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Manual de termos para jornalistas

Em resumo

Para cobrir Israel e o antissemitismo com precisão, separe três coisas: fato verificável, alegação de uma parte e disputa interpretativa. Os números de vítimas devem ser atribuídos a quem os contou, como o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas. O Hamas deve ser identificado como grupo classificado como terrorista por Israel, Estados Unidos e União Europeia. Use a definição de antissemitismo da IHRA e não confunda judeus, israelenses e governo de Israel.

ParaJornalistas
IdadeAdultos
Extensão8 páginas
TemaImprensa
FormatoGuia em PDF
Situaçãodisponível

Como um jornalista deve falar sobre Israel e o antissemitismo?

O princípio central de uma cobertura precisa é que o jornalista separe o que foi observado, quem afirma, o que foi verificado e o que ainda está em disputa.

Na prática, cada informação precisa ser classificada antes de ir para o texto:

  • Fato verificável: algo documentado e confirmado, como a classificação oficial do Hamas como organização terrorista por Israel, Estados Unidos e União Europeia.
  • Alegação de uma parte: algo afirmado por um ator do conflito e ainda não verificado de forma independente, como números divulgados por uma das partes.
  • Disputa interpretativa: termos e enquadramentos que exigem atribuição, como “genocídio”, “apartheid” ou “limpeza étnica”.

Equilíbrio jornalístico não significa simetria artificial: um fato comprovado e uma alegação não verificada não recebem o mesmo peso.

Erros comuns que vale evitar:

  • Confundir judeus, israelenses, sionistas e governo de Israel, que são categorias diferentes.
  • Tratar “Israel” como agente único, sem diferenciar governo, Forças de Defesa de Israel (FDI), tribunais, partidos e sociedade civil.
  • Reproduzir números sem atribuição.
  • Omitir que uma fonte é parte direta do conflito.
  • Publicar imagens, mapas ou legendas sem local e data precisos.
  • Corrigir em silêncio um erro relevante.

Como corrigir bem: identifique o texto original, explique o erro, apresente a informação certa, informe a data da correção e mantenha o aviso visível. Título, legenda e redes sociais também precisam ser atualizados. Quando o erro muda o sentido (por exemplo, ao atribuir a Israel uma declaração feita pelo Hamas), a correção precisa aparecer em destaque.

Como se referir ao Hamas e quem o classifica como terrorista?

O Hamas é um grupo classificado como organização terrorista por Israel, pelos Estados Unidos e pela União Europeia, classificação registrada em uma notícia da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Cada jurisdição decide sobre essa classificação, e os efeitos jurídicos variam de uma para outra. Quem pergunta por que o Brasil não trata o Hamas como terrorista está, no fundo, perguntando sobre uma decisão de Estado. A posição de cada governo deve ser informada com precisão, sem apagar os fatos sobre o grupo.

Para escrever com clareza, ajuda pensar em três níveis:

  • Fato institucional: Israel, Estados Unidos e União Europeia classificam o Hamas como organização terrorista.
  • Fato descritivo: o Hamas atacou civis no ataque de 7 de outubro, lançou foguetes e manteve reféns. Cada episódio deve ser apoiado por fonte identificada.
  • Termos de propaganda ou acusação: palavras como “resistência” exigem atribuição. Fontes palestinas e regionais usam o termo árabe muqawama (“resistência”) para grupos armados e chamam as FDI de “forças de ocupação”, escolhas de vocabulário de uma parte que não servem como descrição neutra.

O Yad Vashem, centro mundial de memória do Holocausto, descreve o Hamas como movimento terrorista, antissemita e genocida.

Manuais de grandes veículos, como os da BBC e da AP, pedem que a palavra “terrorista” seja atribuída a declarações oficiais, por exemplo: “o grupo classificado por Israel e pelos EUA como terrorista”. Atribuir está certo quando informa o leitor. O problema aparece quando a classificação oficial é trocada por eufemismos que diluem a responsabilidade do grupo por ataques contra civis.

Fórmula útil: “O Hamas, classificado como organização terrorista por Israel, Estados Unidos e União Europeia, afirmou X; Israel declarou Y; a investigação Z verificou (ou não verificou)…”

Como reportar números de mortos e feridos em uma guerra?

Números de vítimas devem sempre ser atribuídos a quem os contou, e uma contagem atribuída não pode virar fato independente ao longo do texto.

Em guerra, os números estão especialmente sujeitos a erro, duplicação e propaganda. Antes de publicar, responda:

  • Quem contou e quando?
  • O que foi contado?
  • O número inclui combatentes?
  • Há desaparecidos ou mortes presumidas?
  • A fonte tem acesso direto aos registros?
  • Houve auditoria independente?
UseEvite
“Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, …”“Morreram X pessoas”, quando a única base é uma parte do conflito
“Segundo as Forças de Defesa de Israel, …”Misturar civis e combatentes sem avisar
“A ONU reproduziu o número informado por …”Dizer “confirmado” quando a fonte só publicou uma estimativa
“A cifra não pôde ser verificada de forma independente.”Comparar números de períodos diferentes
“O número foi revisado após a identificação de duplicidades.”Apresentar uma cifra antiga como atual

Atribuir não equivale a dizer que a informação é falsa. A atribuição mostra ao leitor o grau e a origem da evidência.

Escudos humanos: o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional proíbe usar a presença de civis para proteger alvos militares. O Hamas usa a população e a infraestrutura civil de zonas urbanas como escudo, o que as FDI apontam como causa de baixas civis. Quando o tema são mortes em Gaza, esse contexto precisa estar no texto.

O que é antissemitismo e como usar a definição da IHRA?

Antissemitismo é hostilidade, preconceito ou discriminação contra judeus por serem judeus. O Yad Vashem documenta suas formas religiosa, política e racial e também liga ao antissemitismo a negação do Holocausto e as teorias conspiratórias.

Origem do termo: a palavra foi criada em 1879 pelo agitador alemão Wilhelm Marr, no panfleto A Vitória do Judaísmo sobre o Germanismo. Marr a usava como autodefinição positiva, para dar verniz pseudocientífico e racial ao ódio antijudaico tradicional.

A definição da IHRA (2016): adotada pela International Holocaust Remembrance Alliance em plenária de seus países membros, é a definição de trabalho mais usada por governos, universidades e órgãos internacionais. O texto diz: “O antissemitismo é uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação aos judeus.”

A definição traz 11 exemplos, sete dos quais tratam de Israel. Entre eles:

  • negar ao povo judeu o direito à autodeterminação;
  • exigir de Israel um comportamento não esperado de nenhuma outra nação democrática;
  • comparar a política israelense à dos nazistas;
  • responsabilizar coletivamente os judeus pelas ações do Estado de Israel;
  • negar ou distorcer o Holocausto.

A JJO adota a definição da IHRA e, por esse critério, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

A crítica de “uso como arma”: alguns juristas e acadêmicos, entre eles Kenneth Stern, redator do texto inicial, alegam que os exemplos podem ser usados para silenciar críticas ao governo israelense. A própria definição responde a isso ao afirmar que críticas a Israel semelhantes às feitas a qualquer outro país não são, por si só, antissemitas. Cabe à boa reportagem explicar qual elemento concreto caracteriza o preconceito, em vez de só rotular o autor.

Outros conceitos úteis:

  • Antissemitismo clássico: mitos religiosos e raciais, como o libelo de sangue (surgido em Norwich, em 1144, e popularizado pelo caso de Simão de Trento, em 1475), a acusação de deicídio e o envenenamento de poços.
  • Antissemitismo secundário: hostilidade aos judeus motivada pelo Holocausto, com inversão de culpa ou banalização do extermínio.
  • Antissemitismo relacionado a Israel: uso do Estado de Israel para projetar caricaturas antigas, como ganância, demonização ou sede de sangue.

Qual a diferença entre sionismo, antissionismo e antissemitismo?

Sionismo é o movimento político e nacional judaico que defende a autodeterminação do povo judeu. Surgiu na Europa no fim do século XIX e está ligado à criação e à existência do Estado de Israel.

Há várias correntes dentro do sionismo (religiosas, socialistas, revisionistas, liberais e outras), e defendê-lo não equivale a apoiar cada política de cada governo israelense.

Pelo critério da IHRA adotado pela JJO, o antissionismo que nega o direito de Israel existir é antissemitismo. O Yad Vashem identifica como antissemitas três práticas: negar aos judeus o direito à autodeterminação, transformar judeus em alvo coletivo e usar teorias conspiratórias antijudaicas.

Perguntas para analisar um discurso:

  • A crítica mira políticas concretas ou judeus como grupo?
  • Israel é submetido a um padrão que não se aplica a outros Estados?
  • Aparecem símbolos, acusações ou estereótipos antijudaicos clássicos?
  • O texto nega de forma seletiva a autodeterminação judaica?
  • O autor culpa judeus no Brasil ou em outros países por atos do governo israelense?

Atenção aos códigos: nas redes, o discurso de ódio recorre a dog-whistles, os “apitos de cachorro”, códigos velados para escapar da moderação automática. Um exemplo é trocar “judeu” por “sionista” ou “globalista” em contextos conspiratórios; outro é a caricatura conhecida como Happy Merchant. Quando “sionista” aparece no lugar de “judeu” numa teoria de conspiração, o conteúdo é antissemita.

Quais palavras israelenses e hebraicas aparecem na cobertura?

Algumas palavras israelenses e hebraicas aparecem com frequência no noticiário, e conhecer o sentido exato de cada uma evita erros.

  • Judeia e Samaria: denominação oficial israelense para a área entre Israel e a Jordânia, com nomes de raiz histórica judaica. O status da área é objeto de disputa jurídica e política, e o texto deve tratá-la como território em disputa.
  • Hasbara (הסברה): vem do verbo hebraico que significa “explicar” ou “esclarecer” e designa o esforço de comunicação do Estado de Israel para apresentar suas posições ao público internacional. As raízes remontam a 1897, quando Theodor Herzl fundou o jornal Die Welt no contexto do Primeiro Congresso Sionista. O termo foi popularizado no início do século XX pelo jornalista sionista Nahum Sokolow.
  • Diplomacia pública: como formuladores israelenses passaram a ver hasbara como termo defensivo demais, a linguagem oficial migrou para “diplomacia pública”. As estimativas sobre a institucionalização divergem: um registro aponta o período após a guerra do Líbano de 1982, e outro aponta 2006, após a Segunda Guerra do Líbano, com a criação da Diretoria Nacional de Diplomacia Pública no Gabinete do Primeiro-Ministro.
  • Hasbara 2.0: nome acadêmico para a adaptação dessa comunicação às redes sociais.
  • Toda’a (תודעה): termo das doutrinas militares e de inteligência israelenses para o campo da consciência e da percepção pública.
  • Censura militar: órgão oficial das FDI que revisa previamente matérias com informações operacionais ou de inteligência sensíveis, inclusive de correspondentes estrangeiros.

Quais termos do debate exigem cuidado e atribuição?

Termos de acusação não são descrição neutra. Devem sempre ser atribuídos a quem os usa, acompanhados da resposta de Israel quando houver.

  • “Genocídio”, “limpeza étnica”, “crime de guerra”: exigem atribuição a uma autoridade, investigação ou especialista identificado e não podem ser usados como se fossem fato estabelecido.
  • “Apartheid”: acusação comum em campanhas do BDS e em relatórios de ONGs. Autoridades de Israel rejeitam a analogia e afirmam que ela busca minar a segurança e a imagem internacional do país.
  • BDS: movimento criado em 8 de julho de 2005 por uma coalizão de 170 organizações da sociedade civil palestina que, inspirado na campanha contra a África do Sul, prega boicote, desinvestimento e sanções contra Israel.
  • Delegitimação: esforços que questionam o caráter judaico ou a própria existência legal de Israel. Em novembro de 2009, no Fórum Saban, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu apontou a delegitimação como uma das três maiores ameaças estratégicas a Israel, ao lado do programa nuclear do Irã e do arsenal de mísseis da região.
  • Lawfare (guerra jurídica): uso de tribunais internacionais, como a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional, por atores políticos e ONGs para atacar ações de Israel. Na reportagem, diga o que cada decisão é e o que ela não é.
  • Desinformação coordenada: termos como CIB (comportamento inautêntico coordenado), astroturfing e FIMI (manipulação e interferência estrangeira, padrão definido pela União Europeia) descrevem campanhas com contas falsas e redes organizadas. A operação de origem russa chamada Doppelganger chegou a clonar veículos como Walla, Le Monde e Der Spiegel para publicar matérias falsas, inclusive em Israel.

O que levar deste manual para a redação?

Para o dia a dia de quem cobre Israel e o antissemitismo, o manual se resume nos pontos abaixo.

Para levar:

  • Separe fato verificável, alegação de uma parte e disputa interpretativa.
  • Atribua todo número de vítimas: “segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas” ou “segundo as FDI”.
  • Identifique o Hamas pelo que é: grupo classificado como terrorista por Israel, Estados Unidos e União Europeia, responsável por ataques contra civis e sequestros.
  • Use a definição da IHRA para reconhecer antissemitismo, inclusive quando ele aparece disfarçado de crítica a Israel.
  • Não confunda judeus, israelenses, sionistas e governo de Israel, nem culpe judeus brasileiros por atos de qualquer governo.
  • Atribua acusações como “apartheid” e “genocídio” a quem as faz e apresente a resposta de Israel.
  • Corrija erros de forma visível e datada, sem alterações silenciosas.

Perguntas frequentes

Como um jornalista deve falar sobre Israel?
Com precisão e atribuição. O jornalista separa fato verificável, alegação de uma parte e disputa interpretativa, atribui números a quem os contou, identifica o Hamas como grupo classificado como terrorista por Israel, EUA e União Europeia e não confunde judeus, israelenses e governo de Israel. Acusações como “genocídio” ou “apartheid” aparecem atribuídas a quem as faz, junto com a resposta israelense.
Por que o Brasil não considera o Hamas terrorista?
Cada jurisdição decide se classifica um grupo como terrorista, e essa decisão tem efeitos jurídicos próprios. Israel, Estados Unidos e União Europeia classificam o Hamas como organização terrorista, como registra a Assembleia Legislativa de São Paulo. A posição de cada governo deve ser informada com precisão, sem diluir a responsabilidade do Hamas por ataques contra civis e sequestros.
Quais são algumas palavras israelenses usadas no noticiário?
Entre as mais comuns estão “Judeia e Samaria”, nome oficial israelense da área entre Israel e a Jordânia; “hasbara”, que significa “explicação” e designa a comunicação oficial de Israel; e “toda’a”, termo militar para o campo da percepção pública. Também aparecem “diplomacia pública” e “censura militar”, órgão das FDI que revisa informações sensíveis antes da publicação.
Criticar Israel é antissemitismo?
Não necessariamente. Pela definição da IHRA, críticas a Israel semelhantes às feitas a qualquer outro país não são, por si só, antissemitas. A crítica se torna antissemitismo quando nega o direito de Israel existir, aplica a Israel um padrão não exigido de outras nações, compara Israel aos nazistas ou culpa coletivamente os judeus pelas ações do Estado.

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