Brasil e Israel mantêm relações diplomáticas desde 1949. Em 1947, o brasileiro Oswaldo Aranha presidiu a Assembleia Geral da ONU que aprovou a partilha do Mandato Britânico, e o Brasil votou a favor. Depois vieram fases de aproximação e de atrito, um acordo de livre comércio com o Mercosul em 2007 e, desde 2024, a pior crise diplomática recente, sem rompimento formal.
Quem foi Oswaldo Aranha e o que ele fez por Israel?
Oswaldo Aranha foi o diplomata e político brasileiro que presidiu a Assembleia Geral da ONU quando ela aprovou a partilha do Mandato Britânico, em 29 de novembro de 1947.
A própria ONU registra Aranha como presidente da primeira sessão especial da Assembleia Geral, realizada em 1947 (ONU). Em 25 de setembro de 1947, ele foi eleito presidente da II Assembleia Geral. Foi ele quem conduziu a votação da Resolução 181 (II). A resolução recomendava dois Estados, um judeu e um árabe, e um regime internacional para Jerusalém. O Brasil votou a favor (Itamaraty).
Pelo papel que teve na condução dos trabalhos, Aranha é homenageado em Israel com praças e ruas em Jerusalém, Tel Aviv e Be'er Sheva. Para muitos judeus brasileiros e israelenses, o nome dele é o símbolo do começo da amizade entre os dois países.
Um brasileiro ajudou a fundar Israel?
Sim, no sentido de que Oswaldo Aranha presidiu a votação que abriu caminho para o Estado judeu. Mas quem fundou Israel foi o próprio povo judeu, com a declaração de independência de maio de 1948.
É preciso separar três momentos:
- 1947: a ONU aprova a Resolução 181. É uma recomendação, não um ato que cria um Estado.
- Maio de 1948: Israel declara sua independência.
- Maio de 1949: o Brasil vota a favor da admissão de Israel como membro pleno da ONU.
Dizer que Aranha “criou Israel” simplifica demais. A aprovação da partilha envolveu muitos países e negociações. O Brasil foi um dos 13 países latino-americanos que votaram a favor. O mérito de Aranha está na liderança da sessão. A fundação do Estado foi uma decisão do povo judeu, tomada depois da recomendação da ONU.
Como a relação entre Brasil e Israel evoluiu desde 1949?
A relação passou por fases de amizade, de distância e de reaproximação, e nunca foi rompida.
O Brasil reconheceu Israel em 7 de fevereiro de 1949. Em 1951, o vice-presidente João Café Filho fez uma visita semioficial ao país. Em 1952, os dois países abriram representações. O Brasil instalou sua legação em Tel Aviv, e Israel abriu sua embaixada no Rio de Janeiro.
| Período | O que marcou a relação |
|---|---|
| 1950 e 1960 | “Equidistância” no conflito; início da troca técnica, com irrigação israelense para o semiárido do Nordeste |
| 1975 | Brasil vota a favor da Resolução 3379, que equiparava o sionismo ao racismo |
| 1990–1991 | Collor diz a líderes judeus que o voto de 1975 foi um erro; Brasil vota pela revogação (Resolução 46/86) |
| 1995 | Chanceler Luiz Felipe Lampreia visita Israel, a primeira viagem de um chanceler brasileiro em 22 anos |
| 2007–2010 | Acordo de Livre Comércio Mercosul-Israel; Lula visita Israel e se reúne com Shimon Peres |
| 2018–2019 | Netanyahu visita o Brasil; Bolsonaro visita Israel e assina cinco acordos; escritório comercial em Jerusalém |
| 2024–2025 | Crise diplomática depois da fala de Lula sobre Gaza |
O voto de 1975 foi o ponto mais baixo antes da crise atual. Ele veio num período em que o governo Geisel buscava os países árabes por causa do petróleo, sob a linha do “Pragmatismo Responsável”. A Assembleia Geral revogou a resolução em 16 de dezembro de 1991, com o voto do Brasil.
Qual é a cooperação entre Brasil e Israel?
Brasil e Israel cooperam em agricultura, água, ciência, tecnologia, defesa e segurança, e têm um acordo de livre comércio em vigor.
O Itamaraty lista acordos nas áreas de defesa, ciência, tecnologia e inovação, segurança pública e serviços aéreos (Itamaraty).
- Comércio: o Mercosul assinou com Israel, em 18 de dezembro de 2007, seu primeiro acordo de livre comércio com um país de fora da América do Sul. No Brasil, o Decreto nº 7.159 promulgou o acordo, que entrou em vigor em 28 de abril de 2010. A corrente de comércio ficou em cerca de US$ 2,3 bilhões por ano em 2023 e 2024.
- Fertilizantes e alimentos: cerca de 50% das importações brasileiras vindas de Israel são adubos e fertilizantes. O Brasil exporta carne bovina, soja e café.
- Água e agricultura: a agência israelense de cooperação MASHAV mantém há décadas programas de intercâmbio em agricultura e gestão da água.
- Defesa: empresas israelenses como Elbit Systems, AEL Sistemas, IWI e Rafael forneceram aviônicos para o A-29 Super Tucano, o KC-390 e o Gripen, além de sistemas para o SISFRON do Exército. O Acordo de Cooperação em Matéria de Defesa foi aprovado pelo Congresso por meio do Decreto Legislativo nº 139/2022.
- Ajuda humanitária: depois do rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, Israel enviou uma equipe de busca e salvamento para trabalhar com as forças brasileiras.
A cooperação é uma troca entre parceiros. O Brasil tem base científica própria, e a tecnologia israelense se soma a ela.
O que aconteceu na crise diplomática de 2024?
A crise começou em 18 de fevereiro de 2024, quando Lula comparou a guerra de Israel contra o Hamas em Gaza ao extermínio dos judeus por Hitler.
Na cúpula da União Africana, em Adis Abeba, Lula disse que o que acontecia em Gaza “não existiu em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu: quando Hitler resolveu matar os judeus”. Na mesma ocasião, acusou Israel de genocídio (Reuters; AP).
As reações:
- Benjamin Netanyahu chamou a fala de “vergonhosa e grave”.
- O chanceler Israel Katz a classificou como “ataque antissemita”. Ele repreendeu o embaixador brasileiro, Frederico Meyer, no Yad Vashem e declarou Lula persona non grata até uma retratação (Reuters; Agência Brasil).
- Dani Dayan, presidente do Yad Vashem, falou em “combinação de ódio e ignorância”. A Conib e a Fisesp condenaram a fala.
- Segundo pesquisa Genial/Quaest do fim de fevereiro de 2024, 60% dos brasileiros acharam que Lula exagerou.
Por que a comparação é falsa. O Holocausto foi um programa de Estado para exterminar cada judeu, só por ser judeu. Cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados. A guerra em Gaza começou com um ataque terrorista contra um Estado soberano. Em 7 de outubro de 2023, terroristas liderados pelo Hamas mataram cerca de 1.200 pessoas, em sua maioria civis, e levaram 251 reféns, segundo números israelenses citados pela Reuters. O objetivo declarado de Israel é desmontar o poder militar e o governo do Hamas e libertar os reféns. Israel também aponta que o Hamas usa hospitais, escolas e casas como escudo.
Criticar uma guerra é legítimo. A definição de antissemitismo da IHRA, adotada pela JJO, inclui entre seus exemplos a comparação entre a política atual de Israel e a dos nazistas. Lula disse depois que não usou a palavra “Holocausto” (Jornal do Comércio). A frase, porém, citava Hitler e o extermínio dos judeus, e o governo não a retirou.
O Brasil rompeu relações com Israel?
Não. As relações foram rebaixadas, mas as duas embaixadas seguem abertas, chefiadas por encarregados de negócios.
- 19 de fevereiro de 2024: o Brasil chama o embaixador Frederico Meyer para consultas (Reuters).
- Março de 2024: o embaixador israelense diz que a tensão pode estar diminuindo (Reuters).
- 29 de maio de 2024: Meyer é nomeado para Genebra, sem substituto em Tel Aviv (Reuters). Segundo a AFP, o Itamaraty confirmou que a embaixada continuou funcionando (AFP Checamos).
- Agosto de 2025: Israel retira a indicação de seu novo embaixador, que estava sem resposta do Itamaraty, e rebaixa as relações (Metrópoles).
E a Corte Internacional de Justiça? A ação por genocídio é da África do Sul e foi aberta em 29 de dezembro de 2023. O Brasil apoiou a ação em 10 de janeiro de 2024. Em setembro de 2025, apresentou uma declaração de intervenção com base no artigo 63 do Estatuto da Corte. Esse artigo trata da interpretação da Convenção do Genocídio (CIJ). A intervenção não é uma condenação de Israel. A Corte não decidiu o mérito, e Israel rejeita a acusação (FDI).
Quem o Brasil apoia: Israel ou os palestinos?
Oficialmente, o Brasil mantém relações com Israel e com a Autoridade Palestina. Desde 2023, porém, o governo tem sido muito crítico de Israel.
O Brasil abriu um escritório de representação em Ramallah em 2004. Em dezembro de 2010, reconheceu um Estado palestino nas linhas anteriores a 1967. Ao mesmo tempo, manteve o acordo de livre comércio e a cooperação técnica com Israel.
Sobre o 7 de outubro, a Nota à Imprensa nº 438 do Itamaraty condenou os ataques e prestou solidariedade ao povo de Israel. Segundo a Reuters, Lula condenou o “terrorismo” do Hamas e pediu a libertação das crianças israelenses feitas reféns (Reuters). Na presidência do Conselho de Segurança, em outubro de 2023, o Brasil apresentou um projeto que condenava os ataques do Hamas e a tomada de reféns. Os EUA vetaram o texto.
O Brasil, porém, não classifica o Hamas como grupo terrorista. Israel, EUA, União Europeia e Reino Unido classificam. O Itamaraty explicou que o país só aplica as listas do Conselho de Segurança da ONU, e o Hamas não está nelas (CNN Brasil). Também circulou a alegação de que o governo enviou dinheiro ao Hamas. É falsa. Uma checagem da Reuters mostrou que os R$ 25 milhões citados foram para a Autoridade Nacional Palestina, em 2010 (Reuters).
O que a guerra de Israel contra o Hamas afeta no Brasil?
A guerra afetou sobretudo a diplomacia e algumas compras de defesa. O comércio seguiu firme.
- Diplomacia: o Brasil não tem embaixador em Tel Aviv, e Israel não tem embaixador em Brasília.
- Defesa: em 2024, o governo congelou a compra de 36 obuseiros israelenses, avaliada em R$ 1 bilhão, para o Exército.
- Comércio: a corrente ficou em cerca de US$ 2,3 bilhões por ano em 2023 e 2024. Os fertilizantes israelenses são importantes para o agronegócio brasileiro, e o Brasil continua a vender alimentos a Israel.
- Comunidade judaica: o Itamaraty estima a comunidade judaica brasileira em cerca de 120 mil pessoas (Itamaraty). É a comunidade judaica mais antiga da América Latina, com origem no Recife do século XVII. Depois de 7 de outubro, o governo de Israel registrou no Brasil reações à fala de Lula e ações de deslegitimação (Governo de Israel).
Criticar um governo, o israelense ou o brasileiro, não é antissemitismo. Pelo critério da IHRA, negar o direito de Israel existir é. A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
Linha do tempo
- 1947Oswaldo Aranha preside a Assembleia Geral da ONU, que aprova em 29 de novembro a Resolução 181, com voto do Brasil.
- 1948Israel declara sua independência em maio.
- 1949O Brasil reconhece Israel em 7 de fevereiro e, em maio, vota pela admissão de Israel na ONU.
- 1952O Brasil abre legação em Tel Aviv, e Israel abre embaixada no Rio de Janeiro.
- 1975O Brasil vota a favor da Resolução 3379, que equiparava o sionismo ao racismo.
- 1991O Brasil vota pela revogação da Resolução 3379 (Resolução 46/86).
- 1995O chanceler Luiz Felipe Lampreia visita Israel.
- 2007O Mercosul e Israel assinam acordo de livre comércio em 18 de dezembro.
- 2010O acordo entra em vigor no Brasil, e Lula visita Israel em março.
- 2018Benjamin Netanyahu visita o Brasil.
- 2019Bolsonaro visita Israel e assina cinco acordos; o Brasil abre escritório comercial em Jerusalém; Israel envia equipe a Brumadinho.
- 2023O Hamas ataca Israel em 7 de outubro; o Brasil condena os ataques e preside o Conselho de Segurança.
- 2024Lula compara Gaza ao extermínio nazista; Israel o declara persona non grata; o embaixador brasileiro é transferido para Genebra.
- 2025Israel rebaixa as relações em agosto; em setembro, o Brasil intervém no caso da África do Sul na CIJ.
Perguntas frequentes
O Brasil já ajudou Israel?
Quem é Oswaldo Aranha?
Quem criou o Estado de Israel?
O Brasil cortou relações com Israel?
- Itamaraty: relações bilaterais Brasil–Estado de Israel
- ONU: biografia de Oswaldo Aranha, presidente da Assembleia Geral
- Reuters: Israel reage à comparação de Lula entre Gaza e o Holocausto
- AP: Israel e Brasil após fala de Lula
- Reuters: Lula persona non grata em Israel
- Agência Brasil: Israel declara Lula persona non grata
- Reuters: Brasil chama embaixador em Israel para consultas
- Reuters: embaixador israelense diz que crise pode estar passando
- Reuters: Lula retira embaixador brasileiro de Israel
- AFP Checamos: embaixada brasileira em Tel Aviv segue funcionando
- Jornal do Comércio: Lula diz que não usou a palavra Holocausto
- Metrópoles: Israel rebaixa relações com o Brasil
- Corte Internacional de Justiça: caso África do Sul x Israel
- FDI: The War Against Hamas – respostas às principais perguntas
- Reuters: Lula pede cessar-fogo e libertação de crianças reféns
- CNN Brasil: Itamaraty explica por que não classifica o Hamas como terrorista
- Reuters Checagem: os R$ 25 milhões foram para a Autoridade Nacional Palestina
- Governo de Israel: Antisemitism Report 2024



