Para falar sobre Israel e os palestinos na escola, comece pelos fatos documentados: o Mandato Britânico de 1922, a partilha da ONU de 1947, a independência de Israel em 1948 e o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023. Separe fato, alegação e interpretação. Não cobre de alunos judeus o que faz o governo de Israel, nem de alunos palestinos, árabes ou muçulmanos o que faz o grupo terrorista Hamas.
Como explicar o conflito entre Israel e os palestinos para os alunos?
Explique o conflito como história contemporânea, com datas, documentos e fontes primárias, e não como uma briga entre "judeus" e "árabes". O ponto de partida é simples: duas populações vivem no mesmo território, e a disputa envolve terra, segurança, reconhecimento e soberania.
Alguns princípios ajudam desde a primeira aula:
- Não confunda grupos, governos e organizações. Judeus não são o governo de Israel. Palestinos não são o Hamas.
- Separe explicar de justificar. O contexto histórico ajuda a entender os fatos. Não justifica assassinato de civis, violência sexual nem tomada de reféns.
- Evite a falsa equivalência. Ouvir perspectivas diferentes não significa tratar toda alegação como igualmente comprovada.
- Use documentos. O texto do Mandato Britânico de 1922, a Resolução 181 da ONU e a Declaração de Estabelecimento do Estado de Israel estão disponíveis na internet.
O debate em sala também tem respaldo institucional. A Recomendação nº 28 do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, de 10 de novembro de 2023, defende que o tema seja discutido nas escolas com respeito à liberdade de expressão e de cátedra.
Qual é a história de Israel e dos palestinos?
A disputa moderna começa no fim do século XIX. Ela passa pelo Mandato Britânico, pela partilha da ONU de 1947 e pela guerra de 1948. Os judeus têm uma ligação milenar e documentada com a terra, berço do povo judeu, e os árabes palestinos formaram ali uma sociedade com cidades, jornais e vida política. Nenhum dos dois grupos tinha soberania antes de 1948.
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 1516–1917 | A região faz parte do Império Otomano, dividida em distritos como Nablus, Acre e o Sanjak Independente de Jerusalém. |
| 1917 | A Declaração Balfour apoia um "lar nacional para o povo judeu". |
| 1922 | A Liga das Nações aprova o Mandato Britânico, que previa esse lar nacional judeu. |
| 1947 | Em 29 de novembro, a ONU recomenda dois Estados, um judeu e um árabe (Resolução 181). |
| 1948 | Israel declara independência em 14 de maio e é atacado no dia seguinte por cinco exércitos árabes. |
| 1950 | A Jordânia anexa a Judeia e Samaria. O Egito passa a administrar Gaza. |
| 1967 | Na Guerra dos Seis Dias, Israel passa a controlar Judeia e Samaria, Gaza, Golã e Jerusalém Oriental. |
| 1979, 1993, 2020 | Tratado de paz Israel–Egito, Acordos de Oslo e Acordos de Abraão. |
| 2023 | O ataque do Hamas de 7 de outubro dá início à guerra em Gaza. |
Três pontos merecem atenção em sala:
- A partilha. O plano destinava cerca de 56% do território ao Estado judeu e 43% ao Estado árabe. A liderança judaica aceitou. A liderança árabe e os países vizinhos rejeitaram e foram à guerra.
- A guerra de 1948. Para Israel, é a Guerra de Independência. Centenas de milhares de árabes palestinos foram deslocados. Os palestinos chamam esse evento de Nakba ("catástrofe"). As causas foram várias e são debatidas por historiadores. Ao fim da guerra, Israel controlava cerca de 77% do território do Mandato.
- Os refugiados judeus. Entre 1948 e os anos 1970, judeus foram perseguidos e despossuídos em países como Iraque, Egito, Síria, Iêmen e Líbia. O ACNUR os reconheceu como refugiados sob seu mandato em 1957 e em 1967.
Para conferir as datas, o Escritório do Historiador do Departamento de Estado dos EUA e os Arquivos do Ministério da Defesa de Israel são boas fontes.
O que aconteceu em 7 de outubro de 2023 e por que isso importa na aula?
Em 7 de outubro de 2023, terroristas do Hamas e de outros grupos invadiram Israel. Mais de 1.200 pessoas foram mortas e 251 foram levadas como reféns. Foi esse ataque que começou a guerra em Gaza. Segundo as Forças de Defesa de Israel, cerca de 3.000 terroristas participaram da invasão. Quase 3.000 foguetes foram disparados nas primeiras horas.
O Museu Memorial do Holocausto dos EUA registrou o 7 de outubro como o ataque mais letal contra judeus desde o Holocausto.
Na escola, o tema costuma aparecer com a frase "foi resistência legítima". A resposta pode ser dada com calma:
- O direito à autodeterminação dos povos é reconhecido.
- O direito internacional humanitário proíbe, em qualquer guerra, ataques deliberados a civis (Protocolo I, art. 51) e a tomada de reféns (4ª Convenção de Genebra, art. 34).
- O Ministério das Relações Exteriores de Israel classifica o ataque como crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
- A Human Rights Watch e a Comissão de Inquérito da ONU, que acusam Israel em outros temas, também chamaram o ataque de crime de guerra. A Comissão rejeitou ainda a alegação do Hamas de que os moradores das comunidades atacadas não eram civis.
O sofrimento de civis palestinos na guerra é real e pode ser discutido. O aluno precisa saber quem começou a guerra, quem mantinha reféns e quem usa a população civil como escudo.
Como trabalhar conflitos em sala de aula?
Ensine os alunos a classificar cada afirmação: é um fato documentado, uma alegação, uma interpretação ou uma disputa jurídica? Essa ferramenta simples reduz a tensão. O foco sai das pessoas e vai para as evidências.
| Categoria | Exemplo para a aula |
|---|---|
| Fato documentado | Em 7 de outubro de 2023, o Hamas e outros grupos atacaram comunidades israelenses e um festival e fizeram reféns. |
| Fato com números sujeitos a atualização | O ataque matou mais de 1.200 pessoas. As contagens podem variar conforme o critério. |
| Alegação | Uma das partes afirma que uma ação militar atingiu determinado alvo. A afirmação deve ser atribuída a quem a faz até ser verificada. |
| Disputa jurídica ou política | Termos como "genocídio" são acusações feitas contra Israel e contestadas por Israel. Não são conclusões estabelecidas. |
| Interpretação | Historiadores divergem sobre as causas do êxodo de 1948. |
Explique também que um comunicado oficial prova a posição de quem o emite. Ele não prova, sozinho, que o conteúdo é verdadeiro. Isso vale para qualquer governo ou grupo.
Ajuste o conteúdo à idade:
- Fundamental I: sem imagens violentas. Trabalhe convivência, preconceito e a diferença entre fato e opinião.
- Fundamental II: noções de Estado, fronteira e religião, uma linha do tempo básica e mapas com data e autoria.
- Ensino Médio: fontes primárias, resoluções da ONU e direito humanitário. Diferencie Hamas, Autoridade Palestina, governo de Israel, FDI e civis dos dois lados.
O Yad Vashem recomenda, na educação sobre o Holocausto, uma abordagem adequada à idade, multidisciplinar e sem simplificações.
Quais são exemplos de mediação de conflitos na escola?
Um bom exemplo é o debate com regras combinadas antes e com análise de fontes em grupo. O professor modera o método. Não é preciso impor uma conclusão pronta, mas também não é preciso tolerar ódio.
Regras do debate:
- critique ideias, políticas e ações, nunca identidades;
- use fontes verificáveis e diga de onde vêm;
- atribua as alegações ("o governo X afirma…");
- não exija que um colega revele sua origem;
- distinga "não concordo" de "isso é falso";
- corrija a desinformação sem humilhar ninguém;
- permita silêncio ou uma pausa quando houver sofrimento.
Atividade em cinco passos:
1. Cada grupo recebe um conjunto variado de fontes. 2. Os alunos classificam cada afirmação como fato, alegação, interpretação ou disputa. 3. Identificam autoria, data, interesse e evidências. 4. Formulam uma resposta que reconheça as incertezas. 5. Avaliam a qualidade dos próprios argumentos.
Checagem de imagens: antes de usar um vídeo viral, verifique data e local e faça busca reversa. Compare com agências de notícias e procure sinais de edição ou de inteligência artificial. Uma imagem real pode circular com a legenda errada.
Moderar não é ser indiferente. Negar o Holocausto, negar o direito de Israel existir, defender o assassinato de civis ou desumanizar qualquer povo não é opinião a ser debatida.
Como diferenciar crítica a Israel de antissemitismo?
Criticar uma decisão do governo israelense não é antissemitismo. Culpar os judeus coletivamente por essas decisões, ou negar o direito de Israel existir, é. A JJO adota a definição de trabalho da IHRA. Por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo. Responsabilizar os judeus coletivamente pelas ações do Estado de Israel também é.
Exemplos que aparecem nas escolas:
- cobrar de um colega ou professor judeu o que faz o governo de Israel;
- dizer que "os judeus" controlam governos, bancos ou a mídia;
- negar ou relativizar o Holocausto;
- usar símbolos nazistas para intimidar alunos judeus.
Judeus brasileiros são cidadãos brasileiros. Não votam em Israel nem comandam as FDI, e têm opiniões variadas sobre o governo israelense. Cobrar deles o que faz um governo estrangeiro é a mesma lógica injusta de culpar um brasileiro de origem árabe pelo Hamas.
No Brasil, a Lei 7.716/1989 pune a discriminação por religião, etnia ou procedência nacional. No caso Ellwanger, o STF reconheceu o antissemitismo como racismo.
O combate ao antissemitismo não autoriza ódio a nenhum outro povo ou religião. Tratar todo muçulmano como terrorista ou culpar os palestinos coletivamente pelo Hamas também é preconceito e deve ser interrompido da mesma forma.
Como acolher alunos judeus, árabes, palestinos e muçulmanos?
Nenhum aluno deve ser tratado como porta-voz do conflito. Muitos têm família em Israel ou em Gaza e vivem o tema de forma pessoal.
Antes da aula:
- avise que o tema será tratado;
- deixe claro que ninguém precisa falar em nome da sua comunidade;
- ofereça um canal privado para relatar medo, luto ou assédio;
- combine o trabalho com a orientação educacional e a direção.
Durante a aula:
- interrompa na hora insultos, ameaças e generalizações;
- não peça a um aluno judeu que responda pelo governo de Israel;
- não peça a um aluno árabe, palestino ou muçulmano que responda pelo Hamas;
- ofereça alternativas à fala em público, como uma produção escrita.
Depois:
- registre os incidentes discriminatórios;
- aplique as normas da escola de forma igual para todos;
- encaminhe ameaças e perseguições aos canais institucionais.
Para materiais de apoio, o Yad Vashem publicou conteúdo sobre o antissemitismo depois de 7 de outubro. Também vale consultar a Conib e as secretarias de educação.
Linha do tempo
- 1516–1917A região faz parte do Império Otomano.
- 1917A Declaração Balfour apoia um lar nacional para o povo judeu.
- 1922A Liga das Nações aprova o Mandato Britânico.
- 1947Em 29 de novembro, a Resolução 181 da ONU recomenda um Estado judeu e um Estado árabe. A liderança judaica aceita. A liderança árabe rejeita.
- 1948Israel declara independência em 14 de maio. No dia seguinte, Egito, Transjordânia, Síria, Líbano e Iraque o atacam.
- 1950A Jordânia anexa a Judeia e Samaria. O Egito administra Gaza.
- 1967Na Guerra dos Seis Dias, Israel passa a controlar Judeia e Samaria, Gaza, Golã e Jerusalém Oriental.
- 1979Israel e Egito assinam um tratado de paz.
- 1993São assinados os Acordos de Oslo.
- 2020São assinados os Acordos de Abraão.
- 2023Em 7 de outubro, o Hamas e outros grupos matam mais de 1.200 pessoas em Israel e levam 251 reféns. Começa a guerra em Gaza.
Perguntas frequentes
Como explicar o conflito entre Israel e os palestinos de forma simples?
Qual é a questão entre Israel e os palestinos?
Criticar Israel em sala de aula é antissemitismo?
Como lidar com um aluno que diz que o 7 de outubro foi resistência?
- Recomendação nº 28/2023 do Conselho Nacional dos Direitos Humanos
- Mandato Britânico (1922) – Avalon Project, Universidade Yale
- Resolução 181 (II) da Assembleia Geral da ONU
- Declaração de Estabelecimento do Estado de Israel
- Criação de Israel – Escritório do Historiador, Departamento de Estado dos EUA
- Linha do tempo 1947–1949 – Arquivos do Ministério da Defesa de Israel
- The October 7 Massacre Explained – Forças de Defesa de Israel
- Hamas-Israel Conflict 2023: Some Factual and Legal Aspects – Ministério das Relações Exteriores de Israel
- Declaração sobre o aniversário do ataque de 7 de outubro – Museu Memorial do Holocausto dos EUA
- Protocolo Adicional I, art. 51 – CICV
- 4ª Convenção de Genebra, art. 34 – CICV
- Definição de trabalho de antissemitismo – IHRA
- Lei 7.716/1989 – Planalto
- Caso Ellwanger – Supremo Tribunal Federal
- Antissemitismo depois de 7 de outubro – Yad Vashem
- Materiais educacionais – Yad Vashem




