O Brasil tem dois Justos entre as Nações. O título é dado pelo Yad Vashem a não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus no Holocausto. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa trabalhava no consulado em Hamburgo e foi reconhecida em 1982. O embaixador Luiz Martins de Souza Dantas emitiu centenas de vistos na França e foi reconhecido em 2003. Os dois contrariaram circulares secretas antissemitas do governo Vargas.
Quem são os Justos entre as Nações?
Os Justos entre as Nações são não judeus que arriscaram a vida, a liberdade ou a posição para salvar judeus durante o Holocausto. A homenagem é concedida pelo Yad Vashem, o memorial do Holocausto de Israel, em nome do Estado de Israel e do povo judeu.
O nome em hebraico é Khassidei Umot HaOlam. A expressão vem da tradição judaica, que chama assim os não judeus que ajudaram o povo judeu em tempos de necessidade.
- 1953: o Knesset, parlamento de Israel, aprova a lei que cria o Yad Vashem. A lei manda honrar os "gentios de espírito elevado que arriscaram a vida para salvar judeus".
- 1963: passa a funcionar uma comissão especial presidida por um juiz da Suprema Corte de Israel, que examina cada caso.
Os critérios básicos são estes:
- envolvimento ativo no salvamento de um ou mais judeus ameaçados de morte ou de deportação;
- risco real à vida, à liberdade ou à posição de quem ajudou;
- motivação de ajudar, sem pagamento ou outra recompensa;
- testemunho dos salvos ou documentação inequívoca do salvamento.
Os reconhecidos recebem uma medalha com o próprio nome e um certificado de honra. O nome também é gravado no Muro de Honra do Jardim dos Justos, em Jerusalém.
O título premia atos individuais comprovados. Ele não avalia a carreira inteira da pessoa nem o governo do país dela.
Quem foi o embaixador Souza Dantas?
Luiz Martins de Souza Dantas (1876–1954) foi embaixador do Brasil na França de 1922 a 1943. Ele é lembrado como o principal diplomata brasileiro que salvou judeus do nazismo. Atuou primeiro em Paris. Depois da ocupação alemã, em junho de 1940, passou a trabalhar em Vichy, sede do regime colaboracionista francês.
O Itamaraty proibia vistos para judeus. Souza Dantas desobedeceu e passou a emitir vistos diplomáticos, temporários e de trânsito. Para driblar o cerco burocrático, segundo a historiografia, ele:
- omitia a origem étnica dos requerentes;
- encobria a letra "J" vermelha carimbada nos passaportes de judeus;
- colocava datas retroativas em documentos.
Esses documentos ficaram conhecidos como "vistos camuflados", como mostram reportagens da BBC Brasil e da revista Morasha.
Ele também ajudou perseguidos que não eram judeus, como apátridas, homossexuais e opositores do nazismo. Entre os salvos estavam o diretor de teatro polonês Zbigniew Ziembinski e membros da família Zimetbaum. O reconhecimento do Yad Vashem se refere especificamente à ajuda a judeus.
Em telegramas de 17 e 21 de agosto de 1942, Souza Dantas avisou o governo brasileiro de que a Gestapo deportava e exterminava em massa os judeus da França ocupada. Ele denunciou também a separação de famílias.
Quantas pessoas Souza Dantas salvou e o que aconteceu com ele?
Há estimativas diferentes, mas todas falam em centenas de vistos. Uma estimativa frequente é de cerca de 500 vistos. Já as pesquisas do historiador Fábio Koifman contam ao menos 473 vistos emitidos diretamente por ele, que teriam salvado cerca de 800 pessoas. O número exato depende dos critérios de contagem e dos documentos que sobreviveram.
A desobediência teve um preço alto:
- 1941–1942: o governo Vargas abriu um processo administrativo contra ele, que terminou em punição e afastamento "a bem do serviço público".
- Maio de 1943: tropas nazistas invadiram a embaixada em Vichy e prenderam Souza Dantas. Ele ficou 14 meses detido em Bad Godesberg, na Alemanha.
- 1944: foi libertado numa troca diplomática de prisioneiros.
Em 11 de junho de 2003, o Yad Vashem o reconheceu como Justo entre as Nações. A decisão se apoiou em depoimentos de sobreviventes e em mais de 200 documentos do Arquivo Histórico do Itamaraty, levantados pela historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro.
Aracy Guimarães Rosa ajudou judeus?
Sim. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa ajudou judeus perseguidos a conseguir vistos brasileiros quando trabalhava no consulado do Brasil em Hamburgo, na Alemanha nazista. Por isso o Yad Vashem a reconheceu como Justa entre as Nações.
Aracy Moëbius de Carvalho (1908–2011) era filha de mãe alemã e pai brasileiro. Mudou-se para a Alemanha em 1934 e chefiou a Seção de Passaportes e Vistos do Consulado Geral do Brasil em Hamburgo. A perseguição aumentou depois da Kristallnacht, a Noite dos Cristais, em 9 de novembro de 1938. A partir daí, Aracy:
- deixava de marcar o "J" vermelho nos processos de visto;
- misturava pedidos de judeus a pilhas de despacho de rotina, para que o cônsul os assinasse sem notar;
- conseguia, com contatos na prefeitura de Hamburgo, atestados de residência e passaportes sem a marca que identificava judeus.
Estima-se que ela tenha salvado diretamente cerca de 100 judeus. Ficou conhecida como o "Anjo de Hamburgo".
Há também relatos de que Aracy levava perseguidos no próprio carro, escondia mantimentos e acompanhava refugiados até o porto. Um caso registrado em depoimentos é o de Maria Margarethe Bertel Levy. Aracy a teria acompanhado até a cabine do navio e guardado as joias dela na própria bolsa, para evitar o confisco pela Gestapo. Parte da pesquisa considera esses episódios menos documentados do que o trabalho de Aracy no consulado. O título do Yad Vashem se baseia na ajuda efetiva a judeus perseguidos, não em cada episódio contado depois.
Em 1982, Aracy se tornou a primeira brasileira reconhecida como Justa entre as Nações.
Qual era a relação de Aracy com João Guimarães Rosa?
Aracy foi casada com o escritor e diplomata João Guimarães Rosa. Os dois se conheceram no consulado de Hamburgo, onde ele assumiu o posto de cônsul-adjunto em 1937. Casaram-se em 1940.
Guimarães Rosa sabia da atuação secreta de Aracy e a apoiava. Em seus diários de Hamburgo (1939–1941), guardados na Universidade Federal de Minas Gerais, ele registrou a revolta com a barbárie nazista e com crianças obrigadas a usar distintivos amarelos.
Ele dedicou a Aracy Grande Sertão: Veredas (1956): "A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro".
O reconhecimento do Yad Vashem é só de Aracy. O título não deve ser atribuído automaticamente ao marido.
A coragem dela continuou no Brasil. Durante a ditadura militar, abrigou opositores em seu apartamento no Rio de Janeiro, como o cantor Geraldo Vandré, em 1968. Aracy viveu até 2011.
Por que o Brasil restringia vistos a judeus na Era Vargas?
O governo Vargas adotou uma política de imigração antissemita, aplicada por meio de circulares secretas do Itamaraty. Souza Dantas e Aracy agiram contra essa política, não em nome dela.
- A Circular Secreta nº 1.127, de 7 de junho de 1937, mandava os consulados recusarem visto a pessoas de "origem semítica" conhecida. As exceções eram poucas, entre elas a prova de conversão ao catolicismo.
- A Circular nº 1.127 vigorou até 1938, quando foi substituída por outra orientação. Instruções posteriores voltaram a restringir a entrada de judeus.
- A Circular Secreta nº 1.498, de 12 de dezembro de 1940, manteve a proibição.
Não houve uma lei pública que proibisse a entrada de todos os judeus. O mecanismo era administrativo: circulares secretas, instruções aos consulados e exigências seletivas na hora de emitir vistos. Estudos acadêmicos publicados na Revista Brasileira de História, na Revista de História e na revista Acervo, do Arquivo Nacional descrevem esse contexto:
- o governo queria controlar a composição étnica e política dos imigrantes;
- havia preferência por certos europeus, ligada à ideia de "branqueamento";
- autoridades viam refugiados judeus como problema migratório, político ou racial.
Os historiadores Maria Luiza Tucci Carneiro (O Anti-Semitismo na Era Vargas) e Avraham Milgram são referências nesse tema.
Em 30 de janeiro de 2013, no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a Presidência da República homenageou os dois Justos. Também pediu desculpas históricas pelas omissões do Estado Novo.
O que se sabe com certeza e o que é estimativa?
A tabela separa os fatos documentados das estimativas e dos relatos menos comprovados.
| Afirmação | Situação |
|---|---|
| Souza Dantas é Justo entre as Nações (2003) | Fato, registrado pelo Yad Vashem |
| Aracy é Justa entre as Nações (1982) | Fato, registrado pelo Yad Vashem |
| O Itamaraty emitiu circulares secretas contra vistos a judeus | Fato documentado em pesquisas acadêmicas |
| Souza Dantas emitiu cerca de 500 vistos | Estimativa; outra contagem fala em ao menos 473 |
| Aracy levava perseguidos escondidos no carro | Relato biográfico, menos documentado que o trabalho no consulado |
| Os dois seguiam a política oficial brasileira | Incorreto: eles contrariaram ordens oficiais |
A síntese mais precisa é esta: o Brasil tinha uma política oficial de restringir a entrada de refugiados judeus. Alguns diplomatas e funcionários, entre eles Souza Dantas e Aracy, desobedeceram ou contornaram essas barreiras e salvaram vidas.
Lembrar esses dois brasileiros também é lembrar o antissemitismo que eles enfrentaram. A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA e combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
Linha do tempo
- 1922Souza Dantas assume a embaixada do Brasil na França.
- 1934Aracy de Carvalho se muda para a Alemanha e vai trabalhar no consulado brasileiro em Hamburgo.
- 1937Circular Secreta nº 1.127 (7 de junho) restringe vistos a pessoas de "origem semítica". João Guimarães Rosa chega a Hamburgo como cônsul-adjunto.
- 1938Kristallnacht (9 de novembro). Aracy intensifica a ajuda a judeus perseguidos.
- 1940Ocupação alemã da França. Souza Dantas passa a atuar em Vichy. Circular Secreta nº 1.498 (12 de dezembro). Aracy e Guimarães Rosa se casam.
- 1941–1942O governo Vargas abre processo administrativo contra Souza Dantas.
- 1942Telegramas de Souza Dantas (17 e 21 de agosto) denunciam o extermínio de judeus na França.
- 1943Nazistas invadem a embaixada em Vichy. Souza Dantas é preso e levado para Bad Godesberg.
- 1944Souza Dantas é libertado em troca diplomática de prisioneiros.
- 1953Lei do Knesset cria o Yad Vashem e prevê a homenagem aos Justos.
- 1963Começa a comissão presidida por juiz da Suprema Corte de Israel que concede o título.
- 1982Aracy de Carvalho Guimarães Rosa é a primeira brasileira reconhecida como Justa entre as Nações.
- 2003Souza Dantas é reconhecido como Justo entre as Nações (11 de junho).
- 2013A Presidência da República homenageia os Justos e pede desculpas pelas omissões do Estado Novo.
Perguntas frequentes
Quem foi o diplomata brasileiro que salvou judeus?
Aracy Guimarães Rosa ajudou judeus?
João Guimarães Rosa também é Justo entre as Nações?
Quem são os Justos entre as Nações?
Assista
Andor Stern, único brasileiro nato sobrevivente de Auschwitz, fala sobre a perda da mãe, as marcas permanentes do campo e o valor da liberdade nas coisas simples do dia a dia, com uma mensagem de respeito e de memória para que o Holocausto jamais se repita.
Adolescentes e adultosReportagem do Mosaico na TV sobre o lançamento, na Hebraica de São Paulo, do relatório da CONIB e da FISESP que registra o aumento do antissemitismo no Brasil em 2024, com depoimentos de lideranças comunitárias sobre as denúncias recebidas e a reação após o 7 de outubro.
Adolescentes e adultosTambém em inglês: mais 2 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
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Um jovem brasileiro que imigrou para Israel relata como sobreviveu ao massacre dos terroristas do Hamas no festival Nova, em 7 de outubro, escondido num abrigo antimísseis atacado com tiros, granadas e gás. Também fala da perda de um amigo, do apoio que recebeu e de sua decisão de seguir em frente com fé e esperança.
Adolescentes e adultosEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Homenagem do American Jewish Committee aos diplomatas Oswaldo Aranha (Brasil) e Jorge García Granados (Guatemala), decisivos na votação da partilha da ONU em 1947, com depoimentos de seus netos e bastidores da manobra que adiou a votação até 29 de novembro.
Adultos- Yad Vashem – Aracy de Carvalho Guimarães Rosa
- Yad Vashem – Histórias dos Justos entre as Nações
- BBC News Brasil – Diplomatas brasileiros e os judeus no Holocausto
- Revista Morasha – Contrariando as circulares secretas do governo Vargas
- Revista Brasileira de História (SciELO)
- Revista de História (SciELO)
- Revista Acervo – Arquivo Nacional
- Revistas USP – Humanidades
- Revista Textos (UnB)
- Cadernos de História (PUC Minas)

