Falso. Os houthis, grupo apoiado pelo Irã, dizem mirar só navios ligados a Israel. Mas o INSS mostra que, na maioria dos casos, os navios atacados não tinham vínculo com Israel. Foram atacados um petroleiro chinês, um navio russo, milho brasileiro rumo ao Irã, grãos para o próprio Iêmen e navios de guerra dos Estados Unidos.
O que os houthis dizem e por que a frase convence?
Os houthis do Iêmen são um grupo armado apoiado pelo regime iraniano. Depois do ataque terrorista do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, eles se juntaram à guerra contra Israel. Em novembro de 2023, anunciaram que mirariam navios israelenses no Mar Vermelho e no estreito de Bab al-Mandeb. Apresentaram a decisão como apoio aos palestinos.
A frase “só atacam navios ligados a Israel” nasce desse anúncio. Ela transforma o objetivo declarado do grupo em retrato da realidade. Quem ouve apenas a propaganda conclui que o resto do mundo não corre risco. Os registros dos ataques mostram o contrário.
Israel é, de fato, alvo central. O Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel (INSS) contou cerca de 155 ataques houthis contra o território israelense entre o fim de 2023 e meados de 2025. O problema da frase é o “só”.
Quais navios sem ligação com Israel foram atacados?
O INSS afirma que, “na maioria dos casos”, os navios atacados não tinham vínculo com Israel, com donos israelenses ou com interesses judaicos.
Em 3 de dezembro de 2023, três navios foram atacados no sul do Mar Vermelho. Segundo o INSS, só um tinha conexão israelense indireta: pertencia a um cidadão israelense. Os navios danificados levavam carga de ou para a China. Para o instituto, o episódio mostrou que todo navio que passava por Bab al-Mandeb estava em risco.
O CTC Sentinel, publicação do Combating Terrorism Center, registrou ataques até contra aliados e países neutros:
- Khalissa, navio russo, atingido em 12 de janeiro de 2024.
- Star Iris, com milho do Brasil rumo ao Irã, alvo de dois mísseis em 12 de fevereiro de 2024.
- Huang Pu, petroleiro chinês, alvo de mísseis balísticos antinavio em 23 de março de 2024.
- Sea Champion, com grãos da Argentina para Hodeida, porto que os próprios houthis controlam.
- Rubymar, com bandeira de Belize, atingido em 18 de fevereiro de 2024. Afundou em 2 de março de 2024.
- True Confidence, com bandeira de Barbados, atingido em 6 de março de 2024 no Golfo de Áden. Três marinheiros civis morreram.
Os houthis atacaram também navios de guerra dos Estados Unidos?
Sim. O Jerusalem Center for Public Affairs (JCPA) relatou que, em setembro de 2024, os houthis fizeram um “ataque complexo” contra navios de guerra americanos no Mar Vermelho. O Pentágono confirmou o lançamento de mísseis de cruzeiro e drones. Nenhum navio americano foi atingido e não houve feridos. Em novembro de 2024, o grupo atacou dois destróieres americanos.
A Associated Press também registrou um ataque a navio de guerra dos Estados Unidos no mesmo episódio em que o grupo atacou o cargueiro Unity Explorer. Um destróier americano não é um navio comercial israelense. O JCPA descreve os houthis como uma força apoiada pelo Irã que ameaça Israel, os países do Golfo, a Marinha dos Estados Unidos e a navegação internacional.
O que significa “ligado a Israel” para os houthis?
É um critério elástico, definido pelo próprio grupo. A Reuters registrou que os houthis ampliaram a definição de “ligação” com Israel para incluir empresas que usaram portos israelenses. Empresas de segurança marítima alertaram que o grupo já tinha atacado navios sem conexão direta com Israel.
Há também erro puro. A análise do CTC Sentinel aponta que os houthis usaram dados desatualizados sobre a propriedade dos navios. Atacaram embarcações que já tinham mudado de dono, o que revela uma coleta de inteligência rudimentar e negligente.
Por isso, quando os houthis alegam que um navio é “ligado a Israel”, a alegação não prova nada. É uma etiqueta definida pelo próprio grupo, não uma prova.
Qual foi o tamanho real da campanha no Mar Vermelho?
Os números do INSS mostram uma ofensiva contra a navegação mundial, não uma ação seletiva:
- cerca de 300 drones;
- cerca de 150 mísseis de cruzeiro;
- cerca de 120 mísseis balísticos;
- cerca de 50 embarcações não tripuladas carregadas de explosivos;
- cinco navios com danos graves, dois afundados e quatro sequestrados;
- cerca de 30 navios com danos menores.
O tráfego em Bab al-Mandeb caiu de cerca de 80 para 35 navios por dia. Uma avaliação posterior do INSS estimou que, entre o fim de 2023 e meados de 2025, os houthis fizeram mais de 520 ataques e atingiram pelo menos 176 navios.
O JCPA lembra que interromper o tráfego num estreito internacional viola a liberdade de navegação e o direito marítimo. O resultado é um grupo apoiado pelo Irã ameaçando o comércio de todos os países.
Resposta pronta para copiar
Falso. Segundo o INSS, na maioria dos casos os navios atacados pelos houthis não tinham vínculo com Israel. O grupo, apoiado pelo Irã, atacou petroleiro chinês, navio russo, milho do Brasil rumo ao Irã, grãos para o Iêmen e navios dos EUA. Matou 3 marinheiros civis.Até 280 caracteres, para responder nas redes
Em mais detalhe
O que é verdade. Os houthis dizem atacar navios ligados a Israel. Israel é alvo central do grupo: o INSS contou cerca de 155 ataques contra o território israelense entre o fim de 2023 e meados de 2025. Alguns navios atacados tinham, sim, alguma conexão israelense, ainda que indireta.
O que é falso. O “só”. O INSS conclui que, na maioria dos casos, não havia vínculo com Israel. No ataque de 3 de dezembro de 2023, apenas um dos três navios tinha ligação israelense indireta. Os navios danificados levavam carga de ou para a China.
Quem foi atacado. Rússia (Khalissa), China (Huang Pu), carga brasileira rumo ao Irã (Star Iris), grãos para o porto de Hodeida, controlado pelos próprios houthis (Sea Champion), navios de bandeira de Belize (Rubymar, que afundou) e de Barbados (True Confidence, onde três marinheiros civis morreram). Houve também ataques a navios de guerra dos Estados Unidos em setembro e novembro de 2024.
Por que importa. A frase vende os houthis como um grupo “seletivo” que age em nome dos palestinos. Na prática, o grupo integra o eixo comandado pelo regime iraniano. Entrou numa guerra iniciada pelo ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 e usou essa guerra como pretexto para ameaçar a navegação internacional. O tráfego em Bab al-Mandeb caiu de cerca de 80 para 35 navios por dia.
- Não diga que nenhum navio atacado tinha ligação com Israel. Alguns tinham, ainda que indireta.
- Não generalize iemenitas, árabes ou muçulmanos. O alvo da crítica é o grupo houthi e seu patrono, o regime iraniano.
- Não use números fora das fontes citadas nesta página. A contagem do INSS cobre um período específico, do fim de 2023 a meados de 2025.
- Não diga que os navios de guerra americanos foram atingidos em setembro de 2024. O Pentágono informou que nenhum foi atingido.
Perguntas frequentes
O que é a Crise do Mar Vermelho?
O que são os houthis do Iêmen?
Por que os houthis não entraram na guerra?
- INSS – Israel in the Red Sea
- INSS – The Houthi threat
- INSS – Publicação especial (dezembro de 2023)
- INSS – National supply chains
- INSS – Fracturing the axis
- JCPA – Assessing the Houthi threat to Israel and the West
- JCPA – The Republic of Yemen, the Houthi terror organization and international law
- Reuters – Yemen's Iran-backed Houthis threaten Israeli shipping in Red Sea
- AP (via KRGV) – Pentagon says US warship, commercial ships attacked in Red Sea




