Falso. É também antissemitismo pelo critério da IHRA. A Cabala é a tradição mística do judaísmo, e a Torá proíbe a feitiçaria (Êxodo 22:18; Deuteronômio 18:10–12). Não existem rituais secretos judaicos contra cristãos: orações e festas são públicas. A acusação recicla o libelo de sangue de 1144, que o papa Inocêncio IV declarou falso em 1247 e o papa Gregório X condenou em 1272.
O que é a Cabala, afinal?
Kabbalah quer dizer "recepção" ou "tradição recebida". É a corrente mística do judaísmo. Ela se desenvolveu sobretudo na Idade Média, com raízes em textos e conceitos judaicos anteriores.
Dois marcos se destacam:
- o Zohar, compilado no século XIII na Espanha;
- a escola de Safed, no século XVI, com o Rabino Isaac Luria.
A Cabala trata da criação, da natureza divina, das dez sefirot (emanações divinas) e da relação do ser humano com Deus. Seu objetivo é a elevação espiritual (devekut) e o aperfeiçoamento ético do ser humano para a reparação do mundo (tikkun olam). Na Cabala clássica, o caminho até Deus é o cumprimento dos mandamentos da Torá (mitzvot). Invocações de demônios, malefícios e "pactos" não fazem parte dela. Esses conceitos são incompatíveis com o monoteísmo judaico.
A Cabala é tema de estudo acadêmico. Um curso da Universidade Ben-Gurion, disponibilizado na plataforma do governo de Israel, a apresenta como um conjunto histórico e cultural de ideias e práticas.
O judaísmo permite magia ou feitiçaria?
Não. A proibição está nos textos mais básicos da lei judaica.
- Êxodo 22:18: "A feiticeira não deixarás viver."
- Deuteronômio 18:10–12: proíbe adivinhos, agoureiros, feiticeiros, encantadores e quem consulta espíritos. Chama essas práticas de "abomináveis ao Senhor".
- Talmud Babilônico, Sanhedrin 67a–67b: trata a feitiçaria como transgressão grave, punível pelos tribunais.
- Maimônides (1138–1204), Mishné Torá, Leis da Idolatria 11:15: classifica feitiçaria, encantamento e astrologia como ilusões e mentiras proibidas pela Torá.
Uma religião que proíbe a feitiçaria nesses termos não pode ser descrita como "magia negra".
E a "Cabala prática", com amuletos, existiu?
Existiu, e o fato não deve ser negado. A chamada Cabala prática (Kabbalah ma'asit) incluía amuletos de proteção (kame'ot) com versículos de salmos e nomes angelicais. A finalidade era a cura e a proteção contra doenças.
Três pontos mudam o sentido desse fato:
1. A maioria dos rabinos restringiu ou desestimulou essas práticas para evitar superstição. 2. A tradição rabínica não aceitava ritos destinados a causar dano a alguém. 3. Era uma corrente esotérica minoritária. Ela não representa o judaísmo como religião nem o povo judeu.
O boato parte desse fato real e salta para uma conclusão falsa: amuleto de proteção vira "magia negra", e uma prática restrita vira "ritual de todos os judeus".
De onde vem a ideia de "rituais secretos contra cristãos"?
Ela vem do libelo de sangue, uma calúnia que surgiu em Norwich, na Inglaterra, em 1144. A mentira dizia que judeus matavam crianças cristãs para usar o sangue em rituais, inclusive na matzá da Páscoa.
A própria lei judaica desmonta a acusação. A Torá proíbe consumir qualquer sangue (Levítico 17:10–14). A carne é salgada justamente para retirar o sangue, e a presença de sangue torna o alimento proibido.
A Igreja também condenou a calúnia:
- Papa Inocêncio IV, bula de 1247: declarou falsas as acusações de uso de sangue humano. Disse que eram inventadas por inimigos para roubar e perseguir as comunidades judaicas.
- Papa Gregório X, bula de 1272: proibiu prender ou processar judeus com base nessa calúnia. Afirmou que tais rituais contrariam a própria lei judaica.
O Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel (INSS) documenta como a iconografia antijudaica ligou os judeus a forças demoníacas e a assassinatos rituais de crianças. O instituto também aponta os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação do século XIX, como fonte central do mito da conspiração judaica mundial. A versão atual troca "sinagoga" por "Cabala", mas o motivo é o mesmo.
Por que essa acusação é antissemitismo?
Não há rituais secretos no judaísmo. Orações, ritos de passagem e festas são públicos e estão registrados no livro de orações (Siddur) e nos códigos da Halakhá. O Talmud (Gittin 61a) manda os judeus ajudar os não judeus com caridade, visitar seus doentes e sepultar seus mortos, "pelos caminhos da paz" (mipnei darchei shalom).
O critério da IHRA inclui entre os exemplos de antissemitismo as alegações de assassinato ritual e as conspirações atribuídas aos judeus como coletivo. A frase faz exatamente isso: acusa milhões de pessoas de uma trama sem autor, sem local e sem prova.
Isso não significa que toda pessoa que pergunta sobre a Cabala seja antissemita. O antissemitismo está na acusação coletiva e conspiratória, não na curiosidade sobre uma tradição religiosa.
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Isso é antissemitismo. A Cabala é a tradição mística do judaísmo, e a Torá proíbe a feitiçaria (Êxodo 22:18). Não há rituais secretos contra cristãos. É o velho libelo de sangue de 1144, que os papas Inocêncio IV (1247) e Gregório X (1272) condenaram.Até 280 caracteres, para responder nas redes
Em mais detalhe
Como o boato circula. Vídeos, memes e correntes em grupos religiosos e conspiratórios mostram a árvore das sefirot, símbolos cabalísticos ou cenas de cerimônias judaicas fora de contexto. A legenda fala em "magia negra" ou em "ritual contra cristãos". Muitas vezes o conteúdo cita também os Protocolos dos Sábios de Sião, "sangue" e "crianças".
Por que convence. A Cabala é pouco conhecida e usa termos em hebraico que soam misteriosos. A existência histórica da Cabala prática dá ao boato um ponto de partida real. Além disso, séculos de propaganda ligaram os judeus ao diabo, à feitiçaria e ao envenenamento de poços. Por isso a acusação soa "familiar" para quem nunca ouviu a resposta.
O que dizem os checadores. A AFP Checamos mantém uma seção sobre religião e crenças e já desmentiu vídeos apresentados fora de contexto como "rituais" religiosos. Uma afirmação ampla como "os judeus fazem rituais secretos contra cristãos" exigiria provas concretas e verificáveis. Imagens de cerimônias, símbolos e relatos anônimos não provam nada.
A formulação correta. A Cabala é uma tradição mística judaica. Em certos períodos e correntes, incluiu práticas esotéricas de proteção, restringidas pela maioria dos rabinos. Ela não é "magia negra", e os judeus não realizam rituais secretos contra cristãos. A acusação é uma nova roupagem do libelo de sangue.
- Não negue que a Cabala prática existiu. O fato é real: enquadre-o com o que a maioria dos rabinos disse sobre ela.
- Não ridicularize o cristianismo nem quem pergunta de boa-fé. Dúvidas como "A Bíblia fala sobre a Cabala?" merecem informação e tom acolhedor.
- Não chame de antissemita toda pessoa que só menciona a Cabala. O antissemitismo está na acusação coletiva e conspiratória.
- Não cite números, documentos ou episódios que não estejam nas fontes desta página.




