Após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, universidades brasileiras tiveram episódios noticiados de hostilidade a estudantes e palestrantes judeus. Entre eles estão um processo disciplinar na USP, um debate na PUC-Rio e uma questão de vestibular anulada na UECE. Discriminar alguém por ser judeu é crime pela Lei nº 7.716/1989. O estudante pode denunciar na ouvidoria da universidade, na polícia ou no Ministério Público.
Quais casos de antissemitismo foram registrados em universidades brasileiras?
Desde novembro de 2023, a imprensa noticiou ao menos cinco episódios em universidades brasileiras ligados à hostilidade contra judeus ou contra quem é identificado com Israel. Eles ocorreram depois do ataque terrorista do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, que deu início à guerra.
| Instituição | Quando | O que foi noticiado | Situação |
|---|---|---|---|
| USP | novembro de 2023 | A Reitoria abriu processo administrativo disciplinar contra estudantes de Ciências Moleculares e de outros cursos. As acusações eram antissemitismo, discurso de ódio e apologia ao terrorismo. | Processo disciplinar, com direito de defesa |
| PUC-Rio | novembro de 2023 | Segundo reportagem, professores impediram estudantes judeus de falar em um debate sobre Hamas e Israel. | Relato jornalístico |
| UECE | 2024 | A universidade anulou uma questão de vestibular depois da reação da Conib e do estudioso do antissemitismo Matheus Alexandre. | Questão anulada |
| USP (FFLCH) | após outubro de 2023 | Estudantes ocuparam o prédio de História e Geografia em protesto contra Israel. | Relato jornalístico |
| Eventos universitários | após outubro de 2023 | Manifestantes interromperam palestras de André Lajst, presidente da StandWithUs Brasil. Houve gritos de “não se escuta genocida” e, em um caso, ameaças que teriam exigido escolta. | Relato jornalístico |
Os casos da PUC-Rio, da UECE, da FFLCH e dos eventos com André Lajst foram reunidos em reportagem da Gazeta do Povo. O processo na USP está registrado no repositório da USP. Ele também foi discutido em artigo publicado no O Globo.
Um cuidado é necessário. Abrir um processo não prova a infração, e uma reportagem não equivale a uma decisão oficial. Mesmo assim, os episódios mostram um padrão que preocupa: estudantes e palestrantes judeus têm sido silenciados ou intimidados em espaços que deveriam ser de debate. Fora da universidade, também houve relatos de ofensas discriminatórias a um aluno de origem judaica na Beacon School, uma escola de São Paulo.
Quantos casos de antissemitismo o Brasil registrou depois de 7 de outubro?
O relatório da Conib, da Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) e do Departamento de Segurança Comunitária registrou 1.788 casos de antissemitismo no Brasil em 2024. Isso representa um aumento de 350% em relação ao período comparado, segundo a Conib.
O relatório completo traz outros dados:
- 104 denúncias recebidas em 2024 foram encaminhadas ao departamento jurídico;
- desde 7 de outubro de 2023, pelo menos 50 casos foram comunicados à Polícia ou ao Ministério Público.
Entidades da comunidade judaica também apontaram que os casos mais que dobraram depois do início da guerra entre Israel e o Hamas. O Ministério de Assuntos da Diáspora de Israel documentou apelos à violência contra judeus em grupos do Telegram, incluindo canais ligados ao PCO. Em junho de 2024, a Polícia Civil de São Paulo apreendeu mais de cem itens de propaganda nazista na casa de um jovem que vendia esse material pela internet.
Esses números somam denúncias e ocorrências relatadas. Eles não equivalem a condenações judiciais. Mesmo assim, são um registro importante do que a comunidade judaica brasileira tem vivido.
Criticar Israel na universidade é antissemitismo?
Criticar um governo ou uma decisão de Israel não é, por si só, antissemitismo. O limite é ultrapassado quando o alvo deixa de ser uma política e passa a ser o judeu. A JJO adota a definição de trabalho de antissemitismo da IHRA (Aliança Internacional para a Memória do Holocausto). Por esse critério, alguns exemplos concretos são antissemitismo:
- responsabilizar os judeus coletivamente pelas ações do Estado de Israel;
- negar o direito de Israel existir;
- usar teorias conspiratórias, negar ou banalizar o Holocausto e defender violência contra judeus.
No campus, isso costuma aparecer de três formas:
- a cobrança dirigida a colegas e professores judeus pelo que faz um governo estrangeiro;
- o uso de “sionista” como palavra-código para “judeu”;
- a exclusão de estudantes judeus de debates.
Judeus brasileiros são cidadãos brasileiros. Não votam em Israel nem comandam as Forças de Defesa de Israel (FDI). Também têm opiniões variadas sobre o governo israelense. Cobrar deles o que faz outro país é preconceito, e seria igualmente injusto culpar qualquer outro grupo pelos atos de um governo ou de uma organização.
O grito “não se escuta genocida”, dirigido a André Lajst, repete a acusação de genocídio que alguns governos e organizações fazem contra Israel. Israel rejeita essa acusação. O país afirma que combate o Hamas, grupo terrorista que iniciou a guerra em 7 de outubro de 2023 e que usa civis como escudo. Transformar essa acusação em motivo para calar um palestrante judeu já não é debate. É intimidação.
O que diz a lei brasileira sobre antissemitismo no ensino?
A Lei nº 7.716/1989 define como crime a discriminação ou o preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Ela trata expressamente das instituições de ensino. Recusar, negar ou impedir a inscrição ou o ingresso de aluno em escola ou universidade, pública ou privada, é crime.
Na prática, podem ser juridicamente relevantes as seguintes condutas:
- impedir matrícula ou acesso por motivo religioso ou étnico;
- excluir um estudante de atividade acadêmica por ser judeu;
- ameaçar ou ofender alguém por sua condição judaica;
- incitar discriminação ou violência;
- divulgar propaganda ou símbolos nazistas;
- atribuir coletivamente aos judeus atos do governo de Israel.
A jurisprudência brasileira reforça essa proteção:
- STF, caso Ellwanger: o Supremo reconheceu o antissemitismo como forma de racismo (STF);
- STF, injúria racial: o Supremo equiparou a injúria racial ao crime de racismo, que é inafiançável e imprescritível;
- STJ: o tribunal afirmou que atacar judeus e negar o Holocausto ultrapassa a liberdade de expressão e manteve condenações por racismo em casos de publicações em redes sociais;
- IHRA nos tribunais: sentenças brasileiras já usaram a definição da IHRA como parâmetro para condenar publicações antissemitas. O Brasil participa como observador das reuniões da IHRA.
A aplicação da lei depende de fatos e provas. Uma conduta apresentada como “protesto” pode configurar ameaça, injúria ou discriminação. Já uma crítica política dura pode não ser crime.
Quais são os direitos do estudante judeu na universidade?
O estudante judeu tem direito a estudar, falar e circular no campus sem ser discriminado nem ameaçado. Em regra, isso inclui:
- igualdade e não discriminação por religião ou origem;
- segurança e integridade física e psíquica;
- liberdade de expressão e de participação em debates acadêmicos, inclusive para defender Israel;
- proteção contra retaliação por denunciar discriminação;
- acompanhamento das providências tomadas no seu caso.
A universidade pode e deve agir. Ela pode impor regras de convivência, impedir ameaças, interromper eventos que se tornem violentos e aplicar as sanções previstas em seu regimento.
O processo disciplinar também tem regras, que valem para qualquer acusado. Ele deve garantir contraditório, ampla defesa, acesso às provas e direito de recurso. A sanção deve respeitar legalidade, proporcionalidade e imparcialidade. Essas garantias tornam a decisão final mais sólida.
A liberdade acadêmica protege pesquisa, ensino e crítica a governos e ideologias. Ela não dá imunidade para ameaça, perseguição individual, exclusão de judeus de espaços acadêmicos, propaganda nazista, negação do Holocausto ou interrupção de eventos pela intimidação.
Como denunciar antissemitismo na universidade?
O primeiro passo é documentar o que aconteceu. O segundo é registrar a denúncia em um canal oficial. A orientação do governo federal recomenda anotar data, hora, local, pessoas envolvidas e o conteúdo do ato discriminatório.
Passo a passo:
1. Guarde as provas: mensagens, e-mails, vídeos, fotos, nomes de testemunhas, data, local e contexto. 2. Descreva fatos, não só rótulos: as palavras usadas, as imagens, as ameaças, quem foi o alvo, com que frequência e quais foram as consequências. 3. Registre na universidade: ouvidoria, corregedoria, comissão de direitos humanos, secretaria acadêmica ou serviço de segurança. 4. Peça medidas de proteção: separação dos envolvidos, reforço de segurança ou mudança de local de aula. 5. Procure apoio: assistência estudantil ou serviço psicológico. 6. Acione as autoridades: se houver ameaça, violência ou incitação, faça boletim de ocorrência na Polícia Civil ou comunique a Polícia Federal e o Ministério Público Estadual ou Federal. 7. Use o Fala.BR: em casos que envolvam órgão federal, a Ouvidoria do Ministério da Igualdade Racial atende pela plataforma Fala.BR. 8. Fale com a comunidade: a Conib ou a federação israelita do seu estado podem orientar sobre documentação e encaminhamento jurídico.
Em situação de risco imediato, acione o serviço de emergência da polícia.
Linha do tempo
- 2023Em 7 de outubro, o Hamas ataca Israel e inicia a guerra. Começa a alta de denúncias de antissemitismo no Brasil.
- 2023Em novembro, a Reitoria da USP abre processo disciplinar contra estudantes acusados de antissemitismo, discurso de ódio e apologia ao terrorismo.
- 2023Em novembro, segundo reportagem, estudantes judeus são impedidos de falar em um debate sobre Hamas e Israel na PUC-Rio.
- 2024Em janeiro, a Conib pede inquérito por racismo após declarações públicas de José Genoino defendendo boicote a empresas judaicas.
- 2024A UECE anula uma questão de vestibular depois da reação da Conib e de Matheus Alexandre.
- 2024Em junho, a Polícia Civil de São Paulo apreende mais de cem itens de propaganda nazista.
- 2024O relatório da Conib, da Fisesp e do Departamento de Segurança Comunitária registra 1.788 casos no ano, alta de 350%.
Perguntas frequentes
Criticar Israel na faculdade é crime?
A universidade pode punir um estudante por antissemitismo?
A quem um estudante judeu pode recorrer?
Por que se diz que os judeus são “tão prósperos”?
Assista
A jornalista Sabrina Abreu, diretora do documentário 'Ainda é 7 de Outubro' e integrante da StandWithUs Brasil, conta como foi voltar aos locais do massacre com sobreviventes do Festival Nova. Ela discute a cobertura da imprensa, o antissemitismo que veio depois do ataque e o que significa o sionismo.
AdultosReportagem da i24NEWS sobre o relatório da Força-Tarefa J7, que registrou mais de 23 mil incidentes antissemitas em 2025 e o maior número de mortes em ataques contra judeus na diáspora desde o atentado à AMIA, em 1994. Marina Rosenberg, da Liga Antidifamação, comenta prevenção, educação e o combate ao ódio nas redes sociais.
Adolescentes e adultosTambém em inglês: mais 2 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Discurso de Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto e Prêmio Nobel da Paz, no Yad Vashem: ele afirma que a Shoá foi a desumanidade dirigida especificamente contra os judeus e convoca cada um a se tornar mensageiro da memória diante do antissemitismo que persiste.
Adolescentes e adultosEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Vídeo do Yad Vashem que explica o pogrom de novembro de 1938 (a 'Noite dos Cristais') como resultado de meses de planejamento do regime nazista e da escalada de perseguição econômica e legal contra os judeus da Alemanha, e não como uma explosão espontânea após o assassinato do diplomata Ernst vom Rath em Paris. Mostra como o pogrom marcou a passagem da discriminação institucional para a violência aberta e acelerou a fuga dos judeus alemães.
Adolescentes e adultos- Lei nº 7.716/1989 (texto compilado)
- STF, caso Ellwanger: antissemitismo como racismo
- IHRA, definição de trabalho de antissemitismo
- Conib: relatório aponta crescimento de 350% dos casos em 2024
- Relatório Antissemitismo no Brasil 2024 (Conib, Fisesp e DSC)
- Gazeta do Povo: violência contra judeus em universidades brasileiras
- Repositório da USP: processo disciplinar contra estudantes
- O Globo: o caso dos estudantes da USP ameaçados de expulsão
- Governo federal: perguntas frequentes sobre discriminação
- Ministério da Igualdade Racial: canais de denúncia
- Conib: notícias


