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Thomas Schirrmacher e Goodwill Shana no Yad Vashem, 2022
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Estúdio JJO · podcast e aula pronta

Antissemitismo hoje e a definição da IHRA

Podcast, apresentação, guia de estudo, quiz e cartões sobre antissemitismo hoje e a definição da IHRA, para professores, universitários e líderes religiosos.

Para: professores, universitários e líderes religiososPodcast: 11 minSlides: 16
Foto: Thomas Schirrmacher e Goodwill Shana no Yad Vashem, 2022. Religionssoziologe · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Ouça: Podcast Contexto

Uma conversa de 11 minutos para ouvir no caminho, em sala ou antes do encontro do grupo.

Narração com vozes sintéticas, feita a partir das páginas deste site. Baixar o MP3 (11 min, 5,0 MB).

Ler a transcrição completa

Lia: Olá, aqui é a Lia, e este é o Contexto, o podcast da Juventude Judaica Organizada, a JJO. Hoje vamos falar de antissemitismo hoje e da definição da IHRA, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto.

Davi: E eu sou o Davi. Lia, por que esse tema agora?

Lia: Porque muita gente que nos ouve dá aula, coordena grupos ou fala para uma comunidade. Essas pessoas precisam de um critério claro para separar a crítica política legítima do ódio contra judeus. Sem esse critério, ou se acusa todo mundo, ou não se reconhece nada.

Davi: Então vamos começar pelo começo: o que diz a definição da IHRA?

Lia: A definição de trabalho descreve o antissemitismo como "uma determinada percepção dos judeus, que pode se manifestar como ódio contra eles". A JJO adota essa definição. E ela traz exemplos concretos.

Davi: Quais exemplos, por exemplo?

Lia: Alegações de controle judaico da mídia, da economia ou do governo. Negar ou minimizar o Holocausto. Responsabilizar os judeus coletivamente pelas ações do Estado de Israel. Comparar a política israelense à dos nazistas. Aplicar a Israel um padrão duplo, exigindo dele um comportamento que não se exige de nenhum outro Estado. E negar ao povo judeu o direito à autodeterminação.

Davi: Ou seja, pela IHRA, negar o direito de Israel existir é antissemitismo.

Lia: Exatamente. E aqui está o ponto que muita gente não conhece: a própria IHRA diz que criticar Israel como se critica qualquer outro país não é antissemitismo.

Davi: Isso é importante, porque há quem diga que a definição serve para calar qualquer crítica.

Lia: Ela não mira a crítica a uma política, a um governo ou a uma ação militar. Os próprios israelenses criticam o governo deles todos os dias. A definição mira outra coisa: a negação da legitimidade coletiva dos judeus, os estereótipos e os ataques a judeus por serem judeus.

Davi: E existe um teste prático para quem está numa sala de aula e precisa decidir na hora?

Lia: Existe. São os "3D" propostos por Natan Sharansky, o dissidente soviético: demonização, duplo padrão e delegitimação. O INSS, instituto israelense de estudos de segurança nacional, e a ADL também usam esse critério.

Davi: Dá um exemplo de cada um?

Lia: Demonização é retratar Israel como mal absoluto, com frases como "israelenses são os novos nazistas". Duplo padrão é fazer a Israel exigências que não se fazem a nenhum outro país. Delegitimação é dizer que Israel não tem direito de existir.

Davi: Tem um argumento que eu acho muito forte nessa discussão.

Lia: Qual?

Davi: Muita gente aceita a autodeterminação de palestinos, curdos ou armênios. Quem recusa esse direito só aos judeus está aplicando um padrão duplo.

Lia: Esse é o centro da questão. E vale um cuidado: o INSS lembra que nem todo antissionismo é antissemitismo. Há judeus antissionistas e há não judeus sionistas. A frase "antissionismo não é antissemitismo" vira problema quando é usada como escudo automático, sem olhar o que foi dito.

Davi: Então o que decide é o conteúdo da mensagem, e não o rótulo.

Lia: É isso. E um teste simples ajuda: troque "sionista" por "judeu". Se a frase vira preconceito clássico, como "os sionistas controlam a mídia", ela já era antissemita.

Davi: Vamos aos números. Muita gente pergunta se o antissemitismo realmente cresceu ou se é só impressão.

Lia: Cresceu, e há medição. Nos Estados Unidos, a ADL contou 9.354 incidentes antissemitas em 2024, o maior número em 46 anos de série. A Alemanha também bateu recorde em 2024, com 8.627 incidentes, segundo o RIAS.

Davi: E no mundo, logo depois de 7 de outubro de 2023?

Lia: Um relatório conjunto do governo de Israel, da Organização Sionista Mundial e da Agência Judaica comparou o período de 7 a 25 de outubro de 2023 com as mesmas semanas do ano anterior e registrou uma alta de 500%. A onda começou logo depois do ataque terrorista do Hamas, antes de qualquer resposta militar israelense em larga escala.

Davi: E o Brasil?

Lia: A Conib e a Fisesp registraram 1.788 denúncias em 2024, o maior número da série. É uma alta de 350% sobre 2022, ou cerca de cinco denúncias por dia. Dessas denúncias, 73% ocorreram no ambiente digital.

Davi: E em 2025?

Lia: Em 2025 o relatório validou 989 casos, 80,9% deles on-line. O número caiu em relação ao pico de 2024, mas o próprio relatório descreve uma estabilização em patamar elevado, bem acima de 2022.

Davi: Agora, sendo honesto com quem nos ouve: denúncia é a mesma coisa que crime comprovado?

Lia: Não, e é bom dizer isso com clareza. Um registro na Conib é uma denúncia recebida e classificada, não uma condenação judicial. A confirmação depende de investigação ou de decisão da Justiça. Também não sabemos ao certo quanto da alta é preconceito novo e quanto é maior disposição para denunciar. Ainda assim, os números mostram um problema concreto, e não uma invenção.

Davi: Vamos para o terceiro bloco: as várias faces do antissemitismo hoje. Começando por uma imagem que muita gente já viu.

Lia: A Estrela de Davi fundida à suástica. A estrela não é só a bandeira de Israel. Ela está em sinagogas, cemitérios e escolas judaicas do mundo todo. Os nazistas obrigaram os judeus a usá-la, amarela, para marcá-los para o extermínio. Igualá-la à suástica, emblema do regime que assassinou 6 milhões de judeus, é inversão do Holocausto: as vítimas aparecem como carrascos.

Davi: E essa imagem tem origem conhecida.

Lia: Tem. Ela foi difundida em massa pela propaganda estatal soviética depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, para atacar a existência de Israel. No Rio de Janeiro, em 2017, uma suástica foi pintada dentro de uma Estrela de Davi na entrada do Clube Israelita Brasileiro.

Davi: Isso nos leva ao antissemitismo que aparece em setores da esquerda.

Lia: É preciso cuidado aqui. Isso não quer dizer que a esquerda, como um todo, seja antissemita. O INSS afirma que o antissemitismo está presente em todo o espectro político. Em setores da esquerda, ele aparece quando "sionista" vira eufemismo para "judeu", quando um judeu brasileiro é cobrado pelo governo israelense ou quando alguém precisa condenar Israel para ser aceito num coletivo.

Davi: E tem aquela reação que o sociólogo David Hirsh chamou de "formulação Livingstone".

Lia: Sim. Diante de uma denúncia, a pessoa não examina o que disse. Ela responde que a denúncia é "manobra sionista". A própria acusação passa a ser tratada como prova de conspiração.

Davi: E a extrema direita?

Lia: O neonazismo coloca o ódio aos judeus no centro da sua ideologia. No Brasil, a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, mapeou 334 células neonazistas em 2019. E a lei é clara: em 17 de setembro de 2003, no caso Ellwanger, o STF decidiu por 8 votos a 3 que antissemitismo é crime de racismo, inafiançável e imprescritível.

Davi: Falta uma terceira face.

Lia: A dos grupos islamistas. A carta do Hamas, grupo terrorista, de 1988, cita os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação antissemita. E o atentado à AMIA, em Buenos Aires, em 18 de julho de 1994, atribuído ao Hezbollah em coordenação com o regime iraniano, matou 85 pessoas.

Davi: E aqui vale o mesmo cuidado de antes.

Lia: Vale. Esses grupos não representam os muçulmanos. Generalizar contra muçulmanos, árabes ou palestinos é o mesmo erro que combatemos quando o alvo são os judeus.

Davi: Último bloco: as objeções mais comuns. A primeira é "não posso ser antissemita, os árabes também são semitas".

Lia: É verdade que árabe e hebraico são línguas semíticas. Mas a palavra "antissemitismo" foi popularizada na Alemanha, em 1879, justamente para nomear o ódio aos judeus. Ela nunca significou ódio a árabes, que também existe e deve ser combatido com o nome que tem.

Davi: E a segunda: "acusar de antissemitismo é só tática para calar a crítica".

Lia: Houve exageros e usos abusivos da acusação, e reconhecer isso dá credibilidade. Mas casos de abuso não provam que o antissemitismo seja inventado. Por isso, quando apontamos um caso, precisamos sempre explicar o porquê e mostrar o critério.

Davi: E, na prática, o que fazer diante de um caso nas redes?

Lia: Guardar as provas, com captura de tela, link e data. Denunciar na plataforma e encaminhar à Conib e à Fisesp. Em caso de ameaça, procurar a polícia. E não compartilhar o post para criticá-lo, porque isso só aumenta o alcance.

Davi: Vamos às três ideias-chave?

Lia: Primeira: criticar o governo de Israel não é antissemitismo, mas negar o direito de Israel existir, aplicar padrões duplos, comparar israelenses a nazistas ou culpar judeus coletivamente é, pela definição da IHRA.

Davi: Segunda: o antissemitismo cresceu depois de 7 de outubro de 2023, no mundo e no Brasil, e aparece em todo o espectro político. O que decide é o conteúdo, não o rótulo nem a filiação de quem fala.

Lia: Terceira: o argumento mais forte é a precisão. Explicar o critério, reconhecer os limites dos dados e nunca generalizar contra nenhum povo ou religião.

Davi: Obrigado por nos acompanhar no Contexto.

Lia: Mais materiais em jjo.org.br. Até a próxima.

Apresentação pronta para usar

16 slides para projetar em sala ou no grupo. Baixe em PDF ou em PowerPoint para editar.

Slide 1 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 2 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 3 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 4 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 5 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 6 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 7 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 8 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 9 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 10 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 11 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 12 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 13 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 14 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 15 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRASlide 16 de 16: Antissemitismo hoje e a definição da IHRA

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Guia de estudo

Guia de estudo da JJO (Juventude Judaica Organizada) para professores, universitários e líderes religiosos

Objetivos

Ao final do estudo, o participante deve ser capaz de:

  1. Explicar a definição de trabalho de antissemitismo da IHRA (International Holocaust Remembrance Alliance), adotada pela JJO, e seus principais exemplos.
  2. Distinguir a crítica legítima a um governo de Israel do antissemitismo. O critério é o conteúdo do que se diz, e não o rótulo.
  3. Reconhecer o antissemitismo em todo o espectro político: no neonazismo, em setores da esquerda, em grupos islamistas e nas redes sociais.
  4. Ler os dados com rigor. Denúncia não é condenação, e só se comparam números do mesmo tipo e da mesma fonte.
  5. Conhecer o marco legal brasileiro e os caminhos de denúncia.

Conceitos-chave

1. A definição de trabalho da IHRA

A IHRA descreve o antissemitismo como “uma determinada percepção dos judeus, que pode se manifestar como ódio contra eles”. Entre os exemplos ligados a Israel estão:

  • negar ao povo judeu o direito à autodeterminação, ou seja, negar o direito de Israel existir;
  • aplicar a Israel um padrão duplo, exigindo dele um comportamento que não se exige de outros Estados;
  • usar símbolos e imagens clássicos do antissemitismo para caracterizar Israel ou os israelenses;
  • responsabilizar coletivamente os judeus pelas ações do Estado de Israel;
  • comparar a política israelense contemporânea à dos nazistas.

A definição também lista como antissemitismo as alegações de controle judaico da mídia, da economia e do governo. Lista ainda a negação ou a minimização do Holocausto.

Ponto essencial: pela própria IHRA, a crítica a Israel semelhante à feita a qualquer outro país não é antissemitismo. Os próprios israelenses criticam seu governo todos os dias.

2. Os “3D” de Natan Sharansky

O dissidente soviético propôs um teste que o INSS (Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel) e a ADL também usam:

  • Demonização: retratar Israel como mal absoluto.
  • Duplo padrão: fazer exigências que não se fazem a nenhum outro país.
  • Delegitimação: negar só aos judeus a autodeterminação.

3. Antissionismo: quando cruza a linha

O sionismo é o movimento de autodeterminação nacional do povo judeu em sua própria terra, Israel. Nem todo antissionismo é antissemitismo, e o INSS rejeita essa generalização. Há judeus antissionistas e há não judeus sionistas.

A frase “antissionismo não é antissemitismo” se torna enganosa quando vira escudo automático para qualquer conteúdo. A linha é cruzada nestes casos:

  • quando se nega só aos judeus a autodeterminação que se aceita para palestinos, curdos ou armênios;
  • quando judeus brasileiros são cobrados pelo que faz o governo de Israel;
  • quando se usam tropos de poder, como “os sionistas controlam a mídia”.

Teste prático: troque “sionista” por “judeu”. Se a frase vira preconceito clássico, ela já era antissemita.

Há também evidência de sobreposição. Kaplan e Small (2006, Journal of Conflict Resolution) encontraram correlação entre visões anti-Israel extremas e estereótipos antissemitas. Correlação não significa que todo crítico de Israel seja antissemita.

4. Inversão do Holocausto

Trata-se de apresentar as vítimas do genocídio como carrascos. Um exemplo é igualar a Estrela de Davi à suástica, emblema do regime que assassinou 6 milhões de judeus, um terço do povo judeu.

A Estrela de Davi (Magen David) não é só a bandeira de Israel. Ela está em sinagogas, cemitérios e escolas judaicas do mundo todo. Os nazistas obrigaram os judeus a usá-la, amarela, para marcá-los para o extermínio.

Um estudo do Jerusalem Center for Public Affairs (JCPA), de 2007, descreve a inversão como grave distorção da história, com elementos de negação do Holocausto. A imagem da estrela fundida à suástica foi difundida em massa pela propaganda soviética depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967.

5. Outros mecanismos

  • “Formulação Livingstone” (termo do sociólogo David Hirsh): o acusado não examina o que disse e responde que a denúncia é “manobra sionista”. A própria acusação vira “prova” de conspiração.
  • “Bons” e “maus” judeus: aceitar judeus só depois que renegam Israel. É um teste de lealdade que não se exige de nenhum outro grupo.
  • Dupla lealdade: a suspeita de que judeus seriam mais leais a Israel do que ao próprio país.

6. Um fenômeno em todo o espectro político

O INSS afirma que o antissemitismo contemporâneo está presente “ao longo de todo o espectro político”.

  • Neonazismo e extrema direita. O movimento une culto a Hitler, supremacismo racial e ódio aos judeus. A antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, mapeou 334 células no Brasil em 2019. Para 2022, as estimativas variam de 530 a 1.117 células. Os grupos usam códigos como 14, 88 e 1488. Polícias desarticularam células em Santa Catarina e São Paulo.
  • Setores da esquerda. Aparecem três mecanismos: o binário “opressor x oprimido”, a troca de “judeu” por “sionista” e a justificação da violência como “resistência”. As raízes incluem a campanha soviética, que reciclou os Protocolos dos Sábios de Sião. Em 2020, a Comissão de Igualdade e Direitos Humanos (EHRC) do Reino Unido concluiu que o Partido Trabalhista discriminou membros judeus.
  • Grupos islamistas.
  • A carta de 1988 do Hamas, grupo terrorista, cita os Protocolos e um hadith sobre matar judeus. A carta nunca foi revogada.
  • O regime iraniano promoveu a negação do Holocausto, como na conferência de Teerã em 2006.
  • O atentado à AMIA, em 1994, é atribuído ao Hezbollah em coordenação com o regime iraniano.
  • Esses grupos não representam os muçulmanos. Egito, Jordânia, Emirados, Bahrein e Marrocos, países de maioria muçulmana, fizeram paz com Israel.

7. Como ler os números

No mundo - Nas três primeiras semanas após o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, os incidentes subiram 500%. O dado é do governo de Israel, da Organização Sionista Mundial e da Agência Judaica. - Nos EUA, a ADL contou 9.354 incidentes em 2024, o maior número em 46 anos de série. Desde 2023, a ADL inclui algumas expressões antissionistas na contagem, o que críticos questionam. - Na Alemanha, o RIAS registrou 8.627 incidentes em 2024, um recorde.

No Brasil - A Conib e a Fisesp contaram 1.788 denúncias em 2024, o maior número da série, com 73% delas on-line. A Conib calcula, sobre a sua própria base, alta de 350% em relação a 2022. - Em 2025, o relatório contou 1.428 ocorrências. Delas, 989 foram validadas, e 80,9% ocorreram no ambiente digital. - Segundo a Universidade de Tel Aviv, os casos no Brasil passaram de 432 em 2022 para 1.774 em 2023.

Cuidados de leitura - Registro bruto, denúncia relevante e caso validado são medidas diferentes. Para 2022, por exemplo, as fontes citam 385, 397, 398 e 432, conforme o critério. Só compare números do mesmo tipo e da mesma fonte. - Não se sabe ao certo quanto da alta é aumento real de preconceito e quanto é maior visibilidade e disposição para denunciar. Os dados mostram pressão crescente sobre a comunidade judaica, mas sozinhos não separam essas duas coisas. - Denúncia não é prova nem condenação judicial. A confirmação depende de investigação ou de decisão judicial.

8. Marco legal no Brasil

  • Lei nº 7.716/1989: pune a discriminação ou o preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Em sua redação vigente, pune também quem veicula símbolos ou propaganda com a cruz suástica “para fins de divulgação do nazismo”. A pena é de reclusão de dois a cinco anos e multa. O uso histórico, jornalístico, artístico ou educacional não se enquadra.
  • Caso Ellwanger (HC 82.424/RS): em 17 de setembro de 2003, o STF decidiu, por 8 votos a 3, três pontos:
  • antissemitismo é crime de racismo, inafiançável e imprescritível;
  • “raça” é conceito social e histórico, não biológico;
  • a liberdade de expressão não protege o discurso de ódio.

9. O que fazer diante do antissemitismo

  1. Guarde as provas: captura de tela, link, data e horário.
  2. Denuncie na própria plataforma.
  3. Encaminhe o caso à Conib e ao Departamento de Segurança Comunitária da Fisesp, ou à SaferNet.
  4. Em caso de ameaça, registre ocorrência na Polícia Civil.
  5. Não amplifique o conteúdo, não ameace e não ofenda. Responda com fatos e explique sempre por que algo é antissemita.

A JJO combate o antissemitismo sem ódio a nenhum povo ou religião. Também não se nega nem se minimiza o sofrimento de civis palestinos.

Linha do tempo

Ano Fato
1879 O termo “antissemitismo” é popularizado na Alemanha para dar ar científico ao ódio aos judeus
1903 Lenin qualifica o sionismo como “inimigo do socialismo”
1918 É criada a Yevsektsiya, usada para desmantelar a vida judaica na Rússia soviética
1963 Trofim Kichko publica Judaísmo Sem Disfarces
1967 Depois da Guerra dos Seis Dias, a propaganda soviética difunde a equação “sionismo = nazismo”
1975 A Assembleia Geral da ONU aprova a Resolução 3379
1979 Revolução Islâmica no Irã; o antissemitismo vira política de Estado
1985 A “Carta Aberta” do Hezbollah declara a meta de obliterar Israel
1988 Carta fundacional do Hamas (18 de agosto)
1989 Lei nº 7.716
1994 Atentado à AMIA, em Buenos Aires (18 de julho): 85 mortos
2001 Conferência paralela de ONGs em Durban
2003 O STF julga o caso Ellwanger: antissemitismo é racismo
2006 Conferência negacionista em Teerã
2017 Suástica pintada dentro de uma Estrela de Davi no Clube Israelita Brasileiro, no Rio; documento do Hamas em Doha
2020 A EHRC conclui que o Partido Trabalhista britânico discriminou membros judeus
2022 Prisões de integrantes da “Nova SS de SC”
7 out. 2023 Ataque terrorista do Hamas; o antissemitismo dispara no mundo
2024 Recordes nos EUA (9.354) e na Alemanha (8.627); no Brasil, 1.788 denúncias segundo a Conib
2025 Conib: 989 casos validados, 80,9% on-line

Cinco perguntas para discussão

  1. Que critérios permitem separar a crítica a uma decisão do governo de Israel da negação do direito de Israel existir? Dê um exemplo de cada.
  2. Por que igualar a Estrela de Davi à suástica atinge judeus do mundo inteiro, e não apenas um governo?
  3. Como a troca de “judeu” por “sionista” permite que estereótipos antigos circulem com aparência de discurso político? Como aplicar o teste da troca de palavras com cuidado e sem generalizar?
  4. Por que é importante reconhecer que o antissemitismo aparece em todo o espectro político, sem confundir grupos extremistas com povos ou religiões inteiras?
  5. Que cuidados devemos ter ao citar números de antissemitismo, como diferença entre medidas, visibilidade e denúncia sem condenação, para que o argumento ganhe credibilidade?

Glossário

  • Antissemitismo: hostilidade, preconceito, discriminação ou violência contra judeus enquanto judeus.
  • IHRA: International Holocaust Remembrance Alliance, autora da definição de trabalho adotada pela JJO.
  • Sionismo: movimento de autodeterminação nacional do povo judeu em sua própria terra, Israel.
  • Antissionismo: oposição ao sionismo. Pela IHRA, é antissemitismo quando nega ao povo judeu a autodeterminação.
  • 3D: demonização, duplo padrão e delegitimação.
  • Inversão do Holocausto: apresentar judeus ou israelenses como nazistas, transformando vítimas em carrascos.
  • Formulação Livingstone: tratar toda denúncia de antissemitismo como “manobra sionista”.
  • Protocolos dos Sábios de Sião: falsificação antissemita produzida no Império Russo no início do século XX.
  • Libelo de sangue: acusação medieval de que judeus usariam sangue em rituais.
  • (((nome))): código neonazista para marcar pessoas como judias.
  • 88 / 1488: códigos neonazistas. 88 equivale a “HH”, alusão a “Heil Hitler”.
  • Magen David: “Escudo de Davi”, a Estrela de Davi.

Quiz: teste o que aprendeu

1. Qual destas situações é citada pela definição de trabalho da IHRA como exemplo de antissemitismo?

A IHRA lista a comparação entre a política israelense contemporânea e a dos nazistas entre seus exemplos de antissemitismo. Criticar decisões de governo, como se faz com qualquer país, não é antissemitismo.

2. Quais são os 3D do teste proposto por Natan Sharansky?

Os 3D são demonização, duplo padrão e delegitimação. O INSS e a ADL também usam esse critério para identificar quando a crítica a Israel vira antissemitismo.

3. De onde vem a difusão em massa da imagem da Estrela de Davi fundida à suástica?

Charges e cartilhas soviéticas desenharam a Estrela de Davi em estilo nazista depois de 1967. O objetivo era deslegitimar a existência de Israel sob o rótulo de antissionismo.

4. Sobre o argumento de que os árabes também são semitas, qual afirmação é correta?

Árabe e hebraico são línguas semíticas, mas o termo antissemitismo foi popularizado em 1879 justamente para nomear a hostilidade contra os judeus. Ele nunca significou ódio a árabes. O preconceito contra árabes também deve ser combatido, com o nome que tem.

5. O que o STF decidiu no caso Ellwanger, em 17 de setembro de 2003?

Por 8 votos a 3, o STF negou o habeas corpus. O tribunal fixou que raça é conceito social e histórico, que o antissemitismo é crime de racismo e que a liberdade de expressão não protege o discurso de ódio.

6. O que é a formulação Livingstone, descrita pelo sociólogo David Hirsh?

Na formulação Livingstone, a própria acusação passa a ser tratada como prova de conspiração. Isso impede discutir o conteúdo do caso.

7. A Conib e a Fisesp contaram 1.788 denúncias de antissemitismo em 2024. Qual é a leitura correta desse número?

Os números da Conib são o melhor termômetro disponível, mas medem denúncias recebidas e classificadas. Registro bruto, denúncia relevante e caso validado são medidas diferentes. Também não se sabe ao certo quanto da alta é aumento real e quanto é maior visibilidade.

8. A carta do Hamas de 1988 foi revogada pelo documento de 2017?

O documento de 2017 trocou a palavra judeus por projeto sionista. Mas manteve a recusa a reconhecer Israel, a meta do rio ao mar e a resistência armada. Líderes do grupo terrorista seguiram com libelos e incitação.

9. Que teste prático ajuda a avaliar o uso da palavra sionista como xingamento?

Se a frase, com a troca, vira preconceito clássico, como os sionistas controlam a mídia, ela já era antissemita. O critério é o conteúdo, não a filiação política de quem fala.

10. Sobre o atentado à AMIA, em Buenos Aires, qual afirmação é correta?

Um caminhão-bomba destruiu o prédio da Associação Mutual Israelita Argentina. É o atentado antissemita mais mortal contra civis fora de Israel desde o Holocausto. Esses grupos não representam os muçulmanos em geral.

Cartões de estudo

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Assista

NÃO É ALIANÇA. É ANTISSEMITISMO COM VERNIZ POLÍTICO | #CORTESLEVANTEStandWithUs Brasil

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Vídeo do Yad Vashem que explica a história do antissionismo, das objeções judaicas anteriores a 1948 à sua forma contemporânea, e mostra como a negação do direito de Israel existir e as comparações com o nazismo ultrapassam a crítica legítima e se tornam antissemitismo, na extrema esquerda e na extrema direita.

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Vídeo curto do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos que define o antissemitismo e mostra suas formas, do Holocausto aos memes, estereótipos 'elogiosos' e à negação do direito de Israel existir, alertando que o ódio começa com palavras e não deve ser ignorado.

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