, em Jerusalém.

    Davi: Vamos a Hamburgo, na Alemanha nazista. Ali trabalhava Aracy de Carvalho, chefe da Seção de Passaportes do consulado brasileiro.

    Lia: Depois da Noite dos Cristais, em novembro de 1938, a perseguição aumentou. E Aracy começou a agir.

    Davi: Ela deixava de marcar o "J" vermelho nos processos de visto. E misturava os pedidos de judeus às pilhas de despachos de rotina, para que o cônsul os assinasse sem notar.

    Lia: Com contatos na prefeitura de Hamburgo, ela conseguia atestados de residência e passaportes sem a marca que identificava os judeus.

    Davi: Há relatos de que Aracy acompanhava refugiados até o navio, protegidos pelo passaporte diplomático dela. Um caso contado em depoimentos é o de Maria Margarethe Bertel Levy.

    Lia: Estima-se que Aracy tenha salvado diretamente cerca de 100 judeus. Ela ficou conhecida como o "Anjo de Hamburgo".

    Davi: No consulado, ela conheceu o escritor e diplomata João Guimarães Rosa. Ele sabia de tudo e a apoiava. Os dois se casaram em 1940, e ele dedicou a ela "Grande Sertão: Veredas".

    Lia: Mas atenção: o título do Yad Vashem é só dela. Em 1982, Aracy se tornou a primeira brasileira reconhecida como Justa entre as Nações.

    Davi: O segundo nome é Luiz Martins de Souza Dantas, embaixador do Brasil na França. Ele atuou primeiro em Paris e, depois da ocupação alemã, em Vichy.

    Lia: Souza Dantas emitia vistos diplomáticos, temporários e de trânsito. Omitia a origem dos requerentes, encobria o "J" nos passaportes e colocava datas retroativas nos papéis.

    Davi: Eram os chamados "vistos camuflados". Os historiadores falam em centenas deles, e uma estimativa frequente chega a cerca de 500.

    Lia: Em agosto de 1942, ele avisou o governo brasileiro, por telegrama, que a Gestapo deportava e exterminava em massa os judeus da França ocupada.

    Davi: E qual foi a resposta do Brasil?

    Lia: Punição. O governo Vargas abriu um processo administrativo contra ele e o afastou do cargo.

    Davi: Em 1943, tropas nazistas invadiram a embaixada em Vichy e o prenderam. Ele ficou 14 meses detido na Alemanha.

    Lia: Em 2003, o Yad Vashem o reconheceu como Justo entre as Nações.

    Davi: Repare no contraste. Esses dois heróis brasileiros não seguiram a política oficial. Eles a contrariaram.

    Lia: E, em 2013, no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a Presidência da República homenageou os dois. Também pediu desculpas históricas pelas omissões do Estado Novo.

    Davi: Quinta e última parte. Mais um aviso: vamos falar de campos de extermínio.

    Lia: Com o fim da guerra, o perfil dos que chegavam mudou. Vieram sobreviventes dos campos e dos guetos, muitos deles saídos de campos de pessoas deslocadas na Alemanha, na Itália e na Áustria.

    Davi: Quantos foram?

    Lia: Não há um número oficial. O Museu do Holocausto de Curitiba fala em cerca de 25 mil.

    Davi: E a Assembleia Legislativa do Paraná fala em 15 mil a 20 mil, a maioria vinda do Leste Europeu.

    Lia: Uma história resume essa época. Stanisław Szmajzner nasceu na Polônia e foi deportado para o campo de extermínio de Sobibór em 1942.

    Davi: Lá, trabalhou como ourives para a SS e integrou o comitê clandestino do Levante de Sobibór, em outubro de 1943.

    Lia: Em 1947, emigrou para o Brasil e foi viver em Goiânia. Em 1968, publicou "Inferno em Sobibor", um dos primeiros relatos em português sobre os campos de extermínio.

    Davi: Então, em maio de 1978, numa delegacia brasileira, ele reconheceu Gustav Wagner. Wagner tinha sido vice-comandante de Sobibór e vivia no país com identidade falsa.

    Lia: O mesmo Brasil que barrava refugiados também serviu de rota de fuga para criminosos nazistas, como Wagner e Franz Stangl. E foi um sobrevivente que confrontou o carrasco.

    Davi: Outros sobreviventes se tornaram vozes da memória. Ben Abraham fundou a Associação Brasileira dos Sobreviventes do Holocausto. Também deram testemunho Aleksander Laks, Andor Stern e Nanette Blitz Konig, que foi colega de classe de Anne Frank.

    Lia: Esses testemunhos estão guardados no Museu do Holocausto de Curitiba, no Arqshoah, da USP, e no Museu Judaico de São Paulo. Preservá-los é uma forma de combater a negação e a distorção do Holocausto.

    Davi: E um epílogo curioso. Em 1947, Oswaldo Aranha, o mesmo que expediu a circular de 1940, presidiu a sessão da Assembleia Geral da ONU que aprovou a partilha.

    Lia: Ele não criou Israel sozinho, mas conduziu a votação decisiva. O Estado de Israel proclamou sua independência em 14 de maio de 1948.

    Davi: Hora de juntar as peças. Lia, quais são as três ideias-chave de hoje?

    Lia: Primeira: na Era Vargas, o Brasil praticou antissemitismo de Estado, de forma secreta e burocrática. Com isso, fechou uma rota de fuga para quem o nazismo perseguia até a morte.

    Davi: Segunda: mesmo assim, milhares de judeus entraram pelas brechas, acolhidos pelas associações judaicas. E dois brasileiros, Aracy de Carvalho e Souza Dantas, desobedeceram e salvaram vidas. São os Justos entre as Nações do Brasil.

    Lia: Terceira: o mito do "complô judaico-comunista", que aliment

  5. Episódio 5 · A comunidade judaica brasileira hoje14 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Eu sou a Lia, e este é o quinto e último episódio de "Os judeus no Brasil", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO.

    Davi: E eu sou o Davi. Hoje o tema é "A comunidade judaica brasileira hoje": quem somos, onde vivemos, o que construímos e o que enfrentamos.

    Lia: No episódio anterior, falamos da Era Vargas. Contamos sobre as Circulares Secretas, que restringiam a entrada de judeus, e sobre os Justos brasileiros, que ajudaram a salvar vidas.

    Davi: Mesmo com essas barreiras, muitos refugiados do nazismo chegaram aqui e enriqueceram o país. Hoje vamos ver o que nasceu dessa história.

    Lia: Vamos fazer o percurso em cinco partes. Primeiro, os números e o mapa. Depois, as instituições, a vida religiosa e juvenil, a memória e, por fim, o antissemitismo.

    Davi: Então começo pela pergunta que todo mundo faz: quantos judeus vivem no Brasil?

    Lia: A resposta curta é: cerca de 120 mil. Essa é a estimativa da Confederação Israelita do Brasil, a Conib.

    Davi: E isso é muito ou pouco?

    Lia: Em relação ao país, é pouco: algo entre cinco e seis centésimos por cento da população. Mesmo assim, é a segunda maior comunidade judaica da América Latina, depois da Argentina.

    Davi: E está entre as dez maiores do mundo. Mas eu já vi outros números por aí. Quem está certo?

    Lia: Ninguém está errado. As fontes medem coisas diferentes. No Censo de 2010, por exemplo, 107.329 pessoas declararam professar a religião judaica.

    Davi: Ou seja, o Censo pergunta pela religião.

    Lia: Exatamente. E um judeu secular pode responder "sem religião". Uma pessoa com identidade cultural judaica também pode não aparecer como judia nessa contagem.

    Davi: Já a estimativa da Conib usa um critério mais amplo, que considera identidade e pertencimento.

    Lia: Há ainda os estudos demográficos. O demógrafo Sergio DellaPergola e o sociólogo René Decol calculam o que chamam de população nuclear em cerca de 90.300 pessoas.

    Davi: Então os números não se contradizem. Eles contam populações distintas.

    Lia: É isso. Agora o mapa. Cerca de 80% dos judeus brasileiros vivem no Sudeste, quase sempre nas capitais.

    Davi: E a cidade com mais judeus é São Paulo. A capital tem cerca de 44 mil, e o estado inteiro, cerca de 50 mil.

    Lia: Em segundo lugar vem o Rio de Janeiro, com 22 mil a 25 mil judeus no estado.

    Davi: Depois aparecem Porto Alegre, com cerca de 7 mil, e Belo Horizonte, com cerca de 3.500.

    Lia: Curitiba tem cerca de 2 mil. No Norte, Belém tem cerca de 1.300 e Manaus, cerca de 1.200.

    Davi: Há também comunidades em Recife, Salvador e Brasília. E vale lembrar: são estimativas comunitárias, não contagens oficiais por município.

    Lia: Algumas cidades pequenas no mapa são enormes na história. Em Belém, há presença sefardita e marroquina desde o século XIX.

    Davi: E Recife guarda uma presença judaica que remonta ao período holandês, no século XVII. Vamos voltar a ela daqui a pouco.

    Lia: Passamos agora para a segunda parte: as instituições. Davi, quem fala pela comunidade?

    Davi: A principal entidade é a Conib, fundada em 30 de maio de 1948. Ela representa e coordena politicamente a comunidade e é filiada ao Congresso Judaico Mundial.

    Lia: Sob a coordenação da Conib atuam 14 federações estaduais, que reúnem mais de 200 associações.

    Davi: Por exemplo, a Fisesp, em São Paulo, e a Fierj, no Rio, que tem cerca de 80 entidades afiliadas.

    Lia: Há também federações no Rio Grande do Sul, no Paraná e em Pernambuco, além do Centro Israelita do Pará e da Comunidade Israelita Capixaba.

    Davi: Mas a estrutura é descentralizada. Muitas sinagogas, escolas e organizações têm autonomia própria.

    Lia: E há nomes que muita gente conhece. A Unibes, criada em 1976, cuida de assistência social e formação profissional.

    Davi: A Hebraica de São Paulo, fundada em 1954, é um dos maiores centros socioculturais e esportivos do país.

    Lia: E a Congregação Israelita Paulista, a CIP, foi fundada em 1936.

    Davi: Aqui eu quero responder a uma pergunta que aparece muito na internet, às vezes com má intenção: existem "bancos judeus" ou "empresas judaicas" no Brasil?

    Lia: Não. Empresas não têm religião. Judeus brasileiros trabalham, empreendem e investem como quaisquer outros cidadãos.

    Davi: Agrupar negócios pela religião dos donos é uma generalização sem base em fatos.

    Lia: O que existe são instituições de origem comunitária judaica que atendem toda a sociedade. O exemplo mais conhecido é o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

    Davi: Ele nasceu de uma iniciativa comunitária e de doações de famílias judaicas a partir de 1955. Hoje é um dos principais centros médicos e de pesquisa da América Latina.

    Lia: E atende a população em geral. Há também o Lar Golda Meir, voltado a idosos, além de clubes, centros culturais e museus abertos ao público.

    Davi: Então ficam três coisas claras. Essas instituições têm identidade judaica. Elas servem a toda a sociedade. E tratá-las como exclusivas de judeus contradiz os fatos.

    Lia: Vamos à terceira parte: como é viver o judaísmo no Brasil hoje?

    Davi: A primeira palavra é pluralidade. Há correntes ortodoxas, como o movimento Habad Lubavitch e congregações sefarditas.

    Lia: E há congregações conservadoras, reformistas e liberais, como a CIP, em São Paulo, e a ARI, a Associação Religiosa Israelita, no Rio.

    Davi: Há também muitos judeus seculares, que se identificam como judeus pela cultura e pela família.

    Lia: Imagine uma sexta-feira à noite. Numa casa, a família acende as velas do Shabat. Em outra, os avós contam histórias da imigração. As duas são vidas judaicas.

    Davi: As práticas variam: orações, festas como Pessach, Rosh Hashaná, Yom Kipur e Sucot, o bar e o bat mitzvá, o estudo da Torá e do Talmud.

    Lia: E a solidariedade, que também faz parte da tradição.

    Davi: Em São Paulo e no Rio há mais correntes e mais sinagogas. Em comunidades menores, uma só instituição costuma reunir as funções religiosa, social, cultural e educacional.

    Lia: E as escolas judaicas? Elas são diferentes das outras?

    Davi: Elas seguem o currículo brasileiro obrigatório. Além disso, ensinam hebraico, história e cultura judaicas, estudos sobre Israel e a memória do Holocausto.

    Lia: E para os jovens há os movimentos juvenis, que unem educação não formal, identidade judaica, liderança e acampamentos.

    Davi: Muitos têm orientação sionista. Entre os que atuam ou atuaram no país estão Habonim Dror, Hashomer Hatzair, Bnei Akiva e Betar.

    Lia: Mas nem todo jovem judeu participa deles. Muitos se ligam à comunidade pela escola, pelo clube, pela sinagoga ou pela família.

    Davi: Quarta parte: a memória. Onde ela está guardada?

    Lia: O principal centro é o Museu Judaico de São Paulo, inaugurado em dezembro de 2021.

    Davi: Ele funciona no edifício tombado da antiga Sinagoga Templo Beth-El, dos anos 1920, na Rua Martinho Prado.

    Lia: O museu incorporou o Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, criado em 1976 pelo professor Nachman Falbel.

    Davi: O acervo tem mais de 20 mil livros e 100 mil fotografias.

    Lia: E cerca de 1 milhão de documentos e depoimentos orais. São as vozes de quem chegou e construiu a vida aqui.

    Davi: Agora vamos ao Recife, como prometido. Lá está a Sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira das Américas, do período holandês.

    Lia: Nela atuou Isaac Aboab da Fonseca, o primeiro rabino do Novo Mundo. Hoje o local abriga o Centro Cultural Judaico de Pernambuco, restaurado em 2001.

    Davi: Em Curitiba, o Museu do Holocausto, inaugurado em 2011, foi pioneiro no país na educação contra o antissemitismo, o racismo e os discursos de ódio.

    Lia: Em São Paulo, no Bom Retiro, há o Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto, na histórica Sinagoga Kehilat Israel.

    Davi: E as universidades também pesquisam. A USP tem o Centro de Estudos Judaicos, e outras universidades mantêm laboratórios sobre imigração e antissemitismo.

    Lia: Antes da última parte, um olhar para fora da comunidade. A vida judaica brasileira também se liga às relações entre Brasil e Israel.

    Davi: Em 1947, o brasileiro Oswaldo Aranha presidia a Assembleia Geral da ONU quando foi aprovado o plano de partilha. A comunidade guarda essa memória com carinho.

    Lia: E desde 1949 os dois países mantêm relações diplomáticas. Há comércio, ciência, irrigação e ajuda em emergências.

    Davi: Em 2019, depois do rompimento da barragem de Brumadinho, uma missão de busca e salvamento das Forças de Defesa de Israel veio apoiar os bombeiros.

    Lia: E nas enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024, Israel doou sistemas que transformam água contaminada em água potável.

    Davi: Agora, a quinta parte. Um aviso a quem nos ouve: este trecho fala de terrorismo e de hostilidade contra judeus. Se houver crianças pequenas por perto, talvez valha ouvir junto com elas.

    Lia: Em 7 de outubro de 2023, o grupo terrorista Hamas atacou Israel. Depois desse ataque, o antissemitismo cresceu também no Brasil.

    Davi: Em 30 de março de 2026, a Conib divulgou um relatório com 989 ocorrências formais de antissemitismo em 2025.

    Lia: Isso representa um aumento de 149% em relação a 2022.

    Davi: A Conib também ouviu 1.427 judeus brasileiros numa pesquisa.

    Lia: Para 86% deles, o antissemitismo é um problema grave ou existente no país.

    Davi: E 22% já evitaram se identificar publicamente como judeus, em certos contextos, por medo de hostilidade.

    Lia: Pense num estudante que tira o colar com a estrela de Davi antes de entrar na faculdade. É disso que esse número fala.

    Davi: Uma forma frequente de hostilidade é cobrar de judeus brasileiros as decisões do Estado de Israel. Isso aparece em escolas, em universidades e até na "vigilância" de turistas israelenses.

    Lia: Mas judeus brasileiros são cidadãos brasileiros. Não votam em Israel nem comandam as Forças de Defesa de Israel.

    Davi: E têm opiniões variadas sobre o governo israelense. A comunidade sempre foi plural.

    Lia: A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA. Ela traz como exemplo de antissemitismo responsabilizar os judeus coletivamente pelas ações do Estado de Israel.

    Davi: Pelo mesmo critério, negar o direito de Israel existir também é antissemitismo.

    Lia: E a JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.

    Davi: A lei brasileira também protege a comunidade. A Lei 7.716, de 1989, pune a discriminação por religião, etnia ou procedência nacional.

    Lia: E no caso Ellwanger, o Supremo Tribunal Federal reconheceu o antissemitismo como racismo.

    Davi: Então, resumindo: discriminar alguém por ser judeu é crime. Discordar de um governo, não.

    Lia: Esse princípio vale para todos. Ao longo da série, vimos árabes e judeus abrindo lojas lado a lado na Rua 25 de Março e no Saara.

    Davi: Um judeu brasileiro não é responsável pelas decisões de um governo. E um árabe brasileiro não é responsável pelo terrorismo de grupos como o Hamas.

    Lia: Antissemitismo, islamofobia e racismo antiárabe devem ser combatidos da mesma forma.

    Davi: Vamos às três ideias-chave do episódio.

    Lia: Primeira: a comunidade judaica brasileira tem cerca de 120 mil pessoas e é a segunda maior da América Latina. Ela vive sobretudo no Sudeste, mas tem raízes do Recife a Manaus.

    Davi: Segunda: ela construiu uma rede de federações, escolas, sinagogas, hospitais, museus e movimentos juvenis. Muitas dessas instituições servem a toda a sociedade brasileira.

    Lia: Terceira: o antissemitismo cresceu depois de 7 de outubro. Cobrar de judeus brasileiros as ações de Israel, ou negar o direito de Israel existir, é antissemitismo. E discriminar alguém por ser judeu é crime no Brasil.

    Davi: E assim chegamos ao fim da série. Começamos com os cristãos-novos da colônia e a primeira sinagoga das Américas.

    Lia: Passamos pela imigração, pela Era Vargas, pelos refugiados e pelos Justos. E terminamos aqui, numa comunidade viva, plural e brasileira.

    Davi: Ser judeu no Brasil é pertencer a um povo antigo e a um país que ajudamos a construir, com orgulho das duas coisas.

    Lia: Conhecer essa história é a melhor resposta ao preconceito. Obrigada por nos acompanhar até aqui.

    Davi: Até a próxima, e shalom!

Horizonte de Tel Aviv
4 episódios · 58 min

Como funciona Israel

A democracia, o exército, a diversidade, os direitos e a ciência de Israel, explicados para quem quer entender o país.

Para jovens do Ensino Médio, universitários, jornalistas e professores.
  1. Episódio 1 · A democracia: Knesset, eleições e Suprema Corte13 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Eu sou a Lia, e este é o primeiro episódio de "Como funciona Israel", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Em quatro episódios, vamos explicar como o país se organiza por dentro: suas instituições, sua sociedade e as perguntas que mais aparecem na escola, na universidade e nas redações.

    Davi: E eu sou o Davi. Hoje o tema é a democracia israelense: o Parlamento, chamado Knesset, as eleições e a Suprema Corte. Também vamos falar dos cidadãos árabes de Israel e de uma acusação que você talvez já tenha ouvido por aí.

    Lia: Vamos começar por uma cena. É terça-feira, dia de eleição em Israel. Um eleitor entra numa cabine individual, sozinho, sem ninguém olhando.

    Davi: E ele vota em quem? Em um candidato, como no Brasil?

    Lia: Não. Ele escolhe uma lista partidária. Coloca no envelope a cédula do partido e pronto. Ele não escolhe nomes.

    Davi: Então quem decide quais pessoas vão para o Parlamento?

    Lia: O próprio partido, pela ordem da lista. Alguns fazem primárias com os filiados. Outros decidem por um conselho central. Os partidos ultraortodoxos indicam nomes por conselhos rabínicos.

    Davi: E o país todo forma um único distrito eleitoral. Não há votação por estado ou por cidade.

    Lia: Isso. A Knesset tem 120 cadeiras, divididas na proporção dos votos de cada lista. Pode votar todo cidadão com 18 anos ou mais. Para ser eleito, é preciso ter pelo menos 21.

    Davi: Mas aí qualquer partido minúsculo entra?

    Lia: Não, porque existe uma cláusula de barreira. Hoje ela é de 3,25% dos votos válidos. Quem fica abaixo disso não recebe nenhuma cadeira.

    Davi: Esse corte já foi menor. Começou em 1% e subiu ao longo das décadas, justamente para reduzir a fragmentação.

    Lia: Mesmo assim, o sistema proporcional abre espaço para muitos partidos. Seculares e religiosos, judeus e árabes, todos conseguem representação.

    Davi: E o custo disso é a instabilidade, não é?

    Lia: Exatamente. O que nos leva ao segundo bloco: como nasce um governo.

    Davi: O governo precisa do apoio de pelo menos 61 dos 120 deputados. E quase nunca um partido sozinho chega lá.

    Lia: Por isso, depois da eleição, o presidente de Israel consulta as bancadas. Em seguida, encarrega o deputado com mais chances de reunir uma maioria.

    Davi: E esse deputado tem 28 dias para fechar os acordos, prorrogáveis por até 14. No fim, precisa de um voto de confiança da Knesset.

    Lia: Então o primeiro-ministro não é eleito diretamente pelo povo?

    Davi: Hoje não. Israel chegou a testar a eleição direta por pouco tempo, mas aboliu o modelo e voltou ao sistema parlamentar.

    Lia: E as coalizões podem juntar partidos muito diferentes. Depois das eleições de 2021, legendas de ideologias distintas se uniram para substituir Benjamin Netanyahu.

    Davi: O acordo previa uma rotação: primeiro Naftali Bennett como primeiro-ministro, depois Yair Lapid.

    Lia: E para derrubar um governo, basta votar contra?

    Davi: Não. Desde uma reforma de 2014, a oposição precisa aprovar um governo alternativo completo, com pelo menos 61 votos. Tem de apresentar o novo primeiro-ministro, o programa e a divisão dos ministérios.

    Lia: É a chamada moção de censura construtiva. A regra dá mais estabilidade num Parlamento com muitos partidos.

    Davi: Terceiro bloco: as regras do jogo. Israel tem uma constituição?

    Lia: Não num documento único. O ponto de partida é a Declaração de Independência, de 14 de maio de 1948. Ela criou o Estado como lar nacional do povo judeu.

    Davi: E prometeu, nas palavras dela, "completa igualdade de direitos sociais e políticos" a todos os habitantes, sem distinção de religião, raça ou sexo.

    Lia: Depois disso, o país passou a funcionar com Leis Básicas, aprovadas pela própria Knesset. Duas delas, de 1992 e 1994, definiram Israel como "Estado judeu e democrático".

    Davi: E quem garante que essas Leis Básicas sejam respeitadas?

    Lia: A Suprema Corte. Desde o caso Bank Mizrahi, de 1995, ela pode anular leis que violem as Leis Básicas. Quando julga petições contra autoridades públicas, atua como Alta Corte de Justiça, conhecida pela sigla Bagatz.

    Davi: Um juiz da Corte também preside a Comissão Central de Eleições. Já o presidente do país, eleito pela Knesset para um mandato único de sete anos, tem funções sobretudo cerimoniais.

    Lia: E o poder da Corte é um dos temas mais debatidos da política israelense. Discute-se a proteção de direitos, o controle sobre a maioria parlamentar e os limites da autoridade dos juízes.

    Davi: Isso enfraquece a democracia?

    Lia: Os índices internacionais ajudam a responder. A Freedom House classifica Israel como "Livre". A Economist Intelligence Unit fala em "democracia imperfeita", com nota alta em participação política.

    Davi: E o V-Dem passou a classificar Israel como "democracia eleitoral", por causa de mudanças nos freios e contrapesos. Mas todos esses índices tratam Israel como democracia. O debate é sobre a qualidade dela, não sobre a existência.

    Lia: Quarto bloco: os cidadãos árabes de Israel. Cerca de um em cada cinco cidadãos do país é árabe. São aproximadamente 2,1 milhões de pessoas.

    Davi: A maioria é muçulmana, mas há também cristãos e drusos. Parte deles se identifica como palestinos de cidadania israelense.

    Lia: Eles descendem da população árabe que permaneceu em Israel depois da Guerra de Independência de 1948, período que os palestinos chamam de Nakba. Entre 1948 e 1966, essa população viveu sob administração militar.

    Davi: Esse regime terminou em 1966. E é importante lembrar esse histórico, porque ele ajuda a entender as desigualdades de que vamos falar daqui a pouco.

    Lia: Desde as primeiras eleições, em 1949, os cidadãos árabes votam e se candidatam nas mesmas condições jurídicas que os demais.

    Davi: Partidos como Hadash, Balad, Ta'al e Ra'am têm bancadas eleitas. Em março de 2020, a aliança Lista Conjunta conquistou 15 cadeiras.

    Lia: E em junho de 2021 aconteceu algo inédito. O partido árabe islâmico Ra'am, de Mansour Abbas, entrou na coalizão de Bennett e Lapid.

    Davi: Foi a primeira vez que um partido árabe se tornou membro formal de uma coalizão de governo. Segundo a Freedom House, o Ra'am não ocupou ministérios, mas sustentou a maioria do governo na Knesset.

    Lia: E negociou investimentos para as comunidades árabes em troca desse apoio. A participação vai além do Parlamento. Khaled Kabub é o primeiro juiz muçulmano permanente da Suprema Corte.

    Davi: Issawi Frej foi ministro, Ali Yahya foi embaixador, e o major-general Ghassan Alian serve nas Forças de Defesa de Israel. Universidades, hospitais, praias e transportes funcionam de forma integrada. Nenhuma lei separa esses espaços.

    Lia: Então está tudo resolvido?

    Davi: Não. Há desigualdades socioeconômicas documentadas: em orçamentos municipais, educação, saúde, habitação e emprego. A pobreza e o desemprego são mais altos no setor árabe.

    Lia: E o próprio Estado reconhece isso. A Comissão Or, uma comissão oficial de inquérito de 2003, foi criada depois dos confrontos de outubro de 2000. Ela reconheceu discriminação governamental sistemática e pediu planos de correção.

    Davi: Vieram planos econômicos. O mais recente, o Plano Takadum, cobre de 2022 a 2026, com cerca de 30 bilhões de shekels, incluindo o combate ao crime.

    Lia: Os tribunais também atuam. No caso Ka'adan, a Justiça decidiu que o Estado não pode discriminar entre judeus e não judeus na concessão de terras públicas.

    Davi: E a lei protege as minorias: incitar o racismo é crime, e partidos com plataforma racista são proibidos. Essa regra foi usada para barrar o partido racista judeu Kach.

    Lia: Agora, a Lei do Estado-Nação, aprovada em julho de 2018. O que ela diz?

    Davi: O texto diz que Israel é o Estado-nação do povo judeu e que Jerusalém é sua capital. O artigo 1c diz que a autodeterminação nacional em Israel é exclusiva do povo judeu. O artigo 7 trata o povoamento judaico como valor nacional.

    Lia: E o artigo 4 define o hebraico como língua do Estado. O árabe passa de língua oficial a um "status especial".

    Davi: Esses pontos foram muito criticados. Líderes árabes disseram que a lei cria uma hierarquia entre cidadãos. Líderes drusos, cuja comunidade serve no exército, disseram que ela os trata como cidadãos de segunda classe.

    Lia: O caso chegou à Suprema Corte. Em julho de 2021, por 10 votos a 1, a Corte manteve a lei. A maioria entendeu que ela define a identidade nacional do Estado sem revogar a igualdade nem os direitos individuais.

    Davi: O único voto contrário foi do juiz George Karra, o único juiz árabe no caso. Ele considerou a lei discriminatória.

    Lia: Repare na cena: uma lei contestada no Parlamento, nas ruas e no tribunal, com um juiz árabe votando. Esse debate aberto mostra as instituições israelenses funcionando.

    Davi: Quinto e último bloco: a acusação de apartheid.

    Lia: A acusação é feita por algumas ONGs, com alcances diferentes. A Human Rights Watch, em 2021, fala de Jerusalém Oriental e da Judeia e Samaria. A B'Tselem, no mesmo ano, fala de um regime "do rio ao mar". Só a Anistia Internacional, em 2022, inclui Israel inteiro desde 1948.

    Davi: O governo de Israel chamou o relatório da Human Rights Watch de "absurdo e falso". E chamou o da Anistia de "falso, tendencioso e antissemita".

    Lia: E a comparação com a África do Sul não se sustenta. Lá, uma lei de 1953 separava ônibus, praias e hospitais por raça. Os negros só votaram em 1994.

    Davi: Em Israel, cidadãos árabes votam desde 1949 e são deputados, ministros e juízes da Suprema Corte. Na Judeia e Samaria há dois sistemas jurídicos desde 1967. Israel diz que isso decorre de cidadania, segurança e de um conflito nacional ainda sem solução, não de raça.

    Lia: E em 19 de julho de 2024, a Corte Internacional de Justiça emitiu um parecer consultivo, não uma condenação. Ele apontou violação de um artigo da Convenção contra a Discriminação Racial nos territórios em disputa.

    Davi: Mas o parecer não disse se havia apartheid e não tratou de Israel dentro de suas fronteiras. Israel contesta a conclusão.

    Lia: Aqui falamos da posição da JJO. A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA. Por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

    Davi: E é preciso separar as coisas. Criticar uma política de governo faz parte da democracia, como vimos ao longo de todo o episódio, com a Comissão Or, com o caso da Lei do Estado-Nação e com o juiz Karra.

    Lia: Já dizer que Israel é apartheid desde 1948 não critica uma política. Trata a própria fundação do Estado judeu como crime.

    Davi: Vamos fechar com três ideias-chave.

    Lia: Primeira: Israel é uma democracia parlamentar. O eleitor vota em listas, a Knesset tem 120 cadeiras, e os governos nascem de coalizões.

    Davi: Segunda: Israel se define como Estado judeu e democrático. A Suprema Corte controla as leis, e esse poder é debatido abertamente, como acontece em democracias.

    Lia: Terceira: os cidadãos árabes têm direitos políticos plenos desde 1949. Há desigualdades reais, reconhecidas pelo próprio Estado, que trabalha para corrigi-las. Desigualdade documentada não é apartheid.

    Davi: No próximo episódio: "O exército do povo e a defesa do país". Vamos entender por que o serviço militar está no centro da vida israelense.

    Lia: Obrigada por ouvir "Como funciona Israel", da Juventude Judaica Organizada. Até o próximo episódio!

  2. Episódio 2 · O exército do povo e a defesa do país14 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Você está ouvindo "Como funciona Israel", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio 2 de 5: "O exército do povo e a defesa do país".

    Lia: No episódio anterior, falamos da democracia israelense: o Knesset, as eleições e a Suprema Corte.

    Davi: Essas instituições voltam hoje, porque em Israel a defesa também passa pelo Parlamento e pelos tribunais.

    Lia: Vamos em cinco partes: como nasceu o exército, quem serve, o Domo de Ferro, a barreira de segurança e o que as forças fazem além da guerra.

    Davi: Começando pelo começo. Imagine maio de 1948, em plena Guerra de Independência.

    Lia: Havia vários grupos armados judaicos. A Haganá, com sua unidade de elite, o Palmach. E também o Irgun e o Lehi.

    Davi: Em 28 de maio daquele ano, David Ben-Gurion, primeiro-ministro e ministro da Defesa, criou por ordem oficial as Forças de Defesa de Israel, as FDI.

    Lia: A Haganá e o Palmach foram unificados. Depois, o Irgun e o Lehi passaram à mesma cadeia de comando do Estado.

    Davi: E por que isso importa, Lia?

    Lia: Porque um Estado precisa de um só exército, sob comando único. E isso virou lei.

    Davi: Em 1976, o Knesset aprovou a Lei Fundamental: O Exército.

    Lia: Ela define as FDI como o único exército do Estado e proíbe qualquer outra força armada.

    Davi: Também subordina o exército ao governo civil, com o ministro da Defesa como responsável político.

    Lia: O comandante é o Chefe do Estado-Maior Geral, o Ramatkal, nomeado pelo governo.

    Davi: Ou seja, quem comanda o exército é o governo eleito.

    Lia: Há outro conceito central: Tzva Ha'am, o "exército do povo".

    Davi: Os fundadores pensaram o serviço também como um ponto de encontro para imigrantes de origens diversas. Além da defesa, a ideia era fortalecer a coesão social.

    Lia: Agora, a pergunta que todo mundo faz: quem serve, e por quanto tempo?

    Davi: O serviço é obrigatório a partir dos 18 anos. A Lei do Serviço de Defesa é de 1949.

    Lia: Ele vale para cidadãos judeus, homens e mulheres, e para homens drusos e circassianos.

    Davi: Homens servem de 32 a 36 meses.

    Lia: E mulheres, 24 meses.

    Davi: Depois vem a reserva, o Miluim. Ex-militares podem ser chamados para treinamentos ou para o serviço ativo.

    Lia: Isso pode acontecer até os 40 ou até os 54 anos, conforme a função e a patente.

    Davi: Em uma guerra, os reservistas formam a maior parte da capacidade de defesa do país.

    Lia: Davi, mulheres no serviço obrigatório não é algo comum no mundo, certo?

    Davi: Não é. Israel é um dos raros países que exigem isso, desde a lei de 1949.

    Lia: E houve um marco em 1995, o caso Miller. O Supremo Tribunal decidiu que excluir mulheres do curso de pilotos da Força Aérea era discriminação ilegal.

    Davi: A decisão abriu às mulheres funções de combate, inteligência e aviação.

    Lia: E os drusos?

    Davi: Para os homens drusos, o serviço passou a ser obrigatório em 1956. Para os homens circassianos, em 1957.

    Lia: Isso aconteceu a pedido das lideranças dessas comunidades, embora estudos acadêmicos debatam como esse recrutamento começou.

    Davi: Cerca de 60% dos homens drusos servem, inclusive em unidades de elite. Um exemplo é o major-general Ghassan Alian.

    Lia: E os árabes muçulmanos e cristãos?

    Davi: A lei cobre todos os cidadãos, mas diretrizes administrativas dispensam a convocação desses grupos.

    Lia: Eles podem se voluntariar para o exército ou fazer o Serviço Civil Nacional, em hospitais e escolas.

    Davi: Os beduínos também são isentos, mas têm uma tradição de voluntariado, sobretudo em unidades de rastreamento no deserto.

    Lia: Chegamos então a um tema que ocupa o noticiário: os ultraortodoxos.

    Davi: Em 1948, Ben-Gurion isentou cerca de 400 estudantes de yeshivas.

    Lia: O objetivo era reconstruir os centros de estudo judaicos destruídos no Holocausto.

    Davi: Com o crescimento da comunidade, o número de isentos chegou a dezenas de milhares.

    Lia: Aqui entra a democracia do episódio passado. Em 1998, o Supremo exigiu que a isenção fosse definida por lei do Knesset.

    Davi: O Knesset aprovou a Lei Tal em 2002, e o Supremo a anulou em 2012.

    Lia: Em 25 de junho de 2024, o Supremo decidiu por unanimidade que não há base jurídica para isentar os estudantes ultraortodoxos.

    Davi: A lei vale igualmente para todos em idade militar. A corte também proibiu o financiamento estatal direto a yeshivas cujos alunos não se apresentem ao alistamento.

    Lia: Uma pergunta que ouvimos muito no Brasil: um brasileiro pode ser convocado?

    Davi: Sem cidadania ou residência israelense, não. Quem tem dupla cidadania ou vive em Israel deve consultar os canais oficiais das FDI.

    Lia: Terceira parte. Vamos falar de um sistema que virou símbolo: o Domo de Ferro.

    Davi: Em hebraico, Kipat Barzel. É um sistema móvel de defesa aérea de curto alcance, desenvolvido principalmente pela Rafael.

    Lia: O desenvolvimento começou em 2007, e o sistema entrou em operação em março de 2011.

    Davi: A primeira interceptação real foi em 7 de abril daquele ano, contra um foguete Grad lançado da Faixa de Gaza contra a cidade de Ashkelon.

    Lia: E como ele funciona, na prática?

    Davi: Tudo leva poucos segundos. Um radar detecta o lançamento e acompanha a trajetória do foguete.

    Lia: Um computador calcula onde o foguete vai cair.

    Davi: Se ele vai cair em área aberta, como deserto ou mar, o sistema não dispara.

    Lia: Se vai atingir área povoada ou infraestrutura importante, o sistema lança um interceptor Tamir, que explode perto do foguete, ainda no ar.

    Davi: E a taxa de acerto? A fabricante Rafael e o governo israelense informam sucesso acima de 90%, e alguns dados chegam perto de 95%.

    Lia: Mas não existe auditoria pública independente que confirme um número único para todo o período.

    Davi: E esse percentual se refere apenas aos foguetes que o sistema decidiu interceptar, ou seja, aos que iam atingir áreas protegidas.

    Lia: Exato. O sistema também tem limites. O principal é a saturação: grupos terroristas disparam muitos foguetes ao mesmo tempo para sobrecarregar as baterias.

    Davi: Há ainda a questão do custo. Cada Tamir custa, segundo estimativas, dezenas de milhares de dólares.

    Lia: Um foguete improvisado do Hamas pode custar centenas de dólares. Isso se chama custo assimétrico.

    Davi: Por isso Israel desenvolveu o Iron Beam, um sistema a laser com disparo muito mais barato. Ele complementa o Domo de Ferro, não o substitui.

    Lia: O Domo é a camada inferior de uma defesa em camadas. O David's Sling atua no médio alcance, e o Arrow intercepta mísseis balísticos em grande altitude.

    Davi: Desde o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, o sistema foi usado em escala sem precedentes.

    Lia: Contra foguetes vindos de Gaza, foguetes e drones do Hezbollah, no Líbano, e drones e mísseis dos houthis, do Iêmen.

    Davi: Mesmo assim, alertas e abrigos continuam essenciais. Fragmentos podem cair, e algumas ameaças podem passar.

    Lia: Por isso o Comando da Frente Interna emite alertas e orienta a população a buscar quartos protegidos e abrigos públicos.

    Davi: Quarta parte: a barreira de segurança. Um aviso: os próximos minutos tratam de atentados e de vítimas.

    Lia: A Segunda Intifada começou em setembro de 2000, depois do fracasso das negociações de Camp David.

    Davi: Grupos terroristas como o Hamas e a Jihad Islâmica enviaram homens-bomba a ônibus, restaurantes, cafés e discotecas.

    Lia: O saldo foi pesado. Mais de 900 civis e moradores israelenses foram mortos, e cerca de 6.000 ficaram feridos.

    Davi: A maioria dos terroristas que executaram esses ataques entrou em Israel a partir da Judeia e da Samaria.

    Lia: Em 27 de março de 2002, durante o Sêder de Pessach, um homem-bomba do Hamas se explodiu no Hotel Park, em Netanya.

    Davi: Ele matou 30 pessoas e feriu cerca de 150.

    Lia: Foi nesse contexto que Israel começou a construir a barreira, ainda em 2002.

    Davi: O objetivo era criar um obstáculo físico e tecnológico entre cidades de onde partiam células terroristas, como Jenin, Tulkarem e Nablus, e os centros urbanos de Israel.

    Lia: Davi, afinal, é muro ou cerca?

    Davi: Na maior parte do traçado, é cerca: cercas eletrônicas, sensores, valas e estradas de patrulha. Estimativas frequentes falam em cerca de 90% de cerca.

    Lia: O concreto aparece sobretudo em áreas urbanas e onde havia risco de franco-atiradores. Muitas imagens que circulam mostram só essa pequena parte.

    Davi: E os resultados? Os atentados suicidas caíram de forma acentuada. Em 2002, o ano do pico, foram 53.

    Lia: No ano seguinte, foram 26.

    Davi: No outro ano, foram 12 ou 15, conforme a fonte.

    Lia: Em 2005, foram oito.

    Davi: E em 2009 e 2010, nenhum.

    Lia: A barreira fez isso sozinha?

    Davi: Não, e Israel não afirma isso. Análises de segurança israelenses atribuem o resultado a um conjunto de medidas.

    Lia: A Operação Escudo Defensivo, a inteligência preventiva, as prisões sistemáticas dos organizadores dos ataques e a própria barreira.

    Davi: Críticos discutem quanto da queda se deve só à barreira. Mas o dado central não muda: os ataques despencaram, e a barreira fez parte da resposta que salvou vidas.

    Lia: Aqui entra de novo a Suprema Corte. Em 2004, no caso Beit Sourik, ela reconheceu que a barreira tem finalidade de segurança legítima.

    Davi: A Corte rejeitou a alegação de motivação política ou de anexação, mas exigiu mudanças onde o dano aos moradores palestinos era desproporcional ao ganho de segurança.

    Lia: Moradores palestinos recorreram à Justiça israelense e conseguiram mudar o traçado. O Estado cumpriu as decisões.

    Davi: Também em 2004, a Corte Internacional de Justiça emitiu um parecer consultivo, a pedido da Assembleia Geral da ONU.

    Lia: A CIJ reconheceu que Israel enfrentava atos repetidos e letais de violência indiscriminada contra civis, e que tinha o direito e o dever de proteger seus cidadãos.

    Davi: Mesmo assim, concluiu que o traçado construído além da Linha Verde, inclusive em Jerusalém Oriental, contrariava o direito internacional. E disse que Israel deveria parar a obra nessas áreas.

    Lia: Mas não houve condenação. Trata-se de uma opinião consultiva, não de uma sentença obrigatória.

    Davi: Israel rejeitou o parecer. A barreira é temporária e defensiva, não é anexação nem fronteira, e a Corte não considerou de forma adequada a onda de terrorismo contra civis.

    Lia: A fronteira definitiva continua sendo tema de negociação entre israelenses e palestinos. A barreira responde a outra pergunta: como impedir que homens-bomba cheguem às cidades israelenses.

    Davi: Última parte, e ela tem a ver com o Brasil.

    Lia: As FDI têm um código de ética oficial, o Espírito das FDI. Entre seus princípios estão o respeito à dignidade humana, a pureza das armas e a defesa da vida.

    Davi: Elas também atuam em resgates humanitários. A unidade nacional de busca e salvamento foi criada em 1984.

    Lia: Em janeiro de 2019, a barragem de Brumadinho se rompeu, em Minas Gerais, e uma equipe israelense veio ajudar.

    Davi: Ela trouxe equipamentos especializados e cães farejadores. A operação foi coordenada por autoridades brasileiras, com apoio técnico israelense.

    Lia: Mais tarde, o governo brasileiro concedeu à equipe a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.

    Davi: Hoje vimos como Israel organiza sua defesa e como o Knesset e a Suprema Corte participam dessas decisões.

    Lia: Vamos às três ideias-chave.

    Davi: Primeira: as FDI são o único exército do Estado e respondem ao governo civil eleito, como determina a Lei Fundamental de 1976.

    Lia: Segunda: é um exército do povo. O serviço amplo, de homens e mulheres, e uma reserva que dura décadas fazem da defesa uma tarefa de toda a sociedade.

    Davi: Terceira: a defesa de Israel é desenhada para proteger civis. O Domo de Ferro só dispara quando o foguete vai atingir área povoada ou infraestrutura importante.

    Lia: E a barreira, junto com inteligência, prisões e operações militares, ajudou a derrubar os atentados suicidas até chegarem a zero.

    Davi: No próximo episódio: "Mulheres, LGBT e direitos".

    Lia: Obrigada por ouvir "Como funciona Israel". Até lá!

  3. Episódio 3 · Mulheres, LGBT e direitos15 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá! Eu sou a Lia, e você está ouvindo "Como funciona Israel", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o episódio três, de um total de quatro. O tema de hoje é "Mulheres, LGBT e direitos".

    Lia: No episódio anterior, falamos do exército do povo e de como Israel defende seus civis.

    Davi: Hoje a pergunta muda de foco. Como Israel trata as mulheres e as pessoas LGBT? E o que responder a quem diz que tudo isso é só propaganda?

    Lia: Vamos fazer esse caminho em cinco partes. Primeiro, a igualdade das mulheres na lei. Depois, as mulheres no exército. Em seguida, o que ainda falta para elas. Por fim, os direitos LGBT e a acusação de "pinkwashing".

    Davi: Então vamos começar pela promessa. Ela foi feita no dia em que o Estado nasceu.

    Lia: Foi em 14 de maio de 1948. A Declaração de Independência prometeu "completa igualdade de direitos sociais e políticos a todos os seus habitantes, sem distinção de religião, raça ou sexo".

    Davi: Sem distinção de sexo, e isso no texto de fundação. Mas, Lia, um ouvinte pode perguntar: uma declaração basta para garantir direitos?

    Lia: Não basta, e essa pergunta é boa. A Declaração não é uma constituição escrita. Por isso, a igualdade foi construída em camadas.

    Davi: A primeira camada são as leis comuns. O grande destaque é a Lei de Igualdade dos Direitos da Mulher, de 1951.

    Lia: A segunda são as Leis Básicas, que têm nível constitucional em Israel. A terceira são as decisões da Suprema Corte, que trata a igualdade de gênero como parte central do princípio da igualdade.

    Davi: Um exemplo é de 1988. Nos casos Shakdiel e Poraz, a Corte garantiu às mulheres o direito de participar dos conselhos religiosos municipais.

    Lia: Ela também abriu às mulheres os comitês que escolhem rabinos-chefes. E, em 1993, uma emenda tornou obrigatória a ação afirmativa para incluir mulheres nos conselhos das empresas estatais.

    Davi: E há um nome que todo mundo conhece: Golda Meir.

    Lia: Golda Meir foi primeira-ministra de 1969 a 1974. Até hoje, é a única mulher a chefiar o governo israelense.

    Davi: E ela não caiu de paraquedas no cargo. Foi uma das principais dirigentes do movimento sionista e participou da fundação do Estado.

    Lia: Ela ficou vinte anos no Knesset, o Parlamento, e foi ministra do Trabalho e das Relações Exteriores. Em 1961, fundou com Mina Ben-Zvi um centro que capacita mulheres de países em desenvolvimento.

    Davi: Golda chefiou o governo durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973. Deixou o cargo no ano seguinte, depois dos desdobramentos políticos do conflito.

    Lia: Os historiadores ainda debatem a responsabilidade pela surpresa militar daquela guerra. Esse debate é sobre a liderança dela. O fato histórico ninguém contesta: uma mulher chegou ao poder máximo em Israel poucas décadas depois da fundação do Estado.

    Davi: Agora vamos à segunda parte, que costuma surpreender quem ouve pela primeira vez: o exército.

    Lia: Em 1949, a Lei do Serviço de Defesa tornou o serviço militar obrigatório também para as mulheres. Poucos países no mundo fazem isso.

    Davi: O primeiro-ministro David Ben-Gurion deu dois motivos. O primeiro era a segurança de um país recém-criado e atacado.

    Lia: O segundo era a igualdade cívica, dentro da ideia de "Exército do Povo", o Tzva Ha'am. A lei prevê isenções, por exemplo por motivo de consciência ou ligado à vida religiosa da família.

    Davi: Nos primeiros anos, as mulheres serviam no Corpo Feminino, o Chen. Faziam sobretudo trabalho administrativo, de ensino, de saúde e de apoio logístico.

    Lia: Agora imagine uma cena. Estamos em 1994. Alice Miller é engenheira aeronáutica formada pelo Technion e oficial das Forças de Defesa de Israel, as FDI.

    Davi: Ela já tem licença de piloto civil, tirada na África do Sul. Quer fazer os testes do curso de pilotos da Força Aérea. O exército recusa a inscrição.

    Lia: O argumento era que as mulheres serviam por menos tempo. Possíveis interrupções por maternidade não compensariam o custo de formar um piloto.

    Davi: Alice Miller levou o caso à Suprema Corte. Em 8 de novembro de 1995, a maioria dos juízes decidiu a favor dela.

    Lia: A Corte entendeu que razões de orçamento e de planejamento não justificavam excluir todas as mulheres da aviação militar. A juíza Tova Strasberg-Cohen escreveu uma frase que vale guardar.

    Davi: Ela escreveu: "Uma sociedade que respeita seus valores fundamentais e os direitos básicos de seus membros deve estar disposta a pagar um preço razoável para que o valor da igualdade não permaneça uma casca vazia."

    Lia: E as consequências vieram logo. Em 1998, a oficial Sheri se tornou a primeira mulher formada como navegadora de caça.

    Davi: Nos anos seguintes, vieram as primeiras pilotos de caça, de helicóptero e de aviões de transporte. Em 2000, o Knesset mudou a lei.

    Lia: Desde então, toda mulher tem o mesmo direito de um homem de exercer qualquer função nas FDI, salvo quando a natureza do posto exigir o contrário.

    Davi: E isso apareceu nos números. Segundo o Institute for National Security Studies, o INSS, havia 435 mulheres combatentes em 2005.

    Lia: Em 2017, já eram 2.700, um crescimento de cerca de seis vezes.

    Davi: Segundo o Israel Democracy Institute, em fevereiro de 2022 elas eram cerca de 18% da força combatente.

    Lia: Surgiram batalhões mistos de infantaria, começando pelo Caracal. E, em 2011, Orna Barbivai se tornou a primeira mulher promovida a major-general.

    Davi: Mas aqui é preciso honestidade. Há um debate interno sobre o tema.

    Lia: Um lado defende acesso igual a todas as funções. O outro diz que alguns postos de combate terrestre intenso exigem critérios físicos específicos, avaliados caso a caso.

    Davi: O próprio INSS avalia que essa "revolução" ainda está incompleta. O direito de disputar qualquer função é um fato jurídico. A integração plena ainda está em construção.

    Lia: Isso nos leva à terceira parte: o que ainda falta para as mulheres.

    Davi: A igualdade na lei é ampla, mas ainda não virou igualdade plena na prática. O próprio debate público israelense reconhece isso.

    Lia: No trabalho, persistem diferenças salariais e menos acesso a cargos de chefia. Na alta tecnologia, segundo as estimativas disponíveis, as mulheres são de 32% a 34% dos profissionais.

    Davi: Elas estão menos presentes na liderança das empresas, no empreendedorismo e na engenharia. Ao mesmo tempo, cresce a presença de grupos antes pouco representados, como as mulheres ultraortodoxas nos programas técnicos do instituto MAHAT.

    Lia: Outro ponto é o estado civil. Casamento e divórcio passam por autoridades religiosas, e líderes judeus, muçulmanos e drusos interpretam as leis como reservando aos homens o cargo de juiz religioso.

    Davi: Um aviso para quem está ouvindo: as próximas falas tratam de violência contra mulheres.

    Lia: A violência doméstica, a violência sexual e os assassinatos de mulheres continuam sendo problemas em Israel.

    Davi: E o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023 colocou no centro do debate as sobreviventes de violência sexual.

    Lia: Na política, depois de Golda Meir, nenhuma outra mulher chefiou o governo. E árabes cidadãs de Israel, beduínas, drusas, ultraortodoxas e imigrantes enfrentam obstáculos diferentes entre si.

    Davi: A Suprema Corte teve papel decisivo nesses avanços. Durante a crise da reforma judicial, esse papel virou alvo de forte disputa política.

    Lia: Esse debate não apaga os precedentes já firmados. Ele mostra uma democracia que discute seus temas às claras.

    Davi: Agora vamos à quarta parte: os direitos das pessoas LGBT.

    Lia: Israel tem a estrutura jurídica mais favorável a pessoas LGBT no Oriente Médio. E, como no caso das mulheres, essa proteção foi construída passo a passo.

    Davi: Em 1963, o procurador-geral orientou que a lei de sodomia herdada do Mandato Britânico deixasse de ser aplicada a adultos em privado.

    Lia: Em 1988, o Knesset aboliu essa lei. Em 1992, ficou proibida a discriminação por orientação sexual no emprego.

    Davi: Em 1993, as FDI passaram a aceitar soldados LGBT assumidos em qualquer função, inclusive em combate e em inteligência.

    Lia: Em 1994, no caso El Al contra Danilowitz, parceiros do mesmo sexo passaram a ter direito aos benefícios de cônjuge.

    Davi: E os casamentos? Lia, eu imagino que muita gente pergunta isso.

    Lia: Israel não celebra casamento civil dentro do país para nenhum casal. Mas, desde o caso Ben-Ari, de 2006, o Estado é obrigado a registrar casamentos homoafetivos feitos no exterior.

    Davi: Em 2022, casais masculinos ganharam acesso pleno à gestação de substituição, e a "terapia de conversão" feita por profissionais de saúde foi proibida.

    Lia: Em 2023, a Suprema Corte garantiu, por unanimidade, a adoção em igualdade de condições.

    Davi: Pessoas LGBT também chegaram à política. Uzi Even, que se assumiu em 1993, é apontado como o primeiro parlamentar abertamente gay de Israel.

    Lia: Em 2022, o ministro da Saúde era Nitzan Horowitz, também abertamente gay.

    Davi: E nas ruas? A primeira parada do orgulho de Tel Aviv foi em 1993, com apoio da prefeitura.

    Lia: Em 2018, ela reuniu cerca de 250 mil pessoas. É a maior parada do Oriente Médio.

    Davi: Chegamos à quinta parte, a mais polêmica: a acusação de "pinkwashing".

    Lia: "Pinkwashing" é a acusação de que Israel destacaria seus direitos LGBT só para melhorar a imagem e desviar a atenção do conflito com os palestinos.

    Davi: Ela aparece com frequência em campanhas de boicote. E não se sustenta.

    Lia: Primeiro, porque os direitos vieram de lutas, e não de marketing. Ativistas da Aguda, a associação LGBTQ+ de Israel, lembram que os avanços foram arrancados contra governos conservadores e religiosos.

    Davi: Segundo, porque a cronologia desmente a tese. Ninguém cria uma política de direitos com décadas de antecedência para usar como propaganda no futuro.

    Lia: Terceiro, porque há um problema de lógica. A acusação transforma uma conquista democrática em prova de culpa. Por esse raciocínio, quanto mais direitos um país garante, mais suspeito ele fica.

    Davi: Em 2016, a entidade italiana Certi Diritti condenou os boicotes feitos sob esse pretexto. Ela elogiou Israel como o único Estado do Oriente Médio a proteger legalmente a comunidade LGBTI.

    Lia: E aqui vale comparar com os vizinhos. Um aviso: as próximas falas mencionam tortura e execução.

    Davi: Em Gaza, controlada desde 2007 pelo grupo terrorista Hamas, relações entre homens são crime, com pena de até 10 anos de prisão.

    Lia: Em março de 2016, o Hamas torturou e executou um de seus próprios comandantes, Mahmoud Ishtiwi. As acusações incluíam sexo homossexual.

    Davi: Nas áreas da Autoridade Palestina em Judeia e Samaria, não há proteção legal. Há relatos de assédio e de detenções, e denúncias de que forças de segurança ameaçam expor homossexuais às famílias.

    Lia: Segundo o Pew Research Center, 93% dos palestinos entrevistados disseram que a sociedade não deve aceitar a homossexualidade. Isso mostra o peso do ambiente, e não um julgamento sobre cada pessoa.

    Davi: Por isso, estima-se que cerca de dois mil palestinos LGBT vivam em Tel Aviv a qualquer momento.

    Lia: O caminho nem sempre foi simples. Depois de ações movidas por ONGs, Israel passou a conceder vistos temporários e permissões de trabalho a esses refugiados. Uma democracia permite levar seus problemas à Justiça e corrigi-los.

    Davi: E também há desafios internos. Não existe casamento civil, setores conservadores resistem no Knesset e ainda há debates sobre os direitos das pessoas trans.

    Lia: Esses problemas são discutidos na imprensa, nos tribunais e no Parlamento. É o que um país faz quando os direitos são reais, e não uma fachada.

    Davi: Hora de fechar. Lia, quais são as três ideias-chave de hoje?

    Lia: Primeira: a igualdade das mulheres está na fundação de Israel e foi ampliada por leis e pela Suprema Corte, de Golda Meir às pilotos de caça.

    Davi: Segunda: os direitos LGBT em Israel são reais e antigos. Foram conquistados por ativismo e decisões judiciais, e por isso a acusação de "pinkwashing" não se sustenta.

    Lia: Terceira: ainda há lacunas, e Israel as debate às claras. Essa abertura não enfraquece a democracia israelense. Ela é a prova de que essa democracia funciona.

    Davi: No próximo e último episódio, vamos falar de "Ciência, água, medicina e cultura".

    Lia: Até lá, e obrigada por ouvir "Como funciona Israel", da Juventude Judaica Organizada.

  4. Episódio 4 · Ciência, água, medicina e cultura16 min · narração com vozes sintéticas
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    Lia: Olá, aqui é a Lia. Você está ouvindo "Como funciona Israel", a série em áudio da Juventude Judaica Organizada, a JJO.

    Davi: E eu sou o Davi. Este é o quarto e último episódio da série: "Ciência, água, medicina e cultura".

    Lia: No episódio anterior, falamos de mulheres, de pessoas LGBT e de direitos em Israel.

    Davi: Hoje a pergunta muda: como um país de clima árido e semiárido virou referência em tecnologia, em água, em medicina e até em séries de TV?

    Lia: Vamos em cinco paradas: tecnologia, água, medicina, ciência e cultura. No fim, deixamos três ideias-chave.

    Davi: Primeira parada: a tecnologia. Comece por uma cena comum. Você está preso no trânsito e abre o Waze no celular.

    Lia: O Waze foi criado por empreendedores israelenses. Mas atenção: ele não inventou os mapas digitais.

    Davi: A novidade foi juntar os dados enviados pelos próprios motoristas com o trânsito em tempo real. Em 2013, o Google comprou o Waze por 1,3 bilhão de dólares.

    Lia: Esse é um exemplo do que se chama de "nação das startups". Em 2021, Israel tinha 4.801 startups ativas, segundo o Escritório Central de Estatísticas.

    Davi: E o país investe pesado em pesquisa. Em 2022, aplicou 6,1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento civil.

    Lia: Nenhum país da OCDE investiu mais naquele levantamento. E quem paga a maior parte da conta não é o governo.

    Davi: São as empresas privadas. Cerca de 92,3% do gasto em pesquisa civil vem do setor empresarial.

    Lia: Aí vem a pergunta que todo ouvinte faz: por que Israel?

    Davi: Não existe uma explicação mágica. São fatores que se reforçaram ao longo de décadas.

    Lia: O primeiro é uma reforma. Em 1985, o Plano de Estabilização Econômica, do primeiro-ministro Shimon Peres, cortou gastos, abriu mercados e abriu espaço para o empreendedorismo privado.

    Davi: O segundo é a imigração. Nos anos 1990, Israel recebeu mais de 1 milhão de imigrantes da ex-União Soviética.

    Lia: Muitos eram engenheiros e cientistas. O terceiro fator é o capital de risco, estimulado pelo governo no início daquela década.

    Davi: E o quarto é o serviço militar. Unidades tecnológicas e de inteligência das Forças de Defesa de Israel funcionam como escolas de talentos em tecnologia e cibernética.

    Lia: Há também uma dependência: entre 75% e 80% do capital de risco das startups israelenses vem de investidores estrangeiros.

    Davi: Agora, algumas criações. A Mobileye foi fundada em Israel por Amnon Shashua e Ziv Aviram. Ela desenvolveu visão computacional para ajudar o motorista a detectar faixas, veículos e pedestres.

    Lia: E o pen drive? A M-Systems, de Dov Moran, patenteou em 1999 um dispositivo portátil de memória flash, vendido como DiskOnKey.

    Davi: Dizer que "Israel inventou o pen drive" simplifica demais, porque houve trabalhos anteriores e paralelos. O mérito israelense está numa implementação importante e na sua comercialização.

    Lia: Há ainda o Iron Dome, sistema de defesa contra foguetes de curto alcance, desenvolvido principalmente pela Rafael, com órgãos israelenses e apoio dos Estados Unidos.

    Davi: As taxas de interceptação acima de 90% são números oficiais de episódios específicos. O índice varia conforme o período, o tipo de ameaça e o método de cálculo.

    Lia: Segunda parada: a água. Imagine abrir a torneira num país de clima árido. De onde vem essa água?

    Davi: De três fontes. Das fontes naturais do norte, como o Lago Kinneret, o Mar da Galileia. Da dessalinização da água do mar. E do esgoto tratado e reutilizado.

    Lia: Tudo começa com uma decisão política. A Lei da Água, de 1959, tornou toda a água do país propriedade pública.

    Davi: Depois, a Mekorot, a companhia nacional de água, construiu o Aqueduto Nacional, inaugurado em 1964. Ele leva água do norte até o deserto do Negev, no sul.

    Lia: E a dessalinização? Como se tira o sal do mar?

    Davi: Por osmose reversa. A água do Mediterrâneo é empurrada sob pressão por membranas que retêm o sal.

    Lia: Israel construiu cinco grandes usinas na costa: Ashkelon, Palmachim, Hadera, Sorek e Ashdod. A primeira entrou em operação em 2005.

    Davi: Hoje, a água dessalinizada atende entre 80% e 85% da demanda doméstica de água potável, segundo dados oficiais.

    Lia: Você talvez já tenha ouvido que Sorek é a maior dessalinizadora do mundo.

    Davi: O próprio governo de Israel diz que ela está entre as maiores. O título de "maior" depende do critério de medição, e os rankings mudam.

    Lia: Agora, o esgoto. Cerca de 87% dos efluentes tratados voltam para a agricultura, segundo o Centro de Pesquisa do Knesset.

    Davi: Um exemplo é o Shafdan, que trata o esgoto da região de Tel Aviv. A água tratada é injetada em dunas de areia e se purifica naturalmente.

    Lia: Esse processo leva de seis a doze meses. Depois, a água é bombeada para irrigar o Negev.

    Davi: Assim, a água potável fica para as pessoas, e a lavoura usa água reciclada.

    Lia: E entra em cena o gotejamento. O engenheiro Simcha Blass e a empresa Netafim foram decisivos para levar o gotejamento moderno à agricultura em grande escala.

    Davi: A Netafim foi fundada em 1965, no kibutz Hatzerim. O gotejamento leva a água direto à raiz e permite que água e nutrientes cheguem juntos à planta.

    Lia: E o gotejamento atinge cerca de 90% de eficiência no uso da água, contra cerca de 75% da aspersão.

    Davi: Mas, se a área irrigada cresce, o consumo total de água não cai necessariamente.

    Lia: O resultado aparece na produtividade. Na segunda metade do século vinte, a produção agrícola cresceu 21,2 vezes, enquanto a água para irrigação cresceu só quatro vezes.

    Davi: E o Brasil entra nessa história. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Regional, metodologias israelenses são aplicadas no Semiárido nordestino desde a década de 1960.

    Lia: Um canal é a MASHAV, agência israelense de cooperação internacional, criada em 1958. Especialistas do seu centro de treinamento agrícola, o MATC, trabalham no Brasil com comunidades e órgãos locais.

    Davi: E é uma troca. A Embrapa desenvolve soluções próprias, como a captação de água da chuva, e o Brasil adapta esse conhecimento à sua realidade.

    Lia: Para quem é jornalista ou professor, vale um cuidado: uma missão ou acordo não prova, sozinho, adoção em larga escala.

    Davi: Também há custos, como energia e descarte da salmoura. O modelo inspira, mas não se copia por inteiro.

    Lia: Terceira parada: a medicina. Comece por uma cápsula. O paciente engole uma pílula com uma pequena câmera dentro.

    Davi: É a PillCam, desenvolvida pela empresa israelense Given Imaging. Ela permite examinar o intestino delgado sem a endoscopia convencional.

    Lia: Há também o Copaxone, da Teva, um tratamento importante para formas recorrentes da esclerose múltipla.

    Davi: E o ReWalk, um exoesqueleto robótico que ajuda pessoas com lesão medular a ficar em pé e caminhar. É um dispositivo de mobilidade, não uma cura para a paralisia.

    Lia: Por trás disso, existe um sistema público e universal. A lei garante atendimento a todos os residentes, por meio de quatro Caixas de Saúde sem fins lucrativos.

    Davi: E quase toda a população tem prontuário eletrônico.

    Lia: O sistema tem desafios: diferenças de qualidade entre o centro e a periferia, e gastos das famílias do próprio bolso relativamente altos.

    Davi: Mesmo assim, os resultados são fortes. Israel tem a quarta maior expectativa de vida da OCDE.

    Lia: E gasta cerca de 7,6% do PIB em saúde, menos que Alemanha, Áustria e Suíça.

    Davi: Isso ajudou na pandemia. Em dezembro de 2020, Israel fechou acordos com a Pfizer-BioNTech.

    Lia: Em troca das vacinas, Israel enviava toda semana dados anonimizados sobre eficácia, hospitalizações e segurança. Esses dados viraram uma das principais bases científicas do mundo sobre a vacina em condições reais.

    Davi: A vacinação, porém, não foi uniforme. Houve diferenças por idade, localização, situação socioeconômica e status de residência.

    Lia: Críticos também levantaram a questão da vacinação de palestinos de Judeia e Samaria e de Gaza.

    Davi: Israel lembra que, pelos Acordos de Oslo, a saúde dessa população é responsabilidade da Autoridade Palestina, que assumiu a própria campanha de vacinação.

    Lia: A medicina israelense também atravessa fronteiras. A organização Save a Child's Heart faz cirurgias cardíacas em crianças, principalmente no Wolfson Medical Center, em Holon.

    Davi: Segundo a própria organização, desde 1995 ela tratou mais de 8 mil crianças.

    Lia: Cerca de metade veio de comunidades palestinas de Judeia e Samaria e de Gaza, do Iraque e do Marrocos.

    Davi: Ela também mantém uma clínica gratuita semanal, onde examina de 20 a 25 crianças palestinas por semana.

    Lia: E, durante a guerra civil síria, hospitais do norte de Israel, sobretudo o Hospital Ziv, em Safed, trataram sírios feridos, entre eles civis.

    Davi: Um aviso: o próximo trecho fala de guerra e de violência.

    Lia: A guerra em Gaza foi iniciada pelo ataque do grupo terrorista Hamas contra Israel, em 2023.

    Davi: Segundo o balanço oficial do governo de Israel, o país coordenou sete hospitais de campanha em Gaza e três hospitais flutuantes em Al-Arish, no Egito.

    Lia: Foram 850 leitos adicionais e mais de 50 mil atendimentos.

    Davi: Críticos dizem que a ajuda foi insuficiente diante dos danos e das restrições.

    Lia: Israel e as FDI respondem que o Hamas instalou estruturas militares em hospitais, usa civis como escudo e desviou ajuda humanitária.

    Davi: A discussão sobre a suficiência não apaga a responsabilidade de quem começou a guerra, mantém reféns e usa civis como escudo: o Hamas.

    Lia: O sofrimento dos civis palestinos é real. E, mesmo em guerra contra um grupo terrorista, Israel manteve canais de atendimento à população civil de Gaza.

    Davi: Aqui termina o trecho sobre a guerra.

    Lia: Quarta parada: a ciência. Os Prêmios Nobel ligados a Israel se concentram em Química e Economia.

    Davi: Quase todos foram para pesquisadores de três instituições: o Technion, o Instituto Weizmann e a Universidade Hebraica de Jerusalém.

    Lia: Em 2004, Avram Hershko e Aaron Ciechanover, professores do Technion, ganharam o Nobel de Química. Eles descobriram como as células degradam proteínas com a ajuda da ubiquitina.

    Davi: Em 2009, foi a vez de Ada Yonath, pelos estudos sobre o ribossomo. Ela fez parte central da carreira no Instituto Weizmann.

    Lia: Em 2011, Dan Shechtman, do Technion, venceu pela descoberta dos quasicristais.

    Davi: Na Economia, Daniel Kahneman venceu em 2002, com estudos sobre decisões sob incerteza.

    Lia: E Robert Aumann, associado à Universidade Hebraica, venceu em 2005 pela teoria dos jogos.

    Davi: Um detalhe de precisão: o Nobel é sempre um prêmio individual. Dizer que um país "ganhou" é uma forma abreviada de falar.

    Lia: E a base disso é gente. Israel tem cerca de 140 cientistas e técnicos para cada 10 mil trabalhadores.

    Davi: Nos Estados Unidos, são 85. No Japão, 83.

    Lia: Quinta e última parada: a cultura. Ela une matrizes ocidentais modernas e tradições do Oriente Médio.

    Davi: Isso vem da própria população: judeus de origens diferentes, cidadãos árabes, drusos e outras comunidades convivem e criam juntos.

    Lia: Na música, o estilo mizrahi se popularizou nos anos 1970, graças às fitas cassete. Ele mistura melodias árabes e do Oriente Médio com letras em hebraico.

    Davi: Zohar Argov foi um dos seus grandes nomes. Depois, Ofra Haza, de origem iemenita, levou essa sonoridade ao mundo com o álbum "Yemenite Songs", de 1984.

    Lia: Em 1998, Dana International venceu o Eurovision com a canção "Diva".

    Davi: E o grupo A-WA fez sucesso com "Habib Galbi", cantada em árabe iemenita.

    Lia: No cinema, Israel produziu 44 longas-metragens em 2023.

    Davi: E o Supremo Tribunal protege a liberdade artística. No caso do documentário "Jenin, Jenin", a corte aplicou o teste da "certeza quase absoluta". O Estado só pode restringir uma obra em situações extremas.

    Lia: Na televisão, a série mais conhecida fora do país é "Fauda", que circulou em plataformas globais e ganhou adaptações internacionais.

    Davi: E na literatura, Amos Oz, romancista, ensaísta e professor na Universidade Ben-Gurion do Negev, é referência mundial.

    Lia: O mercado editorial é ativo: em 2023, o país publicou 6.039 títulos de livros.

    Davi: Hora das três ideias-chave.

    Lia: Primeira: a inovação israelense nasce de um ecossistema, com universidades, empresas, capital de risco e instituições públicas. Não é fruto de uma característica de grupo.

    Davi: Segunda: na água, o segredo é um sistema. Lei, rede nacional, dessalinização, reúso e gotejamento funcionam juntos. Nenhuma peça funciona sozinha.

    Lia: Terceira: a ciência e a medicina de Israel alcançam o mundo, inclusive crianças palestinas. E, mesmo na guerra iniciada pelo Hamas, Israel manteve canais de atendimento aos civis de Gaza.

    Davi: E assim fechamos a série "Como funciona Israel".

    Lia: Ao longo destes episódios, tentamos fazer uma coisa simples: mostrar o país como ele é, com dados precisos, conquistas reais e desafios reconhecidos.

    Davi: Precisão não enfraquece Israel. Pelo contrário: um país que transforma escassez de água em solução e compartilha esse conhecimento com mais de 140 países não precisa de slogan.

    Lia: Precisa ser conhecido de verdade. Obrigada por ouvir a série da Juventude Judaica Organizada.

    Davi: Até a próxima.

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Lia: O que é sionismo?

Davi: Sionismo é o movimento de libertação nacional do povo judeu. Ele nasceu na Europa, no fim do século 19. Defende a autodeterminação judaica na Terra de Israel.

Lia: Autodeterminação é uma palavra grande.

Davi: Autodeterminação é o direito de um povo decidir o próprio destino. No sionismo, isso significou buscar um lar nacional e, para muitas correntes, um Estado.

Lia: E o nome vem de Sião.

Davi: Isso. Sião é um dos nomes bíblicos de Jerusalém. O desejo de voltar a Sião aparece na tradição judaica há séculos. O sionismo moderno transformou essa esperança em um projeto político.

Lia: Um projeto que surgiu num momento difícil.

Davi: Sim. Ele nasceu em meio ao antissemitismo europeu, que é o preconceito e o ódio contra judeus. Nasceu também na onda de nacionalismos da época. Pensadores judeus passaram a defender que o povo judeu assumisse o controle do próprio destino.

Lia: Muita gente associa isso a Theodor Herzl.

Davi: Herzl é chamado de pai do sionismo político moderno. Ele era jornalista. Em 1897, convocou o Primeiro Congresso Sionista, em Basileia, na Suíça. Esse congresso fundou a Organização Sionista.

Davi: Mas ele não foi o primeiro a defender a vida judaica na Terra de Israel.

Lia: Quem veio antes dele?

Davi: Pensadores como Moses Hess e Leon Pinsker. E também grupos chamados Amantes de Sião, que criaram os primeiros assentamentos agrícolas. Herzl organizou e internacionalizou o movimento.

Davi: No seu diário, Herzl escreveu que tinha fundado o Estado judeu em Basileia. E previu que, em cinquenta anos, todos veriam isso.

Lia: Cinquenta anos é bastante tempo.

Davi: No caminho, houve a Declaração Balfour, o Mandato Britânico e o Holocausto. Em 1947, veio a proposta da ONU de dividir o território em um Estado judeu e um Estado árabe.

Davi: A liderança sionista aceitou a proposta. A liderança árabe palestina e os Estados árabes a rejeitaram.

Davi: Israel foi proclamado em 14 de maio de 1948. Para o movimento sionista, foi a realização da autodeterminação judaica e uma resposta ao antissemitismo.

Davi: Para os palestinos, o mesmo processo é lembrado como Nakba, que quer dizer catástrofe. A palavra se refere ao deslocamento de centenas de milhares de palestinos, que é um fato documentado.

Lia: E sionismo é o mesmo que judaísmo?

Davi: Não. Judaísmo é a religião e a tradição milenar do povo judeu. Sionismo é um movimento político e nacional moderno. Os dois se cruzam, mas não são a mesma coisa.

Lia: Então dá para ser sionista sem ser religioso.

Davi: Dá. Há sionistas religiosos e laicos, de esquerda, de centro e de direita. Também há judeus que não são sionistas e sionistas que não são judeus.

Lia: E criticar o governo de Israel faz parte do debate.

Davi: Faz, como se critica qualquer outro país. Mas negar ao povo judeu o direito à autodeterminação é antissemitismo, pela definição da IHRA. Dizer que Israel não tem direito de existir é um exemplo disso.

Lia: Resumindo: sionismo é o movimento de libertação nacional do povo judeu, que levou à criação do Estado de Israel. Mais em jjo.org.br.

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Lia: O que é antissemitismo?

Davi: É o preconceito, o ódio ou a discriminação contra judeus, por serem judeus.

Davi: Segundo o Museu do Holocausto dos Estados Unidos, quem criou a palavra, em 1879, foi o jornalista alemão Wilhelm Marr.

Lia: Mas se a palavra é de 1879, o ódio é mais velho?

Davi: Bem mais velho. Ele tem mais de dois mil anos.

Davi: Na Antiguidade e na Idade Média, era uma hostilidade religiosa. Muitos historiadores chamam isso de antijudaísmo.

Davi: Uma das acusações mais antigas era o deicídio.

Lia: Deicídio é culpar todos os judeus pela morte de Jesus.

Davi: Isso. E é uma acusação falsa. Jesus era judeu, e a crucificação era uma pena romana.

Davi: Outra mentira foi o libelo de sangue: dizer que judeus matavam crianças cristãs em rituais. Esses rumores viravam pretexto para ataques.

Lia: E Marr quis mudar o motivo desse ódio.

Davi: Exato. Ele apresentou os judeus como uma "raça", e não mais como uma religião. Nessa visão, nem a conversão ao cristianismo apagava a identidade judaica.

Davi: Nessa época, as teorias conspiratórias ganharam força. A mais famosa são os Protocolos dos Sábios de Sião, um falso plano judeu de dominação mundial.

Davi: Segundo o Museu Yad Vashem, ele foi produzido pela polícia secreta do czar e publicado em 1903.

Davi: Era plágio de uma sátira de Maurice Joly. O jornal The Times, de Londres, provou a fraude.

Lia: Mesmo sendo falso, ele foi usado.

Davi: Foi usado pelos nazistas e circula até hoje.

Davi: Na Alemanha, o regime nazista excluiu os judeus passo a passo, com discriminação, leis e propaganda.

Davi: Esse caminho chegou ao seu ponto mais extremo no Holocausto, que assassinou cerca de seis milhões de judeus.

Lia: Então o genocídio não começou nas câmaras de gás.

Davi: Não. Começou com discriminação e leis.

Lia: E depois de 1945 o antissemitismo não desapareceu.

Davi: Não. Ele mudou de forma. Hoje aparece na negação do Holocausto e em mitos conspiratórios, como o cifrão na grafia "I$rael".

Davi: No Brasil, o racismo é punido pela Lei 7.716/1989.

Davi: Em 2003, no caso Ellwanger, o Supremo Tribunal Federal decidiu que publicar material antissemita e negacionista é crime de racismo.

Davi: Outra forma atual é o antissemitismo ligado a Israel.

Lia: Então criticar Israel é antissemitismo?

Davi: Criticar o governo de Israel, como se critica qualquer outro governo, não é.

Davi: Mas a JJO adota a definição da IHRA. Por ela, é antissemitismo negar o direito de Israel existir, aplicar a Israel padrões duplos ou culpar judeus do mundo inteiro pelas ações do Estado.

Davi: Confundir uma coisa com a outra enfraquece a resposta.

Lia: Resumindo: antissemitismo é o ódio aos judeus por serem judeus. Ele muda de forma, mas não desaparece.

Davi: E combatê-lo começa por reconhecer esses sinais, responder com fatos e denunciar pelos canais formais, sem ódio a nenhum povo ou religião.

Lia: Mais em jjo.org.br.

A definição da IHRA3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é a definição da IHRA?

Davi: IHRA é a sigla em inglês da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Ela reúne mais de 30 países que se comprometem com a educação, a memória e a pesquisa sobre o Holocausto.

Lia: E quando surgiu essa definição?

Davi: Em 2016, em Bucareste, os países da aliança aprovaram por unanimidade uma definição prática de antissemitismo. Hoje ela é a mais adotada no mundo, e é a que a JJO segue.

Lia: Então ela serve para reconhecer o antissemitismo quando ele aparece.

Davi: Isso. Em palavras simples, antissemitismo é preconceito ou hostilidade contra judeus. Já já eu leio como a IHRA define.

Lia: Pode ler.

Davi: O texto diz: "O antissemitismo é uma determinada perceção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação aos judeus." Pode atingir pessoas judias e também não judias, além de bens, instituições comunitárias e locais religiosos judaicos.

Lia: E isso vale para palavras, não só para agressões.

Davi: Vale. Discurso de ódio e ataque físico entram na mesma definição. A IHRA também traz 11 exemplos, sempre avaliados conforme o contexto. Um deles é culpar os judeus de qualquer lugar pelo que faz o Estado de Israel.

Lia: Muita gente acha que essa definição proíbe criticar Israel.

Davi: Não proíbe. O próprio texto diz que a crítica a Israel semelhante à dirigida a qualquer outro país não pode ser considerada antissemita. Discordar de um governo e cobrar respeito aos direitos humanos são críticas legítimas.

Lia: E quando a crítica cruza a linha?

Davi: Quando usa estereótipos antigos contra judeus, como o mito de que eles controlam a mídia ou a economia. Ou quando exige de Israel o que não se exige de nenhum outro país democrático. Isso se chama duplo padrão.

Lia: E tem também quem diga que Israel nem deveria existir.

Davi: Aí entra outro exemplo da IHRA: negar ao povo judeu o direito à autodeterminação, ou seja, o direito de um povo decidir o próprio destino. Por esse critério, que a JJO adota, negar o direito de Israel existir é antissemitismo. Lembrando que cada caso é avaliado conforme o contexto.

Lia: Para quem é professor, vale saber como isso funciona aqui.

Davi: A definição não é lei. Ela não cria crimes nem penas, mas orienta governos, escolas e polícias. No Brasil, vários estados e capitais aderiram, e há projetos de lei no Congresso. Ainda não existe lei federal geral sobre o tema.

Lia: Resumindo: a definição da IHRA ajuda a reconhecer o antissemitismo e protege a crítica legítima a Israel. Por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo. Mais em jjo.org.br.

O teste dos 3D4 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é o teste dos 3D?

Davi: É uma regra prática para saber quando um discurso sobre Israel deixa de ser crítica política e vira antissemitismo.

Davi: Quem criou foi Natan Sharansky, em 2004. Ele foi dissidente e prisioneiro político na União Soviética. Depois, foi ministro de Israel para Assuntos da Diáspora.

Lia: Mas criticar um governo é normal.

Davi: É normal e bem-vindo numa democracia. Só que, nas palavras de Sharansky, o antissemitismo pode se esconder "atrás do verniz da crítica legítima a Israel". O teste serve para tirar esse verniz.

Lia: Então me conta quais são os três D.

Davi: O primeiro é demonização: retratar Israel ou os judeus como o mal absoluto. Por exemplo, comparar israelenses a nazistas ou dizer que "os judeus controlam" a imprensa.

Lia: Agora o segundo.

Davi: Deslegitimação. É negar só ao povo judeu o direito à autodeterminação, ou seja, o direito de ser uma nação com Estado próprio. Muitos defendem esse direito para palestinos, curdos e armênios. Recusar só aos judeus é usar uma régua exclusiva.

Davi: A IHRA é a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Entre os exemplos que ela dá de antissemitismo está negar ao povo judeu o direito à autodeterminação, por exemplo dizendo que a existência de Israel é um empreendimento racista. Por esse critério, adotado pela JJO, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

Lia: Falta o terceiro.

Davi: Duplo padrão é cobrar de Israel o que não se cobra de nenhum outro país. Sharansky lembrou que, por décadas, o serviço de resgate israelense Magen David Adom ficou fora da Cruz Vermelha Internacional. Enquanto isso, serviços de outros países eram aceitos.

Davi: Outro exemplo é o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Lá, Israel é o único país com uma pauta permanente própria, o Item 7.

Davi: Essa pauta foi criada em 2007.

Lia: Isso já prova duplo padrão?

Davi: Sozinho, não. Contar críticas não basta. O teste exige uma comparação real: a mesma prática, em outro país, gera a mesma reação? Se não gera, e não há razão relevante para a diferença, há duplo padrão.

Lia: Então criticar Israel é sempre antissemitismo?

Davi: Não. Criticar uma operação militar ou uma medida do governo é legítimo, desde que a crítica mire atos concretos, e não os judeus como grupo. A própria IHRA diz isso.

Lia: Mas tem gente que diz que esse teste serve para calar o debate.

Davi: O próprio critério responde. Ele não mira a crítica a políticas. Mira a demonização, a negação da legitimidade do povo judeu e os ataques a judeus. E cada caso exige olhar o contexto.

Davi: Os 3D vieram antes e inspiraram os exemplos sobre Israel da definição de trabalho da IHRA, adotada em 2016. A definição completa é mais ampla. Ela cobre também o antissemitismo clássico e a negação do Holocausto.

Lia: Então são três perguntas: há demonização? Há deslegitimação? Há duplo padrão? Se alguma resposta for sim, olhe o contexto, o alvo e a comparação. Se isso se confirmar, a crítica virou antissemitismo.

Davi: Resumindo: criticar Israel é legítimo, mas demonizar, deslegitimar ou aplicar duplo padrão é antissemitismo. Mais em jjo.org.br.

Shoá4 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é a Shoá? Já ouvi essa palavra na escola, mas não sei bem o que quer dizer.

Davi: Shoá é uma palavra em hebraico. Quer dizer "catástrofe". É o nome que Israel e muitos judeus usam para o Holocausto.

Davi: Holocausto e Shoá são dois nomes para o mesmo crime: o assassinato de cerca de seis milhões de judeus.

Davi: Os responsáveis foram a Alemanha nazista, seus aliados e seus colaboradores. Os judeus foram o alvo principal. Eles foram o único grupo que os nazistas quiseram destruir por inteiro, sem exceção.

Davi: Tudo começou quando Hitler chegou ao poder, em 1933.

Davi: A perseguição piorou em etapas. Primeiro, os judeus perderam direitos e tiveram seus bens roubados. Depois, foram trancados em guetos. Por fim, vieram os assassinatos em massa.

Davi: Um exemplo concreto: o Gueto de Varsóvia, na Polônia. Foi o maior de todos. Cerca de 480 mil judeus chegaram a ser confinados ali.

Davi: Lá dentro havia fome, doenças e trabalho forçado. As pessoas viviam assim até serem deportadas.

Davi: Os judeus foram mortos nos guetos, em fuzilamentos em massa e em campos de extermínio, como Auschwitz-Birkenau e Treblinka. Esses campos foram criados principalmente para matar pessoas em massa.

Davi: Os nazistas também perseguiram e mataram outros grupos, como os ciganos, pessoas com deficiência e opositores políticos.

Lia: E como a gente sabe que tudo isso aconteceu?

Davi: O Holocausto é um dos fatos mais documentados da história. Existem documentos dos próprios nazistas, fotografias, restos dos campos, testemunhos de sobreviventes e julgamentos.

Davi: Existem também provas deixadas pelas próprias vítimas. No Gueto de Varsóvia, um grupo liderado pelo historiador Emanuel Ringelblum montou um arquivo secreto, chamado Oneg Shabbat.

Davi: Eles enterraram esse arquivo em caixas e latões de leite. Depois da guerra, parte dele foi desenterrada. É a voz de quem estava lá.

Davi: Os historiadores discutem alguns detalhes, como datas e formas de contar as vítimas. Esses debates não colocam em dúvida que o Holocausto aconteceu, nem o seu tamanho.

Lia: E por que é tão importante lembrar a Shoá hoje?

Davi: Primeiro, para honrar as vítimas e os sobreviventes. Todo ano, no dia 27 de janeiro, o mundo lembra deles.

Davi: Foi nesse dia que o Exército soviético libertou Auschwitz-Birkenau.

Davi: Segundo, porque ainda há quem negue ou minimize o Holocausto. Pela definição de antissemitismo da IHRA, adotada pela JJO, isso é antissemitismo.

Davi: A mesma definição inclui comparar a política de Israel com a dos nazistas. Essa comparação transforma o maior crime contra os judeus em uma acusação contra os judeus.

Davi: E criticar o governo de Israel não é antissemitismo. Negar ou minimizar o Holocausto é.

Davi: No Brasil, isso também é assunto da Justiça. Em 2003, o STF decidiu que publicar material antissemita e negacionista é crime de racismo.

Lia: Então, resumindo: a Shoá foi o plano nazista de matar cada judeu da Europa. Lembrar desse crime e combater sua negação é proteger a verdade.

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Negacionismo do Holocausto3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é negacionismo do Holocausto?

Davi: É negar que o Holocausto aconteceu. Ou diminuir o número de vítimas.

Lia: Só isso?

Davi: Também é dizer que ele é "explorado". Tudo isso é uma forma de antissemitismo, ou seja, de ódio contra judeus.

Lia: E por que isso é grave?

Davi: Porque o Holocausto aconteceu. Foi a perseguição e o assassinato sistemático de cerca de seis milhões de judeus europeus pela Alemanha nazista, seus aliados e colaboradores. O negacionismo não é "outra versão" da história. É desinformação e preconceito.

Lia: E o Holocausto é um dos fatos mais documentados da história.

Davi: Isso. As provas incluem documentos dos próprios nazistas, os campos, fotografias, julgamentos e milhões de testemunhos. Um exemplo concreto é a Conferência de Wannsee, em Berlim.

Lia: Uma reunião dos próprios nazistas.

Davi: Ali, em 20 de janeiro de 1942, sob o comando de Reinhard Heydrich e com a participação de Adolf Eichmann, autoridades nazistas coordenaram a deportação e o extermínio dos judeus.

Lia: E eles deixaram isso por escrito.

Davi: Sim. O protocolo da reunião lista cerca de 11 milhões de judeus europeus como alvo. Quem nega o Holocausto precisa ignorar os papéis dos perpetradores, ou seja, de quem cometeu os crimes.

Lia: As vítimas também registraram o que viviam.

Davi: No Gueto de Varsóvia, o historiador Emanuel Ringelblum organizou em segredo o Arquivo Oneg Shabbat. Ali foram guardados diários, relatórios e fotografias. Ringelblum e seus colaboradores arriscaram a vida para que essa memória não se perdesse.

Lia: Depois da guerra, veio a justiça.

Davi: Lembra do Eichmann, de Wannsee? Em 1961, ele foi julgado em Jerusalém.

Lia: Em Israel.

Davi: Isso. O julgamento teve como base uma lei israelense de 1950 contra nazistas e colaboradores. Ele levou dezenas de testemunhos de sobreviventes ao centro do debate público mundial.

Lia: E aqui no Brasil o tema também chegou à Justiça.

Davi: No Brasil, o Supremo Tribunal Federal decidiu, no caso Ellwanger, que publicar material antissemita e negacionista não está protegido pela liberdade de expressão. É crime de racismo. Também é inafiançável, ou seja, não se paga fiança para sair da prisão. E é imprescritível, isto é, pode ser punido a qualquer tempo.

Lia: Pode acontecer de alguém repetir uma frase negacionista na sala de aula.

Davi: Para estudantes e professores, o caminho é o mesmo. Responda com calma e com fontes, e use o momento para aprender. Casos graves seguem os canais da escola.

Lia: E combater o antissemitismo também é combater qualquer ódio a povos ou religiões.

Davi: Em resumo: negar ou minimizar o Holocausto não é opinião, é antissemitismo, e os fatos estão provados.

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Justos entre as Nações3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: Davi, o que é um Justo entre as Nações?

Davi: É um título oficial do Estado de Israel. Ele homenageia pessoas não judias que arriscaram a vida, a liberdade ou a carreira para salvar judeus no Holocausto. E sem pedir nada em troca. A expressão vem da tradição judaica. Em hebraico, se diz Khassidei Umot HaOlam. São os não judeus que ajudaram o povo judeu em momentos de grande perigo.

Lia: E como alguém faz isso, na prática?

Davi: De muitas formas. Os Justos esconderam judeus em casas e fazendas, às vezes por anos. Falsificaram documentos. Emitiram vistos para que as pessoas fugissem. Acolheram crianças cujos pais tinham sido presos ou deportados. Um exemplo vem da Ucrânia. A jovem Raisa Agranovich sobreviveu, ferida, a um fuzilamento em massa em Seredina Buda. Ela rastejou para fora da vala comum. O policial Pavel Natarov a resgatou. Ele e a esposa, Maria Zhitkova, a criaram como filha.

Lia: E quem decide quem recebe o título?

Davi: O Yad Vashem, o memorial do Holocausto de Israel, em Jerusalém. Cada caso passa por uma comissão independente, presidida por um juiz da Suprema Corte de Israel. Ser uma pessoa boa não basta. A comissão exige provas de quatro condições. A pessoa precisa ter participado ativamente do resgate. Precisa ter corrido um risco real. Não pode ter cobrado por isso. E é preciso haver o testemunho dos sobreviventes ou documentos claros e confirmados.

Davi: O Brasil tem dois Justos. Um deles é Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. Ela trabalhava no consulado do Brasil em Hamburgo, na Alemanha nazista. Usou sua posição para ajudar judeus a conseguir vistos e escapar. O Yad Vashem a reconheceu em 1982.

Davi: O outro é o embaixador Luiz Martins de Souza Dantas. Ele servia em Vichy, na França, e concedeu vistos a judeus e a outros perseguidos, mesmo contra as instruções do governo brasileiro. Para diplomatas como ele, o risco era perder o cargo e a carreira.

Davi: A lista reúne pessoas de 51 países. Há cristãos, muçulmanos e ateus. Há agricultores, professores e diplomatas. O médico egípcio Mohamed Helmy, que vivia em Berlim, escondeu a jovem judia Anna Boros e sua família. Ele foi o primeiro árabe a receber o título.

Davi: Cada Justo recebe uma medalha com seu nome e um certificado de honra. O nome fica gravado no Muro de Honra do Jardim dos Justos, no Yad Vashem. Também são plantadas árvores na Alameda dos Justos. Assim, o exemplo dessas pessoas fica para as próximas gerações.

Lia: Então, Justo entre as Nações é quem, sem ser judeu, arriscou tudo para salvar judeus do Holocausto. É a prova de que a coragem moral não pertence a um povo nem a uma fé. Mais em jjo.org.br.

Torá e Talmude3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: Davi, o que é a Torá? E o que é o Talmude? São a mesma coisa?

Davi: Não são, mas estão ligados. Vamos começar pela Torá. Ela é formada pelos cinco primeiros livros da Bíblia hebraica.

Davi: São eles: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. A Torá é o texto central do judaísmo.

Davi: Em sentido amplo, "Torá" também quer dizer ensinamento. Pode significar toda a tradição judaica de estudo.

Davi: A Torá faz parte de algo maior, o Tanakh. Esse é o nome judaico da Bíblia Hebraica, com 24 livros.

Davi: O Tanakh tem três partes: a Torá, os Nevi'im, que são os Profetas, e os Ketuvim, que são os Escritos.

Lia: E onde entra o Talmude?

Davi: Ao redor do Tanakh nasceu uma longa tradição de interpretação. Primeiro veio a Mishná, a primeira compilação escrita da lei oral.

Davi: Ela foi organizada por volta do ano 200 d.C., sob a liderança do rabino Yehudá HaNasi.

Davi: Depois veio a Guemará, que reúne debates e comentários dos sábios. A Mishná somada à Guemará forma o Talmude.

Davi: Pense numa sala de aula. Um texto fica no centro e vários alunos discutem o que ele quer dizer. Cada um dá sua opinião, e todas ficam registradas, inclusive as que discordam.

Davi: O Talmude é parecido. Ele guarda séculos de argumentação, com opiniões divergentes e até casos hipotéticos, criados para testar ideias.

Davi: Existem duas versões: o Talmude de Jerusalém e o Babilônico. O Babilônico é o mais extenso e o de maior autoridade para o direito judaico.

Lia: Na internet circulam listas de "citações chocantes do Talmude". Elas são verdadeiras?

Davi: Não. Essas listas são falsas.

Davi: Elas misturam frases inventadas, traduções cortadas e trechos fora de contexto.

Davi: Muitas vêm de panfletos antissemitas. Fazem parte da mesma tradição de falsificação dos Protocolos dos Sábios de Sião, como documenta o Museu do Holocausto dos EUA.

Davi: O Talmude não manda odiar quem não é judeu. O próprio texto ensina: "quem salva uma vida é como se salvasse um mundo inteiro".

Davi: Essa frase está na Mishná, no tratado Sanhedrin, capítulo 4, trecho 5.

Davi: Então fica uma dica: quando alguém mostrar uma "citação", peça sempre o tratado e a página. Assim dá para conferir.

Davi: E vale lembrar: o Talmude não é um "segundo livro bíblico". Ele é um registro de estudo e debate.

Lia: Resumindo: a Torá é o ensinamento central do judaísmo, e o Talmude é o grande registro dos debates dos sábios sobre esse ensinamento.

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Shabat3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é o Shabat? Todo mundo fala dele, mas o que acontece nesse dia?

Davi: O Shabat é o dia de descanso semanal do judaísmo. É um tempo separado e sagrado.

Davi: Ele começa na sexta-feira, pouco antes do pôr do sol. E termina no sábado à noite, quando aparecem as primeiras estrelas.

Davi: Ao todo, dura cerca de 25 horas.

Davi: A origem está na Bíblia. No livro de Gênesis, Deus conclui a Criação e descansa no sétimo dia.

Davi: Depois, o mandamento de guardar o Shabat aparece nos Dez Mandamentos.

Davi: Vamos a um exemplo concreto. Pense numa família numa sexta-feira. Antes do pôr do sol, alguém acende duas velas e diz uma bênção.

Davi: Depois vem o Kidush. A palavra quer dizer "santificação". É uma bênção dita em voz alta sobre uma taça de vinho ou suco de uva.

Davi: Na mesa, há dois pães trançados, as chalás.

Davi: Eles lembram o maná que, segundo a Bíblia, os israelitas recebiam em dobro antes do Shabat. Assim, ninguém precisava recolher comida no dia de descanso.

Lia: E o que não se pode fazer? É só não trabalhar?

Davi: A lei judaica tradicional proíbe a melachá. São atos de criar e de transformar o mundo material, organizados em 39 categorias.

Davi: Entre eles estão acender fogo, cozinhar, escrever e construir. Para os ortodoxos, isso inclui usar celular e aparelhos elétricos.

Davi: O critério não é o cansaço. Uma ação simples pode ser proibida. Uma tarefa cansativa pode não entrar na lista.

Davi: Mas a vida vem primeiro. Pelo princípio de Pikuach Nefesh, salvar uma vida supera praticamente todas as proibições. Por isso, o atendimento médico de emergência é obrigatório.

Davi: E o Shabat não é só uma lista de proibições. Maimônides explica que é preciso honrar o dia e ter prazer nele. É dia de alegria, de boa mesa e de família.

Lia: E todo judeu vive o Shabat do mesmo jeito?

Davi: Não. Os ortodoxos seguem as restrições tradicionais de forma ampla. Conservadores e reformistas têm interpretações próprias.

Davi: Muitos judeus não religiosos mantêm o jantar de sexta, as velas ou o Kidush como parte da identidade e da vida familiar.

Davi: Em Israel, o Shabat muda o ritmo do país: transporte, comércio e serviços. Em cidades como Tel Aviv, mais restaurantes e opções de lazer funcionam.

Davi: No Brasil, o Shabat não organiza o funcionamento do país. Ele é vivido pelas comunidades judaicas, sobretudo em família e na sinagoga.

Davi: No sábado à noite, a Havdalá encerra o dia. A palavra quer dizer "separação". A cerimônia usa vinho, especiarias e uma vela trançada.

Davi: O pensador Achad Ha'am resumiu assim: "Mais do que os judeus guardaram o Shabat, o Shabat guardou os judeus".

Lia: Então o Shabat é um tempo sagrado de descanso, família e alegria, que ajudou a guardar a identidade do povo judeu.

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Kosher3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: Davi, o que é comida kosher?

Davi: Kosher é uma palavra que quer dizer "adequado", "próprio" para comer. Comida kosher é aquela permitida e preparada segundo a kashrut.

Lia: E o que é a kashrut?

Davi: É o conjunto de leis alimentares judaicas. Ela tem base na Torá. E atenção: não é dieta de saúde nem moda. É uma prática religiosa.

Davi: Na tradição judaica, a ideia é dar santidade, que em hebraico se diz kedushá, aos atos do dia a dia. Comer vira um exercício de disciplina, compaixão e identidade judaica.

Lia: Tá, mas na prática, o que pode e o que não pode?

Davi: Vamos montar um almoço. Um mamífero só é kosher se rumina e tem casco fendido, as duas coisas ao mesmo tempo. O boi pode.

Davi: O porco tem casco fendido, mas não rumina. Então não pode. Camelo e coelho também ficam de fora.

Davi: Peixe precisa ter barbatanas e escamas. Salmão, atum e bacalhau podem. Camarão, lula, polvo e ostra, não.

Davi: Nas aves, a tradição aceita galinha, peru, pato e ganso.

Davi: E não basta escolher o animal certo. Ele passa pelo abate ritual, a shechitá. Quem faz é um especialista treinado, o shochet, com uma faca perfeitamente afiada. Depois, o sangue é retirado com imersão e salga.

Lia: Interessante. Imagino que a parte de carne e leite seja a mais lembrada.

Davi: É mesmo. Ela vem de um mandamento da Torá: "não cozinharás o cabrito no leite da sua mãe". Essa frase aparece três vezes na Torá.

Davi: A lei dos rabinos ampliou a regra para qualquer carne, de mamífero ou de ave, com leite e derivados.

Davi: Então um hambúrguer com queijo não é kosher. Frango com molho de creme também não, porque para a kashrut frango conta como carne.

Davi: Os alimentos se dividem em três grupos: carne, laticínios e pareve.

Davi: Pareve é o grupo neutro: frutas, verduras, grãos, ovos e peixes kosher. Ele pode ir com carne ou com leite.

Davi: Por isso muitas casas têm louças e utensílios separados. E as pessoas esperam um intervalo entre comer carne e consumir laticínios. Esse tempo varia conforme a tradição da comunidade.

Lia: E no supermercado isso deve ficar mais difícil.

Davi: Fica, e por isso existe a certificação, chamada hekhsher. Uma autoridade rabínica confere ingredientes, equipamentos, limpeza, armazenamento e transporte. No Brasil, essa certificação é voluntária.

Davi: Só a palavra "kosher" na embalagem não basta. É preciso ver quem certificou. As correntes do judaísmo seguem a kashrut com graus diferentes de rigor, e cada comunidade segue a autoridade rabínica que reconhece.

Lia: Então, resumindo: kosher é o alimento adequado segundo a kashrut. É uma prática religiosa judaica que transforma a comida de todo dia em santidade, disciplina e identidade.

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Sinagoga3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é uma sinagoga? Já ouvi essa palavra muitas vezes, mas nunca entendi direito.

Davi: A sinagoga é uma casa de reza, de estudo e de encontro da comunidade judaica. São três funções no mesmo lugar.

Davi: Primeiro, a reza. As pessoas se reúnem para orar juntas, por exemplo no Shabat. É o dia de descanso, que começa antes do pôr do sol de sexta e termina depois do anoitecer de sábado.

Davi: Depois, o estudo. Na sinagoga, a comunidade lê e discute a Torá, que é o texto central do judaísmo.

Davi: E, por fim, o encontro. A sinagoga recebe momentos importantes da vida, como casamentos, o bar mitzvá dos meninos e o bat mitzvá das meninas.

Lia: Então não é só um lugar para rezar. É quase a casa da comunidade.

Davi: Exatamente. E muitas vezes quem ensina ali é o rabino. Ele é um mestre e um intérprete da lei judaica, não um sacerdote. No judaísmo, a relação de cada pessoa com Deus não depende de um intermediário.

Davi: Também não existe um jeito único de viver a sinagoga. A prática varia entre ortodoxos, conservadores, reformistas e outras correntes.

Lia: E aqui no Brasil, existe alguma sinagoga com uma história importante?

Davi: Existe, e é um ótimo exemplo. A primeira sinagoga do Brasil e das Américas fica no Recife. Ela se chama Kahal Zur Israel, que quer dizer "Sagrada Comunidade Rochedo de Israel".

Davi: Ela foi fundada em 1636–1637, quando os holandeses dominavam o Nordeste.

Davi: Naquela época, havia ali uma liberdade religiosa que não existia na América portuguesa. A sinagoga funcionava na antiga Rua dos Judeus, que hoje se chama Rua do Bom Jesus.

Davi: Em 1654, os portugueses retomaram o Recife, e os judeus foram expulsos.

Davi: Parte desse grupo fundou a primeira comunidade judaica de Nova Amsterdã, a cidade que hoje é Nova York.

Lia: E o prédio do Recife, o que aconteceu com ele?

Davi: Ele foi fechado e alterado ao longo dos séculos. Muito tempo depois, escavações arqueológicas encontraram as fundações originais no subsolo.

Davi: Encontraram também a mikvê, que é a piscina usada no banho ritual judaico.

Davi: Hoje o local é um museu aberto ao público, e o visitante consegue ver essas estruturas antigas debaixo do piso.

Davi: Há outras sinagogas históricas no país. A Shaar Hashamaim, em Belém do Pará, é a mais antiga do Brasil independente. Ela foi fundada por judeus sefarditas vindos do Marrocos e continua ligada à comunidade local.

Davi: Uma dica para quem quiser visitar: muitas sinagogas históricas ainda são locais de culto. Por isso, é bom pedir autorização antes e evitar os horários de reza.

Lia: Então, resumindo: a sinagoga é a casa de reza, estudo e encontro da comunidade judaica. E, no Brasil, essa história começa no Recife, no século XVII, com a primeira sinagoga das Américas.

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Bar e Bat Mitzvá3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é Bar e Bat Mitzvá?

Davi: É a cerimônia que marca a maioridade religiosa judaica. Para o menino, ela acontece aos 13 anos.

Lia: Maioridade aos 13. Parece cedo.

Davi: Não é a maioridade da vida civil, é a religiosa. Bar mitzvá quer dizer "filho do mandamento". A partir dessa idade, o menino passa a ser responsável pelas obrigações religiosas da Torá. Essas obrigações se chamam mitzvot.

Lia: Então não é só uma festa.

Davi: Exato. A festa existe, mas vem depois do rito e varia muito de família para família. O centro é uma mudança de status: pela lei judaica, o jovem passa a ser considerado responsável pelos próprios atos religiosos.

Lia: Me dá um exemplo.

Davi: Imagine um menino que acabou de fazer 13 anos. Antes da data, ele passa um tempo estudando para se preparar.

Lia: E o que ele faz na sinagoga?

Davi: Ele é chamado à Torá e faz a leitura em público. Isso se chama aliyá. Depois, faz um discurso para a comunidade, a derashá, com ensinamentos éticos e da lei judaica. No fim, a família costuma se reunir para celebrar.

Lia: E imagino que alguma coisa continua depois daquele dia.

Davi: Continua, sim. Nas orações da manhã dos dias úteis, ele passa a colocar os tefilin, os filactérios. Ele também passa a contar para o minyan, o quórum de dez adultos exigido em algumas orações. Tradicionalmente, esse quórum é só de homens. Nas comunidades igualitárias, homens e mulheres contam.

Lia: E com as meninas, como funciona?

Davi: Bat mitzvá quer dizer "filha do mandamento". Na formulação tradicional, a menina faz bat mitzvá aos 12 anos.

Lia: Um ano antes dos meninos.

Davi: Isso. Mas em algumas tradições e correntes, ela acontece na mesma idade do bar mitzvá. O sentido é igual nos dois casos: entrar na fase de responsabilidade religiosa.

Lia: Então o que muda é a forma da cerimônia.

Davi: Sim. A participação das meninas na leitura pública da Torá e na condução do culto muda de uma corrente para outra. Ortodoxos, conservadores e reformistas têm práticas diferentes. Muitas comunidades igualitárias fazem cerimônias equivalentes para meninos e meninas, com leitura pública da Torá. A data da cerimônia também pode variar entre comunidades.

Lia: Resumindo: bar e bat mitzvá não são só uma festa. São o momento em que o jovem judeu passa a responder pelos mandamentos.

Davi: Quer saber mais sobre o ciclo da vida judaica, do nascimento ao luto? Mais em jjo.org.br.

Aliá e a Lei do Retorno4 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é aliá?

Davi: É uma palavra hebraica que significa "subida", ou "ascensão". É o nome da imigração de judeus para Israel.

Lia: Subida. Nome curioso para uma mudança de país.

Davi: Tem um sentido físico e também espiritual. É a volta do povo judeu à sua pátria ancestral. Quem deixa Israel faz o caminho contrário: a yeridá, a "descida".

Lia: E quem chega também ganha um nome.

Davi: Isso. O homem é olé, a mulher é olá, e o grupo são os olim.

Lia: Imagino que tudo isso começou com a criação de Israel.

Davi: Começou antes. Segundo o Yad Vashem, cerca de 70 mil sobreviventes do Holocausto chegaram ainda sob o Mandato Britânico.

Lia: E, quando o país nasceu, as portas se abriram.

Davi: Israel proclamou a independência em 14 de maio de 1948. A Declaração já dizia que o país estaria aberto à imigração judaica e ao recolhimento dos exilados.

Lia: E aí entra a Lei do Retorno.

Davi: Exato. O Knesset, o parlamento de Israel, aprovou essa lei em 1950. Ela diz que todo judeu tem o direito de vir a Israel como olé.

Davi: Na maioria dos países, o Estado decide caso a caso quem pode imigrar. Aqui, é um direito do imigrante. O Estado só confirma se a pessoa se encaixa na lei.

Lia: Então ninguém espera anos pela cidadania.

Davi: Não. Quem chega por essa lei recebe a cidadania israelense sem passar pela naturalização comum. Em regra, não precisa de prova de idioma nem de abrir mão da cidadania de origem.

Lia: E quem não é judeu pode fazer aliá?

Davi: Em alguns casos, sim. Uma emenda de 1970 estendeu o direito a filhos, netos e cônjuges de judeus.

Davi: Imagina a Sofia, uma brasileira cujo avô era judeu. Ela pode ter direito à aliá, se comprovar essa ligação. A exceção é para quem era judeu e mudou voluntariamente de religião.

Lia: Até os netos.

Davi: A ideia por trás da emenda foi esta: se um avô judeu bastava para ser perseguido pelos nazistas, deveria bastar para encontrar refúgio em Israel.

Davi: A Sofia abre um processo e apresenta documentos, como certidão de nascimento e passaporte. A Agência Judaica orienta e acompanha, mas quem decide são as autoridades israelenses.

Davi: Ao chegar, ela recebe identidade, um auxílio financeiro inicial, acesso à saúde pública e um curso intensivo de hebraico, o ulpan.

Davi: E ela não estaria sozinha. Segundo a Agência Judaica, cerca de 4.320 brasileiros fizeram aliá na década de 2010.

Lia: Os críticos dizem que a lei favorece pessoas por origem étnica ou religiosa. Eles também a comparam às restrições ao retorno de palestinos e seus descendentes. A lei é discriminatória?

Davi: Não. Ela é o instrumento de autodeterminação e de refúgio de um povo disperso e perseguido por séculos.

Davi: Muitos países também dão cidadania por descendência, como Alemanha, Irlanda, Itália e Portugal, cada um com suas regras. O particular em Israel é a ligação com a razão de ser do Estado: ser o lar nacional do povo judeu.

Davi: A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA. Por ela, negar ao povo judeu o direito ao seu Estado nacional é antissemitismo. Criticar um ponto específico da lei, como se faz com qualquer legislação, não é.

Lia: Resumindo: aliá é a imigração judaica para Israel. A Lei do Retorno garante esse direito a judeus e a alguns de seus familiares, como filhos, netos e cônjuges, porque Israel é o lar nacional do povo judeu. Mais em jjo.org.br.

Kibutz3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é um kibutz?

Davi: Kibutz é uma comunidade coletiva de Israel, geralmente rural. Os membros trabalham juntos, dividem os bens e decidem tudo em assembleia, de forma democrática e igualitária.

Davi: A palavra vem do hebraico. O plural é kibutzim.

Davi: Um exemplo concreto é Degania, o primeiro kibutz, fundado em 1910 perto do mar da Galileia.

Davi: Os fundadores eram pioneiros judeus que tinham imigrado para a região. Eles enfrentavam isolamento, malária e falta de dinheiro. Por isso, decidiram se organizar juntos.

Davi: Em Degania não havia patrão nem gerente de fora. Todos tinham a mesma condição econômica. Os próprios membros faziam o trabalho com as mãos, sem contratar empregados. E homens e mulheres tinham direitos e deveres iguais.

Lia: E por que o kibutz foi tão importante para a criação de Israel?

Davi: Por vários motivos. Os membros transformaram pântanos e terras secas em campos produtivos. O kibutz virou a espinha dorsal da produção de alimentos do país.

Davi: Os kibutzim também receberam imigrantes e povoaram áreas estratégicas. Lá ficavam as bases do Palmach, uma força de ataque judaica criada antes do Estado. Os jovens alternavam o trabalho no campo com o treino militar.

Davi: Na Guerra de Independência, em 1948, os kibutzim de fronteira funcionaram como fortalezas. Em Degania, os defensores detiveram tanques sírios.

Davi: Além disso, boa parte dos líderes dos primeiros anos do Estado veio dos kibutzim. Eles não foram a única causa do nascimento de Israel. Também contaram a diplomacia, a imigração, as instituições sionistas e a guerra. Mas foram uma peça importante.

Lia: E os kibutzim ainda existem?

Davi: Existem, sim. Depois de uma grave crise financeira nos anos 1980, a maioria mudou bastante. Muitos passaram a pagar salários diferentes, a ter mais propriedade privada e a contratar trabalhadores de fora.

Davi: Hoje, além da agricultura, eles trabalham com indústria, alta tecnologia e turismo. Alguns mantêm o modelo coletivo, e outros misturam os dois jeitos.

Davi: Há também uma parte dolorosa dessa história. Em 7 de outubro de 2023, terroristas do Hamas e de outros grupos terroristas invadiram Israel a partir de Gaza. Eles atacaram kibutzim do sul do país, como Be'eri, Kfar Aza e Nir Oz.

Davi: Houve assassinatos, sequestros de reféns, incêndios e casas destruídas. Segundo uma comissão de inquérito da ONU, só em Be'eri foram 105 civis mortos por terroristas e por civis vindos de Gaza.

Davi: Foi um ataque terrorista deliberado contra comunidades civis, que são símbolos da história do kibutz. E esse ataque deu início à guerra.

Lia: Resumindo: o kibutz é uma comunidade coletiva que cultivou a terra, recebeu imigrantes, defendeu as fronteiras e ajudou a construir Israel. E ele continua vivo até hoje. Mais em jjo.org.br.

Knesset3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é a Knesset?

Davi: É o parlamento de Israel. É lá que se fazem as leis do país.

Lia: Então é onde trabalham os deputados.

Davi: Isso. A Knesset tem 120 cadeiras, uma para cada deputado.

Lia: E quem escolhe esses deputados são os eleitores.

Davi: Exato. Pode votar todo cidadão a partir de 18 anos inscrito no cadastro eleitoral.

Lia: Bem jovem, então.

Davi: Para ser candidato, é preciso ter pelo menos 21 anos. E tem um detalhe: o eleitor não vota numa pessoa. Ele vota numa lista de um partido.

Lia: Como assim, numa lista?

Davi: Cada partido monta uma lista de nomes, em ordem. As cadeiras que o partido conquista vão para os primeiros nomes dessa lista. Por isso a ordem é tão importante.

Lia: E onde a pessoa mora não muda nada?

Davi: Não muda. O país inteiro conta como um único distrito eleitoral, e cada voto tem o mesmo peso.

Lia: Então o voto de quem mora numa cidade grande vale o mesmo que o de quem mora numa vila.

Davi: Isso mesmo. As cadeiras são divididas conforme a votação de cada lista. Mas existe um corte mínimo, chamado cláusula de barreira. A lista precisa de pelo menos 3,25% dos votos válidos.

Lia: Quem fica abaixo disso fica de fora.

Davi: Fica. Para governar, é preciso o apoio de pelo menos 61 deputados, ou seja, a maioria absoluta das cadeiras.

Lia: E se nenhum partido chega lá sozinho?

Davi: Isso é comum. Aí vários partidos se juntam numa coalizão, que é uma aliança para governar. O presidente encarrega um deputado de montar essa aliança. Depois, a Knesset precisa aprovar o novo governo num voto de confiança.

Lia: Então a Knesset também decide quem governa.

Davi: Decide. E ela reúne deputados judeus, árabes e drusos. Os cidadãos árabes de Israel votam desde 1949.

Lia: E um partido árabe já entrou numa coalizão.

Davi: Já. Em 2021, o Ra'am, de Mansour Abbas, entrou na coalizão de Naftali Bennett e Yair Lapid. Foi a primeira vez que um partido árabe se tornou membro formal de uma coalizão de governo. O Ra'am não ficou com ministérios, mas ajudou a garantir a maioria do governo na Knesset.

Lia: E existem regras sobre quais partidos podem concorrer.

Davi: Existem. Israel não tem uma constituição num documento único. O país funciona com Leis Básicas, que são leis com peso constitucional aprovadas pela própria Knesset. Uma das Leis Básicas, a que trata da Knesset, proíbe partidos com plataforma racista. Essa regra já foi usada para barrar o Kach, um partido racista judeu.

Lia: Resumindo: a Knesset é o parlamento de Israel. Ela faz as leis e decide quem governa, com representantes de diferentes grupos da sociedade.

Davi: Mais em jjo.org.br.

Diáspora3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é diáspora?

Davi: Diáspora é o nome das comunidades judaicas que vivem fora da Terra de Israel. Elas estão espalhadas pelo mundo há mais de dois mil anos.

Lia: Então a comunidade judaica aqui do Brasil faz parte disso?

Davi: Faz. A comunidade judaica brasileira é parte da diáspora. Quem é judeu e mora no Brasil faz parte dessa história.

Lia: Mas por que tantos judeus foram viver longe da terra onde o povo se formou?

Davi: Por causa de exílios e destruições. Em 586 a.C., a Babilônia conquistou Jerusalém e deportou parte da população do Reino de Judá.

Davi: Esses exilados não esqueceram quem eram. Registros antigos, chamados Tabletes de Al-Yahudu, mostram que eles mantiveram na Babilônia seus nomes hebraicos e sua identidade familiar.

Davi: Séculos depois, em 70 d.C., Roma destruiu o Segundo Templo de Jerusalém. A população judaica da região encolheu e se deslocou.

Lia: Então a diáspora quer dizer que os judeus deixaram a terra para trás?

Davi: Não. Esse ponto é importante. Comunidades judaicas nunca deixaram de existir na Terra de Israel. Elas continuaram vivendo em lugares como Jerusalém, Hebron, Tiberíades e Safed.

Davi: E quem morava fora manteve o vínculo vivo de um jeito muito concreto: nas orações, no calendário e nas festas. Tudo voltado para Jerusalém.

Davi: Pense numa família judaica em qualquer lugar do mundo, rezando na direção de Jerusalém. Ela vive longe, mas o coração aponta para a mesma cidade há gerações.

Davi: A ligação também aparece na ciência. Um estudo genético publicado em 2020 mostra que as comunidades judaicas da diáspora compartilham uma assinatura do Oriente Médio no DNA.

Davi: Mas o DNA não é título de propriedade. O direito do povo judeu à autodeterminação se apoia na história, na língua, na religião, na memória e no reconhecimento internacional.

Davi: E a diáspora também foi o ponto de partida da volta. Desde o fim do século XIX, judeus retornaram à Terra de Israel em ondas de imigração.

Davi: Vieram da Europa e também do Oriente Médio e do Norte da África. Muitas famílias vieram de países como Iraque, Iêmen e Marrocos.

Davi: Grande parte dessas famílias emigrou ou foi expulsa de países árabes e islâmicos nas décadas depois da criação do Estado de Israel, em 1948.

Lia: Então a diáspora não é só "estar longe". É estar longe sem perder o laço.

Davi: Exatamente. A diáspora é o povo judeu espalhado pelo mundo, que nunca rompeu o vínculo com a Terra de Israel, onde sua história começou.

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Asquenazes, sefarditas e mizrahim3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que são asquenazes, sefarditas e mizrahim? São tipos diferentes de judeus?

Davi: São três grandes tradições culturais dentro do mesmo povo judeu. O nome depende da região de onde as famílias vieram durante a diáspora, que é a dispersão dos judeus pelo mundo depois dos exílios da Terra de Israel.

Davi: Um ponto importante: essas categorias são históricas e culturais. Não são raças.

Lia: Então vamos por partes.

Davi: Os asquenazes são judeus cujas famílias vêm da Europa Central e Oriental. A língua tradicional dos asquenazes é o iídiche.

Davi: Na Europa, eles sofreram perseguições, por exemplo durante as Cruzadas e a Peste Negra. No século 20, muitos imigraram para o Brasil.

Lia: E os sefarditas, vieram de onde?

Davi: Da Península Ibérica. A língua tradicional dos sefarditas é o ladino.

Davi: Em 1492, o Decreto de Alhambra expulsou os judeus da Espanha. Na mesma época, na Península Ibérica, muitos outros foram convertidos à força.

Davi: Muitos sefarditas chegaram ao Brasil colonial.

Davi: Entre 1636 e 1640, durante o domínio holandês, foi fundada em Recife a Kahal Kadosh Zur Israel, que a CONIB considera a primeira sinagoga das Américas.

Lia: Que exemplo forte, e bem aqui no Brasil.

Lia: E os mizrahim?

Davi: Mizrahim são judeus com origem no Oriente Médio e no Norte da África, em países como Iraque, Irã, Marrocos e Iêmen. Suas línguas tradicionais incluem o árabe-judaico e outras línguas locais.

Davi: Entre 1948 e 1970, grande parte das famílias mizrahim e sefarditas emigrou de países árabes e islâmicos ou foi expulsa deles.

Davi: Hoje, grande parte da população judaica de Israel descende dessas comunidades.

Lia: Então são três histórias bem diferentes.

Davi: Diferentes, sim, mas de um mesmo povo. Os três compartilham o mesmo calendário de festas, a mesma história e o vínculo com Jerusalém.

Davi: A genética também mostra essa ligação. As comunidades judaicas da diáspora têm em comum marcas no DNA que apontam para o Oriente Médio.

Davi: Mas vale lembrar: um povo não se define por exame de DNA. A identidade judaica se apoia em história, língua, religião e memória.

Davi: E ser judeu não exige ser religioso. Há judeus religiosos, seculares e culturais em todas essas tradições.

Lia: E hoje Israel reúne todos eles, além dos judeus de origem etíope.

Davi: Exato. É um povo com muitos rostos.

Lia: Resumindo: asquenazes, sefarditas e mizrahim são tradições culturais de um único povo judeu, com raízes na Terra de Israel. Mais em jjo.org.br.

O renascimento do hebraico3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é o renascimento do hebraico?

Davi: É a história de uma língua que voltou a ser falada no dia a dia. O hebraico é a língua histórica do povo judeu, a língua da Bíblia.

Davi: Por quase dois milênios, ele deixou de ser a fala cotidiana da maioria dos judeus. Mas nunca morreu.

Davi: Continuou vivo na oração, no estudo da Torá, na poesia e nas cartas entre comunidades judaicas espalhadas pelo mundo. Era chamado de Lashon HaKodesh, a "Língua Sagrada".

Davi: No fim do século XIX, o movimento sionista quis devolver o hebraico à vida comum. Em hebraico, isso se chama Techiyat HaLashon HaIvrit, o "renascimento da língua hebraica".

Lia: E quem fez isso acontecer?

Davi: O nome mais famoso é Eliezer Ben-Yehuda. Ele era jornalista e lexicógrafo, ou seja, alguém que faz dicionários. Chegou a Jerusalém em 1881.

Davi: Ele e a esposa, Deborah, decidiram falar só hebraico em casa. O resultado foi o filho deles, Itamar Ben-Avi. Ele é considerado a primeira criança falante nativa de hebraico na era moderna.

Davi: Ben-Yehuda também criou centenas de palavras novas a partir de raízes antigas. "Glida" é sorvete. "Bubba" é boneca. "Milon" é dicionário.

Davi: Mas ele não fez isso sozinho. Professores ensinavam matemática, ciências e história em hebraico. Nas escolas, as crianças cresciam falando a língua. Escritores e jornais criaram uma imprensa moderna. E as ondas de imigração judaica formaram uma nova comunidade de falantes.

Lia: E houve resistência?

Davi: Houve. Em 1913, uma entidade judaico-alemã planejava abrir o Technion, em Haifa. Ela decidiu que as matérias técnicas seriam dadas em alemão, porque faltariam ao hebraico palavras científicas.

Davi: Os professores entraram em greve, com apoio de estudantes e da Organização Sionista Mundial. Esse conflito ficou conhecido como a Guerra das Línguas.

Davi: Em 1914, a direção do Technion recuou e aceitou o hebraico. Os defensores da língua venceram.

Davi: Com a independência de Israel, em 1948, o hebraico virou a principal língua das instituições, da escola e da política.

Davi: Ele também uniu imigrantes vindos de dezenas de países. Eles falavam idiche, ladino, árabe e várias línguas europeias.

Davi: Hoje, a Academia da Língua Hebraica organiza a gramática e cria termos para ciência e tecnologia. Ela foi criada pelo Knesset, o parlamento de Israel.

Davi: Outras línguas, como o irlandês, o maori e o galês, também passaram por revitalização. Mas o hebraico é o caso mais completo. Uma língua guardada em orações e livros virou a língua materna de milhões de pessoas.

Lia: Então, o renascimento do hebraico é a volta da língua do povo judeu à vida cotidiana. Ele foi construído pelo sionismo, por Ben-Yehuda e por toda uma comunidade, até se tornar o idioma do Estado de Israel.

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A Partilha da ONU de 19473 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é a Partilha da ONU de 1947?

Davi: É um plano aprovado pela Assembleia Geral da ONU em 29 de novembro de 1947.

Davi: Ele ficou conhecido como Resolução 181. Era uma recomendação: não criou Israel juridicamente, mas deu respaldo internacional ao Estado judeu.

Lia: Recomendação, então. Não era uma ordem.

Davi: Isso. Na época, o território era administrado pelo Mandato Britânico, que estava chegando ao fim.

Davi: O plano propunha dividir esse território em dois: um Estado judeu e um Estado árabe.

Lia: E como seria a divisão?

Davi: O Estado judeu ficaria com cerca de 56% do território.

Davi: O Estado árabe, com cerca de 43%.

Lia: Faltou falar de Jerusalém.

Davi: Jerusalém teria um regime internacional especial, administrado sob a ONU.

Davi: A liderança judaica aceitou o plano, mesmo com críticas às fronteiras e à situação de Jerusalém.

Lia: Mas nem todos aceitaram.

Davi: A liderança árabe rejeitou a partilha e anunciou que se oporia a ela pelas armas.

Davi: Os combates começaram um dia depois da votação, com ataques a bairros judaicos, comboios e comunidades isoladas.

Lia: E tem um brasileiro nessa história.

Davi: Tem, sim. O diplomata Oswaldo Aranha presidiu a sessão que votou a partilha.

Davi: No fim de novembro, os defensores do plano ainda não tinham a maioria de dois terços exigida.

Davi: Em 26 de novembro, Aranha encerrou os trabalhos do dia antes do feriado de Ação de Graças.

Lia: Ou seja, ele ganhou tempo.

Davi: Esse intervalo permitiu conversas com delegações que ainda estavam indecisas.

Davi: Mas a aprovação foi uma decisão de muitos países, não de uma só pessoa. O Brasil também votou a favor.

Lia: E a história não parou na votação.

Davi: Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou o Estado de Israel.

Davi: No dia seguinte, Egito, Transjordânia, Síria, Líbano e Iraque invadiram o novo país.

Lia: Um país atacado logo no dia seguinte ao seu nascimento.

Davi: Israel sobreviveu, mas perdeu cerca de 6 mil pessoas, entre soldados e civis.

Davi: A guerra também deslocou centenas de milhares de árabes palestinos, que chamam esse episódio de Nakba.

Davi: Nos anos seguintes, um número semelhante de judeus deixou países árabes ou foi expulso deles.

Lia: E o que essa votação significa hoje?

Davi: Ela deu respaldo internacional ao direito do povo judeu a um Estado próprio. Quem defende esse direito é chamado de sionista.

Davi: A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto.

Davi: Por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

Lia: Resumindo: em 1947, a ONU recomendou dois Estados. A liderança judaica disse sim. A liderança árabe disse não e foi à guerra.

Lia: Mais em jjo.org.br.

A Declaração Balfour4 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é a Declaração Balfour?

Davi: É uma carta oficial do governo britânico, de 2 de novembro de 1917. Ela apoiou o estabelecimento de um lar nacional para o povo judeu.

Davi: Quem assinou foi Arthur James Balfour, secretário de Relações Exteriores. Ele enviou a carta a Lord Walter Rothschild, um dos líderes da comunidade judaica na Grã-Bretanha.

Lia: Então a carta não falava em país.

Davi: Não com essas palavras. Ela não usou a expressão "Estado judeu" nem definiu fronteiras.

Davi: Pensa assim: é como um governo poderoso colocar no papel, com assinatura oficial, que vai ajudar um povo a estabelecer seu lar nacional. O rascunho de Rothschild falava em "reconstituir" esse lar. A versão final escolheu "estabelecimento".

Lia: E tudo isso em plena guerra.

Davi: Isso. Era a Primeira Guerra Mundial. Os britânicos lutavam contra o Império Otomano, que controlava a região. Londres também queria o apoio das comunidades judaicas nos Estados Unidos e na Rússia.

Lia: E quem já morava lá?

Davi: A carta tratou disso. Ela prometia não prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas. Também protegia os direitos dos judeus que viviam em outros países.

Davi: Em 1922, a Liga das Nações aprovou o Mandato Britânico. Ele transformou a promessa em obrigação internacional e reconheceu a conexão histórica do povo judeu com a terra.

Lia: Mas o caminho não foi uma linha reta.

Davi: Não foi. Em maio de 1939, o Reino Unido mudou de rumo com uma política chamada Livro Branco.

Davi: Ela limitou a imigração judaica a 75 mil pessoas.

Lia: Bem quando judeus europeus tentavam fugir dos nazistas.

Davi: Exatamente, às vésperas do Holocausto. Esse limite valia por cinco anos. A política também restringiu a compra de terras por judeus.

Lia: Mesmo assim, Israel nasceu.

Davi: Sim. Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou a independência de Israel.

Lia: E a liderança palestina se opõe à declaração.

Davi: Ela alega que a terra foi prometida sem o consentimento da população árabe. É fato que essa população era maioria e não foi consultada diretamente.

Davi: A resposta israelense e sionista é que os judeus não eram estrangeiros ali. A presença judaica tem mais de 3 mil anos, documentada pela arqueologia.

Lia: Isso não era colonialismo?

Davi: Pela resposta sionista, não. Não havia metrópole enviando ninguém. Os judeus fugiam de pogroms, e as terras foram compradas, com registro em cartório.

Davi: O movimento também é anterior a Balfour. O Primeiro Congresso Sionista, com Theodor Herzl, foi em 1897.

Davi: E a partilha da terra foi proposta mais de uma vez. A primeira proposta veio da Comissão Peel, em 1937.

Lia: E o movimento sionista aceitou.

Davi: Aceitou. A ONU propôs de novo em 1947, e os judeus aceitaram outra vez. A liderança árabe palestina e os Estados árabes rejeitaram ambas.

Lia: Resumindo: a Declaração Balfour foi o reconhecimento britânico do lar nacional judaico. Ela foi uma das etapas que levaram à criação de Israel, em 1948.

Davi: Mais em jjo.org.br.

Nakba3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é a Nakba?

Davi: Nakba quer dizer "catástrofe", em árabe. É o termo que os palestinos usam para a perda de casas e terras e para o deslocamento em massa durante a guerra de 1948.

Lia: E para entender essa perda, a gente precisa voltar um pouco no tempo. Vamos começar pela origem.

Davi: Em 1947, a ONU aprovou um plano de partilha: um Estado judeu e um Estado árabe, lado a lado. A liderança judaica aceitou. A liderança árabe rejeitou e declarou oposição armada.

Lia: E aí começou a guerra.

Davi: Primeiro, milícias árabes atacaram estradas, comunidades e bairros judeus. Depois, quando David Ben-Gurion proclamou o Estado de Israel, cinco exércitos árabes invadiram o novo país.

Lia: E foi nessa guerra que os palestinos deixaram suas casas.

Davi: Isso. Cerca de 700 mil foram deslocados. A maioria fugiu das linhas de frente. Famílias ricas e líderes locais saíram cedo, e as cidades árabes entraram em colapso. O pânico aumentou depois do massacre de Deir Yassin, cometido por forças do Irgun e do Lehi.

Lia: Mas não foi só medo.

Davi: Não. Houve expulsões em alguns lugares. O caso mais conhecido é o de Lydda e Ramle, em julho de 1948, quando forças israelenses expulsaram moradores.

Lia: Então foi tudo planejado?

Davi: Não houve um plano mestre para expulsar todos os árabes. Em abril de 1948, a Haganah adotou o Plano Dalet. Era uma diretriz militar para proteger comunidades isoladas e abrir estradas sob ataque. Em alguns lugares, isso levou à remoção de civis. Mas não era um plano de expulsão total. O historiador Benny Morris reconhece as expulsões, mas rejeita a ideia de um plano único desde o início.

Lia: E houve quem ficasse.

Davi: Sim. Parte da população árabe ficou dentro de Israel e se tornou cidadã israelense. E existe a outra metade da história. Nos anos seguintes à guerra, cerca de 850 mil judeus deixaram ou foram expulsos de países árabes e do Irã. Eles enfrentaram leis discriminatórias, violência e confisco de bens. A maioria foi absorvida por Israel.

Lia: Então por que o termo Nakba gera tanto debate?

Davi: O termo Nakba descreve uma perda real, e faz sentido como memória palestina.

Lia: Mas tem um porém.

Davi: Usado sozinho, ele costuma apagar uma parte da história: quem rejeitou a partilha, quem começou a guerra e quem invadiu o novo Estado.

Lia: Resumindo: Nakba é como os palestinos chamam a perda de 1948.

Davi: E para Israel, foi a Guerra de Independência: a sobrevivência de um Estado atacado ao nascer, numa guerra que a liderança árabe escolheu travar. Mais em jjo.org.br.

Hamas3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é o Hamas?

Davi: O Hamas é um grupo terrorista islamista palestino. "Islamista", aqui, quer dizer que ele quer criar um Estado islâmico.

Davi: Ele foi fundado em dezembro de 1987 pelo xeque Ahmed Yassin, como ramo da Irmandade Muçulmana.

Lia: E o que eles defendem?

Davi: A destruição de Israel. Essa meta está na carta de fundação do grupo, publicada em 1988.

Davi: Vou dar um exemplo concreto. O artigo 7 dessa carta cita uma tradição religiosa sobre matar judeus.

Davi: E o artigo 32 cita os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação antissemita usada pela propaganda nazista.

Lia: E isso valeu só para a época?

Davi: Não. A carta nunca foi revogada. Em 2017, o grupo publicou um novo texto, mas continuou sem reconhecer Israel.

Davi: A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA. Por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

Davi: Além disso, a carta acusa os judeus de controlar a imprensa e provocar guerras. Por isso, o Hamas não é só antissionista. Ele também é antissemita.

Lia: Muita gente só ouve falar do Hamas quando o assunto é Gaza.

Davi: Faz sentido. Em 2006, o Hamas venceu a eleição legislativa.

Davi: Em junho de 2007, tomou Gaza pelas armas e expulsou o Fatah. Desde então, governa sem nova eleição.

Lia: E foi de Gaza que partiu o ataque de 7 de outubro de 2023.

Davi: Isso. O Hamas invadiu o sul de Israel e matou cerca de 1.200 pessoas, a maioria civis.

Davi: Terroristas do Hamas atacaram civis, em sua maioria judeus, dentro de suas casas. Também sequestraram centenas de reféns. Em resposta, Israel declarou guerra ao Hamas.

Davi: O Hamas usa hospitais, escolas e mesquitas para fins militares. Israel documentou essa prática com imagens e achados militares. O Hamas nega.

Davi: O sofrimento dos civis de Gaza é real. Mas a guerra começou com o ataque do Hamas. E é o Hamas que instala sua estrutura militar no meio da população.

Lia: Aqui no Brasil, a classificação do grupo é diferente.

Davi: Estados Unidos, União Europeia e outros países classificam o Hamas como organização terrorista.

Davi: O Brasil condenou os ataques de 7 de outubro, mas não inclui o Hamas numa lista de organizações terroristas.

Davi: O Itamaraty diz seguir o Conselho de Segurança da ONU, que não mantém uma lista geral com o Hamas. Isso não significa aprovar as ações do grupo.

Lia: Resumindo: o Hamas é um grupo terrorista e antissemita que quer destruir Israel e governa Gaza à força. E o Hamas não é o mesmo que o povo palestino. Sob o governo do grupo, muitos palestinos sofrem repressão.

Lia: Mais em jjo.org.br.

Hezbollah3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é o Hezbollah?

Davi: O Hezbollah é um grupo terrorista xiita do Líbano. Xiita é um dos ramos do islã.

Lia: E de onde ele veio?

Davi: Ele foi criado em 1982, com apoio do Irã. Até hoje, o Irã financia e arma o grupo, como documenta o Departamento de Estado dos EUA.

Lia: Mas já ouvi dizer que o Hezbollah é um partido político.

Davi: Ele é partido, mas não é só partido. Ele disputa eleições, tem deputados e oferece serviços de saúde e educação.

Davi: Ao mesmo tempo, é uma milícia, ou seja, um grupo armado que não faz parte do exército do país.

Lia: E esse grupo age sozinho?

Davi: Sim. O Hezbollah opera fora do comando do Estado libanês e tem um arsenal próprio.

Davi: As Forças de Defesa de Israel estimam que ele tenha mais de 120 mil mísseis e foguetes.

Lia: Isso é arsenal de exército, não de partido.

Davi: Exato. E muitos libaneses criticam o grupo por arrastar o país para guerras.

Lia: E o terror dele fica só no Oriente Médio?

Davi: Não. A Justiça argentina responsabilizou o Hezbollah pelos atentados em Buenos Aires. O ataque à AMIA deixou 85 mortos.

Davi: Israel, Estados Unidos, Reino Unido, Argentina, Paraguai e Alemanha classificam a organização inteira como terrorista. A União Europeia lista o seu braço militar. O Brasil não lista o grupo.

Lia: E o que o Hezbollah fez contra Israel recentemente?

Davi: Em 8 de outubro de 2023, um dia depois do massacre do Hamas, o Hezbollah começou a disparar foguetes, mísseis e drones contra o norte de Israel.

Davi: Ninguém tinha atacado o Líbano. O próprio grupo chamou isso de "frente de apoio" ao Hamas, que também é um grupo terrorista.

Lia: E as famílias que moravam perto da fronteira?

Davi: Cerca de 65 mil israelenses tiveram que deixar suas casas no norte. O governo pagou hotéis e pousadas para elas.

Lia: E muitas ficaram longe de casa por mais de um ano.

Davi: Vou dar um exemplo concreto. Em 27 de julho de 2024, em Majdal Shams, um vilarejo druso nas Colinas de Golã, um foguete atingiu um campo de futebol.

Lia: É difícil até de imaginar.

Davi: Doze crianças morreram. Foi o ataque mais mortal contra civis nessa guerra.

Lia: E como Israel reagiu?

Davi: Depois disso, os combates ficaram muito mais intensos. Em setembro de 2024, Israel lançou uma grande operação contra a infraestrutura do Hezbollah.

Davi: No fim daquele mês, Israel eliminou o chefe do grupo, Hassan Nasrallah.

Lia: O objetivo era proteger o norte.

Davi: Isso. O objetivo era afastar a ameaça da fronteira e deixar os moradores voltarem para casa.

Davi: Um cessar-fogo começou em 27 de novembro de 2024.

Davi: O Hezbollah saiu enfraquecido, com seus principais líderes eliminados e boa parte do arsenal destruída, segundo estimativas das Forças de Defesa de Israel.

Lia: Então, resumindo: o Hezbollah é um grupo terrorista armado pelo Irã que também atua como partido político. Ele abriu sozinho uma guerra contra Israel e tirou milhares de famílias de suas casas.

Davi: Mais em jjo.org.br.

Domo de Ferro3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é o Domo de Ferro?

Davi: É o sistema israelense de defesa aérea de curto alcance. Ele derruba foguetes ainda no ar.

Davi: Ele foi desenvolvido principalmente pela empresa israelense Rafael, com outras empresas e o Ministério da Defesa de Israel, e com apoio tecnológico e financeiro dos Estados Unidos.

Davi: Ele está em operação desde março de 2011. Quem opera é a Força Aérea Israelense.

Lia: Então ele existe para proteger as cidades.

Davi: Isso. Ele impede que foguetes de grupos terroristas, como o Hamas e o Hezbollah, atinjam cidades, bairros e infraestrutura de Israel.

Lia: Agora me explica o passo a passo.

Davi: Tudo leva poucos segundos. Primeiro, um radar vê o lançamento e acompanha o foguete.

Davi: Depois, um computador calcula onde o foguete vai cair.

Lia: E se o foguete for cair no mar?

Davi: Se o foguete vai cair no deserto ou no mar, o sistema não dispara.

Davi: Se ele vai atingir uma área com pessoas ou uma estrutura importante, o sistema lança um míssil interceptor chamado Tamir.

Davi: O Tamir manobra até o foguete e explode perto dele, ainda no ar.

Lia: Então ele escolhe onde vale a pena atirar.

Davi: Exatamente. Essa escolha poupa interceptores e concentra a defesa onde há vidas em risco.

Lia: Imagino que ele não acerte todas.

Davi: Não acerta todas. A fabricante Rafael e o governo israelense informam uma taxa acima de 90%.

Davi: Essa taxa vale para os foguetes que o sistema decidiu interceptar, não para todos os que foram lançados.

Davi: Não há uma auditoria pública independente que confirme um número único.

Davi: O sistema também tem um limite, a saturação. Grupos terroristas disparam muitos foguetes ao mesmo tempo para sobrecarregar as baterias.

Lia: E isso aconteceu na guerra atual.

Davi: Sim. Desde o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, o Domo de Ferro foi usado em escala sem precedentes, em várias frentes.

Davi: Milhares de foguetes vieram de Gaza. O Hezbollah, no Líbano, lançou milhares de foguetes e drones contra o norte de Israel.

Davi: Segundo as Forças de Defesa de Israel, parte dos foguetes disparados de Gaza caiu dentro da própria Gaza, por falhas de lançamento. Isso pôs em risco a população de lá.

Lia: E quanto custa cada disparo?

Davi: Estima-se que cada Tamir custe dezenas de milhares de dólares.

Davi: Um foguete improvisado pode custar só centenas de dólares. Essa diferença se chama custo assimétrico.

Davi: Por isso Israel criou o Iron Beam, um sistema a laser com disparo muito mais barato. Ele complementa o Domo de Ferro e não o substitui.

Lia: Então o Domo não trabalha sozinho.

Davi: Não. Ele é a camada de baixo de uma defesa que também inclui o David's Sling e o Arrow.

Davi: Mesmo depois de uma interceptação, pedaços podem cair. Por isso o Comando da Frente Interna emite alertas e orienta as pessoas a ir para quartos protegidos e abrigos.

Lia: Resumindo: o Domo de Ferro protege civis israelenses de foguetes de curto alcance. Ele funciona junto com outras camadas de defesa, alertas e abrigos.

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Acordos de Abraão3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que são os Acordos de Abraão?

Davi: São acordos que normalizaram as relações de Israel com os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, o Marrocos e o Sudão. Os Estados Unidos mediaram todo o processo.

Lia: "Normalizar" é uma palavra difícil.

Davi: É tratar o outro país como um vizinho normal: abrir embaixadas, ter voos diretos, fazer comércio e cooperar em segurança. Esses países não estavam em guerra ativa com Israel. Por isso, não foi como os tratados com o Egito e a Jordânia, que encerraram guerras.

Lia: Então eles assinaram todos juntos.

Davi: Não exatamente. Os Emirados e o Bahrein assinaram na Casa Branca, em setembro de 2020.

Lia: E os outros dois vieram depois.

Davi: Isso. O Marrocos assinou em dezembro do mesmo ano. E o Sudão assinou a Declaração em janeiro de 2021. Mas lá um golpe e uma guerra civil impediram um tratado bilateral.

Lia: Mas Israel já tinha acordos com países árabes antes.

Davi: Tinha. A novidade foi outra. Antes, a ideia era esta: relações com Israel só depois de um acordo final com os palestinos. Esse era o modelo da Iniciativa de Paz Árabe, de 2002. Os Acordos de Abraão separaram as duas coisas.

Lia: Me dá um exemplo concreto.

Davi: Os Emirados. Segundo a ADL, mais de 1 milhão de israelenses visitaram o país nos primeiros anos da normalização.

Lia: Isso é muita gente.

Davi: E não é só turismo. Em 2022, Israel e os Emirados assinaram um acordo de livre comércio, o primeiro de Israel com um país árabe.

Lia: Um marco para a economia.

Davi: Sim. Ele entrou em vigor em 2023. Por isso se fala em "paz quente", com turismo, comércio, intercâmbio universitário e laços entre pessoas. Os tratados com Egito e Jordânia ficaram conhecidos como "paz fria", restrita a governos e militares. Mas, em alguns países, a aproximação entre governos e empresas avançou mais rápido que a aceitação popular.

Lia: E por que o nome Abraão? É o patriarca da Bíblia?

Davi: É. Abraão é reconhecido pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelo islamismo. O nome lembra essa herança comum. E o símbolo é este: povos ligados a um ancestral comum escolheram a cooperação no lugar da hostilidade.

Lia: E o ataque do Hamas, em 7 de outubro, mudou isso?

Davi: Sim. Antes do ataque, Arábia Saudita, Israel e EUA negociavam um acordo. Segundo a Reuters, os sauditas pausaram as conversas, sem abandonar a ideia. A guerra que o grupo terrorista Hamas iniciou em Gaza congelou a expansão dos acordos. Mas os acordos que já existiam não foram rompidos. Segundo a Carnegie Endowment, os governos signatários mantiveram os canais oficiais com Israel.

Lia: Resumindo: os Acordos de Abraão criaram laços novos entre Israel e países árabes, sem esperar o fim do conflito com os palestinos. E o ataque do Hamas não conseguiu rompê-los.

Davi: Isso. A expansão parou, mas o que foi construído continua.

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Libelo de sangue3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: Davi, o que é libelo de sangue?

Davi: É uma acusação falsa contra os judeus. Ela diz que judeus matariam cristãos, sobretudo crianças, em rituais.

Davi: Em algumas versões, a mentira dizia ainda que eles usariam o sangue das vítimas. Por isso o nome: libelo de sangue.

Davi: Essa acusação surgiu na Inglaterra, no século 12.

Lia: E como essa mentira começou?

Davi: O primeiro caso registrado foi na cidade de Norwich, em 1144.

Davi: Um monge chamado Tomás de Monmouth inventou uma história. Segundo ele, um conselho judaico internacional escolheria, todo ano, uma cidade para sacrificar uma criança cristã.

Davi: Nada disso existiu. Era pura invenção. Mesmo assim, a mentira se espalhou.

Davi: Por séculos, ela serviu de pretexto para massacres de comunidades judaicas. Pretexto é uma desculpa: inventavam um crime para justificar a violência.

Davi: O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos descreve esses rumores como um pretexto frequente para ataques contra judeus.

Davi: E o mito não ficou preso na Idade Média. Ele voltou no Caso de Damasco, em 1840, no Império Otomano.

Davi: E voltou de novo no Caso Beilis, em 1911, na Rússia dos czares.

Lia: E hoje, isso ainda aparece?

Davi: Aparece, mas com roupa nova. Frases como "judeus sequestram crianças" ou "judeus colhem órgãos" são o mesmo libelo de sangue.

Davi: Isso tem nome: tropo antissemita. Um tropo é um padrão de acusação que se repete há séculos e muda de forma conforme a época.

Davi: Esse padrão não descreve os judeus. Ele descreve o preconceito de quem acusa.

Davi: O sinal é sempre o mesmo. A mensagem culpa os judeus como grupo, só por serem judeus, por um crime inventado.

Davi: Se você encontrar isso num meme ou num comentário, explique a origem da mentira, com calma. Mostrar de onde ela vem funciona melhor do que só rotular.

Davi: E não generalize ninguém na resposta. O alvo é o tropo, não um povo nem uma religião.

Davi: No Brasil, a Lei 7.716 pune a discriminação por religião, etnia ou procedência nacional.

Lia: Então, resumindo: o libelo de sangue é uma mentira nascida na Inglaterra medieval. Ela acusa falsamente os judeus de matar crianças em rituais e serviu de pretexto para massacres. Hoje ela continua circulando, e reconhecê-la é o primeiro passo para combatê-la.

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Os Protocolos dos Sábios de Sião3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que são os Protocolos dos Sábios de Sião? Um amigo me mandou um trecho no celular.

Davi: É um texto falso. Ele finge ser a ata de reuniões secretas de líderes judeus que planejariam dominar o mundo. O plano seria controlar bancos, imprensa e governos. Essas reuniões nunca existiram. O texto foi inventado.

Davi: Ele foi produzido no Império Russo, perto da Okhrana, a polícia secreta do czar. Foi publicado num jornal em 1903.

Davi: O objetivo era jogar a insatisfação das pessoas contra os judeus e justificar pogroms, que eram ataques violentos contra judeus.

Lia: E como a gente sabe que é falso?

Davi: Esse é o exemplo mais claro. Em 1921, o jornalista Philip Graves, do jornal The Times, de Londres, colocou dois textos lado a lado.

Davi: Um era os Protocolos. O outro era uma sátira de Maurice Joly contra Napoleão III. Sátira é um texto que zomba de alguém. E a sátira de Joly nem mencionava judeus.

Davi: Graves mostrou que os Protocolos copiavam trechos direto dela. Era plágio. Os falsificadores pegaram uma crítica a um governante e trocaram o alvo pelos judeus.

Davi: Eles também aproveitaram outros textos, como um romance com uma cena inventada num cemitério de Praga. Nenhum desses textos era judaico.

Lia: Se a fraude foi descoberta tão cedo, por que o texto ficou famoso?

Davi: Porque quem espalha ódio não está atrás da verdade. Nos Estados Unidos, o industrial Henry Ford financiou a publicação em massa.

Davi: Na Alemanha, Adolf Hitler e os nazistas usaram o texto em Mein Kampf e na propaganda oficial para demonizar os judeus.

Davi: E ele ainda circula. A carta de fundação do grupo terrorista Hamas, de 1988, cita os Protocolos como "prova" de uma conspiração internacional.

Davi: Na internet, a mesma ideia volta com outras roupas. Fala-se de um "governo oculto" ou de uma elite secreta. Às vezes a palavra "sionista" aparece no lugar de "judeu". Muda o personagem, mas a mentira é a mesma.

Davi: Criticar o governo de Israel não é antissemitismo. Mas dizer que judeus controlam a mídia, a economia ou os governos é antissemitismo, segundo a definição da IHRA.

Davi: Quando alguém fala em controle oculto, a resposta é simples: mostre a prova ou retire a acusação. E não repasse o trecho. Explique de onde ele veio e por que é falso.

Lia: Então, resumindo: os Protocolos dos Sábios de Sião são uma falsificação antissemita, já desmascarada, que serviu aos nazistas e ainda circula. Conhecer essa história é a melhor defesa contra ela. Mais em jjo.org.br.

Pessach3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: Davi, o que é Pessach?

Davi: Pessach é a Páscoa judaica. É a festa que celebra a libertação dos israelitas da escravidão no Egito. Essa história está no livro de Êxodo, na Bíblia.

Lia: E o nome Pessach quer dizer alguma coisa.

Davi: Quer. Em hebraico, Pessach significa "passar por cima" ou "poupar". Segundo a Bíblia, na décima praga, Deus passou por cima das casas dos israelitas e poupou seus primogênitos.

Lia: E quando a festa acontece?

Davi: Ela começa ao entardecer do dia 15 de Nisan, um mês do calendário judaico. Essa data cai entre março e abril. Como o calendário judaico segue a lua e o sol, o dia muda a cada ano no nosso calendário.

Lia: Ouvi dizer que a duração também muda conforme o lugar.

Davi: É verdade. Em Israel, a festa dura sete dias.

Lia: E fora de Israel, na chamada diáspora, é diferente.

Davi: Isso. No costume tradicional da diáspora, são oito dias.

Lia: Agora me dá um exemplo concreto. O que muda na vida de uma família judaica em Pessach?

Davi: Muda até a comida. Durante a festa, os judeus comem matzá, um pão sem fermento, feito só de farinha e água. A matzá lembra que os israelitas saíram do Egito com tanta pressa que a massa não teve tempo de crescer. A Bíblia a chama de "pão da aflição".

Lia: Então ninguém come pão comum.

Davi: Exato. Evita-se o chametz, que é o alimento fermentado de cereais como trigo e cevada. Na noite antes da festa, a família procura migalhas pela casa com uma vela e uma pena. No dia seguinte, o que sobrou é queimado.

Lia: E como é aquele jantar especial, o seder?

Davi: O seder é uma refeição ritual feita em casa, no início de Pessach. A palavra significa "ordem", porque tudo segue uma sequência fixa de bênçãos, perguntas, relatos e alimentos. O roteiro da noite é um livro chamado Hagadá, que conta a saída do Egito.

Lia: E tem comida com significado no prato.

Davi: Tem. O maror, a erva amarga, lembra a amargura da escravidão. O charosset, uma mistura doce de frutas, nozes e vinho, lembra a argamassa dos tijolos. Muitas famílias também escondem um pedaço de matzá, o afikoman, para as crianças procurarem. Assim, os mais novos ficam atentos às perguntas e à história.

Lia: E por que essa festa é tão importante até hoje?

Davi: Porque Pessach é a festa da memória e da liberdade. O sábio Maimônides escreveu que, em cada geração, cada pessoa deve se ver como se ela mesma tivesse saído do Egito. Por isso, a história passa de pais para filhos. Essa memória resistiu até no Holocausto. O Museu do Holocausto dos EUA guarda uma Hagadá produzida no campo de Gurs.

Lia: Então, em resumo: Pessach é a festa em que o povo judeu lembra a saída do Egito, conta essa história às novas gerações e celebra o nascimento de um povo livre.

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Rosh Hashaná e Yom Kipur3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é Rosh Hashaná? E o que é Yom Kipur?

Davi: Rosh Hashaná é o ano-novo judaico. O nome quer dizer "cabeça do ano".

Davi: Yom Kipur é o Dia do Perdão. É o dia mais sagrado do calendário judaico.

Davi: As duas datas caem no mês hebraico de Tishrei. Em geral, isso acontece entre setembro e outubro.

Davi: A data muda todo ano no nosso calendário. Isso acontece porque, no calendário judaico, cada mês começa com a lua nova.

Davi: Rosh Hashaná dura dois dias. Como todo dia judaico, a festa começa ao pôr do sol da véspera.

Davi: Na tradição, a data lembra o aniversário da criação do mundo. Ela também é chamada de Dia do Julgamento.

Davi: Agora imagina uma família na mesa de jantar. Alguém pega uma fatia de maçã e mergulha no mel. É o desejo de um ano doce.

Davi: Na mesa também pode ter romã. As muitas sementes simbolizam muitas boas ações.

Davi: Na sinagoga, toca o shofar, um chifre de carneiro. O som chama todo mundo a parar e examinar os próprios atos.

Davi: E tem o tashlich. Na tarde do primeiro dia, as pessoas vão até um rio ou até o mar. Ali rezam e "lançam" simbolicamente os pecados na água.

Lia: E onde entra o Yom Kipur nessa história?

Davi: Yom Kipur vem dez dias depois de Rosh Hashaná.

Davi: O período entre as duas festas se chama Dez Dias de Arrependimento.

Davi: Em hebraico, arrependimento é teshuvá. É hora de fazer um balanço do ano, pedir perdão, perdoar os outros e se comprometer a mudar.

Davi: Uma oração dessas festas resume a ideia: "Em Rosh Hashaná é escrito, e no dia do jejum de Kipur é selado".

Davi: Ser "inscrito" e "selado" no livro da vida é uma expressão de fé. E a tradição ensina que, nesses dias, ainda dá para mudar o rumo com atos de justiça e compaixão.

Lia: E como é, na prática, passar o Yom Kipur?

Davi: É um dia de jejum de cerca de 25 horas. Não se come nem se bebe, nem mesmo água.

Davi: Também não se trabalha, não se usam cosméticos e não se calçam sapatos de couro. Mas há exceções religiosas e médicas.

Davi: A maior parte do dia se passa na sinagoga. Na véspera, os serviços abrem com o Kol Nidrei.

Davi: Durante o dia, há a confissão das faltas. Há também o Yizkor, em memória dos mortos.

Davi: No fim, vem a Ne'ilá, a oração de encerramento. Ela termina com um único toque longo do shofar.

Davi: E o Talmud traz um ensinamento bonito: mesmo sem comida nem bebida, o dia deve ser honrado com roupas limpas.

Lia: Então, resumindo: Rosh Hashaná abre o ano judaico com doçura e reflexão, e Yom Kipur fecha esse período com jejum, perdão e o compromisso de ser alguém melhor.

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Hanucá3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: Davi, o que é Hanucá? Todo ano eu vejo velas acesas em dezembro e fico curiosa.

Davi: Hanucá é a festa judaica das luzes. Ela dura oito dias.

Davi: O nome vem do hebraico e significa "dedicação" ou "inauguração".

Davi: A festa lembra uma história antiga, do século II antes de Cristo.

Davi: Naquela época, a Terra de Israel estava sob o domínio do Império Selêucida.

Davi: O rei Antíoco Epifânio baixou decretos que proibiam o estudo da Torá e o Shabat.

Davi: Ele também proibiu a circuncisão. E o Templo de Jerusalém foi profanado com ritos pagãos.

Davi: Os judeus reagiram. Foi a Revolta dos Macabeus, liderada pelo sacerdote Matatias e depois pelo filho dele, Judá Macabeu.

Davi: Eles retomaram Jerusalém, purificaram o Templo e reconstruíram o altar. Isso aconteceu por volta de 164 antes de Cristo.

Lia: E por que as luzes?

Davi: Pensa numa família em casa, ao anoitecer. Ela pega a hanukiá, um candelabro de nove braços.

Davi: A cada noite, ela acende mais uma luz, sempre com bênçãos e cânticos.

Davi: Na última noite, são oito luzes acesas.

Davi: Existe ainda uma luz auxiliar, o shamash, que quer dizer "servente". É com ela que se acendem as outras.

Davi: Muitas famílias colocam a hanukiá na janela. A ideia é divulgar o milagre para quem passa na rua.

Davi: Que milagre? Segundo o Talmude, os Macabeus encontraram no Templo um único jarro de azeite puro.

Davi: Era azeite para pouco tempo, mas durou oito dias.

Davi: Essa é uma tradição de fé. Ela é diferente do relato histórico da revolta, mas as duas coisas formam juntas a memória da festa.

Davi: Por causa do azeite, é costume comer frituras, como os latkes, bolinhos de batata.

Davi: Tem também as sufganiot, sonhos recheados com geleia ou creme, muito populares em Israel.

Davi: E as crianças jogam o sevivon, um pião com letras hebraicas. Elas formam as iniciais de "Um grande milagre aconteceu lá", ou "aqui", em Israel.

Lia: Então Hanucá é o Natal dos judeus?

Davi: Não. As duas datas costumam cair em dezembro, mas Hanucá tem origem e significado próprios.

Davi: O costume de dar muitos presentes é recente e muda de lugar para lugar.

Davi: A rabina Dalia Marx conta que, em Jerusalém, onde ela cresceu, as crianças ganhavam moedas de chocolate.

Davi: O centro da festa é o mesmo em toda parte: acender luzes, agradecer e lembrar a liberdade de praticar o judaísmo.

Davi: Para o povo judeu, Hanucá é a memória de uma luta pelo direito de viver a própria fé e a própria identidade na sua terra.

Lia: Resumindo: Hanucá é a festa das luzes. Ela lembra a vitória dos Macabeus e a nova dedicação do Templo de Jerusalém, e a luz que cresce a cada noite celebra a liberdade de ser judeu. Mais em jjo.org.br.

Yom HaShoá3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é Yom HaShoá? Ouvi esse nome na escola e fiquei curiosa.

Davi: Yom HaShoá é o Dia da Lembrança do Holocausto e do Heroísmo, em Israel.

Davi: Holocausto é o nome do crime em que o regime nazista e seus colaboradores assassinaram, de forma sistemática, cerca de 6 milhões de judeus.

Davi: Os judeus foram o grupo centralmente visado. Mas o nazismo também perseguiu e matou pessoas com deficiência, pessoas negras, romani, opositores políticos e outros grupos.

Davi: É importante entender uma coisa: o Holocausto não foi um "ódio entre povos". Também não foi algo inexplicável.

Davi: Foi uma perseguição organizada por um Estado, com leis, instituições e colaboradores.

Lia: E por que esse dia fala também de heroísmo?

Davi: Porque ele lembra a resistência judaica. A data foi escolhida pelo Knesset, que é o parlamento de Israel, em 1951.

Davi: Depois, uma lei de 1959 consolidou a data.

Davi: Ela cai em 27 de nisã do calendário hebraico, geralmente em abril ou maio.

Davi: A escolha liga o dia ao Levante do Gueto de Varsóvia. Gueto era uma área fechada onde os nazistas confinavam os judeus.

Davi: Ali, judeus se levantaram contra os nazistas. O levante começou na véspera de Pessach, em abril de 1943.

Davi: E houve também a resistência espiritual: música e desenhos feitos às escondidas dentro dos guetos. Isso mostra que as vítimas lutaram para manter sua dignidade.

Lia: Espera, mas eu já vi um dia do Holocausto em janeiro. É a mesma coisa?

Davi: Não, são datas diferentes. O dia 27 de janeiro é o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Davi: Ele marca a libertação do campo de Auschwitz-Birkenau, em 1945.

Davi: A ONU criou essa data internacional em 2005.

Davi: Já o Yom HaShoá é a data de Israel. A escola pode usar qualquer uma das duas, desde que explique a diferença.

Lia: E como a gente lembra isso na prática?

Davi: Um exemplo concreto: o Yad Vashem, em Israel, mantém uma base com nomes de vítimas.

Davi: Um grupo de alunos pode escolher uma vítima ou um sobrevivente e montar uma ficha com nome, lugar, família e destino. A proposta se chama "dar um rosto a um nome".

Davi: No fim, a turma pode fazer um momento de silêncio, ler nomes ou ler o poema Nizkor, que quer dizer "Lembremo-nos", de Abba Kovner, sobrevivente do Holocausto.

Davi: Lembrar também protege a verdade. O Holocausto é um dos fatos mais documentados da história, com documentos nazistas, fotografias, julgamentos e milhões de testemunhos.

Davi: Negar o Holocausto é falsificar a história. No Brasil, o STF decidiu no caso Ellwanger que publicar material antissemita e negacionista é crime de racismo.

Lia: Então o Yom HaShoá é o dia em que Israel honra as vítimas e a coragem da resistência judaica, para que ninguém apague essa memória.

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Cristãos-novos4 minEnviar por WhatsApp
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Lia: Davi, o que é um cristão-novo?

Davi: Cristãos-novos eram judeus obrigados a virar católicos em Portugal. A palavra também vale para os descendentes deles.

Davi: A conversão forçada aconteceu em 1497. Antes disso, o rei D. Manuel I tinha mandado expulsar os judeus que não aceitassem o batismo.

Davi: Depois, muitos judeus foram impedidos de sair do país e batizados à força, em massa. De uma hora para outra, passaram a ser oficialmente cristãos.

Davi: Mas a sociedade continuou separando as pessoas. De um lado ficavam os "cristãos-velhos". Do outro, os "cristãos-novos", também chamados de "gente da Nação".

Davi: E essa marca passava de pais para filhos. Regras chamadas "estatutos de pureza de sangue" tratavam a origem judaica como uma mancha hereditária. Elas barravam essas pessoas de cargos e honrarias, mesmo quando eram católicas sinceras.

Lia: E o que isso tem a ver com o Brasil?

Davi: Muito. Muitos cristãos-novos vieram para o Brasil colonial. A colônia oferecia oportunidades de negócio e ficava longe de Lisboa. Havia entre eles senhores de engenho, lavradores e mercadores.

Davi: Parte deles manteve a fé judaica em segredo, sobretudo dentro de casa. As mulheres tiveram papel central: ensinavam orações e preparavam as comidas das festas.

Davi: Só que a Inquisição também chegou aqui. A Inquisição era o tribunal da Igreja que perseguia quem se desviava da fé católica. O Brasil nunca teve um tribunal fixo. Inspetores vinham de Lisboa, e os moradores eram chamados a denunciar desvios.

Lia: E como alguém era acusado?

Davi: Por gestos simples do dia a dia. Trocar a roupa de cama na sexta-feira. Acender candeeiros ao anoitecer. Não trabalhar no sábado. Não comer carne de porco. Jejuar no "Dia Grande", o Yom Kippur. Tudo isso virava "prova" de judaísmo.

Davi: O acusado tinha os bens tomados e era levado de navio para as prisões de Lisboa. Lá era interrogado e podia ser torturado. Para escapar da fogueira, precisava confessar e denunciar outras pessoas, muitas vezes da própria família.

Davi: Por isso a acusação não prova que a pessoa praticava o judaísmo. Alguns praticavam em segredo, outros eram católicos sinceros, e muitos tinham identidades mistas.

Davi: Um exemplo concreto é Antônio José da Silva, conhecido como "o Judeu". Ele nasceu no Rio de Janeiro, numa família cristã-nova. Foi advogado e escreveu peças musicais de grande sucesso.

Davi: Ele foi preso, acusado de judaísmo, e executado num auto de fé em Lisboa, em 1739.

Lia: É assustador pensar que a origem de alguém virava uma suspeita para a vida inteira.

Davi: É isso mesmo. A historiadora Anita Novinsky estudou os processos com réus do Brasil colonial. Mais da metade tinha como motivo a acusação de "heresia judaica".

Davi: A separação legal entre cristãos-novos e cristãos-velhos só acabou em 1773.

Lia: Resumindo: cristãos-novos eram judeus forçados a virar católicos, e seus descendentes, perseguidos por causa da origem judaica. Essa história ajuda a entender por que a JJO combate o antissemitismo, sem ódio a nenhum povo ou religião. Mais em jjo.org.br.

O Muro das Lamentações3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: Davi, o que é o Muro das Lamentações?

Davi: É um pedaço de um muro muito antigo, em Jerusalém. Em hebraico, ele se chama Kotel, que quer dizer "muro". O nome completo é HaKotel HaMa'aravi, o "Muro Ocidental", porque fica no lado oeste do Monte do Templo.

Davi: Pensa assim: o rei Herodes, o Grande, quis ampliar a área do Segundo Templo. Ele mandou aterrar vales vizinhos e criou uma grande plataforma retangular no alto do monte.

Davi: Para segurar tanta terra, ele construiu muros enormes, apoiados direto na rocha. São os muros de contenção, ou de arrimo. O Kotel é um trecho de um deles.

Davi: Dá para ver isso nas pedras. Nas fileiras de baixo, os blocos de calcário são gigantes e têm uma moldura rebaixada nas bordas. É o acabamento típico das obras de Herodes.

Lia: Então ele não era uma parede do próprio Templo. Por que é tão sagrado?

Davi: Porque é a estrutura que sobrou mais perto do Santo dos Santos, o ponto central do antigo Templo. E o lugar mais sagrado do judaísmo é o próprio Monte do Templo.

Davi: Em 70 d.C., os romanos destruíram o Templo. Mas os muros externos eram maciços demais para serem derrubados por inteiro. O trecho ocidental ficou de pé.

Davi: Durante séculos, governantes romanos, bizantinos e islâmicos limitaram o acesso judaico ao alto da esplanada. Por isso o Muro virou o ponto de oração mais próximo do lugar santo.

Davi: O nome "Lamentações" vem da tradição de lamentar ali a destruição do Templo. Mas não é só tristeza. O Kotel também representa a esperança de redenção.

Davi: Em 1930, uma comissão da Liga das Nações reconheceu o vínculo histórico e religioso ininterrupto dos judeus com o Muro.

Lia: E os judeus sempre puderam rezar lá?

Davi: Não. Depois da Guerra de Independência de Israel, a Cidade Velha ficou sob controle jordaniano. A partir de 1949, judeus israelenses foram impedidos de chegar ao Kotel.

Davi: Isso mudou em 1967, na Guerra dos Seis Dias. As Forças de Defesa de Israel tomaram a Cidade Velha. Israel reabriu o local a fiéis de diferentes religiões.

Davi: No alto da esplanada, Israel manteve o Waqf, a instituição islâmica que cuida da administração religiosa, sob custódia da Jordânia. A Polícia de Israel cuida da segurança.

Davi: Hoje o Kotel é uma praça aberta de oração. As pessoas rezam todos os dias, sozinhas ou em grupo, e celebram ali momentos importantes da vida religiosa.

Davi: Um costume bem conhecido é deixar bilhetes com pedidos entre as pedras. De tempos em tempos, eles são retirados e enterrados ritualmente. Nunca vão para o lixo comum.

Davi: Gente de outras religiões também faz isso. Em 2014, o papa Francisco deixou uma oração entre as pedras.

Lia: Resumindo: o Kotel é o muro que sustentava o Monte do Templo, ficou de pé depois da destruição e é o coração da oração judaica, ligado ao povo judeu por uma história documentada e ininterrupta.

Lia: Mais em jjo.org.br.

A Lei 7.716/89 e o crime de racismo4 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é a Lei do Racismo, a Lei 7.716?

Davi: É uma lei brasileira de 1989. Ela pune a discriminação ou o preconceito por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Procedência nacional quer dizer o país de onde a pessoa ou a família veio.

Lia: Me dá um exemplo concreto.

Davi: Imagina uma loja que se recusa a atender um cliente porque ele usa quipá. Isso pode ser crime por essa lei. Ela também pune negar emprego, dificultar matrícula e incitar o preconceito. E pune quem usa a suástica para divulgar o nazismo.

Lia: Mas a palavra antissemitismo não aparece aí.

Davi: A Constituição também não usa essa palavra. Ela diz que o racismo é inafiançável e imprescritível. Inafiançável: o acusado não pode pagar fiança para responder em liberdade. Imprescritível: o Estado nunca perde, com o tempo, o direito de punir.

Lia: E o que o STF decidiu?

Davi: Em 2003, no caso Ellwanger, o Supremo julgou um editor que publicava e vendia livros antissemitas. A Corte decidiu que manifestações antissemitas podem configurar crime de racismo. Por maioria, negou o pedido de habeas corpus do editor. E deixou claro que a liberdade de expressão não protege ideias racistas.

Lia: Agora, muita gente acha que criticar Israel virou crime.

Davi: Não virou. Criticar Israel ou o governo israelense não é crime. A lei pune o preconceito, a discriminação e a incitação contra judeus.

Lia: E quem decide onde fica essa linha?

Davi: Em cada caso, quem decide são a polícia, o Ministério Público e o Judiciário. Para orientar o debate, a JJO adota a definição de trabalho de antissemitismo da IHRA, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. A própria IHRA diz que criticar Israel como se critica qualquer outro país não é antissemitismo.

Lia: Então dá exemplos de atitudes que cruzam essa linha.

Davi: Negar o direito de Israel existir. Culpar judeus pelas ações do governo israelense. Dizer que "os sionistas controlam a mídia". Comparar judeus a nazistas. A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião. O alvo é o discurso de ódio, nunca um povo.

Lia: Tem gente que acha que, na internet ou numa piada, vale tudo. Mas a regra mudou em 2023.

Davi: Não vale tudo. A Lei 14.532 prevê pena maior quando o crime é cometido como "piada" ou diversão. Ela também prevê tratamento mais severo na internet e nas redes sociais, conforme o tipo de crime.

Lia: Agora, o caminho prático para quem sofrer ou presenciar um caso.

Davi: Faça um boletim de ocorrência na Polícia Civil. Guarde prints completos com data, links e nomes de testemunhas. A Defensoria Pública ou o Ministério Público podem ajudar. E denuncie logo, porque a demora dificulta a coleta de provas.

Lia: Resumindo: no Brasil, o antissemitismo pode ser crime de racismo, e esse crime não prescreve. Criticar Israel como qualquer outro país não é crime. Já negar o direito de Israel existir é antissemitismo pelo critério da IHRA, que orienta, mas não é lei. Mais em jjo.org.br.

O êxodo esquecido dos judeus dos países árabes3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: O que é o "êxodo esquecido"?

Davi: É a saída em massa de judeus dos países árabes e do Irã. Começou no fim dos anos 1940.

Lia: E continuou até os anos 1970.

Davi: Foram cerca de 800 mil a 900 mil pessoas.

Lia: Tanta gente! E essas comunidades não eram recentes por lá.

Davi: Não. Elas viviam nessas terras havia mais de 2.000 anos.

Lia: E por que saíram?

Davi: Muitos partiram depois de pogroms, prisões, perda de cidadania e confisco de bens.

Lia: Pogrom é um ataque violento de uma multidão contra uma comunidade judaica.

Davi: Isso. Um exemplo concreto é o Iraque.

Davi: Em junho de 1941, houve o Farhud, um pogrom contra os judeus de Bagdá, em meio a propaganda nazista.

Lia: Isso foi sete anos antes da criação de Israel.

Davi: Exato. As estimativas mais citadas falam em cerca de 180 mortos.

Lia: E houve mais de 2.000 feridos, além de saques e estupros.

Davi: Em 1948, o sionismo, movimento pela criação de um Estado judeu, virou crime no Iraque.

Davi: Em 1950, uma lei permitiu que os judeus saíssem do país, desde que renunciassem à cidadania.

Lia: Ou seja: para sair, eles tinham que deixar de ser iraquianos.

Davi: E em março de 1951, um dia depois do fim do prazo de saída, outra lei congelou e confiscou imóveis, contas bancárias e negócios.

Lia: Muitos chegaram a Israel só com malas de roupa e pouco dinheiro.

Davi: Os casos não foram idênticos. No Irã, por exemplo, a saída em massa só veio depois da Revolução Islâmica de 1979.

Lia: Muita gente diz que só os palestinos foram refugiados. É verdade?

Davi: Não é. Pensa na guerra de 1948.

Davi: Nessa guerra, cerca de 700 mil árabes palestinos fugiram ou foram expulsos, segundo a agência Reuters.

Davi: A dor dos refugiados palestinos é real. E sofrimento não se compensa.

Lia: Mas os judeus que deixaram os países árabes também foram refugiados.

Davi: Sim. Em 1957, o ACNUR, a agência da ONU para refugiados, reconheceu como refugiados os judeus que fugiram do Egito.

Lia: E a grande diferença está no que veio depois.

Davi: Israel e outros países integraram esses refugiados como cidadãos. Por isso não existem campos de refugiados para os descendentes deles.

Lia: Cerca de um terço não foi para Israel. Muitos seguiram para as Américas, incluindo o Brasil.

Davi: Já os governos árabes recusaram integrar os refugiados palestinos.

Lia: Resumindo: centenas de milhares de judeus deixaram os países árabes e o Irã, muitos depois de perseguição, perda de cidadania e confisco de bens. A maioria encontrou em Israel um lar definitivo, como cidadãos. Mais em jjo.org.br.

O 7 de outubro3 minEnviar por WhatsApp
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Lia: Davi, o que foi o 7 de outubro?

Davi: Foi um ataque do grupo terrorista Hamas e de outros grupos armados ao sul de Israel, em 7 de outubro de 2023.

Davi: Era sábado, dia de descanso, e também Simchat Torah, a festa em que se celebra a leitura da Torá.

Lia: Então era um dia de festa.

Davi: Era. E foi um dia depois dos 50 anos do início da Guerra do Yom Kippur.

Davi: O ataque começou por volta das 6h30, com uma chuva de milhares de foguetes.

Davi: Ao mesmo tempo, os terroristas romperam a cerca de Gaza em dezenas de pontos.

Davi: Eles atacaram kibutzim, cidades como Sderot e Ofakim, bases militares e um festival de música.

Lia: Kibutz, para quem não conhece, é um tipo de comunidade, como uma pequena vila.

Davi: Isso. E todos esses lugares ficam dentro do território de Israel.

Davi: Cerca de 1.200 pessoas foram mortas. A maioria era civil, ou seja, gente que não era soldado.

Davi: Foi o dia mais mortal para judeus desde o Holocausto.

Davi: Um exemplo é o festival Nova, perto do kibutz Re'im. Cerca de 3.000 pessoas estavam numa festa ao ar livre.

Davi: Muitos foram mortos enquanto tentavam fugir pelas estradas. A BBC cita mais de 370 mortos ali.

Davi: Em kibutzim como Be'eri, os terroristas iam de casa em casa e atacaram famílias dentro de suas casas.

Davi: Além disso, 251 pessoas foram levadas como reféns para Gaza, em grande maioria civis.

Davi: Entre os reféns havia de um bebê de 9 meses a idosos de 85 anos.

Lia: E isso é permitido em guerra?

Davi: Não. Tomar reféns é crime de guerra pela Quarta Convenção de Genebra.

Davi: E o Hamas negou à Cruz Vermelha qualquer acesso a eles.

Davi: Houve também violência sexual. Uma missão da ONU liderada por Pramila Patten, em relatório de março de 2024, encontrou motivos razoáveis para acreditar que houve estupro durante o ataque.

Davi: A mesma missão encontrou informação clara e convincente de violência sexual contra reféns em Gaza.

Lia: Já ouvi gente chamar isso de resistência. O que você responde?

Davi: Defender os direitos dos palestinos é legítimo. Mas o direito internacional proíbe, sem exceção, ataques deliberados contra civis e a tomada de reféns.

Davi: Nenhuma causa autoriza matar famílias em casa, atirar em jovens numa festa ou sequestrar crianças.

Davi: E a responsabilidade é do Hamas e dos grupos terroristas que atacaram, não de um povo.

Davi: Foi esse ataque que começou a guerra. No dia seguinte, Israel declarou oficialmente estado de guerra contra o Hamas.

Lia: Resumindo: o 7 de outubro foi um ataque terrorista do Hamas contra civis em Israel e o dia mais mortal para judeus desde o Holocausto.

Lia: Mais em jjo.org.br.

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