Os judeus marroquinos da Amazônia são descendentes dos sefarditas expulsos da Espanha (1492) e de Portugal (1497) que viviam no Marrocos. A partir de 1810, atraídos pela abertura do Brasil e depois pelo ciclo da borracha, fixaram-se no Pará e no Amazonas. Fundaram em Belém as primeiras sinagogas do Brasil independente e atuaram como regatões, os comerciantes dos rios.
Quem são os judeus marroquinos da Amazônia?
Os judeus marroquinos da Amazônia formam a mais antiga comunidade judaica de presença contínua no Brasil depois da Independência.
A maioria era de judeus sefarditas, chamados de megorashim. Eles descendiam dos exilados da Península Ibérica, expulsos da Espanha em 1492 e de Portugal em 1497. Durante séculos, essas famílias viveram em cidades marroquinas como:
- Tânger e Tetuan;
- Fez e Rabat;
- Marraquexe e Casablanca.
Na Amazônia, criaram uma sociedade própria. Os historiadores a chamam de judeus-caboclos. A região ganhou deles o apelido de Eretz Amazônia, a "Terra Prometida" amazônica. A expressão dá nome ao livro clássico do professor Samuel Benchimol, Eretz Amazônia: os judeus na Amazônia, de 1998.
Por que os judeus saíram do Marrocos?
Os judeus deixaram o Marrocos por uma soma de pressões: falta de espaço, pobreza, doenças e perseguições.
No Marrocos, os judeus viviam na condição de dhimmi, súditos apenas tolerados. Moravam em bairros judaicos chamados mellahs. A partir do final do século XVIII e no início do XIX, vários fatores empurraram a emigração:
- superlotação dos mellahs;
- crises econômicas;
- epidemias de cólera;
- perseguições pontuais.
A busca por liberdade religiosa e por oportunidades econômicas levou muitas famílias a atravessar o Atlântico.
Por que escolheram o Brasil e a Amazônia?
O Brasil abriu as portas aos estrangeiros no início do século XIX, e a Amazônia oferecia trabalho e comércio.
Algumas medidas tornaram possível a fixação de judeus no país:
- 1810: D. João VI assinou o Tratado de Navegação e Comércio.
- As discriminações reais foram formalmente abolidas.
- 1822: o Brasil tornou-se independente.
- 1824: a Constituição garantiu a liberdade de culto privado.
A economia também atraiu os imigrantes. Primeiro vieram o cacau e as especiarias. Depois veio o ciclo da borracha, o "ouro negro". Esse ciclo trouxe centenas de famílias para a região.
Quando chegaram e onde se fixaram?
Os judeus marroquinos chegaram em duas grandes levas, entre 1810 e 1910. Eles se espalharam por cidades e povoados à beira dos rios.
| Período | O que aconteceu | Tamanho estimado |
|---|---|---|
| 1810–1850 | Primeira leva, com destino ao Grão-Pará | Cerca de 300 famílias |
| 1850–1910 | Segunda leva, no auge da borracha, após a abertura do Rio Amazonas à navegação internacional por D. Pedro II (1866) | Mais de 1.000 famílias |
Em 1823, o comerciante José Benjó tornou-se o primeiro judeu a pedir e obter formalmente a cidadania brasileira e uma licença comercial no Pará. Sua loja ficava na Rua do Pelourinho, em Belém.
Os imigrantes se instalaram no Pará, no Amazonas, no Acre, em Rondônia e no Amapá. Entre as localidades estão Cametá, Gurupá, Óbidos, Santarém, Itacoatiara, Parintins, Tefé, Coari, Humaitá, Macapá e Porto Velho.
Quais foram as primeiras sinagogas do Brasil independente?
As primeiras sinagogas do Brasil independente nasceram em Belém, no Pará.
- Essel Abraham (também grafada Eshel Abraham): os registros indicam 1824. Algumas fontes também citam a data de 1850.
- Shaar Hashamaim: as datas apontadas variam entre 1824 e 1826.
Em 1842, a comunidade criou o cemitério judaico de Soledade, também em Belém. Os livros e atas das sinagogas estão entre os registros que documentam essa história.
Como era a vida dos "judeus-caboclos"?
Os judeus-caboclos viviam como os ribeirinhos: moravam em palafitas, dormiam em redes e navegavam pelos igarapés.
Trabalho. Muitos eram regatões, comerciantes que percorriam os rios em barcos ou gaiolas. Outros eram donos de bodegas, armazéns de secos e molhados. Eles levavam tecidos, ferramentas, alimentos e remédios aos seringueiros. Em troca, recebiam borracha, castanha e óleos vegetais.
Língua. As famílias trouxeram do Marrocos a hakitía. Esse dialeto mistura espanhol antigo, português, hebraico e árabe marroquino. Era usado em casa e no comércio entre membros da comunidade.
Religião. No interior, os rabinos raramente estavam presentes. Por isso, os chefes de família atuavam como chazanim, cantores da liturgia, e conduziam as rezas em casa.
Comida. A culinária sefardita adaptou-se aos ingredientes da floresta. Um exemplo é a maniçoba preparada segundo as leis dietéticas judaicas.
Como surgiu a comunidade judaica de Manaus?
A comunidade de Manaus cresceu quando a economia da borracha entrou em colapso. Isso aconteceu na década de 1920.
Entre 1920 e 1950, os judeus abandonaram os seringais do interior e foram para as capitais, Belém e Manaus. Em Manaus, ergueram a sinagoga Beth Yaacov (1928) e a Rabi Meyr. As duas se unificaram em 1962 no templo Beth Yaacov / Rebi Meyr.
A cidade guarda também o túmulo do rabino Shalom Emanuel Muyal, vindo de Jerusalém. Ele morreu em Manaus em 1910. Seu túmulo, no Cemitério São João Batista, virou local de devoção popular para judeus e católicos. Por isso, ele é conhecido como o "rabino santo".
Figuras de destaque da comunidade:
- Major Eliezer Moysés Levy: foi prefeito de Macapá e de Afuá. Em 1918, fundou o Kol Israel (A Voz de Israel), primeiro jornal judaico em português do Norte.
- Isaac Benayon Sabbá: pioneiro da industrialização amazônica, fundou a Refinaria de Petróleo de Manaus (REMAN) em 1957.
- Samuel Isaac Benchimol: professor e historiador, autor de Eretz Amazônia (1998).
Quais documentos comprovam essa história?
Um rico acervo de documentos públicos e de museus comprova a imigração judaico-marroquina para a Amazônia.
- Arquivo Nacional (Rio de Janeiro): guarda o pedido de naturalização e de licença comercial de José Benjó, de 1823. Guarda também processos de imigrantes marroquinos do século XIX.
- Imprensa histórica: há edições do Kol Israel (Belém, 1919). Há também anúncios de casas comerciais, como Moysés Ezagui & Irmão (Itacoatiara, 1910) e A Ville de Paris / Levy Frères (Manaus, 1909).
- Atas das sinagogas: registram a construção da Shaar Hashamaim e da Eshel Abraham, em Belém, e da Beth Yaacov (1928), em Manaus.
- Museu Judaico de São Paulo: publicou o catálogo temático Judeus na Amazônia.
- Revista Arquivo Maaravi: reúne artigos e depoimentos, em parceria com o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER/USP) e a UFMG. A coordenação é da professora Maria Luiza Tucci Carneiro.
Linha do tempo
- 1492Expulsão dos judeus da Espanha. Muitos se fixam no Marrocos.
- 1497Expulsão dos judeus de Portugal.
- 1810D. João VI assina o Tratado de Navegação e Comércio. Começa a primeira leva de imigrantes.
- 1822Independência do Brasil.
- 1823José Benjó obtém a cidadania brasileira e uma licença comercial no Pará.
- 1824A Constituição garante a liberdade de culto privado. Fundação da sinagoga Essel Abraham, em Belém.
- 1826Data atribuída por algumas fontes à sinagoga Shaar Hashamaim, em Belém. Outras apontam 1824.
- 1842Criação do cemitério judaico de Soledade, em Belém.
- 1866D. Pedro II abre o Rio Amazonas à navegação internacional.
- 1910Morre em Manaus o rabino Shalom Emanuel Muyal, o "rabino santo".
- 1918Eliezer Moysés Levy funda o jornal Kol Israel.
- 1928Construção da sinagoga Beth Yaacov, em Manaus.
- 1957Isaac Benayon Sabbá funda a Refinaria de Petróleo de Manaus (REMAN).
- 1962As sinagogas Beth Yaacov e Rabi Meyr se unificam em Manaus.
- 1998Samuel Benchimol publica Eretz Amazônia: os judeus na Amazônia.
Perguntas frequentes
Há judeus marroquinos no Brasil?
Por que os judeus deixaram o Marrocos?
Qual foi a primeira sinagoga do Brasil independente?
O que é a hakitía?
Assista
Vídeo curto e informal que explica o que é a sinagoga (Beit Knesset e Beit Midrash), sua origem após a destruição do Segundo Templo, as três rezas diárias, o minian de dez homens e o papel do rabino.
Adolescentes e adultosVídeo didático da CONIB que traça a história do tropo antissemita da demonização dos judeus, das raízes teológicas antigas e medievais ao nazismo, ao integralismo brasileiro, ao islamismo radical e ao antissionismo contemporâneo. Encerra com os critérios para identificá-lo hoje, incluindo os '3 Ds' de Natan Sharansky.
Adolescentes e adultosTambém em inglês: mais 2 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Homenagem do American Jewish Committee aos diplomatas Oswaldo Aranha (Brasil) e Jorge García Granados (Guatemala), decisivos na votação da partilha da ONU em 1947, com depoimentos de seus netos e bastidores da manobra que adiou a votação até 29 de novembro.
AdultosEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
O rabino israelense Gilad Kariv explica o que é o judaísmo progressista (liberal ou reformista), seu crescimento em Israel e na América Latina e a busca dos jovens por uma vida judaica significativa além da dicotomia entre ortodoxia e secularismo. Ele fala também da troca de experiências com a comunidade liberal no Brasil.
Adolescentes e adultos- Arquivo Nacional (Rio de Janeiro): processo de naturalização de José Benjó, 1823
- Museu Judaico de São Paulo: catálogo temático Judeus na Amazônia
- Revista Arquivo Maaravi (UFMG) e LEER/USP, coord. Maria Luiza Tucci Carneiro
- Samuel Benchimol, Eretz Amazônia: os judeus na Amazônia (1998)
- Jornal Kol Israel (Belém, 1919)

