Foto: Theodor Herzl em 1900. Escritório de Imprensa do Governo de Israel (GPO) · Public domain · Wikimedia CommonsOuça: Podcast Contexto
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Lia: Olá, bem-vindas e bem-vindos a mais um episódio do Contexto, o podcast da Juventude Judaica Organizada. Eu sou a Lia.
Davi: E eu sou o Davi. Hoje vamos falar de um nome que aparece em todo livro sobre a história de Israel.
Lia: Theodor Herzl e o sonho de um Estado judeu. Quem foi esse homem, o que ele propôs e por que até hoje ele é chamado de pai do sionismo político moderno.
Davi: E é um tema que importa muito para quem está em sala de aula, Lia. O nome de Herzl aparece em discussões, em redes sociais e em provas. Muitas vezes vem acompanhado de simplificações.
Lia: Exatamente. Tem gente que acha que ele inventou o sionismo. Tem gente que acha que ele fundou Israel com as próprias mãos. E tem quem use o nome dele para atacar o movimento inteiro. Entender Herzl ajuda a separar fato de mito.
Davi: Então vamos começar pelo começo. Quem era Theodor Herzl?
Lia: Herzl nasceu em 2 de maio de 1860, em Pest, no Império Austro-Húngaro. Vinha de uma família judaica assimilada, ou seja, distante da prática religiosa tradicional.
Davi: E ele não era rabino nem líder comunitário, certo?
Lia: Não. Formou-se em Direito, mas fez carreira como dramaturgo e jornalista. Foi correspondente em Paris e editor de folhetins do jornal Neue Freie Presse, de Viena. A Encyclopaedia Britannica o descreve como jornalista e ativista político austro-húngaro.
Davi: Um jornalista de Viena, de família assimilada. Como um homem assim chega à ideia de um Estado judeu?
Lia: Aqui entra um episódio famoso, o Caso Dreyfus. Em 1894, o capitão judeu Alfred Dreyfus foi condenado por traição na França. Mais tarde ele foi reabilitado. Mas, naquele momento, Herzl estava em Paris como correspondente. Entre 1894 e 1895, ele acompanhou o julgamento e a degradação pública do oficial.
Davi: E isso mexeu com ele.
Lia: Muito. O caso reforçou em Herzl duas conclusões. A primeira: a assimilação não protegeria os judeus. A segunda: o antissemitismo não era só um problema religioso ou social, era uma questão nacional.
Davi: Mas eu já ouvi dizer que foi uma conversão instantânea, de uma hora para outra.
Lia: Essa é uma simplificação. Historiadores também apontam experiências anteriores de Herzl com o antissemitismo, com a assimilação e com o nacionalismo europeu. O Caso Dreyfus mostrou a força do antissemitismo político até na Europa Ocidental, mas não explica sozinho a virada dele.
Davi: É uma boa dica para o professor, aliás: a história raramente cabe num único momento dramático.
Lia: Com certeza. E vale outra ressalva importante: Herzl não inventou o sionismo.
Davi: Explica isso melhor.
Lia: O desejo de retorno a Sião, um dos nomes bíblicos de Jerusalém, aparecia na liturgia e na tradição judaica havia séculos. E o vínculo judaico com a terra tem mais de 3 mil anos, documentado pela arqueologia. Houve comunidades judaicas contínuas em Jerusalém, Hebron, Safed e Tiberíades.
Davi: E antes de Herzl já havia pensadores defendendo o retorno, não é?
Lia: Sim. O rabino Yehuda Alkalai, o rabino Zvi Hirsch Kalischer e o filósofo Moses Hess, que escreveu Roma e Jerusalém em 1862. Depois da onda de pogroms no Império Russo em 1881, o médico Leon Pinsker publicou Autoemancipação, em 1882. Esse texto inspirou as sociedades Hovevei Zion, os "Amantes de Sião", que organizaram os primeiros assentamentos agrícolas.
Davi: Então qual foi a contribuição própria de Herzl?
Lia: Ele deu a esse anseio a forma de um movimento político internacional, com instituições diplomáticas, financeiras e representativas. Por isso ele é o pai do sionismo político moderno.
Davi: Vamos então ao segundo bloco: o livro e o congresso.
Lia: Em 14 de fevereiro de 1896, Herzl publicou em Viena Der Judenstaat, ou O Estado Judeu. No livro, ele defendia que a questão judaica pedia uma solução política e diplomática, na arena internacional.
Davi: Uma proposta bem concreta, então.
Lia: Bastante. Ele previa duas estruturas. A Sociedade dos Judeus, um órgão político representativo, e a Companhia Judaica, um órgão financeiro e de execução. A ideia era um Estado judeu garantido pelo direito público.
Davi: E ele sabia que estava dando um passo grande.
Lia: Sabia. No diário, no dia da publicação, ele escreveu: "Este pacote de folhetos constitui a decisão em forma tangível. Minha vida pode agora tomar um novo rumo."
Davi: E o rumo seguinte foi Basileia.
Lia: Isso. Para preparar o encontro, Herzl fundou em 4 de junho de 1897 o semanário Die Welt, órgão oficial do movimento. O congresso estava previsto para Munique, mas a oposição de rabinos assimilacionistas alemães levou à mudança para a Suíça.
Davi: E aí acontece o Primeiro Congresso Sionista.
Lia: Entre 29 e 31 de agosto de 1897, no Stadt-Casino de Basileia, com cerca de 200 delegados de 17 países, sob a presidência de Herzl. O congresso fundou a Organização Sionista e elegeu Herzl seu primeiro presidente.
Davi: E aprovou um programa.
Lia: O Programa de Basileia, redigido com Max Nordau. Ele fixou o objetivo de criar um lar para o povo judeu na Terra de Israel, então sob domínio do Império Otomano, garantido pelo direito público.
Davi: Repara que a palavra é "lar", e não "Estado".
Lia: Exatamente. A fórmula era deliberadamente diplomática. Ainda não era um plano constitucional de Estado.
Davi: Mas no diário ele foi bem mais ousado.
Lia: Foi. Em 3 de setembro de 1897, ele escreveu a frase mais citada da sua vida: "Em Basileia, eu fundei o Estado Judeu. Se eu dissesse isso em voz alta hoje, seria recebido com risos universais. Talvez em cinco anos, certamente em cinquenta, todos o verão."
Davi: E Israel proclamou sua independência em 14 de maio de 1948.
Lia: Cerca de 50 anos e 8 meses depois dessa anotação. É uma previsão impressionante.
Davi: Terceiro bloco: a diplomacia. Herzl não ficou só escrevendo.
Lia: Não mesmo. Ele buscou uma concessão internacional, um charter, para o assentamento judaico autônomo. Encontrou o imperador alemão Guilherme II em Constantinopla e em Jerusalém, entre outubro e novembro de 1898. Reuniu-se com o sultão otomano Abdul Hamid II em Istambul, em maio de 1901, já que a região estava sob domínio otomano. E manteve contatos com autoridades britânicas.
Davi: E conseguiu o acordo?
Lia: Não conseguiu o acordo decisivo que procurava. Mas construiu a base do movimento. Em 1899 promoveu o Jewish Colonial Trust. Em 1901, o Fundo Nacional Judaico, o Keren Kayemet LeIsrael, usado na compra de terras. E em 1902 publicou o romance utópico Altneuland.
Davi: E tem o famoso Plano Uganda.
Lia: Em 1903, o governo britânico ofereceu um território na África Oriental. Herzl levou a proposta ao 6º Congresso Sionista como alternativa temporária, diante dos perigos que os judeus enfrentavam na Europa. O plano gerou forte controvérsia e não foi adotado pelo movimento.
Davi: O que mostra que o movimento debatia, discordava.
Lia: Sim. O sionismo nunca foi uma doutrina única. Herzl e Nordau representam a corrente política. Depois vieram a trabalhista, de David Ben-Gurion, a revisionista, de Ze'ev Jabotinsky, a cultural, de Ahad Ha'am, a religiosa, do rabino Abraham Yitzhak Kook, e outras.
Davi: E o próprio Herzl, era religioso?
Lia: As obras de referência não o descrevem como ateu, e sim como filho de uma família judaica assimilada. O sionismo político dele não dependia de uma posição religiosa e reuniu judeus religiosos e não religiosos em torno do mesmo objetivo nacional.
Davi: Último bloco: o fim da vida dele e o legado.
Lia: Herzl morreu de problemas cardíacos em 3 de julho de 1904, aos 44 anos, em Edlach, na Áustria. A causa costuma ser registrada como esclerose ou insuficiência cardíaca, com o desgaste de anos de trabalho incessante pelo movimento.
Davi: E foi enterrado em Viena.
Lia: Primeiro, sim. Em testamento, pediu que seus restos fossem levados à Terra de Israel quando fosse possível. Em 1949, depois da criação do Estado, eles foram transferidos para Jerusalém. O local passou a se chamar Monte Herzl.
Davi: Lia, e quando um aluno pergunta se o sionismo de Herzl era colonialismo europeu?
Lia: A pergunta parte de fatos reais: Herzl e muitos dos primeiros sionistas vinham da Europa. Mas não havia metrópole. Os judeus fugiam de pogroms e, mais tarde, do Holocausto. Em grande parte, adquiriam terras por compra, com registro nos cartórios otomanos e do Mandato.
Davi: E a Grã-Bretanha nem sempre apoiou.
Lia: O Livro Branco de 1939 limitou a imigração judaica a 75 mil pessoas em cinco anos. E hoje mais da metade dos judeus de Israel descende de judeus orientais, mizrahim e sefarditas.
Davi: E onde fica o limite entre crítica e preconceito?
Lia: A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA. Criticar políticas e governos de Israel, como se critica qualquer outro país, faz parte do debate público. Negar o direito de Israel existir é antissemitismo.
Davi: Vamos às três ideias-chave?
Lia: Primeira: Herzl não inventou o anseio de retorno, que é milenar. Ele o transformou em movimento político organizado, com congresso, instituições e diplomacia.
Davi: Segunda: Herzl não fundou Israel no sentido literal, porque morreu em 1904. Ele fundou o movimento que tornou o Estado possível em 1948, como previu no diário.
Lia: Terceira: o sionismo sempre teve muitas correntes e debates internos. O núcleo comum é o direito do povo judeu à autodeterminação.
Davi: Obrigado por nos acompanhar no Contexto.
Lia: Mais materiais em jjo.org.br. Até o próximo episódio!
Guia de estudo
Guia de estudo da JJO (Juventude Judaica Organizada) para professores do Ensino Médio e comunidades
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste estudo, o participante deverá ser capaz de:
- Explicar quem foi Theodor Herzl e por que ele é chamado de pai do sionismo político moderno.
- Distinguir o antigo anseio judaico de retorno a Sião do projeto político organizado por Herzl.
- Identificar os precursores do sionismo e o contexto de antissemitismo na Europa do fim do século XIX.
- Descrever as propostas de O Estado Judeu (1896) e os resultados do Primeiro Congresso Sionista (1897).
- Relacionar a obra de Herzl com a proclamação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948.
- Diferenciar a crítica legítima a governos de Israel da negação do direito de Israel existir, que é antissemitismo pela definição da IHRA.
Conceitos-chave
Sionismo
É o movimento nacional judaico surgido na Europa no fim do século XIX. Ele defende a autodeterminação do povo judeu em um lar nacional, e depois em um Estado, na Terra de Israel. A palavra vem de Sião (Tsiyon), um dos nomes bíblicos de Jerusalém, que com o tempo virou símbolo de toda a Terra de Israel. O termo Zionismus foi cunhado pelo intelectual austríaco Nathan Birnbaum. A data exata é discutida e fica entre 1890 e 1892.
O sionismo costuma ser descrito a partir de três ideias: - Am Yisrael (o povo de Israel): os judeus formam um povo, com identidade histórica e cultural própria, e não apenas uma comunidade religiosa. - Eretz Yisrael (a Terra de Israel): o povo judeu mantém uma ligação histórica e espiritual contínua com essa terra. - Medinat Yisrael (o Estado de Israel): o povo judeu tem direito à autodeterminação política em um Estado soberano.
Um anseio antigo, um projeto novo
O desejo de retorno a Sião aparece há séculos na liturgia e na tradição judaica. A presença judaica na terra tem mais de 3 mil anos e é documentada pela arqueologia. Houve comunidades judaicas contínuas em Jerusalém, Hebron, Safed e Tiberíades. O sionismo moderno transformou essa aspiração em um projeto político e nacional, baseado em diplomacia, imigração, assentamento e instituições nacionais.
Os precursores
Herzl não foi o primeiro a defender a vida judaica na Terra de Israel: - O rabino Yehuda Alkalai, o rabino Zvi Hirsch Kalischer e o filósofo Moses Hess já defendiam o trabalho agrícola e o assentamento. Hess escreveu Roma e Jerusalém (1862). - Depois da onda de pogroms de 1881 no Império Russo, o médico Leon Pinsker publicou Autoemancipação (1882). Ele defendeu que os judeus deviam assumir o controle do próprio destino. - O texto de Pinsker inspirou as sociedades Hovevei Zion (“Amantes de Sião”), formalizadas na Conferência de Kattowice, em 1884. Elas organizaram os primeiros assentamentos agrícolas.
Quem foi Herzl
Herzl foi um jornalista e escritor judeu austro-húngaro. Nasceu em 2 de maio de 1860, em Pest (há registros que indicam Budapeste), em uma família judaica assimilada, distante da prática religiosa tradicional. Formou-se em Direito, mas fez carreira como dramaturgo e jornalista. Foi correspondente em Paris e editor de folhetins do jornal Neue Freie Presse, de Viena.
O Caso Dreyfus
Em 1894, o capitão judeu Alfred Dreyfus foi condenado por traição na França e depois foi reabilitado. Como correspondente, Herzl acompanhou o julgamento e a degradação pública do oficial, entre 1894 e 1895. O caso reforçou nele duas conclusões. A primeira é que a assimilação não protegeria os judeus. A segunda é que o antissemitismo era uma questão nacional, e não apenas religiosa ou social. Dizer que o caso o converteu ao sionismo de uma hora para outra é uma simplificação, porque Herzl já tivera outras experiências com o antissemitismo, com a assimilação e com o nacionalismo europeu.
O Estado Judeu (Der Judenstaat)
O livro foi publicado em Viena, em 14 de fevereiro de 1896. Ele defendia que a “questão judaica” pedia uma solução política e diplomática, na arena internacional: um Estado judeu garantido pelo direito público. Previa duas estruturas: - a Sociedade dos Judeus, órgão político representativo; - a Companhia Judaica, órgão financeiro e de execução.
O Primeiro Congresso Sionista
Para preparar o encontro, Herzl fundou em 4 de junho de 1897 o semanário Die Welt, órgão oficial do movimento. O congresso estava previsto para Munique, mas a oposição de rabinos assimilacionistas alemães levou à mudança para a Suíça.
| Item | Dado |
|---|---|
| Data | 29 a 31 de agosto de 1897 |
| Local | Stadt-Casino, Basileia (Suíça) |
| Participantes | cerca de 200 delegados de 17 países |
| Presidência | Theodor Herzl |
| Resultado | fundação da Organização Sionista, com Herzl como primeiro presidente, e aprovação do Programa de Basileia |
O Programa de Basileia foi redigido com Max Nordau. Ele fixou o objetivo de criar um lar para o povo judeu na Terra de Israel, então sob domínio do Império Otomano, garantido pelo direito público. A fórmula era deliberadamente diplomática e ainda não era um plano constitucional de Estado.
A diplomacia e as instituições
Herzl buscou uma concessão internacional (charter) para o assentamento judaico autônomo, mas não conseguiu o acordo decisivo que procurava. - Encontrou o imperador alemão Guilherme II em Constantinopla e em Jerusalém, entre outubro e novembro de 1898. - Reuniu-se com o sultão otomano Abdul Hamid II em Istambul, em maio de 1901. - Manteve contatos com autoridades britânicas.
Ele também criou a base financeira do movimento. Em 1899 promoveu o Jewish Colonial Trust e, em 1901, o Fundo Nacional Judaico (Keren Kayemet LeIsrael, KKL), usado na compra de terras. Em 1902 publicou o romance utópico Altneuland.
O Plano Uganda
Em 1903, o governo britânico ofereceu um território na África Oriental. Herzl levou a proposta ao 6º Congresso Sionista como alternativa temporária, diante dos perigos que os judeus enfrentavam na Europa. O plano gerou forte controvérsia e não foi adotado pelo movimento.
Morte e legado
Herzl morreu de problemas cardíacos em 3 de julho de 1904, aos 44 anos, em Edlach, na Áustria. A causa costuma ser registrada como esclerose cardíaca ou insuficiência cardíaca, agravada pelo desgaste de anos de trabalho intenso. Foi sepultado primeiro em Viena. Em testamento, pediu que seus restos fossem levados à Terra de Israel quando fosse possível. Em 1949 eles foram transferidos para Jerusalém, e o local passou a se chamar Monte Herzl.
Herzl não fundou o Estado de Israel no sentido literal, pois morreu décadas antes de 1948. Ele fundou o movimento que tornou o Estado possível.
Uma frase que virou profecia
Em seu diário, em 3 de setembro de 1897, Herzl escreveu: “Em Basileia, eu fundei o Estado Judeu. Se eu dissesse isso em voz alta hoje, seria recebido com risos universais. Talvez em cinco anos, certamente em cinquenta, todos o verão.” Israel proclamou sua independência cerca de 50 anos e 8 meses depois dessa anotação.
Judaísmo, sionismo e antissemitismo
- Judaísmo é a religião e a tradição milenar do povo judeu. Sionismo é um movimento político e nacional moderno. Os dois se cruzam, mas não são a mesma coisa.
- Houve judeus sionistas, não sionistas e antissionistas. Há sionistas religiosos e seculares, e há sionistas que não são judeus.
- O sionismo político de Herzl não dependia de uma posição religiosa e reuniu judeus religiosos e não religiosos em torno do mesmo objetivo nacional.
- O movimento teve muitas correntes: a política (Herzl, Nordau), a trabalhista (David Ben-Gurion), a revisionista (Ze'ev Jabotinsky), a cultural (Ahad Ha'am), a religiosa (rabino Abraham Yitzhak Kook) e a da Diáspora (Henrietta Szold).
- Criticar políticas e governos de Israel, como se critica qualquer outro país, faz parte do debate público e não é antissemitismo.
- A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA. Por esse critério, negar ao povo judeu o direito à autodeterminação, por exemplo dizendo que Israel não tem direito de existir, é antissemitismo.
- Um teste simples: troque “sionista” por “judeu” na frase. Se o resultado for um preconceito clássico, a frase já não fala de política.
- A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
A acusação de “colonialismo”
Alguns críticos descrevem o sionismo como um projeto colonial europeu. A comparação parte de fatos reais: muitos dos primeiros sionistas vinham da Europa, falava-se em “colonização” agrícola e a Grã-Bretanha apoiou o lar nacional. Mas a acusação omite o essencial: - Não havia metrópole. Os judeus fugiam de pogroms e, mais tarde, do Holocausto. Em grande parte, adquiriam terras por compra, com registro nos cartórios otomanos e do Mandato. - A Grã-Bretanha mudou de lado. O Livro Branco de 1939 limitou a imigração judaica a 75 mil pessoas em cinco anos. - A origem dos israelenses é diversa. Mais da metade dos judeus de Israel descende de judeus orientais, mizrahim e sefarditas. - Os sionistas aceitaram a partilha. O movimento aceitou o plano da Comissão Peel, em 1937, e a Resolução 181 da ONU, em 1947. A liderança árabe palestina e os Estados árabes rejeitaram as duas propostas.
Quando esse rótulo serve para negar o direito de Israel existir, ele nega aos judeus a autodeterminação. Pelo critério da IHRA, isso é antissemitismo.
Linha do tempo
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 2/5/1860 | Nascimento de Theodor Herzl, em Pest |
| 1862 | Moses Hess publica Roma e Jerusalém |
| 1881 | Onda de pogroms no Império Russo |
| 1882 | Leon Pinsker publica Autoemancipação |
| 1884 | Conferência de Kattowice formaliza as sociedades Hovevei Zion |
| 1894 | Condenação do capitão Alfred Dreyfus na França |
| 14/2/1896 | Publicação de O Estado Judeu, em Viena |
| 4/6/1897 | Fundação do semanário Die Welt |
| 29 a 31/8/1897 | Primeiro Congresso Sionista, em Basileia |
| 3/9/1897 | Herzl escreve no diário: “Em Basileia, eu fundei o Estado Judeu” |
| Out./nov. 1898 | Encontros com Guilherme II em Constantinopla e em Jerusalém |
| 1899 | Criação do Jewish Colonial Trust |
| 1901 | Encontro com o sultão Abdul Hamid II (maio) e criação do Fundo Nacional Judaico (KKL) |
| 1902 | Publicação de Altneuland |
| 1903 | Plano Uganda é debatido no 6º Congresso Sionista e não é adotado |
| 3/7/1904 | Morte de Herzl, em Edlach, aos 44 anos |
| 2/11/1917 | Declaração Balfour |
| 24/7/1922 | Ratificação do Mandato Britânico pela Liga das Nações |
| 1937 | O movimento sionista aceita o plano da Comissão Peel |
| 1939 | O Livro Branco britânico limita a imigração judaica |
| 29/11/1947 | Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU |
| 14/5/1948 | David Ben-Gurion proclama o Estado de Israel, em Tel Aviv |
| 1949 | Os restos de Herzl são levados para o Monte Herzl, em Jerusalém, e Israel entra na ONU (11 de maio, Resolução 273) |
Cinco perguntas para discussão
- Herzl concluiu que a assimilação não protegeria os judeus do antissemitismo. Que experiências o levaram a essa conclusão? Por que é uma simplificação atribuí-la apenas ao Caso Dreyfus?
- Qual é a diferença entre o antigo anseio judaico de retorno a Sião e o projeto político criado por Herzl? Que instituições ele fundou para transformar esse anseio em movimento?
- Por que o Programa de Basileia usou uma fórmula “deliberadamente diplomática”, falando em um lar garantido pelo direito público, e não em um Estado?
- O Plano Uganda gerou forte controvérsia e não foi adotado. O que esse debate revela sobre a importância da Terra de Israel para o movimento sionista?
- Qual é a diferença entre criticar a política de um governo de Israel e negar o direito de Israel existir? Como o “teste da troca” (substituir “sionista” por “judeu”) ajuda a reconhecer o antissemitismo?
Glossário
- Sião (Tsiyon): um dos nomes bíblicos de Jerusalém, que se tornou símbolo de toda a Terra de Israel.
- Sionismo: movimento nacional judaico de autodeterminação do povo judeu em um lar nacional, e depois em um Estado, na Terra de Israel.
- Sionismo político: corrente associada a Herzl e Max Nordau, centrada na diplomacia com as grandes potências e em garantias jurídicas internacionais.
- Assimilação: integração dos judeus à sociedade em que viviam, com abandono de traços da identidade própria. Herzl concluiu que ela não os protegeria do antissemitismo.
- Questão judaica: debate europeu sobre a situação dos judeus. Para Herzl, era um problema nacional e político.
- Hovevei Zion: “Amantes de Sião”, sociedades inspiradas por Pinsker que organizaram os primeiros assentamentos agrícolas.
- Programa de Basileia: programa aprovado em 1897 que fixou o objetivo de um lar para o povo judeu na Terra de Israel, garantido pelo direito público.
- Organização Sionista: instituição permanente do movimento, fundada em Basileia em 1897, que teve Herzl como primeiro presidente. Hoje é a Organização Sionista Mundial.
- Charter: concessão internacional que Herzl buscou para o assentamento judaico autônomo.
- KKL (Keren Kayemet LeIsrael): o Fundo Nacional Judaico, criado em 1901 e usado na compra de terras.
- Monte Herzl: local em Jerusalém para onde os restos de Herzl foram transferidos em 1949.
- IHRA: entidade cuja definição de antissemitismo é adotada pela JJO. Por ela, negar o direito do povo judeu à autodeterminação é antissemitismo.
Quiz: teste o que aprendeu
O Estado Judeu foi publicado em Viena, em 14 de fevereiro de 1896. O livro defendia que a questão judaica pedia uma solução política e diplomática: um Estado judeu garantido pelo direito público.
O livro previa a Sociedade dos Judeus, órgão político representativo, e a Companhia Judaica, órgão financeiro e de execução. O Jewish Colonial Trust e o KKL surgiram depois, em 1899 e 1901.
A oposição de rabinos assimilacionistas alemães levou à mudança para a Suíça. O congresso ocorreu no Stadt-Casino de Basileia, de 29 a 31 de agosto de 1897, com cerca de 200 delegados de 17 países.
Como correspondente em Paris, Herzl acompanhou o julgamento e a degradação pública de Dreyfus entre 1894 e 1895. O caso reforçou nele a conclusão de que a assimilação não protegeria os judeus, embora não explique sozinho sua virada.
Herzl escreveu: “Talvez em cinco anos, certamente em cinquenta, todos o verão.” Israel proclamou sua independência em 14 de maio de 1948, cerca de 50 anos e 8 meses depois dessa anotação.
O governo britânico ofereceu um território na África Oriental. Herzl apresentou a proposta como alternativa temporária, diante dos perigos que os judeus enfrentavam na Europa. O plano gerou forte controvérsia e não foi adotado pelo movimento.
O médico Leon Pinsker publicou Autoemancipação em 1882. O texto inspirou as sociedades Hovevei Zion, formalizadas em 1884. Moses Hess escreveu Roma e Jerusalém (1862), e Nathan Birnbaum cunhou o termo Zionismus.
Herzl foi sepultado primeiro em Viena e pediu em testamento que seus restos fossem levados à Terra de Israel quando fosse possível. Em 1949, depois da criação de Israel, eles foram transferidos para Jerusalém, e o local passou a se chamar Monte Herzl.
A Resolução 3379 foi aprovada em 10 de novembro de 1975, por 72 votos a favor, 35 contra e 32 abstenções. A Assembleia Geral a revogou em 1991. Citá-la como se estivesse em vigor é um erro de fato.
Criticar políticas e governos de Israel, como se critica qualquer outro país, faz parte do debate público. Negar ao povo judeu o direito à autodeterminação é antissemitismo pelo critério da IHRA.
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