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Jovens da igreja e o antissemitismo

Em resumo

Este roteiro ajuda grupos de jovens católicos e evangélicos a entender o antissemitismo, que é preconceito, hostilidade ou violência contra judeus. Em cerca de uma hora, o grupo lê Romanos 11, lembra que Jesus era judeu, conhece a história do antijudaísmo cristão e a virada da Nostra Aetate (1965), aprende a reconhecer o ódio nas redes e termina com uma reflexão sobre o amor ao próximo e a verdade.

ParaIgrejas
Idade15 a 17 anos · Adultos
Extensão2 encontros
TemaReligião
FormatoRoteiro para grupos
Situaçãodisponível

Qual é o objetivo deste encontro de jovens?

A proposta é que o grupo entenda o que é antissemitismo, conheça a sua história dentro e fora das igrejas e saia do encontro com atitudes concretas para combatê-lo.

Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, o antissemitismo é preconceito, hostilidade ou violência contra judeus, e pode ter como alvo o povo, uma pessoa, a religião, a cultura ou as instituições judaicas.

O encontro serve tanto para católicos quanto para evangélicos e se apoia em três princípios que as duas tradições têm em comum:

  • O mandamento de Jesus de amar ao próximo não combina com nenhum preconceito religioso ou racial.
  • É preciso reconhecer os erros do passado com verdade histórica, sem culpar os cristãos de hoje.
  • A dignidade humana pede que se defenda o judeu concreto, mesmo quando ele não está presente.

Sugestão de roteiro:

MomentoConteúdo
AberturaPergunta inicial e apresentação do tema
Leitura bíblicaRomanos 11 e o Jesus judeu
HistóriaAntijudaísmo cristão, deicídio, Lutero
MudançaSeelisberg, Conselho Mundial de Igrejas, Nostra Aetate
HojeRedes sociais, Israel e antissemitismo
Conversa em grupoPerguntas abertas
EncerramentoReflexão ou oração e “Para levar”

Pergunta de abertura: “Quando ouvimos a palavra antissemitismo, pensamos logo no nazismo. Vocês sabiam que a história das igrejas também carrega um passado doloroso de preconceito contra os judeus?”

Quais textos bíblicos o grupo pode ler?

Os textos centrais são Romanos 11:1-2 e Romanos 11:17-18. Neles o apóstolo Paulo reafirma a aliança de Deus com o povo judeu e usa a imagem da oliveira.

  • Romanos 11:1-2: Paulo pergunta se Deus rejeitou o seu povo e responde que não. É um bom ponto de partida para desmontar a ideia de que Deus abandonou os judeus.
  • Romanos 11:17-18: os cristãos de origem não judaica são comparados a ramos enxertados numa oliveira, e Paulo pede que esses ramos não se orgulhem diante da raiz que os sustenta.
  • O mandamento do amor ao próximo: ensinado por Jesus como resumo da vida de fé.

Explicação para o líder:

  • Jesus, seus primeiros discípulos e os apóstolos eram judeus. Os Dez Pontos de Seelisberg, de 1947, já pediam que os cristãos lembrassem disso.
  • Educadores cristãos alertam contra um clichê comum, que opõe o “Deus do Antigo Testamento”, apresentado como só de ira, ao “Deus do Novo Testamento”, apresentado como só de amor. Essa leitura ignora que a compaixão de Deus está no centro da Bíblia hebraica.
  • O primeiro passo contra o preconceito é ler os Evangelhos sem apagar o contexto judaico de Jesus.

Pergunta rápida: “O que muda na minha leitura dos Evangelhos quando lembro que Jesus rezava, ensinava e vivia como judeu?”

De onde vem o preconceito contra judeus na história cristã?

Durante séculos, comunidades cristãs europeias difundiram acusações e estereótipos contra judeus, entre eles a ideia de que seriam coletivamente culpados pela morte de Jesus.

O Yad Vashem, memorial do Holocausto em Israel, identifica uma continuidade entre o antissemitismo cristão, o nacionalista e o racial que antecederam o nazismo. Convém distinguir dois termos:

  • Antijudaísmo: hostilidade ao judaísmo e aos judeus por motivo religioso.
  • Antissemitismo: termo mais amplo, que inclui o ódio por motivos étnicos, raciais, políticos ou conspiratórios.

Ideias que alimentaram o preconceito:

  • Teologia da substituição (supersessionismo): a tese de que a Igreja teria substituído o povo de Israel no plano de Deus.
  • Acusação de deicídio: culpar todos os judeus, de todas as épocas, pela morte de Jesus. O historiador Jules Isaac chamou esse conjunto de ideias de “ensino do desprezo”.
  • Sermões e tratados hostis: no século III, Cipriano de Cartago escreveu que a antiga aliança fora anulada; em Antioquia (386 a 387), João Crisóstomo pregou sermões com linguagem difamatória contra as sinagogas.

O caso de Martinho Lutero mostra duas fases:

AnoEscritoConteúdo
1523Que Jesus Cristo nasceu judeuTom tolerante, na esperança de que os judeus se convertessem
1543Sobre os judeus e suas mentirasPropôs queimar sinagogas, destruir casas, confiscar livros e expulsar judeus

Já na época, protestantes como Andreas Osiander criticaram esses escritos, e hoje as principais igrejas luteranas os rejeitam formalmente.

Sobre o deicídio, há pontos firmes: a crucificação foi uma execução romana, Jesus era judeu e ninguém responde por um crime atribuído a antepassados. Em vários lugares e épocas, essas ideias contribuíram para segregação, expulsões, conversões forçadas e violência. Isso não quer dizer que todos os cristãos tenham sido perseguidores, porque também houve cristãos que protegeram judeus.

Os nazistas eram cristãos?

O nazismo não foi um movimento religioso cristão. Transformou o ódio aos judeus numa ideologia racial e genocida, mas se aproveitou de preconceitos que séculos de antijudaísmo cristão tinham espalhado.

O Holocausto foi a perseguição e o assassinato sistemático de cerca de seis milhões de judeus pela Alemanha nazista e seus colaboradores, segundo o Museu Memorial do Holocausto dos EUA.

Os historiadores discutem até que ponto o antijudaísmo cristão e o antissemitismo racial nazista estão ligados, mas há consenso em alguns pontos:

  • Houve continuidade de imagens hostis e estereótipos que deixaram as comunidades judaicas vulneráveis em partes da Europa.
  • Houve também ruptura, já que o nazismo definiu o judeu pela “raça”, e não pela religião, e por isso perseguiu inclusive judeus convertidos.
  • Pesaram as escolhas individuais: muitas pessoas e instituições colaboraram, outras se omitiram e algumas resistiram.

Dizer que “todo cristão é antissemita” ou que “o cristianismo sozinho causou o Holocausto” é uma generalização errada. Essa história envolve antijudaísmo religioso, nacionalismo, racismo moderno, teorias conspiratórias e decisões do Estado nazista. O teólogo Franklin Littell, em texto publicado pelo Yad Vashem, está entre os que pediram que as igrejas encarassem esse passado com honestidade.

Como as igrejas mudaram depois do Holocausto?

Depois do Holocausto, igrejas católicas e protestantes reconheceram sua parcela de responsabilidade, rejeitaram a culpa coletiva dos judeus e passaram a condenar o antissemitismo.

Marcos principais:

  • 1947, Seelisberg (Suíça): os Dez Pontos de Seelisberg pedem que se lembre que Jesus e os apóstolos eram judeus e que a Paixão não seja apresentada de forma a culpar todos os judeus.
  • 1948, Amsterdã: o Conselho Mundial de Igrejas declara o antissemitismo “um pecado contra Deus e contra o homem”.
  • 28 de outubro de 1965: o Concílio Vaticano II, sob o Papa Paulo VI, promulga a declaração Nostra Aetate.
  • Décadas de 1980 e 1990: igrejas luteranas, como a EKD na Alemanha e a ELCA nos EUA, repudiam formalmente os escritos antijudaicos de Lutero. A declaração da ELCA, de 1994, denuncia as “diatribes antijudaicas” do reformador.

No artigo 4, a Nostra Aetate diz que o que aconteceu na Paixão “não pode ser imputado nem a todos os judeus que viviam na época, nem aos judeus de hoje”, e que a Igreja “deplora o ódio, as perseguições e as manifestações de antissemitismo direcionadas aos judeus em qualquer tempo e por qualquer pessoa”.

Essa mudança foi um processo, que não aconteceu de uma vez nem em todo lugar. Por isso continua dependendo de cada comunidade, inclusive do seu grupo de jovens.

Qual a diferença entre antissemitismo e anti-sionismo?

Criticar uma decisão do governo de Israel não é antissemitismo. Negar o direito de Israel existir, sim.

A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA (Aliança Internacional para a Memória do Holocausto). Por esse critério, é antissemitismo negar ao povo judeu o direito a um Estado, direito que se reconhece a outros povos.

Exemplos de crítica política legítima:

  • discordar de uma lei, de uma política pública ou de uma decisão militar específica, como se faz com qualquer governo.

Exemplos de antissemitismo disfarçado de política:

  • responsabilizar todos os judeus pelo que faz o governo de Israel;
  • hostilizar judeus ou sinagogas no Brasil por causa do Oriente Médio;
  • usar velhos estereótipos (“controlam a mídia”, “são desleais ao país”) contra Israel ou contra judeus;
  • negar aos judeus, e só a eles, o direito de ter um país.

Pergunta que ajuda a decidir: a crítica mira uma política concreta ou mira os judeus como grupo? Para responder, observe o conteúdo, o alvo e o contexto, e veja se há coerência com o que se diz de outros países.

Combater o antissemitismo não envolve ódio a nenhum povo ou religião, e defender judeus não significa desprezar árabes, palestinos ou muçulmanos.

Como combater o antissemitismo nas redes e no dia a dia?

O combate começa quando a gente reconhece o preconceito, inclusive quando ele aparece como “piada”, e responde com informação, firmeza e respeito.

O Museu Memorial do Holocausto dos EUA alerta que piadas, saudações nazistas e conteúdos de influenciadores normalizam o antissemitismo, e aponta a ligação entre teorias conspiratórias, desinformação e ataques violentos. Entre os jovens o tema pesa: numa pesquisa YouGov/The Economist de dezembro de 2023, 20% dos americanos de 18 a 29 anos concordaram que “o Holocausto é um mito”.

Sinais de alerta nas redes:

  • piadas sobre o Holocausto ou câmaras de gás;
  • símbolos e saudações nazistas;
  • negação ou relativização do Holocausto;
  • teorias de que “os judeus controlam” bancos, governos ou a imprensa;
  • “judeu” usado como insulto;
  • memes caricatos, como o do Happy Merchant.

Antes de compartilhar:

  • Pergunte se a postagem acusa pessoas concretas ou um povo inteiro.
  • Procure a fonte original.
  • Compare com museus do Holocausto, universidades e órgãos públicos.
  • Desconfie de “segredos revelados” e de conspirações universais.
  • Não amplifique, porque compartilhar “para denunciar” também espalha o conteúdo.
  • Guarde o link ou um print e, quando houver ameaça ou incitação, denuncie à plataforma e às autoridades. A Polícia Federal mantém um glossário de expressões racistas que ajuda a identificar esse tipo de conteúdo.

Uma frase para corrigir um meme: “Isso não é só humor. Repete um estereótipo que foi usado para perseguir judeus.”

Perguntas para conversa em grupo:

  • Como o mandamento de amar ao próximo exclui qualquer preconceito religioso ou racial?
  • Que “piadas” ou teorias sobre judeus vocês já viram circular no celular?
  • Por que é injusto culpar um judeu daqui pelo que faz o governo de outro país?
  • O que Romanos 11 ensina sobre a relação entre a Igreja e o povo judeu?
  • O que nosso grupo pode fazer, nesta semana, para defender o respeito?

Como encerrar o encontro com uma reflexão respeitosa?

Para terminar, faça um momento de silêncio e uma reflexão que católicos e evangélicos possam fazer juntos, sem tentar falar em nome dos judeus.

Sugestão de reflexão ou oração:

Senhor, Deus de Abraão, Isaac e Jacó, Deus de Jesus. Pedimos perdão pelas vezes em que palavras ditas em teu nome feriram o povo judeu. Afasta de nós o preconceito, a piada que humilha e a mentira que se espalha. Dá-nos coragem para defender quem é atacado, mesmo quando não está presente. Ensina-nos a amar o próximo com a verdade. Amém.

Quem preferir pode fazer a reflexão em silêncio, cada um com suas palavras.

Para levar:

  • Jesus, seus discípulos e os apóstolos eram judeus.
  • Nenhum judeu de hoje é culpado pela morte de Jesus, acusação que a Nostra Aetate e as igrejas protestantes rejeitaram.
  • Antissemitismo é pecado e é preconceito, inclusive quando vem em forma de meme.
  • Criticar uma política é legítimo, mas negar o direito de Israel existir é antissemitismo.
  • Não compartilhe ódio: verifique, corrija e denuncie.
  • Estude com fontes confiáveis, como o Yad Vashem, o Museu Memorial do Holocausto dos EUA, o Museu do Holocausto de Curitiba, o Museu Judaico de São Paulo e a Conib.

Perguntas frequentes

Os nazistas eram cristãos?
O nazismo não foi um movimento cristão. Foi uma ideologia racial e genocida que perseguiu os judeus pela suposta “raça”, inclusive os convertidos, mas que se aproveitou de estereótipos espalhados por séculos de antijudaísmo cristão. Houve cristãos que colaboraram, outros que se omitiram e alguns que protegeram judeus. Culpar todos os cristãos de hoje é uma generalização errada.
Qual a diferença entre antissemitismo e anti-sionismo?
Criticar uma decisão do governo de Israel, como se critica qualquer governo, não é antissemitismo. Pela definição da IHRA, adotada pela JJO, negar ao povo judeu o direito de ter um Estado é antissemitismo, assim como culpar todos os judeus pelo que faz Israel ou hostilizar judeus brasileiros por causa do Oriente Médio.
Como combater o antissemitismo?
Conheça a história e a cultura judaicas e leia os Evangelhos lembrando que Jesus era judeu. Rejeite a culpa coletiva e corrija piadas e memes com calma. Antes de compartilhar, verifique as fontes, e não amplifique o ódio. Quando houver ameaça ou incitação, registre e denuncie à plataforma e às autoridades. E defenda quem é atacado, mesmo quando não está presente.
A Igreja Católica ainda culpa os judeus pela morte de Jesus?
Não. Em 28 de outubro de 1965, a declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II, afirmou que o que aconteceu na Paixão não pode ser imputado a todos os judeus da época nem aos judeus de hoje, e deplorou o antissemitismo “em qualquer tempo e por qualquer pessoa”. Igrejas protestantes adotaram posições semelhantes.

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