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O Muro das Lamentações (Kotel): história e significado

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Foto: Fiéis durante a oração de Selichot. Mark Neyman · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
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O Muro das Lamentações, ou Kotel, é um trecho preservado do muro de contenção ocidental da plataforma que o rei Herodes ampliou para o Segundo Templo. Os romanos destruíram o Templo em 70 d.C. O muro é a estrutura remanescente mais próxima do antigo Santo dos Santos e o lugar de oração mais emblemático do judaísmo. Judeus israelenses ficaram sem acesso a ele entre 1949 e 1967, sob controle jordaniano.

O que é o Muro das Lamentações (Kotel)?

O Muro das Lamentações é um trecho do antigo muro de contenção ocidental do Monte do Templo, em Jerusalém. Em hebraico, ele se chama HaKotel HaMa'aravi, o "Muro Ocidental", ou simplesmente Kotel.

O muro não era uma parede do santuário do Templo. Ele fazia parte da obra de engenharia do rei Herodes, o Grande. A ampliação começou por volta de 20/19 a.C.:

  • Herodes mandou aterrar vales vizinhos para criar uma grande plataforma retangular no alto do Monte Moriá.
  • A plataforma ficou sustentada por enormes muros de arrimo, assentados diretamente na rocha.
  • As fiadas inferiores do Kotel têm blocos gigantes de calcário com o acabamento típico da cantaria herodiana, uma moldura rebaixada nas bordas.
  • Os sucessores de Herodes continuaram as obras dos muros ao longo do século I d.C.

Segundo a Western Wall Heritage Foundation e a Autoridade de Antiguidades de Israel, as escavações encontraram pedras monumentais, níveis de rua, canais de drenagem e cisternas da Jerusalém do Segundo Templo. A identificação do muro com a estrutura herodiana é amplamente aceita.

Por que o Muro das Lamentações é sagrado?

O Kotel é sagrado porque é a estrutura remanescente mais próxima do Santo dos Santos (Kodesh HaKodashim), o ponto central do antigo Templo de Jerusalém.

A santidade vem do próprio Monte do Templo (Har HaBayit), o local mais sagrado do judaísmo:

  • Primeiro Templo: segundo a tradição bíblica, o rei Salomão o construiu no monte. As forças babilônicas de Nabucodonosor II o destruíram em 586 a.C.
  • Segundo Templo: foi reerguido depois do exílio na Babilônia. Herodes o reformou e ampliou na segunda metade do século I a.C.
  • Destruição romana: em 70 d.C., as legiões de Tito incendiaram o santuário. Os muros externos de contenção eram maciços demais para serem demolidos por inteiro, e o trecho ocidental ficou de pé.

O acesso judaico ao alto da esplanada foi limitado por leis de pureza ritual e por proibições de governantes romanos, bizantinos e islâmicos. Por isso o Muro Ocidental virou o ponto de oração mais próximo do lugar santo. Fontes rabínicas e poemas medievais registram a tradição de que "a Presença Divina (Shechinah) nunca se afasta do Muro Ocidental".

Em 1930, uma comissão da Liga das Nações examinou as reivindicações sobre o local. Ela reconheceu o vínculo histórico e religioso ininterrupto dos judeus com o Muro.

Por que o nome Muro das Lamentações?

O nome vem da tradição de lamentar no local a destruição do Templo. Por séculos, o muro foi o símbolo maior desse luto.

O lamento nunca foi só tristeza. O Kotel também representa a esperança de redenção e é foco de peregrinação contínua. Por isso muitos judeus preferem o nome hebraico, Kotel ou HaKotel HaMa'aravi ("Muro Ocidental"). Ele descreve o lugar pela posição: é o lado oeste da plataforma do Templo.

Os dois nomes se referem ao mesmo local. "Muro das Lamentações" é o nome mais conhecido no Brasil. "Muro Ocidental" é o mais usado em Israel.

O que os judeus fazem no Muro das Lamentações?

Os judeus rezam no Kotel, celebram datas da vida religiosa e deixam bilhetes com pedidos entre as pedras.

Desde 1967, o Muro funciona como uma praça aberta de oração pública. Entre os usos mais comuns:

  • Oração diária, individual e em grupo.
  • Celebrações do ciclo de vida, como o Bar Mitzvá.
  • Bilhetes nas frestas: a administração oficial do Kotel documenta esse costume. Os bilhetes são retirados de tempos em tempos e enterrados ritualmente. Eles não vão para o lixo comum, segundo a Western Wall Heritage Foundation.

Visitantes não judeus, entre eles líderes religiosos e políticos, também adotaram o costume dos bilhetes. Em 2014, o papa Francisco deixou uma oração entre as pedras durante sua visita a Jerusalém, como relatou o Times of Israel.

O que tem atrás do Muro das Lamentações?

Atrás e acima do Kotel fica a esplanada do Monte do Templo, que os muçulmanos chamam de Haram al-Sharif. Debaixo da terra, o muro continua por túneis.

Em cima: depois de 1967, Israel estendeu sua jurisdição civil à Cidade Velha. Mesmo assim, manteve o arranjo administrativo conhecido como status quo:

  • O Waqf islâmico, sob custódia da Jordânia, cuida da administração religiosa do topo da esplanada.
  • A Polícia de Israel responde pela segurança e pela ordem pública.
  • O topo é reservado ao culto muçulmano. Não muçulmanos, judeus incluídos, podem visitá-lo em horários definidos. As autoridades israelenses restringem a oração pública judaica no alto do monte para conter tensões.

Embaixo: os Túneis do Muro Ocidental mostram que o muro continua sob as construções atuais. Segundo a Autoridade de Antiguidades de Israel, ali foram registrados fundações, grandes blocos, ruas, canais, arcos e cisternas de vários períodos.

O que aconteceu com o Muro entre 1948 e 1967?

Depois da Guerra de Independência de Israel (1948), a Cidade Velha de Jerusalém ficou sob controle jordaniano. Entre 1949 e 1967, judeus israelenses foram impedidos de chegar ao Kotel, segundo documento oficial do governo de Israel.

Israelenses não tinham acesso, e não havia acesso judaico regular ao local.

Em 7 de junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, as Forças de Defesa de Israel tomaram a Cidade Velha. Israel reabriu o local a fiéis de diferentes religiões e manteve o Waqf na administração da esplanada. O governo israelense chama esse momento de reunificação de Jerusalém. O status de Jerusalém Oriental ainda é contestado por outros governos.

PeríodoSituação do acesso ao Kotel
1949–1967Controle jordaniano; judeus israelenses impedidos de entrar
Desde 1967Controle israelense; acesso aberto a fiéis de diferentes religiões

As escavações perto do Muro são polêmicas?

As escavações conduzidas por Israel são trabalhos de pesquisa arqueológica e preservação do patrimônio. Autoridades jordanianas e palestinas as contestam.

A acusação: representantes jordanianos e palestinos alegam que algumas obras e túneis mudam o caráter da Cidade Velha, ameaçam estruturas ou servem a um projeto político de soberania israelense. A posição jordaniana consta em documento das Nações Unidas.

A resposta: os trabalhos, intensificados depois de 1967, revelaram estruturas do Segundo Templo que são essenciais para estudar a Jerusalém antiga. Esses achados confirmam a ligação judaica com o local, que é documentada e não depende de política.

A destruição documentada de patrimônio no Monte do Templo partiu do Waqf. Em 1999, o Waqf fez uma escavação sem autorização no setor sudeste do monte. Ele usou retroescavadeiras para abrir uma entrada para a mesquita subterrânea al-Marwani e despejou grande quantidade de terra com material histórico no Vale do Cédron.

Em 2004, os arqueólogos Gabriel Barkay e Zachi Dvira criaram o Temple Mount Sifting Project para peneirar essa terra com voluntários. O projeto resgatou artefatos de todas as épocas de Jerusalém, entre eles:

  • selos de argila com nomes de famílias sacerdotais do Primeiro Templo;
  • ladrilhos herodianos do pátio do Segundo Templo;
  • moedas antigas.

Linha do tempo

  1. 586 a.C.Forças babilônicas de Nabucodonosor II destroem o Primeiro Templo.
  2. 516 a.C.O Segundo Templo é reerguido após o exílio na Babilônia.
  3. c. 20/19 a.C.Herodes, o Grande, inicia a ampliação da plataforma do Templo e de seus muros de contenção.
  4. 70 d.C.Legiões romanas de Tito destroem o Templo; o muro ocidental de contenção permanece de pé.
  5. 1930Comissão da Liga das Nações reconhece o vínculo histórico e religioso dos judeus com o Muro Ocidental.
  6. 1949–1967Sob controle jordaniano, judeus israelenses são impedidos de chegar ao Kotel.
  7. 1967Em 7 de junho, Israel toma a Cidade Velha, reabre o acesso e mantém o status quo da esplanada.
  8. 1999O Waqf faz escavação não autorizada no sudeste do Monte do Templo.
  9. 2004Gabriel Barkay e Zachi Dvira fundam o Temple Mount Sifting Project.
  10. 2014O papa Francisco deixa uma oração entre as pedras do Muro.

Perguntas frequentes

O Muro das Lamentações era parte do Templo?
Não exatamente. O Kotel não era uma parede do santuário do Templo. Ele é parte do muro de contenção ocidental que sustentava a plataforma ampliada por Herodes para o Segundo Templo. Quando os romanos destruíram o Templo em 70 d.C., esses muros externos, maciços demais para serem derrubados por inteiro, ficaram de pé. Por isso o Kotel é a estrutura mais próxima do antigo Santo dos Santos.
O que significa Kotel?
Kotel é a palavra hebraica para "muro". O nome completo é HaKotel HaMa'aravi, o "Muro Ocidental", porque o trecho fica no lado oeste da antiga plataforma do Templo de Jerusalém. No Brasil, o mesmo lugar é mais conhecido como Muro das Lamentações. Esse nome vem da tradição de lamentar ali a destruição do Templo e de rezar pela redenção.
O que acontece com os bilhetes deixados no Muro?
Segundo a administração oficial do Kotel, os bilhetes com orações deixados nas frestas são retirados periodicamente. Em vez de irem para o lixo comum, eles são encaminhados para sepultamento ritual. O costume é praticado por judeus e também por visitantes de outras religiões, como o papa Francisco, que deixou uma oração entre as pedras em 2014.
Judeus podem rezar em cima do Monte do Templo?
Pelo arranjo conhecido como status quo, mantido por Israel desde 1967, o topo da esplanada é reservado ao culto muçulmano. O Waqf islâmico, sob custódia da Jordânia, faz a administração religiosa. Judeus podem visitar o local em horários definidos. As autoridades israelenses restringem a oração pública judaica no alto do monte para conter tensões. Por isso o Kotel, ao pé da plataforma, é o centro da oração judaica.

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