Enganoso. A chamada “Abin paralela” é um escândalo brasileiro. A Abin contratou em 2018, sem licitação, o software FirstMile, da empresa privada israelense Cognyte, por R$ 5,7 milhões. Quem operou e é suspeito de espionar opositores são agentes brasileiros. Não há prova de que o Estado de Israel operou o sistema ou recebeu dados.
O que foi a chamada “Abin paralela”?
O caso existe e é grave. Houve monitoramento sem autorização de pessoas no Brasil.
Um artigo acadêmico publicado na revista Lua Nova (São Paulo, n. 127, 2026) descreve o caso:
- A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) contratou o serviço FirstMile, da empresa privada israelense Cognyte.
- A contratação ocorreu no fim de 2018, no governo Temer, sem licitação, por R$ 5,7 milhões.
- O sistema rastreava sem autorização a localização de até 10 mil pessoas no país.
- Ele só passou a funcionar após a eleição de Bolsonaro e operou até 2021.
Com base em Cappelli (2023), o artigo aponta suspeitas de uso do aparato estatal brasileiro para espionar opositores políticos. A finalidade suspeita é de política interna.
Quem comprou e quem operou o sistema?
O comprador foi o governo brasileiro. O operador também foi o governo brasileiro.
| Papel | Quem | |---|---| | Quem vendeu | Cognyte, empresa privada israelense | | Quem comprou | Abin (fim de 2018, R$ 5,7 milhões, sem licitação) | | Quem é suspeito de espionar | Agentes brasileiros |
O fornecedor de uma ferramenta não é quem a usa. Um órgão de Estado que compra um software decide como empregá-lo. Quem abusa da ferramenta responde pelo abuso. Culpar “Israel” tira o foco de quem é suspeito de abusar do poder no Brasil.
O Pegasus, da NSO Group, foi usado no caso?
Segundo o mesmo artigo da Lua Nova, o Tribunal de Contas da União (TCU) vetou a compra do Pegasus, software da NSO Group. Esse programa, portanto, não foi adquirido.
O artigo relata ainda uma tentativa, no governo Bolsonaro, de contratar o Pegasus fora da estrutura da Abin. A tentativa é atribuída a Carlos Bolsonaro, com uma parte da Polícia Federal e do Ministério da Justiça. Também aqui os atores são brasileiros.
Em nota, o autor alega que a NSO trabalha com o Estado de Israel em favor da agenda de segurança israelense, citando Loewenstein (2023). Essa é uma acusação do autor. Ela não prova nenhuma operação israelense no Brasil, nem envolve o FirstMile, que é o sistema de fato usado no caso.
O Brasil “importa repressão” de Israel?
Essa acusação circula junto com a da espionagem. Em reportagem, os especialistas Penido e Mantovani afirmam que sistemas como Pegasus e Cognyte são vendidos a governos e que equipamentos israelenses teriam o potencial de “aumentar a repressão” no Brasil.
É uma opinião sobre riscos, não uma prova de espionagem israelense. A própria fala trata de vendas a governos: quem compra é que decide como usar. Se uma polícia ou uma agência brasileira abusa de uma ferramenta, a responsabilidade é dela e das autoridades que a comandam. O controle desse uso cabe às instituições brasileiras, como mostrou o veto do TCU ao Pegasus.
Resposta pronta para copiar
Fornecedor não é operador. A Abin comprou o FirstMile da empresa privada israelense Cognyte em 2018, sem licitação, por R$ 5,7 milhões. Quem usou e é suspeito de espionar opositores são agentes brasileiros. Não há prova de que o Estado de Israel tenha espionado alguém neste caso.Até 280 caracteres, para responder nas redes
Em mais detalhe
A frase “Israel espiona brasileiros pela Abin paralela” junta um fato real a uma conclusão sem base.
O fato real: a Abin contratou, no fim de 2018, o FirstMile, da empresa privada israelense Cognyte. Segundo artigo da revista Lua Nova (2026), a compra foi feita sem licitação, por R$ 5,7 milhões. O sistema rastreava sem autorização a localização de até 10 mil pessoas. Começou a funcionar após a eleição de Bolsonaro e operou até 2021. O artigo registra suspeitas de uso do aparato estatal para espionar opositores políticos.
O salto indevido: do fato de a fornecedora ser israelense, a afirmação conclui que o Estado de Israel operava a vigilância. O material não traz nenhuma evidência disso. Não há indicação de que Israel operasse o sistema ou recebesse os dados.
O que o próprio artigo mostra: quem comprou foi a Abin. Quem operou foi o governo brasileiro. A finalidade suspeita é de política interna. O Pegasus, outro software israelense, teve a compra vetada pelo TCU.
A acusação sobre a NSO: o autor do artigo alega, em nota, que a NSO Group serve à agenda de segurança do Estado de Israel. Mesmo que se aceite essa alegação, ela trata de outra empresa e de um software que não foi comprado. Não prova operação israelense no Brasil.
O escândalo é sério e deve ser apurado. Mas ele é brasileiro. Transformá-lo em “espionagem de Israel” desvia a atenção dos responsáveis e alimenta suspeitas sem prova contra o Estado judeu.
- Não negue o escândalo nem minimize a vigilância ilegal de brasileiros. O caso é grave.
- Não diga que o caso foi “arquivado” ou “encerrado pela Justiça”. Não cite números ou decisões que não estejam nas fontes.
- Não ataque jornalistas nem opositores que foram vigiados.
- Não afirme que a NSO “não tem relação nenhuma” com o Estado de Israel. Diga apenas que não há prova de operação israelense no Brasil.
- Não confunda o FirstMile (comprado e usado) com o Pegasus (compra vetada pelo TCU).




