
Antissemitismo hoje e a definição da IHRA
Podcast, apresentação, guia de estudo, quiz e cartões sobre antissemitismo hoje e a definição da IHRA, para professores, universitários e líderes religiosos.
Ouça: Podcast Contexto
Uma conversa de 11 minutos para ouvir no caminho, em sala ou antes do encontro do grupo.
Narração com vozes sintéticas, feita a partir das páginas deste site. Baixar o MP3 (11 min, 5,0 MB).
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Lia: Olá, aqui é a Lia, e este é o Contexto, o podcast da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Hoje vamos falar de antissemitismo hoje e da definição da IHRA, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto.
Davi: E eu sou o Davi. Lia, por que esse tema agora?
Lia: Porque muita gente que nos ouve dá aula, coordena grupos ou fala para uma comunidade. Essas pessoas precisam de um critério claro para separar a crítica política legítima do ódio contra judeus. Sem esse critério, ou se acusa todo mundo, ou não se reconhece nada.
Davi: Então vamos começar pelo começo: o que diz a definição da IHRA?
Lia: A definição de trabalho descreve o antissemitismo como "uma determinada percepção dos judeus, que pode se manifestar como ódio contra eles". A JJO adota essa definição. E ela traz exemplos concretos.
Davi: Quais exemplos, por exemplo?
Lia: Alegações de controle judaico da mídia, da economia ou do governo. Negar ou minimizar o Holocausto. Responsabilizar os judeus coletivamente pelas ações do Estado de Israel. Comparar a política israelense à dos nazistas. Aplicar a Israel um padrão duplo, exigindo dele um comportamento que não se exige de nenhum outro Estado. E negar ao povo judeu o direito à autodeterminação.
Davi: Ou seja, pela IHRA, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.
Lia: Exatamente. E aqui está o ponto que muita gente não conhece: a própria IHRA diz que criticar Israel como se critica qualquer outro país não é antissemitismo.
Davi: Isso é importante, porque há quem diga que a definição serve para calar qualquer crítica.
Lia: Ela não mira a crítica a uma política, a um governo ou a uma ação militar. Os próprios israelenses criticam o governo deles todos os dias. A definição mira outra coisa: a negação da legitimidade coletiva dos judeus, os estereótipos e os ataques a judeus por serem judeus.
Davi: E existe um teste prático para quem está numa sala de aula e precisa decidir na hora?
Lia: Existe. São os "3D" propostos por Natan Sharansky, o dissidente soviético: demonização, duplo padrão e delegitimação. O INSS, instituto israelense de estudos de segurança nacional, e a ADL também usam esse critério.
Davi: Dá um exemplo de cada um?
Lia: Demonização é retratar Israel como mal absoluto, com frases como "israelenses são os novos nazistas". Duplo padrão é fazer a Israel exigências que não se fazem a nenhum outro país. Delegitimação é dizer que Israel não tem direito de existir.
Davi: Tem um argumento que eu acho muito forte nessa discussão.
Lia: Qual?
Davi: Muita gente aceita a autodeterminação de palestinos, curdos ou armênios. Quem recusa esse direito só aos judeus está aplicando um padrão duplo.
Lia: Esse é o centro da questão. E vale um cuidado: o INSS lembra que nem todo antissionismo é antissemitismo. Há judeus antissionistas e há não judeus sionistas. A frase "antissionismo não é antissemitismo" vira problema quando é usada como escudo automático, sem olhar o que foi dito.
Davi: Então o que decide é o conteúdo da mensagem, e não o rótulo.
Lia: É isso. E um teste simples ajuda: troque "sionista" por "judeu". Se a frase vira preconceito clássico, como "os sionistas controlam a mídia", ela já era antissemita.
Davi: Vamos aos números. Muita gente pergunta se o antissemitismo realmente cresceu ou se é só impressão.
Lia: Cresceu, e há medição. Nos Estados Unidos, a ADL contou 9.354 incidentes antissemitas em 2024, o maior número em 46 anos de série. A Alemanha também bateu recorde em 2024, com 8.627 incidentes, segundo o RIAS.
Davi: E no mundo, logo depois de 7 de outubro de 2023?
Lia: Um relatório conjunto do governo de Israel, da Organização Sionista Mundial e da Agência Judaica comparou o período de 7 a 25 de outubro de 2023 com as mesmas semanas do ano anterior e registrou uma alta de 500%. A onda começou logo depois do ataque terrorista do Hamas, antes de qualquer resposta militar israelense em larga escala.
Davi: E o Brasil?
Lia: A Conib e a Fisesp registraram 1.788 denúncias em 2024, o maior número da série. É uma alta de 350% sobre 2022, ou cerca de cinco denúncias por dia. Dessas denúncias, 73% ocorreram no ambiente digital.
Davi: E em 2025?
Lia: Em 2025 o relatório validou 989 casos, 80,9% deles on-line. O número caiu em relação ao pico de 2024, mas o próprio relatório descreve uma estabilização em patamar elevado, bem acima de 2022.
Davi: Agora, sendo honesto com quem nos ouve: denúncia é a mesma coisa que crime comprovado?
Lia: Não, e é bom dizer isso com clareza. Um registro na Conib é uma denúncia recebida e classificada, não uma condenação judicial. A confirmação depende de investigação ou de decisão da Justiça. Também não sabemos ao certo quanto da alta é preconceito novo e quanto é maior disposição para denunciar. Ainda assim, os números mostram um problema concreto, e não uma invenção.
Davi: Vamos para o terceiro bloco: as várias faces do antissemitismo hoje. Começando por uma imagem que muita gente já viu.
Lia: A Estrela de Davi fundida à suástica. A estrela não é só a bandeira de Israel. Ela está em sinagogas, cemitérios e escolas judaicas do mundo todo. Os nazistas obrigaram os judeus a usá-la, amarela, para marcá-los para o extermínio. Igualá-la à suástica, emblema do regime que assassinou 6 milhões de judeus, é inversão do Holocausto: as vítimas aparecem como carrascos.
Davi: E essa imagem tem origem conhecida.
Lia: Tem. Ela foi difundida em massa pela propaganda estatal soviética depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, para atacar a existência de Israel. No Rio de Janeiro, em 2017, uma suástica foi pintada dentro de uma Estrela de Davi na entrada do Clube Israelita Brasileiro.
Davi: Isso nos leva ao antissemitismo que aparece em setores da esquerda.
Lia: É preciso cuidado aqui. Isso não quer dizer que a esquerda, como um todo, seja antissemita. O INSS afirma que o antissemitismo está presente em todo o espectro político. Em setores da esquerda, ele aparece quando "sionista" vira eufemismo para "judeu", quando um judeu brasileiro é cobrado pelo governo israelense ou quando alguém precisa condenar Israel para ser aceito num coletivo.
Davi: E tem aquela reação que o sociólogo David Hirsh chamou de "formulação Livingstone".
Lia: Sim. Diante de uma denúncia, a pessoa não examina o que disse. Ela responde que a denúncia é "manobra sionista". A própria acusação passa a ser tratada como prova de conspiração.
Davi: E a extrema direita?
Lia: O neonazismo coloca o ódio aos judeus no centro da sua ideologia. No Brasil, a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, mapeou 334 células neonazistas em 2019. E a lei é clara: em 17 de setembro de 2003, no caso Ellwanger, o STF decidiu por 8 votos a 3 que antissemitismo é crime de racismo, inafiançável e imprescritível.
Davi: Falta uma terceira face.
Lia: A dos grupos islamistas. A carta do Hamas, grupo terrorista, de 1988, cita os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação antissemita. E o atentado à AMIA, em Buenos Aires, em 18 de julho de 1994, atribuído ao Hezbollah em coordenação com o regime iraniano, matou 85 pessoas.
Davi: E aqui vale o mesmo cuidado de antes.
Lia: Vale. Esses grupos não representam os muçulmanos. Generalizar contra muçulmanos, árabes ou palestinos é o mesmo erro que combatemos quando o alvo são os judeus.
Davi: Último bloco: as objeções mais comuns. A primeira é "não posso ser antissemita, os árabes também são semitas".
Lia: É verdade que árabe e hebraico são línguas semíticas. Mas a palavra "antissemitismo" foi popularizada na Alemanha, em 1879, justamente para nomear o ódio aos judeus. Ela nunca significou ódio a árabes, que também existe e deve ser combatido com o nome que tem.
Davi: E a segunda: "acusar de antissemitismo é só tática para calar a crítica".
Lia: Houve exageros e usos abusivos da acusação, e reconhecer isso dá credibilidade. Mas casos de abuso não provam que o antissemitismo seja inventado. Por isso, quando apontamos um caso, precisamos sempre explicar o porquê e mostrar o critério.
Davi: E, na prática, o que fazer diante de um caso nas redes?
Lia: Guardar as provas, com captura de tela, link e data. Denunciar na plataforma e encaminhar à Conib e à Fisesp. Em caso de ameaça, procurar a polícia. E não compartilhar o post para criticá-lo, porque isso só aumenta o alcance.
Davi: Vamos às três ideias-chave?
Lia: Primeira: criticar o governo de Israel não é antissemitismo, mas negar o direito de Israel existir, aplicar padrões duplos, comparar israelenses a nazistas ou culpar judeus coletivamente é, pela definição da IHRA.
Davi: Segunda: o antissemitismo cresceu depois de 7 de outubro de 2023, no mundo e no Brasil, e aparece em todo o espectro político. O que decide é o conteúdo, não o rótulo nem a filiação de quem fala.
Lia: Terceira: o argumento mais forte é a precisão. Explicar o critério, reconhecer os limites dos dados e nunca generalizar contra nenhum povo ou religião.
Davi: Obrigado por nos acompanhar no Contexto.
Lia: Mais materiais em jjo.org.br. Até a próxima.
Apresentação pronta para usar
16 slides para projetar em sala ou no grupo. Baixe em PDF ou em PowerPoint para editar.
Guia de estudo
Guia de estudo da JJO (Juventude Judaica Organizada) para professores, universitários e líderes religiosos
Objetivos
Ao final do estudo, o participante deve ser capaz de:
- Explicar a definição de trabalho de antissemitismo da IHRA (International Holocaust Remembrance Alliance), adotada pela JJO, e seus principais exemplos.
- Distinguir a crítica legítima a um governo de Israel do antissemitismo. O critério é o conteúdo do que se diz, e não o rótulo.
- Reconhecer o antissemitismo em todo o espectro político: no neonazismo, em setores da esquerda, em grupos islamistas e nas redes sociais.
- Ler os dados com rigor. Denúncia não é condenação, e só se comparam números do mesmo tipo e da mesma fonte.
- Conhecer o marco legal brasileiro e os caminhos de denúncia.
Conceitos-chave
1. A definição de trabalho da IHRA
A IHRA descreve o antissemitismo como “uma determinada percepção dos judeus, que pode se manifestar como ódio contra eles”. Entre os exemplos ligados a Israel estão:
- negar ao povo judeu o direito à autodeterminação, ou seja, negar o direito de Israel existir;
- aplicar a Israel um padrão duplo, exigindo dele um comportamento que não se exige de outros Estados;
- usar símbolos e imagens clássicos do antissemitismo para caracterizar Israel ou os israelenses;
- responsabilizar coletivamente os judeus pelas ações do Estado de Israel;
- comparar a política israelense contemporânea à dos nazistas.
A definição também lista como antissemitismo as alegações de controle judaico da mídia, da economia e do governo. Lista ainda a negação ou a minimização do Holocausto.
Ponto essencial: pela própria IHRA, a crítica a Israel semelhante à feita a qualquer outro país não é antissemitismo. Os próprios israelenses criticam seu governo todos os dias.
2. Os “3D” de Natan Sharansky
O dissidente soviético propôs um teste que o INSS (Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel) e a ADL também usam:
- Demonização: retratar Israel como mal absoluto.
- Duplo padrão: fazer exigências que não se fazem a nenhum outro país.
- Delegitimação: negar só aos judeus a autodeterminação.
3. Antissionismo: quando cruza a linha
O sionismo é o movimento de autodeterminação nacional do povo judeu em sua própria terra, Israel. Nem todo antissionismo é antissemitismo, e o INSS rejeita essa generalização. Há judeus antissionistas e há não judeus sionistas.
A frase “antissionismo não é antissemitismo” se torna enganosa quando vira escudo automático para qualquer conteúdo. A linha é cruzada nestes casos:
- quando se nega só aos judeus a autodeterminação que se aceita para palestinos, curdos ou armênios;
- quando judeus brasileiros são cobrados pelo que faz o governo de Israel;
- quando se usam tropos de poder, como “os sionistas controlam a mídia”.
Teste prático: troque “sionista” por “judeu”. Se a frase vira preconceito clássico, ela já era antissemita.
Há também evidência de sobreposição. Kaplan e Small (2006, Journal of Conflict Resolution) encontraram correlação entre visões anti-Israel extremas e estereótipos antissemitas. Correlação não significa que todo crítico de Israel seja antissemita.
4. Inversão do Holocausto
Trata-se de apresentar as vítimas do genocídio como carrascos. Um exemplo é igualar a Estrela de Davi à suástica, emblema do regime que assassinou 6 milhões de judeus, um terço do povo judeu.
A Estrela de Davi (Magen David) não é só a bandeira de Israel. Ela está em sinagogas, cemitérios e escolas judaicas do mundo todo. Os nazistas obrigaram os judeus a usá-la, amarela, para marcá-los para o extermínio.
Um estudo do Jerusalem Center for Public Affairs (JCPA), de 2007, descreve a inversão como grave distorção da história, com elementos de negação do Holocausto. A imagem da estrela fundida à suástica foi difundida em massa pela propaganda soviética depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967.
5. Outros mecanismos
- “Formulação Livingstone” (termo do sociólogo David Hirsh): o acusado não examina o que disse e responde que a denúncia é “manobra sionista”. A própria acusação vira “prova” de conspiração.
- “Bons” e “maus” judeus: aceitar judeus só depois que renegam Israel. É um teste de lealdade que não se exige de nenhum outro grupo.
- Dupla lealdade: a suspeita de que judeus seriam mais leais a Israel do que ao próprio país.
6. Um fenômeno em todo o espectro político
O INSS afirma que o antissemitismo contemporâneo está presente “ao longo de todo o espectro político”.
- Neonazismo e extrema direita. O movimento une culto a Hitler, supremacismo racial e ódio aos judeus. A antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, mapeou 334 células no Brasil em 2019. Para 2022, as estimativas variam de 530 a 1.117 células. Os grupos usam códigos como 14, 88 e 1488. Polícias desarticularam células em Santa Catarina e São Paulo.
- Setores da esquerda. Aparecem três mecanismos: o binário “opressor x oprimido”, a troca de “judeu” por “sionista” e a justificação da violência como “resistência”. As raízes incluem a campanha soviética, que reciclou os Protocolos dos Sábios de Sião. Em 2020, a Comissão de Igualdade e Direitos Humanos (EHRC) do Reino Unido concluiu que o Partido Trabalhista discriminou membros judeus.
- Grupos islamistas.
- A carta de 1988 do Hamas, grupo terrorista, cita os Protocolos e um hadith sobre matar judeus. A carta nunca foi revogada.
- O regime iraniano promoveu a negação do Holocausto, como na conferência de Teerã em 2006.
- O atentado à AMIA, em 1994, é atribuído ao Hezbollah em coordenação com o regime iraniano.
- Esses grupos não representam os muçulmanos. Egito, Jordânia, Emirados, Bahrein e Marrocos, países de maioria muçulmana, fizeram paz com Israel.
7. Como ler os números
No mundo - Nas três primeiras semanas após o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, os incidentes subiram 500%. O dado é do governo de Israel, da Organização Sionista Mundial e da Agência Judaica. - Nos EUA, a ADL contou 9.354 incidentes em 2024, o maior número em 46 anos de série. Desde 2023, a ADL inclui algumas expressões antissionistas na contagem, o que críticos questionam. - Na Alemanha, o RIAS registrou 8.627 incidentes em 2024, um recorde.
No Brasil - A Conib e a Fisesp contaram 1.788 denúncias em 2024, o maior número da série, com 73% delas on-line. A Conib calcula, sobre a sua própria base, alta de 350% em relação a 2022. - Em 2025, o relatório contou 1.428 ocorrências. Delas, 989 foram validadas, e 80,9% ocorreram no ambiente digital. - Segundo a Universidade de Tel Aviv, os casos no Brasil passaram de 432 em 2022 para 1.774 em 2023.
Cuidados de leitura - Registro bruto, denúncia relevante e caso validado são medidas diferentes. Para 2022, por exemplo, as fontes citam 385, 397, 398 e 432, conforme o critério. Só compare números do mesmo tipo e da mesma fonte. - Não se sabe ao certo quanto da alta é aumento real de preconceito e quanto é maior visibilidade e disposição para denunciar. Os dados mostram pressão crescente sobre a comunidade judaica, mas sozinhos não separam essas duas coisas. - Denúncia não é prova nem condenação judicial. A confirmação depende de investigação ou de decisão judicial.
8. Marco legal no Brasil
- Lei nº 7.716/1989: pune a discriminação ou o preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Em sua redação vigente, pune também quem veicula símbolos ou propaganda com a cruz suástica “para fins de divulgação do nazismo”. A pena é de reclusão de dois a cinco anos e multa. O uso histórico, jornalístico, artístico ou educacional não se enquadra.
- Caso Ellwanger (HC 82.424/RS): em 17 de setembro de 2003, o STF decidiu, por 8 votos a 3, três pontos:
- antissemitismo é crime de racismo, inafiançável e imprescritível;
- “raça” é conceito social e histórico, não biológico;
- a liberdade de expressão não protege o discurso de ódio.
9. O que fazer diante do antissemitismo
- Guarde as provas: captura de tela, link, data e horário.
- Denuncie na própria plataforma.
- Encaminhe o caso à Conib e ao Departamento de Segurança Comunitária da Fisesp, ou à SaferNet.
- Em caso de ameaça, registre ocorrência na Polícia Civil.
- Não amplifique o conteúdo, não ameace e não ofenda. Responda com fatos e explique sempre por que algo é antissemita.
A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião. Também não se nega nem se minimiza o sofrimento de civis palestinos.
Linha do tempo
| Ano | Fato |
|---|---|
| 1879 | O termo “antissemitismo” é popularizado na Alemanha para dar ar científico ao ódio aos judeus |
| 1903 | Lenin qualifica o sionismo como “inimigo do socialismo” |
| 1918 | É criada a Yevsektsiya, usada para desmantelar a vida judaica na Rússia soviética |
| 1963 | Trofim Kichko publica Judaísmo Sem Disfarces |
| 1967 | Depois da Guerra dos Seis Dias, a propaganda soviética difunde a equação “sionismo = nazismo” |
| 1975 | A Assembleia Geral da ONU aprova a Resolução 3379 |
| 1979 | Revolução Islâmica no Irã; o antissemitismo vira política de Estado |
| 1985 | A “Carta Aberta” do Hezbollah declara a meta de obliterar Israel |
| 1988 | Carta fundacional do Hamas (18 de agosto) |
| 1989 | Lei nº 7.716 |
| 1994 | Atentado à AMIA, em Buenos Aires (18 de julho): 85 mortos |
| 2001 | Conferência paralela de ONGs em Durban |
| 2003 | O STF julga o caso Ellwanger: antissemitismo é racismo |
| 2006 | Conferência negacionista em Teerã |
| 2017 | Suástica pintada dentro de uma Estrela de Davi no Clube Israelita Brasileiro, no Rio; documento do Hamas em Doha |
| 2020 | A EHRC conclui que o Partido Trabalhista britânico discriminou membros judeus |
| 2022 | Prisões de integrantes da “Nova SS de SC” |
| 7 out. 2023 | Ataque terrorista do Hamas; o antissemitismo dispara no mundo |
| 2024 | Recordes nos EUA (9.354) e na Alemanha (8.627); no Brasil, 1.788 denúncias segundo a Conib |
| 2025 | Conib: 989 casos validados, 80,9% on-line |
Cinco perguntas para discussão
- Que critérios permitem separar a crítica a uma decisão do governo de Israel da negação do direito de Israel existir? Dê um exemplo de cada.
- Por que igualar a Estrela de Davi à suástica atinge judeus do mundo inteiro, e não apenas um governo?
- Como a troca de “judeu” por “sionista” permite que estereótipos antigos circulem com aparência de discurso político? Como aplicar o teste da troca de palavras com cuidado e sem generalizar?
- Por que é importante reconhecer que o antissemitismo aparece em todo o espectro político, sem confundir grupos extremistas com povos ou religiões inteiras?
- Que cuidados devemos ter ao citar números de antissemitismo, como diferença entre medidas, visibilidade e denúncia sem condenação, para que o argumento ganhe credibilidade?
Glossário
- Antissemitismo: hostilidade, preconceito, discriminação ou violência contra judeus enquanto judeus.
- IHRA: International Holocaust Remembrance Alliance, autora da definição de trabalho adotada pela JJO.
- Sionismo: movimento de autodeterminação nacional do povo judeu em sua própria terra, Israel.
- Antissionismo: oposição ao sionismo. Pela IHRA, é antissemitismo quando nega ao povo judeu a autodeterminação.
- 3D: demonização, duplo padrão e delegitimação.
- Inversão do Holocausto: apresentar judeus ou israelenses como nazistas, transformando vítimas em carrascos.
- Formulação Livingstone: tratar toda denúncia de antissemitismo como “manobra sionista”.
- Protocolos dos Sábios de Sião: falsificação antissemita produzida no Império Russo no início do século XX.
- Libelo de sangue: acusação medieval de que judeus usariam sangue em rituais.
- (((nome))): código neonazista para marcar pessoas como judias.
- 88 / 1488: códigos neonazistas. 88 equivale a “HH”, alusão a “Heil Hitler”.
- Magen David: “Escudo de Davi”, a Estrela de Davi.
Quiz: teste o que aprendeu
A IHRA lista a comparação entre a política israelense contemporânea e a dos nazistas entre seus exemplos de antissemitismo. Criticar decisões de governo, como se faz com qualquer país, não é antissemitismo.
Os 3D são demonização, duplo padrão e delegitimação. O INSS e a ADL também usam esse critério para identificar quando a crítica a Israel vira antissemitismo.
Charges e cartilhas soviéticas desenharam a Estrela de Davi em estilo nazista depois de 1967. O objetivo era deslegitimar a existência de Israel sob o rótulo de antissionismo.
Árabe e hebraico são línguas semíticas, mas o termo antissemitismo foi popularizado em 1879 justamente para nomear a hostilidade contra os judeus. Ele nunca significou ódio a árabes. O preconceito contra árabes também deve ser combatido, com o nome que tem.
Por 8 votos a 3, o STF negou o habeas corpus. O tribunal fixou que raça é conceito social e histórico, que o antissemitismo é crime de racismo e que a liberdade de expressão não protege o discurso de ódio.
Na formulação Livingstone, a própria acusação passa a ser tratada como prova de conspiração. Isso impede discutir o conteúdo do caso.
Os números da Conib são o melhor termômetro disponível, mas medem denúncias recebidas e classificadas. Registro bruto, denúncia relevante e caso validado são medidas diferentes. Também não se sabe ao certo quanto da alta é aumento real e quanto é maior visibilidade.
O documento de 2017 trocou a palavra judeus por projeto sionista. Mas manteve a recusa a reconhecer Israel, a meta do rio ao mar e a resistência armada. Líderes do grupo terrorista seguiram com libelos e incitação.
Se a frase, com a troca, vira preconceito clássico, como os sionistas controlam a mídia, ela já era antissemita. O critério é o conteúdo, não a filiação política de quem fala.
Um caminhão-bomba destruiu o prédio da Associação Mutual Israelita Argentina. É o atentado antissemita mais mortal contra civis fora de Israel desde o Holocausto. Esses grupos não representam os muçulmanos em geral.
Cartões de estudo
Clique no cartão para virar.
Assista
Corte de conversa em que o convidado analisa a aproximação entre setores da esquerda global e o islamismo radical, a retórica do regime iraniano de destruir Israel como forma de antissemitismo e a rapidez com que, logo após o 7 de outubro, a narrativa de acusação contra Israel substituiu a condenação aos crimes dos terroristas do Hamas.
Adolescentes e adultosA antropóloga Anelise Fróes, coordenadora do projeto de enfrentamento ao antissemitismo da CONIB, conta sua trajetória e apresenta o atlas ilustrado 'Decodificando o Antissemitismo', adaptado ao contexto brasileiro. Ela explica o que são tropos antissemitas, como o deicídio e o bode expiatório, e fala da explosão de ódio contra judeus depois de 7 de outubro de 2023.
Adolescentes e adultosClaudio Lottenberg, presidente da Conib, explica no programa Mosaico o primeiro Relatório de Antissemitismo no Brasil, feito com a Fisesp e o Departamento de Segurança Comunitária: para que serve documentar o antissemitismo, o crescimento de células neonazistas e o uso dos dados junto às autoridades e à Justiça.
AdultosTambém em inglês: mais 3 vídeos sobre o tema
Em inglês, sem legendas em português feitas pelo canal (o YouTube oferece tradução automática).
Em inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Vídeo do Yad Vashem que explica a história do antissionismo, das objeções judaicas anteriores a 1948 à sua forma contemporânea, e mostra como a negação do direito de Israel existir e as comparações com o nazismo ultrapassam a crítica legítima e se tornam antissemitismo, na extrema esquerda e na extrema direita.
Adolescentes e adultosEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Pelo diário de Daniel, um menino judeu alemão, o Museu Memorial do Holocausto dos EUA narra a escalada da perseguição nazista: as leis antijudaicas, a Noite dos Cristais, o gueto, a deportação e os campos. Termina lembrando as mais de 1,5 milhão de crianças assassinadas e o antissemitismo que persiste até hoje.
CriançasEm inglês. Para ver em português: no player, toque em ⚙️ › Legendas › Traduzir automaticamente › Português.
Vídeo curto do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos que define o antissemitismo e mostra suas formas, do Holocausto aos memes, estereótipos 'elogiosos' e à negação do direito de Israel existir, alertando que o ódio começa com palavras e não deve ser ignorado.
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