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O antissemitismo da Era Vargas e do integralismo

Podcast, guia de estudo, quiz e cartões sobre o antissemitismo da Era Vargas e do integralismo, para professores de História e universitários.

Para: professores de História e universitáriosPodcast: 13 min
Foto: Getúlio Vargas. Governo do Brasil · Public domain · Wikimedia Commons

Ouça: Podcast Contexto

Uma conversa de 13 minutos para ouvir no caminho, em sala ou antes do encontro do grupo.

Narração com vozes sintéticas, feita a partir das páginas deste site. Baixar o MP3 (13 min, 6,0 MB).

Ler a transcrição completa

Lia: Olá, eu sou a Lia, e este é o Contexto, o podcast da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Hoje vamos falar do antissemitismo da Era Vargas e do integralismo.

Davi: E eu sou o Davi. Lia, muita gente aprende sobre a Era Vargas pelas leis trabalhistas, pelo Estado Novo, pela industrialização. Mas o antissemitismo daquele período quase nunca aparece na sala de aula.

Lia: Exatamente, e é por isso que o tema importa. Nos anos 1930, o Brasil teve um movimento fascista de massas com forte propaganda antissemita. Teve também um governo que fechou as portas a judeus perseguidos por meio de ordens secretas. E houve brasileiros que desobedeceram a essas ordens e salvaram vidas.

Davi: Para professores e universitários, entender esse capítulo ajuda a reconhecer mitos antissemitas que continuam circulando hoje.

Lia: Então vamos começar pelo integralismo. Davi, o que foi a Ação Integralista Brasileira?

Davi: A AIB foi fundada por Plínio Salgado em 1932 e foi o maior movimento fascista do Brasil. Era nacionalista, autoritária, anticomunista e antiliberal. Defendia um Estado forte e corporativo e rejeitava o pluralismo partidário e a democracia liberal.

Lia: E tinha toda uma estética, não é?

Davi: Tinha uniformes, saudações, desfiles e uma estrutura paramilitar. A camisa verde dos militantes deu origem ao apelido "galinhas-verdes". O historiador Hélgio Trindade deu ao seu estudo clássico o título "Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30".

Lia: Mas era uma cópia do fascismo europeu?

Davi: Não exatamente. Salgado importou o estilo, a estética e o autoritarismo e os adaptou ao Brasil. Um diferencial importante era a valorização do catolicismo e de uma ideia espiritualizada de nação. A AIB não era uma filial do Partido Nazista. Os historiadores discutem o grau de autonomia ideológica do movimento, mas não discutem a presença de características fascistas.

Lia: E onde entra o antissemitismo?

Davi: Aqui está o ponto central. O antissemitismo não constava da plataforma oficial da AIB, mas foi uma força real e pública dentro do movimento. O nome principal é Gustavo Barroso, chefe das milícias integralistas.

Lia: E Barroso não era uma figura marginal.

Davi: De jeito nenhum. Ele dirigiu o Museu Histórico Nacional e presidiu a Academia Brasileira de Letras. Ele mesmo escreveu que foi o integralismo que o tornou antijudaico.

Lia: O que ele publicou?

Davi: Em 1934, "Brasil: Colônia de Banqueiros", que reescreve a história dos empréstimos do Brasil entre 1824 e 1934 como um plano da casa Rothschild. Em 1936, a primeira tradução em português dos Protocolos dos Sábios de Sião, com notas que tentavam "provar" que o falso complô estaria em curso no Brasil. Em 1937, "A Sinagoga Paulista" e "Judaísmo, Maçonaria e Comunismo".

Lia: Vale lembrar o que são os Protocolos.

Davi: São uma falsificação produzida no Império Russo, publicada em 1903 e divulgada pela polícia do czar. Os nazistas os usaram depois. Segundo a Enciclopédia do Holocausto, do Museu do Holocausto dos Estados Unidos, o texto não documenta nenhuma conspiração real. Barroso usava essa falsificação como explicação única para o comunismo, o capitalismo financeiro e a crise nacional. Assim, transformou os judeus em inimigo interno.

Lia: E o próprio Plínio Salgado?

Davi: O antissemitismo era mais sistemático em Barroso, mas também aparecia no chefe do movimento. Em 1934, no jornal A Offensiva, Salgado atribuiu a derrota integralista na chamada "Batalha da Sé" ao financiamento do "judeu internacional". Os historiadores Marcos Chor Maio e Carlos Eduardo Calaça afirmam que o antissemitismo "foi um dos instrumentos de coesão ideológica das milícias integralistas".

Lia: Isso nos leva ao segundo bloco: o Plano Cohen.

Davi: O Plano Cohen foi um documento falso de setembro de 1937. O autor foi o capitão Olímpio Mourão Filho, militar integralista ligado ao Ministério da Guerra. O texto simulava um plano comunista para tomar o poder com greves, saques e assassinatos de líderes políticos.

Lia: E o nome não foi escolhido por acaso.

Davi: Não. "Cohen" evocava o estereótipo do judeu apátrida e conspirador. Estudos apontam que as diretrizes do plano repetiam a estrutura dos Protocolos: uso da imprensa, infiltração nas instituições e a ligação entre judaísmo e revolução comunista. É o mito do "complô judaico-comunista".

Lia: E qual foi a consequência?

Davi: Rádios e jornais divulgaram o plano e espalharam pânico. Em 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas deu o golpe e instaurou o Estado Novo. Uma mentira antissemita ajudou a derrubar a ordem constitucional do país.

Lia: E os integralistas ganharam com isso?

Davi: Esperavam ganhar espaço, mas o Estado Novo proibiu os partidos e atingiu a própria AIB. Em maio de 1938, grupos integralistas tentaram invadir o Palácio Guanabara, a residência presidencial. O levante fracassou rapidamente, e a organização deixou de existir como força política legal.

Lia: Agora vamos ao terceiro bloco, que talvez surpreenda muitos ouvintes: o antissemitismo do próprio Estado. Davi, o que foram as circulares secretas?

Davi: Eram ordens internas e confidenciais do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, que mandavam consulados e embaixadas negar vistos a judeus. A principal foi a Circular Secreta nº 1.127, de 7 de junho de 1937, poucos meses antes do golpe do Estado Novo. O item "c" determinava a recusa de visto a toda pessoa que se soubesse ser de "origem étnica semítica".

Lia: E por que secretas, e não uma lei?

Davi: O governo escolheu ordens reservadas em vez de uma lei aprovada pelo Legislativo. Assim, a política ficava fora do debate público e evitava desgaste internacional. A burocracia descrevia os judeus como "inassimiláveis", "elementos subversivos" e praticantes de "concorrência parasitária".

Lia: Quem trouxe isso a público foi a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP, no livro "O Anti-Semitismo na Era Vargas", de 1988. Ela chama essa política de antissemitismo de Estado.

Davi: E os números variam bastante entre os pesquisadores. Há estimativas de mais de vinte, de 26 a 28 ou de 28 circulares e ordens restritivas. A vigência vai de 1937 a 1948, nos governos Vargas e Dutra, ou até 1953, conforme a pesquisa. Os vistos negados a judeus somam mais de 9 mil, talvez até 16 mil.

Lia: É importante dizer aos professores: não foi uma legislação racial de extermínio como a alemã. Mas foi discriminação antissemita oficial, burocrática, sigilosa e seletiva.

Davi: Mesmo assim, judeus conseguiram entrar, em número reduzido e muitas vezes por caminhos alternativos: vistos de turista ou de trânsito, certificados de batismo católico, inclusive falsos, e a Resolução nº 39, de 23 de julho de 1939, que criou uma cota para católicos não arianos, a pedido do Vaticano. Segundo estimativa de Tucci Carneiro, cerca de 14 mil refugiados judeus entraram assim.

Lia: E houve quem desobedecesse.

Davi: Dois brasileiros foram reconhecidos pelo Yad Vashem, o memorial do Holocausto de Israel, como Justos entre as Nações. O embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, em Paris e depois em Vichy, emitia "vistos camuflados". Ele omitia a origem étnica dos requerentes, encobria a letra "J" vermelha nos passaportes e colocava datas retroativas. As pesquisas de Fábio Koifman contam ao menos 473 vistos.

Lia: E pagou caro por isso.

Davi: O governo Vargas abriu um processo administrativo contra ele. Em 1943, os nazistas o prenderam, e ele ficou 14 meses detido na Alemanha. Foi reconhecido pelo Yad Vashem em 2003.

Lia: E a outra é Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, que chefiava a Seção de Passaportes do consulado em Hamburgo. Depois da Noite dos Cristais, em novembro de 1938, ela deixava de marcar o "J" e misturava pedidos de judeus a despachos de rotina. Estima-se que tenha salvado cerca de 100 judeus. Em 1982, tornou-se a primeira brasileira reconhecida como Justa entre as Nações.

Davi: Um detalhe que vale para a aula: o título é só dela, não do marido, o escritor João Guimarães Rosa, embora ele apoiasse a atuação de Aracy.

Lia: Quarto bloco: o caso de Olga Benário. Davi, quem foi ela?

Davi: Olga era uma comunista alemã de origem judaica. Veio ao Brasil enviada pela Terceira Internacional, ao lado de Luís Carlos Prestes, com quem se casou. Depois do fracasso do Levante Comunista de novembro de 1935, os dois foram presos no Rio de Janeiro em março de 1936.

Lia: E o que Vargas fez?

Davi: Em 28 de agosto de 1936, Vargas assinou o decreto de expulsão, que a chamava de "nociva aos interesses nacionais" e "perigosa à ordem pública". Em setembro de 1936, grávida de sete meses, ela foi entregue à Alemanha nazista. Documentos diplomáticos mostram que o representante brasileiro em Berlim trocou dados e fotografias com a Gestapo para garantir que ela fosse presa ao desembarcar.

Lia: E o desfecho é trágico.

Davi: Olga deu à luz a filha, Anita Leocádia Prestes, numa prisão de Berlim. A criança foi resgatada pela avó paterna depois de uma intensa campanha internacional. Olga passou por Lichtenburg e Ravensbrück e foi morta na câmara de gás de Bernburg em 1942.

Lia: Aqui é preciso precisão histórica.

Davi: Sim. A deportação não foi aplicação da Circular 1.127, que é posterior. O motivo formal foi anticomunista. Mas, para Tucci Carneiro, as consequências "extrapolaram" o anticomunismo: foi um ato de colaboracionismo com a Alemanha nazista e uma expressão do antissemitismo político brasileiro. Dizer apenas "foi deportada por ser judia" simplifica demais; tratar o caso como expulsão administrativa comum também é insuficiente.

Lia: Antes de fechar, uma palavra sobre o presente.

Davi: Hoje, grupos como a Frente Integralista Brasileira usam nomes e símbolos do integralismo. A continuidade com a AIB precisa ser demonstrada caso a caso, mas o repertório tem passado antissemita. E o mito dos Protocolos segue vivo: a carta fundacional do grupo terrorista Hamas, de 1988, o repete no artigo 22.

Lia: A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA e combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião. Por esse critério, acusar judeus de dominar bancos, governos ou o mundo, como fazia Barroso, é antissemitismo.

Davi: Vamos às três ideias-chave?

Lia: Primeira: o integralismo foi um movimento fascista brasileiro, e o antissemitismo de Gustavo Barroso e da imprensa integralista foi central nele, mesmo fora da plataforma oficial.

Davi: Segunda: o Estado Novo praticou antissemitismo de Estado por circulares secretas, e o mito do complô judaico-comunista, com o Plano Cohen, ajudou a justificar o próprio golpe.

Lia: Terceira: houve escolhas. Vargas entregou Olga Benário aos nazistas, enquanto Souza Dantas e Aracy desobedeceram e salvaram vidas.

Davi: Obrigado por nos acompanhar, e leve essa conversa para a sala de aula.

Lia: Até o próximo Contexto. Mais materiais em jjo.org.br.

Guia de estudo

Objetivos de aprendizagem

Ao final deste estudo, você deverá ser capaz de:

  1. Explicar o que foi o antissemitismo de Estado praticado de forma sigilosa pelo governo Vargas, em especial a Circular Secreta nº 1.127, de 7 de junho de 1937.
  2. Analisar o caso de Olga Benário, distinguindo o motivo formal (anticomunismo) do resultado (colaboração com o nazismo).
  3. Caracterizar a Ação Integralista Brasileira (AIB) como movimento de tipo fascista e identificar o papel de Gustavo Barroso na propaganda antissemita.
  4. Relacionar o mito do “complô judaico-comunista”, os falsos Protocolos dos Sábios de Sião e o Plano Cohen ao golpe do Estado Novo.
  5. Reconhecer a coragem de Luiz Martins de Souza Dantas e de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, os dois brasileiros reconhecidos como Justos entre as Nações.
  6. Identificar ecos atuais desses mitos antissemitas.

Conceitos-chave

1. Antissemitismo de Estado sigiloso

A historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da USP, chama de antissemitismo de Estado a política do governo Vargas de negar vistos a judeus. Ela trouxe o tema a público no livro O Anti-Semitismo na Era Vargas (1988).

A principal ordem foi a Circular Secreta nº 1.127, de 7 de junho de 1937. Seu item “c” mandava recusar visto a toda pessoa que se soubesse ser de “origem étnica semítica”. A restrição valia até para turistas e negociantes.

O governo escolheu ordens reservadas do Itamaraty, e não uma lei aprovada pelo Legislativo. Assim, a política ficava fora do debate público e evitava desgaste internacional. A burocracia descrevia os judeus como “inassimiláveis”, “elementos subversivos” e praticantes de “concorrência parasitária”.

A Circular nº 1.127 vigorou até 1938. Instruções posteriores voltaram a restringir a entrada de judeus, e a Circular Secreta nº 1.498, de 12 de dezembro de 1940, manteve a proibição.

Os pesquisadores divergem sobre a dimensão dessa política:

Ponto Estimativas na pesquisa
Número de circulares e ordens restritivas “mais de vinte”; de 26 a 28; 28
Período de vigência 1937 a 1948 (governos Vargas e Dutra); 1937 a 1953, com variações
Vistos negados a judeus mais de 9 mil, talvez até 16 mil

A política brasileira não foi uma legislação racial de extermínio como a alemã. Ainda assim, foi discriminação antissemita oficial, feita de forma burocrática, sigilosa e seletiva. Ela misturou nacionalismo xenófobo, eugenia, preferência por certos europeus ligada à ideia de “branqueamento” e o mito conspiratório antijudaico.

2. Os caminhos de entrada apesar das circulares

Segundo o IBGE, a circular de 1937 provocou forte queda na imigração judaica. Muitos judeus, porém, continuaram chegando durante a guerra. Os caminhos usados foram:

  • vistos de turista, de trânsito ou da categoria “capitalista”;
  • certificados de batismo católico, inclusive falsos;
  • a Resolução nº 39, de 23 de julho de 1939, que criou, a pedido do Vaticano, uma cota de vistos para católicos não arianos;
  • cotas existentes, projetos de colonização e compra de terras;
  • papéis falsos, suborno e intermediação de funcionários;
  • diplomatas que desobedeceram às ordens.

Carneiro estima que cerca de 14 mil refugiados judeus entraram assim. É uma estimativa historiográfica, não um número definitivo. O acolhimento dos refugiados veio sobretudo das associações judaicas brasileiras, e não do governo.

3. O caso Olga Benário

Olga Benário era comunista alemã de origem judaica. A Terceira Internacional (Komintern) a enviou ao Brasil ao lado de Luís Carlos Prestes, com quem se casou. Depois do fracasso do Levante Comunista de novembro de 1935, a polícia política prendeu os dois no Rio de Janeiro, em março de 1936.

Em 28 de agosto de 1936, Getúlio Vargas assinou o decreto de expulsão. O texto a classificava como “nociva aos interesses nacionais” e “perigosa à ordem pública”. Em setembro de 1936, grávida de sete meses, ela foi entregue à Alemanha nazista.

  • Quem participou: o chefe de polícia Filinto Müller e o ministro da Justiça Francisco Campos.
  • A ligação com a Gestapo: o representante brasileiro em Berlim, José Joaquim de Lima e Silva Moniz de Aragão, trocou dados, relatórios e fotografias com a Gestapo para garantir que Olga fosse presa ao desembarcar. A mesma intermediação alcançou Arthur Ernst Ewert e Elise Saborovski Ewert.
  • O destino de Olga: ela foi presa em Berlim, na prisão de Barnimstrasse, onde deu à luz a filha, Anita Leocádia Prestes. A avó paterna resgatou a criança depois de uma intensa campanha internacional. Olga passou pelos campos de Lichtenburg e Ravensbrück e foi morta na câmara de gás do centro de extermínio de Bernburg, em 1942.

Atenção à precisão histórica. O caso exige distinguir três pontos:

  • A deportação não foi aplicação da Circular 1.127, que é de 1937.
  • O motivo formal foi o anticomunismo.
  • O resultado foi colaboração com o nazismo. Para Carneiro, as consequências “extrapolaram” o anticomunismo e expressaram o antissemitismo político brasileiro.

Dizer apenas que Olga foi deportada “por ser judia” simplifica demais o caso. Tratá-la como expulsão administrativa comum também é insuficiente.

4. A Ação Integralista Brasileira (AIB)

Plínio Salgado fundou a AIB em 1932. Foi o maior movimento fascista do Brasil e atuou legalmente até a implantação do Estado Novo, em 1937.

O que a AIB defendia:

  • nacionalismo orgânico e antiliberal;
  • anticomunismo;
  • Estado forte e corporativo;
  • disciplina, hierarquia e mobilização de massas;
  • rejeição do pluralismo partidário e da democracia liberal;
  • valorização do catolicismo e de uma ideia espiritualizada de nação.

O movimento tinha uniformes, saudações, desfiles e estrutura paramilitar. A camisa verde dos militantes deu origem ao apelido “galinhas-verdes”.

A cúpula:

  • Plínio Salgado, chefe supremo;
  • Miguel Reale, secretário nacional e responsável pelos aspectos jurídicos e corporativistas;
  • Gustavo Barroso, chefe das milícias e principal propagandista antissemita.

Como a historiografia classifica a AIB. Hélgio Trindade intitulou seu estudo clássico Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. Os historiadores discutem o grau de autonomia ideológica da AIB, mas não a presença de características fascistas. A definição mais precisa é fascismo brasileiro ou movimento de tipo fascista. A AIB não era uma filial do Partido Nazista.

O antissemitismo no movimento. Ele não constava da plataforma oficial, mas foi uma força real e pública. Para Marcos Chor Maio e Carlos Eduardo Calaça, o antissemitismo “foi um dos instrumentos de coesão ideológica das milícias integralistas”. O próprio Plínio Salgado, de discurso católico e espiritualista, culpou o “judeu internacional” pela derrota integralista na “Batalha da Sé”, em 1934, no jornal A Offensiva.

5. Gustavo Barroso e os Protocolos

Barroso não era uma figura marginal. Comandava as milícias da AIB, dirigiu o Museu Histórico Nacional e presidiu a Academia Brasileira de Letras. Ele mesmo escreveu que foi o integralismo que o tornou antijudaico.

Ano Obra Conteúdo
1934 Brasil: Colônia de Banqueiros Reescreve os empréstimos do Brasil entre 1824 e 1934 como plano da casa Rothschild
1936 Os Protocolos dos Sábios de Sião (tradução) Primeira tradução em português, pela Agência Minerva, com notas que tentam “provar” o falso complô no Brasil
1936 O que o integralista deve saber Atribui as crises morais e financeiras do mundo a um grupo dirigido por judeus
1937 A Sinagoga Paulista e Judaísmo, Maçonaria e Comunismo Ampliam o discurso conspiratório

Também em 1937, o padre integralista José Cabral publicou A Questão Judaica. O jornal integralista Acção divulgava com frequência textos sobre uma suposta dominação judaica.

Os Protocolos são uma falsificação produzida no Império Russo, publicada em 1903 e divulgada pela polícia do czar. Os nazistas os usaram depois. Segundo a Enciclopédia do Holocausto, do Museu do Holocausto dos EUA, o texto não documenta nenhuma conspiração real. O Rothschild de Brasil: Colônia de Banqueiros é o mesmo tropo que a AJC descreve como clássico do antissemitismo.

6. O Plano Cohen

O Plano Cohen foi um texto falso de setembro de 1937, escrito pelo capitão integralista Olímpio Mourão Filho, ligado ao Ministério da Guerra. Ele simulava um plano comunista de tomada do poder com greves, saques e assassinatos de líderes políticos.

  • O nome: “Cohen” evocava o estereótipo do judeu apátrida e conspirador.
  • A estrutura: estudos apontam que as diretrizes repetiam a dos Protocolos.
  • A consequência: rádios e jornais espalharam pânico, e em 10 de novembro de 1937 Vargas deu o golpe do Estado Novo.

Uma mentira antissemita ajudou a derrubar a ordem constitucional do país.

7. O fim da AIB e os ecos atuais

O Estado Novo proibiu os partidos, e a relação dos integralistas com Vargas se deteriorou. Em maio de 1938, grupos integralistas tentaram invadir o Palácio Guanabara. O Levante Integralista fracassou rapidamente, e a AIB deixou de existir como força política legal.

Hoje, grupos como a Frente Integralista Brasileira reutilizam nomes, símbolos e vocabulário integralistas. A continuidade organizacional com a AIB histórica precisa ser demonstrada caso a caso. Ainda assim, essa reutilização indica a apropriação de um repertório com passado antissemita.

O mito dos Protocolos também segue circulando. A carta fundacional do grupo terrorista Hamas, de 1988, o repete no artigo 22. Apresentar o integralismo como mero patriotismo, cristianismo ou anticomunismo omite sua estrutura fascista e sua propaganda antissemita.

8. Os Justos entre as Nações brasileiros

O título é concedido pelo Yad Vashem, o memorial do Holocausto de Israel, em nome do Estado de Israel e do povo judeu. Ele homenageia não judeus que arriscaram a vida, a liberdade ou a posição para salvar judeus no Holocausto, sem buscar recompensa. Em hebraico, o nome é Khassidei Umot HaOlam. O título premia atos individuais comprovados; não avalia a carreira inteira da pessoa nem o governo de seu país.

Luiz Martins de Souza Dantas (1876–1954)

  • Foi embaixador na França de 1922 a 1943, em Paris e depois em Vichy.
  • Emitiu os chamados “vistos camuflados”: omitia a origem étnica dos requerentes, encobria o “J” vermelho dos passaportes e colocava datas retroativas.
  • As estimativas vão de ao menos 473 a cerca de 500 vistos. As pesquisas de Fábio Koifman indicam cerca de 800 pessoas salvas.
  • Em telegramas de 17 e 21 de agosto de 1942, avisou o governo brasileiro sobre a deportação e o extermínio em massa dos judeus da França ocupada.
  • O governo Vargas o processou (1941–1942). Os nazistas o prenderam em maio de 1943, e ele ficou 14 meses detido em Bad Godesberg, até ser libertado em 1944.
  • Foi reconhecido pelo Yad Vashem em 11 de junho de 2003.

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (1908–2011)

  • Chefiava a Seção de Passaportes e Vistos do consulado brasileiro em Hamburgo.
  • Depois da Kristallnacht (9 de novembro de 1938), deixava de marcar o “J” vermelho e misturava pedidos de judeus a despachos de rotina.
  • Estima-se que tenha salvado diretamente cerca de 100 judeus. Ficou conhecida como o “Anjo de Hamburgo”.
  • Em 1982, tornou-se a primeira brasileira reconhecida como Justa entre as Nações.
  • O título é só dela, e não de seu marido, João Guimarães Rosa.

Em 30 de janeiro de 2013, a Presidência da República homenageou os dois e pediu desculpas históricas pelas omissões do Estado Novo.

9. Critério para reconhecer o antissemitismo

A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA e combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião. Por esse critério, acusar judeus de dominar bancos, governos ou o mundo, como fazia Barroso, é antissemitismo.


Linha do tempo

Data Acontecimento
1903 Publicação dos falsos Protocolos dos Sábios de Sião no Império Russo
1922 Souza Dantas assume a embaixada do Brasil na França
1932 Plínio Salgado funda a AIB
1934 Barroso publica Brasil: Colônia de Banqueiros; Salgado culpa o “judeu internacional” pela “Batalha da Sé”; Aracy muda-se para a Alemanha
Nov. 1935 Levante Comunista (Intentona Comunista)
Mar. 1936 Prisão de Olga Benário e Luís Carlos Prestes no Rio de Janeiro
1936 Barroso publica a primeira tradução em português dos Protocolos
28 ago. 1936 Vargas assina o decreto de expulsão de Olga
Set. 1936 Olga, grávida de sete meses, é entregue à Alemanha nazista
7 jun. 1937 Circular Secreta nº 1.127
1937 Guimarães Rosa assume como cônsul-adjunto em Hamburgo
Set. 1937 Plano Cohen
10 nov. 1937 Golpe do Estado Novo
Maio 1938 Levante Integralista fracassa; fim da AIB como força política legal
9 nov. 1938 Kristallnacht (Noite dos Cristais)
23 jul. 1939 Resolução nº 39: cota de vistos para católicos não arianos
Jun. 1940 Ocupação alemã da França; Souza Dantas passa a atuar em Vichy
12 dez. 1940 Circular Secreta nº 1.498 mantém a proibição
1941–1942 Processo administrativo do governo Vargas contra Souza Dantas
17 e 21 ago. 1942 Telegramas de Souza Dantas denunciam o extermínio de judeus na França ocupada
1942 Olga Benário é morta na câmara de gás de Bernburg
Maio 1943 Nazistas prendem Souza Dantas em Vichy
1944 Souza Dantas é libertado numa troca de prisioneiros
1953 O Knesset aprova a lei que cria o Yad Vashem
1963 Começa a funcionar a comissão do Yad Vashem que examina os casos de Justos
1982 Aracy é reconhecida como Justa entre as Nações
1988 Carneiro publica O Anti-Semitismo na Era Vargas
11 jun. 2003 Souza Dantas é reconhecido como Justo entre as Nações
30 jan. 2013 A Presidência homenageia os dois Justos e pede desculpas históricas

5 perguntas para discussão

  1. Por que o governo Vargas preferiu circulares secretas a uma lei pública para restringir a entrada de judeus? Que efeitos essa escolha teve sobre o debate público e a responsabilização histórica?
  2. O motivo formal da expulsão de Olga Benário foi anticomunista. Por que, ainda assim, a historiografia a interpreta como colaboração com o nazismo e expressão do antissemitismo político? Por que a frase “deportada por ser judia” é uma simplificação?
  3. O antissemitismo não constava da plataforma oficial da AIB. Isso absolve o integralismo? Use o papel de Gustavo Barroso e da imprensa integralista na sua resposta.
  4. Como o Plano Cohen mostra que um mito antissemita pode ter consequências para toda a sociedade, e não só para os judeus?
  5. Souza Dantas e Aracy contrariaram ordens oficiais e correram riscos. O que a história deles ensina sobre responsabilidade individual diante de uma política discriminatória? Como ensinar esse tema sem apagar o antissemitismo de Estado que eles enfrentaram?

Glossário

  • AIB (Ação Integralista Brasileira): movimento de tipo fascista fundado por Plínio Salgado em 1932; seus militantes eram chamados de “galinhas-verdes”.
  • Antissemitismo de Estado: expressão de Maria Luiza Tucci Carneiro para a discriminação oficial e sigilosa contra judeus na política de vistos da Era Vargas.
  • Circular Secreta nº 1.127: ordem confidencial do Itamaraty, de 7 de junho de 1937, que mandava negar vistos a pessoas de “origem étnica semítica”.
  • Estado Novo: regime instaurado por Vargas com o golpe de 10 de novembro de 1937.
  • IHRA: definição de antissemitismo adotada pela JJO; por ela, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.
  • Justos entre as Nações (Khassidei Umot HaOlam): não judeus reconhecidos pelo Yad Vashem por arriscarem a vida, a liberdade ou a posição para salvar judeus no Holocausto.
  • Komintern (Terceira Internacional): organização comunista internacional que enviou Olga Benário ao Brasil.
  • Plano Cohen: texto falso de setembro de 1937, escrito pelo capitão integralista Olímpio Mourão Filho, que serviu de pretexto para o Estado Novo.
  • Protocolos dos Sábios de Sião: falsificação antissemita produzida no Império Russo e publicada em 1903; Barroso fez a primeira tradução em português em 1936.
  • “Vistos camuflados”: vistos emitidos por Souza Dantas que ocultavam a origem judaica dos requerentes.
  • Yad Vashem: memorial do Holocausto de Israel, criado por lei do Knesset em 1953.

Quiz: teste o que aprendeu

1. O que determinava o item “c” da Circular Secreta nº 1.127, de 7 de junho de 1937?

O item “c” da Circular 1.127 mandava negar visto a pessoas de “origem étnica semítica”. A restrição valia até para turistas e negociantes.

2. Por que o governo Vargas usou circulares secretas em vez de uma lei aprovada pelo Legislativo?

As ordens reservadas mantinham a política antissemita longe do debate público e evitavam desgaste internacional. Era uma discriminação burocrática, sigilosa e seletiva.

3. Qual afirmação sobre a deportação de Olga Benário é historicamente correta?

A deportação ocorreu em 1936, antes da circular de 1937. O decreto falava em ameaça à ordem pública. Para Maria Luiza Tucci Carneiro, porém, as consequências “extrapolaram” o anticomunismo e expressaram colaboracionismo e antissemitismo político.

4. Onde Olga Benário foi morta pelo regime nazista, em 1942?

Olga deu à luz a filha Anita na prisão de Barnimstrasse e passou por Lichtenburg e Ravensbrück. Foi executada em Bernburg em 1942, como parte do Holocausto e da perseguição nazista.

5. Quem fez a primeira tradução em português dos falsos Protocolos dos Sábios de Sião, em 1936?

Gustavo Barroso, chefe das milícias integralistas, publicou a tradução pela Agência Minerva. Suas notas tentavam “provar” que o falso complô estaria em curso no Brasil.

6. O que são os Protocolos dos Sábios de Sião?

Os Protocolos são uma falsificação divulgada pela polícia do czar. Segundo a Enciclopédia do Holocausto, do Museu do Holocausto dos EUA, o texto não documenta nenhuma conspiração real.

7. Qual foi o papel do Plano Cohen na história brasileira?

Escrito pelo capitão integralista Olímpio Mourão Filho em setembro de 1937, o plano tinha um nome que evocava o estereótipo do judeu conspirador. Ele serviu de pretexto para o Estado Novo.

8. Como a historiografia classifica a Ação Integralista Brasileira?

Os historiadores discutem o grau de autonomia ideológica da AIB, mas não suas características fascistas. Hélgio Trindade a chamou de “o fascismo brasileiro na década de 30”.

9. Qual destes métodos foi usado por Luiz Martins de Souza Dantas para salvar perseguidos?

Souza Dantas emitiu os chamados “vistos camuflados”. Ele omitia a origem étnica dos requerentes, encobria o “J” vermelho e colocava datas retroativas, contrariando as ordens do governo.

10. Sobre Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, é correto afirmar que:

Aracy chefiava a Seção de Passaportes e Vistos do consulado em Hamburgo e ajudou judeus perseguidos. O título do Yad Vashem é só dela, e não do marido.

Cartões de estudo

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Judeus no Brasil na era VargasJudeus da Amazônia

Breve vídeo institucional sobre o antissemitismo de Estado na era Vargas: a influência da eugenia, as circulares secretas do Itamaraty que restringiam vistos a judeus e as exigências impostas à imigração judaica às vésperas do Holocausto.

Adolescentes e adultos
Palestra do sobrevivente Samuel Rozenberg em Brasília - TV SenadoMuseu do Holocausto de Curitiba

Reportagem da TV Senado sobre a palestra de Samuel Rozenberg, judeu de família polonesa que sobreviveu escondido na Bélgica durante a Shoá e depois se tornou cardiologista no Rio de Janeiro, para alunos do Distrito Federal. Ele relata a infância roubada, a fome, a separação dos pais e a identidade falsa, e reflete sobre a importância de manter viva a memória.

Adolescentes e adultos
Palestra do sobrevivente George Legmann em Brasília - TV SenadoMuseu do Holocausto de Curitiba

Reportagem da TV Senado sobre a palestra de George Legmann, sobrevivente do Holocausto nascido num campo de concentração, para estudantes em Brasília. Ele relata a deportação da família judia romena para Auschwitz, o trabalho forçado da mãe grávida e a importância de transmitir essa memória contra o negacionismo.

Adolescentes e adultos
Também em inglês: mais 3 vídeos sobre o tema

Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).

Remembering Heroic Friends of Israel: Oswaldo Aranha and Jorge Garcia-GranadosAmerican Jewish Committee · em inglês

Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.

Homenagem do American Jewish Committee aos diplomatas Oswaldo Aranha (Brasil) e Jorge García Granados (Guatemala), decisivos na votação da partilha da ONU em 1947, com depoimentos de seus netos e bastidores da manobra que adiou a votação até 29 de novembro.

Adultos
Entrevista - Rabino Gilad KarivFIERJ Assuntos Gerais · em inglês

Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.

O rabino israelense Gilad Kariv explica o que é o judaísmo progressista (liberal ou reformista), seu crescimento em Israel e na América Latina e a busca dos jovens por uma vida judaica significativa além da dicotomia entre ortodoxia e secularismo. Ele fala também da troca de experiências com a comunidade liberal no Brasil.

Adolescentes e adultos
Etel Bennett | Survivor of the Hamas Terrorist Attack | USC Shoah FoundationUSC Shoah Foundation · em inglês

Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.

Etel Bennett, brasileira que vive desde 1971 no Kibutz Zikim, a 4 km de Gaza, conta à USC Shoah Foundation como sobreviveu ao ataque dos terroristas do Hamas em 7 de outubro, a perda de familiares no moshav Netiv HaAsara e a vida como deslocada dentro do próprio país. Um testemunho direto e humano, que também lembra que muçulmanos não são o Hamas.

Adolescentes e adultos

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