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Estúdio JJO · podcast e aula pronta

BDS: o que é o boicote a Israel e por que é contestado

Podcast, guia de estudo, quiz e cartões sobre BDS: o que é o boicote a Israel e por que é contestado, para universitários, professores e empresas.

Para: universitários, professores e empresasPodcast: 12 min
Foto: Rainha Beatriz dos Países Baixos visita o Yad Vashem. Government Press Office (Israel) · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

Ouça: Podcast Contexto

Uma conversa de 12 minutos para ouvir no caminho, em sala ou antes do encontro do grupo.

Narração com vozes sintéticas, feita a partir das páginas deste site. Baixar o MP3 (12 min, 5,3 MB).

Ler a transcrição completa

Lia: Olá, você está ouvindo o Contexto, o podcast da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Eu sou a Lia.

Davi: E eu sou o Davi. Oi, pessoal!

Lia: Hoje o tema é uma sigla que aparece em assembleias de sindicato, em cartazes no campus e em pautas de empresa: BDS. Vamos explicar o que é o boicote a Israel, o que ele exige de verdade e por que ele é contestado.

Davi: E já adianto a conclusão: o BDS não é uma campanha para mudar uma política do governo israelense. O objetivo real dele é desmantelar o Estado judeu. Ao longo do episódio, vamos mostrar como se chega a essa conclusão.

Lia: Antes, por que isso importa para quem nos ouve? Para o universitário, porque o BDS atua muito no meio acadêmico. Para o professor, porque o tema chega à sala de aula. E para as empresas, porque o boicote mira contratos, parcerias e investimentos.

Davi: E porque, no fim, o que está em jogo não é só comércio ou intercâmbio. É se o povo judeu tem ou não o mesmo direito à autodeterminação que se reconhece a outros povos.

Lia: Então vamos ao começo. Davi, o que significa a sigla?

Davi: BDS vem do inglês Boycott, Divestment and Sanctions, ou seja, Boicote, Desinvestimento e Sanções. É uma campanha internacional que promove o isolamento econômico, cultural, acadêmico e político do Estado de Israel.

Lia: E quando ela surgiu?

Davi: O movimento diz que nasceu em 9 de julho de 2005. Nessa data, um grupo de organizações palestinas publicou um apelo por boicotes, desinvestimento e sanções contra Israel. A coordenação ficou com o Comitê Nacional do BDS, o BNC. O apelo fazia uma analogia declarada com a campanha contra o apartheid na África do Sul.

Lia: Mas a história começa antes, não é?

Davi: Começa. A estratégia foi montada no Fórum de ONGs da Conferência Mundial da ONU contra o Racismo, em Durban, na África do Sul, entre agosto e setembro de 2001. Nesse fórum, grupos anti-Israel acusaram o país de apartheid e lançaram a proposta de isolá-lo por completo. Estados Unidos e Israel chegaram a deixar a conferência oficial durante o encontro.

Lia: Por isso a ADL descreve o BDS como uma campanha global de deslegitimação de Israel. Analistas israelenses do INSS e do JPPI dizem o mesmo.

Davi: Exato. E isso fica claro quando a gente olha o que o movimento exige.

Lia: Vamos ao segundo bloco, então. Quais são as exigências oficiais do BDS?

Davi: São três. A primeira pede que Israel se retire de territórios que incluem Judeia e Samaria, Gaza e as Colinas de Golã, e que desmonte a barreira de segurança. Israel trata Judeia e Samaria como territórios em disputa.

Lia: E a segunda?

Davi: A segunda pede o que o movimento chama de "igualdade plena" para os cidadãos árabes de Israel. Só que esses cidadãos já têm cidadania e direitos políticos garantidos pela lei israelense. Para ter uma ideia, Israel tem cerca de 10 milhões de habitantes, e 2,1 milhões deles são árabes.

Lia: E a terceira é a mais importante.

Davi: É o centro da questão. Ela exige o retorno dos refugiados palestinos e de todos os seus descendentes às antigas propriedades em Israel, com base na Resolução 194 da Assembleia Geral da ONU.

Lia: Explica para quem está ouvindo por que essa exigência muda tudo.

Davi: O texto não diz "abolir Israel" com todas as letras. Mas o retorno em massa de milhões de descendentes de refugiados acabaria com Israel como Estado de maioria judaica. O resultado prático seria o fim do Estado judeu.

Lia: E não é só essa exigência que mostra isso.

Davi: Não. A liderança do movimento rejeita a solução de dois Estados e se opõe a negociações e a acordos de coexistência com Israel. Quando uma campanha recusa qualquer acordo e exige algo que eliminaria o caráter judaico do país, o objetivo não é corrigir uma política. É desmantelar o Estado judeu.

Lia: Então chegamos ao terceiro bloco: por que o BDS é considerado antissemita?

Davi: Aqui o critério é a definição de trabalho de antissemitismo da IHRA, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, adotada em 26 de maio de 2016, em Bucareste. A JJO adota essa definição.

Lia: Uma coisa importante: a definição da IHRA não proíbe criticar Israel.

Davi: De jeito nenhum. O próprio texto diz que a crítica a Israel semelhante à dirigida a qualquer outro país não pode ser considerada antissemita. Discordar de um governo é política legítima. O problema começa quando se nega só ao povo judeu o direito à autodeterminação, quando se aplica a Israel um padrão duplo ou quando se culpa todos os judeus pelos atos de Israel.

Lia: E para aplicar isso ao BDS existe uma ferramenta bem prática, os três "D".

Davi: Isso. O teste foi criado por Natan Sharansky em 2004. O primeiro D é a demonização: o BDS retrata Israel como um ente maligno, com comparações falsas com o nazismo ou com o apartheid sul-africano.

Lia: O segundo é o duplo padrão.

Davi: O movimento exige sanções só contra Israel e ignora regimes que violam gravemente os direitos humanos no Oriente Médio e no mundo. E o terceiro D é a deslegitimação: negar a existência soberana nacional apenas ao povo judeu.

Lia: Esse ponto merece ser repetido. Entre quase 200 países, só ao Estado judeu se nega o direito de existir. Pelo critério da IHRA, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

Davi: E não somos só nós que dizemos isso. Em 17 de maio de 2019, o Parlamento alemão aprovou uma resolução multipartidária afirmando que os argumentos e métodos do BDS são antissemitas e lembram o slogan nazista "Não compre de judeus".

Lia: Agora, o BDS tem uma resposta pronta. Ele diz que mira instituições e políticas, e não pessoas.

Davi: Só que os fatos desmentem isso. O boicote atinge artistas, cientistas e atletas israelenses. E o Brasil tem um exemplo muito claro.

Lia: Que nos leva ao quarto bloco: o BDS no Brasil.

Davi: Aqui o movimento atua sobretudo por meio de centrais sindicais, movimentos sociais e setores acadêmicos. A Central Única dos Trabalhadores, a CUT, e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, adotaram plataformas formais de apoio ao boicote. O MST defende abertamente um Estado único no lugar de Israel.

Lia: Vamos aos casos.

Davi: Em dezembro de 2014, o governo do Rio Grande do Sul cancelou um contrato de cooperação aeroespacial com a israelense Elbit Systems, depois de pressão da CUT e de movimentos sociais. Em fevereiro de 2016, a Bahia encerrou um acordo de cooperação técnica com a Mekorot, empresa estatal israelense de águas.

Lia: Repara que, no caso da Mekorot, estamos falando de gestão de água. Uma área civil.

Davi: Exatamente. A pressão não mirava uma política específica. Mirava a cooperação com uma empresa por ela ser israelense.

Lia: E o exemplo que você mencionou?

Davi: Em maio de 2015, na Universidade Federal de Santa Maria, a UFSM, um memorando interno pediu a identificação de alunos e professores israelenses. Pedir uma lista de pessoas pela nacionalidade israelense é discriminação contra indivíduos. Isso derruba a tese de que o boicote seria só "institucional".

Lia: E houve outros episódios no meio acadêmico.

Davi: Em janeiro de 2016, uma carta aberta pelo boicote acadêmico a universidades israelenses reuniu cerca de 200 assinaturas em três dias. Em julho de 2016, um edital da Universidade Federal do ABC associou "sionismo" a "apartheid" e "nazismo". O Ministério da Educação chamou o caso de absurdo, e a reitoria pediu desculpas.

Lia: Para ser justa com o quadro, essas iniciativas locais não significam uma adesão ampla de instituições brasileiras ao BDS.

Davi: Verdade. Mas a ambição é grande. O MST exige o cancelamento do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e Israel, do qual o Brasil faz parte. A meta é cortar o comércio do Brasil e dos vizinhos com o Estado judeu como um todo.

Lia: E o BDS é proibido no Brasil?

Davi: Não. Não há lei federal brasileira que proíba boicotes a Israel ou criminalize o BDS. Eventuais limites vêm de regras gerais sobre contratação pública e discriminação.

Lia: Lá fora, há países que reagiram.

Davi: Sim. A resolução de 2019 do Bundestag recomendou não financiar organizações que questionem o direito de Israel existir, nem projetos que convoquem o boicote. Ela não é lei penal, mas teve efeitos concretos sobre financiamento e espaços públicos. A Áustria aprovou resolução semelhante em 2019. E, nos Estados Unidos, mais de 30 estados têm leis ou regulamentos que proíbem contratos públicos ou investimentos em empresas que participam do boicote.

Lia: E esse padrão duplo não aparece só no BDS.

Davi: Aparece também na ONU. A maioria das resoluções sobre Israel vem da Assembleia Geral, que recomenda e não obriga. Em 16 de dezembro de 2016, o então secretário-geral Ban Ki-moon admitiu um "volume desproporcional" de resoluções contra Israel. O BDS se apoia nesse mesmo padrão duplo.

Lia: E vale lembrar: Israel foi proclamado em 14 de maio de 1948 e é membro da ONU desde 11 de maio de 1949. É um Estado soberano, reconhecido, que o BDS quer isolar e desmontar.

Davi: Lia, vamos às três ideias-chave?

Lia: Vamos. Primeira: o BDS é uma campanha global, preparada em Durban em 2001 e lançada em 2005, para isolar Israel em todas as frentes. Não é uma crítica pontual a um governo.

Davi: Segunda: o objetivo real do BDS é desmantelar o Estado judeu. A exigência de retorno em massa de descendentes de refugiados, junto com a rejeição dos dois Estados e de qualquer acordo de coexistência, deixa isso claro.

Lia: Terceira: criticar o governo de Israel é legítimo, mas negar só ao povo judeu o direito à autodeterminação é antissemitismo, pelo critério da IHRA. E, como mostrou o caso da UFSM, o boicote acaba atingindo pessoas, não só instituições.

Davi: A JJO combate o antissemitismo com informação, sem ódio a nenhum povo ou religião.

Lia: Obrigada por ouvir o Contexto. Mais materiais em jjo.org.br.

Davi: Até o próximo episódio!

Guia de estudo

Objetivos de aprendizagem

Ao final deste estudo, você deverá ser capaz de:

  1. Explicar o que é o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), quando e como surgiu e quais são suas três exigências oficiais.
  2. Identificar as principais alegações do movimento e refutá-las com fatos e com a definição de trabalho de antissemitismo da IHRA, adotada pela JJO.
  3. Diferenciar a crítica legítima a decisões de um governo israelense da tentativa de isolar e desmontar o Estado judeu.
  4. Aplicar o teste dos 3Ds de Natan Sharansky (demonização, duplo padrão e deslegitimação) ao discurso e às ações do BDS.
  5. Reconhecer como o BDS atua no Brasil e quais casos concretos foram documentados.
  6. Conhecer as medidas adotadas por países e parlamentos contra o BDS.

Conceitos-chave

O que é o BDS

BDS é a sigla de Boycott, Divestment and Sanctions, ou Boicote, Desinvestimento e Sanções. Não é gíria. É uma campanha internacional que promove o isolamento econômico, cultural, acadêmico e político do Estado de Israel. A ADL descreve o BDS como uma campanha global de deslegitimação de Israel. Analistas israelenses do JPPI e do INSS fazem a mesma avaliação.

Origem

  • 2001, Durban (África do Sul): a estratégia foi montada no Fórum de ONGs da Conferência Mundial da ONU contra o Racismo, entre agosto e setembro. Ali, grupos anti-Israel lançaram a proposta de isolar o país por completo e o associaram ao apartheid. Estados Unidos e Israel deixaram a conferência oficial durante o encontro.
  • 9 de julho de 2005: um grupo de organizações palestinas publicou um apelo por boicotes, desinvestimento e sanções contra Israel. A coordenação ficou com o Comitê Nacional do BDS (BNC). O apelo fazia uma analogia declarada com a campanha contra o apartheid na África do Sul.

As três exigências oficiais

  1. Retirada de Israel de Judeia e Samaria, de Gaza e das Colinas de Golã, além do desmantelamento da barreira de segurança. Israel trata Judeia e Samaria como territórios em disputa.
  2. O que o movimento chama de “igualdade plena” para os cidadãos árabes de Israel. Esses cidadãos já têm cidadania e direitos políticos garantidos pela lei israelense.
  3. Retorno dos refugiados palestinos e de todos os seus descendentes às antigas propriedades em Israel, com base na Resolução 194 da Assembleia Geral da ONU.

Ponto central: os três objetivos não dizem “abolir Israel” de forma explícita. Mas o retorno em massa de milhões de descendentes de refugiados acabaria com Israel como Estado de maioria judaica. A liderança do movimento também rejeita a solução de dois Estados e se opõe a negociações e a acordos de coexistência com Israel. O objetivo real, portanto, não é mudar uma política. É desmantelar o Estado judeu.

Por que o BDS é antissemita

A definição de trabalho de antissemitismo da IHRA foi aprovada em 26 de maio de 2016 e é adotada pela JJO. Ela afirma que criticar Israel como se critica qualquer outro país é legítimo. Mas é antissemitismo negar ao povo judeu o direito à autodeterminação, aplicar a Israel padrões duplos ou culpar todos os judeus pelos atos de Israel. Pelo critério da IHRA, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

O teste dos 3Ds aplicado ao BDS

O teste foi criado por Natan Sharansky em 2004.

D Como aparece no BDS
Demonização Israel é retratado como um ente maligno, com comparações falsas com o nazismo ou com o apartheid sul-africano.
Duplo padrão O movimento exige sanções só contra Israel e ignora regimes que violam gravemente os direitos humanos no Oriente Médio e no mundo.
Deslegitimação Nega a existência soberana nacional apenas ao povo judeu.

As alegações do BDS e as respostas

O que o BDS alega O que os fatos mostram
“Miramos instituições e políticas, não pessoas.” O boicote atinge artistas, cientistas e atletas israelenses. Em maio de 2015, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), um memorando interno pediu a identificação de alunos e professores israelenses. Pedir uma lista de pessoas por sua nacionalidade é discriminação contra indivíduos.
“Só defendemos direitos, não o fim de Israel.” O retorno em massa de milhões de descendentes acabaria com Israel como Estado de maioria judaica. A liderança rejeita os dois Estados e os acordos de coexistência. No Brasil, o MST defende abertamente um Estado único no lugar de Israel.
“É como a luta contra o apartheid.” A comparação é um caso de demonização. Israel tem cerca de 10 milhões de habitantes, dos quais 2,1 milhões são árabes, que já têm cidadania e direitos políticos garantidos pela lei israelense.
“É apenas uma crítica a Israel.” Entre quase 200 países, só ao Estado judeu se nega o direito de existir. Exigir sanções só contra Israel é duplo padrão.
“A resolução alemã confunde crítica ao governo com antissemitismo.” O próprio Bundestag respondeu: registrou manifestações ligadas ao BDS que colocam em dúvida o direito de Israel existir.

Lembrete importante: criticar decisões de um governo israelense é política legítima, e a própria IHRA garante isso. Querer isolar e desmontar um país inteiro é outra coisa.


O padrão duplo na ONU

Israel é membro da ONU desde 11 de maio de 1949 (Resolução 273). A maioria das resoluções sobre Israel vem da Assembleia Geral, que recomenda e não obriga. Nela, a Organização da Cooperação Islâmica, o Grupo Árabe e o Movimento dos Não-Alinhados formam uma maioria automática. Em 16 de dezembro de 2016, o então secretário-geral Ban Ki-moon admitiu um “volume desproporcional” de resoluções contra Israel. O BDS se apoia nesse mesmo padrão duplo.


Como o BDS atua no Brasil

No Brasil, o BDS atua sobretudo por meio de centrais sindicais, movimentos sociais e setores acadêmicos. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) adotaram plataformas formais de apoio ao boicote.

Data Episódio
Dez. 2014 O governo do Rio Grande do Sul cancela um contrato de cooperação aeroespacial com a israelense Elbit Systems, após pressão da CUT e de movimentos sociais.
Maio 2015 Na UFSM, um memorando interno pede a identificação de alunos e professores israelenses.
Jan. 2016 Uma carta aberta pelo boicote acadêmico a universidades israelenses reúne cerca de 200 assinaturas em três dias.
Fev. 2016 A Bahia encerra um acordo de cooperação técnica com a Mekorot, empresa estatal israelense de águas, após campanha de sindicatos e entidades ligadas ao BDS.
Jul. 2016 Um edital da Universidade Federal do ABC (UFABC) associa “sionismo” a “apartheid” e “nazismo”. O Ministério da Educação chama o caso de absurdo, e a reitoria pede desculpas.

O padrão: a pressão não mira uma política específica. Mira a cooperação com qualquer empresa por ser israelense, inclusive em áreas civis como a gestão de água.

O alcance do projeto: o MST exige o cancelamento do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e Israel, do qual o Brasil faz parte. A meta é cortar o comércio do Brasil e de seus vizinhos com o Estado judeu como um todo.

Proporção: essas iniciativas locais não equivalem a uma adesão ampla de instituições brasileiras ao BDS. Não há registro de lei federal brasileira que proíba boicotes a Israel ou criminalize o BDS. Eventuais limites vêm de regras gerais sobre contratação pública e discriminação.


Quem se opõe ao BDS

  • Alemanha (17 de maio de 2019): o Bundestag aprovou uma resolução multipartidária. O texto afirma que os “argumentos e métodos” do BDS são antissemitas e lembram o slogan nazista “Não compre de judeus”. A resolução recomendou não financiar organizações que questionem o direito de Israel existir, projetos que convoquem o boicote ou entidades que apoiem ativamente o BDS. É uma resolução política e orientadora, não uma lei penal, e não proibiu o BDS. Mesmo assim, teve efeitos concretos sobre o acesso a financiamento e a espaços públicos.
  • Áustria (2019): o Parlamento aprovou resolução semelhante sobre os métodos antissemitas do movimento.
  • Estados Unidos: mais de 30 estados aprovaram leis ou regulamentos que proíbem contratos públicos ou investimentos em empresas que participam do boicote a Israel. Algumas dessas normas foram contestadas na Justiça com base na liberdade de expressão.

Linha do tempo

Data Fato
14 mai. 1948 Proclamação do Estado de Israel
11 mai. 1949 Israel se torna membro da ONU (Resolução 273)
1975 A Assembleia Geral da ONU aprova a Resolução 3379, que chamou o sionismo de racismo, na esteira da campanha soviética contra o sionismo
Ago.–set. 2001 No Fórum de ONGs de Durban, é montada a estratégia de isolar Israel
2004 Natan Sharansky cria o teste dos 3Ds
9 jul. 2005 Lançamento do apelo do BDS
Dez. 2014 Cancelamento do contrato com a Elbit Systems no Rio Grande do Sul
Maio 2015 Memorando da UFSM pede a identificação de israelenses
Fev. 2016 Fim do acordo da Bahia com a Mekorot
26 mai. 2016 A IHRA adota a definição de trabalho de antissemitismo, em Bucareste
Jul. 2016 Caso do edital da UFABC
16 dez. 2016 Ban Ki-moon admite um “volume desproporcional” de resoluções contra Israel
17 mai. 2019 O Bundestag aprova a resolução contra o BDS
2019 O Parlamento austríaco aprova resolução semelhante

5 perguntas para discussão

  1. O BDS não pede “abolir Israel” de forma explícita. Como a exigência de retorno de todos os descendentes de refugiados leva, na prática, ao fim de Israel como Estado de maioria judaica?
  2. O caso do memorando da UFSM, em 2015, derruba a alegação de que o boicote é apenas “institucional”. Por que listar pessoas por sua nacionalidade israelense é discriminação contra indivíduos?
  3. Aplique os 3Ds de Sharansky a um slogan ou cartaz de boicote que você já viu. Que elementos indicam demonização, duplo padrão ou deslegitimação?
  4. Qual é a diferença entre criticar uma decisão de um governo israelense e defender o isolamento total do Estado judeu? Use a definição da IHRA para fundamentar sua resposta.
  5. O fim do acordo com a Mekorot envolvia gestão de água, uma área civil. O que esse caso revela sobre o verdadeiro alvo da campanha?

Glossário curto

  • BDS: Boicote, Desinvestimento e Sanções. Campanha global lançada em 2005 para isolar Israel.
  • BNC: Comitê Nacional do BDS, que coordena o movimento.
  • IHRA: Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Adotou em 26 de maio de 2016 a definição de trabalho de antissemitismo usada pela JJO.
  • 3Ds: teste de Natan Sharansky (2004) composto por demonização, duplo padrão e deslegitimação.
  • Deslegitimação: negar a legitimidade de Israel como Estado-nação do povo judeu.
  • Duplo padrão: exigir de Israel o que não se exige de nenhum outro país.
  • Resolução 194: resolução da Assembleia Geral da ONU que o BDS invoca para exigir o retorno de refugiados e descendentes.
  • Judeia e Samaria: região que Israel trata como território em disputa.
  • Acordo de Livre Comércio Mercosul–Israel: acordo do qual o Brasil faz parte e cujo cancelamento o MST exige.
  • Antissionismo: oposição ao sionismo, o movimento de autodeterminação nacional do povo judeu. Pela IHRA, negar só aos judeus esse direito é antissemitismo.

Quiz: teste o que aprendeu

1. O que significa a sigla BDS?

BDS é a sigla de Boycott, Divestment and Sanctions, ou Boicote, Desinvestimento e Sanções. É uma campanha internacional que busca isolar Israel econômica, cultural, acadêmica e politicamente.

2. Em que data o movimento BDS afirma ter sido lançado?

Em 9 de julho de 2005, um grupo de organizações palestinas publicou o apelo por boicotes, desinvestimento e sanções contra Israel. A coordenação ficou com o Comitê Nacional do BDS (BNC).

3. Onde foi montada a estratégia de isolar Israel que deu origem ao BDS?

A estratégia é anterior a 2005. Ela foi montada no Fórum de ONGs da conferência de Durban, entre agosto e setembro de 2001, quando grupos anti-Israel lançaram a proposta de isolar o país por completo.

4. Qual exigência do BDS acabaria com Israel como Estado de maioria judaica?

O retorno em massa de milhões de descendentes de refugiados acabaria com Israel como Estado de maioria judaica. Por isso, o objetivo real do BDS não é mudar uma política, e sim desmantelar o Estado judeu.

5. Quem criou o teste dos 3Ds (demonização, duplo padrão e deslegitimação), e em que ano?

Natan Sharansky, dissidente soviético, propôs o teste em 2004. O INSS e a ADL também usam esse critério para reconhecer quando a crítica a Israel vira antissemitismo.

6. O que afirmou a resolução do Parlamento alemão aprovada em 17 de maio de 2019?

A resolução multipartidária do Bundestag classificou os argumentos e métodos do BDS como antissemitas. Ela é política e orientadora, não lei penal, mas recomendou não financiar quem apoie ativamente o BDS.

7. Por que o caso da UFSM, em maio de 2015, desmente a alegação de que o boicote seria apenas “institucional”?

Pedir uma lista de pessoas por sua nacionalidade israelense atinge indivíduos, não políticas ou instituições. O boicote também atinge artistas, cientistas e atletas israelenses.

8. Qual empresa estatal israelense de águas teve o acordo de cooperação técnica com a Bahia encerrado em fevereiro de 2016?

O acordo com a Mekorot terminou após campanha de sindicatos e entidades ligadas ao BDS. O caso mostra que o alvo é a cooperação com qualquer empresa por ser israelense, inclusive em áreas civis como a gestão de água.

9. Qual acordo do qual o Brasil faz parte o MST exige cancelar como parte da campanha de boicote?

O MST exige o fim do Acordo de Livre Comércio Mercosul–Israel. A meta é cortar o comércio do Brasil e de seus vizinhos com o Estado judeu como um todo, não apenas evitar produtos de uma região.

10. Segundo a definição da IHRA, adotada pela JJO, o que é correto afirmar sobre a crítica a Israel?

A IHRA protege a crítica a Israel feita nos mesmos termos da crítica a outros países. O antissemitismo aparece no duplo padrão, na culpa coletiva dos judeus e na negação do direito do povo judeu à autodeterminação, que é o que o BDS faz.

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