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Roteiro para grupos · gratuito

Cristãos que salvaram judeus

Em resumo

Justos entre as Nações é o título que o Yad Vashem, em Israel, concede a não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus no Holocausto sem pedir nada em troca. Entre os mais de 28.000 reconhecidos há muitos cristãos, como Corrie ten Boom, o pastor André Trocmé e a comunidade de Le Chambon-sur-Lignon. Na lista estão também dois brasileiros, Aracy de Carvalho e Luiz Martins de Souza Dantas.

ParaIgrejas · Escolas
Idade15 a 17 anos · Adultos
Extensão2 encontros
TemaHolocausto
FormatoRoteiro para grupos
Situaçãodisponível

Quem são os Justos entre as Nações e qual é o objetivo deste encontro?

Os Justos entre as Nações são não judeus que salvaram judeus durante o Holocausto, correndo risco real e sem buscar recompensa. Quem concede o título é o Yad Vashem, o memorial do Holocausto do Estado de Israel, em Jerusalém.

A expressão vem da tradição judaica (Khassidei Umot HaOlam) e designa pessoas de outros povos que ajudaram o povo judeu em momentos de perigo. Em 1953, o Knesset, parlamento de Israel, aprovou a lei que criou o Yad Vashem e lhe deu também a tarefa de homenagear esses salvadores.

Objetivo do encontro:

  • Conhecer histórias reais de cristãos, católicos e evangélicos, que protegeram judeus perseguidos pelo nazismo.
  • Refletir, à luz da Bíblia, sobre o dever de proteger quem está em perigo.
  • Perguntar, com honestidade, o que essas histórias pedem de nós hoje diante do antissemitismo e da indiferença.

O roteiro foi pensado para grupos de igreja, pastorais, células e escolas bíblicas. Respeita as duas tradições e não pede a ninguém que deixe de lado a própria fé.

Como alguém é reconhecido como Justo entre as Nações?

O reconhecimento depende de uma comissão do Yad Vashem que examina provas e testemunhos. Em fevereiro de 1963, Israel criou uma comissão especial para avaliar cada pedido, presidida por um juiz da Suprema Corte; o primeiro a ocupar a presidência foi o juiz Moshe Landau.

A comissão exige quatro critérios:

  • Envolvimento ativo no resgate, isto é, ter protegido um ou mais judeus da ameaça de morte ou deportação.
  • Risco real à vida, à liberdade ou à posição de quem ajudou.
  • Motivação altruísta, o que deixa de fora os casos movidos por pagamento, intenção de conversão religiosa ou adoção forçada.
  • Provas, seja o testemunho do sobrevivente, seja documentação primária sólida.

Quem é reconhecido recebe uma medalha e um certificado de honra, e seu nome é gravado no Muro de Honra do Jardim dos Justos, em Jerusalém. Israel também concede cidadania honorária aos salvadores ou, quando já falecidos, cidadania em memória. Em homenagem a eles foram plantadas árvores, como oliveiras e alfarrobeiras.

Um ponto importante para o grupo: o título reconhece, com base em documentos, uma ajuda concreta prestada a judeus. Ele não equivale a uma canonização, não afirma que a pessoa foi perfeita e não a torna representante de todo o seu país ou da sua igreja.

Quais cristãos estão entre os Justos entre as Nações?

Há cristãos de muitas denominações entre os Justos: católicos, protestantes, ortodoxos, batistas e adventistas. Alguns exemplos documentados:

  • Corrie ten Boom (Países Baixos), cristã reformada, escondeu judeus em Haarlem junto com a família. O Yad Vashem a reconheceu em 12 de dezembro de 1967. Foi em sua fé que ela encontrou parte do fundamento para proteger os perseguidos.
  • Le Chambon-sur-Lignon (França) é uma comunidade protestante que escondeu judeus e providenciou documentos falsos, cartões de racionamento e rotas de fuga para a Suíça, com papel central do pastor André Trocmé. O Yad Vashem documenta essa ação coletiva.
  • Aristides de Sousa Mendes (Portugal), diplomata católico, desobedeceu às ordens do seu governo em junho de 1940, em Bordéus, e emitiu milhares de vistos. Disse que agia segundo a sua consciência cristã.
  • Monsenhor Hugh O'Flaherty (Itália), sacerdote católico irlandês, organizou em Roma uma rede clandestina que escondeu e retirou cerca de 4.000 pessoas, entre judeus italianos e prisioneiros de guerra.
  • O pastor luterano Gábor Sztehlo (Hungria) criou em Budapeste, com a Cruz Vermelha Internacional, lares protegidos que salvaram cerca de 2.000 crianças judias, inclusive de famílias convertidas ao cristianismo.
  • O metropolita Andrey Sheptytskyi e o abade Clementii Sheptytskyi (Ucrânia), líderes greco-católicos, usaram mosteiros para esconder dezenas de crianças e adultos judeus.
  • O padre Aleksei Glagolev (Ucrânia), sacerdote ortodoxo em Kiev, escondeu famílias judias com a esposa Tatiana e os filhos e forneceu certidões de batismo falsas.
  • A doutora Adélaïde Hautval (França), médica protestante, foi presa por protestar contra os maus-tratos aos judeus. Em Auschwitz, cuidou de doentes em segredo e recusou-se a participar dos experimentos médicos da SS.

Cabe incluir ainda Irena Sendler, assistente social polonesa da rede clandestina Zegota, que retirou crianças judias do gueto de Varsóvia e as protegeu com identidades falsas. O Yad Vashem a reconheceu em 19 de outubro de 1965. A história dela se passa em redes de resistência que reuniam pessoas de diferentes convicções, fora de qualquer organização cristã.

Há brasileiros entre os Justos entre as Nações?

Sim. Dois brasileiros são oficialmente reconhecidos: Aracy de Carvalho Guimarães Rosa e Luiz Martins de Souza Dantas, segundo o Museu do Holocausto de Curitiba.

  • Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa trabalhava no consulado brasileiro em Hamburgo e ajudou judeus a obter vistos para o Brasil e a superar dificuldades financeiras para sair da Alemanha. Foi reconhecida pelo Yad Vashem em 3 de junho de 1982. Circula bastante a história popular de que ela “apagava a letra J” dos passaportes, mas os detalhes devem ser apresentados com base em documentos.
  • Luiz Martins de Souza Dantas, embaixador do Brasil na França, emitiu vistos para refugiados, inclusive judeus, contrariando orientações oficiais e pondo a carreira em risco. O Museu do Holocausto de Curitiba registra que ele concedeu vistos “irregulares” de próprio punho e foi reconhecido em 2003. A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) também descreve sua ajuda a quem fugia do nazismo.

Os dois casos mostram que a coragem pode nascer do dever profissional e da consciência pessoal, mesmo sem uma motivação religiosa declarada.

Os cristãos foram todos heroicos durante o Holocausto?

Não. A lição honesta é que os salvadores foram uma minoria que escolheu agir quando muitos se calaram ou colaboraram. As histórias dos Justos não provam que cristãos, diplomatas ou comunidades inteiras foram uniformemente heroicos.

O próprio reconhecimento do Yad Vashem preserva essa diferença. Mesmo sob um regime de terror, pessoas e grupos ainda tinham margem para escolher entre:

  • a indiferença;
  • a colaboração;
  • o auxílio aos perseguidos.

A perseguição foi sistêmica, mas não determinou por completo a resposta humana. Nem em Le Chambon-sur-Lignon o reconhecimento quer dizer que todos os moradores participaram da mesma forma: o que se homenageia é a ação de parte expressiva da comunidade.

Para um grupo de igreja, essa honestidade é um presente, porque evita o orgulho fácil e convida cada pessoa a perguntar: e eu, de que lado estaria?

Que textos bíblicos ajudam a refletir sobre os Justos?

Vários textos da Bíblia, lidos por católicos e evangélicos, falam do dever de proteger a vida e acolher o perseguido. Sugestões para leitura em grupo (cada participante pode usar a sua tradução):

  • Gênesis, o relato da criação: o ser humano é criado à imagem de Deus, e por isso toda vida tem dignidade.
  • Êxodo, as parteiras Sifrá e Puá: elas temem a Deus e se recusam a cumprir a ordem do faraó de matar os meninos hebreus.
  • Levítico e os Evangelhos: o mandamento “amarás o teu próximo como a ti mesmo”, que Jesus retoma como um dos maiores mandamentos.
  • Evangelho de Lucas, a parábola do Bom Samaritano: o próximo é aquele que para, se arrisca e cuida de quem foi deixado à beira do caminho.
  • Evangelho de Mateus, o juízo das nações: “era estrangeiro e me acolhestes”.

Explicação para o grupo: foi dessas convicções que Corrie ten Boom e a comunidade de Le Chambon-sur-Lignon tiraram força para esconder judeus, e Aristides de Sousa Mendes falou da sua consciência cristã. Nesses casos a fé virou atitude concreta: abrir a porta, falsificar um documento para salvar uma vida, emitir um visto, esconder uma criança.

Convém lembrar ao grupo que Jesus, seus discípulos e as parteiras do Êxodo eram judeus. Quem honra os Justos honra também o povo judeu, de onde vêm essas Escrituras.

Que perguntas usar na conversa em grupo?

Estas perguntas ajudam o grupo a ligar as histórias à vida de hoje. Escolha duas ou três, conforme o tempo:

  • Qual das histórias mais tocou você? Por quê?
  • Corrie ten Boom e o pastor Trocmé arriscaram tudo. O que torna uma pessoa capaz de agir quando todos ao redor se calam?
  • Na parábola do Bom Samaritano, dois religiosos passam ao largo. O que nos faz “passar ao largo” hoje?
  • Aracy de Carvalho e Souza Dantas eram funcionários públicos. Como o trabalho de cada um de nós pode servir à proteção de alguém?
  • O Yad Vashem não aceita como Justo quem ajudou para converter ou para receber dinheiro. O que isso ensina sobre ajudar o outro sem interesse?
  • Onde vemos hoje preconceito contra judeus, na internet, na escola, em piadas? Como podemos responder com firmeza e sem ódio a ninguém?

Sobre o antissemitismo hoje: a JJO adota a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), da qual o Brasil faz parte. A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião. Pelo critério da IHRA, negar o direito de Israel existir também é antissemitismo.

Como encerrar o encontro com oração ou reflexão?

Termine com um momento de silêncio e uma oração simples, que católicos e evangélicos possam rezar juntos. Quem preferir pode fazer só uma reflexão pessoal.

Sugestão de oração:

Senhor, Deus da vida, nós te agradecemos pelos homens e mulheres que, nos anos mais sombrios, abriram suas casas e arriscaram a própria vida para proteger judeus perseguidos. Lembramos com respeito os milhões que não puderam ser salvos. Livra-nos da indiferença e do silêncio diante do ódio. Dá-nos coragem para defender quem é perseguido, olhos para ver o próximo e mãos prontas para servir. Que nunca mais o antissemitismo encontre abrigo em nossos corações, em nossas igrejas e em nossa sociedade. Amém.

Para levar:

  • Os Justos entre as Nações são não judeus que salvaram judeus no Holocausto, reconhecidos pelo Yad Vashem, em Israel.
  • São mais de 28.000 pessoas, entre elas muitos cristãos de várias igrejas e dois brasileiros.
  • Eles foram exceção. Sempre houve a escolha entre omitir-se, colaborar ou ajudar.
  • A fé que salva vidas se mostra em gestos concretos.
  • Combater o antissemitismo hoje é uma forma de honrar a memória dos Justos.

Quem quiser aprofundar encontra material educativo do Museu do Holocausto de Curitiba sobre os Justos entre as Nações.

Perguntas frequentes

Quem são os Justos entre as Nações?
São não judeus que salvaram judeus durante o Holocausto correndo risco real à vida, à liberdade ou à posição, sem buscar recompensa. O título é concedido pelo Yad Vashem, em Israel, depois da análise de provas e testemunhos. Os reconhecidos recebem medalha e certificado de honra e têm o nome gravado no Jardim dos Justos, em Jerusalém. Israel também pode conceder cidadania honorária ou, após a morte, cidadania em memória.
Qual é a lista dos Justos entre as Nações?
O registro oficial fica com o Yad Vashem e reúne mais de 28.000 pessoas reconhecidas. Entre os cristãos estão Corrie ten Boom, o pastor André Trocmé e a comunidade de Le Chambon-sur-Lignon, Aristides de Sousa Mendes, Monsenhor Hugh O'Flaherty e o pastor Gábor Sztehlo. Os brasileiros reconhecidos são Aracy de Carvalho Guimarães Rosa e Luiz Martins de Souza Dantas.
Ser reconhecido como Justo entre as Nações é uma canonização?
Não. O título não declara que a pessoa foi perfeita nem que representa todo o seu país ou a sua igreja. O Yad Vashem homenageia, com base em documentos e testemunhos, a ajuda concreta prestada a judeus perseguidos pelo nazismo, e por isso a comissão exclui casos de ajuda motivada por dinheiro, intenção de conversão religiosa ou adoção forçada.
Quais brasileiros são Justos entre as Nações?
Há dois brasileiros oficialmente reconhecidos. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, funcionária do consulado em Hamburgo, ajudou judeus a obter vistos para o Brasil e foi reconhecida em 1982. Luiz Martins de Souza Dantas, embaixador na França, emitiu vistos contrariando ordens oficiais e foi reconhecido em 2003, segundo o Museu do Holocausto de Curitiba.

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