O Shabat é o dia semanal de descanso e santidade do judaísmo. Começa na sexta-feira, pouco antes do pôr do sol, e termina no sábado à noite, quando surgem as primeiras estrelas. Ao todo, dura cerca de 25 horas. Tem origem na Bíblia (Gênesis 2 e os Dez Mandamentos) e reúne velas, Kidush, chalá, oração, estudo, convivência familiar e a pausa nas atividades de trabalho.
O que é o Shabat na Bíblia?
Na Bíblia, o Shabat é o sétimo dia, aquele em que Deus cessou a obra da Criação, abençoou o dia e o santificou. O mandamento de guardá-lo aparece nos Dez Mandamentos.
Os textos principais são três:
- Gênesis 2:1–3: Deus conclui a criação em seis dias e cessa a atividade no sétimo. Daí vem a ideia de Menuhá: paz, descanso e plenitude.
- Êxodo 20:8–11: ordena lembrar (Zachor) o Shabat e santificá-lo, em memória da Criação.
- Deuteronômio 5:12–15: ordena guardar (Shamor) o Shabat. Liga o descanso à libertação da escravidão no Egito e exige que servos, estrangeiros e animais também descansem.
Êxodo 20:10 e 35:2 proíbem o trabalho no sétimo dia. Êxodo 35:3 menciona também a proibição de acender fogo.
A Bíblia estabelece o princípio: o sétimo dia é um tempo de cessar o trabalho e de santidade. As listas detalhadas do que pode e do que não pode ser feito vieram depois. Elas foram desenvolvidas pela tradição rabínica, no Talmud e na halachá, a lei religiosa judaica. Por isso, as regras práticas de hoje não aparecem prontas em um único trecho bíblico.
O Rabino Abraham Joshua Heschel, na obra The Sabbath (1951), chamou o Shabat de um "palácio no tempo". Para ele, o judaísmo santifica momentos no tempo, e não apenas lugares no espaço. Já o pensador Achad Ha'am resumiu o papel do dia na história judaica: "Mais do que os judeus guardaram o Shabat, o Shabat guardou os judeus". Veja também a definição da Encyclopaedia Britannica.
Como funciona o Shabat?
O Shabat começa na sexta-feira, pouco antes do pôr do sol, e termina no sábado à noite, depois do anoitecer. Ele não começa à meia-noite. O fim costuma ser marcado pela visibilidade de cerca de três estrelas, e o dia dura aproximadamente 25 horas.
O horário muda conforme:
- a cidade e a estação do ano;
- o costume religioso local;
- o critério usado para definir o fim do dia.
Por isso, não existe um horário único. Cada comunidade publica seus próprios horários de acendimento das velas e de encerramento.
O dia combina descanso, oração na sinagoga, refeições festivas, estudo e convivência. Maimônides, no Mishneh Torah (Hilchot Shabbat 30), explica que a observância inclui dois preceitos positivos: Kavod (honrar o dia) e Oneg Shabat (ter prazer nele). Ou seja, o Shabat não se resume a uma lista de proibições. É também um dia de alegria, boa mesa e família. Saiba mais no guia do Chabad sobre o Shabat.
Quais são os rituais do Shabat?
Os rituais principais do Shabat são o acendimento das velas, o Kidush, as bênçãos sobre a chalá, as refeições festivas e a Havdalá, que encerra o dia.
| Ritual | Quando | O que é |
|---|---|---|
| Velas (Nerot Shabat) | Sexta-feira, antes do pôr do sol | Acendem-se ao menos duas velas e recita-se a bênção |
| Kidush | Sexta à noite e sábado de manhã | Santificação do dia sobre uma taça de vinho ou suco de uva |
| Chalá (Lechem Mishneh) | Nas refeições | Dois pães trançados, com a bênção Hamotzi |
| Cânticos e bênçãos | Sexta à noite | Shalom Aleichem, Eshet Chayil e bênção dos filhos |
| Havdalá | Sábado à noite, após o fim do Shabat | Vinho, especiarias e vela trançada para separar o sagrado do comum |
Velas. São acesas antes do início do Shabat, porque acender fogo depois disso é proibido pela halachá tradicional. Em muitas comunidades, quem acende são as mulheres e as meninas. As duas velas costumam ser associadas a Zachor e Shamor, e a bênção é recitada com os olhos cobertos (Chabad Brasil).
Kidush. A palavra significa "santificação". É a proclamação, em voz alta, de que o dia é sagrado. A tradição rabínica liga o Kidush ao mandamento bíblico de "lembrar" o Shabat. O formato litúrgico atual foi desenvolvido depois.
Chalá. Os dois pães lembram a porção dupla de maná que, segundo Êxodo 16, os israelitas recebiam antes do Shabat. A forma trançada é um costume histórico e cultural, e não uma exigência bíblica.
Havdalá. Significa "separação". O ritual usa uma taça de vinho, especiarias aromáticas (besamim) e uma vela trançada com mais de um pavio. A vela só é acesa depois do fim do Shabat (Morasha; Chabad Brasil).
O que não se pode fazer no Shabat?
No Shabat, a lei judaica tradicional proíbe a melachá: atos de criação e de transformação do mundo material, organizados em 39 categorias. A proibição não se limita ao emprego nem ao esforço físico.
Os sábios da Mishná (Tratado Shabat 7:2) codificaram as 39 categorias primárias de trabalho (Avot Melachót). Elas derivam das atividades necessárias para construir o Tabernáculo (Mishkan) no deserto. Entre os exemplos tradicionais estão:
- acender, apagar ou produzir fogo;
- cozinhar e assar;
- escrever, apagar ou imprimir;
- construir, reparar ou montar;
- costurar, tecer, dar nós e rasgar;
- semear, arar, colher e moer;
- transportar objetos entre o domínio público e o privado;
- operar aparelhos elétricos e telefones, segundo as interpretações ortodoxas.
O critério não é o cansaço. Uma ação simples pode ser proibida. Uma tarefa cansativa pode não entrar nas categorias.
Os rabinos também criaram normas adicionais para proteger o espírito do dia. Exemplos são o Muktzeh, que proíbe manusear objetos sem uso no Shabat, e a proibição de atividades comerciais.
A vida vem primeiro. Pelo princípio de Pikuach Nefesh, salvar uma vida humana supera praticamente todas as proibições do Shabat. Esse princípio se baseia em Levítico 18:5 e no Talmud Babilônico (Yoma 85b). O atendimento médico de emergência é, portanto, obrigatório.
Quem pratica o Shabat?
O Shabat é praticado por judeus do mundo inteiro, de diferentes correntes e graus de observância. Cada corrente o vive de um jeito.
- Ortodoxos: costumam observar as restrições tradicionais de forma abrangente.
- Conservadores (masorti): têm interpretações próprias sobre eletricidade, deslocamento e tecnologia.
- Reformistas: adotam versões adaptadas dos rituais e das restrições, com ênfase no serviço religioso e no sentido do dia (Reform Judaism).
- Judeus não religiosos: muitos mantêm o jantar de sexta-feira, as velas ou o Kidush como parte da identidade e da vida familiar.
Não existe uma prática única aceita por todas as correntes. O que todas compartilham é a ideia do sétimo dia como tempo separado e sagrado. Para uma visão acadêmica dessa diversidade, veja o Pluralism Project.
Como é o Shabat em Israel?
Em Israel, o Shabat é ao mesmo tempo uma prática religiosa, um elemento central da identidade judaica e um período que afeta a vida pública. Transporte, comércio e serviços mudam de ritmo.
A experiência varia de um lugar para outro:
- em bairros ultraortodoxos, a observância pública tende a ser mais rigorosa;
- em áreas seculares e em cidades como Tel Aviv, mais restaurantes, opções de lazer e alguns serviços funcionam.
Os horários de entrada e de saída são calculados por cidade. Alguns costumes locais adotam uma margem maior antes do pôr do sol para acender as velas, como acontece em Jerusalém e em Haifa. O Shabat é vivido por ortodoxos, masortim, reformistas e também por israelenses não religiosos.
Como é o Shabat no Brasil?
No Brasil, o Shabat é observado pelas comunidades judaicas de diferentes correntes, sobretudo em cidades com vida comunitária organizada. Entre elas estão São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba e Belo Horizonte.
A prática depende de vários fatores:
- a corrente da sinagoga;
- o grau de observância da família;
- a existência de minian (quórum de oração) e de refeições comunitárias;
- o horário local do pôr do sol, que muda conforme a cidade e a estação;
- a rotina de trabalho, de escola e de deslocamento.
Em uma família observante, o dia inclui velas, serviço na sinagoga na sexta à noite, Kidush, chalá, refeições festivas, estudo, oração e Havdalá.
Ao contrário de Israel, o Shabat não organiza o funcionamento do país no Brasil. Aqui ele é sobretudo uma observância comunitária e familiar.
Perguntas frequentes
A que horas começa e termina o Shabat?
Pode usar celular no Shabat?
Por que se comem duas chalás no Shabat?
O que é a Havdalá?
Assista
O rabino Michel Schlesinger explica de forma simples as principais diferenças entre as correntes ortodoxa, conservadora e reformista do judaísmo, a partir da relação de cada uma com os rituais, como a mezuzá, a circuncisão, a cashrut e o Shabat.
Adolescentes e adultosQuadro de rua leve e descontraído que pergunta a pessoas comuns o que sabem sobre o Êxodo e explica, de forma simples, a saída do povo hebreu da escravidão no Egito sob a liderança de Moisés e seu papel na formação da identidade judaica.
CriançasTambém em inglês: mais 2 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Animação em LEGO que explica de forma divertida a festa de Sucot: a origem bíblica, a construção da sucá, o schach, as quatro espécies (lulav e etrog) e seus significados na tradição judaica.
CriançasEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Animação curta e bem-humorada da BimBam que explica Shavuot: a festa das primícias, a celebração da entrega da Torá no Monte Sinai, o Tikun Leil Shavuot, a leitura do Livro de Rute e os costumes como laticínios e flores.
Crianças- Sabbath (Judaism), Encyclopaedia Britannica
- What Is Shabbat?, Chabad.org
- 25 Shabbat Facts Every Jew Should Know, Chabad.org
- As velas do Shabat, Chabad Brasil
- Havdalá: perguntas frequentes, Chabad Brasil
- Havdalá: separando o sagrado do mundano, Revista Morashá
- Everything You Need to Know About Shabbat Services, Union for Reform Judaism
- Keeping Shabbat, The Pluralism Project (Harvard)
- The Sabbath, exposição da Biblioteca da Universidade de Chicago

