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Números de Gaza: de onde vêm e como ler

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Foto: Ajuda humanitária sendo descarregada no porto de Ashdod, segundo as Forças de Defesa de Israel. Israel Defense Forces · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
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Os números de mortos em Gaza vêm do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas. Ele reúne registros de hospitais, necrotérios e familiares. A ONU e a Reuters usam esse total, mas não o auditam caso a caso. O total não separa civis de combatentes. As FDI afirmam ter matado mais de 24 mil terroristas. Para ler qualquer número, confira a fonte, a data e quantos mortos foram identificados.

Quem administra a Faixa de Gaza e quem conta os mortos?

O Hamas governa a Faixa de Gaza de fato, e o Ministério da Saúde de Gaza, que publica o balanço de mortos, é subordinado a esse governo. O ministério existe, administra a rede hospitalar e é a principal fonte do número que aparece nas notícias.

Há duas estruturas diferentes ligadas ao Hamas:

  • Ministério da Saúde de Gaza: registra os mortos a partir de hospitais, necrotérios e registros de óbito.
  • Gabinete de Mídia do Governo: é o órgão de comunicação do Hamas. Divulga boletins e infográficos. Repetiu por meses que 70% dos mortos eram mulheres e crianças.

A ONU, a Reuters e outras agências usam o total do ministério como referência de trabalho. Elas não conseguem auditar cada morte nem separar, nesse total, civis de combatentes, segundo a Reuters.

A guerra começou com o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. Cerca de 1.200 pessoas foram mortas em Israel e 251 foram levadas como reféns para Gaza, segundo a Reuters.

Como o Ministério da Saúde de Gaza conta os mortos?

O ministério começou contando corpos que chegavam aos hospitais. Depois passou a somar contagens sem identificação e relatos de famílias. O método mudou ao longo da guerra.

  • Outubro e novembro de 2023: cada corpo recebido era registrado com nome, número de identidade, sexo e data de nascimento.
  • A partir de meados de novembro de 2023: com a queda das comunicações e o colapso de hospitais no norte, o ministério passou a preencher lacunas com o que chamou de "fontes de mídia confiáveis". Eram contagens brutas, sem identidade individual.
  • Janeiro de 2024: foi lançado um formulário online para famílias registrarem parentes mortos ou desaparecidos. O formulário não tinha campo para dizer se a pessoa era civil ou combatente.
  • Maio de 2024: o ministério passou a incluir também corpos não identificados. Naquele momento, eles eram quase um terço do total, segundo a Reuters.

Mais tarde, parte desses corpos foi identificada com dados de hospitais, familiares e registros verificados. Isso mudou a composição do banco de dados, segundo a ABC australiana. Não mudou necessariamente o total.

Por que o total de mortos não separa civis de combatentes?

O ministério registra mortes. Ele não investiga quem lutava. Um registro de hospital identifica o morto, mas não diz se ele era combatente.

Outros fatores tornam a separação ainda mais difícil:

  • Muitos terroristas do Hamas não usam uniforme.
  • O Hamas mistura estruturas militares e civis em áreas densamente povoadas. Combate a partir de casas, hospitais e escolas.
  • Classificar exige comparar listas de grupos armados, analisar as circunstâncias de cada morte e usar inteligência.

Por isso, o total inclui combatentes do Hamas e da Jihad Islâmica e possivelmente policiais ligados ao Hamas. Também não desconta mortes por foguetes palestinos que caíram dentro de Gaza. O governo de Israel contou mais de 1.900 foguetes caídos dentro da Faixa. O total ainda inclui mortes naturais. Analistas críticos do ministério estimam em cerca de 9 mil as mortes naturais esperadas em Gaza no período.

O que dizem as FDI: mais de 24 mil combatentes mortos em Gaza, além de cerca de 1.600 terroristas mortos em Israel em 7 de outubro, segundo o Times of Israel. Em avaliações anteriores, militares israelenses estimaram de dois a três civis mortos por combatente. São estimativas de inteligência, sem lista nominal pública.

O fato de o ministério ser controlado pelo Hamas cria risco de viés na apresentação, por exemplo ao destacar mulheres e crianças. Mas esse risco não prova, sozinho, que o total bruto seja fabricado. Contar mortos e classificar quem era combatente são tarefas diferentes.

O que mudou na revisão da ONU em maio de 2024?

Em maio de 2024, a ONU passou a mostrar só os mortos plenamente identificados. As cifras de mulheres e crianças caíram quase pela metade.

Em 6 de maio, o escritório humanitário da ONU (OCHA) repassava dados atribuídos ao Gabinete de Mídia do Hamas. Dois dias depois, em 8 de maio, passou a usar o banco de identificação do Ministério da Saúde.

CategoriaAntes (dados do Gabinete de Mídia)Depois (só identificados)
Criançasmais de 14.5007.797
Mulheresmais de 9.5004.959
Idosos—1.924
Homens—10.006
Totalmais de 35 mil24.686 identificados

Naquele momento, mais de 10 mil corpos ainda esperavam identificação, segundo a Reuters e a NPR.

O que a revisão é: a prova de que a cifra de 70% de mulheres e crianças tinha sido divulgada com confiança que os dados não sustentavam. Esse é o ponto de Israel e de analistas.

O que a revisão não é: a ONU não disse que os demais mortos não existiam. Ela separou o total estimado do subconjunto identificado. A Organização Mundial da Saúde defendeu os números, segundo a Reuters.

De onde vêm as cifras de 100 mil ou 186 mil mortos?

Nenhuma contagem registra 100 mil mortos em Gaza. Os 186 mil são uma projeção publicada numa carta, não uma contagem.

  • A cifra de 186 mil saiu de uma carta de correspondência na revista The Lancet, de 20/07/2024, assinada por Khatib, McKee e Yusuf.
  • A carta multiplicou por cinco as 37.396 mortes diretas registradas em junho de 2024.
  • O estatístico Mike Spagat mostrou a origem desse multiplicador. Ele veio de uma tabela do relatório Global Burden of Armed Violence (2008). A tabela reunia 13 conflitos, com proporções que iam de 0 a 15,7.
  • Em novembro de 2024, a própria Lancet publicou cartas de contestação de Gilbert, Beyar e Skorecki.
  • O próprio ministério de Gaza registrava 32 mortes por fome ou desnutrição até 1º de abril de 2024 e 38 em setembro de 2024. Esses números não sustentam dezenas de milhares de mortes indiretas.

Estudos independentes estimam totais acima da lista oficial, mas abaixo de 100 mil:

  • Um estudo na Lancet, de janeiro de 2025, estimou 64.260 mortes por trauma até 30/06/2024.
  • Uma pesquisa com 2.000 famílias, divulgada em fevereiro de 2026, estimou cerca de 75.200 mortes violentas até 05/01/2025, mais 8.540 mortes não violentas em excesso. Ela foi noticiada pela CP24.

A frase "70 mil crianças" é falsa.

Os números de Gaza são inventados?

Não. Dizer que os números são inventados é falso. A crítica correta é que eles não dizem quem era civil e quem era terrorista.

Israel questionou no início a confiabilidade dos números, como fez o Ministério das Relações Exteriores de Israel. Depois, militares israelenses passaram a considerar o total geral amplamente plausível, segundo a BBC. Continuaram a contestar a divisão entre civis e combatentes.

Pesquisadores apontaram falhas reais:

  • Gabriel Epstein, do Washington Institute, e Andrew Fox, da Henry Jackson Society, mostraram que as contagens tiradas da mídia subnotificavam homens adultos e inflavam a proporção de crianças.
  • O professor Abraham Wyner, da Universidade da Pensilvânia, apontou padrões estatísticos anormais nos dados do início da guerra.
  • Auditorias encontraram erros de registro, como homens cadastrados como mulheres.

Na lista de 50.021 mortos identificados divulgada em março de 2025, homens de 18 a 59 anos eram 44,5% dos mortos. Mulheres e menores de 18 somavam de 50,7% a 51%, longe dos 70% alegados. Mulheres e crianças são cerca de 75% da população de Gaza. Para Israel e analistas, a proporção maior de homens adultos entre os mortos indica que os combates se concentraram em alvos armados.

O sofrimento de civis palestinos é real e não se nega. A responsabilidade começa no Hamas, que iniciou a guerra e combate de dentro de áreas civis.

Quais são os números mais recentes sobre Gaza?

Em outubro de 2026, o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, divulgava mais de 74 mil mortos. A Reuters trata a cifra como número divulgado por autoridades de Gaza, não como contagem independente auditada, segundo a agência.

Na mesma data, os dados das FDI apontavam:

  • mais de 24 mil combatentes mortos em Gaza;
  • 970 militares e agentes de segurança israelenses mortos.

Os dois números vêm do Times of Israel.

No aniversário do cessar-fogo, os Estados Unidos afirmaram ter havido progresso real na desmilitarização de Gaza, segundo o Times of Israel.

Cuidado com cálculos de reportagem que circulam como confissão. A cifra de "83% de civis" de agosto de 2025 comparou cerca de 8.900 combatentes identificados por nome numa base vazada com cerca de 53 mil mortos do ministério. A própria reportagem admitiu que a base não incluía todos os combatentes. As FDI chamaram os números de incorretos, segundo a CBC.

Como ler um número de Gaza numa notícia?

Antes de repetir um número, faça cinco perguntas.

1. Quem emitiu? O Ministério da Saúde de Gaza ou o Gabinete de Mídia do Hamas? Uma agência, um estudo ou as FDI? 2. É contagem ou projeção? Uma lista de mortos é diferente de uma estimativa estatística ou de um multiplicador. 3. Quantos foram identificados? Veja quanto do total tem nome, idade e documento. 4. Quantos eram combatentes? O total do ministério soma civis e terroristas. Nenhuma contagem pública resolve essa divisão. As FDI só divulgam estimativas agregadas. 5. Qual é a data? Os números mudam conforme corpos são identificados e listas são revistas.

Guerras urbanas costumam ter contagens incompletas por anos. Na batalha de Mosul contra o Estado Islâmico, as estimativas de civis mortos variaram muito conforme o método. A lição é dupla: o balanço de Gaza não é um censo final e deve ser lido com cautela por vir de uma autoridade do Hamas, mas o total bruto não deve ser descartado só por isso.

A melhor descrição do total do ministério é esta: uma contagem administrativa de mortos palestinos, com cobertura incompleta e sem separação entre civis e combatentes.

Linha do tempo

  1. 2023Em 7 de outubro, o Hamas ataca Israel: cerca de 1.200 mortos e 251 reféns.
  2. 2023Em meados de novembro, o ministério de Gaza passa a somar contagens de "fontes de mídia", sem identidade.
  3. 2024Em janeiro, é lançado um formulário online para famílias registrarem mortos e desaparecidos.
  4. 2024Em 8 de maio, a ONU passa a usar só os mortos identificados: crianças caem para 7.797 e mulheres para 4.959.
  5. 2024Em julho, uma carta na Lancet projeta 186 mil mortos. A revista publica contestações em novembro.
  6. 2025Em janeiro, um estudo na Lancet estima 64.260 mortes por trauma até junho de 2024.
  7. 2025Em março, o ministério divulga uma lista de 50.021 mortos identificados: 44,5% são homens de 18 a 59 anos.
  8. 2026Em outubro, o ministério divulga mais de 74 mil mortos. As FDI afirmam mais de 24 mil combatentes mortos.

Perguntas frequentes

O Ministério da Saúde de Gaza existe?
Sim. O Ministério da Saúde de Gaza é um órgão real, que administra a rede hospitalar da Faixa. Ele é subordinado ao governo de fato do Hamas. Publica o principal balanço de mortos palestinos, com base em hospitais, necrotérios e registros de familiares. Não deve ser confundido com o Gabinete de Mídia do Hamas, que divulgou a cifra de 70% de mulheres e crianças.
Quem administra a Faixa de Gaza?
O Hamas, grupo terrorista que atacou Israel em 7 de outubro de 2023, administra a Faixa de Gaza como governo de fato. O Ministério da Saúde e o Gabinete de Mídia que divulgam números da guerra respondem a essa autoridade. Por isso os dados exigem leitura cuidadosa. Eles não são inventados, mas não dizem quem era combatente e quem era civil.
Quantos dos mortos em Gaza eram terroristas?
Não há número auditado. O Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, não separa civis de combatentes. As FDI afirmam ter matado mais de 24 mil combatentes em Gaza, mas é uma estimativa de inteligência, sem lista nominal pública. Na lista de identificados de março de 2025, homens de 18 a 59 anos eram 44,5% dos mortos.
Por que a ONU reduziu o número de mulheres e crianças mortas?
Em 8 de maio de 2024, a ONU deixou de repassar dados do Gabinete de Mídia do Hamas. Passou a mostrar só os mortos plenamente identificados pelo Ministério da Saúde. As crianças caíram de mais de 14.500 para 7.797, e as mulheres de mais de 9.500 para 4.959. A ONU não disse que os demais não existiam. Mais de 10 mil corpos esperavam identificação.

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