Reciclar imagens é pegar uma foto ou um vídeo verdadeiro de outro lugar ou de outra época, como a guerra da Síria, o Iraque, um filme ou um videogame, e postar com a legenda “Gaza agora”. Na guerra iniciada pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, a Reuters mostrou que um vídeo de hospital bombardeado em Alepo, em 2016, circulou como ataque de Israel em Gaza. AFP, AP e Aos Fatos documentaram outros casos. A busca reversa de imagem é o primeiro teste para achar a publicação anterior.
O que é reciclar uma imagem de outra guerra como se fosse Gaza?
Reciclar uma imagem é publicar uma foto ou um vídeo verdadeiro com data, local ou evento falsos. O arquivo existe. O que se falsifica é a legenda: “Gaza agora”, “Israel bombardeia hospital”, “olha o que fizeram ontem”.
As checagens mostram que o material reciclado costuma vir de uma destas origens:
- Outra guerra, sobretudo a guerra civil da Síria, mas também o Iraque e o Iêmen.
- Outro país, sem guerra nenhuma, como uma explosão numa instalação de gás nos Estados Unidos ou uma festa de torcedores na Argélia.
- Anos anteriores do próprio conflito em Gaza, como um prédio derrubado em 2021 e reapresentado em 2023.
- Ficção: bastidores de filmes, esquetes de comédia e cenas de videogame.
Para dificultar o rastreamento, quem recicla também edita. Segundo a Bellingcat, as táticas incluem cortar logotipos e marcas d'água, mudar cores e enquadramento, encurtar o vídeo e acrescentar música dramática. Num caso documentado pela organização, alguém cortou a marca d'água do Aleppo Media Center de um vídeo gravado na Síria em 2014. O vídeo depois circulou como bombardeio recente em Gaza.
Um dos usos mais frequentes está na página sobre fotos de criança nos escombros com a legenda “Gaza agora”. A técnica é parente próxima de cortes, legendas trocadas e traduções inventadas: a imagem fica, o contexto muda.

Quem recicla essas imagens e por quê?
Nos casos checados, quem espalha são perfis em redes sociais, ativistas e contas que vivem de engajamento. As agências identificaram a origem de cada arquivo. Elas não identificaram, nesses casos, um autor central. Por isso esta página não atribui a essas imagens um dono que as checagens não apontaram.
Algumas pistas sobre quem compartilha estão documentadas. A Bellingcat registrou que várias figuras proeminentes com histórico de negar os ataques químicos do governo sírio repostaram imagens da guerra civil síria dizendo que mostravam Israel e Gaza. A organização também apontou contas pagas no X entre os difusores de material reciclado.
Os motivos se repetem:
- Engajamento e dinheiro. Perfis monetizados exploram a indignação para ganhar visualizações e seguidores. Quando a checagem sai, alcança só uma fração do público original.
- Narrativa pronta. Uma imagem de destruição síria com a legenda “Gaza” encaixa numa acusação contra Israel que já circulava antes de qualquer prova.
- Volume. Em guerra, a procura por imagens é enorme e a verificação é lenta.
O pano de fundo importa. A guerra começou com o ataque dos terroristas do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. O sofrimento de civis em Gaza é real, e o tema do uso de hospitais e escolas é tratado na página sobre escudos humanos. Em outras frentes da desinformação, a fonte tem nome, como os números do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas. Na reciclagem de imagens, o dano vem da multiplicação: repostagens sem verificação podem transformar imagens fora de contexto em falsas provas, tanto de ataques atribuídos a Israel quanto de supostas encenações de vítimas palestinas.
A Bellingcat descreve ainda um “apagamento duplo”. A imagem reciclada apaga a memória das vítimas sírias que ela realmente mostra e, ao mesmo tempo, contamina a documentação do que acontece no conflito atual.
Quais imagens da Síria foram apresentadas como se fossem de Gaza?
A Síria está entre as fontes recorrentes de imagens recicladas nos casos documentados. São mais de dez anos de guerra civil registrados por celulares, câmeras de segurança e fotógrafos de agência. Os casos abaixo foram verificados um a um.
O hospital de Alepo (2016). Em 8 de novembro de 2023, a Reuters mostrou que uma compilação de câmeras de segurança de um hospital bombardeado em Alepo, em 2016, circulava como ataque de Israel a um hospital de Gaza em 2023. A prova: as imagens existiam sete anos antes da guerra e mostravam outro país. Ataques a hospitais estão entre as acusações mais pesadas contra Israel. O caso do hospital al-Ahli mostra o custo de acusar antes de verificar.
A menina resgatada em Alepo (2016). Três fotos de uma menina retirada dos escombros por homens diferentes circularam no Brasil em outubro de 2023. O Aos Fatos verificou que as fotos são autênticas. O fotógrafo Ameer al-Halabi as fez para a AFP em Alepo, em 27 de agosto de 2016, após um ataque aéreo. Elas foram usadas como se fossem de Gaza e também como suposta prova de encenação. A prova: crédito do fotógrafo, data e local no arquivo da agência. Segundo a checagem, a alegação de que o Hamas teria adulterado as fotos também é falsa.
Crianças feridas em Afes. Em 17 de abril de 2024, a AFP mostrou que um vídeo de crianças feridas e aterrorizadas, apresentado como vítimas de Gaza, foi gravado em Afes, no norte da Síria, após um ataque em 2 de dezembro de 2023. Outro vídeo da mesma checagem mostrava um menino sírio chorando pelos irmãos mortos, em 2014.
Outros casos sírios documentados:
- Um vídeo de um menino chorando pela irmã, apresentado como de Gaza, foi verificado pela Reuters e pelo MEDDMO/Fact-check Malta. As duas apurações situaram a gravação em Alepo, em 2014.
- Um vídeo apresentado como bombardeio israelense ao hospital Al-Sadaqa, em Gaza, foi identificado por Olga Robinson, da BBC Verify, e pela Bellingcat como gravação antiga da guerra civil síria.
- Segundo a Bellingcat, uma foto de crianças mortas envoltas em mortalhas brancas, vítimas do ataque químico do regime de Assad em Ghouta, em 2013, circulou como massacre recente em Gaza. Fotos de destruição em Homs tiveram o mesmo uso.
- A AFP registrou uma explosão durante um funeral na Síria apresentada como cena da guerra entre Israel e Hamas.
- Vídeos de homens armados e de disparos de foguetes na Síria, publicados no YouTube entre 2019 e 2020, foram reapresentados como ataques recentes, segundo a Bellingcat.
- Gravações da execução de civis no bairro de Tadamon, em Damasco, em 2013, circularam como cenas de Gaza. A verificação foi feita pelo VERA Files, das Filipinas.

“A compilation of CCTV footage showing a hospital being bombed in Aleppo, Syria, in 2016, has been shared online to falsely claim it shows Israel attacking a Gazan hospital in 2023.”
“Uma compilação de imagens de câmeras de segurança que mostra um hospital sendo bombardeado em Alepo, na Síria, em 2016, foi compartilhada na internet para alegar falsamente que mostra Israel atacando um hospital de Gaza em 2023.”
A Reuters prova que a “prova” de um ataque israelense a hospital era um bombardeio em outro país, sete anos antes.
“As fotografias são verdadeiras e circulam em peças desinformativas desde 2016, quando foram registradas para a AFP pelo fotógrafo freelancer Ameer al-Halabi, que acompanhava o conflito na Síria.”
“As fotografias são verdadeiras e circulam em peças desinformativas desde 2016, quando foram registradas para a AFP pelo fotógrafo freelancer Ameer al-Halabi, que acompanhava o conflito na Síria.”
Mostra que uma foto autêntica, com autor e data conhecidos, pode servir à desinformação só pela troca da legenda.
Que imagens do Iraque, do Iêmen e de anos anteriores entraram na conta de Gaza?
A reciclagem não para na Síria. Ela usa qualquer cena de destruição da região e também imagens antigas do próprio conflito em Gaza.
Iraque. A AFP classificou como material anterior e fora de contexto um vídeo antigo de uma menina iraquiana chorando, apresentado como relacionado à guerra entre Israel e Hamas.
Iêmen e Mar Vermelho. Em 30 de janeiro de 2024, a AFP mostrou que um vídeo de navio em chamas, vendido como petroleiro britânico atingido no Mar Vermelho, perto do Iêmen, mostrava um incêndio numa embarcação em águas de Omã, a caminho da Somália. A agência também desmentiu um vídeo de explosão no Iêmen apresentado como ataque ligado ao conflito entre Israel e Hezbollah.
Imagens trocadas de lugar. Em 3 de outubro de 2024, a AFP verificou fotos apresentadas como um ataque a forças americanas em Bagdá. Uma era de uma explosão numa instalação de gás em Nova Jersey, nos Estados Unidos, em 2011. Outra era uma foto da própria AFP feita em Rafah, Gaza, em fevereiro de 2020. A técnica funciona em todas as direções: até imagens antigas de Gaza viram “prova” de outros episódios.
O drone nos fios elétricos. Em 24 de abril de 2024, a AFP mostrou que um vídeo de drone preso em fios elétricos, atribuído a um episódio envolvendo Iraque e Israel, já circulava antes, identificado por veículos locais como gravado em Hasakeh, na Síria. A AFP declarou que não conseguiu confirmar sozinha o local exato. A falsa atribuição foi demonstrada. A localização precisa ficou em aberto, e a agência disse isso com todas as letras.
Anos anteriores do próprio conflito.
- Um vídeo de prédio desabando em Gaza após um míssil circulou como recente em outubro de 2023. Shayan Sardarizadeh, da BBC Verify, e a Bellingcat identificaram que a cena foi capturada ao vivo num boletim da BBC em maio de 2021.
- Um vídeo de explosão num prédio no norte de Gaza, postado em outubro de 2023, já havia sido publicado em 13 de maio de 2023, segundo o investigador Chris Osieck e a Bellingcat.
- Imagens com o logotipo das FDI mostrando um foguete que falhou foram apresentadas em outubro de 2023 como recentes. Elas circulavam desde agosto de 2022.
Outros países.
- Uma foto de um menino esfregando um chão coberto de sangue foi republicada como “menino palestino limpando o sangue da família em Gaza”. Reuters, PolitiFact, AFP e Annie Lab mostraram que o garoto limpava o sangue de gado abatido pela família em Jerusalém, por volta de 2011 ou 2012.
- Vídeos de torcedores do CR Belouizdad comemorando com fogos e sinalizadores vermelhos em Argel, na Argélia, viralizaram como bombardeios noturnos sobre Gaza.
- A foto de uma criança ferida no Afeganistão, atingida num ataque do Talibã, já foi apresentada como vítima de fósforo lançado por Israel.
- Vídeos de um ataque militar a uma igreja nas Filipinas, em 2017, e de testes de mísseis da Marinha da Índia circularam no X e no TikTok como combates em Gaza, segundo o Polygraph.info.
“Local media outlets posted the video on the same day here and here , also reporting that it was filmed in Hasakeh (archived links here and here ). AFP was not able to independently confirm the location of the footage.”
“Veículos de mídia locais publicaram o vídeo no mesmo dia, aqui e aqui, também informando que ele foi filmado em Hasakeh (links arquivados aqui e aqui). A AFP não conseguiu confirmar de forma independente o local das imagens.”
Mostra uma checagem honesta: prova a circulação anterior e declara o que não conseguiu confirmar.
Filmes, esquetes e videogames também viram imagens “de Gaza”?
Sim. Ficção filmada é usada como registro de guerra, e o caminho também se inverte: bastidores de filmes viram “prova” de que vítimas reais seriam atores.
Videogame como bombardeio real. Em 10 de outubro de 2023, três dias depois do ataque do Hamas, o Aos Fatos mostrou que vídeos de mísseis e bombardeios, atribuídos a ataques israelenses contra o Hamas, eram cenas do jogo de simulação militar Arma 3. O material estava no TikTok pelo menos desde setembro. Gravações desse jogo costumam ser cortadas e postadas em baixa resolução para simular a derrubada de helicópteros ou a ação de defesas antiaéreas.
Filme como “encenação”. Em 11 de outubro de 2023, o Aos Fatos mostrou que um vídeo de pessoas aparentemente encenando a morte de uma criança vinha dos bastidores do curta-metragem palestino Empty Place. O registro foi publicado em abril de 2022 pelo operador de câmera Mohamad Awawdeh, antes da guerra.
Reportagem antiga como “atores de crise”. Em 25 de outubro de 2023, a AP mostrou que um vídeo de pessoas encenando ferimentos vinha de uma reportagem de 2017 sobre a indústria de cinema em Gaza. O local era Gaza. O evento e a data alegados eram falsos.
Esquete de comédia como “ator de Gaza”. Em 19 de dezembro de 2024, a Reuters mostrou que um homem saindo de um carro com a perna engessada fazia parte de um esquete gravado em Bagdá. O autor, Haider Al-Akraa, confirmou à agência que o vídeo não tinha relação com Gaza.
Esses casos ensinam a mesma regra dos anteriores, em sentido oposto. Uma foto antiga, um filme ou um esquete não provam que uma cena de Gaza foi montada. Acusações de encenação precisam ser demonstradas caso a caso; o tema é tratado na página Cenas montadas para a câmera. Quem defende Israel com fatos ganha quando cada acusação, de qualquer lado, passa pelo mesmo teste.
“As imagens compartilhadas pelas publicações são, na verdade, registros do jogo de simulação de guerra Arma 3 que estão disponíveis no TikTok ao menos desde setembro.”
“As imagens compartilhadas pelas publicações são, na verdade, registros do jogo de simulação de guerra Arma 3 que estão disponíveis no TikTok ao menos desde setembro.”
Prova que semelhança visual com uma guerra real não garante que a cena seja real.
“O registro original do vídeo que agora circula fora de contexto foi publicado na conta do TikTok de Mohamad Awawdeh, operador de câmera que integrou a equipe de filmagem, em abril de 2022 — antes, portanto, do conflito armado iniciado no sábado (7).”
“O registro original do vídeo que agora circula fora de contexto foi publicado na conta do TikTok de Mohamad Awawdeh, operador de câmera que integrou a equipe de filmagem, em abril de 2022, antes, portanto, do conflito armado iniciado no sábado (7).”
A data da publicação original basta para derrubar a legenda falsa, seja qual for a narrativa que ela serve.
Por que a reciclagem de imagens funciona tão bem?
Ela funciona porque junta emoção, velocidade e um arquivo verdadeiro.
Emoção. O pesquisador Helmus, ouvido pelo PolitiFact, explicou que quem sente algo com força procura informação que confirme o que já pensa. Por isso, logo depois do ataque do Hamas de 7 de outubro, a internet foi inundada por material fora de contexto.
Velocidade. Uma imagem chocante viraliza em horas. A checagem leva mais tempo e, quando sai, alcança só uma parte do público que viu a mentira. A página Como a mentira se espalha detalha esse mecanismo.
Semelhança. Escombros em Alepo parecem escombros em qualquer cidade. Fogos de torcida parecem bombardeio à noite. O caso do Arma 3 mostra que semelhança visual não prova autenticidade.
Arquivo autêntico. Uma imagem reciclada pode ser autêntica e não apresentar manipulação relevante: nesses casos, a falsidade está no contexto atribuído. Testes de manipulação, isoladamente, não verificam esse contexto. O erro inverso também acontece: na página sobre a foto do bebê queimado divulgada por Israel, uma imagem verdadeira foi chamada de falsa por causa de um detector automático que errou.
Autoridade emprestada. As fotos da menina de Alepo foram compartilhadas por perfis verificados no X. O selo azul dá credibilidade a uma legenda que ninguém conferiu. Quando um veículo repete a imagem sem checar, o efeito se multiplica, como mostra a página sobre o primeiro título.
Como descobrir a origem de uma imagem com busca reversa?
A busca reversa procura na internet cópias anteriores da mesma imagem. Ela é o primeiro passo, e as agências a combinam com outras provas.
O passo a passo usado por checadores:
- Salve a imagem ou copie o endereço dela.
- Envie ao Google Lens, ao TinEye e, quando possível, ao Yandex Images.
- Teste recortes: só uma placa, um prédio, um uniforme ou a paisagem. Isso ajuda quando a imagem foi cortada ou teve a marca d'água removida.
- Ordene os resultados por data, quando a ferramenta permitir.
- Abra a cópia mais antiga, a de maior resolução ou a do arquivo de uma agência fotográfica.
- Compare legenda, crédito, data e local entre fontes diferentes.
O Verification Handbook, guia do European Journalism Centre para jornalistas, recomenda exatamente esse caminho. Também manda identificar o autor, confirmar local e data e cruzar a foto com outras fontes.
O que a busca reversa prova. Ela mostra que a imagem já estava publicada em certo site, em certa data. Se a publicação anterior documenta outro evento, a legenda nova cai. Foi assim que a Reuters mostrou que uma foto de protesto de agricultores holandeses “de 2022” era de outubro de 2019, com crédito ao fotógrafo Robin van Khuien, da ANP. A AP chegou à mesma data, 16 de outubro de 2019, em Bilthoven, comparando os mesmos transeuntes e a legenda no arquivo da Getty Images.
O que ela sozinha não prova. A data exata da foto. Uma página pode ter sido publicada depois do clique, e uma foto pode ter sido republicada sem crédito.
Metadados (EXIF). Arquivos de câmera podem trazer modelo, data, hora e até GPS. O manual alerta: o relógio da câmera pode estar errado, os dados podem ser alterados, e redes sociais e aplicativos de mensagem costumam apagá-los. A falta de EXIF não prova falsidade.
Geolocalização. Placas, idioma, arquitetura, marcações de rua, relevo e sombras podem ser comparados com mapas e imagens de satélite. Uma pista isolada raramente basta.
A escala de força das provas, da mais fraca à mais forte: semelhança visual; busca reversa com correspondência; arquivo de agência com crédito, data e legenda; arquivo original com EXIF; geolocalização reproduzível; e várias fontes independentes concordando entre si. Nos casos de Alepo, a prova decisiva veio do arquivo da agência e do crédito do fotógrafo.

“Using reverse image search tools such as TinEye or Google Images3 you can find out whether it has been posted online previ- ously.”
“Usando ferramentas de busca reversa de imagem, como o TinEye ou o Google Images, você pode descobrir se ela já foi publicada na internet anteriormente.”
É o método de referência dos verificadores, ao alcance de qualquer leitor com um celular.
Desde quando imagens antigas são recicladas contra Israel?
A reciclagem acompanha cada pico do conflito, muito antes de 2023. A foto do menino limpando o sangue de gado em Jerusalém, feita por volta de 2011 ou 2012, foi republicada como cena de Gaza a cada nova escalada, segundo as checagens da Reuters, do PolitiFact, da AFP e do Annie Lab. As fotos da menina de Alepo circulam em peças de desinformação desde 2016, segundo o Aos Fatos.
A guerra civil da Síria, a partir de 2011, criou um estoque enorme de imagens de destruição urbana. A partir de 7 de outubro de 2023, esse estoque passou a abastecer legendas sobre Gaza, ao lado de vídeos das escaladas de 2021 e de maio de 2023 em Gaza, reapresentados como novos.
O antídoto também é antigo. Em 2014, o Verification Handbook já ensinava jornalistas a usar a busca reversa para achar versões anteriores de uma foto. Quem republica sem esse teste escolhe não fazê-lo.
Outras páginas desta seção tratam de casos de imagens contestados na história do conflito: o caso Muhammad al-Durrah (2000) e as fotos da Reuters e Qana, no Líbano, em 2006. A reciclagem dispensa montar uma cena: basta trocar a legenda.
Alegações que circulam sem prova
- “Todas as imagens recicladas sobre Gaza fazem parte de uma operação centralizada.” (Publicações em redes sociais): As checagens da Reuters, da AFP, da AP e do Aos Fatos comprovam a origem de cada arquivo, mas não apresentam prova de quem os criou nem de coordenação central.
- “Toda vítima filmada em Gaza é um ator.” (Perfis que usam o rótulo “Pallywood”): Os vídeos usados como prova eram um curta de 2022, uma reportagem de 2017 e um esquete gravado em Bagdá. Encenação precisa ser demonstrada caso a caso.
Linha do tempo
- c. 2011 ou 2012Foto de um menino limpando sangue de gado abatido em Jerusalém. Depois, ela é reciclada como cena de Gaza a cada escalada.
- 2013Ataque químico do regime de Assad em Ghouta, na Síria. Fotos das vítimas depois circulam como massacre em Gaza, segundo a Bellingcat.
- 2014O European Journalism Centre publica o Verification Handbook, que ensina a busca reversa com Google e TinEye.
- 2016Câmeras de segurança registram o bombardeio de um hospital em Alepo, na Síria.
- 27 ago. 2016Ameer al-Halabi fotografa para a AFP o resgate de uma menina em Alepo após um ataque aéreo.
- 2017Reportagem sobre a indústria de cinema em Gaza, depois usada para alegar encenação de ferimentos em 2023.
- mai. 2021A BBC transmite ao vivo a queda de um prédio em Gaza. O vídeo é reapresentado como recente em 2023.
- abr. 2022Mohamad Awawdeh publica no TikTok os bastidores do curta Empty Place.
- 7 out. 2023Terroristas do Hamas atacam Israel. Começa uma enxurrada de imagens fora de contexto nas redes.
- 10 out. 2023O Aos Fatos mostra que vídeos de “ataques” eram cenas do videogame Arma 3.
- 27 out. 2023O Aos Fatos mostra que as fotos da menina resgatada são de Alepo, em 2016.
- 8 nov. 2023A Reuters mostra que o vídeo de hospital atacado “em Gaza” era de Alepo, em 2016.
- 17 abr. 2024A AFP mostra que vídeos de crianças feridas “em Gaza” eram de Afes, na Síria, e de 2014.
- 19 dez. 2024A Reuters mostra que o “ator de Gaza” de perna engessada estava num esquete gravado em Bagdá.
Perguntas frequentes
Como saber se uma foto de Gaza é verdadeira ou de outra guerra?
Como fazer busca reversa de imagem?
Quais fotos da Síria foram usadas como se fossem de Gaza?
Uma imagem reciclada prova que todas as fotos de Gaza são falsas?
Quem espalha imagens falsas da guerra em Gaza?
- Syria hospital attack footage falsely said to be Gaza 2023 (Reuters Fact Check, 8 nov. 2023)
- Video shows comedy skit in Iraq, not Gaza actor faking injury (Reuters Fact Check, 19 dez. 2024)
- Vídeo de 2017 sobre cinema em Gaza usado como “atores de crise” (AP Fact Check, 25 out. 2023)
- Vídeos de crianças sírias apresentados como vítimas de Gaza (AFP Fact Check, 17 abr. 2024)
- Fotos de Nova Jersey (2011) e Rafah (2020) apresentadas como ataque em Bagdá (AFP Fact Check, 3 out. 2024)
- Navio em chamas em Omã apresentado como petroleiro atingido no Mar Vermelho (AFP Fact Check, 30 jan. 2024)
- Vídeo de drone preso em fios elétricos (AFP Fact Check, 24 abr. 2024)
- AFP Fact Check: verificações sobre o conflito (lista, página 1)
- AFP Fact Check: verificações sobre o conflito (lista, página 2)
- Fotos de resgate de menina na Síria não são de Gaza (Aos Fatos, 27 out. 2023)
- Vídeo mostra gravação de filme, não encenação de mortes (Aos Fatos, 11 out. 2023)
- Cenas de videogame não mostram ataque Israel–Hamas (Aos Fatos, 10 out. 2023)
- Verification Handbook (European Journalism Centre, 2014)
- Years-old photo from a Dutch farmers’ protest recirculated in 2022 (Reuters, 4 jul. 2022)
- Widely shared Dutch farmer protest picture is from 2019 (AP, 7 jul. 2022)
Imagens: Wikimedia Commons, em domínio público ou licença livre, com o crédito de cada uma na legenda. Documentos: trecho literal conferido no original, com cópia arquivada.
