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Mito × Fato · Antissemitismo

“Não existe antissemitismo de esquerda, só de direita”: por que a frase é falsa

FALSOA frase contradiz os fatos.
Foto: Sinagoga Kahal Zur Israel, em Recife, Pernambuco. A. Júnior · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
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Falso. O INSS, instituto israelense de segurança nacional, registra antissemitismo em todo o espectro político, da extrema direita à esquerda radical. Marx associou judeus ao dinheiro em 1844. A União Soviética fez décadas de campanha "antissionista" baseada nos Protocolos. Em 2020, um órgão oficial britânico concluiu que o Partido Trabalhista discriminou membros judeus.

O que dizem os especialistas israelenses sobre o antissemitismo de esquerda?

O INSS, o Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, afirma que o antissemitismo contemporâneo está presente "ao longo de todo o espectro político". Ele aparece da direita à esquerda, em ambientes islamistas, em universidades e nas redes sociais.

O instituto mantém uma linha de pesquisa específica sobre antissemitismo em círculos progressistas de esquerda no Ocidente. Mantém outra sobre o fortalecimento do antissemitismo na direita.

Após o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro, o INSS descreveu duas tendências simultâneas no Ocidente. Uma são as narrativas antissemitas e anti-Israel em setores da extrema esquerda. A outra é o crescimento de movimentos antissemitas de extrema direita. O instituto também registra a convergência de grupos de esquerda radical com movimentos islamistas específicos, a chamada aliança "vermelho-verde".

O governo de Israel monitora incidentes sem restringir o fenômeno a um campo político. Seu relatório anual de 2025 registrou atividade antissemita em níveis elevados, com violência e expansão de ecossistemas de ódio e desinformação on-line.

O antissemitismo na esquerda tem raízes históricas?

Sim. O preconceito contra judeus aparece em textos centrais do pensamento socialista e anarquista do século XIX.

  • Karl Marx (1844): em Sobre a Questão Judaica, escreveu: "Qual é o culto secular do judeu? O comércio. Qual é o seu Deus secular? O dinheiro".
  • Mikhail Bakunin: o líder anarquista chamou o mundo judaico de "seita exploradora" e "parasita devorador".
  • Ferdinand Lassalle: o socialista alemão expressou abertamente seu desprezo pelos judeus.

A análise do INSS sobre a esquerda norte-americana descreve como setores da Nova Esquerda, a partir do fim dos anos 1960, se tornaram ambientes fortemente anti-Israel e, em alguns casos, abertamente antissemitas. Segundo o estudo, parte da extrema esquerda reutilizou estereótipos tradicionalmente associados à extrema direita.

O que foi a campanha antissionista da União Soviética?

Entre as décadas de 1960 e 1980, a União Soviética conduziu uma campanha estatal "antissionista". A KGB e ideólogos do Partido Comunista a planejaram.

Livros publicados pelo Estado soviético associaram a religião judaica e o sionismo ao fascismo, ao imperialismo e ao racismo. Entre eles estão Judaísmo sem Disfarces (1963) e Judaísmo e Sionismo (1968), de Trofim Kichko, Cuidado: Sionismo! (1969), de Yuri Ivanov, e obras de Lev Korneev (1983). Esses textos ressuscitaram teorias conspiratórias dos Protocolos dos Sábios de Sião com vocabulário marxista-leninista.

Em julho de 1990, o próprio Pravda, jornal oficial do Partido Comunista, admitiu o dano em editorial. O texto reconheceu que autores "fingindo combater o sionismo" ressuscitaram noções da propaganda antissemita "de origem fascista".

O que a investigação britânica concluiu sobre o Partido Trabalhista?

Em 29 de outubro de 2020, a Comissão de Igualdade e Direitos Humanos do Reino Unido (EHRC) publicou o relatório de sua investigação sobre o Partido Trabalhista sob Jeremy Corbyn. A EHRC é um órgão estatutário e independente.

A comissão concluiu que o partido cometeu discriminação e assédio ilícitos contra seus membros judeus, em violação do Equality Act 2010.

O relatório tratou de um ponto que toca diretamente a frase desta página. Rotular denúncias de antissemitismo como "farsa" ou manobra para proteger Israel ou prejudicar a esquerda foi considerado parte do assédio ilícito. Na prática, o argumento de que apontar antissemitismo na esquerda é "só manobra" foi examinado por um órgão oficial e rejeitado.

Como reconhecer antissemitismo, venha de onde vier?

O teste é o conteúdo da mensagem, não o rótulo político de quem fala. Nem toda crítica a um governo israelense é antissemitismo. Pelo critério da IHRA, porém, são antissemitas, por exemplo:

  • negar ao povo judeu o direito à autodeterminação, o que inclui negar o direito de Israel existir;
  • aplicar a Israel padrões que não se aplicam a nenhum outro país;
  • responsabilizar judeus da diáspora pelas ações do governo israelense;
  • usar símbolos, caricaturas ou teorias conspiratórias antijudaicas, como a do "controle judaico";
  • pedir, ajudar ou justificar o assassinato ou a agressão a judeus.

Estudiosos chamam de "autoimunização" a crença de que um militante não pode ter preconceito porque se define como antirracista. Na extrema direita, o antissemitismo costuma aparecer como racismo aberto. Na esquerda radical, costuma vir disfarçado de antimperialismo ou de defesa de direitos humanos. Nos dois casos, o alvo é o mesmo.

Resposta pronta para copiar

Falso. O antissemitismo da extrema direita é real, mas não é o único. O INSS o registra em todo o espectro político. A URSS fez campanha "antissionista" com os Protocolos, e em 2020 a EHRC concluiu que o Partido Trabalhista discriminou membros judeus.Até 280 caracteres, para responder nas redes

Em mais detalhe

A frase circula como slogan em debates sobre a guerra iniciada pelo Hamas em 7 de outubro, sobre antissionismo e sobre atos de rua. Não há autoria comprovada. A ideia de fundo é que o antissemitismo seria um fenômeno exclusivo da direita e que apontá-lo na esquerda seria só uma forma de calar críticas a Israel.

A frase convence porque parte de algo verdadeiro. A extrema direita tem uma tradição antissemita visível: neonazismo, negação do Holocausto e teorias de "controle judaico". O INSS alerta que esses movimentos exploram a guerra em Gaza para normalizar ideologias antissemitas. Esse perigo não deve ser minimizado.

O erro está na palavra "só". O INSS documenta antissemitismo da direita à esquerda e em movimentos islamistas. A história confirma o padrão na esquerda: Marx em 1844, Bakunin, a campanha soviética das décadas de 1960 a 1980 e a admissão do próprio Pravda em julho de 1990. Em 29 de outubro de 2020, a EHRC concluiu que o Partido Trabalhista britânico, sob Jeremy Corbyn, discriminou e assediou ilegalmente seus membros judeus.

A formulação precisa é esta: o antissemitismo é uma forma de ódio que pode ser mobilizada pela direita, pela esquerda radical, por islamistas e por outros movimentos. Para identificá-lo, examina-se o conteúdo concreto da mensagem.

Se for responder, evite:
  • Não diga que "a esquerda é antissemita" nem que todo militante de esquerda odeia judeus.
  • Não minimize o antissemitismo da extrema direita.
  • Não atribua a frase a uma pessoa específica sem prova.
  • Não trate qualquer crítica a um governo israelense como antissemitismo. Aponte o conteúdo concreto da mensagem.
  • Ao falar da aliança "vermelho-verde", não generalize muçulmanos. O alvo são movimentos islamistas específicos.

Perguntas frequentes

Existe antissemitismo de esquerda?
Sim. O INSS, instituto israelense de segurança nacional, registra antissemitismo em todo o espectro político e mantém uma linha de pesquisa sobre esse preconceito em círculos progressistas de esquerda no Ocidente. A história inclui textos de Marx e Bakunin, a campanha soviética "antissionista" e o caso do Partido Trabalhista britânico.
Criticar Israel é antissemitismo?
Nem toda crítica a um governo israelense é antissemitismo. Pelo critério da IHRA, é antissemitismo negar ao povo judeu o direito à autodeterminação, o que inclui negar o direito de Israel existir, aplicar a Israel padrões que não valem para outros países ou culpar judeus da diáspora pelas ações de Israel.
O que é a aliança "vermelho-verde"?
É o nome dado à convergência de grupos de esquerda radical com movimentos islamistas específicos. O INSS descreve essa convergência em análises sobre o antissemitismo contemporâneo. O termo trata desses movimentos, não dos muçulmanos em geral.
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