
Os justos brasileiros e os refugiados do nazismo
Podcast, apresentação, guia de estudo, quiz e cartões sobre os justos brasileiros e os refugiados do nazismo, para escolas, igrejas e famílias.
Ouça: Podcast Contexto
Uma conversa de 13 minutos para ouvir no caminho, em sala ou antes do encontro do grupo.
Narração com vozes sintéticas, feita a partir das páginas deste site. Baixar o MP3 (13 min, 5,7 MB).
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Lia: Olá, eu sou a Lia, e este é o "Contexto", o podcast da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Hoje vamos falar de coragem em tempos sombrios: os justos brasileiros e os refugiados do nazismo.
Davi: E eu sou o Davi. É uma história que muita gente no Brasil não conhece, e ela tem dois lados. Um é de vergonha, o outro é de heroísmo.
Lia: Exatamente. De um lado, um governo que fechou as portas para judeus perseguidos. Do outro, brasileiros que desobedeceram às ordens e salvaram vidas.
Davi: Antes de começar, por que esse tema importa para quem está nos ouvindo numa escola, numa igreja ou em casa com a família?
Lia: Porque mostra que a história não é feita só por governos. É feita também por escolhas individuais. Diante de uma ordem injusta, uma pessoa pode obedecer ou pode fazer o certo, mesmo pagando um preço por isso.
Davi: E também porque os preconceitos daquela época, como o mito do "complô judaico", continuam reaparecendo hoje. Conhecer o passado ajuda a reconhecer esses mitos quando eles voltam.
Lia: Então vamos começar pelo contexto. Davi, como estava o Brasil quando o nazismo começou a perseguir os judeus na Europa?
Davi: O Brasil vivia a Era Vargas. E o governo adotou uma política que a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP, chama de antissemitismo de Estado.
Lia: Antissemitismo de Estado? Era uma lei?
Davi: Não, e esse é o ponto curioso. Não houve uma lei pública. Foram ordens internas e confidenciais do Itamaraty, as chamadas circulares secretas. A principal foi a Circular Secreta nº 1.127, de 7 de junho de 1937.
Lia: E o que ela dizia?
Davi: O item "c" mandava recusar visto a qualquer pessoa que se soubesse ser de "origem étnica semítica". A restrição valia até para turistas e negociantes.
Lia: Por que fazer isso em segredo?
Davi: Assim a política ficava fora do debate público e evitava desgaste internacional. Por dentro, a burocracia descrevia os judeus como "inassimiláveis" e "elementos subversivos". Depois vieram outras circulares, como a nº 1.498, de 12 de dezembro de 1940, que manteve a proibição.
Lia: E qual foi o tamanho do estrago?
Davi: As estimativas variam. Os pedidos de visto de judeus negados vão de 9 mil a 16 mil, conforme a contagem. São milhares de pessoas que tentaram uma rota de fuga e encontraram a porta fechada.
Lia: Num momento em que o nazismo perseguia essas pessoas até a morte.
Davi: Sim. Mas foi justamente nesse cenário que surgiram os nossos dois heróis.
Lia: Vamos a eles. O Brasil tem dois Justos entre as Nações. Davi, explica para quem nunca ouviu o que significa esse título.
Davi: É uma homenagem concedida pelo Yad Vashem, o memorial do Holocausto de Israel, em nome do Estado de Israel e do povo judeu. Em hebraico, o nome é Khassidei Umot HaOlam. A expressão vem da tradição judaica e honra não judeus que arriscaram a vida, a liberdade ou a posição para salvar judeus durante o Holocausto.
Lia: E é fácil ganhar esse título?
Davi: Não. Em 1953, o Knesset, o parlamento de Israel, aprovou a lei que criou o Yad Vashem. Desde 1963, uma comissão presidida por um juiz da Suprema Corte de Israel examina cada caso. É preciso comprovar envolvimento ativo no salvamento, risco real e ausência de recompensa, com testemunho dos salvos ou documentação inequívoca.
Lia: E o que recebe quem é reconhecido?
Davi: Uma medalha com o próprio nome, um certificado de honra e o nome gravado no Muro de Honra do Jardim dos Justos, em Jerusalém.
Lia: Então vamos ao primeiro nome: o embaixador Luiz Martins de Souza Dantas.
Davi: Souza Dantas foi embaixador do Brasil na França de 1922 a 1943. Atuou primeiro em Paris. Depois da ocupação alemã, em junho de 1940, passou a trabalhar em Vichy.
Lia: E o Itamaraty proibia vistos para judeus.
Davi: Proibia, e ele desobedeceu. Emitia vistos diplomáticos, temporários e de trânsito. Para driblar o cerco, omitia a origem étnica dos requerentes, encobria a letra "J" vermelha carimbada nos passaportes de judeus e colocava datas retroativas nos documentos.
Lia: Os famosos "vistos camuflados".
Davi: Isso. Ele também ajudou outros perseguidos, como apátridas, homossexuais e opositores do nazismo. Entre os salvos estavam o diretor de teatro polonês Zbigniew Ziembinski e membros da família Zimetbaum. Mas o reconhecimento do Yad Vashem se refere especificamente à ajuda a judeus.
Lia: Quantas pessoas ele salvou?
Davi: Uma estimativa frequente fala em cerca de 500 vistos. As pesquisas do historiador Fábio Koifman contam ao menos 473 vistos emitidos diretamente por ele, que teriam salvado cerca de 800 pessoas. O número exato depende dos documentos que sobreviveram.
Lia: E ele não ficou só nos vistos, certo?
Davi: Não. Em telegramas de 17 e 21 de agosto de 1942, ele avisou o governo brasileiro de que a Gestapo deportava e exterminava em massa os judeus da França ocupada. Ou seja, o governo foi informado.
Lia: E qual foi o preço da desobediência?
Davi: Alto. Entre 1941 e 1942, o governo Vargas abriu um processo administrativo contra ele, que terminou em punição. Em maio de 1943, tropas nazistas invadiram a embaixada em Vichy e o prenderam. Ele ficou 14 meses detido em Bad Godesberg, na Alemanha, e só foi libertado em 1944, numa troca de prisioneiros.
Lia: E o reconhecimento veio quando?
Davi: Em 11 de junho de 2003. A decisão se apoiou em depoimentos de sobreviventes e em mais de 200 documentos do Arquivo Histórico do Itamaraty, levantados pela historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro.
Lia: Agora a segunda heroína, que tem uma história linda: Aracy de Carvalho Guimarães Rosa.
Davi: Aracy nasceu em 1908, filha de mãe alemã e pai brasileiro. Mudou-se para a Alemanha em 1934 e chefiou a Seção de Passaportes e Vistos do Consulado Geral do Brasil em Hamburgo.
Lia: E o que mudou o rumo da vida dela?
Davi: A Kristallnacht, a Noite dos Cristais, em 9 de novembro de 1938. Depois disso, a perseguição aumentou. Aracy deixava de marcar o "J" vermelho nos processos de visto e misturava os pedidos de judeus às pilhas de despacho de rotina, para que o cônsul assinasse sem notar.
Lia: Uma resistência silenciosa, feita de papel e carimbo.
Davi: Exatamente. Com contatos na prefeitura de Hamburgo, ela também conseguia atestados de residência e passaportes sem a marca que identificava judeus. Estima-se que tenha salvado diretamente cerca de 100 judeus. Ficou conhecida como o "Anjo de Hamburgo".
Lia: E o marido dela, João Guimarães Rosa, o autor de Grande Sertão: Veredas?
Davi: Eles se conheceram no consulado, onde ele assumiu o posto de cônsul-adjunto em 1937, e se casaram em 1940. Ele sabia da atuação dela e a apoiava. Também concedeu vistos diretamente a pelo menos 11 judeus alemães. Mas o título de Justa entre as Nações é só de Aracy.
Lia: E ele dedicou o livro a ela.
Davi: Sim: "A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro". Em 1982, Aracy se tornou a primeira brasileira reconhecida como Justa entre as Nações. E a coragem dela continuou: durante a ditadura militar, abrigou opositores no Rio de Janeiro, como o cantor Geraldo Vandré, em 1968. Ela viveu até 2011.
Lia: Agora vamos olhar para quem conseguiu chegar. Se a porta estava fechada, como os refugiados entraram?
Davi: Pelas brechas. Vieram alemães, austríacos, poloneses, tchecos, italianos, húngaros, romenos e belgas, que desembarcavam sobretudo em Santos e no Rio de Janeiro. Muitos usaram certidões falsas de batismo, se passando por católicos. Algumas famílias mantiveram esse disfarce no Brasil por anos, por medo de nova perseguição.
Lia: Que dor, ter que esconder a própria identidade mesmo depois de escapar.
Davi: Outros chegaram com visto de turista e depois pediram para torná-lo permanente. Houve quem se declarasse agricultor sem nunca ter trabalhado no campo. E havia as cartas de chamada, em que judeus já estabelecidos no Brasil pediam a vinda de pais idosos e dependentes.
Lia: E quantos entraram?
Davi: Não há um número único. Só em 1939, foram registradas 4.601 entradas de judeus. Segundo estimativa de Maria Luiza Tucci Carneiro, cerca de 14 mil refugiados judeus entraram por esses caminhos alternativos.
Lia: E quem os recebeu?
Davi: O acolhimento veio sobretudo das associações judaicas brasileiras. A Congregação Israelita Paulista, fundada em 1936 e liderada pelo rabino Fritz Pinkuss, oferecia moradia temporária, alimentação, orientação jurídica e ajuda para encontrar trabalho.
Lia: E entre os refugiados havia nomes que marcaram a cultura brasileira.
Davi: Muitos. O escritor Stefan Zweig, o crítico Otto Maria Carpeaux, o filólogo Paulo Rónai, a pintora Fayga Ostrower, a fotógrafa Alice Brill, a atriz Nydia Lícia.
Lia: E depois de 1945?
Davi: Chegaram sobreviventes dos campos e dos guetos. As estimativas vão de 15 mil a 25 mil. Um deles foi Stanisław Szmajzner, que participou do Levante de Sobibór em 14 de outubro de 1943, emigrou para o Brasil em 1947 e viveu em Goiânia. Em maio de 1978, ele reconheceu pessoalmente Gustav Wagner, ex-vice-comandante de Sobibór, que vivia no país.
Lia: A memória das vítimas como força de justiça.
Davi: Sim. E essa memória está preservada: o Museu do Holocausto de Curitiba, o Arqshoah da USP, o Museu Judaico de São Paulo e a USC Shoah Foundation, que tem 58 entrevistas em português.
Lia: E o Estado brasileiro chegou a reconhecer esse passado?
Davi: Em 30 de janeiro de 2013, no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a Presidência da República homenageou os dois Justos e pediu desculpas históricas pelas omissões do Estado Novo.
Lia: Vamos fechar com três ideias-chave. Primeira: o Brasil da Era Vargas praticou antissemitismo de Estado, de forma burocrática e sigilosa, com circulares secretas que negaram milhares de vistos a judeus perseguidos.
Davi: Segunda: Souza Dantas e Aracy de Carvalho Guimarães Rosa agiram contra essa política, não em nome dela. Arriscaram a carreira e a liberdade, e por isso o Yad Vashem, em nome do Estado de Israel, os reconheceu como Justos entre as Nações.
Lia: Terceira: preservar os testemunhos dos refugiados e sobreviventes é uma forma de combater a negação e a distorção do Holocausto. A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA e combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
Davi: E fica a pergunta para cada um de nós: diante de uma injustiça, de que lado da história queremos estar?
Lia: Obrigada por nos acompanhar no "Contexto". Mais materiais em jjo.org.br.
Davi: Até o próximo episódio.
Apresentação pronta para usar
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Guia de estudo
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste estudo, o participante deverá ser capaz de:
- Explicar o que é o título de Justo entre as Nações, quem o concede e com quais critérios.
- Conhecer a trajetória de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa e de Luiz Martins de Souza Dantas, os dois Justos entre as Nações brasileiros.
- Compreender a política de antissemitismo de Estado da Era Vargas, aplicada por meio de circulares secretas do Itamaraty.
- Identificar os caminhos que refugiados judeus e sobreviventes usaram para entrar no Brasil.
- Valorizar a preservação dos testemunhos como forma de combater a negação e a distorção do Holocausto (Shoá).
Conceitos-chave
- Justos entre as Nações (Khassidei Umot HaOlam): não judeus que arriscaram a vida, a liberdade ou a posição para salvar judeus durante o Holocausto, sem buscar recompensa. O título é concedido pelo Yad Vashem, o memorial do Holocausto de Israel, em nome do Estado de Israel e do povo judeu.
- Critérios do título: envolvimento ativo no salvamento de judeus ameaçados de morte ou deportação; risco real para quem ajudou; ajuda sem pagamento ou recompensa; testemunho dos salvos ou documentação inequívoca. O título premia atos individuais comprovados. Ele não avalia a carreira inteira da pessoa nem o governo do país dela.
- Antissemitismo de Estado: expressão usada pela historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP, para a política oficial, sigilosa e burocrática do governo Vargas de negar vistos a judeus.
- Circulares secretas: ordens internas e confidenciais do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) aos consulados. A principal foi a Circular Secreta nº 1.127, de 7 de junho de 1937. Ela mandava recusar visto a quem se soubesse ser de “origem étnica semítica”.
- Desobediência humanitária: Souza Dantas e Aracy agiram contra a política oficial brasileira, não em nome dela.
- Antissemitismo (definição da IHRA): a JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA e combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
Linha do tempo
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 1922 | Souza Dantas torna-se embaixador do Brasil na França, cargo que ocupa até 1943 |
| 1933–1934 | Judeus alemães desembarcam em Santos em navios da linha Hamburg-Amerika |
| 1934 | Aracy de Carvalho muda-se para a Alemanha |
| 1937 | João Guimarães Rosa assume o posto de cônsul-adjunto em Hamburgo |
| 7 jun. 1937 | Circular Secreta nº 1.127 manda negar vistos a pessoas de “origem étnica semítica” |
| 1938 | Circular nº 1.249 abre exceções para quem trouxesse capital ou qualificação industrial ou agrícola |
| 9 nov. 1938 | Kristallnacht (Noite dos Cristais); Aracy intensifica a ajuda a judeus perseguidos |
| 1939 | São registradas 4.601 entradas de judeus no Brasil |
| 23 jul. 1939 | Resolução nº 39 cria uma cota de vistos para católicos não arianos, a pedido do Vaticano |
| jun. 1940 | Ocupação alemã da França; Souza Dantas passa a atuar em Vichy |
| 1940 | Aracy e João Guimarães Rosa se casam |
| 1940–1941 | Cerca de 959 vistos permanentes para católicos de origem judaica, por acordo com a Santa Sé |
| 12 dez. 1940 | Circular Secreta nº 1.498, expedida por Oswaldo Aranha, reforça as restrições |
| jan. 1941 | Circular nº 1.499 reitera a mesma orientação |
| out. 1941 | O regime nazista proíbe de vez a emigração judaica |
| 1941–1942 | Processo administrativo do governo Vargas contra Souza Dantas |
| 17 e 21 ago. 1942 | Telegramas de Souza Dantas avisam que a Gestapo deportava e exterminava em massa os judeus da França ocupada |
| maio 1943 | Tropas nazistas invadem a embaixada em Vichy e prendem Souza Dantas, que fica 14 meses detido em Bad Godesberg |
| 1944 | Souza Dantas é libertado numa troca diplomática de prisioneiros |
| Depois de 1945 | Chegam sobreviventes dos campos, dos guetos e dos campos de pessoas deslocadas |
| 1947 | O sobrevivente Stanisław Szmajzner emigra para o Brasil |
| fev. 1948 | Circular Reservada nº 589 mantém a linha restritiva no pós-guerra |
| 1953 | O Knesset aprova a lei que cria o Yad Vashem |
| 1963 | Começa a funcionar a comissão que examina cada caso de Justo entre as Nações |
| 1982 | Aracy torna-se a primeira brasileira reconhecida como Justa entre as Nações |
| 11 jun. 2003 | Souza Dantas é reconhecido como Justo entre as Nações |
| 30 jan. 2013 | A Presidência da República homenageia os dois Justos e pede desculpas históricas pelas omissões do Estado Novo |
Os dois Justos brasileiros
Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (1908–2011), o “Anjo de Hamburgo”
Aracy era filha de mãe alemã e pai brasileiro. Chefiava a Seção de Passaportes e Vistos do Consulado Geral do Brasil em Hamburgo. Depois da Kristallnacht, ela:
- deixava de marcar o “J” vermelho nos processos de visto;
- misturava pedidos de judeus a pilhas de despacho de rotina, para que o cônsul os assinasse sem notar;
- conseguia, com contatos na prefeitura de Hamburgo, atestados de residência e passaportes sem a marca que identificava judeus.
Estima-se que tenha salvado diretamente cerca de 100 judeus. Há também relatos de que levava perseguidos no próprio carro e acompanhava refugiados até o porto, como no caso de Maria Margarethe Bertel Levy. Esses episódios são considerados menos documentados do que seu trabalho no consulado.
Seu marido, João Guimarães Rosa, sabia da atuação dela e a apoiava. Ele concedeu vistos diretamente a pelo menos 11 judeus alemães. O título do Yad Vashem, porém, é só de Aracy. Mais tarde, durante a ditadura militar, Aracy abrigou opositores em seu apartamento no Rio de Janeiro, como o cantor Geraldo Vandré, em 1968.
Luiz Martins de Souza Dantas (1876–1954)
Souza Dantas foi embaixador do Brasil na França, primeiro em Paris e depois em Vichy. Desobedeceu ao Itamaraty e emitiu vistos diplomáticos, temporários e de trânsito, que ficaram conhecidos como “vistos camuflados”. Para driblar as restrições, ele:
- omitia a origem étnica dos requerentes;
- encobria ou rasurava o “J” vermelho nos passaportes;
- colocava datas retroativas nos documentos.
As estimativas falam em cerca de 500 vistos. O historiador Fábio Koifman conta ao menos 473 vistos emitidos diretamente por ele, que teriam salvado cerca de 800 pessoas. Entre os salvos estavam famílias como os Zimetbaum e os Lieblich. Ele também ajudou perseguidos que não eram judeus. Foi punido pelo governo Vargas e preso pelos nazistas.
Como os refugiados conseguiram entrar
- Vistos de turista ou de trânsito, depois prorrogados ou convertidos em permanentes.
- Certidões de batismo católico, inclusive falsas. Algumas famílias mantiveram esse disfarce por anos, por medo de nova perseguição.
- Declaração de agricultor, para usar cotas de colonização.
- Exceções para técnicos e capitalistas (Circular nº 1.249, de 1938).
- Cartas de chamada de parentes já estabelecidos no Brasil.
- Rotas pelo Oriente, como a de David Markus, que recebeu visto de trânsito de Chiune Sugihara na Lituânia.
- Diplomatas que desobedeceram às ordens.
Segundo estimativa de Maria Luiza Tucci Carneiro, cerca de 14 mil refugiados judeus entraram por esses caminhos. Ao mesmo tempo, entre 9 mil e 16 mil pedidos de visto de judeus foram negados, conforme a estimativa. O acolhimento veio sobretudo das associações judaicas brasileiras, não do governo. Entre elas estavam a Congregação Israelita Paulista, liderada pelo rabino Fritz Pinkuss, a OFIDAS (depois UNIBES) e a Congregação Israelita Carioca.
Depois de 1945, chegaram sobreviventes do Holocausto. As estimativas vão de 15 mil a 25 mil pessoas. Entre os nomes conhecidos estão Stanisław Szmajzner, Ben Abraham, Aleksander Laks, Andor Stern e Nanette Blitz Konig.
5 perguntas para discussão
- Souza Dantas e Aracy desobedeceram a ordens do próprio governo para salvar vidas. Quando uma ordem oficial é injusta, o que pesa na decisão de uma pessoa comum de agir contra ela?
- O governo Vargas usou circulares secretas em vez de uma lei pública. Por que um governo escolheria agir de forma sigilosa? O que isso revela sobre a consciência da injustiça?
- O título de Justo entre as Nações premia atos individuais comprovados, não a carreira inteira de uma pessoa. Por que é importante separar o que está documentado do que é relato menos comprovado?
- Muitos refugiados precisaram se apresentar como católicos para entrar no Brasil, e alguns mantiveram o disfarce por anos. O que isso nos ensina sobre o medo e sobre o valor da liberdade religiosa?
- Em 2013, a Presidência da República pediu desculpas históricas pelas omissões do Estado Novo. Qual é a importância de um país reconhecer os erros de seu passado? Como a preservação dos testemunhos ajuda a combater a negação do Holocausto?
Glossário curto
- Yad Vashem: memorial do Holocausto de Israel, criado por lei do Knesset em 1953. Concede o título de Justo entre as Nações.
- Knesset: parlamento de Israel.
- Shoá: termo hebraico para o Holocausto.
- Itamaraty: Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
- Circular secreta: ordem interna e confidencial do Itamaraty aos consulados e embaixadas.
- Kristallnacht (Noite dos Cristais): onda de perseguição contra judeus na Alemanha, em 9 de novembro de 1938.
- Vichy: sede do regime colaboracionista francês depois da ocupação alemã, em 1940.
- Carta de chamada: pedido feito por judeus já estabelecidos no Brasil para trazer parentes.
- “J” vermelho: marca carimbada nos passaportes de judeus para identificá-los.
- Muro de Honra: muro no Jardim dos Justos, em Jerusalém, onde são gravados os nomes dos Justos entre as Nações.
- IHRA: definição de antissemitismo adotada pela JJO.
Quiz: teste o que aprendeu
O título é concedido pelo Yad Vashem, em nome do Estado de Israel e do povo judeu. A lei que criou o Yad Vashem foi aprovada pelo Knesset em 1953.
O item “c” da circular mandava recusar visto a toda pessoa que se soubesse ser de “origem étnica semítica”. A restrição valia até para turistas e negociantes.
Aracy chefiava a Seção de Passaportes e Vistos do Consulado Geral do Brasil em Hamburgo, na Alemanha nazista.
Aracy foi reconhecida pelo Yad Vashem em 1982. Souza Dantas foi reconhecido em 2003.
Aracy deixava de marcar o “J” vermelho e misturava os pedidos de judeus aos despachos de rotina, para que o cônsul os assinasse sem notar.
O reconhecimento do Yad Vashem é só de Aracy. Guimarães Rosa era cônsul-adjunto em Hamburgo, sabia da atuação dela e a apoiava. Ele concedeu vistos a pelo menos 11 judeus alemães.
Souza Dantas ficou 14 meses detido em Bad Godesberg, na Alemanha. Foi libertado em 1944, numa troca diplomática de prisioneiros.
Koifman conta ao menos 473 vistos, que teriam salvado cerca de 800 pessoas. Outra estimativa frequente fala em cerca de 500 vistos.
Nunca houve uma lei que garantisse a entrada de judeus. A política oficial era restritiva, e os refugiados entraram pelas brechas: cartas de chamada, batismos, vistos convertidos, exceções e a ajuda de diplomatas.
O acolhimento veio sobretudo das associações judaicas brasileiras, como a Congregação Israelita Paulista, a OFIDAS (depois UNIBES) e a Congregação Israelita Carioca.
Cartões de estudo
Clique no cartão para virar.
Assista
O Museu do Holocausto de Curitiba conta como os judeus do Gueto de Varsóvia, confinados em condições desumanas pelos nazistas, conseguiram conter uma epidemia de tifo em 1941. Eles se organizaram com cozinhas comunitárias, cursos de higiene e distanciamento social voluntário.
Adolescentes e adultosPalestra de Nanette Blitz Konig, sobrevivente de Bergen-Belsen e colega de Anne Frank, sobre a perseguição aos judeus na Holanda ocupada, a deportação via Westerbork e a vida no campo, seguida de perguntas do público sobre negacionismo, neonazismo, perdão e a era Vargas.
Adolescentes e adultosReportagem da FIERJ sobre o livro da psicóloga Sofia Débora Levi, que entrevistou dez sobreviventes do Holocausto para analisar o trauma e as formas possíveis de reação nos campos, com o depoimento da sobrevivente centenária Maria Efremov.
Adolescentes e adultosTambém em inglês: mais 3 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Produção do Yad Vashem que explica como se formou a 'Solução Final' e conta Auschwitz-Birkenau por meio do testemunho de Ellis Lewin, do Álbum de Auschwitz, de trechos de Elie Wiesel e de objetos guardados por prisioneiros como forma de manter a dignidade. Traz também orientações para educadores ensinarem o Holocausto pela perspectiva humana.
Adolescentes e adultosEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Vídeo do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos que explica os diferentes tipos de campos nazistas (de concentração, de trabalho forçado, de trânsito e os cinco centros de extermínio) e seu papel na perseguição e no assassinato de seis milhões de judeus, com o testemunho de uma sobrevivente.
Adolescentes e adultosEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Vídeo do Yad Vashem que conta a história da família muçulmana Hardaga, de Sarajevo, que escondeu a família judia Kabiljo durante o Holocausto e foi reconhecida como Justa entre as Nações. Cinquenta anos depois, durante o cerco de Sarajevo, a família foi resgatada e levada a Israel.
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