Israel descriminalizou relações homoafetivas em 1988, proíbe discriminação no trabalho desde 1992, aceita soldados LGBT assumidos desde 1993 e registra casamentos homoafetivos feitos no exterior desde 2006. A acusação de “pinkwashing” diz que isso seria só propaganda para desviar a atenção do conflito. Os fatos desmentem a acusação: esses direitos foram conquistados ao longo de décadas, por ativismo e decisões judiciais, e não inventados para a imagem externa.
Quais direitos as pessoas LGBT têm em Israel?
Israel tem a estrutura jurídica mais favorável a pessoas LGBT no Oriente Médio. Essa proteção não veio pronta. Foi construída passo a passo, pela sociedade civil, pela Knesset (o parlamento) e pela Suprema Corte.
Os principais marcos:
| Ano | Marco |
|---|---|
| 1963 | Orientação do procurador-geral: a lei de sodomia herdada do Mandato Britânico deixa de ser aplicada a adultos em âmbito privado |
| 1988 | A Knesset abole a lei que criminalizava a sodomia |
| 1992 | A Lei de Igualdade de Oportunidades no Emprego passa a proibir discriminação por orientação sexual |
| 1993 | As Forças de Defesa de Israel (FDI) permitem que soldados LGBT assumidos sirvam em qualquer função |
| 1994 | Caso El Al v. Danilowitz: benefícios de cônjuge também para parceiros do mesmo sexo |
| 2006 | Caso Ben-Ari: o registro populacional deve reconhecer casamentos homoafetivos feitos no exterior |
| 2022 | Acesso pleno de casais masculinos à gestação de substituição; proibição da “terapia de conversão” por profissionais de saúde |
| 2023 | Suprema Corte garante, por unanimidade, adoção em igualdade de condições |
Segundo o banco de dados da ILGA World e um relatório do governo dos EUA de 1993, a política militar israelense determinou que a orientação sexual não seria critério de recrutamento nem de carreira. Hoje há soldados e oficiais assumidos, inclusive em unidades de combate e de inteligência.
Pessoas LGBT assumidas também chegaram à política. Uzi Even, que se assumiu publicamente em 1993, é apontado como o primeiro parlamentar abertamente gay de Israel, segundo o Center for Israel Education. Em 2022, o ministro da Saúde era Nitzan Horowitz, abertamente gay.
O que é a acusação de “pinkwashing”?
“Pinkwashing” é a acusação de que Israel destacaria seus direitos LGBT só para melhorar a imagem no exterior. Segundo os críticos, seria uma tática de relações públicas para desviar a atenção do conflito com os palestinos e das operações militares em Gaza.
O termo circula em ativismo e em parte da academia. Uma análise acadêmica publicada pela Taylor & Francis descreve o debate como parte de uma discussão sobre direitos sexuais, nacionalismo e política externa.
Na prática, a acusação aparece com frequência em campanhas de boicote contra Israel. A lógica é esta: qualquer avanço israelense se torna suspeito. Como resume uma fonte que estuda o tema, o compromisso de Israel com os direitos dos homossexuais passa a ser tratado “como se fosse apenas propaganda para encobrir a violação de outros direitos humanos”.
Por que a acusação de pinkwashing não se sustenta?
A acusação não se sustenta porque os direitos LGBT em Israel são reais, antigos e foram conquistados de baixo para cima. Não são um anúncio publicitário.
Três fatos pesam contra ela:
- Os direitos vieram de lutas, não de marketing. Ativistas de organizações como a Aguda (Associação pela Igualdade LGBTQ+ em Israel) lembram que os avanços foram obtidos contra a resistência de governos conservadores e religiosos, em décadas de batalhas na Suprema Corte.
- A cronologia desmente a tese. A descriminalização é de 1988 e a abertura militar, de 1993. São marcos anteriores a qualquer debate sobre “pinkwashing”. Ninguém cria uma política de direitos com décadas de antecedência para usar como propaganda futura.
- Os temas são separados. Uma fonte de referência sobre o tema observa que quem fala de direitos LGBT em Israel não o faz para desviar a atenção da disputa israelo-palestina. Reconhecer um direito não apaga nenhum outro debate.
Organizações LGBT de fora de Israel também reagiram. Em novembro de 2016, a entidade italiana Associazione Radicale Certi Diritti condenou os boicotes contra Israel feitos sob o pretexto de “pinkwashing”. A associação disse que esses ataques desviam a atenção da verdadeira batalha: os direitos humanos da própria população palestina. E elogiou Israel por ser o único Estado do Oriente Médio a proteger legalmente a comunidade LGBTI.
Há ainda um problema de lógica. A acusação transforma uma conquista democrática em prova de culpa. Por esse raciocínio, quanto mais direitos um país garante, mais suspeito ele fica.
Como vivem as pessoas LGBT em Gaza sob o Hamas e nas áreas da Autoridade Palestina?
Em Gaza, sob o Hamas, relações sexuais entre homens são crime. Nas áreas da Autoridade Palestina em Judeia e Samaria, não há proteção legal, e há relatos de perseguição.
Gaza. Vale ali o Código Penal do Mandato Britânico de 1936, que pune atos “contra a ordem da natureza” com até 10 anos de prisão. O Departamento de Estado dos EUA registra essa criminalização. A lei é anterior ao Hamas. Mas o grupo terrorista controla Gaza desde 2007 e responde pela repressão sob seu domínio. Dois exemplos:
- Em março de 2016, o comandante do Hamas Mahmoud Ishtiwi foi torturado e executado pelo próprio grupo, sob acusações que incluíam sexo homossexual.
- Em setembro de 2023, o Hamas e sindicatos de funcionários em Gaza rejeitaram o código de ética da UNRWA, que incluía princípios de igualdade de gênero e direitos LGBT. A agência recuou.
Judeia e Samaria. Nas áreas administradas pela Autoridade Palestina vale o Código Penal Jordaniano de 1951. Ele não criminaliza expressamente relações homossexuais. Porém, leis de “moralidade pública” e “indecência” são usadas contra pessoas LGBT. O Conselho de Imigração e Refúgio do Canadá reúne relatos de assédio, abuso e detenções por agentes da Autoridade Palestina. Há também denúncias de que forças de segurança mantêm arquivos sobre homossexuais e ameaçam expô-los às famílias para forçá-los a virar informantes.
A rejeição social também é medida. Segundo o Pew Research Center, em pesquisa feita em 39 países, 93% dos palestinos entrevistados disseram que a sociedade não deve aceitar a homossexualidade. O dado mostra o peso do ambiente. Não é um julgamento sobre cada pessoa, e muitos palestinos LGBT pagam caro justamente por causa dele.
Israel é refúgio para palestinos LGBT?
Sim. Palestinos LGBT perseguidos em Gaza e em Judeia e Samaria buscam abrigo em Israel. Estima-se que cerca de 2.000 palestinos LGBT vivam em Tel Aviv a qualquer momento.
O caminho nem sempre foi simples. Um estudo noticiado pelo Times of Israel ouviu palestinos gays que fugiram de Judeia e Samaria. Eles relataram perseguição pela Autoridade Palestina e também dificuldades com as autoridades israelenses. Após ações movidas por ONGs de direitos humanos, Israel passou a conceder vistos de permanência temporária e permissões formais de trabalho a esses refugiados.
Isso mostra o contrário do que diz a tese do “pinkwashing”. A democracia israelense permite que os próprios problemas sejam levados à Justiça e corrigidos. Israel também deu asilo a perseguidos de outros países da região, como o poeta gay iraniano Payam Feili, em 2016.
Qual o país com a maior parada LGBT do mundo?
Não existe um ranking mundial único e confiável das paradas. No Oriente Médio, porém, a maior é a de Tel Aviv, em Israel.
Tel Aviv realizou sua primeira parada do orgulho em 1993. O evento recebe apoio da prefeitura e cresceu até se tornar uma das maiores manifestações LGBT da região. Em 2018, reuniu cerca de 250.000 participantes.
Outros marcos da cidade:
- Em 2006, Tel Aviv sediou o WorldPride, com o tema “Amor Sem Fronteiras”.
- Em 2012, foi eleita a “Melhor Cidade Gay do Mundo” em votação internacional, com 43% dos votos.
Jerusalém também tem sua parada anual, que reúne milhares de pessoas.
Qual é o país que mais apoia LGBT no Oriente Médio?
No Oriente Médio, Israel é o país que mais protege legalmente as pessoas LGBT. É o único Estado da região com essa proteção em lei, segundo a Associazione Radicale Certi Diritti.
Nenhum vizinho reúne o mesmo conjunto: relações homoafetivas legais, proibição de discriminação no trabalho, serviço militar aberto, reconhecimento de casamentos feitos no exterior, adoção e gestação de substituição. Em 2011, Israel assinou a resolução da ONU de proteção dos direitos LGBT.
Em escala mundial, a comparação depende do critério. Para consultar a legislação país a país, o banco de dados da ILGA World é uma referência.
Quais desafios as pessoas LGBT ainda enfrentam em Israel?
Israel não oferece igualdade plena, e dizer isso com honestidade fortalece o argumento, em vez de enfraquecê-lo.
- Casamento civil. Não existe casamento civil dentro de Israel, nem para casais LGBT nem para casais seculares. O direito de família está nas mãos de autoridades religiosas ortodoxas, muçulmanas e drusas. Por isso, muitos casais se casam no exterior e depois registram a união.
- Oposição política. Parlamentares LGBT enfrentam resistência de setores ultraortodoxos e conservadores na Knesset. Em 2023, a JTA registrou temores na comunidade com a formação de um novo governo.
- Discriminação e debates em aberto. Persistem discriminação e divergências sobre direitos de pessoas trans e de famílias homoafetivas, como aponta a Outright International.
Esses problemas são discutidos às claras, na imprensa, nos tribunais e no parlamento. É exatamente o que um país faz quando os direitos são reais, e não uma fachada.
Linha do tempo
- 1963Orientação do procurador-geral: a lei de sodomia do Mandato Britânico deixa de ser aplicada a adultos em âmbito privado.
- 1988A Knesset abole formalmente a criminalização da sodomia.
- 1992A Lei de Igualdade de Oportunidades no Emprego proíbe discriminação por orientação sexual.
- 1993As FDI abrem todas as funções a soldados LGBT assumidos; primeira parada de Tel Aviv; Uzi Even se assume publicamente.
- 1994Caso El Al v. Danilowitz garante benefícios de cônjuge a parceiros do mesmo sexo.
- 2000A idade de consentimento para relações entre pessoas do mesmo sexo cai de 18 para 16 anos, igualando a regra geral.
- 2004Tribunais reconhecem casais do mesmo sexo como casais em união estável, com direitos de herança.
- 2005Caso Yaros-Hakak autoriza a adoção pelo segundo pai ou mãe.
- 2006Caso Ben-Ari: Israel passa a registrar casamentos homoafetivos feitos no exterior; Tel Aviv sedia o WorldPride.
- 2011Israel assina a resolução da ONU de proteção dos direitos LGBT.
- 2016A entidade italiana Certi Diritti condena boicotes a Israel feitos sob o pretexto de pinkwashing.
- 2022Acesso pleno de casais masculinos à gestação de substituição; proibição da terapia de conversão por profissionais de saúde.
- 2023Suprema Corte garante, por unanimidade, adoção em igualdade de condições a casais do mesmo sexo.
Perguntas frequentes
O casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal em Israel?
Gays podem servir nas Forças de Defesa de Israel?
Qual a maior parada LGBT do Oriente Médio?
Ser gay é crime em Gaza?
Assista
Aline, brasileira que vive em Jerusalém, explica de forma clara o custo de vida em Israel (aluguel, transporte, alimentação, saúde e educação públicas) e os salários médios, comparando com o Brasil. Um retrato acessível do cotidiano israelense, que termina com a posição de Israel entre os países mais felizes do mundo.
Adolescentes e adultosÁudio em outro idioma, com legendas. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Português.
Vídeo curto que apresenta cinco tecnologias agrícolas israelenses: drones que pastoreiam gado, sensores de solo para irrigação, fazendas verticais urbanas, robôs voadores que colhem frutas e colmeias inteligentes. Mostra como a inovação de Israel ajuda a produzir mais alimentos com menos recursos.
Adolescentes e adultosTambém em inglês: mais 2 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Episódio do podcast Unpacked, nos 50 anos da Operação Entebbe (1976), que reconstrói o sequestro do voo 139 da Air France por terroristas, o contexto do terrorismo aéreo e de Ma'alot, o dilema de Rabin e Peres e o resgate dos reféns, com reflexões sobre liderança e a recusa de abandonar os cidadãos.
Adolescentes e adultosEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
A ex-deputada israelense Einat Wilf apresenta o sionismo e Israel a partir de cinco conceitos: a ideia de Herzl, a aliá e a sociedade de imigrantes, o renascimento do hebraico, a minoria árabe e a raiz do conflito, que é a rejeição da soberania judaica. Uma introdução clara e didática ao direito do povo judeu à autodeterminação em sua terra ancestral.
Adultos- ILGA World: banco de dados de legislação LGBTI, Israel
- GAO (governo dos EUA): relatório de 1993 sobre políticas militares
- Center for Israel Education: homossexualidade legalizada em Israel
- Departamento de Estado dos EUA: relatório de direitos humanos 2022 (Judeia e Samaria e Gaza)
- Conselho de Imigração e Refúgio do Canadá: informação sobre pessoas LGBT em áreas palestinas
- Times of Israel: estudo com palestinos gays que fugiram de Judeia e Samaria
- JTA: Israel como refúgio LGBTQ no Oriente Médio e o novo governo (2023)
- Taylor & Francis: artigo acadêmico sobre o debate do pinkwashing
- Outright International: relatório sobre Israel
- Universidade de Toronto (Faculdade de Direito): documento de referência

