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Israel e o Líbano: as guerras de 1982 e 2006 e o Hezbollah

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Foto: Partida de gamão em Beirute. Government Press Office (Israel) · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
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Israel entrou no Líbano em 1982 para afastar a OLP, que atacava o norte israelense a partir do território libanês. Nesse contexto, o regime iraniano criou o Hezbollah, grupo terrorista que prega a destruição de Israel. Em 12 de julho de 2006, o Hezbollah matou três soldados israelenses e sequestrou dois. Isso iniciou uma guerra de 34 dias, encerrada pela Resolução 1701 da ONU.

Qual é o motivo da guerra entre Israel e Líbano?

Israel não luta contra o povo libanês. Luta contra grupos armados que usam o sul do Líbano para atacar cidades israelenses. Primeiro foi a OLP. Depois veio o Hezbollah.

A história começa em 1970–1971. Expulsa da Jordânia, a OLP levou grande parte de suas forças para o Líbano. Dali lançou foguetes e fez incursões contra comunidades no norte de Israel. O Estado libanês estava enfraquecido pela guerra civil, iniciada em 1975, e não controlava o próprio território. A OLP agia como uma força armada autônoma.

Em 1978, depois de um ataque terrorista da OLP que matou civis israelenses, Israel lançou a Operação Litani. O Conselho de Segurança da ONU criou a força de paz Unifil e aprovou as Resoluções 425 e 426.

O padrão se repete até hoje:

  • um grupo armado fora do controle do Estado libanês ataca Israel;
  • Israel responde para proteger sua população;
  • o governo libanês não consegue garantir o monopólio da força no sul do país.

O Líbano e os grupos palestinos acusam Israel de violar a soberania libanesa e de responder de forma desproporcional. Israel responde que nenhum país aceita foguetes contra suas cidades. Segundo Israel, o problema de fundo é a presença de milícias que o Estado libanês não desarma.

O que aconteceu na Guerra do Líbano de 1982?

Em junho de 1982, as Forças de Defesa de Israel entraram no Líbano. O objetivo declarado era afastar a OLP da fronteira norte e acabar com os ataques contra sua população.

O estopim foi a tentativa de assassinato do embaixador israelense no Reino Unido, Shlomo Argov. O atentado foi atribuído à organização Abu Nidal, rival da OLP e não subordinada a Yasser Arafat. O governo israelense, porém, justificou a operação pelo conjunto dos ataques da OLP lançados do território libanês.

Principais resultados:

  • as forças israelenses chegaram a Beirute;
  • após negociações internacionais, a liderança da OLP deixou o Líbano em 1982 e foi transferida para a Tunísia;
  • em 1985, Israel recuou parcialmente e manteve uma zona de segurança no sul, cerca de 10% do território libanês, com apoio do Exército do Sul do Líbano.

Sabra e Chatila. Em setembro de 1982, milicianos falangistas libaneses massacraram civis nos campos de Sabra e Chatila. Uma comissão do próprio Estado israelense investigou o caso. Ela concluiu que Israel teve responsabilidade indireta, porque controlava a área e não impediu o crime. Os autores diretos foram os milicianos libaneses. A investigação mostra que a democracia israelense apura as próprias falhas.

O ponto em disputa. Para Israel, a guerra foi uma resposta defensiva à infraestrutura armada da OLP. Alguns historiadores e analistas defendem outra leitura: o governo de Menachem Begin e o ministro da Defesa Ariel Sharon queriam remodelar o Líbano e instalar um governo aliado. Setores israelenses rejeitam ou relativizam essa interpretação.

Como surgiu o Hezbollah e quem apoia o grupo?

O Hezbollah (“Partido de Deus”) nasceu no início dos anos 1980, no Líbano, por iniciativa direta do regime iraniano. Até hoje o grupo depende do apoio do Irã e, historicamente, também da Síria.

Logo após a entrada israelense no Líbano, em 1982, o Irã enviou entre 800 e 1.500 instrutores e conselheiros da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) ao Vale do Beqaa, no leste do Líbano. A região estava então sob controle sírio. Os iranianos montaram campos de treinamento e reuniram facções xiitas radicais que tinham deixado grupos como o AMAL e o partido Da'wa.

A Carta Aberta de 1985. Em 16 de fevereiro de 1985, o porta-voz Ibrahim al-Amin leu o manifesto fundador do grupo numa mesquita de Beirute. O texto saiu na íntegra no jornal al-Safir em 22 de fevereiro de 1985. Ele declara:

  • lealdade ao Líder Supremo do Irã, aiatolá Ruhollah Khomeini, segundo a doutrina do wilayat al-faqih (governo do jurista islâmico);
  • o objetivo de expulsar forças americanas e francesas do Líbano;
  • o fim do sistema confessional libanês;
  • a destruição do Estado de Israel.

Pelo critério da IHRA, adotado pela JJO, negar o direito de Israel existir é antissemitismo. O programa fundador do Hezbollah faz exatamente isso.

Quem apoia. Segundo o Departamento de Estado dos EUA, o grupo recebe financiamento iraniano. O Irã e a Síria deram apoio financeiro, logístico e político ao Hezbollah. Esse apoio permitiu ao grupo manter uma estrutura militar independente do Estado libanês.

Quem o classifica como terrorista. Israel, EUA, Reino Unido, Argentina, Paraguai e Alemanha listam a organização inteira. A União Europeia lista o “braço militar”. O Brasil não lista o grupo.

Por que o Hezbollah não se desarmou depois da retirada israelense de 2000?

Israel retirou todas as suas tropas do sul do Líbano em maio de 2000, e a ONU certificou essa retirada. Mesmo assim, o Hezbollah manteve suas armas e mudou de justificativa.

Durante 15 anos, o grupo travou uma guerra de guerrilha contra as FDI e o Exército do Sul do Líbano. Usou emboscadas, explosivos improvisados e foguetes contra o norte de Israel.

Em maio de 2000, sob o governo de Ehud Barak, Israel saiu unilateralmente do sul do Líbano. A ONU verificou que a retirada respeitava a Linha Azul. Essa linha foi traçada para fins operacionais e de verificação. Não é necessariamente a fronteira internacional definitiva.

O Hezbollah apresentou a saída israelense como vitória da “resistência”. Em seguida, passou a alegar que Israel ainda ocupava as Fazendas de Shebaa e outros pontos da fronteira. Para Israel, a demarcação da ONU não reconheceu as Fazendas de Shebaa como território libanês. A área envolve reivindicações libanesas, sírias e israelenses.

Para Israel, a retirada eliminou qualquer justificativa militar para o Hezbollah. O grupo seguiu armado. O Estado libanês continuou sem impor sua autoridade no sul.

Quais foram os principais acontecimentos de 2006?

O fato central de 2006 foi a guerra de 34 dias entre Israel e o Hezbollah. O grupo a iniciou em 12 de julho, com um ataque na fronteira.

Naquele dia, terroristas do Hezbollah cruzaram a Linha Azul e emboscaram uma patrulha israelense. Mataram três soldados e sequestraram outros dois, Ehud Goldwasser e Eldad Regev, para forçar uma troca de prisioneiros. Os corpos dos dois só foram devolvidos em 2008, numa troca, quando se confirmou que estavam mortos.

DataAcontecimento
12 de julho de 2006Hezbollah ataca patrulha, mata três soldados e sequestra dois
14 de julho de 2006Míssil antinavio fornecido pelo Irã atinge a corveta INS Hanit e mata quatro marinheiros
Julho–agosto de 2006Hezbollah dispara cerca de 4.228 foguetes contra cidades do norte de Israel
Agosto de 2006Conselho de Segurança aprova a Resolução 1701 e encerra as hostilidades
28 de agosto de 2006Hassan Nasrallah admite que não teria ordenado o sequestro se previsse a guerra

Os objetivos de Israel eram recuperar os soldados, reduzir a capacidade militar do Hezbollah e afastá-lo da fronteira. Ao sul do rio Litani, o grupo usou bunkers subterrâneos e mísseis antitanque guiados, como o Kornet e o Metis-M.

Baixas. Morreram mais de 1.000 libaneses e cerca de 163 israelenses, dos quais 119 eram soldados. Civis morreram e foram deslocados dos dois lados da fronteira.

A acusação e a resposta. Críticos de Israel acusam as FDI de ataques indiscriminados ou desproporcionais. Israel responde que o Hezbollah operava dentro de áreas civis e guardava armas nelas, expondo deliberadamente a população libanesa. A própria fala de Nasrallah, em 28 de agosto, confirma quem tomou a decisão que levou à guerra.

O que diz a Resolução 1701 e por que ela não foi cumprida?

A Resolução 1701 do Conselho de Segurança encerrou a guerra de 2006. Ela proibiu armas e combatentes que não fossem do Estado libanês ou da Unifil entre a Linha Azul e o rio Litani, cerca de 30 quilômetros ao norte da fronteira.

O texto previa:

  • cessação das hostilidades;
  • retirada das forças israelenses do Líbano;
  • presença ampliada do Exército libanês no sul;
  • reforço da Unifil;
  • desarmamento dos grupos armados no Líbano.

O problema foi a implementação. O Hezbollah continuou armado e manteve infraestrutura militar no sul. Em 2006, o arsenal do grupo era estimado entre 13.000 e 14.000 foguetes. Com apoio do Irã e da Síria, o grupo ampliou esse arsenal. As FDI estimam que ele chegou a mais de 120 mil mísseis e foguetes, além de drones, mísseis antinavio e defesa aérea. Esse número é uma estimativa, não uma contagem exata.

Israel acusa o Hezbollah de violar a resolução de forma sistemática, com armas, túneis e combatentes perto da fronteira. O Hezbollah e o governo libanês acusam Israel de violá-la com voos e operações no espaço aéreo e marítimo do Líbano. A Unifil não conseguiu fiscalizar áreas privadas nem impedir o rearmamento. O Estado libanês não monopolizou o uso da força.

O que aconteceu entre Israel e o Hezbollah depois de 7 de outubro de 2023?

Em 8 de outubro de 2023, um dia depois do massacre cometido pelo Hamas em Israel, o Hezbollah decidiu sozinho abrir uma nova frente de guerra contra o norte israelense.

O grupo lançou foguetes, mísseis antitanque e drones contra posições militares e comunidades civis. Disse que agia em apoio aos palestinos e que pararia se houvesse cessar-fogo em Gaza. Israel respondeu com ataques contra posições, comandantes e infraestrutura do Hezbollah no Líbano.

  • Cerca de 60 mil israelenses tiveram de deixar suas casas no norte, segundo a Reuters.
  • Mais de um milhão de libaneses também foram deslocados durante a ofensiva israelense de 2024, segundo estimativas citadas pela Reuters.

Em setembro de 2024, Israel ampliou os ataques contra a estrutura do Hezbollah e entrou por terra em partes do sul do Líbano. Para Israel, os disparos contínuos tornavam impossível a volta dos moradores do norte e criavam uma ameaça estratégica.

O cessar-fogo de 27 de novembro de 2024, mediado pelos EUA e pela França, se baseou na Resolução 1701:

  • o Hezbollah deveria retirar combatentes e armas da área ao sul do Litani;
  • o Exército libanês deveria ampliar sua presença no sul;
  • Israel deveria retirar suas forças em até 60 dias.

Segundo as FDI, o grupo não estava desarmado quando o acordo entrou em vigor e tentou reconstruir infraestrutura no sul. O Líbano e o Hezbollah acusam Israel de manter ataques e posições. Israel responde que tem o direito de agir contra ameaças imediatas.

Linha do tempo

  1. 1970–1971Expulsa da Jordânia, a OLP transfere grande parte de suas forças para o Líbano.
  2. 1978Operação Litani; a ONU cria a Unifil e aprova as Resoluções 425 e 426.
  3. 1982Em junho, Israel entra no Líbano para afastar a OLP; a liderança da OLP vai para a Tunísia; o Irã envia a Guarda Revolucionária ao Beqaa.
  4. 1985Hezbollah divulga sua Carta Aberta, que prega a destruição de Israel; Israel recua para uma zona de segurança no sul.
  5. 1992Hezbollah entra formalmente na política libanesa.
  6. 2000Em maio, Israel retira todas as tropas do sul do Líbano, com certificação da ONU.
  7. 2006Hezbollah ataca na fronteira em 12 de julho; guerra de 34 dias; Resolução 1701 em agosto.
  8. 2008Corpos de Ehud Goldwasser e Eldad Regev são devolvidos a Israel numa troca.
  9. 2023Em 8 de outubro, o Hezbollah abre uma frente contra o norte de Israel.
  10. 2024Em abril, a Justiça argentina responsabiliza o Hezbollah pelos atentados de Buenos Aires; em 27 de novembro, entra em vigor o cessar-fogo.

Perguntas frequentes

O que são Hamas e Hezbollah?
São dois grupos terroristas diferentes. O Hamas atua em Gaza e cometeu o massacre de 7 de outubro de 2023 em Israel. O Hezbollah é libanês, foi criado no início dos anos 1980 com apoio do Irã e prega a destruição de Israel em sua carta de 1985. No dia seguinte ao ataque do Hamas, o Hezbollah abriu uma segunda frente contra o norte israelense.
Quem é líder do Hezbollah?
Na guerra de 2006, o secretário-geral do Hezbollah era Hassan Nasrallah. Em 28 de agosto daquele ano, ele admitiu que não teria ordenado o sequestro dos soldados se previsse uma guerra daquele tamanho. Outro dirigente, Naim Qassem, afirmou em 2000 que o grupo tem “uma única liderança, com uma única administração”. Isso desmente a ideia de braços políticos e militares separados.
O Hezbollah é só um partido político?
Não. O Hezbollah tem deputados no Líbano desde 1992, mas mantém uma milícia armada fora do comando do Estado libanês. As FDI estimam seu arsenal em mais de 120 mil mísseis e foguetes. O instituto israelense INSS descreve o grupo como partido, rede social, milícia e organização terrorista ao mesmo tempo. A Justiça argentina o responsabilizou pelo atentado à AMIA, em 1994, que deixou 85 mortos.
Quem apoia o Hezbollah?
O principal apoio vem do Irã. O regime iraniano enviou a Guarda Revolucionária para fundar o grupo em 1982 e o financia, segundo o Departamento de Estado dos EUA. A Síria também deu apoio financeiro, logístico e político. Esse respaldo externo permitiu ao Hezbollah reconstruir e ampliar seu arsenal depois de 2006, em violação da Resolução 1701.

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