O kibutz é uma comunidade coletiva e autogerida de Israel. Ela se baseia no trabalho próprio, na propriedade comum dos bens e em decisões democráticas e igualitárias. O primeiro kibutz, Degania, nasceu em 1910 às margens do mar da Galileia. Os kibutzim cultivaram a terra, absorveram imigrantes, defenderam fronteiras e formaram líderes do Estado. Eles ainda existem, hoje em grande parte privatizados.
O que significa kibutz?
Kibutz é uma comunidade coletiva e cooperativa, autogerida, em que os membros trabalham juntos, dividem a propriedade dos bens e tomam decisões de forma democrática e igualitária. O plural em hebraico é kibutzim. No começo, essas comunidades eram chamadas de kvutzá.
O modelo reunia quatro pilares:
- trabalho próprio: os membros faziam o trabalho com as próprias mãos, sem contratar mão de obra assalariada;
- propriedade comum dos bens e dos meios de produção;
- trabalho agrícola como base da economia;
- igualdade de direitos e deveres, inclusive entre homens e mulheres.
O kibutz não era socialismo de Estado no sentido soviético. Era uma comuna voluntária e autogerida, ligada ao projeto nacional judaico. Estudos acadêmicos descrevem o kibutz como uma tentativa de unir o nacionalismo judaico e o socialismo. Esse pensamento ficou conhecido como sionismo trabalhista.
Como surgiu o primeiro kibutz?
O primeiro kibutz foi Degania, fundado em novembro de 1910 no Vale do Jordão, perto do Lago Kinneret (mar da Galileia). Alguns relatos incluem na história de Degania o experimento iniciado em 1909.
Os fundadores eram pioneiros da Segunda Aliá (1904–1914), a onda de imigração judaica daquela época. Eles enfrentavam isolamento, malária e dificuldades econômicas. Por isso, buscaram formas comunitárias de organização.
Os passos principais foram estes:
- Sejera (1907–1908): uma comuna de trabalhadores assumiu o cultivo e o cuidado do gado numa fazenda de treinamento. Manya Shochat e membros do grupo de defesa Bar-Giora lideraram a experiência. Ela mostrou que a agricultura coletiva podia funcionar.
- 1908: a Organização Sionista Mundial abriu um escritório em Jaffa, dirigido pelo sociólogo e economista Arthur Ruppin.
- 1909: Ruppin fez um contrato com um grupo de trabalhadores para que cultivassem de forma autônoma as terras de Um Juni.
- 1910: os pioneiros fundaram o assentamento permanente de Kvutzat Degania, chamado de "Mãe das Kvutzot".
Joseph Bussel foi um dos líderes de Degania. Ali se definiram os princípios do movimento: autogestão sem gerentes externos e igualdade econômica. Os pioneiros também rejeitaram o modelo do economista Franz Oppenheimer, apresentado no 6º Congresso Sionista, em 1903. Esse modelo previa gerentes assalariados e salários diferentes, e Degania preferiu a igualdade total. A Biblioteca Nacional de Israel apresenta Degania como símbolo do trabalho agrícola coletivo e da criação de uma sociedade hebraica.
Como vivem as pessoas em um kibutz?
No modelo clássico, os moradores do kibutz trabalhavam em conjunto, dividiam a renda e o consumo e decidiam tudo em assembleia. A vida girava em torno do trabalho e da comunidade.
O filósofo A. D. Gordon viveu e trabalhou em Degania. Ele defendia a chamada "religião do trabalho": a ideia de que o trabalho físico na terra regenera o povo judeu no corpo, no espírito e na moral. Dessa visão vieram dois lemas:
- kibush ha'avoda, a "conquista do trabalho";
- kibush ha'adama, a "conquista da terra".
Com a Terceira Aliá (1919–1923), o movimento cresceu e ganhou novos formatos:
| Modelo | Características |
|---|---|
| Kvutzá (ex.: Degania) | grupo pequeno, de caráter quase familiar |
| Grande kibutz (ex.: Ein Harod, 1921) | agricultura variada e indústria, para absorver muitos imigrantes |
| Kibutz religioso (ex.: Ein Tzurim, Sa'ad) | une a observância da Torá ao ideal coletivo e agrícola |
Na década de 1920 surgiram três federações nacionais:
- Kibbutz HaMeuchad (1927), que defendia os grandes kibutzim;
- Kibbutz Artzi (1927), ligado ao movimento juvenil HaShomer HaTza'ir;
- Hever HaKvutzot (1925/1928, conforme a fonte), que reunia as kvutzot menores.
Nas décadas de 1960 e 1970, voluntários estrangeiros passaram a viver temporariamente nos kibutzim. Eles trabalhavam na agricultura, na cozinha e na manutenção e recebiam em troca alojamento, comida e convivência. Jovens brasileiros, judeus e não judeus, participaram desse fluxo. Não há, porém, números oficiais consolidados sobre eles.
Qual foi o papel dos kibutzim na criação de Israel?
Os kibutzim foram uma peça importante na construção de Israel. Eles contribuíram na agricultura, no povoamento de áreas estratégicas, na absorção de imigrantes e na defesa. Não foram a única causa do Estado. O processo também envolveu diplomacia, imigração, instituições sionistas e a guerra de 1948.
As principais contribuições foram:
- Agricultura: os membros transformaram pântanos e solos áridos em terras produtivas. Israel nasceu com forte dependência da agricultura, e o kibutz foi a espinha dorsal da produção de alimentos.
- "Muro e Torre" (Homa Umigdal): durante a Revolta Árabe (1936–1939), o movimento criou um método para erguer assentamentos pré-fabricados em uma só noite. Cada um tinha torre de observação e paliçada de defesa.
- Palmach: as bases dessa força de ataque da Haganá, criada em 1941, ficavam nos kibutzim. Os jovens alternavam o trabalho agrícola com o treino militar.
- População: às vésperas da independência, em 1948, havia 176 kibutzim com mais de 47.000 habitantes. Eles somavam cerca de 7,2% da população judaica, a maior proporção que o movimento já alcançou.
- Liderança: boa parte da elite política, diplomática e militar dos primeiros anos do Estado veio dos kibutzim.
Um estudo acadêmico chama o kibutz de "realidade iniciadora", parte da infraestrutura econômica e social do futuro Estado.
Que papel os kibutzim tiveram nas guerras de Israel?
Na Guerra de Independência de 1948, os kibutzim de fronteira funcionaram como fortalezas que ajudaram a barrar exércitos árabes invasores.
- Em maio de 1948, os defensores de Degania Alef e Degania Bet detiveram colunas de tanques sírios ao sul do Lago Kinneret.
- O kibutz Negba, no Neguev, repeliu vários ataques da artilharia e da infantaria egípcias.
Depois de 1949, o Estado criou o programa Nahal. Ele combinava o serviço militar nas Forças de Defesa de Israel (FDI) com a fundação de novos kibutzim em áreas de fronteira.
Jovens de kibutzim assumiram papéis de liderança na infantaria, nas forças blindadas e em unidades de elite, como a Unidade 101, criada em 1953. Historicamente, a taxa de alistamento em unidades de combate entre jovens de kibutzim e moshavim ficou cerca de 15% acima da média nacional. O kibutz Beit Hashita, fundado em 1928, sofreu perdas muito altas na Guerra do Yom Kippur, em 1973.
Os kibutzim ainda existem?
Sim, os kibutzim ainda existem, mas a maioria mudou muito a partir dos anos 1990.
- Crise: na década de 1980, a inflação e mudanças nas regras de crédito levaram o setor agrícola dos kibutzim a uma grave crise financeira.
- Resposta legal: o Knesset aprovou uma lei de arranjos para resolver as dívidas do setor agrícola. Instituições financeiras contestaram a lei. Em 1995, a Suprema Corte de Israel confirmou sua validade no caso United Mizrahi Bank v. Migdal Cooperative Village. A decisão virou marco da chamada "Revolução Constitucional" do país.
- Privatização: muitos kibutzim adotaram salários diferenciados e mais propriedade privada. Também passaram a contratar trabalhadores de fora e a privatizar serviços. A economia deixou de ser só agrícola e incorporou indústria, alta tecnologia e turismo.
Nem todos seguiram o mesmo caminho. Alguns mantiveram estruturas coletivas, e outros adotaram formas híbridas. As fontes não trazem um número exato de kibutzim privatizados. A periodização "a partir dos anos 1990" indica uma tendência geral, não uma ruptura igual em todo o movimento.
O que aconteceu com os kibutzim em 7 de outubro de 2023?
Em 7 de outubro de 2023, terroristas do Hamas e de outros grupos terroristas invadiram Israel a partir de Gaza e atacaram kibutzim do sul do país, entre eles Be'eri, Kfar Aza e Nir Oz.
O ataque foi coordenado. Civis vindos de Gaza também participaram, segundo a Comissão Internacional de Inquérito da ONU. Houve assassinatos, ferimentos, incêndios, casas destruídas e sequestros de reféns.
Em Be'eri, a Comissão registrou 105 civis mortos por terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica e por civis vindos de Gaza. O relatório descreve Be'eri como local de assassinatos e maus-tratos.
Os fatos gerais estão bem documentados: as mortes, os sequestros e a destruição. Alguns relatos das primeiras horas foram depois revistos, e casos específicos continuam sob investigação forense. Isso não muda o essencial. Comunidades civis, símbolos da história do kibutz, foram alvo de um ataque terrorista deliberado do Hamas, e o ataque deu início à guerra.
Linha do tempo
- 1903Franz Oppenheimer propõe um modelo de colonização cooperativa no 6º Congresso Sionista.
- 1907–1908Uma comuna de trabalhadores em Sejera mostra que a agricultura coletiva autogerida é viável.
- 1908A Organização Sionista Mundial abre um escritório em Jaffa, dirigido por Arthur Ruppin.
- 1910Fundação de Degania, o primeiro kibutz, perto do mar da Galileia.
- 1921Fundação de Ein Harod, no Vale de Jezreel, o primeiro "grande kibutz".
- 1927Surgem as federações Kibbutz HaMeuchad e Kibbutz Artzi.
- 1936–1939Durante a Revolta Árabe, o método "Muro e Torre" ergue assentamentos em uma só noite.
- 1941Criação do Palmach, com bases nos kibutzim.
- 1948Há 176 kibutzim com mais de 47.000 habitantes. Degania detém tanques sírios e Negba resiste ao Egito.
- 1995Caso United Mizrahi Bank: a Suprema Corte confirma a lei sobre as dívidas do setor agrícola.
- 2023Em 7 de outubro, o Hamas ataca Be'eri, Kfar Aza, Nir Oz e outras comunidades do sul de Israel.
Perguntas frequentes
Qual foi o primeiro kibutz de Israel?
Os kibutzim ainda existem hoje?
Qual a diferença entre kvutzá e kibutz?
Por que os kibutzim foram importantes para a defesa de Israel?
Assista
Explicação jornalística da CNN Brasil sobre os Acordos de Abraão, assinados a partir de 2020, que normalizaram as relações de Israel com países árabes. O vídeo também trata do papel dos acordos como frente contra a influência do Irã e das perspectivas de adesão da Arábia Saudita e de outros países.
AdultosExplica como Israel, um país pequeno, sem petróleo e sob ameaça constante, tornou-se uma potência tecnológica. O vídeo aborda a imigração soviética dos anos 1990, o incentivo estatal ao capital de risco, a formação tecnológica no serviço militar e uma cultura que tolera o fracasso e valoriza o debate.
Adolescentes e adultosTambém em inglês: mais 2 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Podcast didático de Noam Weissman sobre os Acordos de Oslo: as negociações secretas, o reconhecimento mútuo entre Israel e a OLP, a divisão da Judeia e Samaria em áreas A, B e C, o discurso duplo de Arafat, o terrorismo contra o processo e o assassinato de Rabin. Termina com uma reflexão sobre liderança a partir de Rabbi Jonathan Sacks.
AdultosEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Noam Weissman conta a história da cooperação humanitária israelense, da diplomacia de Golda Meir na África nos anos 1950–60 à fundação da IsraAID. Inclui o resgate de meninas afegãs e da última judia do Afeganistão em 2021, em parceria com os Emirados Árabes Unidos e a Albânia.
Adultos- Biblioteca Nacional de Israel: história do sionismo
- Degania: a história de um assentamento coletivo
- Degania Alef fundado como primeiro kibutz (Center for Israel Education)
- Estudo acadêmico sobre o kibutz, o nacionalismo judaico e o socialismo
- Justice Spatiale / Spatial Justice: artigo sobre os kibutzim
- Universidade de Tel Aviv: a sociedade infantil do kibutz e a diversidade cultural
- Universidade Hebraica de Jerusalém: estudo sobre cooperativas e kibutzim
- Technion: estudo sobre o kibutz

