Plano de aulaA imigração judaica no BrasilJJO · MATERIAL GRATUITOA imigração judaica no Brasil
Pensado para o Ensino Médio, este plano de aula ocupa 4 horas-aula e trabalha as grandes ondas da imigração judaica no Brasil: os cristãos-novos e o Recife holandês, com a sinagoga Kahal Zur Israel; os judeus marroquinos na Amazônia da borracha; as colônias agrícolas gaúchas, como Philippson (1904); e os refugiados do nazismo diante das restrições do Estado Novo. Inclui roteiro com tempos, atividade com mapas e fontes, e avaliação.
Para quem é esta aula, quanto tempo dura e quais habilidades da BNCC ela trabalha?
A aula foi pensada para o 2º ou 3º ano do Ensino Médio e dura 4 horas-aula, divididas em 2 blocos de 100 minutos. Também pode ser adaptada para os anos finais do Ensino Fundamental II.
Áreas: História do Brasil e Geografia Humana e Econômica.
Objetivos de aprendizagem:
1. Mapear as ondas migratórias judaicas no tempo e no espaço: o período colonial, a Amazônia, as colônias agrícolas do Sul e os refugiados do nazismo. 2. Analisar a geografia da imigração: as rotas de navegação, os núcleos rurais e ribeirinhos e a passagem para os grandes centros urbanos (São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre). 3. Exercitar a crítica de fontes primárias: documentos do Estado brasileiro, registros da Inquisição e periódicos comunitários.
Quais habilidades da BNCC esta aula trabalha?
Habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que este material desenvolve:
- EF08GE04 (8º ano): Compreender os fluxos de migração na América Latina (movimentos voluntários e forçados, assim como fatores e áreas de expulsão e atração) e as principais políticas migratórias da região. Na aula: Na roda de debate, os alunos comparam a Circular Secreta de 1937 com os vistos de Souza Dantas e Aracy Guimarães Rosa, discutindo política migratória restritiva, fatores de expulsão e atração.
- EF08GE01 (8º ano): Descrever as rotas de dispersão da população humana pelo planeta e os principais fluxos migratórios em diferentes períodos da história, discutindo os fatores históricos e condicionantes físico-naturais associados à distribuição da população humana pelos continentes. Na aula: Na oficina cartográfica, os alunos traçam as rotas marroquina-amazônica e ashkenazita do Sul e discutem como a floresta tropical e o pampa condicionaram o trabalho e a adaptação.
- EF07GE09 (7º ano): Interpretar e elaborar mapas temáticos e históricos, inclusive utilizando tecnologias digitais, com informações demográficas e econômicas do Brasil (cartogramas), identificando padrões espaciais, regionalizações e analogias espaciais. Na aula: No "Mapa vivo da imigração judaica", cada grupo elabora um mapa histórico com legenda, indicando origem, porto de entrada, destino final e marcos materiais da presença judaica.
- EF07HI12 (7º ano): Identificar a distribuição territorial da população brasileira em diferentes épocas, considerando a diversidade étnico-racial e étnico-cultural (indígena, africana, europeia e asiática). Na aula: A tabela de ondas migratórias e a linha do tempo ligada ao mapa mostram a distribuição de cristãos-novos, sefarditas, ashkenazitas e refugiados pelo território brasileiro em diferentes épocas.
- EF09HI13 (9º ano): Descrever e contextualizar os processos da emergência do fascismo e do nazismo, a consolidação dos estados totalitários e as práticas de extermínio (como o holocausto). Na aula: A Aula 2 contextualiza a perseguição nazista e o Holocausto a partir de salvo-condutos de refugiados e da pergunta dissertativa sobre a queda da imigração entre 1933 e 1941.
Texto oficial da BNCC (MEC, documento homologado), disponível em basenacionalcomum.mec.gov.br. A coordenação pedagógica da escola pode ajustar a escolha ao seu currículo.
Quais foram as principais ondas de imigração judaica para o Brasil?
A imigração judaica para o Brasil aconteceu em ondas distintas, que vão dos cristãos-novos do período colonial até os fluxos dos séculos XIX e XX. Em geral, os imigrantes entraram pelo litoral, sobretudo por Recife, Rio de Janeiro, Belém e Santos, e depois se concentraram nas cidades, com experiências agrícolas no Sul.
| Período | Origem predominante | Destinos no Brasil | Característica |
|---|---|---|---|
| Séculos XVI e XVII | Península Ibérica e Países Baixos | Nordeste, sobretudo Recife | Cristãos-novos e judeus sefarditas; sinagoga Kahal Zur Israel |
| Século XIX e início do XX | Marrocos | Belém, Manaus e interior amazônico | Comércio, aviamento e economia da borracha |
| A partir de 1904 | Europa Oriental | Rio Grande do Sul | Colônias agrícolas, como Philippson e Quatro Irmãos |
| Fim do século XIX e primeiras décadas do XX | Europa Oriental e Mediterrâneo | São Paulo, Rio e Porto Alegre | Urbanização e criação de instituições |
| 1933 a 1945 | Alemanha, Áustria e Europa ocupada | Principalmente São Paulo e Rio | Refugiados do nazismo sob política migratória restritiva |
Recife holandês (1630 a 1654). Sob a administração de Maurício de Nassau, Recife recebeu judeus sefarditas, muitos vindos de comunidades ibéricas instaladas nos Países Baixos. Ali funcionou a Kahal Zur Israel, na atual Rua do Bom Jesus. As fontes divergem sobre como chamá-la: instituições brasileiras costumam apresentá-la como a primeira sinagoga das Américas, mas a formulação mais segura é "a mais antiga sinagoga formalmente documentada das Américas". Foi ali que o rabino Isaac Aboab da Fonseca escreveu, em 1646, o primeiro texto em hebraico do continente.
Amazônia. Essa onda tem datações diferentes. Parte dos estudos fala em famílias marroquinas chegando a partir de 1810 ou 1820, com sinagogas em Belém (Essel Abraham e Shaar Hashamaim) fundadas entre 1824 e 1828; outros destacam o fluxo do final do século XIX e início do XX, ligado ao ciclo da borracha. Esses imigrantes trabalharam no comércio, no aviamento e na navegação fluvial, como regatões e donos de armazéns em vilas ribeirinhas, e mantiveram a hakitía, dialeto que mistura espanhol antigo, português, hebraico e árabe marroquino.
Sul. A Colônia Philippson, perto de Santa Maria (RS), surgiu em 1904 e é apontada como a primeira colônia judaica organizada do Brasil. Fazia parte do projeto da Jewish Colonization Association (JCA), fundada em 1891 pelo Barão Maurício de Hirsch para assentar judeus da Europa Oriental perseguidos por pogroms no Império Russo. Já a Colônia Quatro Irmãos (1909 a 1912), no norte do estado, teve mais de 90 mil hectares.
Refugiados do nazismo. Segundo o Museu do Holocausto dos EUA, mais de 340 mil judeus deixaram a Alemanha e a Áustria entre 1933 e 1945. O Brasil recebeu parte deles, mas com portas cada vez mais fechadas.
Os judeus foram expulsos do Brasil?
Os judeus do Brasil passaram por perseguição e saída forçada em momentos específicos, sem que tenha havido uma expulsão única.
- A Inquisição perseguiu cristãos-novos, judeus convertidos à força ao catolicismo, por meio do Tribunal do Santo Ofício na Bahia e em Pernambuco.
- Em 1654, com a reconquista portuguesa do Recife, a comunidade judaica se dispersou. Um grupo de 23 judeus partiu na fragata Valk e chegou a Nova Amsterdã, atual Nova York, onde formou a primeira comunidade judaica organizada da América do Norte. Outros seguiram para o Caribe.
- No Estado Novo, sob o governo Vargas, a política migratória ficou mais restritiva. O Itamaraty emitiu a Circular Secreta nº 1.127 (7 de junho de 1937) e a Circular Secreta nº 1.498 (12 de dezembro de 1940), que mandavam os consulados vetar vistos a pessoas de "origem semítica". Estima-se que de 9 mil a 16 mil pedidos de visto de judeus tenham sido negados nos governos Vargas e Dutra.
Os números da época variam conforme a fonte e o critério usado:
| Período | Estimativa | Fonte |
|---|---|---|
| 1918 a 1933 | cerca de 96 mil imigrantes judeus admitidos | Departamento de Estado dos EUA |
| 1920 a 1939 | cerca de 50 mil judeus imigrados | estimativa citada pelo Nexo |
| 1933 a 1941 | cerca de 12 mil imigrantes judeus admitidos | Departamento de Estado dos EUA |
Também houve quem desobedecesse às ordens para salvar vidas. O embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, em Vichy, e a funcionária consular Aracy Guimarães Rosa, em Hamburgo, emitiram centenas de vistos, e ambos foram reconhecidos em Israel como Justos entre as Nações. Esses casos de ajuda, porém, não apagam o caráter restritivo da política geral.
Quem são os descendentes de judeus no Brasil e que grupos vieram?
Os judeus do Brasil descendem de origens diversas, e essa diversidade é um bom ponto de partida para a aula.
- Os cristãos-novos eram judeus e descendentes de judeus convertidos ao catolicismo, vindos da Península Ibérica no período colonial. No Recife holandês, muitos puderam voltar abertamente ao judaísmo.
- Os sefarditas são judeus de tradição ibérica, entre eles os que vieram de Amsterdã para o Recife e os marroquinos de cidades como Tânger, Tetuan, Fez e Rabat, que foram para a Amazônia.
- Os ashkenazitas, judeus do Leste Europeu (Rússia, Polônia, Ucrânia, Lituânia e outras regiões), formaram as colônias do Sul e grande parte das comunidades urbanas.
- Os refugiados da Europa Central eram judeus alemães e austríacos que fugiram do nazismo.
A vida comunitária nunca foi homogênea: havia judeus ashkenazitas e sefarditas, religiosos e seculares, socialistas, sionistas e liberais. Mostrar isso aos alunos ajuda a evitar a ideia de um grupo único e uniforme.
Qual cidade concentrou mais judeus no Brasil?
No século XX, São Paulo e Rio de Janeiro se tornaram os principais polos da imigração judaica, enquanto Porto Alegre ganhou peso como centro da comunidade no Sul.
- Em 1940, a comunidade judaica de São Paulo foi estimada em cerca de 56 mil pessoas, segundo estudo baseado em fontes de instituições comunitárias publicado na Revista Brasileira de História.
- Formaram-se bairros de forte identidade comunitária, como Bom Retiro e Higienópolis, em São Paulo, e Praça Onze e Copacabana, no Rio de Janeiro.
- Os imigrantes criaram sinagogas, escolas, clubes, jornais e entidades de auxílio mútuo, entre elas a UNIBES, a Congregação Israelita Paulista (CIP) e o Hospital Israelita Albert Einstein.
- Em 1915 saiu em Porto Alegre o Di Mentsch'hait ("A Humanidade"), o primeiro jornal impresso em iídiche no Brasil.
Gancho para Geografia: as colônias agrícolas não chegaram a ser o principal eixo da presença judaica. Terra difícil, secas, revoltas locais, distância dos mercados e a preferência pelo comércio levaram muitos moradores das colônias para Porto Alegre, Santa Maria, São Paulo e Rio, o que dá aos alunos um caso concreto de êxodo rural e urbanização.
Como conduzir a aula passo a passo?
Materiais: mapas históricos do Brasil e do Atlântico, cópias de fontes primárias (ver abaixo), lápis de cor, projetor (opcional) e quadro.
Fontes primárias sugeridas:
- Período colonial: trechos de denúncias e confissões de cristãos-novos enviadas ao Tribunal do Santo Ofício de Lisboa, preservadas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
- Amazônia: anúncio da firma A Ville de Paris / Levy Frères no Jornal do Commercio de Manaus (19 de outubro de 1909) e processos de naturalização de imigrantes marroquinos.
- Sul: trechos de Filipson: histórias da primeira colônia judaica no Rio Grande do Sul (1967), memórias de Frida Alexandr, e edições do Di Mentsch'hait (1915).
- Estado Novo: cópia da Circular Secreta nº 1.127, do Arquivo Histórico do Itamaraty, e salvo-condutos de refugiados do acervo do Projeto Arqshoah/LEER-USP.
Aula 1: Rotas pelo Atlântico, pela Amazônia e pelos pampas (100 min)
1. Exposição dialogada (40 min): os motivos de saída (Inquisição, pogroms, crise econômica) e os de chegada ao Brasil, do século XVI ao início do XX, com apoio da tabela de ondas migratórias. 2. Oficina cartográfica (60 min): em grupos, os alunos traçam duas rotas: - Rota marroquina-amazônica: Tânger/Fez → Belém/Manaus → vilas ribeirinhas do Rio Amazonas. - Rota ashkenazita do Sul: Império Russo/Bessarábia → porto de Santos ou Rio Grande → colônias Philippson e Quatro Irmãos. - Pergunta orientadora: como o meio (floresta tropical × pampa) condicionou o trabalho e a adaptação de cada grupo?
Aula 2: Estado, direitos humanos e documentos secretos (100 min)
1. Análise de fontes em grupos (50 min): cada grupo recebe uma fonte e responde quem a produziu, quando, para quem, com que objetivo, e o que ela revela. 2. Roda de debate (30 min): os grupos comparam a Circular de 1937 com a atuação de Souza Dantas e Aracy Guimarães Rosa, discutindo o que é uma política de Estado e o que é uma escolha individual. 3. Síntese (20 min): construção coletiva de uma linha do tempo no quadro, ligando cada onda migratória a uma cidade no mapa.
Que atividade e que avaliação propor aos alunos?
Atividade: "Mapa vivo da imigração judaica". Cada grupo produz um mapa com legenda para uma das ondas migratórias, contendo:
- origem, porto de entrada e destino final;
- ao menos uma fonte primária analisada, com uma frase sobre o que ela mostra;
- um marco material da presença judaica (sinagoga, cemitério, colônia, jornal ou bairro);
- um parágrafo sobre o motivo da saída do lugar de origem.
Avaliação (formativa e somativa):
| Critério | O que observar |
|---|---|
| Localização espacial | Rotas e cidades corretas no mapa |
| Cronologia | Datas coerentes com o período estudado |
| Crítica de fontes | Distingue quem produziu o documento e com que intenção |
| Cautela com números | Reconhece que as estimativas variam conforme a fonte |
| Argumentação | Relaciona perseguição, política migratória e destino dos imigrantes |
Pergunta dissertativa sugerida: "Por que o Brasil recebeu muitos imigrantes judeus antes de 1933 e bem menos entre 1933 e 1941, justamente quando a perseguição nazista se intensificava?"
Que cuidados tomar com temas sensíveis e onde saber mais?
Temas como perseguição religiosa, Holocausto e políticas discriminatórias pedem cuidado em sala.
- Fale das pessoas concretas e evite estereótipos, como associar judeus a uma única profissão ou classe social. Mostre a diversidade de origens, línguas e posições políticas.
- Use o vocabulário das fontes com contexto. Termos como "origem semítica" aparecem nas circulares do Itamaraty; explique que eram critérios raciais de exclusão e que não descrevem a realidade.
- Separe a política geral das exceções. A coragem de Souza Dantas e Aracy Guimarães Rosa merece destaque, mas não apaga a política restritiva do Estado.
- Trate os números como estimativas, já que "imigrante", "refugiado" e "passageiro" nem sempre aparecem separados nos registros.
- Fique atento ao antissemitismo: comentários hostis devem ser acolhidos e corrigidos com calma. A JJO adota a definição de antissemitismo da IHRA e combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião. Pelo critério da IHRA, negar o direito de Israel existir também é antissemitismo.
Para saber mais:
- Cemitério judeu nas Américas (Fundaj)
- Cemitério dos Judeus do Recife (Fundaj)
- Brasiliana Fotográfica (Biblioteca Nacional)
- Refugiados: Enciclopédia do Holocausto (USHMM)
- Comunidade judaica de São Paulo: Revista Brasileira de História (SciELO)
- Como é ser um refugiado do Holocausto no Brasil (Nexo)
- Colônia Philippson (UFPel)
- Judeus marroquinos na Amazônia (dissertação UFAM)
Perguntas frequentes
Os judeus foram expulsos do Brasil?
Qual a cidade com mais judeus no Brasil?
Quais foram as principais ondas de imigração judaica para o Brasil?
A Kahal Zur Israel foi a primeira sinagoga das Américas?
9 páginas · pode ser impresso e usado citando a fonte · PDF · 1,1 MBBaixarSLIDESApresentação em PDF
14 lâminas 16:9, com fotos, para projetar · PDF · 829 KBBaixarPPTXApresentação em PowerPoint
14 lâminas editáveis, com notas do apresentador · PPTX · 536 KBBaixar
- Cemitério judeu nas Américas – Pesquisa Escolar Fundaj
- Cemitério dos Judeus, Recife (PE) – Pesquisa Escolar Fundaj
- Prefeitura do Recife – Conecta Recife
- Brasiliana Fotográfica – Biblioteca Nacional
- Revista Brasileira de História (SciELO)
- Colônia Philippson – UFPel
- Dissertação sobre judeus marroquinos na Amazônia – UFAM
- Refugiados – Enciclopédia do Holocausto, Museu do Holocausto dos EUA
- JUST Act Report to Congress: Brazil – Departamento de Estado dos EUA
- Como é ser um refugiado do Holocausto no Brasil – Nexo Jornal
- Brazil – Key Documents of German-Jewish History
- Alepe celebra contribuição do povo judeu na formação da cultura brasileira
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