Pessach, a Páscoa judaica, é a festa que celebra a libertação dos israelitas da escravidão no Egito, narrada em Êxodo. O nome significa “passar por cima”, lembrando que, segundo a Bíblia, Deus poupou as casas israelitas na décima praga. Começa ao entardecer que abre o dia 15 de Nisan, entre março e abril, e dura sete dias em Israel e oito na diáspora.
O que significa a palavra Pessach?
Pessach (em hebraico, פֶּסַח) significa “passar por cima” ou “poupar”. O nome vem do relato bíblico da décima praga. Segundo o texto, Deus “passou por cima” das casas dos israelitas marcadas com sangue e poupou seus primogênitos.
Em português, a festa é chamada de Páscoa judaica. A grafia também aparece como Pesach, como no nome do tratado rabínico Pesachim.
A tradição judaica dá outros dois nomes à festa:
- Chag HaMatzot: a Festa dos Pães Ázimos, ou seja, sem fermento;
- Z'man Cheiruteinu: o Tempo da Nossa Liberdade.
Pessach é uma das festas mais centrais do judaísmo. Ela lembra a escravidão, a libertação e o nascimento do povo judeu como um povo livre.
Quando é Pessach e quanto tempo dura?
Pessach começa ao entardecer do dia 15 de Nisan, no calendário judaico. Essa data cai entre março e abril, no início da primavera do Hemisfério Norte.
Nisan é o primeiro mês do ano no calendário religioso bíblico. O calendário judaico é lunissolar. Por isso, a data muda a cada ano no calendário gregoriano, usado no Brasil. Como todo dia judaico, a festa começa ao pôr do sol da véspera.
| Onde | Duração | Datas no calendário judaico |
|---|---|---|
| Israel | 7 dias | 15 a 21 de Nisan |
| Diáspora (costume tradicional) | 8 dias | 15 a 22 de Nisan |
| Movimentos Reformista e Liberal | 7 dias em todo o mundo | 15 a 21 de Nisan |
A diferença vem do antigo sistema de fixação do calendário. Fora de Israel, as comunidades passaram a acrescentar um dia às festas bíblicas. Esse costume se chama Yom Tov Sheni Shel Galuyot. Hoje o calendário é calculado, mas a duração tradicional se manteve.
Pessach é também a primeira das três Festas de Peregrinação (Shalosh Regalim), ao lado de Shavuot e Sukkot. Nelas, os israelitas subiam ao Templo de Jerusalém.
O que se faz em Pessach?
Em Pessach, os judeus contam a história da saída do Egito, comem matzá e evitam todo alimento fermentado. O momento principal é o seder, a refeição ritual do início da festa.
As práticas mais conhecidas são:
- Retirar o chametz: chametz é o alimento fermentado feito de cinco cereais: trigo, cevada, centeio, aveia e espelta. A tradição proíbe comer, possuir ou tirar proveito desses alimentos durante a festa.
- Busca do fermento (Bedikat Chametz): na noite anterior ao seder, a família procura migalhas pela casa com uma vela e uma pena.
- Destruição do fermento (Biur Chametz): no dia seguinte, o fermento que restou é queimado. O chametz que não se quer destruir pode ser vendido simbolicamente antes da festa, em um costume à parte.
- Comer matzá: o pão sem fermento, feito só de farinha e água. A tradição exige que ele seja assado em até 18 minutos a partir do contato da água com a farinha.
- Fazer o seder: a refeição ritual guiada pela Hagadá, nas primeiras noites da festa.
- Contar o Omer (Sefirat HaOmer): a partir da segunda noite (16 de Nisan), conta-se cada dia, por 49 dias, até a festa de Shavuot. A contagem liga a libertação do Egito à entrega da Torá no Sinai.
Desde a Idade Média, muitos judeus asquenazes também evitam kitniyot (leguminosas, arroz e milho). Os detalhes das proibições variam entre correntes e comunidades.
Como é o seder de Pessach?
O seder é a refeição ritual de Pessach, feita em casa, com uma ordem fixa de bênçãos, perguntas, relatos e alimentos simbólicos. A palavra seder significa “ordem”. Na diáspora, ele acontece nas duas primeiras noites. Em Israel, em geral, só na primeira.
O roteiro da noite é a Hagadá. É um livro que reúne a narrativa do Êxodo, comentários rabínicos, bênçãos, salmos, canções e instruções. Ela não é a Bíblia inteira. É um texto litúrgico e pedagógico, feito para cumprir o dever de contar a história. Segundo o Museu do Holocausto dos EUA (USHMM), a Hagadá é a narrativa do Êxodo recitada tradicionalmente no seder.
As 15 etapas do seder:
- Kadesh: bênção sobre o vinho;
- Urchatz: lavagem ritual das mãos;
- Karpas: consumo de uma verdura;
- Yachatz: divisão da matzá central;
- Maguid: relato do Êxodo e as “quatro perguntas” (Ma Nishtaná);
- Rachtza, Motzi e Matzá: etapas que levam às bênçãos e ao consumo da matzá;
- Maror: ervas amargas;
- Korech: matzá com ervas amargas;
- Shulchan Orech: a refeição festiva;
- Tzafun: consumo do afikoman;
- Barech: bênção após a refeição;
- Hallel: salmos de louvor;
- Nirtzah: encerramento.
O prato do seder (Keará) reúne os símbolos da noite:
- Maror: ervas amargas, como raiz-forte ou alface romana, que lembram a amargura da escravidão;
- Charosset: mistura doce de frutas (como maçã), nozes e vinho, que lembra a argamassa dos tijolos;
- Karpas: verdura mergulhada em água salgada, ligada às lágrimas;
- Zerôa: osso assado, que lembra o sacrifício pascal do Templo;
- Beitzá: ovo, descrito como assado ou cozido conforme a tradição.
A composição do prato varia entre comunidades. Algumas famílias sefarditas, mizrahim ou vegetarianas usam outros símbolos, como a beterraba.
Durante a noite, bebem-se quatro taças de vinho, ligadas às quatro expressões bíblicas de redenção. Muitas famílias escondem o afikoman, parte da matzá central, para as crianças procurarem. Assim os mais novos ficam atentos às perguntas e à história.
Segundo a Mishná (Pesachim 10:5), Rabban Gamliel ensinou que o dever do seder só se cumpre quando se explicam três elementos: o sacrifício de Pessach, a matzá e o maror.
Como era a festa da Páscoa no tempo de Jesus?
No tempo de Jesus, Pessach girava em torno do Templo de Jerusalém e do sacrifício do cordeiro pascal. O seder no formato atual só se consolidou depois.
A Torá descreve as bases da festa:
- Êxodo 12 institui o cordeiro pascal (Korban Pessach), a matzá, as ervas amargas e a proibição do fermento;
- Levítico 23:5–8 fixa o dia 14 de Nisan para a oferta pascal e o dia 15 para o início da Festa dos Pães Ázimos;
- Deuteronômio 16:3 chama a matzá de “pão da aflição” (Lechem Oni), porque os israelitas saíram do Egito às pressas, sem tempo para a massa crescer.
Como festa de peregrinação, Pessach levava os judeus ao Templo. O zerôa, o osso do prato do seder, lembra até hoje aquele sacrifício.
O seder rabínico que se conhece hoje se desenvolveu ao longo do tempo, sobretudo depois da destruição do Segundo Templo, em 70 d.C. Por isso, os estudiosos tratam como simplificação dizer que a Última Ceia foi exatamente um seder moderno.
Os Evangelhos também divergem na cronologia. Em Mateus, Marcos e Lucas, a Última Ceia aparece como refeição pascal ou muito próxima dela. Em João, a morte de Jesus ocorre antes da refeição pascal. Os pesquisadores discutem se a diferença vem de calendários distintos, de escolhas teológicas ou da dificuldade de reconstruir os fatos. Não há consenso sobre a data exata nem sobre o caráter ritual da refeição.
Qual a diferença entre o Pessach e a Páscoa cristã?
Pessach celebra a saída do Egito e a libertação dos israelitas. A Páscoa cristã celebra a morte e a ressurreição de Jesus. As festas têm uma ligação histórica, mas não são a mesma coisa.
O que se sabe:
- Jesus e seus discípulos eram judeus. Os Evangelhos apresentam a Última Ceia ligada a Pessach.
- O cristianismo nasceu no ambiente judaico do século I.
- A linguagem cristã posterior, como “cordeiro pascal”, “libertação” e “passagem”, foi interpretada à luz de Pessach.
- Pessach seguiu com o seu próprio sentido: a memória do Êxodo, guardada há gerações pelo povo judeu.
O Jewish Museum de Nova York registra que a Última Ceia é tradicionalmente entendida como uma refeição de Pessach.
As festas também diferem no calendário e no ritual. Pessach segue o calendário judaico e começa em 15 de Nisan. Seu centro é o seder em família, com matzá, ervas amargas e a leitura da Hagadá.
Por que Pessach é tão importante para os judeus?
Pessach é a festa da memória e da liberdade: cada judeu é chamado a viver a saída do Egito como se fosse a sua própria. Maimônides registrou essa regra no Mishneh Torah: “em cada geração, cada pessoa deve se ver como se ela mesma tivesse saído do Egito”.
Por isso, a festa não é só uma lembrança do passado. É um dever de transmitir a história de pais para filhos. As perguntas das crianças, o afikoman e a leitura da Hagadá existem para isso.
Essa memória resistiu até nos piores momentos. O Yad Vashem reúne testemunhos de judeus que celebraram Pessach antes, durante e depois do Holocausto. O Museu do Holocausto dos EUA guarda uma Hagadá produzida no campo de Gurs e uma oração de Pessach de Bergen-Belsen. O museu também reúne memórias de sobreviventes sobre a festa.
As Hagadot variam conforme a tradição: sefardita, asquenazita, mizrahi, iemenita, reformista, conservadora e outras. Algumas versões modernas incluem temas como perseguição, Holocausto e direitos humanos.
Sobre a história, cabe honestidade. A arqueologia não oferece prova consensual de um êxodo nos exatos termos do relato bíblico. A saída do Egito é o fundamento da tradição religiosa judaica, e sua reconstrução histórica segue em debate acadêmico.
Linha do tempo
- Tradição bíblicaO livro do Êxodo narra a escravidão no Egito, as dez pragas e a saída dos israelitas sob a liderança de Moisés.
- Período do TemploPessach é uma festa de peregrinação, com o sacrifício do cordeiro pascal no Templo de Jerusalém.
- Século IO cristianismo surge no ambiente judaico. Os Evangelhos ligam a Última Ceia de Jesus a Pessach.
- 70 d.C.Destruição do Segundo Templo. A partir daí, o seder rabínico em casa se desenvolve até o formato atual.
- Idade MédiaJudeus asquenazes adotam o costume de evitar também kitniyot (leguminosas, arroz e milho) em Pessach.
- HolocaustoJudeus celebram Pessach em esconderijos e campos, como Gurs e Bergen-Belsen, com Hagadot e orações improvisadas.
Perguntas frequentes
Qual é a tradução de “Pessach” para o português?
Que dia se comemora o Pessach?
Jesus celebrava o Pessach?
Por que os judeus comem matzá em Pessach?
Assista
Edição do programa Jewish World Weekly, da i24NEWS, com destaques da semana no mundo judaico, a conferência internacional contra o antissemitismo realizada em Jerusalém no Dia da Memória do Holocausto e uma entrevista sobre o antissemitismo crescente na direita americana e nas redes sociais. Traz ainda o atleta israelense de skeleton Jared Firestone e a comunidade judaica de Cochim, vinda da Índia e hoje no Neguev.
AdultosVídeo institucional da FIERJ sobre o fascínio de Dom Pedro II pelo hebraico e pelo judaísmo, suas amizades com judeus e o reconhecimento da União Israelita do Brasil em 1873, com base no livro de Sônia Sales.
Adolescentes e adultosTambém em inglês: mais 2 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Animação em LEGO que explica de forma divertida a festa de Sucot: a origem bíblica, a construção da sucá, o schach, as quatro espécies (lulav e etrog) e seus significados na tradição judaica.
CriançasEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Animação curta e bem-humorada da BimBam que explica Shavuot: a festa das primícias, a celebração da entrega da Torá no Monte Sinai, o Tikun Leil Shavuot, a leitura do Livro de Rute e os costumes como laticínios e flores.
Crianças- About the Seder – Museu do Holocausto dos EUA (USHMM)
- Passover Haggadah from the Gurs Camp – USHMM
- Passover Prayer from Bergen-Belsen – USHMM
- Passover Memories – Echoes of Memory, USHMM
- Passover – exposição do Yad Vashem
- Seder: The Passover Meal (Der Oster-Abend) – The Jewish Museum, Nova York
- Masterpieces & Curiosities: Nicole Eisenman's Seder – The Jewish Museum, Nova York

