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O que é o judaísmo?

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Foto: Leitura de um rolo da Torá. Paul Goldman · Public domain · Wikimedia Commons
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O judaísmo é a religião, a tradição ética e a cultura do povo judeu. É monoteísta e afirma um único Deus, proclamado na oração do Shema. Baseia-se na aliança entre Deus e o povo de Israel, firmada com Abraão e no Sinai, e tem a Torá como texto central. Ser judeu pode ser uma identidade religiosa, histórica e de povo, e a prática varia entre as correntes.

O que é o judaísmo e no que os judeus acreditam?

O judaísmo é uma das religiões monoteístas mais antigas do mundo. Também é a cultura, a história e a identidade de um povo. Segundo o Museu do Holocausto dos EUA e a Encyclopaedia Britannica, ele se apoia em três ideias centrais:

  • Um só Deus. O monoteísmo é a base da fé.
  • A aliança. A relação entre Deus e o povo de Israel é entendida como um pacto. A tradição o associa a Abraão e, depois, a Moisés no Monte Sinai. Esse pacto traz responsabilidades e uma vida orientada pela justiça e pela santidade.
  • A Torá e os mandamentos. A tradição rabínica conta 613 mitzvot (preceitos): 248 obrigações e 365 proibições.

Justiça, caridade, estudo, arrependimento e responsabilidade com a comunidade ocupam um lugar central. Os três pilares do pensamento judaico costumam ser resumidos assim: Deus, Torá e Israel.

O judaísmo, porém, não é um bloco uniforme de crenças. Há diversidade teológica entre as correntes. Por isso uma pessoa pode se identificar como judia mesmo com pouca ou nenhuma prática religiosa.

Qual é o Deus dos judeus?

O Deus dos judeus é um só: o Deus único, criador de toda a humanidade. Essa afirmação aparece no Shema, a oração central do judaísmo: “O Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um”.

O pensamento judaico combina duas dimensões:

  • Universal: um único Deus criador de todos os seres humanos.
  • Particular: a aliança mantida com Abraão e seus descendentes, Isaac e Jacó.

A ideia de “povo escolhido” é entendida na tradição judaica como vocação e responsabilidade da aliança. Não é uma afirmação de superioridade biológica ou racial. A forma exata dessa interpretação varia entre as comunidades.

Quais são os textos sagrados do judaísmo?

O texto fundador é o Tanakh, a Bíblia Hebraica. Ao redor dele se formou uma longa tradição de interpretação. Os principais textos são:

  • Torá: os cinco primeiros livros (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Em sentido amplo, “Torá” também significa ensinamento ou toda a tradição judaica de estudo.
  • Tanakh: o cânone de 24 livros, em três partes: Torá, Nevi'im (Profetas) e Ketuvim (Escritos).
  • Mishná: a primeira compilação escrita da lei oral. Foi organizada por volta de 200 d.C. sob a liderança do rabino Yehudá HaNasi e tem seis ordens e 63 tratados.
  • Talmude: a Mishná somada à Guemará, que reúne debates e comentários dos sábios. Existem duas versões, o de Jerusalém e o Babilônico. O Babilônico é o mais extenso e o de maior autoridade para o direito judaico.
  • Códigos de lei: o Mishneh Torah, de Maimônides (século XII), o Arba'ah Turim, de Jacob ben Asher (século XIV), e o Shulchan Arukh, de Joseph Karo (século XVI).

O Talmude não é um “segundo livro bíblico”. Ele registra séculos de argumentação, com opiniões divergentes e casos hipotéticos. Por isso as listas de “citações chocantes do Talmude” que circulam na internet são falsas. Elas misturam frases inventadas, traduções cortadas e trechos fora de contexto, e muitas vêm de panfletos antissemitas, na mesma tradição de falsificação dos Protocolos dos Sábios de Sião, como documenta o Museu do Holocausto dos EUA. O próprio texto ensina que “quem salva uma vida é como se salvasse um mundo inteiro” (Mishná, Sanhedrin 4:5).

Como os judeus praticam a fé?

A prática judaica organiza o tempo, a mesa e a vida em comunidade. Os pilares são:

  • Shabat: começa antes do pôr do sol de sexta-feira e termina após o anoitecer de sábado. É um tempo de descanso, oração, estudo e refeições em família. A observância tradicional restringe certas formas de trabalho.
  • Kashrut: são as leis alimentares. Proíbem carne de porco e frutos do mar, separam carne e leite e trazem regras para o abate. O governo de Israel explica essas regras em detalhe.
  • Sinagoga: é o espaço de oração, estudo e reunião. Também recebe casamentos, bar mitzvá e bat mitzvá.
  • Rabino: é um mestre e intérprete da lei. Não equivale a um sacerdote: o judaísmo rabínico não depende de um mediador entre cada pessoa e Deus.
FestaO que celebra
Rosh HashanáAno-Novo judaico, reflexão e renovação
Yom KipurDia do Perdão, com jejum e arrependimento
SucotPeregrinação no deserto, com cabanas temporárias
ChanucáRededicação do Templo após a revolta dos macabeus
PurimA história de Ester e a salvação dos judeus da Pérsia
PessachSaída do Egito, com o sêder e sem fermentados
ShavuotEntrega da Torá no Sinai e festa agrícola

A intensidade da observância varia muito entre ortodoxos, conservadores, reformistas e seculares.

Quais são as correntes do judaísmo?

Não existe uma forma única de viver o judaísmo. As correntes modernas surgiram com a emancipação e o Iluminismo, nos séculos XVIII e XIX.

CorrenteCaracterísticas gerais
OrtodoxaConsidera normativas a Torá escrita e a tradição rabínica clássica. Enfatiza a observância rigorosa. Tem várias subcorrentes.
Conservadora (Masorti)Preserva a autoridade da tradição, mas admite desenvolvimento histórico.
ReformistaDá mais peso à autonomia individual, à ética e à adaptação histórica.
Secular ou culturalMantém identidade, memória, festas e costumes sem adesão religiosa.

Há também reconstrucionistas, progressistas, grupos hassídicos e pessoas que combinam práticas. O povo judeu tem ainda tradições de origem diversas: ashkenazi, sefardita, mizrahim, etíope e outras. As correntes divergem até sobre quem é judeu e quais conversões são reconhecidas.

Como a mulher é tratada no judaísmo?

O papel da mulher no judaísmo depende da corrente e da comunidade. Não há uma regra única.

  • Rabinato: em algumas comunidades, mulheres podem ser rabinas. Em outras, a função continua restrita aos homens.
  • Ritos de passagem: a sinagoga celebra tanto o bar mitzvá (dos meninos) quanto o bat mitzvá (das meninas).
  • Prática religiosa: a forma de aplicar a lei religiosa, inclusive nas questões ligadas à mulher, segue a abordagem de cada corrente. As correntes ortodoxas tendem a seguir a tradição rabínica clássica. As conservadoras e reformistas adotam leituras mais históricas e abertas à adaptação.

Por isso, quem quer entender o lugar da mulher numa comunidade judaica deve perguntar a qual corrente ela pertence.

Qual é a diferença entre judaísmo e cristianismo?

A diferença começa nos textos e na estrutura da fé. O judaísmo se apoia no Tanakh, de 24 livros, e na tradição rabínica (Mishná, Talmude, códigos). Os escritos cristãos sobre Jesus não fazem parte do cânone judaico. Outros pontos de distinção:

  • Lei e prática: o judaísmo integra fé, lei (halakha), ética e vida comunitária. Não se resume à crença pessoal.
  • Mediação: o rabino é professor e intérprete, não sacerdote. A relação de cada pessoa com Deus não depende de mediador.
  • A aliança: para o judaísmo, a aliança com o povo judeu segue válida.

Uma leitura cristã antiga, a teologia da substituição, afirma que a Igreja tomou o lugar de Israel. Ela é apresentada às vezes como consenso cristão, o que é enganoso. A Igreja Católica, na declaração Nostra Aetate, de 1965, afirmou que os judeus não devem ser apresentados como rejeitados ou amaldiçoados por Deus. Muitas igrejas protestantes também revisaram essa leitura depois do Holocausto. Cada fé tem sua teologia. O problema surge quando ela é usada para desprezar judeus ou negar o direito de Israel existir: aí, pelo critério da IHRA, adotado pela JJO, trata-se de antissemitismo.

Qual é a relação do judaísmo com a Terra de Israel?

A Terra de Israel está no centro da Bíblia, da oração e da memória judaica. Jerusalém, o Templo, o exílio e o retorno aparecem em orações e festas há milênios.

A história ajuda a entender esse vínculo:

  • Jerusalém foi o centro do culto desde o Primeiro Templo, construído por Salomão.
  • Em 586 a.C., os babilônios destruíram o Templo e deportaram as elites judaicas.
  • O Segundo Templo foi rededicado em 516 a.C. Foi sob domínio persa, na província de Judeia (Yehud), que o termo “judeus” passou a designar essa comunidade.
  • Em 70 d.C., os romanos destruíram o Segundo Templo. Depois da revolta de Bar Kokhba (132–135), os judeus foram expulsos de Jerusalém e a Diáspora se consolidou.
  • No século XX, após o assassinato de seis milhões de judeus pelo regime nazista, o movimento pela autodeterminação levou à criação do Estado de Israel em 1948.

A Lei Básica do Estado-nação, aprovada pelo Knesset em 2018, fala no “direito natural, cultural, religioso e histórico” do povo judeu à autodeterminação. Judaísmo, sionismo e Estado de Israel são conceitos distintos, e os judeus têm opiniões políticas diversas. Ninguém deve culpar judeus pelas ações de um governo. Negar o direito de Israel existir, porém, é antissemitismo pelo critério da IHRA, adotado pela JJO.

Linha do tempo

  1. c. 2000 a.C.Início da narrativa dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó. A tradição considera Abraão o primeiro judeu.
  2. 722 a.C.O Império Neo-Assírio destrói o Reino de Israel, ao norte.
  3. 586 a.C.Nabucodonosor II destrói Jerusalém e o Primeiro Templo. Começa o exílio babilônico.
  4. 516 a.C.Rededicação do Segundo Templo, após o retorno dos exilados.
  5. 70 d.C.Os romanos destroem o Segundo Templo. O judaísmo rabínico se consolida em torno do estudo, da oração e da sinagoga.
  6. 132–135 d.C.Revolta de Bar Kokhba. Os judeus são expulsos de Jerusalém e a Diáspora se consolida.
  7. c. 200 d.C.Redação da Mishná, sob o rabino Yehudá HaNasi.
  8. c. 400–600 d.C.Encerramento dos Talmudes. O de Jerusalém data de cerca de 400. Para o Babilônico, há estimativas de cerca de 500 e de cerca de 600.
  9. 1177Maimônides conclui o Mishneh Torah.
  10. 1563Conclusão do Shulchan Arukh, de Joseph Karo.
  11. Séculos XVIII–XIXEmancipação e Iluminismo dão origem às correntes reformista, conservadora e neo-ortodoxa.
  12. 1948Criação do Estado de Israel, após o Holocausto.
  13. 1965A Igreja Católica publica a Nostra Aetate, rejeitando apresentar os judeus como rejeitados por Deus.

Perguntas frequentes

O que é o judaísmo e o que eles acreditam?
O judaísmo é a religião e a cultura do povo judeu. Os judeus acreditam em um único Deus, criador de toda a humanidade, proclamado no Shema. A fé se baseia na aliança entre Deus e Israel, firmada com Abraão e no Sinai, e na Torá, com seus 613 preceitos. Justiça, caridade, estudo e arrependimento são valores centrais.
Judaísmo é religião ou povo?
As duas coisas. O judaísmo é uma religião, mas também uma identidade de povo, uma herança histórica e uma cultura com línguas, literatura, música e costumes próprios. Por isso uma pessoa pode ser judia sem prática religiosa. Reduzir os judeus apenas a uma religião ou apenas a uma “raça” é inadequado: há uma história compartilhada de ancestralidade, memória e comunidades.
O Talmude manda odiar não-judeus?
Não. É falso. O Talmude registra debates rabínicos, com opiniões contrárias e casos hipotéticos. As listas de “citações” que circulam misturam frases inventadas, traduções cortadas e trechos fora de contexto, muitas vindas de panfletos antissemitas antigos. O próprio texto ensina que quem salva uma vida salva um mundo inteiro (Mishná, Sanhedrin 4:5). Peça sempre o tratado e a página.
Qual é a diferença entre judeus e cristãos?
Os judeus seguem o Tanakh, a Bíblia Hebraica de 24 livros, e a tradição rabínica do Talmude. Os escritos cristãos sobre Jesus não fazem parte desse cânone. No judaísmo, o rabino é professor, não sacerdote, e a fé inclui uma lei prática (halakha). Desde 1965, a Igreja Católica ensina que os judeus não devem ser apresentados como rejeitados por Deus.

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