Foto: Memorial do Holocausto em Berlim, 2014. Photograph by Mike Peel (www.mikepeel.net). · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia CommonsOuça: Podcast Contexto
Uma conversa de 11 minutos para ouvir no caminho, em sala ou antes do encontro do grupo.
Narração com vozes sintéticas, feita a partir das páginas deste site. Baixar o MP3 (11 min, 5,2 MB).
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Lia: Olá, você está ouvindo o Contexto, o podcast da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.
Davi: E eu sou o Davi. Hoje vamos falar de um tema que liga a história ao celular que está no seu bolso.
Lia: O episódio se chama "Da propaganda nazista ao ódio nas redes". Vamos entender como o regime nazista fabricou um inimigo, sobretudo os judeus, e como mentiras muito parecidas circulam hoje em memes e posts.
Davi: E por que isso importa para quem está no Ensino Médio, Lia?
Lia: Porque o ódio não começa com violência. Começa com palavras, imagens e "piadas" repetidas até parecerem normais. Quem aprende a reconhecer esses mecanismos consegue parar antes de compartilhar.
Davi: Mas já deixo um cuidado logo de início. Comparar não é igualar. Uma postagem viral não é um Estado totalitário.
Lia: Exatamente. Vamos comparar mecanismos sem apagar a escala e as consequências do Holocausto. Começando pela história.
Davi: Então vamos lá. Como funcionava a propaganda nazista?
Lia: Ela era um sistema de Estado, não só um conjunto de anúncios. Depois de chegar ao poder, em 1933, Hitler criou o Ministério do Reich para Esclarecimento Popular e Propaganda.
Davi: E quem dirigia esse ministério?
Lia: Joseph Goebbels. Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, o órgão coordenava a mensagem nazista na arte, na música, no cinema, no rádio, nos livros, na imprensa e até nos materiais escolares.
Davi: Ou seja, não havia espaço para outra voz.
Lia: Não havia. Os veículos independentes foram controlados ou eliminados. Livros considerados "não alemães" foram proibidos e queimados.
Davi: E como eram as mensagens?
Lia: Curtas, repetidas e binárias: "nós" contra "eles". O apelo era emocional. Medo, orgulho nacional e ressentimento valiam mais que evidências.
Davi: E o "eles" era sempre um bode expiatório.
Lia: Isso. Judeus, comunistas, pessoas Roma e Sinti, pessoas com deficiência, homossexuais e outros grupos eram apresentados como ameaças. E a propaganda andava junto com a repressão: polícia, leis discriminatórias e violência.
Davi: Eu lembro que o cinema também tinha um papel enorme.
Lia: Tinha. "O Triunfo da Vontade", de Leni Riefenstahl, não debatia ideias. Produzia uma experiência emocional de ordem, pertencimento e poder. E os cartazes usavam poucas palavras e contrastes fortes para dizer quem pertence e quem deve ser excluído.
Davi: E as crianças? Elas também eram alvo?
Lia: Eram. Em 1936, Elvira Bauer publicou um livro infantil cujo título dizia: "Não confie em nenhuma raposa no campo verde nem no juramento de um judeu". Era o estereótipo ensinado desde cedo.
Davi: Isso me lembra o filólogo Victor Klemperer.
Lia: Sim. Nos diários reunidos em "LTI – Lingua Tertii Imperii", ele registrou como o vocabulário do dia a dia foi contaminado. Havia metáforas biológicas que comparavam pessoas a parasitas e eufemismos burocráticos.
Davi: Antes de seguir, um alerta de checagem que eu acho ótimo. Sabe aquela frase sobre a "mentira repetida até virar verdade", atribuída a Goebbels?
Lia: Ela circula muitas vezes sem fonte primária. O funcionamento real da propaganda se demonstra com filmes, jornais e cartazes. Esse cuidado já é uma lição de checagem.
Davi: Agora, o segundo bloco: dois exemplos que mostram a anatomia de uma mentira.
Lia: O primeiro é o jornal Der Stürmer, fundado por Julius Streicher em 1923. Foi uma das primeiras formas de propaganda nazista impressa.
Davi: E qual era o método dele?
Lia: Caricaturas racistas, linguagem desumanizante e acusações conspiratórias apresentadas como se fossem notícias. O lema era: "Os judeus são nossa desgraça". E o jornal ficava exposto em caixas de vidro nas praças.
Davi: Ele também reciclava mitos antigos, não é?
Lia: Sim. Em maio de 1934, publicou uma edição especial sobre o libelo de sangue, a falsa acusação medieval de que judeus matariam crianças em rituais.
Davi: E Streicher foi responsabilizado?
Lia: Foi. Em 1946, o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg o condenou por crimes contra a humanidade, pelo papel de seus escritos na incitação.
Davi: E o segundo exemplo?
Lia: Os Protocolos dos Sábios de Sião. Um texto forjado pela polícia secreta do Império Russo e publicado em 1903. Ele inventava um plano secreto judaico de dominação mundial.
Davi: E alguém desmascarou essa fraude?
Lia: Desmascarou. Em agosto de 1921, o jornalista Philip Graves, do The Times de Londres, comparou os textos lado a lado.
Davi: E o que ele descobriu?
Lia: Que os Protocolos plagiavam uma sátira política francesa de 1864, de Maurice Joly. Foi uma checagem de fatos antes de existir o termo.
Davi: Mas a mentira não morreu ali.
Lia: Não. Serviu de apoio a Hitler em "Mein Kampf". E foi incorporada à Carta de fundação do grupo terrorista Hamas, de 1988.
Davi: Isso é impressionante. E ela ainda circula na internet.
Lia: Ainda circula, inspirando teorias sobre "elites ocultas". É a prova de que desmentir não basta. É preciso formar leitores críticos.
Davi: Isso nos leva ao terceiro bloco: o ódio nas redes hoje. Como ele aparece?
Lia: São mitos antigos em formato novo. Frases como "judeus controlam a mídia, os bancos ou os governos". Segundo o Museu do Holocausto dos Estados Unidos, é o mesmo mito espalhado pelos Protocolos.
Davi: E o libelo de sangue voltou também.
Lia: Voltou, em memes e caricaturas no Instagram e no X. Há ainda a culpa coletiva, quando judeus do mundo inteiro são tratados como responsáveis por decisões do governo de Israel.
Davi: E existem os códigos, para driblar a moderação.
Lia: Muitos. Os triplos parênteses em volta de um nome foram criados por neonazistas para marcar pessoas como judias. Há o meme do Happy Merchant, uma caricatura de judeu com nariz exagerado. E emojis de porco e rato, que desumanizam.
Davi: Mas o contexto conta, certo?
Lia: Sempre. Alguns judeus adotaram os parênteses de forma irônica. Um cifrão sozinho pode ser só dinheiro. É preciso olhar o texto, a imagem, o autor e o alvo.
Davi: E o uso da palavra "sionista"?
Lia: O sionismo é o movimento nacional do povo judeu, a busca por autodeterminação em Israel. Mas, nas redes, "sionista" virou xingamento para atingir judeus, às vezes como "rato sionista".
Davi: E como saber quando cruzou a linha?
Lia: Um teste simples: troque "sionista" por "judeu". Se a frase vira preconceito clássico, já era antissemita.
Davi: E isso piorou depois de 7 de outubro de 2023?
Lia: Piorou. O ataque terrorista do Hamas foi o maior massacre de judeus desde o Holocausto. E, em boa parte das redes, não gerou solidariedade. Gerou uma onda de hostilidade contra judeus em geral.
Davi: Tem números sobre isso?
Lia: Tem. A CyberWell mediu uma alta de 86% em posts com alta probabilidade de antissemitismo, nos 25 dias após o ataque.
Davi: E no YouTube?
Lia: O Institute for Strategic Dialogue viu o volume de comentários antissemitas em vídeos sobre o conflito ficar mais de 50 vezes maior.
Davi: E aqui no Brasil?
Lia: A CONIB e a FISESP registraram 1.788 denúncias de antissemitismo em 2024.
Davi: Isso é muito mais que antes?
Lia: É uma alta de 350% em relação a 2022.
Davi: E quanto disso aconteceu na internet?
Lia: 73% dos casos foram no ambiente digital. O X concentrou mais denúncias, com 402 ocorrências.
Davi: E esses são só os casos denunciados.
Lia: Isso. O total real tende a ser maior. E os algoritmos pioram o quadro, porque premiam o engajamento, e o ódio engaja. Até respostas que desmentem um post inflamatório aumentam o alcance dele.
Davi: Então, último bloco: o que fazer?
Lia: Primeiro, não amplifique. Compartilhar o post para criticá-lo aumenta o alcance dele.
Davi: Depois, guarde as provas.
Lia: Captura de tela, link, nome de usuário, data e horário. Sem editar. Aí denuncie na própria plataforma, na categoria mais específica.
Davi: E fora da plataforma?
Lia: Encaminhe à CONIB e ao Departamento de Segurança Comunitária da FISESP. Também dá para denunciar à SaferNet Brasil. Se houver ameaça imediata, ligue 190 e registre ocorrência na Polícia Civil.
Davi: E como responder quando vale a pena responder?
Lia: Com o sanduíche da verdade. Abra com o fato, aponte brevemente a manipulação e feche reforçando o fato. Assim, o leitor guarda a informação correta, não o slogan de ódio.
Davi: E tem uma técnica preventiva também, o prebunking.
Lia: Sim. O laboratório PERIL, da American University, usou vídeos curtos que explicam as táticas de manipulação antes de elas aparecerem. Com eles, 72% dos usuários identificaram manipulações antissemitas que nunca tinham visto.
Davi: E uma última distinção importante.
Lia: Criticar políticas do governo de Israel não é, por si só, antissemitismo. Mas, pela definição da IHRA, adotada pela JJO, negar o direito de Israel existir é antissemitismo. Culpar todos os judeus pelo Estado também é.
Davi: E sempre sem ódio a nenhum povo.
Lia: Sempre. A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião.
Davi: Vamos às três ideias-chave?
Lia: Primeira: a propaganda nazista foi um sistema de Estado que fabricou os judeus como inimigos, com censura, repetição e repressão.
Davi: Segunda: as mentiras são antigas, mas o formato é novo. Os Protocolos, o libelo de sangue e o mito do controle judaico voltaram como memes e códigos, e cresceram depois de 7 de outubro.
Lia: Terceira: dá para agir. Não amplificar, guardar provas, denunciar e responder com fatos.
Davi: O antissemitismo não é opinião. É ódio, e reconhecê-lo é o primeiro passo para enfrentá-lo.
Lia: Obrigada por ouvir o Contexto. Mais materiais em jjo.org.br.
Apresentação pronta para usar
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Guia de estudo
Material da JJO (Juventude Judaica Organizada) para estudantes do Ensino Médio e professores.
Objetivos
- Compreender como o regime nazista organizou a propaganda como um sistema de Estado para fabricar inimigos, sobretudo os judeus.
- Reconhecer mitos antissemitas antigos em formatos novos: posts, memes, códigos e vídeos curtos. Entre esses mitos estão os Protocolos dos Sábios de Sião, o libelo de sangue e o “controle judaico oculto”.
- Diferenciar crítica política legítima de discurso de ódio e de antissemitismo, usando a Definição de Trabalho da IHRA, adotada pela JJO.
- Conhecer os dados sobre o aumento do antissemitismo online depois do ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, no mundo e no Brasil.
- Agir: saber o que a lei brasileira prevê, preservar provas, denunciar no canal certo e responder sem amplificar o ódio.
Conceitos-chave
1. A propaganda nazista era um sistema de Estado
Em 1933, depois de chegar ao poder, Hitler criou o Ministério do Reich para Esclarecimento Popular e Propaganda, dirigido por Joseph Goebbels. Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos EUA, o ministério coordenava a mensagem nazista em arte, música, teatro, cinema, livros, rádio, materiais escolares e imprensa.
O sistema tinha cinco mecanismos principais:
- Centralização e censura. Veículos independentes foram controlados ou eliminados. Livros considerados “não alemães” foram proibidos e queimados.
- Repetição e simplificação. As mensagens eram curtas e binárias: “nós” contra “eles”.
- Apelo emocional. Medo, orgulho nacional e ressentimento após a Primeira Guerra Mundial valiam mais que evidências.
- Bodes expiatórios. Judeus, comunistas, pessoas Roma e Sinti, pessoas com deficiência, homossexuais e outros grupos eram apresentados como ameaças.
- Propaganda junto com repressão. Polícia, leis discriminatórias e violência tornavam a mensagem obrigatória.
Vários meios serviam ao mesmo objetivo:
- O cinema difundiu o antissemitismo racial e a imagem dos inimigos como essencialmente maus. O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, não debatia ideias: produzia uma experiência emocional de ordem, pertencimento e poder.
- Os cartazes usavam poucas palavras, símbolos fáceis e contrastes fortes. Indicavam quem pertence, quem ameaça e quem deve ser excluído.
- As crianças também eram alvo. Em 1936, Elvira Bauer publicou um livro infantil cujo título dizia: “Não confie em nenhuma raposa no campo verde nem no juramento de um judeu”.
- A linguagem cotidiana foi contaminada. O filólogo Victor Klemperer registrou isso em LTI – Lingua Tertii Imperii. Havia metáforas biológicas, que comparavam pessoas a parasitas, e eufemismos burocráticos.
Lição de checagem: frases famosas atribuídas a Goebbels, como a da “mentira repetida até virar verdade”, circulam muitas vezes sem fonte primária. O funcionamento da propaganda se demonstra com jornais, filmes e cartazes.
2. A anatomia de uma mentira: o Der Stürmer e os Protocolos
O Der Stürmer
- Foi fundado por Julius Streicher em 1923.
- Usava caricaturas racistas, linguagem desumanizante e acusações conspiratórias apresentadas como notícias.
- Seu lema era “Os judeus são nossa desgraça!”.
- Era exibido em caixas de vidro nas praças.
- Em maio de 1934, publicou uma edição especial sobre o libelo de sangue, a falsa acusação medieval de assassinato ritual.
- Em 1946, o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg condenou Streicher por crimes contra a humanidade, pelo papel de seus escritos na incitação.
Os Protocolos dos Sábios de Sião
- O texto foi forjado pela polícia secreta do Império Russo e publicado em 1903 no jornal Znamya. Sergei Nilus o difundiu em 1905.
- Inventava um plano secreto judaico de dominação mundial.
- Em agosto de 1921, Philip Graves, do The Times de Londres, comparou os textos lado a lado. Provou que eram plágio de uma sátira francesa de 1864, de Maurice Joly. Foi uma checagem de fatos antes de o termo existir.
- A fraude sobreviveu ao desmentido. Serviu de apoio a Hitler em Mein Kampf e foi incorporada à Carta de fundação do grupo terrorista Hamas, de 1988, nos artigos 22 e 32. Ainda circula na internet.
Conclusão: desmentir não basta. É preciso formar leitores críticos.
3. Do cartaz ao meme: o que se repete e o que muda
| Propaganda nazista | Redes sociais hoje |
|---|---|
| Controle estatal centralizado | Plataformas privadas, usuários, grupos políticos e governos agindo ao mesmo tempo |
| Imprensa, rádio, cinema e cartazes | Vídeos curtos, memes, influenciadores, anúncios segmentados e algoritmos |
| Censura e repressão do Estado | Moderação privada, assédio e campanhas coordenadas |
| Desumanização de grupos | Discurso de ódio, racismo, antissemitismo e xenofobia |
| Bode expiatório e conspiração | Teorias conspiratórias e falsos culpados |
Paralelo não é identidade. O regime nazista era um Estado totalitário. Ele somava propaganda a leis raciais, polícia, prisões, guerra e genocídio. Uma postagem viral, sozinha, não equivale a esse sistema. Comparamos mecanismos sem apagar escala e consequências.
A banalização também é um risco. Chamar qualquer adversário de “nazista” esvazia a história. A trivialização e a inversão do Holocausto são formas atuais de distorção.
4. Como o antissemitismo aparece nas redes
São mitos antigos em formato novo. As formas mais comuns são:
- Controle oculto. Frases como “judeus controlam a mídia, os bancos ou os governos”, a ideia de uma “ordem mundial judaica” e referências à família Rothschild. É o mesmo mito dos Protocolos.
- Libelo de sangue. Voltou em memes e caricaturas no Instagram e no X.
- “Grande Substituição”. A falsa alegação de que grupos judeus orquestram a imigração para mudar a população do Ocidente.
- Culpa coletiva. Judeus do mundo inteiro são tratados como responsáveis por decisões do governo de Israel.
- Negação ou distorção do Holocausto. O Museu Memorial do Holocausto dos EUA a classifica como antissemitismo.
- Celebração da violência e assédio direto. Inclui insultos em posts comuns e em jogos online.
Códigos usados para driblar a moderação. Em todos eles, o contexto decide: um símbolo isolado não prova nada.
- (((nome))): triplos parênteses criados por neonazistas para marcar pessoas como judias.
- “Zio”: popularizado por David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan.
- “Sionista” como xingamento: usado para substituir “judeu” e escapar de filtros.
- “Globalistas”, “Khazar”, “cabala judaica”: eufemismos para o mito do poder judaico.
- Meme “Happy Merchant”: caricatura de judeu com nariz exagerado.
- Emojis de porco e rato: desumanização.
- “Austrian painter”: referência velada a Hitler.
- Grafias distorcidas: usadas para incitar sem ser detectado.
- Conteúdo feito com inteligência artificial: imagens ultrarrealistas, deepfakes e áudios modificados.
5. Os números depois de 7 de outubro de 2023
O ataque terrorista do Hamas foi o maior massacre de judeus desde o Holocausto. Em boa parte das redes, ele não gerou solidariedade: gerou uma onda de hostilidade contra judeus em geral.
No mundo
Cada estudo usa definições, períodos e métodos próprios, por isso os números não se comparam diretamente.
- CyberWell: alta de 86% em posts com alta probabilidade de antissemitismo nos 25 dias após 7/10, de 6.959 para 12.949 posts.
- ISD: comentários antissemitas em vídeos do YouTube sobre o conflito ficaram mais de 50 vezes maiores. Desses comentários, 39% eram teorias da conspiração e 12% eram apelos diretos à violência.
- Hashtag #HitlerWasRight no X: mais de 46.000 publicações em um mês.
- Telegram: o conteúdo antissemita subiu 433% em um único dia, 7 de outubro de 2023.
- ADL, EUA: 5.204 incidentes de 7/10 a 31/12/2023, mais que todo o ano de 2022.
- CCDH e NewsGuard: 74% das alegações falsas e antissemitas mais virais sobre o conflito no X vieram de contas com selo azul pago.
- FRA (Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia): 90% das pessoas judias relatam ter encontrado conteúdo antissemita na internet.
No Brasil (relatório CONIB/FISESP sobre 2024)
- Foram 1.788 denúncias, alta de 350% em relação a 2022.
- 73% ocorreram no ambiente digital.
| Plataforma | Ocorrências denunciadas |
|---|---|
| X | 402 |
| 314 | |
| 103 | |
| Telegram | 17 |
| 10 |
- Foram monitoradas 84.971 menções antissemitas, equivalentes a 2,4% de 3,6 milhões de menções sobre o conflito.
- Esses números contam denúncias recebidas, não todo o conteúdo antissemita que circula. O total real tende a ser maior.
6. A definição da IHRA e a linha entre crítica e ódio
A definição
- Foi adotada por unanimidade por 31 países em Bucareste, em 26 de maio de 2016.
- Descreve o antissemitismo como “uma certa percepção dos judeus, que pode ser expressa como ódio em relação aos judeus”.
- Traz 11 exemplos e já foi adotada por mais de 1.100 governos e instituições. A JJO adota essa definição.
O que não é antissemitismo: criticar o governo de Israel como se critica qualquer outro país.
O que é antissemitismo:
- negar o direito de Israel existir;
- culpar todos os judeus pelas ações do Estado;
- acusar judeus de controle oculto da mídia, da economia ou do governo;
- acusar judeus de dupla lealdade.
O que é o sionismo: é o movimento nacional do povo judeu. O INSS o define como “a busca judaica por autodeterminação em uma terra própria, Israel”. Ser sionista não significa apoiar todo governo israelense.
Teste prático: troque “sionista” por “judeu”. Se a frase vira preconceito clássico, já era antissemita.
Teste dos 3D (INSS e ADL): delegitimação, demonização e duplo padrão.
7. O que diz a lei brasileira
- Art. 20 da Lei nº 7.716/1989: pune quem pratica, induz ou incita discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
- Pena: quando o crime é cometido em redes sociais ou na internet, a pena é de reclusão de dois a cinco anos e multa.
- Lei nº 14.532/2023: equiparou a injúria racial ao crime de racismo.
- Atenção: uma postagem não vira crime só por ser ofensiva. A análise considera conteúdo, contexto, alvo e prova de intenção ou incitação.
8. Como agir
- Não amplifique. Compartilhar o post para criticá-lo aumenta o alcance dele.
- Guarde provas sem editar: captura de tela, link, nome de usuário, data, horário e contexto.
- Denuncie na plataforma, escolhendo a categoria mais específica.
- Encaminhe à CONIB e ao Departamento de Segurança Comunitária da FISESP, ou à SaferNet Brasil.
- Em caso de ameaça, procure a polícia. Ligue 190 em perigo imediato ou registre ocorrência na Polícia Civil. Casos com crianças ou adolescentes também podem ir ao Disque 100.
- Responda ao argumento, não ao xingamento. Use o sanduíche da verdade: fato, depois o mecanismo do boato, depois o fato de novo.
- Use o prebunking. Segundo o laboratório PERIL, da American University, depois de assistir a vídeos curtos que explicam as táticas com antecedência, 72% dos usuários identificaram manipulações antissemitas que nunca tinham visto. O efeito durou semanas.
Linha do tempo
| Ano | Fato |
|---|---|
| 1864 | Maurice Joly publica a sátira francesa que seria plagiada pelos Protocolos |
| 1903 | Os Protocolos, forjados pela polícia secreta russa, são publicados no jornal Znamya |
| 1905 | Sergei Nilus difunde os Protocolos |
| 1921 (agosto) | Philip Graves, do The Times, prova que os Protocolos são plágio |
| 1923 | Julius Streicher funda o Der Stürmer |
| 1927 | O juiz Louis Brandeis defende “mais discurso, e não o silêncio forçado” (Whitney v. California) |
| 1933 | Hitler cria o Ministério de Propaganda, dirigido por Goebbels |
| 1934 (maio) | O Der Stürmer publica edição especial sobre o libelo de sangue |
| 1936 | Elvira Bauer publica livro infantil antissemita |
| 1946 | O Tribunal de Nuremberg condena Streicher por crimes contra a humanidade |
| 1988 | A Carta do Hamas incorpora os Protocolos (artigos 22 e 32) |
| 1989 | Lei nº 7.716 criminaliza discriminação e preconceito |
| 2016 (26 de maio) | 31 países adotam a definição da IHRA em Bucareste |
| 2023 | Lei nº 14.532 equipara injúria racial a racismo |
| 2023 (7 de outubro) | Ataque terrorista do Hamas a Israel, seguido de uma onda de antissemitismo online |
| 2024 (17 de fevereiro) | Entra em vigor na União Europeia a Lei de Serviços Digitais (DSA) |
| 2024 (julho) | A Meta passa a remover ataques a “sionistas” quando o termo substitui “judeus ou israelenses” |
| 2024 | No Brasil, CONIB/FISESP registram 1.788 denúncias, 73% digitais |
5 perguntas para discussão
- Por que os Protocolos continuaram circulando mesmo depois de Philip Graves provar que eram uma fraude? O que isso ensina sobre os desmentidos nas redes hoje?
- Quais mecanismos da propaganda nazista (repetição, medo, bode expiatório, desumanização) você reconhece em memes atuais? Por que, mesmo assim, as redes não são iguais a um Estado totalitário?
- Aplique o teste “troque ‘sionista’ por ‘judeu’” a uma frase fictícia. Onde passa a linha entre criticar um governo e atacar um povo?
- Por que os algoritmos podem multiplicar o ódio? Por que até respostas indignadas podem ampliar um post antissemita?
- Diante de um post antissemita, quando basta denunciar à plataforma e quando é preciso procurar a CONIB/FISESP, a SaferNet ou a polícia?
Glossário curto
- Antissemitismo (IHRA): “uma certa percepção dos judeus, que pode ser expressa como ódio em relação aos judeus”. Inclui negar o direito de Israel existir.
- Sionismo: movimento nacional do povo judeu, a busca judaica por autodeterminação em uma terra própria, Israel.
- Discurso de ódio: conteúdo que busca desumanizar, demonizar, assediar, ameaçar ou incitar violência contra pessoas ou grupos por raça, religião, etnia, gênero ou nacionalidade.
- Bode expiatório: grupo apresentado falsamente como culpado pelos problemas de uma sociedade.
- Libelo de sangue: falsa acusação medieval de que judeus matariam crianças em rituais.
- Desinformação: informação falsa ou manipulada, espalhada para enganar, obter vantagem ou causar dano.
- Efeito da verdade ilusória: a exposição repetida a uma narrativa falsa aumenta a impressão de que ela é verdadeira.
- Comportamento inautêntico coordenado: redes de contas falsas ou automatizadas que imitam opinião espontânea. Um exemplo é a Operação Doppelganger.
- Prebunking: explicar com antecedência as táticas de manipulação, como uma vacina contra a desinformação.
- Sanduíche da verdade: fato, depois o mecanismo do boato, depois o fato de novo.
- 3D: delegitimação, demonização e duplo padrão.
Para fechar
O antissemitismo não nasceu nas redes sociais. Os mesmos mitos que o Der Stürmer e os Protocolos espalharam voltam hoje em memes, códigos e vídeos curtos, e cresceram fortemente depois do ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Criticar o governo de Israel faz parte do debate político. Teorias de controle oculto, desumanização, culpa coletiva de judeus e a negação do direito de Israel existir são antissemitismo, pela definição da IHRA adotada pela JJO.
A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião. Por isso, reconhecer o ódio contra judeus nunca autoriza generalizar árabes, palestinos ou muçulmanos.
Quiz: teste o que aprendeu
Joseph Goebbels dirigia o ministério. Ele coordenava a mensagem nazista em arte, música, teatro, cinema, livros, rádio, materiais escolares e imprensa. Streicher fundou o Der Stürmer, Nilus difundiu os Protocolos e Riefenstahl dirigiu O Triunfo da Vontade.
Graves comparou os textos lado a lado e mostrou que os Protocolos, forjados pela polícia secreta do Império Russo, plagiavam a sátira de Maurice Joly. Mesmo assim, a fraude inspirou Hitler, entrou na Carta do grupo terrorista Hamas de 1988 e ainda circula na internet.
A definição foi adotada em Bucareste, em 26 de maio de 2016. Ela traz 11 exemplos e já foi adotada por mais de 1.100 governos e instituições. A JJO adota essa definição.
73% dos casos foram digitais. As 1.788 denúncias representam uma alta de 350% em relação a 2022. Como são denúncias recebidas, o total real de conteúdo antissemita tende a ser maior.
O X teve 402 ocorrências. Em seguida vêm o Instagram (314), o Facebook (103), o Telegram (17) e o LinkedIn (10).
O símbolo foi criado por comunidades neonazistas e supremacistas brancas para marcar pessoas como judias. Alguns judeus passaram a usá-lo de forma irônica, por isso é preciso olhar quem usa, contra quem e em que contexto.
Quando a troca revela um preconceito clássico, a palavra apenas mudou de rótulo o velho ódio. Criticar o sionismo ou o governo de Israel não é, por si só, antissemitismo. Usar “sionista” para atingir judeus, com estereótipos ou ameaças, é.
Quando o crime ocorre por meio de redes sociais ou da internet, a pena é de reclusão de dois a cinco anos e multa. Cada caso depende do conteúdo, do contexto, do alvo e da prova de intenção ou incitação.
A estrutura vem do Debunking Handbook 2020. Abre-se com o fato, aponta-se brevemente a manipulação e fecha-se reforçando o fato. Assim, o leitor guarda a informação correta, e não o slogan de ódio.
Compartilhar para criticar amplia o alcance do ódio, e confrontar o autor pode expor você. Guarde provas, denuncie e, em caso de ameaça, procure a polícia (190 em perigo imediato). Mesmo sem remoção, as denúncias alimentam os relatórios que mostram a dimensão do problema.
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Cerimônia da B'nai B'rith do Brasil pelos 82 anos da Noite dos Cristais, com o testemunho da filha de sobreviventes nascidos em Berlim, mensagens inter-religiosas e a carta do presidente de Israel, Reuven Rivlin, sobre memória do Holocausto e combate ao antissemitismo atual.
Adolescentes e adultosEm uma réplica de barracão de Auschwitz, o Memorial do Holocausto explica as condições desumanas de vida no campo e apresenta o testemunho de Elie Wiesel, sobrevivente e Nobel da Paz, com a leitura do célebre trecho 'Nunca me esquecerei' do livro A Noite.
Adolescentes e adultosÁudio em outro idioma, com legendas. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Português.
Leyb, parente distante de Anne Frank, percorre Amsterdã e mostra como as medidas antijudaicas nazistas isolaram Anne e sua família, com o testemunho de sua amiga de escola, Jacqueline van Maarsen. O episódio liga essa memória ao antissemitismo atual, incluindo estereótipos antigos e novos contra judeus na Holanda.
Adolescentes e adultosTambém em inglês: mais 3 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Documentário do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos que reconstrói, com imagens de arquivo e testemunhos de sobreviventes, o caminho da Alemanha do pós-Primeira Guerra até a ascensão nazista, a perseguição aos judeus, a Kristallnacht, os fuzilamentos em massa e os campos de extermínio. Excelente panorama histórico sobre como uma sociedade moderna chegou ao genocídio do povo judeu.
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Produção do Yad Vashem que explica como se formou a 'Solução Final' e conta Auschwitz-Birkenau por meio do testemunho de Ellis Lewin, do Álbum de Auschwitz, de trechos de Elie Wiesel e de objetos guardados por prisioneiros como forma de manter a dignidade. Traz também orientações para educadores ensinarem o Holocausto pela perspectiva humana.
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Vídeo do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos que explica os diferentes tipos de campos nazistas (de concentração, de trabalho forçado, de trânsito e os cinco centros de extermínio) e seu papel na perseguição e no assassinato de seis milhões de judeus, com o testemunho de uma sobrevivente.
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