O Irã lidera o chamado “eixo da resistência”, rede de grupos armados que inclui o Hezbollah, no Líbano, o Hamas, a Jihad Islâmica, os houthis, no Iêmen, e milícias no Iraque e na Síria. Por meio da Força Quds, da Guarda Revolucionária, Teerã financia, arma, treina e coordena esses grupos, que atacaram Israel após 7 de outubro de 2023. Em 2024, o próprio Irã atacou Israel diretamente duas vezes.
Quem faz parte do “eixo da resistência”?
O “eixo da resistência” é a rede de aliados armados do regime iraniano: Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, os houthis no Iêmen e milícias no Iraque e na Síria.
Não é uma organização única com comando público unificado. É um conjunto de parceiros que Teerã sustenta com dinheiro, armas, treinamento e tecnologia. O nome foi escolhido pelo próprio regime. A palavra “resistência” faz parecer reação o que, na prática, é uma estratégia.
O principal instrumento dessa estratégia é a Força Quds, unidade de elite da Guarda Revolucionária Islâmica. Ela foi criada em 1990 com a missão declarada de “exportar a revolução”. A doutrina iraniana, chamada de “defesa avançada”, busca três objetivos:
- afastar os conflitos do território do próprio Irã;
- criar dissuasão contra adversários sem guerra aberta;
- pressionar Israel e os interesses ocidentais com margem para negar a autoria.
Israel descreve essa rede como uma guerra por procuração. O grau de controle iraniano varia de grupo para grupo. O Hezbollah é o aliado mais integrado. As milícias iraquianas e os houthis conservam mais autonomia. Mas o financiamento, as armas e a coordenação estão documentados, segundo a Reuters e o Departamento de Estado dos EUA.
Qual a origem do Hezbollah e por que o Irã o apoia?
O Hezbollah foi fundado em 1982 no Líbano, com apoio direto do Irã, e se tornou a peça central da estratégia iraniana contra Israel.
O grupo surgiu durante a operação israelense no Líbano, lançada contra a OLP, que atacava o norte de Israel a partir do território libanês. Cerca de mil instrutores da Guarda Revolucionária iraniana ajudaram a formá-lo. No manifesto de 1985, o Hezbollah declarou lealdade ao aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica.
O Irã apoia o Hezbollah porque o grupo é sua principal força de dissuasão na fronteira de Israel. Há estimativas diferentes sobre o valor:
- o Departamento de Estado dos EUA fala em centenas de milhões de dólares por ano;
- outras estimativas chegam a cerca de US$ 700 milhões por ano.
As Forças de Defesa de Israel (FDI) estimam o arsenal do grupo em mais de 120 mil mísseis e foguetes, além de drones, mísseis antinavio e defesa aérea. É uma estimativa, não uma contagem exata.
O Hezbollah combateu Israel no sul do Líbano até a retirada israelense, em 2000. Em 12 de julho de 2006, um ataque do grupo através da fronteira desencadeou a Guerra do Líbano, de 34 dias, na qual disparou mais de 4.000 foguetes contra o norte de Israel.
Quem o Hezbollah apoia e o Hezbollah é só um partido?
O Hezbollah apoia o regime iraniano e os demais membros do eixo. Ele não é só um partido: é uma milícia armada que age fora do comando do Estado libanês.
Na rede iraniana, o Hezbollah funciona como braço instrutor e agente de expansão:
- por meio da Unidade 3800, treinou milícias xiitas no Iraque e os houthis no Iêmen;
- a partir de 2012–2013, interveio na guerra civil da Síria para garantir a sobrevivência do regime de Bashar al-Assad e proteger o corredor de suprimentos entre Teerã e Beirute;
- em maio de 2021, montou com o Irã, o Hamas e a Jihad Islâmica uma “sala de guerra conjunta” em Beirute para coordenar inteligência e lançamentos de mísseis contra Israel.
É verdade que o grupo tem deputados no Líbano desde 1992 e presta serviços sociais. O Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), de Israel descreve o Hezbollah como partido, rede social, milícia e organização terrorista ao mesmo tempo. A própria liderança rejeita a separação. Em 2000, Naim Qassem falou em “uma única liderança, com uma única administração”.
Israel, EUA, Reino Unido, Argentina, Paraguai e Alemanha listam a organização inteira como terrorista. A União Europeia lista o “braço militar”. O Brasil não lista o grupo.
Muitos libaneses criticam o Hezbollah por arrastar o país para guerras. A crítica aqui é à organização e a seus atos, não a libaneses, xiitas ou muçulmanos.
O que o eixo fez contra Israel depois de 7 de outubro de 2023?
Depois do massacre de 7 de outubro de 2023, os aliados do Irã abriram várias frentes contra Israel. Naquele dia, os terroristas do Hamas mataram cerca de 1.200 pessoas e sequestraram cerca de 250 reféns.
Hezbollah (Líbano). Em 8 de outubro de 2023, um dia depois do ataque do Hamas, o grupo abriu fogo contra o norte de Israel com mísseis, foguetes e drones, em apoio ao Hamas. Israel reagiu. Em 30 de julho de 2024, eliminou Fu'ad Shukr em Beirute. Em 17 e 18 de setembro de 2024, milhares de pagers e walkie-talkies explodiram nas fileiras do grupo. Em 27 de setembro de 2024, um ataque aéreo eliminou o secretário-geral Hassan Nasrallah. Em 27 de novembro de 2024, Israel e o Hezbollah aceitaram um cessar-fogo. Segundo estimativas israelenses, o grupo perdeu cerca de 5.000 combatentes e cerca de 80% de seus mísseis de curto alcance.
Houthis (Iêmen). O movimento Ansar Allah tomou a capital Sanaa em 2014 e o porto de Hodeidah em 2015. Seu lema, adotado em 2001, inclui “Morte a Israel” e “Maldição aos judeus”. Em 19 de outubro de 2023, os houthis lançaram os primeiros mísseis de cruzeiro e drones contra Israel. Em 31 de outubro, dispararam um míssil balístico contra Eilat. A partir de novembro de 2023, com o sequestro do navio Galaxy Leader, passaram a atacar a navegação comercial no Mar Vermelho. Em 19 de julho de 2024, um drone houthi voou mais de 2.600 km e atingiu um prédio em Tel Aviv, matando um civil. No dia seguinte, Israel atacou o porto de Hodeidah.
Milícias do Iraque e da Síria. Grupos como Kata'ib Hezbollah, Asa'ib Ahl al-Haq e Harakat Hezbollah al-Nujaba formaram, em outubro de 2023, a plataforma “Resistência Islâmica no Iraque”. Em 2 de novembro de 2023, ela reivindicou o primeiro ataque a Israel. Em 2 de outubro de 2024, um drone dessas milícias matou dois soldados israelenses nas Colinas de Golã. Elas também atacaram bases americanas. A Casa Branca disse que o Irã estava “ativamente facilitando” parte desses ataques, segundo a Reuters.
Segundo documentos internos apreendidos, Ismail Haniyeh, Yahya Sinwar, Hassan Nasrallah e o comandante iraniano Saeed Izadi se reuniram em 2021 e 2022 para acertar detalhes da invasão de 7 de outubro.
O Irã atacou Israel diretamente?
Sim. Em 2024, o Irã atacou Israel a partir do próprio território duas vezes, com centenas de mísseis e drones.
| Data | Ataque | Justificativa de Teerã |
|---|---|---|
| 13 para 14 de abril de 2024 | Mais de 300 drones e mísseis: cerca de 170 drones, 30 mísseis de cruzeiro e 120 balísticos | Ataque de 1º de abril ao anexo consular iraniano em Damasco, atribuído a Israel |
| 1º de outubro de 2024 | Mais de 180 mísseis balísticos, segundo a BBC; cerca de 200, segundo autoridades iranianas | Mortes de Ismail Haniyeh, em Teerã, e Hassan Nasrallah, em Beirute |
Em abril, a maior parte dos projéteis foi interceptada por Israel, Estados Unidos, Reino Unido e Jordânia. Houve danos limitados, inclusive em uma instalação militar, segundo a BBC e a Reuters. Os números variam conforme o critério: lançados, interceptados ou que entraram no espaço aéreo israelense.
Em outubro, o ataque foi maior e mais complexo, segundo a Reuters. Alguns mísseis atingiram áreas em Israel. Em 26 de outubro de 2024, Israel respondeu com ataques de precisão contra defesas aéreas e fábricas de mísseis no Irã.
O Irã chama esses ataques de legítima defesa. Israel os trata como agressão direta. O governo de Israel lembra que esses ataques vieram depois de décadas de hostilidade do regime e do apoio iraniano aos grupos que atacam Israel.
O eixo apenas se defende de Israel e dos EUA?
Não. A alegação de que o Irã e seus aliados “só se defendem” circula na mídia estatal iraniana, mas contradiz os fatos.
Israel apresenta como medidas preventivas contra fábricas de mísseis e infraestrutura militar as ações que conduziu com os EUA contra o Irã em junho de 2025 e em 28 de fevereiro de 2026. Muitos governos criticaram esses ataques. Em março de 2026, as FDI relataram novas interceptações de drones iranianos.
Mas a ameaça veio antes:
- a Força Quds existe desde 1990 para “exportar a revolução”;
- o Irã repassa até US$ 100 milhões por ano a Hamas e Jihad Islâmica, segundo o Departamento de Estado dos EUA;
- os aliados do Irã atacaram civis israelenses, bases americanas, aeroportos civis na Arábia Saudita e nos Emirados e navios no Mar Vermelho;
- o Hamas, aliado do eixo, começou a guerra atual em 7 de outubro de 2023.
Líderes iranianos e integrantes da Guarda Revolucionária fizeram repetidas declarações defendendo o fim do Estado de Israel. Há controvérsia sobre a tradução de algumas frases, como a atribuída ao ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad. Mas a defesa pública da eliminação de Israel está documentada em muitas falas. Negar o direito de Israel existir é antissemitismo pelo critério da IHRA, que a JJO adota.
Os próprios iranianos, sobretudo mulheres e minorias, sofrem com esse regime. A crítica é ao regime e aos grupos que ele financia, nunca a um povo ou a uma religião.
Quem tem mais poder, o Irã ou Israel?
Os confrontos de 2024 mostraram que Israel conseguiu deter os ataques diretos do Irã e degradar seus aliados, mas o regime iraniano segue como ameaça por causa dos mísseis e do programa nuclear.
Em abril de 2024, a maior parte dos drones e mísseis iranianos foi interceptada. A BBC avaliou que a crise mostrou o quanto o ataque iraniano fracassou. Em outubro, Israel atingiu defesas aéreas e fábricas de mísseis em solo iraniano. No Líbano, o Hezbollah perdeu seu líder e boa parte do arsenal de curto alcance.
O programa nuclear é o centro da preocupação israelense:
- o Irã acumula urânio enriquecido acima dos limites previstos no acordo nuclear de 2015 (JCPOA), que os EUA deixaram em 2018;
- Teerã afirma que o programa é civil e invoca o Tratado de Não Proliferação Nuclear;
- Israel, EUA e outros governos afirmam que o programa permite reduzir rapidamente o tempo para produzir material de uso militar.
Não é correto dizer que o Irã já tem uma bomba. A questão é a capacidade de chegar perto dela. A Agência Internacional de Energia Atômica é a principal referência técnica para avaliar estoques e níveis de enriquecimento.
O Brasil é um aliado do Irã?
O Brasil não faz parte do “eixo da resistência”, formado por grupos armados do Oriente Médio. Mas o terrorismo ligado ao Irã já atingiu a América do Sul.
Em Buenos Aires, aconteceram os dois maiores atentados do eixo fora do Oriente Médio:
- 17 de março de 1992: um atentado destruiu a embaixada de Israel. Morreram 29 pessoas.
- 18 de julho de 1994: uma explosão destruiu a sede da AMIA, a Associação Mutual Israelita Argentina. Morreram 85 pessoas.
Argentina e Israel atribuem os dois ataques ao Irã e ao Hezbollah, segundo a Reuters. Em abril de 2024, a Cámara Federal de Casación concluiu que o Irã ordenou e o Hezbollah executou os atentados, segundo La Nación. O Irã nega. Os principais acusados nunca foram julgados presencialmente, porque estão fora do alcance da Justiça argentina.
Argentina e Paraguai, vizinhos do Brasil, listam o Hezbollah como organização terrorista. O Brasil não lista. Um centro comunitário judaico não ameaçava ninguém: o caso AMIA mostra que o antissemitismo do eixo também mira judeus fora de Israel.
Linha do tempo
- 1982Fundação do Hezbollah no Líbano, com apoio e instrutores da Guarda Revolucionária iraniana.
- 1990Criação da Força Quds, com a missão declarada de “exportar a revolução”.
- 1992Atentado contra a embaixada de Israel em Buenos Aires mata 29 pessoas.
- 1994Atentado contra a AMIA, em Buenos Aires, mata 85 pessoas.
- 2006Ataque do Hezbollah na fronteira desencadeia a Guerra do Líbano, de 34 dias.
- 2014Houthis tomam a capital do Iêmen, Sanaa.
- 2021Irã, Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica montam “sala de guerra conjunta” em Beirute.
- 2023Hamas ataca Israel em 7 de outubro; Hezbollah, houthis e milícias iraquianas abrem novas frentes.
- 2024Irã ataca Israel diretamente em abril e outubro; Nasrallah é eliminado; cessar-fogo no Líbano em novembro.
- 2025Em junho, Israel ataca alvos militares no Irã, em operação que apresenta como preventiva.
- 2026Em 28 de fevereiro, Israel e EUA atacam o Irã.
Perguntas frequentes
Quais são os aliados do Irã?
Qual a origem do Hezbollah?
Quem o Hezbollah apoia?
O Brasil é um aliado do Irã?
Assista
O colunista João Pereira Coutinho, em debate promovido pela Folha, explica que não há um único conflito, mas vários: Israel e a Autoridade Palestina, a disputa entre o Hamas e a AP, e a guerra do Irã contra Israel por meio de grupos terroristas. Ele relembra as propostas de dois Estados recusadas pelo lado árabe, da Comissão Peel a Camp David, e mostra que a carta do Hamas cita os Protocolos dos Sábios de Sião.
Adolescentes e adultosVídeo explicativo do canal Desempacotando que mostra como Irã e Israel passaram de aliados a inimigos após a Revolução Islâmica de 1979. Apresenta seis razões ideológicas e geopolíticas para a hostilidade do regime iraniano e diferencia o governo do povo iraniano.
Adolescentes e adultosTambém em inglês: mais 2 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Dean, policial israelense que atuou como socorrista, guia os espectadores pelo local do massacre do festival Nova e reconstitui o ataque dos terroristas do Hamas em 7 de outubro. Ele conta histórias reais de policiais que arriscaram a vida para resgatar centenas de jovens e apresenta a resiliência israelense como um compromisso permanente com o 'nunca mais'.
Adolescentes e adultosEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Or Levy, sequestrado pelos terroristas do Hamas no festival Nova em 7 de outubro, conta em primeira pessoa os 491 dias de cativeiro em apartamentos e túneis de Gaza: fome, correntes, a fé que descobriu, a libertação e o reencontro com o filho depois de saber que a esposa foi assassinada.
Adolescentes e adultos- Operation Rising Lion: Key Factual and Legal Aspects – Governo de Israel
- Hezbollah: partido político ou organização terrorista? – Forças de Defesa de Israel
- Briefing do porta-voz das FDI, março de 2026
- Country Reports on Terrorism 2023 – Departamento de Estado dos EUA
- INSS – Desarmamento do Hezbollah
- INSS – Hezbollah e as eleições no Líbano
- Reuters – Iran and Israel: open warfare after decades of shadow war
- Reuters – Irã lança ataque de drones e mísseis contra Israel (abril de 2024)
- Reuters – Iranian missile strike on Israel shows capability for greater scale and complexity
- Reuters – O Irã e seus aliados ampliam a violência no Oriente Médio
- Reuters – Casa Branca se prepara para mais ataques de aliados do Irã a bases americanas
- BBC – Ataques iranianos de abril de 2024 e interceptações
- BBC – Israel's strike on Iran: crisis shows how badly Iran's attack failed
- BBC – Ataque iraniano com mísseis balísticos contra Israel (outubro de 2024)
- La Nación – AMIA, una sentencia histórica
- Christian Science Monitor – Israel and US launch strikes on Iran



