Os Acordos de Abraão são acordos de normalização entre Israel e quatro países árabes, mediados pelos Estados Unidos em 2020. Emirados Árabes Unidos e Bahrein assinaram na Casa Branca em 15 de setembro de 2020. O Sudão aderiu entre outubro de 2020 e janeiro de 2021, e o Marrocos em dezembro de 2020. Os acordos trouxeram embaixadas, voos diretos, comércio e cooperação em segurança. No Sudão, o processo ficou incompleto.
O que são os Acordos de Abraão?
Os Acordos de Abraão são um conjunto de acordos e declarações, patrocinados pelos Estados Unidos em 2020, que estabeleceram ou normalizaram relações entre Israel e quatro países árabes: Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein, Marrocos e Sudão.
O processo começou em 13 de agosto de 2020, com o anúncio conjunto de normalização entre Israel e os EAU. Em 11 de setembro de 2020, o Bahrein anunciou sua adesão. Em 15 de setembro de 2020, no gramado sul da Casa Branca, os documentos foram assinados por três pessoas:
- o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu;
- o chanceler dos EAU, Abdullah bin Zayed Al Nahyan;
- o chanceler do Bahrein, Abdullatif bin Rashid Al Zayani.
O presidente americano Donald Trump testemunhou a assinatura.
O documento comum é a Declaração dos Acordos de Abraão. Segundo o Departamento de Estado dos EUA, o texto afirma a importância de manter e fortalecer a paz no Oriente Médio com base no entendimento mútuo, na coexistência, no respeito à dignidade humana e na liberdade religiosa.
Esses acordos não encerraram guerras, como fizeram os tratados de Israel com o Egito (1979) e a Jordânia (1994). Eles são, sobretudo, instrumentos de normalização: embaixadas, voos diretos, comércio e cooperação em vários setores (Reuters).
A grande novidade foi outra. Os acordos desvincularam a normalização com países árabes da resolução prévia do conflito com os palestinos. Assim, deixaram de lado o modelo da Iniciativa de Paz Árabe de 2002, que condicionava as relações com Israel a esse acordo final.
O que os Emirados Árabes Unidos têm a ver com Israel?
Os Emirados Árabes Unidos foram o primeiro país dos Acordos de Abraão e são hoje o parceiro com a relação mais desenvolvida com Israel.
O acordo bilateral tem um nome longo: Acordo de Paz dos Acordos de Abraão: Tratado de Paz, Relações Diplomáticas e Normalização Plena entre os Emirados Árabes Unidos e o Estado de Israel. É um tratado juridicamente vinculante e entrou em vigor em 5 de janeiro de 2021. Ele prevê:
- troca de embaixadores residentes e abertura de embaixadas;
- cooperação em finanças, aviação civil e vistos;
- cooperação em inovação, saúde, ciência, energia, agricultura e água;
- cooperação em segurança.
Em junho de 2020, o embaixador dos EAU nos EUA, Yousef Al Otaiba, sinalizou que a normalização seria possível se Israel suspendesse os planos formais de anexação de partes da Judeia e Samaria. Israel aceitou a suspensão, que se tornou o compromisso político central do acordo. Como parte do arranjo, os EUA também avançaram na aprovação de vendas de caças F-35 e drones MQ-9 Reaper aos EAU.
Na economia, os dois países assinaram em 2022 um Acordo de Parceria Econômica Abrangente (CEPA), que entrou em vigor em abril de 2023. Foi o primeiro acordo de livre comércio de Israel com um Estado árabe.
O que Bahrein, Marrocos e Sudão assinaram?
Cada país assinou um documento próprio, com motivações diferentes. Só o caso do Sudão não chegou a um tratado bilateral.
| País | Anúncio / assinatura | Principais incentivos | Situação |
|---|---|---|---|
| Emirados Árabes Unidos | 13 ago. / 15 set. 2020 | Suspensão da anexação; F-35 e drones; CEPA | Tratado de paz em vigor desde 5 jan. 2021 |
| Bahrein | 11 set. / 15 set. 2020 | Segurança diante do Irã; aliança com os EUA | Declaração em vigor desde 10 dez. 2020 |
| Sudão | 23 out. 2020 / 6 jan. 2021 | Saída da lista americana de patrocinadores do terrorismo | Declaração assinada; tratado bilateral paralisado |
| Marrocos | 10 dez. / 22 dez. 2020 | Reconhecimento pelos EUA da soberania sobre o Saara Ocidental | Relações retomadas, voos diretos e cooperação em defesa |
Bahrein. Assinou a Declaração de Paz, Cooperação e Relações Diplomáticas e Amigáveis Construtivas. Pesou a convergência de segurança em relação ao Irã. Também pesou a aliança com os EUA, cuja Quinta Frota fica em Manama. O acordo trouxe embaixadas, voos diretos e memorandos em transporte, agricultura, saúde, justiça e segurança.
Marrocos. Em 22 de dezembro de 2020, o premiê marroquino Saad Dine El Otmani assinou em Rabat uma Declaração Conjunta Tripartite. Também assinaram o conselheiro de segurança nacional de Israel, Meir Ben-Shabbat, e o assessor americano Jared Kushner. O acordo ampliou canais e escritórios de ligação que existiam desde os anos 1990. Em novembro de 2021, Israel e Marrocos assinaram um memorando de cooperação em defesa e inteligência.
Sudão. A Casa Branca anunciou a adesão em 23 de outubro de 2020, após uma conversa entre Trump, Netanyahu, o premiê Abdalla Hamdok e o general Abdel Fattah al-Burhan. Em 6 de janeiro de 2021, o ministro da Justiça Nasredeen Abdelbari assinou a Declaração em Cartum, diante do secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin. Em troca, os EUA retiraram o Sudão da lista de Estados patrocinadores do terrorismo. O Sudão, por sua vez, se comprometeu a pagar US$ 335 milhões a vítimas americanas de ataques terroristas. O golpe de outubro de 2021 e a guerra civil de 2023 impediram a conclusão de um tratado bilateral (Britannica).
Quais países árabes têm relações com Israel?
Hoje, os países árabes com relações diplomáticas oficiais com Israel são Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Marrocos. O Sudão assinou a Declaração dos Acordos de Abraão, mas não concluiu a normalização.
- Egito: tratado de paz de 1979.
- Jordânia: tratado de paz de 1994.
- EAU e Bahrein: Acordos de Abraão, setembro de 2020.
- Marrocos: relações retomadas em dezembro de 2020.
- Sudão: processo iniciado em 2020-2021 e parado pela instabilidade interna.
Os tratados com Egito e Jordânia ficaram conhecidos como uma "paz fria", restrita a governos e militares. Os Acordos de Abraão produziram uma "paz quente", com turismo, comércio privado, intercâmbio universitário e laços entre pessoas.
A cooperação também ganhou forma regional. Em 2021, o Departamento de Defesa dos EUA transferiu Israel do Comando Europeu (EUCOM) para o Comando Central (CENTCOM). A mudança facilitou exercícios e coordenação com os países signatários. Em março de 2022, o Fórum do Negueve, em Sde Boker, reuniu os chanceleres de Israel, EUA, Egito, EAU, Bahrein e Marrocos em grupos de trabalho sobre segurança, energia, água, saúde e turismo (ADL).
O que mudou na prática: comércio, turismo e segurança?
Os acordos tiveram efeitos concretos e rápidos, sobretudo entre Israel e os Emirados.
Comércio. A Carnegie Endowment aponta uma base de cerca de US$ 2,5 bilhões em 2022 no comércio Israel–EAU. A meta é chegar a cerca de US$ 10 bilhões por ano até 2027. Outra estimativa indica que o comércio passou de US$ 3 bilhões em 2024, depois da entrada em vigor do CEPA. A meta de 2027 é um objetivo político, não um resultado já alcançado.
Turismo. Segundo a ADL, mais de 1 milhão de israelenses visitaram os EAU nos dois primeiros anos da normalização. Centenas de milhares viajaram ao Marrocos. Surgiram voos diretos entre Israel e os EAU, o Bahrein e o Marrocos, inclusive entre Tel Aviv, Casablanca e Marraquexe.
Segurança e tecnologia. A cooperação passou a incluir cibersegurança, inteligência e defesa. Incluiu também projetos de energia, água, agricultura e saúde. Um exemplo é o Projeto Prosperidade: um memorando entre Israel, Jordânia e EAU para trocar energia solar produzida na Jordânia por água dessalinizada de Israel.
Críticos afirmam que parte da cooperação de segurança é pouco transparente. Essa é uma avaliação, não um fato estabelecido. É verdade que a aproximação entre governos e empresas avançou mais rápido que a aceitação popular em alguns países. Mesmo assim, o que se construiu em menos de três anos não tem paralelo nos tratados anteriores.
Por que os acordos levam o nome de Abraão?
O nome homenageia Abraão, patriarca reconhecido pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelo islamismo. A escolha destaca a herança monoteísta comum aos três e o compromisso com a coexistência na região.
Muitas buscas sobre o tema tratam de Abraão na Bíblia: quem ele foi, a aliança que Deus fez com ele e as nações que descendem dele. Esta página trata do acordo diplomático de 2020. O que importa aqui é o símbolo: povos que se veem ligados a um ancestral comum escolheram a cooperação no lugar da hostilidade.
A própria Declaração dos Acordos de Abraão reflete essa ideia. Ela fala em entendimento mútuo, coexistência, dignidade humana e liberdade religiosa (Departamento de Estado dos EUA).
Como o 7 de outubro afetou os Acordos de Abraão?
O ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 e a guerra que o grupo terrorista iniciou em Gaza interromperam a expansão dos acordos. Os acordos já existentes, porém, não foram rompidos.
Os efeitos principais foram três:
- a ampliação diplomática em curso parou, inclusive a possível entrada da Arábia Saudita;
- ficou politicamente mais custoso para governos árabes aprofundar em público as relações com Israel;
- o centro da diplomacia regional se deslocou para a guerra em Gaza, iniciada pelo Hamas, e para a questão palestina.
Segundo a Carnegie Endowment, os acordos sobreviveram à turbulência. Os governos signatários mantiveram os canais oficiais com Israel. Os países dos acordos chegaram a realizar uma reunião oficial depois dos ataques (CBS News).
Há quem sustente que o ataque buscou impedir a normalização entre Israel e a Arábia Saudita. É uma leitura estratégica amplamente discutida. O fato documentado é que o Hamas atacou quando a aproximação entre Israel e a Arábia Saudita avançava, e que a guerra iniciada pelo grupo terrorista congelou esse avanço diplomático.
Quais são as relações entre Israel e a Arábia Saudita?
A Arábia Saudita não aderiu aos Acordos de Abraão e não tem relações diplomáticas com Israel. Antes de 7 de outubro de 2023, porém, os dois países negociavam um acordo com apoio dos EUA.
O pacote em discussão poderia incluir:
- normalização diplomática entre Arábia Saudita e Israel;
- garantias de segurança dos EUA a Riad;
- cooperação nuclear civil para a Arábia Saudita;
- concessões israelenses ligadas à questão palestina.
Segundo a Reuters, Riad colocou as conversas em pausa depois do início da guerra. As fontes ouvidas indicaram que a ideia de normalização não havia sido abandonada. Depois de 7 de outubro, a Arábia Saudita passou a enfatizar a exigência de avanços em direção a um Estado palestino.
Quem será o próximo país a fazer as pazes com Israel? Não há acordo público que permita afirmar isso. Uma eventual adesão saudita depende de vários fatores: a questão palestina, a política israelense, as garantias americanas e os cálculos estratégicos de Riad (JINSA; Atlantic Council).
Linha do tempo
- 1979Tratado de paz entre Israel e Egito.
- 1994Tratado de paz entre Israel e Jordânia.
- 2002Iniciativa de Paz Árabe condiciona a normalização à resolução do conflito com os palestinos.
- 202013 de agosto: Israel e EAU anunciam a normalização. 11 de setembro: o Bahrein adere.
- 202015 de setembro: assinatura na Casa Branca da Declaração dos Acordos de Abraão e dos acordos com EAU e Bahrein.
- 202023 de outubro: anúncio da adesão do Sudão. 10 de dezembro: entra em vigor o acordo com o Bahrein.
- 202022 de dezembro: Declaração Conjunta Tripartite entre Marrocos, EUA e Israel, em Rabat.
- 20215 de janeiro: entra em vigor o tratado Israel–EAU. 6 de janeiro: o Sudão assina a Declaração em Cartum.
- 2021Israel passa ao Comando Central dos EUA (CENTCOM). Em novembro, Israel e Marrocos assinam memorando de defesa.
- 2022Março: Fórum do Negueve, em Sde Boker. No mesmo ano, Israel e EAU assinam o CEPA.
- 2023Abril: o CEPA entra em vigor. 7 de outubro: o Hamas ataca Israel e a negociação com a Arábia Saudita é congelada.
Perguntas frequentes
Quais países assinaram os Acordos de Abraão?
Os Acordos de Abraão são tratados de paz?
A Arábia Saudita vai entrar nos Acordos de Abraão?
Os Acordos de Abraão acabaram depois da guerra em Gaza?
Assista
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