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Jovens da igreja contra o antissemitismo

Podcast, apresentação, guia de estudo, quiz e cartões sobre Jovens da igreja contra o antissemitismo, para grupos de jovens de igrejas católicas e evangélicas.

Para: grupos de jovens de igrejas católicas e evangélicasPodcast: 12 minSlides: 16
Foto: U Nu, da Birmânia, estuda um rolo da Torá. Paul Goldman · Public domain · Wikimedia Commons

Ouça: Podcast Contexto

Uma conversa de 12 minutos para ouvir no caminho, em sala ou antes do encontro do grupo.

Narração com vozes sintéticas, feita a partir das páginas deste site. Baixar o MP3 (12 min, 5,4 MB).

Ler a transcrição completa

Lia: Olá, sejam bem-vindos ao Contexto, o podcast da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.

Davi: E eu sou o Davi. Hoje a conversa é especial, porque é pensada para grupos de jovens de igrejas católicas e evangélicas.

Lia: O tema é: jovens da igreja contra o antissemitismo. Vamos entender o que é, de onde vem, como as igrejas mudaram e o que cada grupo pode fazer hoje.

Davi: Lia, começa pelo básico. O que é antissemitismo?

Lia: Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, antissemitismo é preconceito, hostilidade ou violência contra judeus. O alvo pode ser o povo, uma pessoa, a religião, a cultura ou as instituições judaicas.

Davi: E por que esse tema importa para quem está num grupo de jovens de igreja?

Lia: Porque quase todo mundo, quando ouve a palavra antissemitismo, pensa logo no nazismo. Mas a história das igrejas também carrega um passado doloroso de preconceito contra os judeus.

Davi: E também porque esse preconceito continua circulando, muitas vezes no nosso próprio celular, em forma de piada ou de meme.

Lia: Exatamente. E a boa notícia é que católicos e evangélicos já têm três pilares em comum para enfrentar isso: amor ao próximo, verdade histórica e dignidade humana.

Davi: Explica um pouco cada um.

Lia: Amor ao próximo, porque o mandamento de Jesus não combina com nenhum preconceito religioso ou racial. Verdade histórica, porque é preciso reconhecer os erros do passado sem culpar os cristãos de hoje. E dignidade humana, que é defender o judeu concreto, mesmo quando ele não está presente.

Davi: Então vamos ao primeiro bloco: a Bíblia. Por onde um grupo de jovens pode começar?

Lia: Pela carta de Paulo aos Romanos, no capítulo 11. Logo no começo, Paulo pergunta se Deus rejeitou o seu povo. E a resposta dele é: não.

Davi: Isso já desmonta a ideia de que Deus teria abandonado os judeus.

Lia: Sim. E um pouco adiante, nos versículos 17 e 18, Paulo usa a imagem da oliveira. Os cristãos de origem não judaica são comparados a ramos enxertados numa oliveira.

Davi: E ele pede que esses ramos não se orgulhem diante da raiz que os sustenta. Isso é muito forte.

Lia: É, sim. E tem um ponto que às vezes passa batido: Jesus, os primeiros discípulos e os apóstolos eram judeus.

Davi: Uma pergunta boa para o grupo seria: o que muda na minha leitura dos Evangelhos quando lembro que Jesus rezava, ensinava e vivia como judeu?

Lia: Ótima pergunta. E educadores cristãos alertam para um clichê muito comum: opor o "Deus do Antigo Testamento", como se fosse só ira, ao "Deus do Novo Testamento", como se fosse só amor.

Davi: Essa leitura ignora que a compaixão de Deus está no centro da Bíblia hebraica.

Lia: Isso. Ler os Evangelhos sem apagar o contexto judaico de Jesus é o primeiro passo contra o preconceito.

Davi: Agora vamos para o segundo bloco, que é o mais difícil: a história. De onde vem esse preconceito dentro do mundo cristão?

Lia: Durante séculos, comunidades cristãs europeias difundiram acusações e estereótipos contra judeus. A mais conhecida é a acusação de deicídio.

Davi: Que é culpar todos os judeus, de todas as épocas, pela morte de Jesus.

Lia: Exatamente. O historiador Jules Isaac chamou esse conjunto de ideias de "ensino do desprezo". Outra ideia que alimentou o preconceito foi a teologia da substituição.

Davi: A tese de que a Igreja teria substituído o povo de Israel no plano de Deus.

Lia: Isso. E sobre o deicídio, há três pontos firmes. A crucificação foi uma execução romana. Jesus era judeu. E ninguém responde por um crime atribuído a antepassados.

Davi: Lia, e o caso de Martinho Lutero? Muita gente evangélica não conhece essa parte.

Lia: Lutero teve duas fases. Em 1523, ele escreveu "Que Jesus Cristo nasceu judeu", com um tom tolerante, na esperança de que os judeus se convertessem.

Davi: E depois?

Lia: Em 1543, ele escreveu "Sobre os judeus e suas mentiras". Ali propôs queimar sinagogas, destruir casas, confiscar livros e expulsar judeus.

Davi: Pesado. E alguém reagiu na época?

Lia: Sim. Já na época, protestantes como Andreas Osiander criticaram esses escritos. E hoje as principais igrejas luteranas os rejeitam formalmente.

Davi: Essas ideias tiveram consequências práticas, não é?

Lia: Tiveram. Contribuíram, em vários lugares e épocas, para segregação, expulsões, conversões forçadas e violência. Mas isso não quer dizer que todos os cristãos tenham sido perseguidores. Também houve cristãos que protegeram judeus.

Davi: E aí vem a pergunta que sempre aparece nos grupos: os nazistas eram cristãos?

Lia: O nazismo não foi um movimento religioso cristão. Foi uma ideologia racial e genocida. Ele definiu o judeu pela "raça", e não pela religião, e por isso perseguiu também judeus convertidos.

Davi: Mas se aproveitou de preconceitos antigos.

Lia: Sim. Se aproveitou de estereótipos que séculos de antijudaísmo cristão tinham espalhado. O Yad Vashem, memorial do Holocausto em Israel, identifica continuidade entre o antissemitismo cristão, o nacionalista e o racial que antecederam o nazismo.

Davi: E o que foi o Holocausto, em uma frase?

Lia: Foi a perseguição e o assassinato sistemático de cerca de seis milhões de judeus pela Alemanha nazista e seus colaboradores, segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos.

Davi: E dizer que "todo cristão é antissemita" também seria errado.

Lia: Seria uma generalização errada. Muitas pessoas e instituições colaboraram, outras se omitiram, e algumas resistiram.

Davi: Então, como as igrejas mudaram depois do Holocausto?

Lia: Foi um processo. Em 1947, na Suíça, saíram os Dez Pontos de Seelisberg. Eles pedem que se lembre que Jesus e os apóstolos eram judeus.

Davi: E pedem também que a Paixão não seja apresentada de forma a culpar todos os judeus.

Lia: Isso. Um ano depois, em 1948, em Amsterdã, o Conselho Mundial de Igrejas declarou o antissemitismo "um pecado contra Deus e contra o homem".

Davi: E a grande virada católica?

Lia: Foi em 28 de outubro de 1965. O Concílio Vaticano II, sob o Papa Paulo VI, promulgou a declaração Nostra Aetate.

Davi: O que ela diz?

Lia: Diz que o que aconteceu na Paixão "não pode ser imputado nem a todos os judeus que viviam na época, nem aos judeus de hoje". E que a Igreja deplora o antissemitismo "em qualquer tempo e por qualquer pessoa".

Davi: E do lado protestante?

Lia: Nas décadas de 1980 e 1990, igrejas luteranas, como a EKD na Alemanha e a ELCA nos Estados Unidos, repudiaram formalmente os escritos antijudaicos de Lutero.

Davi: Terceiro bloco: os cristãos que fizeram a escolha certa. Os Justos entre as Nações.

Lia: É o título que o Yad Vashem, em Israel, concede a não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus no Holocausto, sem pedir nada em troca.

Davi: E quantos são?

Lia: Mais de 28.000 pessoas reconhecidas. E entre elas há muitos cristãos: católicos, protestantes, ortodoxos, batistas e adventistas.

Davi: Dá alguns exemplos.

Lia: Corrie ten Boom, cristã reformada nos Países Baixos, que com a família escondeu judeus em Haarlem. Ou a comunidade protestante de Le Chambon-sur-Lignon, na França, com o pastor André Trocmé.

Davi: Eles escondiam judeus, providenciavam documentos falsos e rotas de fuga para a Suíça.

Lia: E tem também o pastor luterano Gábor Sztehlo, em Budapeste.

Davi: O que ele fez?

Lia: Com a Cruz Vermelha Internacional, criou lares protegidos. Eles salvaram cerca de 2.000 crianças judias.

Davi: E tem brasileiros nessa lista, não tem?

Lia: Tem dois. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, que trabalhava no consulado brasileiro em Hamburgo e ajudou judeus a obter vistos para o Brasil.

Davi: Ela foi reconhecida em 1982.

Lia: Isso. E Luiz Martins de Souza Dantas, embaixador do Brasil na França, que emitiu vistos contrariando orientações oficiais e arriscando a carreira. Foi reconhecido em 2003.

Davi: Mas é importante não romantizar.

Lia: Sim. Os salvadores foram uma minoria que escolheu agir quando muitos se calaram ou colaboraram. E essa honestidade é um presente para o grupo, porque convida cada um a perguntar: e eu, de que lado estaria?

Davi: Último bloco: hoje. Onde o antissemitismo aparece para os jovens?

Lia: Muito nas redes. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos alerta que piadas, saudações nazistas e conteúdos de influenciadores normalizam o antissemitismo.

Davi: E tem uma pesquisa que assusta. Foi feita pela YouGov com a The Economist, em dezembro de 2023.

Lia: Quem foi ouvido?

Davi: Americanos de 18 a 29 anos.

Lia: E o que eles responderam?

Davi: 20% concordaram que "o Holocausto é um mito".

Lia: Por isso vale conhecer os sinais de alerta: piadas sobre o Holocausto, símbolos nazistas, teorias de que "os judeus controlam" bancos ou a imprensa, e "judeu" usado como insulto.

Davi: E o que fazer quando aparece um conteúdo assim?

Lia: Não amplificar. Compartilhar "para denunciar" também espalha. Procure a fonte original, guarde um print e denuncie à plataforma e às autoridades quando houver ameaça ou incitação.

Davi: E para corrigir um amigo?

Lia: Uma frase simples: "Isso não é só humor. Repete um estereótipo que foi usado para perseguir judeus."

Davi: E Israel? Muita gente pergunta onde fica o limite.

Lia: Criticar uma decisão do governo de Israel, como de qualquer governo, não é antissemitismo. Negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

Davi: Esse é o critério da IHRA, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, da qual o Brasil faz parte.

Lia: E a JJO adota essa definição. Também é antissemitismo culpar todos os judeus pelo que faz Israel ou hostilizar judeus brasileiros por causa do Oriente Médio.

Davi: E isso não envolve ódio a ninguém.

Lia: Nunca. Defender judeus não significa desprezar árabes, palestinos ou muçulmanos.

Davi: Lia, fecha para a gente com as ideias-chave.

Lia: Primeira: Jesus, seus discípulos e os apóstolos eram judeus, e nenhum judeu de hoje é culpado pela morte de Jesus.

Davi: Segunda: os Justos entre as Nações mostram que sempre houve escolha, e que a fé se prova em gestos concretos.

Lia: Terceira: antissemitismo é pecado e é preconceito, inclusive como meme. E negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

Davi: Leve esta conversa para o seu grupo de jovens. Mais materiais em jjo.org.br.

Lia: Obrigada por ouvir o Contexto. Até a próxima.

Apresentação pronta para usar

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Guia de estudo

Guia de estudo da JJO (Juventude Judaica Organizada) para grupos de jovens católicos e evangélicos

Objetivos

  • Entender o que é antissemitismo e reconhecer suas formas, inclusive quando aparece como “piada” ou meme.
  • Ler Romanos 11 e lembrar que Jesus, seus discípulos e os apóstolos eram judeus.
  • Conhecer com honestidade a história do antijudaísmo cristão e a virada das igrejas depois do Holocausto, com a Nostra Aetate (1965).
  • Conhecer os Justos entre as Nações, cristãos e outros não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus.
  • Saber distinguir a crítica legítima a uma política do governo de Israel do antissemitismo disfarçado de política.
  • Sair com atitudes concretas: verificar, corrigir, não amplificar e denunciar.

O encontro se apoia em três pilares que católicos e evangélicos compartilham:

  1. Amor ao próximo. O mandamento de Jesus não combina com nenhum preconceito religioso ou racial.
  2. Verdade histórica. Reconhecer os erros do passado sem culpar os cristãos de hoje.
  3. Dignidade humana. Defender o judeu concreto, mesmo quando ele não está presente.

Conceitos-chave

1. O que é antissemitismo

Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, antissemitismo é preconceito, hostilidade ou violência contra judeus. O alvo pode ser o povo, uma pessoa, a religião, a cultura ou as instituições judaicas.

  • Antijudaísmo é a hostilidade ao judaísmo e aos judeus por motivo religioso.
  • Antissemitismo é um termo mais amplo. Inclui o ódio por motivos étnicos, raciais, políticos ou conspiratórios.

O Yad Vashem identifica continuidade entre o antissemitismo cristão, o nacionalista e o racial que antecederam o nazismo.

2. A raiz judaica da fé cristã: Romanos 11

  • Romanos 11:1-2. Paulo pergunta se Deus rejeitou o seu povo e responde que não. Deus não abandonou os judeus.
  • Romanos 11:17-18. Os cristãos de origem não judaica são ramos enxertados numa oliveira. Paulo pede que esses ramos não se orgulhem diante da raiz que os sustenta.
  • Jesus era judeu. Ele, seus primeiros discípulos e os apóstolos eram judeus.
  • Um clichê a evitar. É errado opor o “Deus do Antigo Testamento”, como se fosse só de ira, ao “Deus do Novo Testamento”, como se fosse só de amor. A compaixão de Deus está no centro da Bíblia hebraica.

3. O “ensino do desprezo”

O historiador Jules Isaac deu esse nome ao conjunto de ideias que alimentou o preconceito:

  • Teologia da substituição (supersessionismo). É a tese de que a Igreja teria substituído o povo de Israel no plano de Deus.
  • Acusação de deicídio. Consiste em culpar todos os judeus, de todas as épocas, pela morte de Jesus. Três pontos firmes desmontam essa acusação:
  • a crucificação foi uma execução romana;
  • Jesus era judeu;
  • ninguém responde por um crime atribuído a antepassados.
  • Sermões e tratados hostis. Exemplos são os de Cipriano de Cartago, de João Crisóstomo e os escritos de Lutero de 1543.

Essas ideias contribuíram, em vários lugares e épocas, para segregação, expulsões, conversões forçadas e violência. Isso não quer dizer que todos os cristãos tenham sido perseguidores. Também houve cristãos que protegeram judeus.

4. Nazismo e cristianismo

O Holocausto foi a perseguição e o assassinato sistemático de cerca de seis milhões de judeus pela Alemanha nazista e seus colaboradores.

O nazismo não foi um movimento cristão. Foi uma ideologia racial e genocida que definiu o judeu pela “raça”, e não pela religião, e por isso perseguiu também judeus convertidos. Ele se aproveitou, porém, de estereótipos espalhados por séculos de antijudaísmo cristão.

Houve pessoas e instituições que colaboraram, outras que se omitiram e algumas que resistiram. Dizer que “todo cristão é antissemita” ou que “o cristianismo sozinho causou o Holocausto” é uma generalização errada.

5. A mudança das igrejas

Depois do Holocausto, igrejas católicas e protestantes: - reconheceram sua parcela de responsabilidade; - rejeitaram a culpa coletiva dos judeus; - passaram a condenar o antissemitismo.

A Nostra Aetate (artigo 4) afirma que o que aconteceu na Paixão “não pode ser imputado nem a todos os judeus que viviam na época, nem aos judeus de hoje”. Também diz que a Igreja “deplora o ódio, as perseguições e as manifestações de antissemitismo direcionadas aos judeus em qualquer tempo e por qualquer pessoa”.

Essa mudança foi um processo e depende de cada comunidade, inclusive do seu grupo de jovens.

6. Os Justos entre as Nações

É o título que o Yad Vashem, memorial do Holocausto do Estado de Israel, em Jerusalém, concede a não judeus que salvaram judeus no Holocausto, correndo risco real e sem buscar recompensa. São mais de 28.000 reconhecidos, entre eles muitos cristãos de várias igrejas e dois brasileiros.

A comissão do Yad Vashem exige quatro critérios: 1. Envolvimento ativo no resgate: proteger um ou mais judeus da ameaça de morte ou deportação. 2. Risco real à vida, à liberdade ou à posição de quem ajudou. 3. Motivação altruísta: ficam de fora casos movidos por pagamento, intenção de conversão religiosa ou adoção forçada. 4. Provas: testemunho do sobrevivente ou documentação primária sólida.

O título não é uma canonização. Não diz que a pessoa foi perfeita, nem que representa todo o seu país ou a sua igreja.

Os salvadores foram uma minoria que escolheu agir quando muitos se calaram ou colaboraram. Sempre houve escolha entre a indiferença, a colaboração e o auxílio aos perseguidos.

Alguns exemplos:

Nome País Ação
Corrie ten Boom Países Baixos Cristã reformada que, com a família, escondeu judeus em Haarlem
André Trocmé e a comunidade de Le Chambon-sur-Lignon França Comunidade protestante que escondeu judeus e providenciou documentos falsos, cartões de racionamento e rotas de fuga para a Suíça
Aristides de Sousa Mendes Portugal Diplomata católico que, em junho de 1940, em Bordéus, desobedeceu ao seu governo e emitiu milhares de vistos
Monsenhor Hugh O'Flaherty Itália Organizou em Roma uma rede que escondeu e retirou cerca de 4.000 pessoas
Pastor Gábor Sztehlo Hungria Pastor luterano que, com a Cruz Vermelha Internacional, criou lares em Budapeste e salvou cerca de 2.000 crianças judias
Andrey e Clementii Sheptytskyi Ucrânia Líderes greco-católicos que esconderam judeus em mosteiros
Padre Aleksei Glagolev Ucrânia Sacerdote ortodoxo em Kiev que, com a família, escondeu famílias judias e forneceu certidões de batismo falsas
Adélaïde Hautval França Médica protestante que, em Auschwitz, cuidou de doentes em segredo e recusou-se a participar dos experimentos médicos da SS
Aracy de Carvalho Guimarães Rosa Brasil No consulado em Hamburgo, ajudou judeus a obter vistos para o Brasil
Luiz Martins de Souza Dantas Brasil Embaixador na França, emitiu vistos contrariando orientações oficiais

Irena Sendler, assistente social polonesa da rede clandestina Zegota, retirou crianças judias do gueto de Varsóvia. Sua história envolve redes de resistência com pessoas de diferentes convicções, e não uma organização cristã.

7. Antissemitismo e anti-sionismo

A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA (Aliança Internacional para a Memória do Holocausto), da qual o Brasil faz parte.

Crítica legítima: discordar de uma lei, de uma política pública ou de uma decisão militar específica do governo de Israel, como se faz com qualquer governo.

Antissemitismo disfarçado de política: - responsabilizar todos os judeus pelo que faz o governo de Israel; - hostilizar judeus ou sinagogas no Brasil por causa do Oriente Médio; - usar velhos estereótipos (“controlam a mídia”, “são desleais ao país”); - negar aos judeus, e só a eles, o direito de ter um país.

Pergunta que ajuda a decidir: a crítica mira uma política concreta ou mira os judeus como grupo? Observe o conteúdo, o alvo, o contexto e a coerência.

O combate ao antissemitismo não envolve ódio a nenhum povo ou religião. Defender judeus não significa desprezar árabes, palestinos ou muçulmanos.

8. Nas redes e no dia a dia

O Museu Memorial do Holocausto dos EUA alerta que piadas, saudações nazistas e conteúdos de influenciadores normalizam o antissemitismo. O museu também aponta a ligação entre teorias conspiratórias, desinformação e ataques violentos. Numa pesquisa YouGov/The Economist de dezembro de 2023, 20% dos americanos de 18 a 29 anos concordaram que “o Holocausto é um mito”.

Sinais de alerta: - piadas sobre o Holocausto ou câmaras de gás; - símbolos e saudações nazistas; - negação ou relativização do Holocausto; - teorias de que “os judeus controlam” bancos, governos ou a imprensa; - “judeu” usado como insulto; - memes caricatos, como o do Happy Merchant.

Antes de compartilhar: 1. Pergunte se a postagem acusa pessoas concretas ou um povo inteiro. 2. Procure a fonte original. 3. Compare com museus do Holocausto, universidades e órgãos públicos. 4. Desconfie de “segredos revelados” e de conspirações universais. 5. Não amplifique: compartilhar “para denunciar” também espalha o conteúdo. 6. Guarde o link ou um print e denuncie à plataforma e às autoridades quando houver ameaça ou incitação. O glossário de expressões racistas da Polícia Federal ajuda a identificar esse tipo de conteúdo.

Frase para corrigir um meme: “Isso não é só humor. Repete um estereótipo que foi usado para perseguir judeus.”

Linha do tempo

Data Fato
Século III Cipriano de Cartago escreve que a antiga aliança fora anulada
386–387 João Crisóstomo prega em Antioquia sermões difamatórios contra as sinagogas
1523 Lutero escreve Que Jesus Cristo nasceu judeu, em tom tolerante, na esperança de que os judeus se convertessem
1543 Lutero escreve Sobre os judeus e suas mentiras e propõe queimar sinagogas, destruir casas, confiscar livros e expulsar judeus. Já na época, protestantes como Andreas Osiander criticam esses escritos
Junho de 1940 Aristides de Sousa Mendes emite milhares de vistos em Bordéus
1947 Os Dez Pontos de Seelisberg (Suíça) pedem que se lembre que Jesus e os apóstolos eram judeus e que a Paixão não seja apresentada de forma a culpar todos os judeus
1948 Em Amsterdã, o Conselho Mundial de Igrejas declara o antissemitismo “um pecado contra Deus e contra o homem”
1953 O Knesset, parlamento de Israel, aprova a lei que cria o Yad Vashem e inclui a tarefa de homenagear os salvadores
Fevereiro de 1963 Israel cria a comissão que avalia os pedidos de reconhecimento, presidida primeiro pelo juiz Moshe Landau
19/10/1965 Irena Sendler é reconhecida pelo Yad Vashem
28/10/1965 O Concílio Vaticano II, sob o Papa Paulo VI, promulga a Nostra Aetate
12/12/1967 Corrie ten Boom é reconhecida pelo Yad Vashem
03/06/1982 Aracy de Carvalho Guimarães Rosa é reconhecida pelo Yad Vashem
Décadas de 1980 e 1990 A EKD (Alemanha) e a ELCA (EUA) repudiam formalmente os escritos antijudaicos de Lutero. A declaração da ELCA, de 1994, denuncia as “diatribes antijudaicas” do reformador
2003 Luiz Martins de Souza Dantas é reconhecido
Dezembro de 2023 Pesquisa YouGov/The Economist: 20% dos americanos de 18 a 29 anos concordam que “o Holocausto é um mito”

5 perguntas para discussão

  1. O que muda na minha leitura dos Evangelhos quando lembro que Jesus rezava, ensinava e vivia como judeu? E o que Romanos 11 ensina sobre a relação entre a Igreja e o povo judeu?
  2. Como o mandamento de amar ao próximo exclui qualquer preconceito religioso ou racial? Que “piadas” ou teorias sobre judeus vocês já viram circular no celular?
  3. Na parábola do Bom Samaritano, dois religiosos passam ao largo. Os Justos foram exceção, não regra. O que nos faz “passar ao largo” hoje, e de que lado eu estaria?
  4. Por que é injusto culpar um judeu daqui pelo que faz o governo de outro país? Por que negar o direito de Israel existir é antissemitismo, e não simples crítica política?
  5. O que nosso grupo pode fazer, nesta semana, para defender o respeito, nas redes, na escola e na comunidade?

Para levar

  • Jesus, seus discípulos e os apóstolos eram judeus.
  • Nenhum judeu de hoje é culpado pela morte de Jesus. A Nostra Aetate e as igrejas protestantes rejeitaram essa acusação.
  • Antissemitismo é pecado e é preconceito, inclusive quando vem como meme.
  • Os Justos entre as Nações mostram que a fé que salva vidas se mostra em gestos concretos.
  • Criticar uma política é legítimo. Negar o direito de Israel existir é antissemitismo.
  • Não compartilhe ódio. Verifique, corrija e denuncie.
  • Estude com fontes confiáveis: Yad Vashem, Museu Memorial do Holocausto dos EUA, Museu do Holocausto de Curitiba, Museu Judaico de São Paulo e Conib.

Glossário

  • Antissemitismo: preconceito, hostilidade ou violência contra judeus, por motivos religiosos, étnicos, raciais, políticos ou conspiratórios.
  • Antijudaísmo: hostilidade ao judaísmo e aos judeus por motivo religioso.
  • Supersessionismo (teologia da substituição): tese de que a Igreja teria substituído o povo de Israel no plano de Deus.
  • Deicídio: acusação de que todos os judeus, de todas as épocas, seriam culpados pela morte de Jesus.
  • Ensino do desprezo: expressão de Jules Isaac para o conjunto de ideias cristãs hostis aos judeus.
  • Holocausto: perseguição e assassinato sistemático de cerca de seis milhões de judeus pela Alemanha nazista e seus colaboradores.
  • Nostra Aetate: declaração do Concílio Vaticano II (28/10/1965) que rejeita a culpa coletiva dos judeus e deplora o antissemitismo.
  • Yad Vashem: memorial do Holocausto do Estado de Israel, em Jerusalém.
  • Justos entre as Nações (Khassidei Umot HaOlam): não judeus reconhecidos pelo Yad Vashem por salvar judeus no Holocausto.
  • Knesset: parlamento de Israel.
  • IHRA: Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, da qual o Brasil faz parte. A JJO adota sua definição de antissemitismo.

Reflexão final

Senhor, Deus de Abraão, Isaac e Jacó, Deus de Jesus. Pedimos perdão pelas vezes em que palavras ditas em teu nome feriram o povo judeu. Afasta de nós o preconceito, a piada que humilha e a mentira que se espalha. Dá-nos coragem para defender quem é atacado, mesmo quando não está presente. Ensina-nos a amar o próximo com a verdade. Amém.

Quem preferir pode fazer a reflexão em silêncio, cada um com suas palavras.

Quiz: teste o que aprendeu

1. Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos EUA, o que é antissemitismo?

O museu define antissemitismo como preconceito, hostilidade ou violência contra judeus. O alvo pode ser o povo, uma pessoa, a religião, a cultura ou as instituições judaicas.

2. Em Romanos 11:17-18, que imagem Paulo usa para falar da relação entre os cristãos de origem não judaica e o povo judeu?

Paulo compara os cristãos de origem não judaica a ramos enxertados numa oliveira. Ele pede que esses ramos não se orgulhem diante da raiz que os sustenta.

3. Em que data o Concílio Vaticano II promulgou a declaração Nostra Aetate?

A Nostra Aetate foi promulgada em 28 de outubro de 1965, sob o Papa Paulo VI. Ela afirma que a Paixão não pode ser imputada a todos os judeus da época nem aos judeus de hoje.

4. Em que escrito de 1543 Martinho Lutero propôs queimar sinagogas e expulsar judeus?

Em 1543, em 'Sobre os judeus e suas mentiras', Lutero propôs queimar sinagogas, destruir casas, confiscar livros e expulsar judeus. Hoje as principais igrejas luteranas rejeitam formalmente esses escritos.

5. O que o Conselho Mundial de Igrejas declarou em Amsterdã, em 1948?

Em 1948, o Conselho Mundial de Igrejas declarou o antissemitismo 'um pecado contra Deus e contra o homem'. Foi um dos marcos da mudança das igrejas depois do Holocausto.

6. Qual foi uma ruptura do nazismo em relação ao antijudaísmo religioso?

O nazismo não foi um movimento cristão. Ele definiu o judeu pela 'raça', e não pela religião, e por isso perseguiu também convertidos, embora tenha se aproveitado de estereótipos antigos.

7. Pela definição da IHRA, adotada pela JJO, qual das atitudes abaixo é antissemitismo?

Criticar uma decisão concreta de um governo é legítimo. Negar ao povo judeu o direito a um Estado, direito reconhecido a outros povos, é antissemitismo.

8. Que tipo de ajuda o Yad Vashem NÃO aceita para conceder o título de Justo entre as Nações?

A comissão exige motivação altruísta. Ficam de fora os casos movidos por pagamento, intenção de conversão religiosa ou adoção forçada.

9. Quais brasileiros são oficialmente reconhecidos como Justos entre as Nações?

Aracy de Carvalho, do consulado em Hamburgo, foi reconhecida em 1982. Souza Dantas, embaixador na França, foi reconhecido em 2003.

10. Você recebe um meme que diz que 'os judeus controlam a imprensa'. Qual é a atitude recomendada?

Compartilhar 'para denunciar' também espalha o conteúdo. O certo é não amplificar, corrigir com calma, registrar e denunciar à plataforma e às autoridades quando houver ameaça ou incitação.

Cartões de estudo

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Purim - o Carnaval dos judeusPersio Bider

Visita à festa de Purim numa sinagoga do Bom Retiro, em São Paulo, com explicações de um rabino sobre a rainha Ester, o doce 'orelha de Hamã', as fantasias e a tradição de ajudar os necessitados. É um retrato descontraído e alegre da vida judaica na comunidade brasileira.

Crianças
O que é o Templo de Jerusalem? A história e arqueologia do Templo!Israel com a Aline

A guia Aline percorre Jerusalém contando a história do Primeiro e do Segundo Templo, de Abraão e Salomão até a destruição romana, com imagens do Muro Ocidental, do Arco de Tito e do interior do Domo da Rocha, o lugar do antigo Santo dos Santos. Mostra a ligação milenar do povo judeu com o Monte do Templo e explica o Tishá BeAv e o trabalho do Instituto do Templo.

Adolescentes e adultos
Purim - The Hidden Side of EventsTorah Animada

Animação que reconta a história de Purim e do Livro de Ester com comentários dos sábios e do midrash, ligando Mordechai e Ester aos patriarcas Jacó, José e Benjamim.

Crianças
Também em inglês: mais 3 vídeos sobre o tema

Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).

ARQUEOLOGIA DO TEMPLO DE JERUSALEM! Dentro do Templo de Jerusalém!Israel com a Aline · em inglês

Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.

Passeio pelo Parque Arqueológico Davidson, pelo subterrâneo do Monte do Templo e pelo Museu de Israel, mostrando vestígios do Segundo Templo de Jerusalém: mikvaot, a inscrição do 'lugar do toque da trombeta', o ossuário de Caifás e a remoção de terra arqueológica pelo Waqf em 1996. Reforça o vínculo histórico do povo judeu com Jerusalém.

Adolescentes e adultos
VAMOS CONHECER O JUDAISMO ASQUENAZITA! Quem são os judeus?Israel com a Aline · em inglês

Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.

A educadora Aline, judia asquenazita, apresenta a origem dos judeus asquenazitas desde a expulsão da Judeia pelos romanos e sua vida na Europa Central e Oriental, com o iídiche, a música klezmer, as roupas e a culinária. O vídeo também aborda as perseguições antissemitas, as expulsões medievais e o Holocausto.

Adolescentes e adultos
COMO É O SHABBAT? O que os judeus fazem no sábado?Israel com a Aline · em inglês

Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.

A guia Aline, em sua casa em Jerusalém, explica a origem bíblica do Shabat, as atividades proibidas e soluções do dia a dia, como a placa térmica e o elevador de Shabat. Depois demonstra o acendimento das velas, o kidush, a lavagem das mãos e a bênção das chalot.

Adolescentes e adultos

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Jovens da igreja e o antissemitismo: roteiro para o grupo de jovens

Este roteiro ajuda grupos de jovens católicos e evangélicos a entender o antissemitismo, que é preconceito, hostilidade ou violência contra judeus. Em cerca de…

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Cristãos que salvaram judeus no Holocausto: os Justos entre as Nações

Justos entre as Nações é o título que o Yad Vashem, em Israel, concede a não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus…

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