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Camp David 2000: a oferta de Barak e a recusa de Arafat

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Foto: Bill Clinton caminha com Ehud Barak e Yasser Arafat em Camp David. President (1993-2001 : Clinton). White House Photograph Office. 1/20/1993-1/20/2 · Public domain · Wikimedia Commons
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A Cúpula de Camp David reuniu Ehud Barak, Yasser Arafat e Bill Clinton de 11 a 25 de julho de 2000. Barak propôs um Estado palestino em toda Gaza e em cerca de 88% a 92% de Judeia e Samaria, com administração palestina em bairros árabes de Jerusalém. Arafat recusou e não apresentou contraproposta. A cúpula terminou sem acordo.

O que foi a Cúpula de Camp David de 2000?

Camp David 2000 foi a primeira tentativa de fechar um acordo definitivo de paz entre Israel e a OLP. O acordo cobriria todas as chamadas questões de status permanente. A cúpula aconteceu no retiro presidencial de Camp David, em Maryland, entre 11 e 25 de julho de 2000.

Participaram três líderes:

  • Ehud Barak, primeiro-ministro de Israel;
  • Yasser Arafat, presidente da Autoridade Palestina;
  • Bill Clinton, presidente dos Estados Unidos.

Os Acordos de Oslo previam um período de transição de até cinco anos de autogoverno palestino. Depois desse prazo, viria um acordo permanente. O processo estava atrasado e travado. Por isso, Barak propôs uma cúpula direta para resolver tudo de uma vez: fronteiras, Jerusalém, refugiados, segurança e o fim do conflito.

Arafat hesitou em aceitar o convite. Ele considerava insuficientes as reuniões preparatórias. Clinton o convenceu a ir com uma garantia: se a cúpula fracassasse, ninguém seria apontado como culpado. Os documentos da Biblioteca Presidencial Clinton registram a cúpula e o seu desfecho.

O que Ehud Barak ofereceu em Camp David?

Barak ofereceu aos palestinos um Estado em toda a Faixa de Gaza e na maior parte de Judeia e Samaria. Ele aceitou concessões que nenhum governo israelense havia feito antes. As propostas foram apresentadas oralmente, com a mediação da equipe americana. Não houve mapa formal nem documento assinado por Israel.

Os principais pontos foram estes:

  • Território: entre 88% e 92% de Judeia e Samaria. Algumas estimativas chegam a 94%. O Estado palestino teria ainda 100% de Gaza. Israel ficaria com cerca de 8% a 12% para manter os blocos de comunidades israelenses, onde morava cerca de 80% dos moradores israelenses da região. Haveria uma compensação territorial limitada.
  • Vale do Jordão: controle ou arrendamento israelense temporário, por 12 a 15 anos.
  • Jerusalém: a cidade ficaria unificada sob soberania formal de Israel. Os bairros árabes periféricos passariam a ter soberania civil ou administração palestina. O Monte do Templo / Haram al-Sharif ficaria sob custódia religiosa palestina, sem soberania política plena.
  • Refugiados: Israel rejeitou o “direito de retorno” ao seu território soberano. Aceitou receber um número limitado de pessoas por reunificação familiar, entre 10.000 e 80.000 segundo as estimativas. Também aceitou criar um fundo internacional de compensação e reassentamento.
  • Segurança: o Estado palestino seria desmilitarizado. Israel manteria estações de alerta antecipado no Vale do Jordão e o controle do espaço aéreo.
  • Fim do conflito: os dois lados assinariam uma cláusula de “fim do conflito e de todas as reivindicações”.

Os números variam conforme o critério de cálculo. Fontes diferentes contam de formas diferentes Gaza, as anexações e as trocas de terra. Por isso circulam estimativas de 88% a 95%. O que não se discute é o essencial: Israel propôs, pela primeira vez, um Estado palestino com parte de Jerusalém. Barak, Clinton e o negociador americano Dennis Ross descreveram a proposta como uma concessão histórica.

Por que Arafat recusou a oferta de Barak?

Arafat recusou a proposta sem ceder em Jerusalém, no “direito de retorno” e nas fronteiras de 1967 e, na leitura israelense, sem aceitar a cláusula de fim do conflito. A delegação palestina apresentou estas objeções:

  • Território: a liderança palestina alegou que os blocos de comunidades israelenses e o Vale do Jordão dividiriam o futuro Estado em cantões. Exigiu a retirada israelense às linhas anteriores a 4 de junho de 1967, ou trocas de terra na proporção de 1 para 1.
  • Jerusalém: exigiu soberania plena sobre Jerusalém Oriental, incluindo o Monte do Templo. Arafat disse a Clinton que nenhum líder árabe ou muçulmano poderia ceder a soberania sobre os locais sagrados de Al-Quds.
  • Refugiados: recusou abrir mão do direito de retorno com base na Resolução 194 da Assembleia Geral da ONU.
  • Forma: criticou a falta de um documento escrito e de um mapa oficial.

A resposta israelense e americana. Barak, Clinton e Ross sustentaram que Israel se aproximou das posições palestinas passo a passo, sem receber concessões equivalentes em troca. Arafat não apresentou uma contraproposta que permitisse um acordo. O ponto do retorno é central para Israel. A volta em massa de refugiados ao território israelense anularia a solução de dois Estados para dois povos. Na leitura israelense, o que travou o acordo foi a cláusula de fim do conflito. Arafat não estava disposto a encerrar as reivindicações contra Israel.

Os fatos posteriores reforçam essa leitura. Cinco meses depois, Clinton propôs termos ainda mais amplos para os palestinos, incluindo soberania sobre o Haram al-Sharif. Arafat respondeu com reservas tão amplas que, para Clinton e Ross, equivaliam a uma recusa.

Qual foi o acordo de Camp David? Houve acordo?

Não houve acordo em Camp David 2000. A cúpula terminou em 25 de julho de 2000 com uma declaração trilateral. Nela, os líderes se comprometeram a continuar negociando com base nas Resoluções 242 e 338 do Conselho de Segurança da ONU.

Apesar da garantia dada antes da cúpula, Clinton e Barak atribuíram publicamente a Arafat a responsabilidade pelo fracasso. Segundo eles, o líder palestino disse “não a tudo” e não apresentou uma contraproposta. Para Clinton, Barak tinha avançado muito, e Arafat não respondeu com compromissos comparáveis, sobretudo em Jerusalém e refugiados.

Ao voltar, Arafat foi recebido como herói em Gaza e em Ramallah por ter resistido às pressões sobre Jerusalém.

Atenção: não se deve confundir esta cúpula com os Acordos de Camp David entre Israel e Egito, que tiveram outro contexto. A cúpula de 2000 tratava apenas das negociações entre Israel e os palestinos.

O que foram os Parâmetros Clinton?

Os Parâmetros Clinton foram uma proposta americana de compromisso, apresentada em 23 de dezembro de 2000. Não foram um tratado. Eles iam além do que se discutira em Camp David:

  • Estado palestino em 94% a 96% de Judeia e Samaria, com trocas de terra de 1% a 3%, e em Gaza;
  • Jerusalém dividida pelo princípio “o que é árabe é palestino; o que é judeu é israelense”;
  • soberania palestina sobre o Haram al-Sharif / Monte do Templo, com arranjos especiais para o Muro Ocidental;
  • refugiados: retorno ao Estado palestino, reassentamento em outros países, compensação e retorno limitado a Israel, por decisão israelense;
  • garantias de segurança para Israel.

Clinton afirmou depois que os dois lados aceitaram os parâmetros com reservas. Arafat apresentou reservas e pedidos de esclarecimento sobre território, refugiados, Jerusalém e segurança. Para Clinton e Ross, essas reservas eram tão amplas que equivaliam a uma recusa. A análise publicada no Journal of Conflict Studies detalha a proposta.

PropostaDataTerritório em Judeia e SamariaJerusalémResultado
Oferta de BarakJulho de 200088% a 92% (até 94% em algumas estimativas) + toda GazaBairros árabes com administração palestinaArafat recusou
Parâmetros ClintonDezembro de 200094% a 96% + trocas de 1% a 3%Divisão por bairros; soberania palestina no Haram al-SharifReservas palestinas; sem acordo
Oferta de Olmert200893% a 94% antes das trocas, perto de 100% equivalenteDivisão, com arranjo especial para a bacia históricaAbbas não assinou

Quando e como começou a Segunda Intifada?

A Segunda Intifada começou no fim de setembro de 2000, dois meses depois do fracasso de Camp David. Os palestinos apontam como gatilho a visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo, em 28 de setembro. Os confrontos e as mortes começaram a partir de 29 de setembro. Com o tempo, a violência virou um conflito armado prolongado.

Na leitura israelense, a ordem dos fatos importa. A violência estourou logo depois que Arafat recusou a proposta de paz. Análises do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel (INSS) apontam o fracasso de Camp David como condição importante para a escalada. Análises israelenses registram organização e mobilização por grupos palestinos. Os palestinos alegam que a revolta veio da frustração com Oslo e da visita de Sharon. Essa explicação ignora que um acordo para criar o Estado palestino estava sobre a mesa semanas antes.

As negociações continuaram em meio à violência. Em janeiro de 2001, as conversas de Taba reduziram as diferenças. A escalada da Intifada e a eleição de Ariel Sharon, em fevereiro de 2001, encerraram esse ciclo de negociações. Os Parâmetros Clinton foram apresentados quando a Intifada já estava em curso. Uma análise do INSS sobre o período está neste estudo.

Quem foi Yasser Arafat e quem negociou depois dele?

Yasser Arafat era o presidente da Autoridade Palestina e o principal líder da OLP nas negociações com Israel. Em Camp David, ele decidiu não aceitar a proposta israelense. Em dezembro de 2000, também não converteu os Parâmetros Clinton em acordo.

Anos depois, o mesmo padrão se repetiu com outro líder palestino. Em 2008, o primeiro-ministro Ehud Olmert apresentou a Mahmoud Abbas uma nova proposta, com apoio americano:

  • Estado palestino na maior parte de Judeia e Samaria e em Gaza;
  • cerca de 93% a 94% do território antes das trocas, com compensação que chegaria perto de 100%;
  • divisão de Jerusalém, com arranjos especiais para a bacia histórica;
  • retorno limitado de refugiados, reassentamento e compensação;
  • garantias de segurança e presença internacional.

Olmert afirmou que Abbas não assinou nem apresentou uma contraproposta formal. Abbas disse que não podia aceitar naquele momento, entre outros motivos porque não recebera um mapa completo. O Council on Foreign Relations registrou o episódio: Abbas admitiu que disse “não” à oferta israelense.

Qual é a causa central do conflito, segundo o que Camp David mostrou?

Camp David mostrou que o impasse não estava só nos percentuais de território. O ponto decisivo foi aceitar o fim definitivo do conflito. Israel aceitou um Estado palestino, a transferência de quase toda Judeia e Samaria e de toda Gaza, e um arranjo inédito em Jerusalém. Em troca, pediu uma cláusula de fim do conflito e de todas as reivindicações, segurança e o fim da exigência de retorno em massa ao território israelense.

Os pontos que separaram os lados foram cinco:

  • Jerusalém e o Monte do Templo;
  • refugiados e o chamado “direito de retorno”;
  • fronteiras e os blocos de comunidades israelenses;
  • segurança e o Vale do Jordão;
  • reconhecimento do fim do conflito.

Para Israel, um Estado vizinho exigindo o retorno em massa de refugiados ao território israelense não traria paz. Seria a continuação do conflito por outros meios. Três propostas israelenses ou americanas (2000, dezembro de 2000 e 2008) terminaram sem a assinatura da liderança palestina. Esse padrão é o centro do argumento israelense sobre quem disse não à paz. O panorama do Council on Foreign Relations sobre os planos de paz reúne essas iniciativas.

Linha do tempo

  1. Julho de 2000De 11 a 25 de julho, Barak, Arafat e Clinton negociam em Camp David. Barak propõe um Estado palestino em toda Gaza e em 88% a 92% de Judeia e Samaria.
  2. 25 de julho de 2000A cúpula termina sem acordo. Uma declaração trilateral prevê a continuação das negociações com base nas Resoluções 242 e 338 da ONU.
  3. 28 de setembro de 2000Ariel Sharon visita o Monte do Templo. A partir de 29 de setembro, começam os confrontos da Segunda Intifada.
  4. 23 de dezembro de 2000Clinton apresenta os Parâmetros Clinton: 94% a 96% do território, trocas de terra e soberania palestina no Haram al-Sharif.
  5. Janeiro de 2001As conversas de Taba reduzem as diferenças, em meio à violência.
  6. Fevereiro de 2001Ariel Sharon é eleito. O ciclo de negociações iniciado em Camp David se encerra.
  7. 2008Ehud Olmert apresenta uma proposta a Mahmoud Abbas. Abbas não assina nem apresenta contraproposta formal.

Perguntas frequentes

Arafat recusou 95% do território em Camp David?
As estimativas variam. A maioria dos relatos fala em 88% a 92% de Judeia e Samaria, com algumas chegando a 94%, além de 100% de Gaza. A diferença vem do modo de contar as anexações e as trocas de terra. Em dezembro de 2000, os Parâmetros Clinton chegaram a 94%–96%, e mesmo assim não houve acordo.
Qual foi o acordo de Camp David de 2000?
Não houve acordo. A cúpula de 11 a 25 de julho de 2000 terminou apenas com uma declaração trilateral, que prometia continuar as negociações com base nas Resoluções 242 e 338 da ONU. Clinton e Barak responsabilizaram Arafat por não aceitar a proposta israelense nem apresentar uma contraproposta.
A Segunda Intifada começou por causa de Camp David?
A Segunda Intifada começou no fim de setembro de 2000, dois meses depois do fracasso de Camp David. Os palestinos apontam como gatilho a visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo, em 28 de setembro. Análises do INSS, instituto israelense, apontam o fracasso das negociações como condição importante para a escalada da violência.
Quem negociou com Israel depois de Arafat?
Em 2008, o primeiro-ministro Ehud Olmert negociou com Mahmoud Abbas. Olmert propôs um Estado palestino em cerca de 93% a 94% de Judeia e Samaria antes das trocas de terra, além da divisão de Jerusalém. Abbas não assinou a proposta nem apresentou uma contraproposta formal.

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