
Oswaldo Aranha, a ONU e o nascimento de Israel
Podcast, apresentação, guia de estudo, quiz e cartões sobre Oswaldo Aranha, a ONU e o nascimento de Israel, para escolas, professores de História e famílias.
Ouça: Podcast Contexto
Uma conversa de 12 minutos para ouvir no caminho, em sala ou antes do encontro do grupo.
Narração com vozes sintéticas, feita a partir das páginas deste site. Baixar o MP3 (12 min, 5,3 MB).
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Lia: Olá, sejam bem-vindos ao Contexto, o podcast da Juventude Judaica Organizada. Eu sou a Lia.
Davi: E eu sou o Davi. Oi, gente!
Lia: Hoje a gente vai falar de um brasileiro que aparece em praças e ruas de Israel: Oswaldo Aranha. O tema é Oswaldo Aranha, a ONU e o nascimento de Israel.
Davi: É um assunto que costuma render frases prontas, tipo "foi um brasileiro que criou Israel". Hoje a ideia é entender o que ele realmente fez.
Lia: E por que isso importa? Primeiro, porque é um capítulo em que a história do Brasil cruza com a história do povo judeu. Segundo, porque separar homenagem de fato histórico ajuda professores e alunos a pensar com mais cuidado.
Davi: E terceiro, porque entender como Israel nasceu, com apoio internacional e pela decisão do próprio povo judeu, ajuda a responder quem tenta negar o direito de Israel existir.
Lia: Então vamos começar pelo básico. Davi, quem foi Oswaldo Aranha?
Davi: Oswaldo Aranha viveu de 1894 a 1960. Foi jurista, diplomata e estadista brasileiro. Antes de chegar à ONU, ele já tinha sido ministro das Relações Exteriores do Brasil, durante o Estado Novo.
Lia: E como ele foi parar nas Nações Unidas?
Davi: Em fevereiro de 1947, o presidente Eurico Gaspar Dutra o nomeou chefe da delegação brasileira na ONU, em Nova York. E 1947 foi um ano decisivo para ele.
Lia: Por quê?
Davi: Porque a Grã-Bretanha anunciou que ia abrir mão do Mandato Britânico, aquele território que ela administrava desde que a Liga das Nações aprovou o Mandato, em 1922. A ONU então convocou uma sessão especial da Assembleia Geral para tratar do assunto.
Lia: E quem presidiu essa sessão?
Davi: Oswaldo Aranha. Em 28 de abril de 1947, ele foi eleito presidente da Primeira Sessão Especial da Assembleia Geral, com 45 votos dos 55 delegados presentes.
Lia: E o que saiu dessa sessão?
Davi: Sob a condução dele, a sessão criou o UNSCOP, um comitê especial da ONU encarregado de investigar a situação e propor uma solução.
Lia: Só para dar uma ideia do cenário: segundo o relatório desse comitê, cerca de 600 mil judeus viviam no território em 1947. Eles já tinham cidades, universidades e instituições próprias.
Davi: Tel Aviv, de 1909, o Technion, de 1912, a Universidade Hebraica, de 1918. Era uma sociedade organizada.
Lia: E depois da sessão especial?
Davi: Aranha também foi eleito presidente da Segunda Sessão Ordinária da Assembleia Geral. Foi nessa sessão que se debateu o relatório do UNSCOP e a partilha do território.
Lia: Vamos para o segundo bloco, o momento mais famoso: a votação. O que o comitê propôs?
Davi: O chamado Plano da Maioria. Ele previa dois Estados independentes, um judeu e um árabe, e um regime internacional especial para Jerusalém, o corpus separatum. Os dois Estados formariam ainda uma união econômica.
Lia: E como ficava a divisão?
Davi: O Estado judeu ficaria com cerca de 56% do território, e o Estado árabe com cerca de 43%.
Lia: E aqui entra uma história muito contada: a de que Aranha adiou a votação. Isso aconteceu?
Davi: Houve um adiamento, sim. Mas é preciso cuidado com os detalhes. No fim de novembro de 1947, os defensores da partilha ainda não tinham a maioria de dois terços exigida. Os países árabes pressionavam para votar logo e rejeitar o plano.
Lia: E o que Aranha fez?
Davi: No fim da tarde de 26 de novembro de 1947, ele usou suas atribuições de presidente para encerrar os trabalhos do dia, antes do feriado de Ação de Graças e do fim de semana. Esse intervalo permitiu conversas com delegações indecisas.
Lia: E quanto tempo durou esse adiamento? Eu já ouvi "três dias".
Davi: Essa é a versão mais repetida, que aparece em biografias e reportagens. Mas o registro oficial da ONU informa que o representante da França sugeriu suspender a votação por 24 horas. Outros relatos falam em 24 a 48 horas.
Lia: Então qual é a forma mais honesta de contar?
Davi: Dizer que Aranha presidiu uma sessão cheia de manobras e tentativas de adiamento, inclusive propostas de mandar a questão para a Corte Internacional de Justiça, e que usou o regimento no momento certo. Dizer que ele, sozinho, garantiu a maioria é simplificar demais.
Lia: E chegou o dia 29 de novembro.
Davi: Isso. Às 16h, Aranha abriu a votação formal. Ao fim da chamada nominal, ele proclamou a aprovação da Resolução 181, na 128ª reunião plenária da Assembleia Geral.
Lia: Qual foi o placar?
Davi: 33 votos a favor, 13 contra e 10 abstenções, com uma ausência. Entre os votos a favor estavam o Brasil, outros 12 países latino-americanos, os Estados Unidos e a União Soviética. Entre as abstenções, o Reino Unido e a Argentina.
Lia: E o Brasil votou a favor por convicção ou por alinhamento?
Davi: Essa é uma pergunta ótima para a sala de aula. Em 12 de setembro de 1947, um telegrama do Itamaraty, enviado pelo chanceler Raul Fernandes, orientava a delegação a acompanhar o voto dos Estados Unidos em caso de decisão concreta. Mas Aranha, numa carta ao chanceler, defendeu a autonomia do país com uma frase marcante: "a nossa solidariedade não pode ser nunca uma servidão".
Lia: Bonita frase. Agora, terceiro bloco: a partilha foi aprovada, e aí Israel passou a existir?
Davi: Não. Esse é o ponto mais importante do episódio. A Resolução 181 era uma recomendação. Ela não criou juridicamente o Estado de Israel.
Lia: E como as partes reagiram?
Davi: A liderança judaica aceitou o plano, mesmo com críticas às fronteiras e à situação de Jerusalém. O Alto Comitê Árabe e os governos da Liga Árabe rejeitaram a partilha e anunciaram que se oporiam a ela pelas armas.
Lia: E foi o que aconteceu.
Davi: Os combates começaram em 30 de novembro de 1947, um dia depois da votação. Milícias árabes atacaram bairros judaicos, comboios e comunidades isoladas, e as forças judaicas reagiram. Jerusalém ficou sob cerco.
Lia: E quando Israel nasceu, de fato?
Davi: Em 14 de maio de 1948, às 16h, no Museu de Tel Aviv. David Ben-Gurion leu a Declaração de Estabelecimento do Estado de Israel e foi o primeiro a assiná-la.
Lia: E a Declaração cita a ONU?
Davi: Cita. Ela se apoia no direito natural e histórico do povo judeu e na resolução da Assembleia Geral. Ou seja, a votação presidida por Aranha aparece no próprio texto fundador de Israel.
Lia: E no dia seguinte?
Davi: Egito, Transjordânia, Síria, Líbano e Iraque invadiram o novo país. Israel sobreviveu. Os armistícios de 1949 encerraram os combates, mas não foram acordos de paz definitivos.
Lia: E é importante lembrar que essa guerra também trouxe sofrimento real para os palestinos, com centenas de milhares de deslocados.
Davi: Sim. Reconhecer essa dor é humano e necessário. E isso não exige tratar a existência de Israel como um erro.
Lia: E o Brasil, depois disso?
Davi: O Brasil reconheceu Israel em 7 de fevereiro de 1949. Em maio de 1949, votou a favor da admissão de Israel como membro pleno da ONU. Israel entrou na organização em 11 de maio de 1949.
Lia: Então, se alguém perguntar "um brasileiro fundou Israel?", qual é a resposta?
Davi: Quem fundou Israel foi o povo judeu, pelo movimento sionista, ao declarar a independência em maio de 1948. Aranha teve um papel institucional e diplomático muito importante: presidiu a sessão decisiva e proclamou o resultado. Chamá-lo de "fundador de Israel" é uma homenagem, não uma descrição exata.
Lia: Último bloco: a memória. Como Aranha é lembrado?
Davi: Com muita gratidão. Em Jerusalém há a Praça Oswaldo Aranha. Tel Aviv tem uma rua com o nome dele, e há ruas também em Beer Sheva e Ramat Gan.
Lia: E tem um detalhe que eu acho emocionante.
Davi: O martelo que ele usou na sessão de 29 de novembro de 1947 e o cartão de contagem de votos assinado por ele estão guardados no museu do Kibutz Bror Chail, em Israel.
Lia: E no Brasil?
Davi: A Lei Federal nº 13.991, de 17 de abril de 2020, inscreveu Oswaldo Aranha no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
Lia: E tem também uma tradição na ONU, certo?
Davi: Tem. Uma tradição diplomática ligada ao papel dele em 1947 faz com que um representante do Brasil sempre faça o discurso de abertura dos debates gerais da Assembleia Geral.
Lia: E aqui vale desfazer outra confusão: Aranha foi o primeiro presidente da ONU?
Davi: Não. Ele presidiu a Primeira Sessão Especial da Assembleia Geral, e depois a Segunda Sessão Ordinária. São coisas diferentes.
Lia: Antes de fechar, uma reflexão. Muita gente que celebra Aranha também ouve, hoje, discursos que negam a Israel o direito de existir.
Davi: Pois é. A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo. Criticar governos é legítimo. Negar a existência de um povo soberano, não.
Lia: E a JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
Davi: Exatamente.
Lia: Então vamos às três ideias-chave de hoje. Primeira: Oswaldo Aranha presidiu a sessão da Assembleia Geral que aprovou a Resolução 181, em 29 de novembro de 1947, por 33 votos a 13, com 10 abstenções.
Davi: Segunda: a resolução era uma recomendação. Israel nasceu da decisão do povo judeu, com a proclamação de 14 de maio de 1948, e a liderança judaica aceitou a partilha que a liderança árabe rejeitou.
Lia: Terceira: o papel de Aranha foi real e decisivo na condução da sessão, mas não solitário. Lembrar dele com gratidão e com precisão é a melhor homenagem.
Davi: Obrigado por ouvir o Contexto. Professores, levem essa história para a sala de aula, e famílias, conversem sobre ela em casa.
Lia: Mais materiais em jjo.org.br. Até o próximo episódio!
Apresentação pronta para usar
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Guia de estudo
Guia de estudo da JJO (Juventude Judaica Organizada) para escolas, professores de História e famílias
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste estudo, o estudante deverá ser capaz de:
- Explicar quem foi Oswaldo Aranha e qual foi seu papel na Assembleia Geral da ONU em 1947.
- Descrever a Resolução 181 (II): o que ela recomendava, como foi votada e por que não criou, sozinha, o Estado de Israel.
- Distinguir fato histórico de simplificação, por exemplo na ideia de que Aranha "fundou Israel" ou de que adiou a votação "por três dias".
- Situar a independência de Israel (14 de maio de 1948) num processo de meio século, da Declaração Balfour ao fim do Mandato Britânico.
- Compreender a guerra de 1948 e suas consequências humanas, reconhecendo o sofrimento de árabes palestinos e de judeus dos países árabes.
- Reconhecer o antissemitismo segundo a definição da IHRA, adotada pela JJO, que inclui negar o direito de Israel existir.
Conceitos-chave
1. Quem foi Oswaldo Aranha
Oswaldo Aranha (1894–1960) foi jurista, diplomata e estadista brasileiro. Durante o Estado Novo, foi ministro das Relações Exteriores. Em fevereiro de 1947, o presidente Eurico Gaspar Dutra o nomeou chefe da delegação brasileira junto às Nações Unidas, em Nova York.
Em 1947, ocupou dois cargos de destaque: - 28 de abril de 1947: foi eleito presidente da Primeira Sessão Especial da Assembleia Geral, com 45 votos dos 55 delegados presentes. A sessão foi convocada depois que a Grã-Bretanha anunciou que abriria mão do Mandato Britânico. Foi ela que criou o UNSCOP, o comitê especial encarregado de investigar a situação e propor uma solução. - Segunda Sessão Ordinária: eleito presidente com 29 votos na rodada decisiva, conduziu os debates sobre o relatório do UNSCOP e sobre a partilha.
2. A Resolução 181 (II)
Em 29 de novembro de 1947, às 16h, Aranha abriu a votação formal. Ao fim da chamada nominal, proclamou a aprovação da resolução na 128ª reunião plenária.
| Resultado | Votos | Quem |
|---|---|---|
| A favor | 33 | Incluindo Brasil, outros 12 países latino-americanos, EUA e URSS |
| Contra | 13 | Majoritariamente países árabes e muçulmanos |
| Abstenções | 10 | Incluindo Reino Unido e Argentina |
| Ausência | 1 | — |
O plano, baseado no "Plano da Maioria" do UNSCOP, previa: - um Estado judeu, com cerca de 56% do território; - um Estado árabe, com cerca de 43%; - um regime internacional para Jerusalém, o Corpus Separatum; - uma união econômica entre os dois Estados.
A liderança judaica aceitou o plano, apesar das críticas às fronteiras e à situação de Jerusalém. O Alto Comitê Árabe e os governos da Liga Árabe rejeitaram a partilha e anunciaram que se oporiam a ela pelas armas.
Ponto essencial: a Resolução 181 era uma recomendação. Ela deu respaldo internacional ao Estado judeu, mas quem fundou Israel foi o próprio povo judeu, ao proclamar a independência em 14 de maio de 1948.
3. O adiamento: o que se sabe
No fim de novembro de 1947, os defensores da partilha ainda não tinham a maioria de dois terços exigida. No fim da tarde de 26 de novembro, Aranha usou suas atribuições de presidente para encerrar os trabalhos do dia, antes do feriado de Ação de Graças e do fim de semana. O intervalo permitiu articulações com delegações indecisas.
Os relatos divergem nos detalhes: - o registro oficial da ONU menciona que o representante da França sugeriu suspender a votação por 24 horas; - outros relatos históricos falam em 24 a 48 horas; - biografias e reportagens comemorativas falam em três dias.
O mais preciso é dizer que Aranha presidiu uma sessão marcada por manobras e tentativas de adiamento, inclusive a de enviar a questão à Corte Internacional de Justiça, e que usou o regimento no momento certo. Dizer que ele, sozinho, garantiu a maioria é uma simplificação.
4. O contexto brasileiro
O Telegrama nº 122 do Itamaraty, de 12 de setembro de 1947, enviado pelo chanceler Raul Fernandes, orientava a delegação a votar "acompanhando, em caso de uma decisão concreta da Assembleia sobre o assunto, o voto dos Estados Unidos da América". Em carta ao chanceler, Aranha defendeu a autonomia do país: "a nossa solidariedade não pode ser nunca uma servidão".
5. Da recomendação ao Estado
O caminho até 1948 começou muito antes de Aranha. O movimento sionista organizado nasceu em 1897, e a comunidade judaica pré-Estado (o yishuv) já tinha cidades, universidades, hospitais, sindicatos e uma força de defesa própria, a Haganá. Em 1947, cerca de 600 mil judeus viviam no território, segundo o relatório do UNSCOP.
Em 12 de maio de 1948, a Administração do Povo aprovou a proclamação por 6 votos a 4. Em 14 de maio de 1948, às 16h, no Museu de Tel Aviv, David Ben-Gurion leu a Declaração de Estabelecimento do Estado de Israel. O texto invocou o direito natural e histórico do povo judeu e a resolução da Assembleia Geral da ONU. Também prometeu igualdade civil e liberdade religiosa, e fez um apelo aos árabes que viviam no novo Estado para que mantivessem a paz e participassem dele com igualdade plena de direitos. Estados Unidos e União Soviética reconheceram Israel imediatamente.
6. A guerra e o custo humano
A Guerra de Independência durou de novembro de 1947 a julho de 1949. Os combates começaram em 30 de novembro de 1947, um dia depois da votação. Em 16 de abril de 1948, Jamal Husseini, do Alto Comitê Árabe, disse ao Conselho de Segurança: "Nós não negamos isso. Nós dissemos ao mundo inteiro que iríamos lutar." Em 15 de maio de 1948, os exércitos de Egito, Transjordânia, Síria, Líbano e Iraque invadiram o novo Estado.
Israel sobreviveu e perdeu cerca de 6 mil pessoas, o equivalente a 1% da população judaica da época. Os armistícios de 1949, mediados pelo diplomata da ONU Ralph Bunche, encerraram os combates. Eles não eram acordos de paz definitivos.
A guerra também deslocou centenas de milhares de árabes palestinos. As estimativas variam: a AP fala em cerca de 700 mil, e o governo de Israel em aproximadamente 720 mil. Os palestinos chamam esse deslocamento de Nakba. Esse sofrimento é real. O historiador Benny Morris aponta causas variadas: fuga dos combates e medo, colapso da liderança, instruções de autoridades árabes em alguns lugares e expulsões locais. Nos anos seguintes, cerca de 800 mil judeus deixaram países árabes ou foram expulsos deles, segundo o governo de Israel. Muitos enfrentaram perseguição, prisões e confisco de bens. Israel absorveu a maioria deles.
7. Brasil e Israel depois de 1947
- 7 de fevereiro de 1949: o Brasil reconhece Israel.
- Maio de 1949: o Brasil vota a favor da admissão de Israel como membro pleno da ONU. Israel entra na ONU em 11 de maio de 1949.
- Homenagens em Israel: Praça Oswaldo Aranha, em Jerusalém, e ruas com seu nome em Tel Aviv, Be'er Sheva e Ramat Gan. O museu do Kibutz Bror Chail guarda o martelo que ele usou na sessão e o cartão de contagem de votos que assinou.
- Homenagem no Brasil: a Lei Federal nº 13.991, de 17 de abril de 2020, inscreveu Aranha no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
- Tradição diplomática: uma tradição ligada ao papel do Brasil em 1947 faz com que um representante brasileiro sempre abra os debates gerais da Assembleia Geral.
8. Debate legítimo e antissemitismo
Discutir a guerra de 1948 e reconhecer a dor palestina é legítimo. Criticar governos também é. Usar esse debate para negar o direito de Israel existir é outra coisa. Pela definição da IHRA, adotada pela JJO, essa negação é antissemitismo. A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
Linha do tempo
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 1897 | Primeiro Congresso Sionista, com Theodor Herzl, em Basileia |
| 2 nov. 1917 | Declaração Balfour apoia um lar nacional para o povo judeu |
| Abr. 1920 | Conferência de San Remo atribui o mandato à Grã-Bretanha |
| 24 jul. 1922 | A Liga das Nações aprova o Mandato Britânico |
| 1937 | Comissão Peel propõe partilha; o movimento sionista aceita, a liderança árabe rejeita |
| Maio 1939 | Livro Branco britânico limita a imigração judaica a 75 mil pessoas em cinco anos |
| Fev. 1947 | Aranha é nomeado chefe da delegação brasileira na ONU |
| 28 abr. 1947 | Aranha preside a Primeira Sessão Especial, que cria o UNSCOP |
| 12 set. 1947 | Telegrama nº 122 do Itamaraty orienta a delegação brasileira |
| 26 nov. 1947 | Aranha encerra os trabalhos do dia antes do feriado de Ação de Graças |
| 29 nov. 1947 | Aprovação da Resolução 181: 33 a 13, com 10 abstenções |
| 30 nov. 1947 | Começam os ataques contra comunidades judaicas |
| 12 maio 1948 | A Administração do Povo aprova a proclamação por 6 votos a 4 |
| 14 maio 1948 | Ben-Gurion proclama o Estado de Israel em Tel Aviv |
| 15 maio 1948 | Cinco exércitos árabes invadem Israel |
| 7 fev. 1949 | O Brasil reconhece Israel |
| Fev.–jul. 1949 | Armistícios com Egito, Líbano, Jordânia e Síria |
| 11 maio 1949 | Israel é admitido na ONU, com voto favorável do Brasil |
| 17 abr. 2020 | Lei nº 13.991 inscreve Aranha no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria |
Cinco perguntas para discussão
- Liderança e coletivo: Aranha teve um papel institucional decisivo, mas a aprovação dependeu de 33 países. Por que é importante não atribuir um acontecimento histórico a uma única pessoa? Que outros atores tornaram possível o nascimento de Israel?
- Recomendação e realidade: a Resolução 181 era uma recomendação. O que transformou essa recomendação em um Estado real? Pense na proclamação de 14 de maio de 1948 e nas instituições do yishuv.
- Memória e precisão: a versão de que Aranha adiou a votação "por três dias" é a mais repetida, mas os relatos divergem. Como um historiador lida com versões diferentes de um mesmo fato? Por que homenagem e descrição exata não são a mesma coisa?
- Autonomia diplomática: o que Aranha quis dizer com "a nossa solidariedade não pode ser nunca uma servidão"? Como essa frase dialoga com o Telegrama nº 122?
- Duas dores, uma história: a guerra de 1948 deslocou árabes palestinos, e nos anos seguintes cerca de 800 mil judeus deixaram países árabes ou foram expulsos. Como reconhecer o sofrimento de todos sem negar o direito de Israel existir?
Glossário
- Assembleia Geral da ONU: órgão em que todos os Estados-membros votam. Suas resoluções sobre esse tema eram recomendações.
- Armistício (1949): acordo de cessar-fogo. As linhas de 1949 ("Linha Verde") não eram fronteiras internacionais definitivas.
- Corpus Separatum: regime internacional especial previsto para Jerusalém no plano de partilha.
- IHRA: Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Sua definição de antissemitismo, adotada pela JJO, inclui a negação do direito de Israel existir.
- Mandato Britânico: administração confiada à Grã-Bretanha pela Liga das Nações em 1922, com o dever de criar condições para o lar nacional judaico e de proteger os direitos de todos os habitantes. Terminou em 1948.
- Nakba: termo que os palestinos usam para o deslocamento ocorrido durante a guerra de 1948.
- Resolução 181 (II): recomendação da Assembleia Geral, de 29 de novembro de 1947, que previa um Estado judeu, um Estado árabe e um regime internacional para Jerusalém.
- Sionismo: movimento nacional que defende a autodeterminação do povo judeu em sua terra histórica.
- UNSCOP: Comitê Especial da ONU criado em 1947 para investigar a situação e propor uma solução. Seu "Plano da Maioria" deu origem à Resolução 181.
- Yishuv: a comunidade judaica organizada sob o Mandato Britânico, antes da criação do Estado.
Quiz: teste o que aprendeu
O diplomata brasileiro Oswaldo Aranha presidia a Segunda Sessão Ordinária da Assembleia Geral. Ele abriu a votação e proclamou a aprovação da resolução na 128ª reunião plenária.
A resolução foi aprovada por 33 votos a favor, 13 contra e 10 abstenções, com uma ausência. Entre os votos a favor estavam Brasil, EUA e URSS.
A Resolução 181 era uma recomendação e não criou juridicamente o Estado de Israel. Israel foi fundado pelo povo judeu, com a proclamação da independência em 14 de maio de 1948.
A sessão especial, convocada depois que a Grã-Bretanha anunciou que abriria mão do Mandato, criou o UNSCOP. O 'Plano da Maioria' desse comitê deu origem à Resolução 181.
A Resolução 181 previa um Estado judeu, um Estado árabe, uma união econômica entre eles e um regime internacional especial para Jerusalém, o Corpus Separatum.
O registro oficial da ONU cita uma proposta francesa de suspender a votação por 24 horas. Outros relatos falam em 24 a 48 horas, e biografias falam em três dias. Dizer que Aranha, sozinho, garantiu a maioria é uma simplificação.
O museu do Kibutz Bror Chail guarda o martelo e o cartão de votação da sessão de 29 de novembro de 1947.
Ben-Gurion leu a Declaração de Estabelecimento do Estado de Israel em 14 de maio de 1948, às 16h, no Museu de Tel Aviv, e foi o primeiro a assiná-la.
Cinco exércitos árabes invadiram o novo Estado. Israel sobreviveu, e os armistícios de 1949, mediados por Ralph Bunche, encerraram os combates.
Discutir a história e criticar governos é legítimo. Negar o direito de Israel existir é antissemitismo pelo critério da IHRA. A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
Cartões de estudo
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