Enganoso. Nos anos 1990, o Instituto de Medicina Legal Abu Kabir retirou tecidos de cadáveres sem consentimento das famílias: soldados e civis israelenses, palestinos e trabalhadores estrangeiros. Israel admitiu o caso e encerrou a prática por volta de 2000. Não há prova de que Israel mate palestinos para tirar órgãos. O próprio autor dessa tese admitiu não ter evidência.
O que aconteceu de fato no Instituto Abu Kabir?
Em entrevista gravada em 2000, o então diretor do Abu Kabir, Yehuda Hiss, contou que o instituto retirava pele, córneas, válvulas cardíacas e ossos durante autópsias. Isso acontecia sem autorização das famílias.
A prática ocorreu nos anos 1990. Em 2009, quando a entrevista veio a público, as Forças de Defesa de Israel e autoridades de saúde a confirmaram à imprensa. Segundo essas autoridades, ela havia terminado por volta de 2000. As FDI afirmaram que os procedimentos posteriores passaram a seguir requisitos éticos e legais.
Os corpos eram de soldados e civis israelenses, palestinos e trabalhadores estrangeiros. Segundo uma investigação estatal citada pela ADL, não houve evidência de que Hiss tivesse palestinos como alvo. Ele tratava os cadáveres que chegavam ao instituto, qualquer que fosse a nacionalidade.
Foi um escândalo ético real. Não foi uma política contra palestinos. Também não houve assassinatos.
De onde vem a acusação de que Israel mata palestinos por órgãos?
A versão mais grave diz que Israel mata palestinos para tirar seus órgãos e abastecer hospitais. Ela vem de um artigo do jornalista sueco Donald Boström, publicado em agosto de 2009 no tabloide Aftonbladet.
O texto juntou mortes de palestinos, relatos de incisões nos corpos e retirada de órgãos. Não apresentou prova de uma operação israelense de assassinato ou de tráfico de órgãos. A Jewish Telegraphic Agency registrou que a acusação não foi demonstrada.
Segundo a Newsweek, o próprio Boström reconheceu depois que não tinha evidência de que soldados israelenses matassem palestinos para retirar seus órgãos. Ele apenas defendeu uma investigação sobre a política israelense de transplantes. Reportagens da AP e da NBC News também registraram que não havia evidência para essa acusação.
E a acusação de 2015 sobre corpos devolvidos sem órgãos?
Em 2015, autoridades palestinas acusaram Israel de devolver corpos sem córneas e outros órgãos. O representante de Israel na ONU rejeitou a acusação e a classificou como antissemita.
A Reuters noticiou as duas posições. A agência não apresentou confirmação independente da denúncia. A acusação, portanto, ficou sem confirmação independente.
Por que a frase ecoa o libelo de sangue?
O libelo de sangue é uma acusação medieval. Ela dizia, falsamente, que judeus matavam não judeus, em especial crianças, para usar seu sangue em rituais. Surgiu no século XII, em Norwich, na Inglaterra, e se espalhou pela Europa no século XIII.
A acusação contradiz a própria lei religiosa judaica. A Halachá proíbe consumir sangue. Vários papas e o sultão otomano rejeitaram o mito. Mesmo assim, ele serviu para justificar massacres, saques e expulsões.
O tropo voltou em vários episódios:
- o Caso de Damasco (1840);
- o julgamento de Menachem Mendel Beilis na Rússia czarista (1911–1913);
- a propaganda nazista do tabloide Der Stürmer;
- o pogrom de Kielce, na Polônia (1946).
A ADL e a organização alemã RIAS apontam que a acusação de "roubo de órgãos" é uma versão contemporânea desse mito. Em fevereiro de 2024, a ADL registrou um caminhão com a frase "Daily Reminder: Israel steals Palestinian organs" diante da Universidade de Columbia. Quem repete a frase nem sempre conhece essa origem. Mas a estrutura é a mesma: judeus que profanam corpos de não judeus.
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Nos anos 1990, o Abu Kabir retirou tecidos de cadáveres sem consentimento: de israelenses, soldados, palestinos e estrangeiros. Israel admitiu e encerrou a prática por volta de 2000. Não há prova de que Israel mate palestinos para tirar órgãos. O próprio autor da tese admitiu não ter evidência.Até 280 caracteres, para responder nas redes
Em mais detalhe
Há um fato e há uma mentira.
O fato. Nos anos 1990, o Instituto de Medicina Legal Abu Kabir retirou pele, córneas, válvulas cardíacas e ossos em autópsias, sem autorização das famílias. Foi um escândalo ético. Israel o reconheceu, e a prática acabou por volta de 2000. As vítimas incluíam soldados e civis israelenses, palestinos e trabalhadores estrangeiros. Uma investigação estatal, citada pela ADL, não encontrou evidência de que palestinos fossem alvo.
A mentira. Que Israel mata palestinos para tirar seus órgãos. A tese nasceu de um artigo do Aftonbladet, de agosto de 2009. O próprio autor admitiu não ter prova. As acusações de 2015 também ficaram sem confirmação independente.
A distorção. A frase "Israel rouba órgãos dos palestinos mortos" pega um erro antigo, que atingiu judeus e não judeus, e o vende como política atual contra um só povo. Na versão de assassinato para colher órgãos, ela recicla o libelo de sangue, o mito medieval que serviu de pretexto para massacres de judeus por séculos.
- Não negue o caso Abu Kabir. Ele é fato documentado e admitido por Israel.
- Não diga que "nunca houve retirada de órgãos". Diga quando, de quem e como terminou.
- Não chame de antissemita todo quem repete a frase. Explique a origem do tropo e mostre os fatos.
- Não generalize palestinos nem muçulmanos. A crítica é à acusação, não a um povo.
Perguntas frequentes
Israel admitiu ter retirado órgãos de cadáveres?
Existe prova de que Israel mata palestinos para tirar órgãos?
Por que dizem que essa acusação é antissemita?
- NBC News: Israel harvested organs in '90s without consent
- CNN: Israel harvested organs without permission, officials say
- ABC/AP: Israel admits organ harvesting
- JTA: Report: Israel admits to harvesting organs
- JTA: Organ harvesting: Part II
- ADL: Unfounded Claims of "Organ Harvesting" Reignite Embers of Decades-Old Hospital Scandal
- Newsweek: Israel Organ Harvesting Allegations Explained
- Reuters (2015): Israel blasts Palestinians after accusations of organ-harvesting
- Reuters (2015): Israel blasts Palestinians after accusations of organ-harvesting (versão ampliada)



