Plano de aulaOs brasileiros que salvaram judeusJJO · MATERIAL GRATUITOOs brasileiros que salvaram judeus
Aracy de Carvalho Guimarães Rosa trabalhava na seção de vistos do consulado brasileiro em Hamburgo, e Luiz Martins de Souza Dantas era embaixador do Brasil na França. Os dois ajudaram judeus perseguidos pelo nazismo, mesmo com a Circular Secreta nº 1.127, de 1937, que mandava recusar vistos a pessoas de “origem étnica semítica”. O Yad Vashem reconheceu ambos como Justos entre as Nações, Aracy em 1982 e Souza Dantas em 2003.
Para quem é esta aula, quanto tempo dura e quais habilidades da BNCC ela trabalha?
A aula foi pensada para adolescentes do Ensino Fundamental II (8º e 9º ano) e do Ensino Médio. Ela dura 2 aulas, num total de 100 minutos.
Áreas envolvidas: História do Brasil, História Contemporânea, Literatura Brasileira, Ética e Direitos Humanos.
Objetivos de aprendizagem: 1. Entender o que é o título de Justo entre as Nações e quais critérios o Yad Vashem usa para concedê-lo. 2. Conhecer a política de vistos restritiva da Era Vargas, documentada na Circular Secreta nº 1.127. 3. Comparar essa política com a ação individual de Aracy de Carvalho e de Souza Dantas. 4. Ler fontes primárias e separar o que é fato documentado do que é interpretação ou memória posterior.
Materiais: - Trecho impresso da Circular Secreta nº 1.127, reproduzido em publicação do governo federal. - Páginas do Yad Vashem sobre Aracy de Carvalho e Souza Dantas. - A página do Yad Vashem sobre os Justos entre as Nações. - Projetor ou cópias impressas, quadro e papel para os grupos.
Quais habilidades da BNCC esta aula trabalha?
Habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que este material desenvolve:
- EF09HI13 (9º ano): Descrever e contextualizar os processos da emergência do fascismo e do nazismo, a consolidação dos estados totalitários e as práticas de extermínio (como o holocausto). Na aula: Na sensibilização, contextualiza a Alemanha nazista com a letra “J” nos passaportes e a Kristallnacht e discute o resgate de judeus durante o Holocausto.
- EF09HI02 (9º ano): Caracterizar e compreender os ciclos da história republicana, identificando particularidades da história local e regional até 1954. Na aula: Situa a Era Vargas pela leitura da Circular Secreta nº 1.127 e da nº 1.498 e pela análise do processo administrativo aberto contra Souza Dantas.
- EM13CHS101 (1ª a 3ª série): Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais. Na aula: Na oficina de fontes, os grupos comparam a Circular nº 1.127 com as páginas do Yad Vashem e separam o fato documentado do relato posterior e da memória.
- EM13CHS502 (1ª a 3ª série): Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais. Na aula: Problematiza a política de vistos discriminatória e analisa as ações de Aracy e Souza Dantas como defesa dos direitos humanos, a partir dos critérios dos Justos entre as Nações.
- EM13CHS103 (1ª a 3ª série): Elaborar hipóteses, selecionar evidências e compor argumentos relativos a processos políticos, econômicos, sociais, ambientais, culturais e epistemológicos, com base na sistematização de dados e informações de diversas naturezas (expressões artísticas, textos filosóficos e sociológicos, documentos históricos e geográficos, gráficos, mapas, tabelas, tradições orais, entre outros). Na aula: No texto reflexivo final, o aluno argumenta sobre dever profissional e dever humanitário, usando fontes primárias como evidência e corrigindo números inflados de pessoas salvas.
Texto oficial da BNCC (MEC, documento homologado), disponível em basenacionalcomum.mec.gov.br. A coordenação pedagógica da escola pode ajustar a escolha ao seu currículo.
Quem foi Aracy de Carvalho Guimarães Rosa?
Aracy de Carvalho foi a primeira brasileira reconhecida como Justa entre as Nações pelo Yad Vashem, em 3 de junho de 1982. Na Alemanha nazista, ela trabalhava na seção de vistos do Consulado Geral do Brasil em Hamburgo.
Segundo o Yad Vashem, Aracy: - ajudou judeus a obter vistos para o Brasil; - auxiliou pessoas em dificuldades financeiras; - abrigou um casal judeu durante o pogrom da Kristallnacht (Noite dos Cristais), em novembro de 1938.
O material educacional do Yad Vashem conta ainda que, em certas situações, ela ofereceu proteção e apoio logístico para quem precisava sair da Alemanha. Há registro do caso de Maria Margarethe Bertel Levy, que Aracy acompanhou pessoalmente até o navio em Hamburgo, com passaporte diplomático, para que a Gestapo não confiscasse seus bens.
Aracy também tem uma ligação com Guimarães Rosa. O diplomata e escritor assumiu o posto de cônsul-adjunto em Hamburgo em 1938 e apoiou o trabalho dela. No diário, ele registrou a indignação que sentiu ao ver crianças judias obrigadas a usar a estrela amarela. Os dois se casaram em 1940, e em 1956 ele dedicou a ela Grande Sertão: Veredas: “A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”.
Em 1968, durante a ditadura militar, Aracy abrigou o compositor Geraldo Vandré em seu apartamento no Rio de Janeiro.
Quem foi Luiz Martins de Souza Dantas?
Souza Dantas foi embaixador do Brasil na França, primeiro em Paris e depois em Vichy. O Yad Vashem atribui a ele o salvamento de centenas de judeus durante o Holocausto.
De acordo com o Yad Vashem, ele autorizou vistos para pessoas perseguidas, inclusive para portadores de passaportes Nansen, documentos concedidos a apátridas. Um dos que ele ajudou foi o diretor de teatro polonês Zbigniew Ziembinski.
O que aconteceu com ele depois: - Em telegramas de 17 e 21 de agosto de 1942, avisou o Itamaraty de que a Gestapo promovia a deportação e o extermínio dos judeus na França. - O governo Vargas abriu contra ele um processo administrativo por desobedecer às ordens sobre vistos. - Em maio de 1943, foi preso pelos nazistas e passou 14 meses detido em Bad Godesberg, na Alemanha, até ser libertado numa troca diplomática em 1944.
Ele foi reconhecido como Justo entre as Nações em 2003, mas as fontes trazem datas diferentes: o Yad Vashem registra 2 de junho de 2003, e outra estimativa aponta 11 de junho de 2003. O assunto aparece no comunicado de imprensa do Yad Vashem de 2003.
Quantos judeus Aracy e Souza Dantas salvaram?
No caso de Aracy, não existe um número exato e comprovado. O Yad Vashem confirma que ela ajudou um grupo de judeus e outras pessoas em dificuldade, mas não registra “milhares”, número que circula em textos de divulgação.
Os números de Souza Dantas são mais precisos. O historiador Fábio Koifman contou 473 vistos concedidos diretamente por ele e estima em cerca de 800 as vidas salvas, entre judeus e opositores do nazismo.
Uma boa discussão para a turma. Muitos textos afirmam que Aracy “burlava” a Circular nº 1.127. Pelos relatos, ela misturava pedidos de judeus a outros papéis que o cônsul assinava, conseguia passaportes sem a letra “J” que identificava os judeus e usava recursos do consulado para protegê-los. Essa versão está em fontes institucionais brasileiras, como a Agência de Notícias do Acre.
Uma publicação acadêmica recente do próprio Yad Vashem, porém, registra que há pesquisadores que contestam a ideia de que ela tenha obtido vistos “ilegais”. Ninguém discute que Aracy ajudou judeus perseguidos e foi reconhecida por isso; o debate continua sobre os métodos exatos e o número de pessoas ajudadas.
Quem são os Justos entre as Nações?
Justo entre as Nações é um título oficial concedido pelo Yad Vashem, em Jerusalém, a não judeus que ajudaram judeus de forma excepcional durante o Holocausto, arriscando a liberdade, a carreira ou a própria vida.
Como o título funciona: - Foi previsto na lei de criação do Yad Vashem, de 1953. - Em 1963, criou-se uma comissão especial, presidida por um juiz da Suprema Corte de Israel, para avaliar cada caso. - A comissão pede provas documentais e depoimentos de sobreviventes. - Quem ajudou não pode ter recebido dinheiro em troca.
Com diplomatas, a análise tem uma particularidade. Como eles contavam com alguma proteção contra agressões físicas diretas, o Yad Vashem exige provas de que arriscaram de propósito o cargo e a carreira para salvar judeus. A punição que Souza Dantas sofreu do governo Vargas mostra esse risco na prática.
No seu material para educadores em português, o Yad Vashem apresenta Aracy e Souza Dantas como exemplos de pessoas que defenderam judeus perseguidos mesmo diante das restrições oficiais do próprio país.
Como dar a aula, passo a passo?
A aula tem três etapas e dura 100 minutos no total.
| Etapa | Tempo | O que acontece |
|---|---|---|
| 1. Sensibilização | 25 min | Pergunta inicial e contexto histórico |
| 2. Oficina de fontes | 35 min | Análise de documentos em grupos |
| 3. Justos entre as Nações | 40 min | Leitura dos critérios e plenária |
Etapa 1: Sensibilização (25 min) - Escreva no quadro: “Quando o governo manda fechar as portas para pessoas perseguidas, qual é o dever de um funcionário público?” - Apresente o cenário da Alemanha no fim dos anos 1930, falando da letra “J” nos passaportes de judeus e do pogrom da Kristallnacht, em novembro de 1938. - Leia em voz alta o trecho da Circular Secreta nº 1.127, de 7 de junho de 1937: “Fica recusado visto no passaporte a toda pessoa (...) de origem étnica semítica”. Conte que ela foi assinada na gestão do ministro Mário de Pimentel Brandão e que outras ordens vieram depois, como a Circular Secreta nº 1.498, de 12 de dezembro de 1940, assinada por Oswaldo Aranha.
Etapa 2: Oficina de fontes (35 min) - Grupo 1 (Aracy em Hamburgo): compara a Circular nº 1.127 com a página do Yad Vashem sobre Aracy. Pergunta-guia: o que a fonte comprova e o que é relato posterior? - Grupo 2 (Souza Dantas na França): lê a página do Yad Vashem sobre o embaixador e o resumo dos telegramas de agosto de 1942. Pergunta-guia: que riscos ele correu e o que sofreu por isso?
Etapa 3: Justos entre as Nações (40 min) - Leia os critérios do Yad Vashem junto com a turma. - Na plenária, discuta por que preservar a memória de não judeus que enfrentaram o nazismo e por que é importante não exagerar números.
Qual atividade propor aos alunos e como avaliar?
Para fechar, cada aluno escreve um texto reflexivo individual, em casa ou numa aula seguinte. O tema sugerido é:
“Dever profissional ou dever humanitário: como Aracy de Carvalho e Souza Dantas enfrentaram uma política de Estado que fechava as portas aos judeus perseguidos?”
Critérios de avaliação: - Usa pelo menos uma fonte primária, como a Circular nº 1.127 ou um registro do Yad Vashem. - Separa fato documentado de interpretação (por exemplo, o reconhecimento do Yad Vashem é fato, enquanto o número de pessoas salvas por Aracy é debatido). - Explica o que é um Justo entre as Nações. - Situa a Era Vargas e o nazismo no tempo, com datas corretas. - Argumenta com clareza e respeito.
A participação nos grupos e na plenária também pode entrar na avaliação.
Que cuidados tomar com temas sensíveis?
Trabalhar o Holocausto pede cuidado com os fatos e com as pessoas.
- Não use imagens chocantes. Como o foco da aula é o resgate e a escolha moral, documentos e relatos bastam.
- Não exagere. Corrija números inflados, como os “milhares” atribuídos a Aracy, porque inventar ou aumentar dados abre espaço para quem quer distorcer a história do Holocausto.
- Separe fato de lenda e mostre aos alunos que um herói real não precisa de exageros.
- Evite comparações que banalizem: o Holocausto não deve servir de metáfora para qualquer conflito atual.
- Fique atento a falas antissemitas. A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA e combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião. Se aparecerem estereótipos, explique de onde vêm e por que são falsos.
- Acolha alunos judeus ou descendentes de refugiados, que podem ter histórias de família ligadas ao tema, sem obrigar ninguém a expor a própria história.
Onde saber mais sobre Aracy, Souza Dantas e os Justos entre as Nações?
Para preparar a aula e aprofundar o tema, estas fontes ajudam:
- Yad Vashem: história de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa
- Yad Vashem: história de Luiz Martins de Souza Dantas
- Yad Vashem: Justos entre as Nações
- Yad Vashem: histórias de Justos
- Yad Vashem: material para educadores em português
- Governo federal: publicação que reproduz a Circular Secreta nº 1.127
Livros de pesquisa sobre o Brasil e os refugiados judeus: - Maria Luiza Tucci Carneiro, O Anti-Semitismo na Era Vargas. - Avraham Milgram, The Jews of Europe from the Perspective of the Brazilian Foreign Service.
Perguntas frequentes
Quem foi a brasileira que ajudou judeus durante o Holocausto?
Quantos judeus Aracy salvou?
Quem são os Justos entre as Nações?
Como era a vida dos judeus na Alemanha antes da guerra?
8 páginas · pode ser impresso e usado citando a fonte · PDF · 1,1 MBBaixarSLIDESApresentação em PDF
14 lâminas 16:9, com fotos, para projetar · PDF · 886 KBBaixarPPTXApresentação em PowerPoint
14 lâminas editáveis, com notas do apresentador · PPTX · 599 KBBaixar
- Yad Vashem — Aracy de Carvalho Guimarães Rosa
- Yad Vashem — Luiz Martins de Souza Dantas
- Yad Vashem — Justos entre as Nações
- Yad Vashem — Histórias de Justos entre as Nações
- Yad Vashem — Material educacional sobre os Justos
- Yad Vashem — Material para educadores em português
- Yad Vashem — Comunicados de imprensa de 2003
- Governo federal — Publicação que reproduz a Circular Secreta nº 1.127
- Agência de Notícias do Acre — Aracy, a mulher a quem Guimarães Rosa dedicou o Grande Sertão
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